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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Trilhas</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Como aprendemos a andar no mato</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Jan 2010 15:34:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Floresta]]></category>
		<category><![CDATA[Trilhas]]></category>

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		<description><![CDATA[Andar no mato a passeio não é tão natural assim para uma espécie que - metaforicamente - desceu das árvores na noite dos tempos. É uma invenção do século XIX, que ficamos devendo a um francês manco chamado Claude François Denecourt. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/A-la-Millet-Blog.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-499" title="A la Millet Blog" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/A-la-Millet-Blog.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p><strong>C</strong>aminhar no mato parece a coisa mais natural do mundo, pelo menos desde que nossos ancestrais desceram das árvores e adotaram esta postura instável, que nos condena a problemas de coluna e, em troca, libera os membros superiores para tarefas mais elevadas – como estapear mosquistos ou empunhar o telefone celular para fotografar cada passo da jornada.</p>
<p>Mas, apesar dessa aparente naturalidade, andar no mato é uma invenção recente, que talvez por isso no Brasil ainda depende de empresas especializadas e guias meio fanáticos, para apontar aos desavisados o caminho das trilhas como se elas fossem a estrada de Damasco. Basta um dia de enchente humana num parque nacional para ver o bom serviço que eles prestam. Sem seu fervor quase evangélico, as picadas estariam às moscas. Ligando geralmente o nada a lugar nenhum, elas dependem, para ter algum tráfego, da “caminhada romântica”, moda que, segundo o historiador Simon Schama, nasceu no século XIX e tem autor conhecido.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Barbizon-Blog.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-501" title="Barbizon Blog" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Barbizon-Blog.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Chamava-se Claude François Denecourt. Antes dele, só se ia ao mato para derrubar árvore, matar bicho ou fugir da cadeia. Ele mudou isso radicalmente. Denecourt foi retratato pelo literato Theophile Gauthier como “um homenzinho vestido com simplicidade, portanto um chapelão e óculos, segurando o galho de azevinho que lhe serve de bastão para subir a encosta”. Ninguém se iluda. Seu despojamento era grife, sua fantasia de “Le Sylvain”, o gênio da floresta. A Nike, a Columbia, a Patagonia e outras etiquetas do ramo só viriam aprimorar o figurino dos caminhantes muitas décadas depois.</p>
<p>Denecourt foi, basicamente, um comerciante de conhaque em Fontainebleau, nos arredores de Paris. Ferido nas guerras napoleônicas, coxeava. Embora manco, era um andarilho infatigável, treinado em marchar por anos a fio de um lado para outro na Europa, arrastado com as campanhas do imperador como soldado do 88º Batalhão de Infantaria Ligeira. Ao dar baixa, conheceu a floresta de Fontainebleau quando ela caía aos pedaços. Fora uma reserva de caça real, e passou a ser tratada como terra de ninguém na França revolucionária – mais ou menos como por aqui, à falta de governo, fazem os grileiros da Amazônia.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Fontainebleau-Floresta-Blog1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-503" style="margin: 5px;" title="Fontainebleau Floresta Blog" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Fontainebleau-Floresta-Blog1-199x300.jpg" alt="" width="199" height="300" /></a>Desmatada, defaunada e invadida, Fontainebleau sobreviveu aos tropicões da história francesa porque Denecourt promoveu sua reciclagem como lugar de passeio. Ele abriu pessoalmente 300 quilômetros de picadas na floresta. Batizou itinerários, árvores e pântanos. Transformou em refúgios rústicos as cavernas que antes tinham fama de abrigar bandidos.</p>
<p>Sua influência foi, literalmente, incomensurável. Chegou até a concepção original do Central Park em Nova York ou, para ficar mais perto, à Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Aliás, todo jardim do paisagista Auguste François Glaziou, que reinou na corte de D. Pedro II, não deixava de ser uma espécie de miniatura da Fontainebleau de Denecourt.</p>
<p>Fontainebleau, onde Deneccourt é nome de rua e tem estátua en praça pública, continua cercada por 24 mil hectares de velhos bosques, preservados desde que, no rastro de Denecourt, foram parar lá, de carruagem, os grã-finos do Império. Com eles vieram os pintores, toda uma geração pré-impressionista que arranchou no vilarejo de Barbizon, na beira do bosque, e cevou ali uma escola de paisagismo e um culto da natureza que serviu, nos Estados Unidos, para inspirar a decretação dos primeiros parques nacionais.</p>
<p>Em resumo, os guias de ecoturismo são apóstolos de Denecourt mesmo que não saibam. Como ele, acreditam que caminhar no mato não é coisa que se nasça sabendo. É algo que se aprende. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/10/30/um-curto-desvio-sem-fim/">Como todo passo civilizatório.</a></p>
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		<title>No caminho do Poço Preto</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/</link>
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		<pubDate>Mon, 18 Jan 2010 21:38:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Trilhas]]></category>

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		<description><![CDATA[O longo caminho de uma estrada problemática, até se transformar na peça-chave de um roteiro turístico que leva turistas a conhecer as cataratas do Iguaçu da melhor maneira, que é a clássica: passeando por nove quilômetros à sombra da floresta tropical que enfeita o percurso. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Samabaias_0167.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-464" title="Samabaias_0167" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Samabaias_0167.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>“<strong>S</strong>erá que vai dar para ver alguma coisa?” A pergunta, deixada pasra trás numa entonação meio infantil por um grupo que zarpava para a manhã de Ecoaventura na trilha do Poço Preto, acabou ficando no ar. O grupo foi em frente. E a resposta do guia, se lhe ocorreu dizer alguma coisa, deve ter sumido na distância, que crescia a cada passo.</p>
<p>Foi pena, porque naquele momento daria para apontar para qualquer lado e se encontrariam centenas de respostas para ela – em forma de aranhas <em>Argiopidae,</em> por exemplo. Elas cobrem nossas cabeças com um dossel suplementar de teias orbitais, formando entre as árvores uma rede de fios dourados, naquela hora em que o sol atravessava de viés a estrada ainda sombria. Havia também cogumelos em profusão, das mais variadas formas e feitios, brotando de troncos com a mesma opulência de troncos vivos ou mortos. E pássaros inumeráveis, de tudo quanto é cor, voz e tamanho, chamando a atenção ao mesmo tempo para sua presença esquiva no meio da folhagem e também para a nossa presença indébita em seus territórios.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Borboleta_32042.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-474" title="Borboleta_3204" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Borboleta_32042.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Mas a pergunta provavelmente se referia à esperança de ver coisas mais raras &#8211; ou mesmo ecoaventurosas. Algo mais trepidante que o vai-e-vem das cutias, por exemplo. Elas atravessam sem parar a velha estrada de terra roxa, como encarnações silvestres dos mais escolados vira-latas urbanos. Param na borda da pista, avaliam criteriosamente o movimento, como se estudassem o trânsito. Tudo isso naquela pose olímpica de quem está com os músculos armados, como um atleta imóvel no instante da largada. De repente, com os riscos da travessia aparentemente avaliados, elas dispararm rumo ao outro lado.</p>
<p>Ao contrário dos quatis, que escalam latas de lixo e sobem em mesas, atrás de comida humana, parecendo bandos de meninos de rua em volta de  restaurantesao ar livre nas grandes cidades da capital, as cutias do Parque Nacional do Iguaçu ainda fazem questão de mostrar que não abdicaram inteiramente à vida selvagem, apesar de todas as tentações em contrário.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cutia_31732.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-475" style="margin: 5px;" title="Cutia_3173" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cutia_31732-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Se era algo ainda mais substancial que os ecoaventureiros queriam ver, a coisa em si acabava de cruzar seu caminho, ou vice-versa, algumas centenas de metros atrás. Senão em pessoa, pelo menos como uma prova cabal de sua materialidade – deixando na pista um troféu de sua última caçada, reduzido a um bolo cinzento e cheio de pelos cinzentos, em cujos sais as borboletas azuis faziam naquele momento uma verdadeira orgia, a ponto de pousarem umas sobre as outras.</p>
<p>Sim, em bom português, o que a trilha ofereceria ali para se ver era merda fresca. Mas era do tipo que os biólogos ultimamente procuram sem parar, em investigações de campo. Um dos objetos de sua curiosidade é o excremento de grandes e médios felinos, capaz de informar muita coisa sobre a vida que eles levam. E aquele era, sem dúvida, excremento de um carnívoro grande, quem sabe uma suçuarana, dada a rarefação das onças pintadas no parque.</p>
<p>No momento, sabe-se, através de armadilhas fotográficas, da existência de seis onças lá dentro, pelo menos do lado do parque onde fica a administração. O outro ainda está para se conferir. Resta da metade da população que havia há dez anos. Em contraste com as jaguatiricas, que aparecem com freqüencia crescente nos registros fotográficos e podem estar ocupando vagas abertas pelo recuo populacional da <em>Pantera onca. </em></p>
<p><em><span style="font-style: normal;">A trilha do Poço Preto tem tradição nesse ramo. Foi nela que, em 1991, quando fazia o primeiro recenseamento sistemático das onças remanescentes no Parque Nacional do Iguaçu, <a href="http://www.oeco.com.br/petercrawshaw/84-petercrawshaw/20385-a-volta-do-guru-30-anos-depois">o biólogo Peter Crawshaw Júnior </a>acabou se envolvendo num luta corporal com uma pintada. Ele encarnava então o projeto Carnívoros do Iguaçu, um inventário das jagartiricas e onças iniciado em abril de 1990.</span></em></p>
<p><em><span style="font-style: normal;">O Carnívoros de Iguaçu deslanchou em abril de 1990. Como tema da dissertação de doutorado de Crawshaw  pela Universidade da Florida, era financiado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis &#8211; IBAMA, pelo World Wildlife Fund &#8211; US, pela Helisul Taxi Aéreo Ltda., pelo &#8220;Scott Neotropical Fund&#8221; do Lincoln Park Zoo e pela Ilha do Sol Turismo.  Seu objetivo, conta Crawshaw, &#8221; era comparar a ecologia de dois felinos de hábitos similares, mas de tamanhos diferentes, a jaguatirica e a onça-pintada&#8221;. E naquele mesmo ano se estenderia ao parque nacional del Iguazu, no lado argentino, onde a bióloga residente Silvana Montanelli coletava dados  para o seu doutorado pela Universidade de Buenos Aires. </span></em></p>
<p><em><span style="font-style: normal;">Até dezembro de 1994, segundo Crawshaw, &#8220;foram capturadas 21 jaguatiricas e 7 onças-pintadas, que foram aparelhadas com rádio-colares e monitoradas através da rádio-telemetria. Além desses animais, outros 21 carnívoros foram também capturados, incluindo: 6 quatis, 7 cachorros-do-mato, 2 jaguarundis, 1 gato-maracajá, 1 puma, 2 iraras, e 1 gato-do-mato-pequeno. A maior parte deles foi também aparelhada com rádio-transmissores.  Além das informações pioneiras sobre a ecologia e conservação dessas espécies em ambiente de Mata Atlântica, o projeto foi importante também pelo número de estudantes e profissionais que foram treinados em metodologias sofisticadas à época, como a rádio-telemetria e armadilhas-fotográficas, então ainda no início, no Brasil&#8221;.</span></em></p>
<p>Depois de terminar com tantos créditos, a experiência teve um saldo desalentador. A maioria das onças identificadas no parque por essa iniciativa pioneira morreria ao longo da década na mira de caçadores. Interrompido por mais de 10 anos, o trabalho recomeçou agora, em parte como desagravo ao <a href="http://www.oeco.com.br/reportagens/37-reportagens/21371-tragedia-anunciada-no-parna-do-iguacu">atropelamento de uma pintada em 2009 na BR-469</a>, a rodovia federal que leva às cachoeiras.</p>
<p><em><span style="font-style: normal;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cogumelo_31793.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-493" title="Cogumelo_3179" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cogumelo_31793.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a><br />
</span></em></p>
<p>A bicha caíra numa de suas armadilhas durante a madrugada. De manhã cedo – ou “às sete e meia de 31 de julho”, como ele costuma precisar, com dia, mes e hora, tantos anos depois &#8211; Crawshaw foi examiná-la em sua jaula de madeira. Ao chegar, a fera tentou avançar em sua direção. Sinal de que não iria ser fácil trabalhar com ela. Era parruda. E nervosa. Estava prenhe. E só adormeceu com o dobro da dose de anestésico recomendada para um animal de seu porte. Tinha os maiores caninos que ele mediu em sua longa carreira de especialista brasileiro em grandes felinos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Caninana_3097.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-469" title="Caninana_3097" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Caninana_3097.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Duplamente anestesiada, a onça passou pela revisão de praxe, doou sangue à ciência e ganhou em troca um colar de identificação &#8211; que seria vital em seus reencontros seguintes com Crawshaw. Terminado a rotina de avaliação, o biólgo ficou por ali, matando o tempo, à espera de que a onça acordasse, como se velasse à cabeceira de um paciente indefeso. Foi quando apareceu na trio um trio de observadores de pássaros. “Um escocês e um casal de americanos”, ele especifica.</p>
<p>Crawshaw morava naquela época num alojamento de pesquisa instalado bem no começo da trilha do Poço Preto, uma estrada rústica de quase nove quilômetros, que desemboca margem direita do rio Iguaçu, junto a uma lagoa natural e diante de um largo remanso, acima das cataratas. O Poço Preto propriamente dito fica dentro do rio, no ponto onde ma falha geológica aumenta drasticamente sua profundidade para 27 metros &#8211; ou seja, decuplica-a &#8211; tornando mais escuras as águas cor de terra. Mas isso só se percebe em sobrevôos de helicóptero.</p>
<p>Era raro, na época, aparecerem turistas por ali, quando o Poço Preto ainda não se incorporara de pleno direito aos roteiros alternativos do parque nacional, num esforço da administração para espalhar as multidões que as altas temporadas concentram nos 1.200 metros da trilha das cachoeiras, como se percorressem o corredor de um shopping em vésperas de Natal. Ao tropeçarem num espetáculo natural tão mais trepidante que o habitual, os observadores de pássaros passaram a observar o trabalho de Crawshaw.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Jacaré_32121.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-481" title="Jacaré_3212" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Jacaré_32121.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Estavam no quilômetro dois e meio da estrada, onde a essa altura a onça ainda dormia, fora da jaula. Durante muito tempo, essa estrada foi uma assombração para os técnicos que urdiam planos de manejo para o parque, recomendando a erradição de todas as marcas anteriores de invasão. O caminho do Poço Preto era uma delas, e só teve o futuro assegurado pelo projeto de revitalização que, no fim da década de 1990, designou-o como Zona Primitiva, submetida no passado a &#8220;mínima intervenção humana&#8221; e daí para a frente encarregou-o de &#8220;atrair público mais diversificado, diminuir a pressão atual da visitação sobre as cataratas e melhorar a imagem do parque, oferecendo novas fronteiras de uso público&#8221;.</p>
<p>Em outras palavras, aumentar o uso do parque, reduzindo ao mesmo tempo o impacto das multidões apressadas, pisoteando sempre os mesmos percursos diante das cachoeiras. A implantação de trilhas “com infraestrutura de apoio à visitação” nas antigas vias do parque _ além do Poço Preto, entraram nessa receita as estradas do Rio São João, da Linha Martins, da Onça e da Ilha do Cavalo – acabou sendo <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/12/30/de-olho-na-moldura-das-cataratas/">uma dessas táticas de dispersar os visitantes</a>. Implantou-se como um dos serviços turísiticos terceirizados, que a empresa Macuco Safari opera no Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cipó_32032.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-482" style="margin: 5px;" title="Cipó_3203" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cipó_32032-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a></p>
<p>Em 1991, nada disso existia. E Crawshaw lamenta até hoje não ter enxotado dali, sem maior cerimônia, os observadores de pássaro da área restrita em que estavam. Porque, assim que a onça abriu os olhos, ele viu a inglesa ajoelhar-se diante da fera para fotografá-la. “Eu já tinha dito para meu pessoal que estava lá para não chegar mais perto dela, porque já estava com a pupila dilatada, sintoma de que iria se levantar em poucos instantes&#8221;, ele recorda.</p>
<p>Mas o <em>flash</em> chegou primeiro que seu grito de advertência. “Não deu tempo para mais nada”, ele conta. Só de pular entre a onça e a turista. “E ainda bem que, ao se erguer, ela escorregou. Porque a inglesa também, no susto, tropeçou no barro vermelho de Iguaçu e caiu de costas&#8221;, conta o biólogo.  A onça ficou de pé, e pegou Crawshaw pela cabeça. As unhas lhe dilareraram o  couro cabeludo. Os ossos de seu polegar racharam entre os dentes do bicho, cujo focinho ele tentava manter o mais longe possível de sua cara.</p>
<p>Mas, para tornar breve <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/02/03/a-nova-geracao-gosta-de-oncas/">uma história que a rigor nunca mais terminou</a>, basta dizer que o corpo-a-corpo custou-lhe um bom tempo de convalescença. Nem por isso Crawshaw parou de lidar com onças – inclusive com aquela mesma do encontrou no Poço Preto. Uma noite apareceu em sua casa, no meio da noite, a matou-lhe o cachorro. Mais tarde, foi recapturada. Crawshaw descobriu então que ela havia perdido sabe-se lá como seus dois formidáveis caninos. &#8220;Estava tudo infeccionado&#8221;, dia ele. A fera se reduzira a uma predarora de animais domésticos. Habituara-se a rondar casas e hotéis. E, depois de tratada, foi transferida para o zoológico de Sorocaba. Depois, recrutada para uma tentativa de repovoamento do parque de Ilha Solteira, em São Paulo, onde um dia Crawshae foi visitá-la.</p>
<p>Peter Crawshaw morou no Poço Preto quando ecoaventura era substantivo comum e queria dizer outra coisa. Hoje, dá nome a um passeio tranqüilo, com direito fazer parte do percurso em bicicletas de aluguel e, no Iguaçu, embarcar de volta num barco que costeia as ilhas do rio, com direito a ver jacarés nas margens. Tudo sem sair de bordo, aos cuidados de um piloto que parece saber exatamente onde encontrar todos os bichos incluídos no programa.</p>
<p>O Poço Preto só não cumpre é a promessa a promessa de desafogar as cataratas. Mais de dez mil pessoas passaram pelo Parque do Iguaçu no segundo fim-de-semana de 2010, que promete ser um ano de recordes na bilheria. Cem visitantes, no máximo, foram experimentar a trilha. Podem não ter visto o que viram os três observadores de pássaros. Mas no mínimo saíram do Iguaçu sabendo o que todos os outros estão perdendo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Trilha_0165.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-483" title="Trilha_0165" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Trilha_0165.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
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		<title>No meio do caminho, um atalho sem fim</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Oct 2009 17:48:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Patagônia]]></category>
		<category><![CDATA[Trilhas]]></category>

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		<description><![CDATA[A história de como se pode botar o pé nas trilhas de Bariloche meio por acaso e descobrir pelo mundo afora caminhos alternativos que atravessam a vida inteira em sola de sapato. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_234" class="wp-caption aligncenter" style="width: 419px"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Jakob_5876.jpg"><img class="size-full wp-image-234     " title="Jakob_5876" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Jakob_5876.jpg" alt="Lago do Refúgio Jakob " width="409" height="264" /></a><p class="wp-caption-text">Lago do Refúgio Jakob </p></div>
<p>_ <em>Por la ruta o por los bosquecillos?</em></p>
<p><strong>A</strong> pergunta do cabineiro argentino, no teleférico do Cerro Otto, nos pegou com um pé atrás. Da estação em cima da montanha se via a cidade de San Carlos de Bariloche, cintilando na beira do lago Nahuel Huapi. Chamava para um passeio. E o caminho? A resposta foi esse dilema em castelhano. Havia a estrada e os tais bosquezinhos.</p>
<div id="attachment_235" class="wp-caption aligncenter" style="width: 425px"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Challhuaco_5798.jpg"><img class="size-full wp-image-235    " title="Challhuaco_5798" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Challhuaco_5798.jpg" alt="Flores de amancay no bosque de Challuaco" width="415" height="276" /></a><p class="wp-caption-text">Flores de amancay no bosque de Challuaco</p></div>
<p>Pelos <em>bosquecillos, </em>a estrada pedregosa e poeirenta passava no meio da primeira curva para dentro de um furo na paisagem, resvalando pelas pistas de esqui nórdico da velha escola do Cerro Otto, a inventora dos esportes de neve na Argentina. Deixava do lado de lá o panorama do Nahuel Huapi e as encostas que já não eram mais aquelas das fotografias de meio século atrás, quando na primavera desenrolavam suas ladeiras de margaridas até a beira do Centro Cívico, dentro da cidade.</p>
<p style="text-align: left;">Do lado de cá, o cenário continuava intato. Era fevereiro, alto verão na Patagônia, com o sol ligado mais de 15 horas por dia. O ar continha altos teores de resina e madeira. O verde parecia bêbado de luz. Ela descia coada, filtrando-se nos ramos das lengas<em>, </em>velhas faias nodosas que no sul da Argentina armam sobre a mata clarabóias feitas de estilhaços de verde translúcido, como as do Tiffany. Sob este céu reticulado, o chão parecia incandescente, aceso pelo reflexo azulado que subia do lago Gutierrez, ao pé do morro. Cada folha escancarava sua aura e o fundo da trilha fundia-se nos tufos amarelos das flores de <em>amancay.</em></p>
<div id="attachment_236" class="wp-caption alignnone" style="width: 425px"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Amancays_6127.jpg"><img class="size-full wp-image-236    " title="Amancays_6127" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Amancays_6127.jpg" alt="Flores de amancay nas trilhas do monte Otto" width="415" height="276" /></a><p class="wp-caption-text">Flores de amancay nas trilhas do monte Otto</p></div>
<p>Começou ali, meio por acaso, uma caminhada de vinte e tantos anos pela borda dos Andes. As trilhas do Cerro Otto, quase encravadas num bairro residencial de Bariloche, eram a ponta de um labirinto de veredas que faz do Nahuel Huapi um parque nacional quase sem fim. Seus caminhos ligam riachos potáveis a montanhas de picos escultóricos, costeando vales ainda incubados em geleiras. Cruzam todas as cores possíveis da água, que no colégio aprendemos a chamar de incolor_ água verde, água cobalto, água esmeralda. Costeiam lagos.</p>
<p>Tantos lagos que, no fim do século passado, a comissão argentina que demarcava a fronteira com o Chile enjoou de batizá-los. Punha-lhes números. Um lugar desses podia ser puro desperdício para os pioneiros que ali chegaram cento e poucos anos atrás com intenções agrícolas ou comerciais. Mas se tornou estratégico para a economia da cidade na década de 1930, quando ela fisgou outro tipo de imigrantes europeus.</p>
<div id="attachment_241" class="wp-caption aligncenter" style="width: 425px"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Tronador_6221.jpg"><img class="size-full wp-image-241  " title="Tronador_6221" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Tronador_6221.jpg" alt="Tronador_6221" width="415" height="276" /></a><p class="wp-caption-text">Alto verão nas geleiras do Tronador</p></div>
<p style="text-align: left;">Gente como Otto Meiling, o operário alemão que desceu na cidade da caçamba de um caminhão, olhou os picos nevados em volta e nunca mais fez outra coisa na vida além de palmilhá-los. Naquele tempo, a colônia rural havia gorado e o parque ecológico era ainda uma fantasia burocrática. Meiling, que escalou até à véspera dos 80 anos, foi quem ensinou Bariloche a calçar esquis, aclimatou o alpinismo nos Andes _ instituindo o andinismo, um esporte nativo.</p>
<p>Ele era quase um ermitão. Octogenário, ainda rachava lenha a machado à porta de seu chalé, a meio caminho entre a base e o pico do Cerro Otto. Mas subverteu Bariloche como um agitador recluso. Antes dele, as montanhas ficavam nos fundos da cidade. Eram barreiras ao comércio e ao plantio. Depois, passaram a ser mais do que sua vista. São o seu sustento.</p>
<div id="attachment_238" class="wp-caption aligncenter" style="width: 425px"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Goye_5851.jpg"><img class="size-full wp-image-238    " title="Goye_5851" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Goye_5851.jpg" alt="Arroio Goye, no caminho do Laguna Negra" width="415" height="276" /></a><p class="wp-caption-text">Arroio Goye, no caminho do Laguna Negra</p></div>
<p>Principalmente, a geração de Otto Meiling criou o Clube Andino Bariloche, uma instituição singular na América Latina. Por fora, parece um chalé modesto encostado num canto da cidade. Por dentro, tem 5.570 quilômetros quadrados – ou seja, todo tamanho do parque, um território quatro vezes maior do que o município de São Paulo, todo costurado por sendeiros e refúgios de alta montanha. Os segredos do Nahuel Huapi estão guardados nos mapas do Clube Andino. É neles que ficam, oara começo de conversa, picadas para o Emílio Frey, um refúgio de escaladores fincado sobre o Cerro Catedral, diante de uma laguna coroada por uma tiara de agulhas geométricas, com pontas tão claras e lapidadas que até a lua tira faíscas de suas arestas.</p>
<p>Há também o refúgio San Martín, na beira da laguna Jakob, escondido ao fim de uma picada com 20 quilômetros de solidão praticamente garantida, exceto pela companhia constante do arroio Casa de Piedra, um riacho espumante de água azul. Ou o Manfredo Segre, áspero bunker de cimento debruçado na estupenda laguna Negra. Verão adentro, bóiam em suas águas escuras <strong>icebergs</strong> quase fosforescentes. E o Otto Meiling, um abrigo vermelho de lata  pendurado a dois mil metros de altitude sobre os glaciares do Cerro Tronador. Pela janela dos fundos, parece escorrer para dentro da sala de almoço a montanha de gelo que separa a Argentina do Chile e modela nesses países, com suas avalanches eternas, a topografia de dois parques naturais.</p>
<div id="attachment_239" class="wp-caption aligncenter" style="width: 425px"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Refúgio-Meimling_6241.jpg"><img class="size-full wp-image-239    " title="Refúgio Meimling_6241" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Refúgio-Meimling_6241.jpg" alt="Refúgio Otto Meimling no monte Tronador" width="415" height="264" /></a><p class="wp-caption-text">Refúgio Otto Meimling no monte Tronador</p></div>
<p>Rústicos, descascados, para lá de monásticos, são prodigalidades do Club Andino esses refúgios do Nahuel Huapi. Neles se dorme por meia dúzia de pesos e se come por alguns trocados, inigualável pechincha quando o sal, o ovo da omelete, massa do macarrão ou a carne do bife à milanesa subiram até à mesa na mochila do concessionário. Como, aliás, acontece com tudo o que se vê lá dentro:  a lata de cerveja, o biscoito, a barra de chocolate, o colchão do beliche, a lenha do aquecedor, o bujão de gás da cozinha, os vidros da janela e até o material de construção, como as caixas de cimento das fossas assépticas que, pesando cada uma sessenta quilos, inauguraram poucos anos atrás no refúgio Frey o luxo inédito de um banheiro com portas.</p>
<p>Essa rede de abrigos abre oficialmente no verão, entre o degelo de um ano e as primeiras nevascas do ano seguinte. E a rigor não fecha nunca, seja porque os encarregados resolvem ficar depois que o último turista foi embora e tudo o que a vista alcança em volta de casa é uma pista de esqui informal, mas privativa, ou porque, mesmo vazios, com as chaves do lado de fora, continuam à disposição de quem for capaz de encontra-los enterrados na neve.</p>
<div id="attachment_240" class="wp-caption aligncenter" style="width: 436px"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Tronador_6266.jpg"><img class="size-full wp-image-240     " title="Tronador_6266" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Tronador_6266.jpg" alt="Sol de verão na geleira do Tronador" width="426" height="284" /></a><p class="wp-caption-text">Sol de verão na geleira do Tronador</p></div>
<p>Essa Patagônia que começa em Bariloche e vai acabar no extremo sul do Continente tem o nome, mas não a aparência das estepes desoladas que o naturalista Charles Darwin colou para sempre na imaginação de aventureiros. Ali, nos Andes, a Patagônia é um lugar de fiordes, vulcões, selvas úmidas em clima temperado e lagos opalinos, onde derretem os gelos centenários que escorrem lentamente das montanhas.</p>
<p>Mais que um lugar no planeta, essa Patagônia é uma era geológica, relíquia da última glaciação que moldou a terra cerca de 20 mil anos atrás e, soprada pelos ventos meridionais que até hoje desafiam navegadores no sul do continente, só ali ainda não acabou de se dissolver. Retardatária, ela mantém em cartaz, num mundo acuado por ultimatos da natureza, o espetáculo da criação. É um dos raros cantos do mundo que ainda não ficou pronto. Portanto, não começou a apodrecer.</p>
<div id="attachment_242" class="wp-caption aligncenter" style="width: 425px"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Challuaco.jpg"><img class="size-full wp-image-242    " title="Challuaco" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Challuaco.jpg" alt="Nevasca de verão chegando ao Challuaco" width="415" height="277" /></a><p class="wp-caption-text">Nevasca de verão chegando ao Challuaco</p></div>
<p>Às vezes, ela parece andar para trás. Há 80 anos, a família Vereertbrughen se plantou aos pés do monte Tronador, no coração do Nahuel Huapi. Ergueu uma estância em terras sem dono e agora toca uma hospedaria nos confins do parque nacional. Ao chegar, chamou a propriedade de Pampa Linda. Nomes assim costumam pecar pelo adjetivo. Pampa Linda, não. Ela é notoriamente linda, mas não é pampa. O substantivo foi se tornando incompreensível, à medida que a casa construída em campo aberto pelos Vereertbrughen mergulhava gradualmente num espesso bosque de <em>lengas.</em> Em três gerações da família, o glaciar recuou e a floresta avançou sobre seu leito de pedras.</p>
<p>Há 15 parques e reservas naturais entre a Argentina e o Chile, nos três mil quilômetros austrais da cordilheira. E quem começa a andar em Bariloche dificilmente pára antes de botar mais cedo ou mais tarde o pé no Parque Nacional de los Glaciares, reserva da maior coleção mundial de geleiras. São, pelo menos, 47, alimentando lagos de água turquesa com poliedros de gelo azul.</p>
<div id="attachment_243" class="wp-caption aligncenter" style="width: 425px"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Tronador_6270.jpg"><img class="size-full wp-image-243    " title="Tronador_6270" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Tronador_6270.jpg" alt="O primeiro sol do dia nas encostas do Tronador" width="415" height="276" /></a><p class="wp-caption-text">O primeiro sol do dia nas encostas do Tronador</p></div>
<p>Mas é principalmente para as montanhas que apontam seus 200 quilômetros de trilhas. Lá fica o Cerro Torre, aquele obelisco de três mil metros, esguio e liso, que estrelou o filme <strong>No Coração da Montanha</strong>, de Werner Herzog. E o FitzRoy, imensa prova concreta de que existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a vã geologia. Para quem o vê da picada, brilhando por horas a fio no horizonte, o FitzRoy não parece propriamente uma montanha, e sim uma constelação de torres luminosas. É vermelho ao nascer do sol, azul em contraluz, prateado depois das nevascas. As nuvens parecem atravessá-lo como fantasmas.</p>
<p>Caminhando bem, pode-se liquidar a descida do Cerro Otto em menos de duas horas. Mas a picada, que parte de uma confeitaria giratória no alto da montanha e acaba onze quilômetros abaixo num posto de gasolina, levou-nos a um desses desvios que, uma vez na vida, cruzam as portas de um mundo paralelo. Aí, o passeio dura muitos anos. Talvez dure a vida inteira. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/20/como-se-aprende-a-andar-no-mato/">Tudo depende de acertar na escolha entre a estrada e os bosquezinhos</a>, como diria o cabineiro do teleférico, se em vez de ensinar atalhos fosse homem de provérbios.</p>
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