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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Parque Nacional</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Quem nasce Manu não vira Bambi</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Nov 2010 18:29:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Manu, uma corça encontrada no parque do Iguaçu com dois dias de idade, depois de atacada por um predador, resolveu aprender sozinha a viver no mato. E o os biólogos que a adotaram só podem lhe dar apoio. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2125.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1314" title="_MG_2125" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2125.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p><strong>P</strong>ara fazer em documentário o que Bambi fez em desenho animado, Manuela só falta falar. O resto das credenciais para lhe tomar o papel ela tem de sobra. Desde a pelagem cor de ferrugem, salpicada de manchas claras, que pode ser feita para disfarçar sua presença entre folhas secas, mas brilha nas telas como enxoval de lamê. Até a orfandade. Em seu caso, por sinal, mais precoce que a de Bambi.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2144.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1315" title="_MG_2144" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2144.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Mas falar ela não fala. E só por isso Bambi não precisa temer a concorrência. No reino dos animais lacrimogêneos, ele continua imbatível. Manuela – ou melhor, Manu – é só uma corça. Um filhote ao mesmo tempo frágil e rústico de veado mateiro, ou <em>Mazama americana</em>. Está agora no segundo mes de vida.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2176.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1316" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="_MG_2176" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2176.jpg" alt="" width="273" height="409" /></a>Ela trazia ainda na barriga um  fiapo seco de umbigo, que cai no máximo em tres dias, quando foi achada em 25 de outubro por guias turísticos. Presume-se, pelo umbigo, que tivesse dois dias de idade, no máximo. Estava ferida, com sinais de que andara roçando a goela de um predador. Talvez uma irara, que lhe deixara duas marcas de dentes. Mas nenhuma cicatriz nem ferida mais profunda.</p>
<p>Ela apareceu sozinha em local meio habitado, perto da oficina que aluga bicicletas para as pedaladas do Macuco Safari até o Poço Preto. Da oficina ao Poço Preto são quase dez quilômetros de floresta, por um caminho de terra que os anos vão estreitando, em vez de alargar. O caminho passa no verão sob um túnel praticamente contínuo de copas altas, bromélias, cipós e lianas. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/">No outro extremo, parece atualmente ermo e remoto.</a></p>
<p>Mas não foi sempre assim. Há fotografias da década de 1920 em que o Poço Preto serve de pátio a carros de passeio, com vastas grades cromadas e pneus de banda branca. Saídos dos porta-malas, motores de popa e galões de combustível anunciam a intenção de vencer as corredeiras do rio Iguaçu, logo acima das Cataratas. Era uma fase em que os domingos das Cataratas eram de muita festa para poucos.</p>
<p>Trechos do caminho costeavam cercas de arame farpado. Um promotor tinha casa de<a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2241.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1317" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="_MG_2241" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2241.jpg" alt="" width="273" height="409" /></a> campo na beira do rio, onde atualmente só existe um caramanchão de madeira com teto de sapé e um ancoradouro flutuante. Uma placa informa que as instalações de apoio ao turismo na trilha tiveram que se ajustar à constatação de que o lugar é sítio arqueológico, com restos de cerâmica indígina. Mas até hoje resistem de pé nas suas margens postes de concreto, que o musgo camuflou entre os troncos nativos. Dizem que as cutias acabaram tomando gosto por essas tocas sextavadas.</p>
<p>Melhor para elas. Parque nacional não é só natureza intata, muito menos imutável. Também é lugar aonde se vai para voltar no tempo e, com sorte ou boa administração, ver antigos erros ficarem para trás. Há trinta e tantos anos, quando naquelas terras do governo moravam mais de 400 pessoas, havia fazendas de gado e o hotel das Cataratas mantinha um pequeno zoológico no gramado, Manuela dificilmente escaparia de uma jaula – ou até da grelha. Havia caçador vendendo carne de veado na estrada das Cataratas.</p>
<p>Isso mudou. Há outro tipo de gente em atividade lá dentro. Os guias que encontraram a pequena corça ferida confiaram Manu em regime de urgência a estagiários do Carnívoros do Iguaçu, que fazem o recenseamento dos grandes predadores do parque. E o que tem pesquisadores de carnívoros a ver com corça ferida? Tudo. São biólogos. Voluntários da conversação.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2283.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1318" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="_MG_2283" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2283.jpg" alt="" width="289" height="409" /></a><a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/04/21/766/">Os coordenadores do projeto Carnívoros</a>, além de formar o núcleo da equipe, formam um casal acostumado a ter hóspedes em casa das mais variadas espécies. Eles cruzaram o caminho das onças vindos de direções opostas. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/">A bióloga Marina Xavier da Silva se instalou no parque há mais de seis anos</a>, para trabalhar com proteção da fauna por uma ONG que mal conseguia salvar a si mesma da extinção. O biólogo Alexandre Vogliotti chegou ao Iguaçu, seguindo os rastros de sua tese de doutorado sobre cervídeos.</p>
<p>Acabaram juntos em tudo &#8211; casa, esccritório e mato. Cuidam do Carnívoros e de Manu com se tudo isso fosse, como é, uma coisa só. De quebra, a corça caiu nas mãos de um especialista em cervídeos. O nome Manu, aliás, homenageia uma sobrinha de Vogliotti, que mora no Acre e tem dois anos de idade.</p>
<p>A corça passou lepidamente pela convalescença, num quarto da casa onde eles moram, no meio do mato, sem vizinho próximo, beirando o rio Iguaçu. Nos primeiros dias, quando Marina e Alexandre saíam para trabalhar, ela ia junto. Ocupava durante o dia um cercado na sede do parque. A administração parava para para visitá-la.</p>
<p>Terminado o expediente, a família voltava para casa, às vezes pela picada, Manu seguindo seus passos. Em casa, ela espalhava aos saltos pelo jardim, esticando os . s músculos. Nessas ocasiões, ensaiava escapulir pelo portão, sempre escancarado. A floresta estava bem ali, a poucos passos, chamando.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2290.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1319" title="_MG_2290" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2290.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Há semanas, Manu saiu no fim da tarde e não reapareceu para dormir. Tinha mudado de endereço. Mora agora perto do casal. Mas fora de suas cercas. Na noite em que escapou, Marina achou-a alojada na folhagem, junto à velha estrada com calçamento de pedra bruta que desce da administração até a margem do rio Iguaçu. Tudo por sua conta e risco, como manda o figurino dos filhotes de <em>Mazama americana.</em></p>
<p>Desde então, Manu visita duas vezes por dia a casa de Marina e Alexandre. Vai em busca de suas doses diárias de mamadeira, consumindo em média um litro e meio de leite de vaca, enriquecido com ração para gatos recém-nascidos. Cada vez mais, mistura essa dieta com folhas que vai aprendendo sozinha a escolher no mato. Uma vez alimentada, brinca com os pais adotivos. E ao acair da noite sai em busca de sua própria vida.</p>
<p>Antes de tomar esse rumo, ela estava mais ou menos condenada a passar o resto da vida em cativeiro, tão logo ultrapassasse a fase do desmame. Parecia impossível readaptar à floresta uma corça que se desligara tão cedo da mãe. Mas ela pelo visto tem outras planos. E sua reinserção na vida silvestre começa a virar mais um tema de estudos no caderno de Vogliotti.</p>
<p>Onde tudo isso vai dar nem ele sabe. Não é roteirista de desenho animado para fabricar um final feliz para seu personagem. Manu optou pelo risco. Os pais adotivos não tiveram outra escolha além de apoiá-la nessa escolha instintiva. Em parque nacional ninguém é dono de nada. Muito menos das vidas que salva.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_20911.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1321" title="_MG_2091" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_20911.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
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		<title>Morta, a estrada do Colono se move</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/06/05/a-estrada-do-colono-morreu-mas-se-mexe/</link>
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		<pubDate>Sun, 06 Jun 2010 00:46:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Código Florestal]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação Ambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[O desembargador Álvaro Eduardo Junqueiro, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. corre o risco de reavivar uma velha briga, a título de promover a conciliação entre as partes. Seria melhor ouvir só os argumentos de quem quer a reabri-la.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Estrada-do-Colono_33311.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-941" title="Estrada do Colono_3331" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Estrada-do-Colono_33311.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p><strong>O</strong> desembargador Álvaro Eduardo Junqueira, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, está retomando no Oeste do Paraná a velha conversa sobre a Estrada do Colono. Louve-se o seu senso de oportunidade. O assunto sai da gaveta bem na hora em que o Conselho Nacional de Meio Ambiente resolveu entregar às populações tradicionais e pequenos agricultores as terras ilegalmente devastadas em áreas de preservação permanente, uma sentença acaba de declarar extinto o Parque Nacional de Ilha Grande e o Congresso se prepara para adaptar o Código Florestal ao gosto de quem o descumpriu frontalmente.</p>
<p>O momento, portanto, não poderia ser mais propício para botar na roda dos enjeitados o Parque Nacional do Iguaçu, que a Estrada do Colono corta no melhor pedaço, a parte em que a floresta foi declarada “intangível”. Mas se o que ele pretende é mesmo promover a “conciliação entre as partes”, cumprindo uma decisão unânime do Tribunal em Porto Alegre, o método que escolheu vai dar briga na certa..</p>
<p>Ele começou ouvindo exclusivamente os municípios que já manifestaram, mais de uma vez, pela invasão dessa unidade federal de conservação, sua opinião sobre o assunto. De cara, o desembargador federal municipalizou uma questão federal. E ainda aproveitou para contar que morou em Foz do Iguaçu, mantem com a região laços afetivos e reconhece a importância da estrada para sua gente.</p>
<p>Pelo cheiro, ele acendeu um fósforo para examinar um vazamento de combustível. Se era para conciliar uma parte só, o desembargador nem precisaria sair de Porto Alegre. Bastava ler atentamente, em seu gabinete, os argumentos em favor da reabertura. Se um deles ficar de pé sozinho, está resolvida a parada.</p>
<p>O problema é que eles são contraditórios ou implausíveis. Por exemplo, quando que aqueles 17,6 quilômetros rasgados na mata se assentam sobre uma picada aberta pelos  colonos catarinenses e gaúchos, ao chegarem ao Paraná na década de 1940. A essa altura, o parque já existia. Mas a estrada seria patrimônio histórico dos povoadores.</p>
<p>Se é, passou por ali uma raça de gigantes, capaz de atravessar florestas em linha reta, coisa que nem os elefantes costumam fazer na selva equatorial. Quem faz isso é linha telegráfica ou máquina muito poderosa. No caso, a máquina de corrupção política que impulsionou foi a do governo Moisés Lupion, que abriu passagem com os tratores para a especulação com terras devolutas, onde o lucro por alqueire chegou a bater em 6.684%. Era tão bom negócio que o governador titulava glebas umas sobre as outras.</p>
<p>Foi contra essa “psicose titulatória”, como disse o historiador paranaense Ruy Christovam Christovam, que se levantaram os colonos, numa série de rebeliões com mortios e feridos, entre 1957 e 1961. Na época, eles reagiram a bala aos grileiros fabricados por Lupion, que lhes queriam vender à força o que eles, na prática, já possuíam.</p>
<p>Tamanha foi a bagunça fundiária que, mais de 20 anos de decretado o parque, um advogado vendeu lá dentro lotes suficientes para criar, na floresta do governo federal, quatro vilarejos agrícolas, com luz elétrica, serrarias, porcos, bois, campo de futebol, duas escolas estaduais, ônibus, igreja, clube e cemitério. Os compradores de papéis falsos e baratos só saíram do parque em 1975, ao serem transferidos para lotes maiores em 1975.</p>
<p>Se é esse o passado que o Caminho do Colono quer preservar, o que o desembargador está correndo o risco de reabrir não é uma estrada, mas uma chaga.</p>
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		<title>Maio se despede com ótimas notícias</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/05/28/maio-se-despede-com-otimas-noticias/</link>
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		<pubDate>Sat, 29 May 2010 02:11:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Está acabando um mês de maio espetacular no Parque Nacional do Iguaçu. O  rio estava cheio, o clima ameno, o céu mais colorido ao entardecer e a mata cheia de frutas tirou os animais da sombra. É o tipo da coisa para deixar saudades
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Veado_6689.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-919" title="Veado_6689" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Veado_6689.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p><strong>O</strong> único defeito de maio é que, como todo mês, ele um dia acaba. Maio de 2010 foi no Parque Nacional do Iguaçu uma temporada para ninguém botar defeito. Fora a convocação de Pança para prestar serviços à conservação das onças-pintadas, com um rádio-colar no pescoço e a missão de mostrar a quantas anda sua espécie, o rio encheu acima de qualquer expectativa, a temperatura escaldante do verão caiu de repente abaixo dos 15 graus centígrados, e com elas as folhas amarelas do outono, como convém a esta floresta estacional semidecídua, a típica mata tropical do planal paranaense.</p>
<p>No ar mais frio, a névoa levantada pelas quedas custava a se dissipar. Amanhecia ancorada na copa das árvores, em forma de névoa. Caía do céu azul como pingos de chuva. E esticava os últimos raios do sol nos fins de tarde com poentes espetaculares. O rio Iguaçu podia estar barrento ou claro que, sob essa luz filtrada na poeira d’água, pouco antes de escurecer as cataratas se avermelhavam.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Cotia_6757.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-920" title="Cotia_6757" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Cotia_6757.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>O chão, de quebra, encheu-se de frutas silvestres. Caminhar pelas trilhas sabendo que todas elas têm apelido, nome científico, sabores e cheiros, todos desconhecidos, virou o passatempo predileto de quem se dispõe a aprender, pelo menos, até que ponto chega sua vasta ignorância. Dava inveja dos bichos. Eles sim, animais racionais, detentores de informações indispensáveis para tirar o melhor proveito possível da estação.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Quati_6546.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-921" title="Quati_6546" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Quati_6546.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Havia mais pássaros nas árvores. As cotias – que o inglês Gerry Durrell considerava uma das criaturas mais estressadas do planeta, trocaram pela gula uma parte da timidez e tomaram decisões temerárias, como sair em campo aberto por conta da fartura de comida espalhada pela relva dos acostamentos.</p>
<p>Os quatis – que, a fauna nativa nos perdoe, mas só perdem para os mosquitos e os turistas, quando vêm em nuvens, o título de maiores chatos do Iguaçu – passaram a achar tanta novidade comestível na margem da BR-469 voltada para o mato que deixaram de atravessá-la, para pedir restos de sorvete, refrigerante e sanduíches aos outros fregueses habituais das lanchonetes, na trilha das Cataratas.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Iguaçu_67761.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-923" style="margin: 5px;" title="Iguaçu_6776" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Iguaçu_67761.jpg" alt="" width="312" height="454" /></a>De repente, famílias inteiras de quatis – e elas são numerosas, porque a oferta artificial de alimentos está ajudando a produzir ninhadas cada vez maiores – fuçavam o chão com a atenção e o discernimento de porcos do Piemonte em busca de trufas brancas. O quê? Só perguntando a eles. Ninguém, no parque, sabia dizer o que eles desencavam e devoram com tamanha sofreguidão. Mas eles, sem dúvida, sabem.</p>
<p>Alguma coisa na terra orvalhada dia e noite pela bruma das cachoeiras devia ser irresistível, porque excepcionalmente eles não queriam saber de mais nada. Por um fim de semana, pelo menos, no outono de 2010, foram os turistas que correram atrás deles. E olha que turista é um bicho distraído. Tanto que, no domingo, 23 de maio, dia de feriadão na Argentina, com mais de seis mil visitantes passando pela bilheteria do parque, quase ninguém levantou o dedo para apontar o veado mateiro que saiu da floresta às quatro e pouco da tarde, para provar a vegetação rasteira do barranco que costeia a BR-469.</p>
<p>E lá ficou ele, tranqüilamente, diante das escadas que levam ao elevador do salto Floriano, o lugar mais freqüentado em todo o circuito das Cataratas. Como se não passasse por ele naquele instante, do outro lado da pista, uma procissão contínua de visitantes. Se, além de ver as quedas, eles quisessem saber para quê serve mesmo um parque nacional como o do Iguaçu, a resposta esteve ali, por mais de dez minutos, para quem quisesse ver. Um parque nacional é para os seres nativos se sentirem em casa.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Fora da Copa, Argentina dá banho</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/05/28/fora-de-campo-a-argentina-deu-banho/</link>
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		<pubDate>Sat, 29 May 2010 02:01:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Num drible espetacular, os argentinos fizeram chegar a Foz do Iguaçu um veto da câmara de deputados ao projeto de fazer shows de luz e som à noite nas Cataratas. E eles têm poder de sobra para isso.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Mulher-na-ponte_9798.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-915" title="Mulher na ponte_9798" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Mulher-na-ponte_9798.jpg" alt="" width="454" height="320" /></a></p>
<p><strong>A</strong>inda bem que Copa ainda não começou. Porque a Argentina acaba de dar no Brasil um drible magistral. Fez chegar a Foz de Iguaçu na semana passada, com o timbre oficial da “Cámara de Diputados de la Nácion”, o resultado de uma votação que reprova “o projeto de criar um show de luzes e som nas Cataratas do Iguaçu”.</p>
<p>O projeto é brasileiro. Nasceu em Foz por iniciativa do prefeito Paulo Mac Donald. Não é de hoje que ele propõe um novo turno de visitação no parque nacional, que abriria às portas de noite para o espetáculo. Sua idéia é projetar na espuma branca da Garganta do Diabo a saga dos colonos que ocuparam o Oeste paranaense em meados do século passado, quando o parque já existia, perdido no mato desde 1939.</p>
<p>Se a história da colonização fosse encenada com o mínimo de realismo, teria que incluir a epopéia dos títulos de terra grilados, o faroeste das questões fundiárias resolvidas a tiro de jagunço, a aventura de um ex-governador fugindo do país para não ser preso por vender o que não era seu e, sobretudo, o ato fulgurante das queimadas, que aliás tem uma aptidão inata para essas coisas de luz e som.</p>
<p>Ultimamente, a campanha ganhou mais eloqüência, porque as Cataratas concorrem a um lugar – por sinal, merecido, ou mesmo irrecusável – entre as sete maravilhas naturais do mundo. Mas, há seis meses, o show era conversa de botequim. A decisão dos deputados em Buenos Aires data de novembro do ano passado. Desde então, pos um ponto final na proposta, em três sucintas linhas. E o que os deputados argentinos têm a ver com isso?</p>
<p>Tudo. Primeiro porque do lado de lá ficam mais de dois terços das Cataratas. Ou todo o anfiteatro de quedas que os turistas vêem quando passeiam pela trilha da margem brasileira, até poderem olhar para estas bandas no fim da linha, quase na boca da Garganta do Diabo. São argentinos praticamente dois quilômetros de saltos, quando o rio Iguaçu está cheio.</p>
<p>Ali, a linha imaginária da fronteira que corre pelo fundo do cânion não separa os dois países. Costura-os. Tudo o que acontece de um lado afeta diretamente o outro. Os argentinos, que foram os primeiros a ter nas Cataratas um parque nacional, ergueram há décadas passarelas de concreto sobre as águas, beirando o abismo. Uma enchente levou-as.</p>
<p>Eles construíram outras, ainda mais extensas, labirínticas e expostas. Ainda por cima, deixaram no rio as pilastras que sobraram da estrutura anterior, como se fossem venerandas ruínas históricas, restos de aqueduto romano ou da ponte do Gard. Agora, quem olha daqui vê os escombros de lá. E só nos resta lamentar que o Brasil não tenha uma Câmara dos Deputados que se preocupe com esses assuntos, para cobrar a remoção do entulho.</p>
<p>Em troca, em noites de lua cheia, os brasileiros eventualmente promovem um luau no restaurante do Porto Canoas, logo acima das quedas. Nessas ocasiões, acendem-se luzes coloridas no deque que se debruça no rio. E a administração do parque argentino, com razão, reclama do mafuá na manhã seguinte.</p>
<p>Como são umbelicalmente ligados pelas Cataratas, os parques, sempre que os regulamentos permitem, funcionem em regime de cooperação. Em 1999, quando o Brasil terceirizar a exploração dos serviços turísticos no Iguaçu, o biólogo Apolônio Rodrigues, hoje diretor de Conservação e Manejo, mas há 18 anos um partidário intransigente da natureza na equipe da administração, discordou do projeto de se erguer, atrás do Hotel das Cataratas, uma torre com 100 metros de altura e, lá em cima, espetar um restaurante giratório.</p>
<p>Na briga interna contra o monstrengo, ele fez aliança, na ocasião, com os argentinos. Advertiu-os sobre o risco de que a revisão do plano de manejo, então em curso, incluísse a autorização para os concessionários fazerem a torre. E trouxe de lá o veto que derrubou a propostas antes que ela saísse do chão.</p>
<p>Falta agora perguntar o que o prefeito de Foz do Iguaçu tem a ver com o governo das Cataratas. A resposta é: nada. “Parque nacional” quer dizer que aquilo se tornou assunto de política nacional. Por isso os municípios recebem indenização, em forma de ICMs Ecológico, ao cederem um pedaço de seu território para criá-lo. No parque nacional o prefeito de Foz apita tanto quanto o prefeito de Uiramutã, em Roraima. Ou seja, como qualquer brasileiro.</p>
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		<title>Cenas de um guia turístico acidental</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Apr 2010 15:25:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA["O Carnívoro" está longe de ser um guia turístico. Trata-se do boletim sobre a conservação de felinos no Parque Nacional do Iguaçu. E circula entre pessoas que se interessam pelo assunto. Mas, na edição de abril, sua coleção de imagens colhidas por armadilhas fotográficas dá um show que raro visitante vê.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-8.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-767" title="Armadilha 8" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-8.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p><strong>S</strong>aiu <strong>O Carnívoro </strong>de abril. Mas não adianta correr paras as bancas de revistas, muito menos se espera encontrar lá um novo guia de churrascarias. Trata-se de um boletim bimensal do Parque Nacional do Iguaçu. É feito pela turma da casa. E aparece quando fica pronto, segundo o princípio de que uma semana a mais ou a menos não faz muita diferença na ordem natural das coisas.</p>
<p><strong>O Carnívoro</strong> tem de singular não só o nome como o fato de ser, provavelmente, a única publicação em cores sobre um lugar conhecido pelas cataratas que não tem uma só fotografia de quedas d’água. E por isso já é, em si, uma novidade histórica, num parque cuja administração, em suas primeiras décadas de existência, falava antes de mais nada das providências para cevar os turistas, a ponto de merecer por volta de 1940 a crítica do zoólogo Cândido de Mello Leitão num programa de rádio sobre a conservação da fauna brasileira. Mello Leitão achava que o Iguaçu, pelo tamanho e a localização, tinha tudo para ser o primeiro parque do país com a chance de ser, efetivamente, uma unidade de conservação da vida silvestre. Mas só cuidava do turismo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-6.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-769" title="Armadilha 6" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-6.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Aos 71 anos de idade, o parque está mudado. E <strong>O Carnívoro</strong> se dedica integralmente aos outros freqüentadores da unidade de conservação, os raros e furtivos, cujo número decresce enquanto aumentam os recordes de bilheteria para ver, estritamente, as cachoeiras do rio Iguaçu. A bicharada, para a maioria dos visitantes apressados, resume-se ao quatí, que sobe até em mesa para pedir ou roubar comida, de tão civilizado que está ficando. Os outros, como raramente aparecem, não existem.</p>
<p>Está aí um bom motivo para incorporar esta edição de <strong>O Carnívoro</strong> ao material distribuído nos portões de ingresso aos turistas. Eles só teriam a ganhar com o fato de serem apresentados aos animais silvestres. E esses, quase sempre esquecidos, lucrariam enormemente se cada visita ao parque servisse, antes de mais nada, para todo mundo saber quem é de fato o dono daquele pedaço de floresta, o último do oeste paranaense. Um pouco de respeito não faz mal a ninguém.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-9.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-771" title="Armadilha 9" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-9.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>No boletim, a pesquisadora Marina Xavier da Silva, que coordena o <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/">Projeto Carnívoros do Iguaçu</a>, dá conta do que foi capturado pelas 72 armadilhas fotográficas usadas, de julho a outubro do ano passado, para “estimar a população de onças-pintadas numa área de 903 quilômetros quadrados”, na unidade de conservação. Ela mesma explica que esses flagrantes “de armadilhas fotográficas servem não só como registro de ocorrência das espécies da área amostrada, mas também como fonte de informações sobre atividade, sexo, aspectos sanitários e reprodutivos, além de comportamentos típicos dos animais em vida livre”.</p>
<p>Em outras palavras, elas devassam o cotidiano sigiloso de criaturas que vêm ao mundo para, de preferência, não serem vistas por nós. Por isso mesmo, são interessantes. E não é à-toa que, segundo Marina, “a revelação dos filmes (trata-se de armadilhas da era pré-digital) é sempre aguardada com grande expectativa pela equipe”. No caso, foram colhidas 3700 fotografias que, selecionadas, renderam “belas imagens de veados com filhotes, bandos de catetos, iraras, tatus, cutias, antas, aves e outros”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-122.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-779" title="Armadilha 12" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-122.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Havia até, na coleção, um tamanduá bandeira, que em princípio vive no Cerrado, longe portanto das florestas do Iguaçu. Mas estava lá. E foi clicado automaticamente, abrindo os olhos dos pesquisadores para outros indícios de sua presença no parque. Os felinos, que são o foco de atenção do projeto, não deram o ar de sua graça com a freqüência esperada. Constam de 78 fotografias. Delas, 49 são de jaguatiricas. Só nove mostram onças-pintadas. Mas bisavam três indivíduos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-774" title="Armadilhas 2" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-2.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>A busca ainda vai longe. Chegou no começo do ano às margens do rio Floriano, na área intangível do parque, de acesso difícil, sem trilhas nem mapas &#8211; no entanto, batida há décadas por caçadores clandestinos. “Para instalar oito estações de monitoramento” nessa região, informa o boletim, os pequisadores precisaram voar 1.700 quilômetros de helicóptero, subir 85 quilômetros de rios e caminhar 16 quilômetros no mato fechado. Sem contar que o trabalho coincidiu com as estações de chuva que, pelo menos uma vez, fizeram a equipe improvisar uma noite ao relento debaixo de um plástico impermeável.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-5.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-775" title="Armadilhas 5" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-5.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Sua vocação para o turismo está longe de ser intencional. Mas, pelas histórias que conta e as fotografias que mostra, o boletim consegue ser mais divertido do que muito roteiro convencional de aventura na selva. Como não circula fora da confraria de iniciados em conservação da natureza, vale a pela vê-lo aqui, nessas amostras das armadilhas fotográficas, apontadas para um lado do Iguaçu que as cataratas, se não chegam a esconder, pelo menos ofuscam.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-41.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-778" title="Armadilhas 4" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-41.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
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		<title>O futuro vem a Foz e deixa lembranças</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/19/o-futuro-vem-a-foz-e-deixa-lembrancas/</link>
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		<pubDate>Fri, 19 Mar 2010 21:00:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Lixo]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Trazidos pelo programa Universidade Viajante, estudantes do campus ambiental de Birkenfeld, "o único do mundo com emissões zero" vieram a Foz do Iguaçu mostrar como se enriquece sem sujeira nem desperdício, mas deixam ao sair sua papelada no chão do parque nacional.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Universidade-Viajante_00051.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-694" title="Universidade Viajante_0005" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Universidade-Viajante_00051.jpg" alt="" width="512" height="360" /></a></p>
<p>Bastou uma semana em Foz do Iguaçu para os alunos da Universidade Viajante aprenderem que o Brasil não é Birkenfeld, “o único campus do mundo com emissão zero”, como enfatizou o professor Peter Heck, ao presentar a turma.</p>
<p>Ela veio da Alemanha para ensinar, “com as mãos na massa”, o que aprende diariamente nessa base experimental da universidade de Ciências Aplicadas de Trier, onde se aproveita toda a água da chuva, recicla-se a dos banheiros e a energia vem exclusivamente do sol ou dos gases liberados pela decomposição da matéria orgânica.</p>
<p>Nada, em Birkenfeld, vem de fora, porque a mola mestra de seus programas de ensino é espremer os recursos locais até a última gota, transformando-os em trampolim autônomo para a criação de riqueza. Ao contrário de Foz do Iguaçu, por exemplo, que gasta 4,5 milhões de reais pior ano só com suas lâmpadas da iluminação pública, nada tira, a não ser mau cheiro, das 30 mil toneladas de resíduos do consumo doméstico e bota fora inclusive as 1.500 toneladas de galhos e folhas deixadas pela poda das árvores nas ruas.</p>
<p>Funcionaria melhor e mais barato – informou a seus administradores a garotada &#8211; se, em vez de torrar o dinheiro da prefeitura com as contas de eletricidade e combustível, tocasse sua frota e acendesse seus postes com a energia que perde no aterro sanitário, no esgoto e mesmo nas sobras dos matadouros. Esses são só exemplos de dados revelados pela garotada a uma platéia em que quase todos os presentes tinham idade para ser seus pais.</p>
<p>“Em Birkenfeld, posso garantir que estamos vivendo no futuro, e vivendo muito bem”, explicou Heck. E esse futuro está ao alcance de sociedades mais atrasadas ou mais pobres, pela cartilha do IfAS, um instituto incubado no campus para disseminar a boa gestão econômica do ciclo de vida dos materiais. É um produto de exportação, oferecido a empresas e governos da Suécia à China. Já levou a Universidade Viajante ao Marrocos, por exemplo.</p>
<p>Trazida ao Brasil em convênio com o curso Positivo, de Curitiba, “Foz do Iguaçu 2010” foi seu 11º programa internacional. Trinta estudantes de economia, computação ou engenharia aboletaram-se nos beliches do alojamento para pesquisadores do parque nacional, uma construção de madeira com três banheiros. E tiveram o que Heck classificou como “uma semana de trabalhos intensivos”.</p>
<p>Mesmo sem ir muito longe. Constataram por exemplo que, circulando entre o portão do parque e as cataratas, os nove ônibus de dois andares da concessionária de serviços turísticos queimam no parque por ano 200 mil litros de diesel. E lhe receitaram uma estrita dieta vegetariana, enchendo os tanques com óleo extraído de plantações orgânicas de girassol e granola, comprados de agricultores da vizinhança. Propositalmente instalada na frente da do parque, a usina destilaria o biodiesel com processos limpos. E a unidade ganharia, além de menos fumaça poluente, a chance de criar o cinturão agrícola de amortecimento que há 71 anos lhe falta.</p>
<p>Ao Centro de Visitantes, onde os turistas, ao entrar, tomam contato em primeiro lugar com nove condicionadores de ar e 600 lâmpadas convencionais, eles recomendaram luminárias de <em>leds </em>e um refrigeração por placas fotovoltáicas. Como não batem prego sem estopa, calcularam que as contas de eletricidade, 75% menos, cobririam em o investimento em sensatez ambiental.</p>
<p>Dito isso, eles deixaram claro que se deram bem aqui. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/">Foram visitados nos fundos do alojamento por duas onças pintadas,</a> coisa que muito biólogo brasileiro passa a vida tentando ver, sem êxito. Dançaram os ritmos locais em palco de churrascaria. E só partiram na quarta-feira, quatro suas depois de apresentar seu relatório final no autorório do parque nacional.</p>
<p>Deixaram para trás uma pilha de papéis e outros resíduos, espalhada pelo chão, sob as lixeiras plásticas que, exemplo de baixa tecnologia bem aproveitada &#8211; ou seja, de bom uso de recursos locais &#8211; resolveram há tempos na unidade de conservação, com uma simples trave de madeira, o problema dos quatis e outros bichos que viciam nos desperdícios do consumo humano.</p>
<p>Quem fuçou o monturo no dia seguinte encontrou muitos blocos de anotação em branco e, ainda em seus envelopes, as fotografias do grupo diante das cataratas, como a que ilustra esta história. Elas lhes foram entregues pelos anfitriões na solenidade de encerramento como souvenir.</p>
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		<title>Receita de um dia mais que perfeito</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/19/receita-de-um-dia-mais-que-perfeito/</link>
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		<pubDate>Fri, 19 Mar 2010 20:29:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Quem está a poucos minutos das Cataratas do Iguaçu enfrentará uma certa dificuldade se quiser passar um dia realmente em que tudo está errado. Em último caso, sobram sempre os minutos diante das cachoeiras, de preferência na hora em que o sol se põe. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Elevador_00291.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-686" title="Elevador_0029" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Elevador_00291.jpg" alt="" width="481" height="329" /></a></p>
<p><strong>S</strong>aia da cama com o pé esquerdo. Se possível, pisando nas bolhas que ainda não secaram da última caminhada. A hora passou. O despertador se esqueceu de acordá-lo ou, o que é mais provável, você se esqueceu de ajustá-lo antes de cair na cama, depois de uma longa noitada em companhia do computador. A internet saiu do ar. O trabalho adiantado na véspera vai chegar depois do prazo.</p>
<p>Correr para a cidade não resolve, porque ao ligar o carro se acende no painel aquela luz amarela da gasolina. O posto mais próximo fica a 14 quilômetros. E, ao parar na bomba, evidentemente você descobre que deixou tudo em casa – dinheiro, cartão de crédito e até o cheque guardado como lembrança do tempo em que isso se usava. Sobrou a lábia, para conseguir os litros contados de combustível para a viagem de ida de volta.</p>
<p>Ao todo, contando as gotas do empréstimo, o erro sai por 120 reais, 56 quilômetros extras e quase uma hora perdida. Ou seja, barato. Mas não adianta abater o prejuízo tomando providências há muito tempo empurradas com a barriga, porque o sapato deixado há mais de uma semana para colar a sola não ficou pronto e o sapateiro é um artesão consciencioso, que só vai devolvê-lo quando der por encerrado o expediente da costura à mão.</p>
<p>Para encurtar a conversa, você volta a parque às cinco da tarde. Lá se foi uma quinta-feira que até parecia de outono, com sol forte, ar leve e nuvens de cartão-postal boiando num céu de azul lavado. É tarde demais para pegar uma trilha. Mas as cataratas ficam logo ali. Você cinha fazendo um certo esforço para ignorá-las, porque não se considera um turista qualquer. E elas acabam de pegá-lo de jeito.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Rio-Iguaçu_0023.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-687" title="Rio Iguaçu_0023" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Rio-Iguaçu_0023.jpg" alt="" width="512" height="339" /></a></p>
<p>Aliás, vão praticamente buscá-lo no estacionamento do Porto Canoas. Dá para ver de longe que o rio Iguaçu está gordo, engolindo pedras e barrancos. Em parte porque choveu forte no domingo passado. Mas também porque o espetáculo natural das cachoeiras é regulado, rio acima, por cinco hidrelétricas, que fecham as comportas nos sábados e domingos, aproveitando a queda no consumo de eletricidade para estocar uns goles d’água, e escancaram os reservatórios nos dias úteis.</p>
<p>Com o Iguaçu tão cheio de si, a Garganta do Diabo cospe cataratas acima uma névoa que, nesse instante, para o lado da Argentina, com o sol já baixando no horizonte, acolchoa a floresta em fumos rosados. É, de longe, a melhor hora do dia para ver os saltos, com a luz batendo de frente, em cheio, no conjunto das quedas. E o momento em que passa um funcionário de uniforme, anunciando que vai partir o último ônibus.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Margem-argentina_5086.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-688" title="Margem argentina_5086" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Margem-argentina_5086.jpg" alt="" width="512" height="342" /></a></p>
<p>Mas o aviso é só para os turistas. E você, embora esteja ali, na torre do elevador, debruçado sobre o salto Floriano, no ponto mais turístico do roteiro, nem por isso abdica das prerrogativas de não ser confundido com um eles. Em minutos, o mirante se esvazia.</p>
<p>E, se não lhe sobrassem uns laivos de humildade da difícil negociação com o frentista no posto de gasolina e da aula de brio profissional que lhe deu o sapateiro horas antes, poderia pensar que aquilo tudo – da engenharia cósmica aos derrames de basalto ocorridos na noite do tempo, das tempestades que vieram fechar o verão ao balé das comportas nas usinas do Iguaçu – está se ensaiando há milhões de anos esse encontro exclusivo com você.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Salto-Floriano_5125.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-689" style="margin: 5px;" title="Salto Floriano_5125" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Salto-Floriano_5125-203x300.jpg" alt="" width="203" height="300" /></a>Ou, vá lá, com você, com os bandos de papagaios e o governo Lula. E, o que é melhor, sua velha Canon 5D, que acaba de voltar do conserto, está a postos, em cima do tripé. Você sabe que jamais conseguirá fotografar o que está sentindo. Mas poderá, pelo menos, fotografar o que nem todo turista vê – como o momento exato em que a água barrenta do Iguaçu parece feita de propósito para a luz avermelhada que vem da borda do cânion, para os vórtices iluminados de cachoeiras sombrias, para pedras do leito que os olhos a essa altura confundem com montanhas saindo das nuvens.</p>
<p>Cada mudança dura minutos, e tem que ser fixada pela câmera em segundos. A terra toda à sua volta treme e se move. Mas a máquina deve permanecer imóvel, resguardada de toda trepidação pela espelho travado, o disparador de cabo acionado por movimentos muito lentos, quem sabe com a respiração suspensa. Lá fora a luz cai depressa. Lá dentro ela tem que aumentar rapidamente.</p>
<p>Adicione a essa receita uma boa dose de adrenalina necessária a traduzir a pressa universal em gestos lentos e, quando escurece, você teve um longo dia de meia hora e meia dúzia de fotografias. Provavelmente elas nunca lhe servirão para nada. A não ser para guardar aquela tarde de quinta-feira para sempre.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Garganta-do-Diabo_5120.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-690" title="Garganta do Diabo_5120" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Garganta-do-Diabo_5120.jpg" alt="" width="427" height="640" /></a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A nova geração gosta de onças</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Feb 2010 20:53:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[O Primeiro Curso de Biologia e Manejo de Carnívoros reabre o estudo sistemático das onças e outros felinos selvagens em Iguaçu, ao mesmo tempo que povoa o parque com uma turma tão colorida e animada como a dos turistas, mas que está atrás de um trabalho sério.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: left;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9710.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-539" title="Curso de Onça_9710" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9710.jpg" alt="" width="454" height="335" /></a></p>
<p style="text-align: left;"><strong>O</strong> Parque Nacional do Iguaçu abriu o ano com dois recordes populacionais. Passaram por suas portas em janeiro mais de 167 mil visitantes. E ao mesmo tempo caiu a ficha de que suas onças pintadas, recenseadas por armadilhas fotográficas e farta pesquisa de campo, até segunda ordem estão reduzidas a seis indivíduos. É mais ou menos a metade do que havia uma década atrás, quando <a href="http://www.oeco.com.br/petercrawshaw/84-petercrawshaw/20385-a-volta-do-guru-30-anos-depois">o biólogo Peter Crawshaw</a> concluiu sua última avaliação metódica. <a href="http://www.biodiversityreporting.org/article.sub?docId=214&amp;c=Brazil&amp;cRef=Brazil&amp;year=2001&amp;date=March%202001">O resto morreu atropelado ou a tiro.</a></p>
<p>Em outras palavras, o inegável sucesso do Iguaçu como parque veio junto com uma estatística que põe em causa seu êxito como unidade de conservação. E por isso é um alívio a chegada ao parque da turma que veio fazer, no Iguaçu, o Primeiro Curso de Biologia e Manejo de Carnívoros.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9752.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-540" title="Curso de Onça_9752" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9752.jpg" alt="" width="454" height="298" /></a></p>
<p>São 27 alunos de fora, além dos nove que aderiram programa entre o pessoal do parque e da guarda florestal. Muitos vieram de bem longe, de outros estados ou até do Peru e da Argentina. Pagaram, fora os custos da viagem, 900 reais pela taxa de inscrição. Acomodaram-se num dormitório preparado a toque de caixa para recebê-los, na beira de um caminho de terra que leva ao rio Iguaçu, sob a copa de árvores centenárias. Ou seja, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/">a trilha do Poço Preto</a>.</p>
<p>São, em geral, biólogos ou veterinários. Na média, gente muito jovem. Da turma, 14 alunos nasceram na década de 1980 e 4, nos anos 90. Eles povoaram da noite para o dia estradas e auditórios com rapazes de brinco na orelha e sacola de pano a tiracolo, transitando pelo acostamento da B-469 ou pegando carona em caçamba de picape. E, sobretudo, com moças de short e camiseta que, apesar do uniforme de férias, até à distância se distinguem das turistas, por andarem de lá para cá em trajetos que as visitantes ocasionais nunca percorrem, além de cumprir horários que precedem e ultrapassam com larga folga o funcionamento das bilheterias.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_97081.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-543" title="Curso de Onça_9708" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_97081.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Todos eles estão passando a semana em contato direto, de manhã à noite, com desbravadores da conservação de grandes felinos no Brasil, como Laury Cullen, do Ipê, Ronaldo Gonçalves Morato, do Cenap, ou Dênis Sana, da fundação Pró-Carnívoros. E foram recepcionados com a exuberância de praxe pelo diretor de conservação e manejo Apolônio Rodrigues, um dos funcionários públicos menos convencionais que existem.</p>
<p>Criado em fazenda no sertão de Goiás, ele entrou para o Ministério do Meio Ambiente como auxiliar administrativo. Em outras palavras, comandava contínuos em Brasília. Na prática, aos 18 anos, controlava a papelada dos processos de incentivos fiscais para reflorestamento, nome que se dava na época à derrubada de mata nativa para plantar eucaliptos e pinus com dinheiro do governo. Efetivado na burocracia ambiental, à medida que ia subindo na carreira, ele acabou sem função. O governo Fernando Collor &#8211; &#8220;em boa hora, deve ter sido uma das únicas coisas boas que ele fez&#8221; &#8211; acabou com os incentivos e, por tabela, com suas tarefas.</p>
<p>Para &#8220;não enlouquecer&#8221;, ele passou a organizar por conta própria mutirões que limpavam parques do Cerrado no fim de semana, o mais longe possível do confinamento do escritório. E agarrou agarrou à unha a primeira chance de uma transferência para a linha de frente. Mudou-se para o Iguaçu, sem escolher propriamente o lugar. Iguaçu era o terceiro posto em sua lista de preferências, encabeçada por Natal, no Rio Grande do Norte, e por Vitória, no Espírito Santo.</p>
<p>Mudou-se para lá e nunca mais deixou o parque, onde aliás nasceram e estão crescendo seus dois filhos. Hoje, dá a impressão de conhecer cada palmo dos 185 mil hectares da unidade de conservação, incluindo os meandros mais ermos das áreas intangíveis. Comprou todas as brigas contra agências turísticas, prefeitos da vizinhança e outros especialistas em usar e abusar da unidade de conservação sem dar a mínima para a conveniência de conservá-la. Já viu por isso faixas em Foz do Iguaçu clamando &#8220;Fora, Apolônio&#8221;. Em compensação, mora numa curva de rio que só falta abraçar sua casa de madeira.</p>
<p><a style="text-decoration: none;" href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_97202.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-546" title="Curso de Onça_9720" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_97202.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Tarimbado como está, Apolônio continua a cair no mato com o entusiasmo de quem está vendo cada coisa pela primeira vez. E há muito o que ver em cada passo no Iguaçu. Já fez papel de jagunço numa produção nacional sobre a colonização do Oeste paranaense e lamenta que o filme nunca tenha passado da ilha de edição. Neste momento sente-se obviamente muito à vontade no meio da estudantada, mimetizado entre os recém-chegados pela barba e o cabelo longo, fora a indumentária de quem está sempre prestes a sumir numa trilha ao primeiro pretexto e o fôlego que lhe permite emendar longos expedientes na administração com papos intermináveis noite adentro.</p>
<p>O curso anda bombardeando os alunos com saraivadas de informações frescas, de primeira mão. Laury Cullen contou-lhes durante uma manhã inteira como aprendeu a trabalhar entre fazendeiros e assentamentos dos sem-terra no Pontal do Paranapanema, salvando com isso onças que, enxotadas por barragens e desmatamentos, sobrevivem contra todos os prognósticos mais razoáveis na reserva estadual do Morro do Diabo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9716.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-547" title="Curso de Onça_9716" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9716.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Ensinou-lhes como fez do diploma de Biologia um passaporte para a pesquisa aplicada em conservação da natureza. Seu trabalho de campo, monitorando por satélite as andanças das onças que, entrincheiradas no Morro do Diabo, ignoram fronteiras municiapis, estaduais e internacionais, além de cercas, beiras de cidade, rodovias e rios cuja travessia que as represas estenderam a 1.800 metros de nado livre.</p>
<p>Os sinais que seus colares emitem durante essas andanças acumularam com o tempo dados precisos para traçar um novo mapa da região – o mapa que sem dúvida as onças fariam se pudessem ver seu pedaço da América do Sul de sensores situados na órbita terrestre. Aos olhos das feras andarilhas, a paisagem picotada por limites artificiais se reintegra num emaranhado de rios, fragmentos de florestas e várzeas que liga o Mato Grosso do Sul ao extremo Oeste do Paraná, varando São Paulo e o Paraguai.</p>
<p>A cartografia feita ela onça, se for conhecida e reconhecida, é o caminho mais curto para garantir que os cem derradeiros exemplares de sua espécie, na vasta bacia do rio Paraná, vençam a única barreira que elas não podem transpor sozinhas: a do tempo, que lhes acena, daqui a meio século, com uma alta probabilidade de extinção.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9743.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-548" title="Curso de Onça_9743" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9743.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>A tarde de terça-feira Ronaldo Morato conseguiu ocupar sozinho, literalmente entupindo a turma de informações sobre as últimas receitas dos laboratórios de genética para, entre outras proezas de ficção científica, reproduzir jaguatiricas genuinas através de gatos domésticos, ou guardar em bancos de germoplasma a fórmula para trazer de volta espécies silvestres que o mundo vai perdendo inapelavelmente, cada vez mais depressa.</p>
<p>No fim da aula teórica, ao ver que os alunos cabeceavam sob o peso de tanta novidade extra-curricular, levou-os em bando para uma aula prática de tiro-ao-alvo com zarabatanas, revólveres a gás e carabinas. As armas são heranças da tecnologia de caçadas que, com dardos de anestésicos, transformaram-se em ferramentas da conservação. O assunto era sério. Mas, com a mudança de ares e de metolologia didática, o grupo agüentou firme – e às gargalhadas – até o cair da noite.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9683.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-549" title="Curso de Onça_9683" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9683-200x300.jpg" alt="" width="140" height="210" /></a>O curso promete ser o primeiro de uma série. Reabre com ele a temporada de pesquisas com carnívoros de grande porte no Iguaçu, num momento crítico para discutir sua viabilidade a longo prazo. Porque, ao contrário do que faz crer o senso-comum e nossa vã simpatia pelas vítimas, eles são os guarda-parques primordiais. Ninguém toma conta melhor de sua fauna do que uma onça. Em seu território, o resto costuma estar sob controle, inclusive a pequena vanguarda dos polinizadores, que dependem da variedade da flora para existir &#8211; e vice-versa.</p>
<p>O curso não poderia começar em melhor hora. Nas circunstâncias que juntaram, na semana de estréia, para cada onça recenseada no parque, quase cinco jovens querendo aprender a conhecê-las, para salvá-las. Se, para a <em>Panthera onca</em>, isso não for um sinal de sobrevivência garantida, há de ser pelo menos um alegre consolo.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>No caminho do Poço Preto</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Jan 2010 21:38:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Trilhas]]></category>

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		<description><![CDATA[O longo caminho de uma estrada problemática, até se transformar na peça-chave de um roteiro turístico que leva turistas a conhecer as cataratas do Iguaçu da melhor maneira, que é a clássica: passeando por nove quilômetros à sombra da floresta tropical que enfeita o percurso. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Samabaias_0167.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-464" title="Samabaias_0167" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Samabaias_0167.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>“<strong>S</strong>erá que vai dar para ver alguma coisa?” A pergunta, deixada pasra trás numa entonação meio infantil por um grupo que zarpava para a manhã de Ecoaventura na trilha do Poço Preto, acabou ficando no ar. O grupo foi em frente. E a resposta do guia, se lhe ocorreu dizer alguma coisa, deve ter sumido na distância, que crescia a cada passo.</p>
<p>Foi pena, porque naquele momento daria para apontar para qualquer lado e se encontrariam centenas de respostas para ela – em forma de aranhas <em>Argiopidae,</em> por exemplo. Elas cobrem nossas cabeças com um dossel suplementar de teias orbitais, formando entre as árvores uma rede de fios dourados, naquela hora em que o sol atravessava de viés a estrada ainda sombria. Havia também cogumelos em profusão, das mais variadas formas e feitios, brotando de troncos com a mesma opulência de troncos vivos ou mortos. E pássaros inumeráveis, de tudo quanto é cor, voz e tamanho, chamando a atenção ao mesmo tempo para sua presença esquiva no meio da folhagem e também para a nossa presença indébita em seus territórios.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Borboleta_32042.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-474" title="Borboleta_3204" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Borboleta_32042.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Mas a pergunta provavelmente se referia à esperança de ver coisas mais raras &#8211; ou mesmo ecoaventurosas. Algo mais trepidante que o vai-e-vem das cutias, por exemplo. Elas atravessam sem parar a velha estrada de terra roxa, como encarnações silvestres dos mais escolados vira-latas urbanos. Param na borda da pista, avaliam criteriosamente o movimento, como se estudassem o trânsito. Tudo isso naquela pose olímpica de quem está com os músculos armados, como um atleta imóvel no instante da largada. De repente, com os riscos da travessia aparentemente avaliados, elas dispararm rumo ao outro lado.</p>
<p>Ao contrário dos quatis, que escalam latas de lixo e sobem em mesas, atrás de comida humana, parecendo bandos de meninos de rua em volta de  restaurantesao ar livre nas grandes cidades da capital, as cutias do Parque Nacional do Iguaçu ainda fazem questão de mostrar que não abdicaram inteiramente à vida selvagem, apesar de todas as tentações em contrário.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cutia_31732.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-475" style="margin: 5px;" title="Cutia_3173" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cutia_31732-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Se era algo ainda mais substancial que os ecoaventureiros queriam ver, a coisa em si acabava de cruzar seu caminho, ou vice-versa, algumas centenas de metros atrás. Senão em pessoa, pelo menos como uma prova cabal de sua materialidade – deixando na pista um troféu de sua última caçada, reduzido a um bolo cinzento e cheio de pelos cinzentos, em cujos sais as borboletas azuis faziam naquele momento uma verdadeira orgia, a ponto de pousarem umas sobre as outras.</p>
<p>Sim, em bom português, o que a trilha ofereceria ali para se ver era merda fresca. Mas era do tipo que os biólogos ultimamente procuram sem parar, em investigações de campo. Um dos objetos de sua curiosidade é o excremento de grandes e médios felinos, capaz de informar muita coisa sobre a vida que eles levam. E aquele era, sem dúvida, excremento de um carnívoro grande, quem sabe uma suçuarana, dada a rarefação das onças pintadas no parque.</p>
<p>No momento, sabe-se, através de armadilhas fotográficas, da existência de seis onças lá dentro, pelo menos do lado do parque onde fica a administração. O outro ainda está para se conferir. Resta da metade da população que havia há dez anos. Em contraste com as jaguatiricas, que aparecem com freqüencia crescente nos registros fotográficos e podem estar ocupando vagas abertas pelo recuo populacional da <em>Pantera onca. </em></p>
<p><em><span style="font-style: normal;">A trilha do Poço Preto tem tradição nesse ramo. Foi nela que, em 1991, quando fazia o primeiro recenseamento sistemático das onças remanescentes no Parque Nacional do Iguaçu, <a href="http://www.oeco.com.br/petercrawshaw/84-petercrawshaw/20385-a-volta-do-guru-30-anos-depois">o biólogo Peter Crawshaw Júnior </a>acabou se envolvendo num luta corporal com uma pintada. Ele encarnava então o projeto Carnívoros do Iguaçu, um inventário das jagartiricas e onças iniciado em abril de 1990.</span></em></p>
<p><em><span style="font-style: normal;">O Carnívoros de Iguaçu deslanchou em abril de 1990. Como tema da dissertação de doutorado de Crawshaw  pela Universidade da Florida, era financiado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis &#8211; IBAMA, pelo World Wildlife Fund &#8211; US, pela Helisul Taxi Aéreo Ltda., pelo &#8220;Scott Neotropical Fund&#8221; do Lincoln Park Zoo e pela Ilha do Sol Turismo.  Seu objetivo, conta Crawshaw, &#8221; era comparar a ecologia de dois felinos de hábitos similares, mas de tamanhos diferentes, a jaguatirica e a onça-pintada&#8221;. E naquele mesmo ano se estenderia ao parque nacional del Iguazu, no lado argentino, onde a bióloga residente Silvana Montanelli coletava dados  para o seu doutorado pela Universidade de Buenos Aires. </span></em></p>
<p><em><span style="font-style: normal;">Até dezembro de 1994, segundo Crawshaw, &#8220;foram capturadas 21 jaguatiricas e 7 onças-pintadas, que foram aparelhadas com rádio-colares e monitoradas através da rádio-telemetria. Além desses animais, outros 21 carnívoros foram também capturados, incluindo: 6 quatis, 7 cachorros-do-mato, 2 jaguarundis, 1 gato-maracajá, 1 puma, 2 iraras, e 1 gato-do-mato-pequeno. A maior parte deles foi também aparelhada com rádio-transmissores.  Além das informações pioneiras sobre a ecologia e conservação dessas espécies em ambiente de Mata Atlântica, o projeto foi importante também pelo número de estudantes e profissionais que foram treinados em metodologias sofisticadas à época, como a rádio-telemetria e armadilhas-fotográficas, então ainda no início, no Brasil&#8221;.</span></em></p>
<p>Depois de terminar com tantos créditos, a experiência teve um saldo desalentador. A maioria das onças identificadas no parque por essa iniciativa pioneira morreria ao longo da década na mira de caçadores. Interrompido por mais de 10 anos, o trabalho recomeçou agora, em parte como desagravo ao <a href="http://www.oeco.com.br/reportagens/37-reportagens/21371-tragedia-anunciada-no-parna-do-iguacu">atropelamento de uma pintada em 2009 na BR-469</a>, a rodovia federal que leva às cachoeiras.</p>
<p><em><span style="font-style: normal;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cogumelo_31793.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-493" title="Cogumelo_3179" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cogumelo_31793.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a><br />
</span></em></p>
<p>A bicha caíra numa de suas armadilhas durante a madrugada. De manhã cedo – ou “às sete e meia de 31 de julho”, como ele costuma precisar, com dia, mes e hora, tantos anos depois &#8211; Crawshaw foi examiná-la em sua jaula de madeira. Ao chegar, a fera tentou avançar em sua direção. Sinal de que não iria ser fácil trabalhar com ela. Era parruda. E nervosa. Estava prenhe. E só adormeceu com o dobro da dose de anestésico recomendada para um animal de seu porte. Tinha os maiores caninos que ele mediu em sua longa carreira de especialista brasileiro em grandes felinos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Caninana_3097.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-469" title="Caninana_3097" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Caninana_3097.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Duplamente anestesiada, a onça passou pela revisão de praxe, doou sangue à ciência e ganhou em troca um colar de identificação &#8211; que seria vital em seus reencontros seguintes com Crawshaw. Terminado a rotina de avaliação, o biólgo ficou por ali, matando o tempo, à espera de que a onça acordasse, como se velasse à cabeceira de um paciente indefeso. Foi quando apareceu na trio um trio de observadores de pássaros. “Um escocês e um casal de americanos”, ele especifica.</p>
<p>Crawshaw morava naquela época num alojamento de pesquisa instalado bem no começo da trilha do Poço Preto, uma estrada rústica de quase nove quilômetros, que desemboca margem direita do rio Iguaçu, junto a uma lagoa natural e diante de um largo remanso, acima das cataratas. O Poço Preto propriamente dito fica dentro do rio, no ponto onde ma falha geológica aumenta drasticamente sua profundidade para 27 metros &#8211; ou seja, decuplica-a &#8211; tornando mais escuras as águas cor de terra. Mas isso só se percebe em sobrevôos de helicóptero.</p>
<p>Era raro, na época, aparecerem turistas por ali, quando o Poço Preto ainda não se incorporara de pleno direito aos roteiros alternativos do parque nacional, num esforço da administração para espalhar as multidões que as altas temporadas concentram nos 1.200 metros da trilha das cachoeiras, como se percorressem o corredor de um shopping em vésperas de Natal. Ao tropeçarem num espetáculo natural tão mais trepidante que o habitual, os observadores de pássaros passaram a observar o trabalho de Crawshaw.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Jacaré_32121.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-481" title="Jacaré_3212" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Jacaré_32121.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Estavam no quilômetro dois e meio da estrada, onde a essa altura a onça ainda dormia, fora da jaula. Durante muito tempo, essa estrada foi uma assombração para os técnicos que urdiam planos de manejo para o parque, recomendando a erradição de todas as marcas anteriores de invasão. O caminho do Poço Preto era uma delas, e só teve o futuro assegurado pelo projeto de revitalização que, no fim da década de 1990, designou-o como Zona Primitiva, submetida no passado a &#8220;mínima intervenção humana&#8221; e daí para a frente encarregou-o de &#8220;atrair público mais diversificado, diminuir a pressão atual da visitação sobre as cataratas e melhorar a imagem do parque, oferecendo novas fronteiras de uso público&#8221;.</p>
<p>Em outras palavras, aumentar o uso do parque, reduzindo ao mesmo tempo o impacto das multidões apressadas, pisoteando sempre os mesmos percursos diante das cachoeiras. A implantação de trilhas “com infraestrutura de apoio à visitação” nas antigas vias do parque _ além do Poço Preto, entraram nessa receita as estradas do Rio São João, da Linha Martins, da Onça e da Ilha do Cavalo – acabou sendo <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/12/30/de-olho-na-moldura-das-cataratas/">uma dessas táticas de dispersar os visitantes</a>. Implantou-se como um dos serviços turísiticos terceirizados, que a empresa Macuco Safari opera no Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cipó_32032.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-482" style="margin: 5px;" title="Cipó_3203" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cipó_32032-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a></p>
<p>Em 1991, nada disso existia. E Crawshaw lamenta até hoje não ter enxotado dali, sem maior cerimônia, os observadores de pássaro da área restrita em que estavam. Porque, assim que a onça abriu os olhos, ele viu a inglesa ajoelhar-se diante da fera para fotografá-la. “Eu já tinha dito para meu pessoal que estava lá para não chegar mais perto dela, porque já estava com a pupila dilatada, sintoma de que iria se levantar em poucos instantes&#8221;, ele recorda.</p>
<p>Mas o <em>flash</em> chegou primeiro que seu grito de advertência. “Não deu tempo para mais nada”, ele conta. Só de pular entre a onça e a turista. “E ainda bem que, ao se erguer, ela escorregou. Porque a inglesa também, no susto, tropeçou no barro vermelho de Iguaçu e caiu de costas&#8221;, conta o biólogo.  A onça ficou de pé, e pegou Crawshaw pela cabeça. As unhas lhe dilareraram o  couro cabeludo. Os ossos de seu polegar racharam entre os dentes do bicho, cujo focinho ele tentava manter o mais longe possível de sua cara.</p>
<p>Mas, para tornar breve <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/02/03/a-nova-geracao-gosta-de-oncas/">uma história que a rigor nunca mais terminou</a>, basta dizer que o corpo-a-corpo custou-lhe um bom tempo de convalescença. Nem por isso Crawshaw parou de lidar com onças – inclusive com aquela mesma do encontrou no Poço Preto. Uma noite apareceu em sua casa, no meio da noite, a matou-lhe o cachorro. Mais tarde, foi recapturada. Crawshaw descobriu então que ela havia perdido sabe-se lá como seus dois formidáveis caninos. &#8220;Estava tudo infeccionado&#8221;, dia ele. A fera se reduzira a uma predarora de animais domésticos. Habituara-se a rondar casas e hotéis. E, depois de tratada, foi transferida para o zoológico de Sorocaba. Depois, recrutada para uma tentativa de repovoamento do parque de Ilha Solteira, em São Paulo, onde um dia Crawshae foi visitá-la.</p>
<p>Peter Crawshaw morou no Poço Preto quando ecoaventura era substantivo comum e queria dizer outra coisa. Hoje, dá nome a um passeio tranqüilo, com direito fazer parte do percurso em bicicletas de aluguel e, no Iguaçu, embarcar de volta num barco que costeia as ilhas do rio, com direito a ver jacarés nas margens. Tudo sem sair de bordo, aos cuidados de um piloto que parece saber exatamente onde encontrar todos os bichos incluídos no programa.</p>
<p>O Poço Preto só não cumpre é a promessa a promessa de desafogar as cataratas. Mais de dez mil pessoas passaram pelo Parque do Iguaçu no segundo fim-de-semana de 2010, que promete ser um ano de recordes na bilheria. Cem visitantes, no máximo, foram experimentar a trilha. Podem não ter visto o que viram os três observadores de pássaros. Mas no mínimo saíram do Iguaçu sabendo o que todos os outros estão perdendo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Trilha_0165.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-483" title="Trilha_0165" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Trilha_0165.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
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		<title>E quem resiste a estas cataratas?</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Jan 2010 16:05:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[De como um repórter se perde na trilha das cataratas, depois de prometer que a volta do sol ao parque do Iguaçu, estava na hora de sair à caça de borboletas, com a máquina fotográfica em punho e olho fixo nas nuvens de asas coloridas que também se animam com o calor.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Salto-Floriano_0140.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-445" title="Salto Floriano_0140" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Salto-Floriano_0140.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p><strong>P</strong>erdeu quem apostou na promessa de que, com a volta do sol, estava na hora das borboletas no Parque Nacional do Iguaçu. A começar pelo autor destas linhas. E da promessa. As borboletas compareceram à festa pontualmente, “tais e tantas”, como disse o escrivão Pero Vaz de Caminha, na primeira tentativa de descrição na natureza brasileira, que chegam a ser difíceis de distinguir, quando se precisa reconhecer uma a uma as espécies que mais interessam, no meio de nuvens coloridas e espalhafatosas.</p>
<p>Bem que ele tentou se enfiar nas trilhas mais solitárias, para fotograr borboletas. Mas ninguém é de ferro. E, apesar de todas as disposições em contrário, acabou voltando à tarde para o caminho de todos os turistas – o circuito das cataratas, que parecem ter crescido em todas as direções, rio abaixo e céu acima, assim que o excesso de chuva abriu alas a um sol espetacular.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Névoa_3105.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-452" title="Névoa_3105" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Névoa_3105.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Ensolaradas até às oito horas da noite, coroadas pela névoa que a evaporação espalha mata adentro e mais resplandescentes do que nunca depois da hora que os portões do parque se fecham aos visitantes e o parque oferece, de quebra, as prerrogativas da exclusividade a quem continua lá dentro, as cachoeiras têm argumentos de sobra para lembrar que, sem elas, o resto não estaria aqui.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Turistas_2942.jpg"><img class="size-full wp-image-446 alignright" style="margin: 5px;" title="Turistas_2942" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Turistas_2942.jpg" alt="" width="383" height="256" /></a></p>
<p>E o resto é muito – uma verdadeira amostra da exuberância original que ficou rara, de madeiras de lei a onças pintadas, de papagaios a palmitos, sem esquecer as borboletas. Mas, quando as cascatas começam a cair em sua cabeça à distância, pingando das copas como poeira de água fresca no calor escorchante,  parecendo chuva em céu lavado, aí não tem remédio senão correr para os belveredes que costeiam o cânion do rio Iguaçu.</p>
<p>Neste verão, cerca de cinco mil pessoas por dia andam fazendo exatamente isso. É uma enchente humana, que deve fechar janeiro com mais de 150 mil visitantes passando pela bilheteria da concessionária, que explora o turismo nas Cataratas. Há filas grandes nos pontos dos ônibus gratuitos, que normalmente circulam de 15 em 15 minutos dentro do parque. E agora, com a frota reforçada por veículos de aluguel, os intervalos se encurtaram para cinco minutos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Trilha_0123.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-447" title="Trilha_0123" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Trilha_0123.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Tudo indica que vem aí um ano de recorde no Iguaçu, talvez batendo a marca das 1.150 mil pessoas que passaram pelos portões dois anos atrás. Os autores do primeiro plano de panejo do parque, em 1981, já se  assustavam com essa maré montante. “O ano de 1971 recebeu 270.754 visitantes, e em 1979 esse número foi de 712.317. O ano de 1962 recebeu 67.172 veículos. E foram 136.775 em 1979”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Catarata_31543.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-451" style="margin: 5px;" title="Catarata_3154" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Catarata_31543-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Na época, “a quase totalidade dos visitantes chega ao parque para conhecer as cataratas”. Ou seja, eles “permanecem na área somente o tempo necessário para percorrer a trilha, observar a paisagem e tirar fotos. Assim, a permanência mais significativa é no meio do dia”. Isso não mudou muito. Ou melhor, regulamentou-se. O parque funciona para o público das 9 da manhã às cinco da tarde.</p>
<p>&#8220;A justificativa desta curta permanência, de acordo com os próprios visitantes, se deve à falta de outras opções de lazer”, concluía o relatório oficial. Desde então, o caminho das cachoeiras se equipou com restaurantes e lanchonetes, lojas, rapel, canoagem, passeios de barco, percursos guias, trilhas para bicicletas – sem falar no museu, que sempre existiu e jamais entrou no programa dos turistas.</p>
<p>A multidão se espreme no horário regulamentar. Mas antes das nove e depois das cinco, nas primeiras horas da manhã, as melhores do dia, quando as quedas ficam rosadas e o sol baixo enche de arco-íris a névoa da Garganta do Diabo, e no fim da tarde, quando no verão ele se põe lá pelas oito e tanto da noite atrás dos saltos do lado argentino, batendo em cheio na margem brasileira, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/12/30/de-olho-na-moldura-das-cataratas/">as Cataratas do Iguaçu são o mais longo passeio que se pode fazer sem pressa num quilômetro e pouco de caminhada</a>.</p>
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