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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Parque Nacional do Iguaçu</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Diário de funcionário público</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Jan 2011 18:43:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Serviço Público]]></category>

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		<description><![CDATA[Rotina de funcionário público é a arte de contar as horas que faltam para o fim do expediente. Certo? Errado. Jorge Pegoraro, o chefe do parque nacional do Iguaçu, deu um jeito de esticar os seus dias como fotógrafo de natureza.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Pegoraro-e-Manu_2548.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1412" title="Pegoraro e Manu_2548" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Pegoraro-e-Manu_2548.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p><strong>U</strong>rgente e lacônico, o texto no celular avisa que “as cigarras estão dando sopa”, com a chegada do verão ao parque nacional do Iguaçu. Outro rascunho informa que uma onça-pintada foi vista dias atrás por funcionários da manutenção no quilômetro 26 da estrada que leva os turistas às cataratas. Um recado mais longo conta que “os ninhos de pássaros ao lado da casa 003 foram todos estraçalhados” por “gambá, tucano” ou outro predator “invisível”.</p>
<p>A 003 é a residência oficial do biólogo Jorge Pegoraro, chefe do parque e autor das mensagens. Ele fazia a ronda diária dos ocos e galhos no jardim, desde que a primavera povoou suas árvores de ovos e promessas. Está há quase oito anos no posto. E cada vez mais atraído pelas novidades que cercam seu cotidiano por todos os lados. Meses atrás, comprou uma máquina fotográfica. Passou a registrar seu dia-a-dia com a sofreguidão de quem pos as mãos em brinquedo novo e o conhecimento de causa de quem vê aquilo tudo sistematicamente, por dever profissional.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Socó_1618.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1413" title="Socó_1618" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Socó_1618.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>O dia-a-dia pode ser inexaurível, quando se tem sob sua jurisdição uma floresta de 185 mil hectares. Em poucas semanas de fotografia, Pegoraro tinha juntado uma fartura de imagens. No fim do ano passado, por exemplo, fez “um bonito (eu acho) jacaré (pequeno) no rio Iguaçu, numa volta de barco próxima à ilha dos Papagaios”.</p>
<p>Com as tardes alongadas pelo horário de verão, a cada fim de expediente, se a chuva deixar, ele pega o equipamento, atravessa em longos círculos o jardim e cai nas trilhas que fazem de sua casa um entrocamento de pegadas. Cruzam por ali rastros de catetos, de cutias, de cachorros-vinagre, de veados mateiros e de onças. Só com os pássaros que frequentam sua clareira daria para fazer um guia quase completo das aves do Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Flor-1109.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1414" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Flor-1109" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Flor-1109.jpg" alt="" width="250" height="363" /></a>Só volta depois que a noite cai. Usa uma Rebel T1, a reflex digital mais modesta da Canon. Contenta-se com lentes básicas. Passou batido pelo labirinto técnico dos manuais. Mas tem olho clínico, capaz de identificar na penumbra animais que parecem sombras e ver silhuetas onde aparentemente só há manchas escuras. Com esses trunfos, e a prerrogativa de morar no parque nacional, virou fotógrafo de natureza do dia para a noite. Foi a última virada de uma carreira que, sempre que entorta, aponta mais para o mato.  Ele nasceu em Curitiba, formou-se por lá em Biologia quando o diploma servia quase exclusivamente para dar aulas em sala e entrou para o serviço público, por concurso, via Sudepe. A superintendência da pesca deu-lhe o primeiro emprego no porto de Paranaguá, o extremo oposto do Iguaçu.</p>
<p>Chegou ao Oeste do Paraná em 1989, depois que a criação do Ibama fundiu as autarquias que tratavam de recursos naturais no governo. Pegoraro foi realocado no escritório do Ibama em Cascavel, quando as serrarias já haviam raspado os últimos retalhos de mato no município. Mas o escritório continuava expedindo licenças de desmantamento para as cidades retardatárias cuidarem das sobras.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Gralha_1047.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1415" title="Gralha_1047" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Gralha_1047.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>Ele não levou muito tempo para se convencer de que toda aquela região gravitava, em saber, em torno do parque nacional, cuja floresta é o maior investimento que os colonos conseguiram fazer na economia da região. Basta ver os dados oficiais sobre a economia de Foz do Iguaçu, a maior cidade da vizinhança. O turismo é, de longe, sua maior fonte de ocupação e renda. A &#8220;produção de energia&#8221; &#8211; ou seja, o produto da Itaipu Binacional, a maior hidrelétrica do mundo &#8211; vem em segundo lugar.</p>
<p>Jorge Pegoraro aproximou-se muito do parque na queda-de-braço com políticos locais, quando eles transformaram em questão de honra manter aberta <a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Lua-no-Salto-Floriano_07201.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1419" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Lua no Salto Floriano_0720" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Lua-no-Salto-Floriano_07201.jpg" alt="" width="312" height="454" /></a>a Estrada do Colono. Teve que defender a integridade da floresta contra os pontos de vista até de superiores hierárquicos, dispostos a entregar os pontos.</p>
<p>Acabou nomeado para dirigi-lo, em 1º de abril de 2003. Tem uma rotina complicada que inclui intermináveis reuniões para aparar as arestas e cauterizar os ressentimentos que sobraram da disputa. Encara frequentemente longas horas em viagens ao redor do parque, para manter a conversa em dia com quem mora no lado oposto ao da sede, a 200 quilômetros de distância. E discussões que quase sempre voltam ao ponto de partida. Pegoraro oferece projetos de parceria em turismo ecológico. E ouve pedidos de licença para a pesca esportiva nos rios da reserva.</p>
<p>Ele não abre mão de &#8220;saber tudo o que acontece&#8221; lá dentro, ouvindo mateiros, técnicos, guardas e operadores turísticos. Mas se considera até hoje incapaz de conhecer o parque como se deve &#8211; ou seja, “a fundo” . Seguir a rotina desse funcionário público entre o gabinete e a trilha revoga tudo o que se ouve falar por aí sobre preguiça burocrática.</p>
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		<title>A história de Manu, último capítulo</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Dec 2010 14:48:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Durou 55 dias a vida de Manu, o filhote de veado mateiro que foi achado em outubro no parque nacional do Iguaçu, ferido e desgarrado da mãe. Dias atrás, foi atacada por uma jaguatirica. Morreu no mato, o lugar certo. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2090.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1384" title="Manu_2090" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2090.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>M</strong>anu morreu. Teve uma vida breve a corça recém-nascida, encontrada em outubro no parque nacional do Iguaçu. Estava, na ocasião, levemente ferida e prematuramente separada da mãe por um predador frustrado – supostamente, uma irara. Em 17 de dezembro, uma jaguatirica atacou-a durante a noite, num ataque rápido e conclusivo.</p>
<p>Ela durou 55 dias. Mas deixou no parque uma extensa biografia, com seus passos documentados por fotografias, filmes e notas. Era um tema irresistível para quem a visitou na casa dos biólogos Marina Xavier da Silva e Alexandre Vogliotti, um lugar ermo, junto à usina hidrelétrica do rio São João, hoje sem máquinas e com ares de ruína. O endereço certo para quem prefere viver no mato, e quanto mais no mato melhor.</p>
<p>A casa fica na floresta que margeia o rio Iguaçu. Não tem vizinhos próximos. É o último lugar habitado da estrada de pedras brutas, estreita e sem acostamento, que desce da sede administrativa e termina, logo depois, numa pequena praia. É caminho de bicho e gente. Mais bicho do que gente.</p>
<p>Recolhida com dois diasde idade, Manu ganhou o nome de uma sobrinha de Vogliotti, que chegou ao parque como pesquisador de cervídeos e agora integra a equipe do projeto Carnívoros do Iguaçu, capitaneado por Marina Xavier da Silva, sua mulher. Ele passou do estudo das presas à intimidade com os predadores. E Manu se instalou bem no meio dessa encruzilhada vocacional.</p>
<p>O filhote passou as primeiras semanas num quarto da casa. Dormia em caixa de papelão, onde cabia de sobra. Mamava duas vezes por dia. Passava o dia num cercado, na sede do parque, acompanhando o casal durante o expediente. Todo fim de tarde, gastava as energias no quintal, aos saltos. Até que atravessou ao anoitecer o portão invariavelmente escancarado, embrenhou-se na floresta a poucos passos de casa e passou a dormir fora, como convem a um filhote de <em>Mazama americana. </em></p>
<p>Mas <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/11/14/quem-nasce-manu-nao-vira-bambi/">essa história já foi contada aqui</a>. A novidade veio dias atrás, num e-mail de Marina Silva que ensina, em poucos parágrafos e com muitos pontos de exclamação, um biólogo de campo a conciliar dever com sentimento. Começa informando que, “infelizmente”, naquela madrugada, “para nosso completo desespero, uma jaguatirica atacou” Manu.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/ManuMorta.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1385" title="ManuMorta" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/ManuMorta.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>Para que ninguém estranhe esse “infelizmente” e o “desespero”, é bom não perder de vista que se tratava de um animal que passara de doméstico em outubro para selvagem em novembro, sem deixar o convívio do casal. “Ela crescia linda”,  “continuava com suas brincadeiras vespertinas” e, naquela noite, “havia escolhido para dormir um lugar bem perto de casa”. E assim eles a ouviram  “berrar desesperadamente no momento do ataque”.</p>
<p>“Corremos, gritamos por ela, mas a jaguatirica foi rápida e precisa!” Expor-se aos riscos da vida silvestre, lembra Marina, fora “escolha nossa e dela”. Senão, teriam salvo uma corça incapaz de sobreviver no mato. Logo, destinada ao confinamento num zoológico, por falta de traquejo em seu habitat. “Foi duro ouvi-la berrar”. Mas “a natureza é dura mesmo”. E eles dois estão no Iguaçu a trabalho.</p>
<p>Meia hora depois de ouvir o berro, Vogliotti encontrou a carcaça de Manu “na borda da mata”. O casal suspeitou de cara que aquilo era obra de jaguatirica. E não podia dormir sem testar a suposição. Morta, Manu era isca. Armaram uma armadilha fotográfica perto do corpo. E a máquina flagrou o autor de volta à cena do crime. Era mesmo jaguatirica. “Um macho grande, cumprindo exatamente seu papel de predador”, comenta Marina em sua mensagem.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_21693.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1389" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Manu_2169" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_21693.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>Dito isso, na frase seguinte ela exclama: “MALDITO!! Podia ao menos ser uma onça-pintada”. Onça-pintada, sim, é uma espécie cada vez mais rara no parque. Depois de uma temporada de visibilidade até excessiva em meados de 2010, quando todo nmundo parecia topar com ela, sumiu de uma hora para outra, driblando há meses os esforços dos pesquisadores que buscam por todo canto sinais de sua presença. Só neste fiunalzinho de dezembro deu o ar de sua graça, avistado por um funcionário da concessionária que explora o tutrismo nas Cataratas. Estava no quilômetro 26 da BR-469.</p>
<p>Restaram de Manu histórias e imagens. Vogliotti, “mesmo tendo uma boa experiência com os cervídeos”, admite que se surpreendeu “com o nível de interação que ela estabelecia conosco”, em “lutinhas, correrias, expedições pela mata, o rio Iguaçu e a cachoreira do São João”. Vogliotti acabou se convencendo de que Manu parecia “realmente se divertir nessas atividades”.</p>
<p>Ele pretendia estudar o processo de reintegração de Manu ao Iguaçu. Ela “continuava firme no objetivo de viver na mata”, ele escreve. “Ia lentamente ampliando seus horizontes. Revezava seus repousos/pernoites entre uns tres ou quatro sítios diferentes, que iam até perto da usina do São João, acima ou abaixo da trilha. Alguns eu nunca consegui localizar exatamente”.</p>
<p>Andava cada vez mais independente. “Pela manhã, ela atendia prontamente ao nosso chamado”, conta Vogliotti. “Mas, no fim da tarde, demorava mais a nos procurar e ficava um bom tempo consumindo brotos e folhas diversas, aqui e ali. Não cheguei a catalogar todas as plantas que ela vinha provando, mas sei de tres espécias, ainda não identificadas, pelas quais tinha predileção considerável”.</p>
<p>Às vezes, ele e Marina tinham que buscar Manu no mato “para mamar em tempo hábil”. E houve uma tarde em que desistiram de esperá-la. “Apareceu na tarde do dia seguinte, faminta, exigindo sua mamadeira aos berros (gravados pela Marina} e dando cabeçadas em quem quer que aparecesse à sua frente. Mamou um litro e meio em sequência”.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2538.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1398" title="Manu_2538" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2538.jpg" alt="" width="409" height="273" /></a></p>
<p>Tomava leite “de caixinha”, reforçado com “ração de gato moída”. Não se adaptou a “um sucedâneo comercial para bezerros”, que lhe provocou uma semana de diarréia – um indício do que esses bezerros desmamados andam engolindo por aí. A não ser por “breves lambidas” para saciar a curiosidade, Manu jamais bebeu água, “apesar de sempre demonstrar uma grande atração por ela. Quando íamos aos rios, ela sempre entrava na água até a altura da barriga”.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Costumava lambrer-lhes os braços. “Pensávamos que fosse pelo sal”, quase sempre deficitário na dieta da floresta. “Conseguimos um pouco de sal mineral (de uso pecuário) na intenção de suprir esses nutrientes, mas não teve o efeito esperado”. Ela provava a novidade e nem por isso deixava de lambê-los, talvez mais por “ interação social” que por necessidade “nutricional”. Lambia também a cabeça de Vogliotti. “E passava um bom tempo assim, se eu permitisse”.</p>
<p>O diário de Manu mal estava começando. E ficará para sempre incompleto. “Agora os fins de tarde custam muito a passar para a gente”, conclui Marina. Resta ao casal o consolo “de ver o parque funcionando”. Ou seja, com predadores e presas, como mandam os preceitos da conservação ambiental. “Mas podia não ser com a Manuzinha, não é mesmo???!!!”</p>
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		<title>Quilombola, mas só nas horas vagas</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/10/16/mateiro-por-oficio-quilombola-por-acaso/</link>
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		<pubDate>Sat, 16 Oct 2010 21:48:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Populações Tradicionais]]></category>
		<category><![CDATA[Turismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Guia de ecoturismo num fundo do parque nacional que quase ninguém visita e quilombola por obra e graça de uma largueza do governo, Almiro Marcelino Pereira administra sozinho um tesouro turístico que o Brasil ignora. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Miro_9539.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1268" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Miro_9539" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Miro_9539.jpg" alt="" width="277" height="410" /></a>A</strong>s perneiras de couro, contra picadas de cobra, são inseparáveis do ritual de ingresso na Linha Martins. Mas vêm do estoque cheirando a mofo, apesar da discreta espanada que lhes deu o guia, antes de entregá-las. E não adianta dizer que sabe andar no mato, não tem medo de cobra ou faz calor. É a norma, Miro responde.</p>
<p>Ele se chama Almiro Marcelino Pereira. Mas, como avisou de véspera, pelo celular que não faz, só recebe chamadas, não adianta procurá-lo por esse nome nos confins do parque nacional com o município de São Miguel do Iguaçu, onde uma estrada de terra magra como um aceiro costeia a floresta e a soja. “Aqui, todo mundo só conhece o Miro”.</p>
<p>A divisa do parque com o município é um corte reto, traçado a máquina. E tão estreito, que a sombra das copas à tarde se projeta na margem das plantações. Nos dias mais quentes, é seu único anteparo contra o sol que cai sobre os campos como uma praga dos céus. Aprender o apelido é indispensável porque sem Miro não se vai à Linha Martins.</p>
<p>Também não adianta procurá-lo diretamente no portão de entrada, porque ali ele vai pouco. É um escritório caprichado, feito pela Macuco Safari com toras de eucalipto. Tem pórtico na frente, varanda nos fundos, virada para floresta, e até enfermaria. Mas turista é o que Miro menos vê na Linha Martins, desde que passou a operá-la lá vão mais de cinco anos.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Linha-Martins_9563.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1269" title="Linha Martins_9563" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Linha-Martins_9563.jpg" alt="" width="403" height="269" /></a></p>
<p>Onça, sim, é visita que não lhe falta. Cada avistamento de onça, pintada ou não, está metodicamente inscrito, com dia, hora e local, na planilha da administração. O resto da fauna não merece tamanha consideração. Miro perdeu a conta das varas de porcos do mato, dos bandos de macacos, das antas e das jaguatiricas com que topou em suas andanças, capinando regularmente uma trilha que, por falta de uso, está sob o risco permanente de invasão pelo mato.</p>
<p>A prática tirou-lhe o pavor que tinha das jararacas, cascavéis e outras serpentes que lhe atravessam habitualmente o caminho. Mas as perneiras continuam sagradas. Miro nasceu em Minas Gerais. Seus pais se mudaram para o Paraná quando ele tinha um ano de idade. Morou em outros lugares. Mas cresceu bem atrás do parque, sem nunca pisar lá dentro. Trabalhava na lavoura, quando achava serviço. O mato não o atraía. Ao contrário, metia-lhe medo, com suas histórias de bichos brabos.</p>
<p>Ele se criou num antigo fundo de fazenda, loteado pelos herdeiros em pequenos sítios de um alqueire. A maioria dos lotes foi comprada por negros.  São menos de 30 pessoas, ao todo. Poucas, mas o bastante para, em terra de louros descendentes de imigrantes alemães, italianos ou poloneses, fundarem ali sem querer um lugar conhecido localmente como a &#8220;Vila dos Pretos&#8221;.</p>
<p>Como Vila dos Pretos, uma comissão de Curitiva reconheceu-a como Comunidade Quilombola da Sanga Funda. Com o título vieram promessas de mais terras, sementes gratuitas e outras prerrogativas oficiais de quilombo. Nem tudo saiu. Masw Miro não deprecia as vantagens de virar quilombola. “As pessoas assim nos tratam com mais consideração”, ele garante.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Linha-Martins_9559.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1270" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Linha Martins_9559" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Linha-Martins_9559.jpg" alt="" width="299" height="448" /></a></p>
<p>A picada corta o parque de um lado a outro, em menos de quatro quilômetros, a menor distância entre seus limites. Já se pensou em extirpar essa verruga florestal da unidade de conservação, encravada como está numa fronteira agrícola sempre em avanço. A demarcação definitiva preservou-a. E a Linha Martins foi uma compensação, para calar as críticas de que o parque fica de costas para quem mora longe de seus portões.</p>
<p>Nisso, fracassou. Ela recebe raros visitantes. E da vizinhança, até hoje, não veio ninguém. Só o prefeito de São Miguel do Iguaçu passou por lá na inauguração, sem parar para ver o que havia além do pórtico. Miro, no entanto, mantem a picada pronta para o que der e vier, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/10/12/um-recorde-historico-atras-do-outro/">desde que foi convocado pelo dono da Macuco, Ademir dos Santos</a>, em termos peremptórios: &#8220;Você vai trabalhar comigo&#8221;. Miro estava desempregado. E acabara de ouvir de um mendigo que receberia uma proposta. Aceitou-a.</p>
<p>Ele aplica ao pé da letra o regulamento para a recepção de grupos, mesmo se atende um visitante desgarrado que lhe sugere, à falta de testemunhas, esquecer aquela história de calçar perneiras. É um mateiro cioso e tarimbado, que aprendeu a gostar de mato na Linha Martins. Mas vive num país que só consegue enxergá-lo como quilombola.</p>
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		<title>A arte de devolver bichos ao mato</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Oct 2010 14:54:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Há um ruído característico de animais esquivos correndo no mato que acorda os instintos de caçador até no mais pacíficista dos fotógrafos de natureza. E aquele parecia aos ouvidos ser um bicho muito especial. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quati-Represa_0890-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1245" title="Quati Represa_0890 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quati-Represa_0890-copy.jpg" alt="" width="453" height="302" /></a></p>
<p><strong>B</strong>icho! Só pode vir de camadas profundas do cérebro humano, onde sobraram circuitos de caçadores ancestrais, a reação imediata de todos os sentidos ao primeiro sinal de que alguma coisa está fugindo às pressas de nosso caminho, quando se anda no mato.</p>
<p>No caso, era a velha trilha da represa, na verdade uma estrada antiga que a vegetação vai espremendo num corredor sinuoso entre árvores centenárias e, agora, com as copas rebrotando depois do inverno, consegue se manter sombria mesmo debaixo do sol a pino.</p>
<p>É um percurso tão batido que as primeiras deduções vêm sozinhas, sem necessidade de pensar. Fica, de cara, descartada a hipótese de ser a cutia do costume, que mora perto de casa e dispara com a nossa chegada como se não estivesse farta de ver gente. Sua toca ficou centenas de metros para trás.</p>
<p>Teiú também não era. Falta lugar para um lagarto aquecer o corpo no terreno sombreado. Sem contar que ele, arrastando um rabo maior do que o corpo, faz barulho demais na serapilheira para um animal de seu porte. O que se ouviu há menos de um segundo  foi o ruído nas folhas de patas cautelosas mas ligeiras.</p>
<p>Gato? Não. Seria sorte demais topar com o menor felino que fosse, assim, sem mais nem menos, à luz do dia. Mas uma irara que viesse já valeria o desvio, como diz o guia Michelin das coisas que obrigam o turista digno do nome a mudar de roteiro.</p>
<p>Irara mesmo, na certa, porque alguns adiante acabou subitamente o farfalhar nas folhas e os ramos da vegetação rasteira começaram a se mexer, como se soprasse um foco de vento no ar parado. Tronco acima, na primeira forquilha ela estacou.</p>
<p>Dava para enxergar vagamente um retalho ou outro de seu vulto através da folhagem. Mas não chegavam a compor uma figura reconcível. Imóvel como estava, meio dissolvida no ambiente e sem mexer um músculo, era menos uma visão do que um pressentimento.</p>
<p>Certamente me olhava, de seu poleiro. Deve ter seguindo o braço que se esticava para trás, tateando silenciosamente na mochila a teleobjetiva. O gesto acabou acordando nas veias a memória de algum antepassado longínquo que se contorseu assim para catar a flecha na aldrava.</p>
<p>Em seguida, foi preciso achar, andando de lado, um passo, para, um passo, para, até tirar da frente os galhos que escondiam a presa. Foi aí que encarei o quati. Ou seja, o bicho que eu menos esperava. Aqui mesmo, no Iguaçu, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/brabeza-de-onca-e-maldade-de-cacador/">já fotografei onças pintadas com menos adrenalina</a>.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quatis_0544.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1242" title="Quatis_0544" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quatis_0544.jpg" alt="" width="409" height="272" /></a></p>
<p>O quati é o tipo da espécie que se encontra a três por dois, atravessando em fila no meio do parque o asfalto da BR-469, enfiando-se em lixeiras como se fossem tocas de plástico verde ou subindo em mesa de lanchonete, para roubar comida. Em vão as placas no parque pedem para não alimentar quatis. Centenas de vezes por dia, a bordo dos ônibus que ligam os portões de entrada às Cataratas um discurso gravado repete, em três línguas, que os quatis são “selvagens” e podem transmitir sabe-se lá que doenças tropicais.</p>
<p>Ninguém dá a mínima para o aviso. Pudera. Nada mais parecido com um animal doméstico do que um quati de olho no seu prato. Outro dia mesmo topei com uma visitante argentiba que segurava a pata de um quati com a mão esquerda, para se fotografar a seu lado com o celular na mão direita. Trata-se de um desses animais que o excesso de convívio humanizou demais. Humanizou tanto, que o transformou numa caricatura de nós mesmos. Humanizado e caricato, vivendo na fronteira cinzenta da natureza com os vícios domésticos, o quati se torna uma criatura meio desprezível.</p>
<p>Já me peguei mais de uma vez esperando ele sair do enquadramento para fotografar o parque. Ou seja, limpando a realidade com métodos inspirados na censura stalinista. E agora estava ali, encarando o mesmíssimo animal com uma lenta pesada, ambos posando um para o outro como legítimo representante da vida primitiva e selvagem. A fotografia só saiu porque o dedo indicador aperta o botão da máquina por sua própria conta.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quatis-Turistas_0537.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1241" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Quatis &amp; Turistas_0537" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quatis-Turistas_0537.jpg" alt="" width="254" height="363" /></a></p>
<p>Era hipnotizante a transfiguração do quati em fauna nativa de pleno direito. Isso dias depois de fotografar, numa ponte metálica na margem argentina, o momento em que um bando de quatis deu de cara com uma parede humana de turistas e câmeras portáteis, todos esperando para clicá-los como roqueiros a caminho do palco.</p>
<p>Deve ser difícil ser quati com o mínimo de naturalidade num cenário desses. Tudo porque o bicho é capaz de tudo no chão ou em cima de uma árvore, mas não quer saber de entrar na água. E por isso não teve outro remédio senão agüentar o assédio até o fim, quando, um a um, assim que o primeiro deu o aviso de terra à vista, pulou de lado e sumiu no mato. Os quatis, naquele caso, estavam a um pequeno salto da dignidade.</p>
<p>Aquele, não. Talvez fosse o remanescente de uma ninhada que foi parar na barriga de um predador. Solitário, arredio e e decidido a pagar para não ver ou ser visto, quando o dispradador da câmera começou a sussurrar, ele escalou a árvore até os últimos galhos e desapareceu no dossel da foresta tropical.</p>
<p>Deixou para trás uma aula que espero seguir daqui para a frente. Dificilmente haverá hoje no mundo animal raro ou feroz que não tenha a vida íntima devassada em detalhes quase pornográficos pelas modernas técnicas de filmagem ou fotografia de natureza. Mas falta fotografia para mostrar que até o bicho mais banal também não é gente e que parque nacional, por mais que seja criado para divertir as pessoas,está longe de ser um mafuá.</p>
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		<title>O medo do mato como o povo gosta</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Sep 2010 23:39:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Colonização]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Numa série inédita de vídeos, entre depoimentos de ex-diretores do Iguaçu e descendentes de pioneiros, a entrevista de uma ex-moradora do parque destoa pelo horror ao mato. Mas é história típica da fronteira.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Teiú_2738-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1207" title="Teiú_2738 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Teiú_2738-copy.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>A</strong> residência oficial do diretor, onde morou por 15 dias só para não deixar a casa inteiramente deserta, era “meio assombradona”. Uma tarde, no atalho para o antigo museu, um tatu cruzou-lhe o caminho, e ela correu, “com um bebê no colo”, até encontrar uma porta aberta para trancar-se.</p>
<p>Aquele tatu até hoje povoa seu bestiário particular como um “bicho com capa nas costas”. O tamanduá, para ela, é quase um monstro “que come formiga” e encarou-a como se escolhesse a próxima vítima. No primeiro outono que passou na borda da floresta, mal as árvores da careira começaram a despejar frutos no chão, ela se viu sitiada por feras inomináveis, que saíam do mato para comer diante de suas janelas. Todos a assustaram, a começar pelo miúdo e sociável quati. Mas nada se comparava ao susto que lhe deu “aquele dos chifres para todo lado”. Ou seja, o veado mateiro, que nem tão chifrudo é assim.</p>
<p>Pior, só o dia em que encontrou na cozinha um lagarto “com um rabão enorme”. Correu para o quarto. Voltando à noitinha do serviço, o marido encontrou-a ainda de pé, em cima da cama, com a filha nos braços. “É só um teiú”, ele disse, tocando-o com uma vassoura para o terreiro.</p>
<p>Esse depoimento de 23 minutos consta das 40 entrevistas gravadas em DVD para o <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/10/22/iguacu-um-parque-com-saga-e-historia/">Projeto Memória das Cataratas</a>, uma iniciativa de de dois pesquisadores e de uma agência local de publicidade, que em 2008 vasculhou os guardados e as lembranças de famílias pioneiras, para contar na primeira pessoa a história da colonização de Foz do Iguaçu.</p>
<p>A cidade ficava para esses colonos nos cafundós do Oeste paranaense. E nela a maior parte do que agora vai sumindo no passado remoto tem pouco mais de meio século. Mas continua visível e vistável nos 185 mil hectares do parque nacional do Iguaçu, que em janeiro do ano passado completou 70 anos. Ouviram-se de preferência os descendentes dos primeiros colonizadores e antigos funcionários do Iguaçu. Inês é exceção.</p>
<p>No aniversário do parque, o Memória das Cataratas virou livro e exposição de fotos antigas. Sobraram as entrevistas em vídeo, guardadas em caixas de papelão onde, pelo esquecimento, tornaram-se em pouco tempo duplamente históricas. Quem abre hoje a caixa se espanta, antes de mais nada, com a memória que se está perdendo outra vez de 2008 para cá.</p>
<p>Como é o caso do depoimento de Inês, tão íntimo e destampado que é melhor nem publicar aqui seu nome completo. Ela não parece falar para a câmera. Ignora as perguntas dos entrevistadores. Disserta sem a menor censura sobre sua própria vida, desde que trocou Santo Antônio do Oeste, um lugar “muito ovo”, pela cidade grande de Foz do Iguaçu. “Eu era muito ambiciosa”, esclarece.</p>
<p>Aos 15 anos, trabalhando “como garçonete do hotel Carimã”, viu passar pela estrada seu futuro marido. Ele vinha do batente numa pedreira próxima, e chamou-lhe a atenção pela “sujeira”. Acabaram se conhecendo numa festa. Inês casou grávida e depressa. Pouco depois, como o casal precisava arrumar a vida, eles fizeram juntos o concurso para funcionário do parque. Ambos passaram. Mas, por norma do serviço público, só um poderia ser contratado. Ele virou guarda. E, num belo dia de 1978, foi buscá-la “na viatura” para lhe mostrar a nova casa.</p>
<p>Quando viu aonde sua vida iria parar, Inês teve “muito medo”. Medo “de tudo”. Em suma, “medo do mato”. O casal começou a brigar ali mesmo. E brigou até separar-se, cinco ou seis anos depois. O casamento ia tão mal que ela tomou tudo o que lhe sugeriram para abortar o segundo filho. Nasceu uma menina forte.</p>
<p>O relato de seu inferno conjugal no inferno verde consome, com profusão de detalhes, pelo menos metade do depoimento. Até que, de repente, depois de descrever situações melodramáticas ela começa a chorar, mas não pelo casamento perdido. Conta que sente agora saudades de tudo &#8211; da casa, das cataratas, dos filhos crescendo em segurança longe das tentações urbanas, do <em>playground</em> sem fim que eles tiveram na primeira infância e até do forno de pão ao ar livre.</p>
<p>“Já trouxe meus netos aqui”, diz ela. Não encontrou mais a casa em que morava. Foi posta abaixo na atual administração, cumprindo uma exigência do plano de manejo, que quer um parque menos edificado. Nem por isso deixou de levá-los para ver o que já não existe: “Ali era o quarto da avó, o banheiro da avó&#8230;”</p>
<p>Nesse ponto, depois de fazer tudo para dar a impressão de que entrara no Memória das Cataratas por engano, Inês se transforma, na melhor testemunha da tragédia histórica que é a relação dos brasileiros com sua floresta. Inacabado como os outros, seu DVD nasceu clássico.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A campanha do guaxe é mais animada</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/09/10/a-temporada-dos-guaxes-e-mais-viva/</link>
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		<pubDate>Fri, 10 Sep 2010 12:56:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Primavera]]></category>

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		<description><![CDATA[Nem a presença do presidente Lula e sua candidata Dilma Rousseff conseguiu abafar, no começo do mes, a campanha matrimonial dos guaxes, que aos berros tecem seus ninhos nas palmas das jerivás.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxos_MG_9854.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1176" title="Guaxos_MG_9854" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxos_MG_9854.jpg" alt="" width="415" height="272" /></a></p>
<p><strong>O</strong>s guaxes andam tão ocupados com a tecelagem de seus ninhos nas palmas das jerivás que, neste começo de setembro, o presidente Lula e sua candidata Dilma Rousseff conseguiram lotar por dois dias, com suas comitivas, o hotel das Cataratas, sem abafar a voz desses pássaros, em plena campanha de acasalamento.</p>
<p>Eles, sim, sabem se esgoelar sem marqueteiro nem horário gratuito. Qualquer galho lhes serve de palanque, mesmo que seja de cabeça para baixo. Sobretudo, eles cumprem suas promessas antes de serem eleitos. Tudo indica que é um trunfo nupcial decisivo entre os <em>Cacicus haemorrhous</em> a habilidade pegar primeiro a melhor ponta da palmeira, para costurar na palha um ninho pênsil que pareça, ao mesmo tempo, resistente ao vento e mais comprido que o temível bico dos tucanos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxos_MG_9833.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1177" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Guaxos_MG_9833" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxos_MG_9833.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>Isso é pura especulação de jornalista. Mas, pelo menos nas jerivás do Porto Canoas, no final da trilha das Cataratas, até agora os ninhos mais espaçosos e bem situados abrigavam casais. Continuavam solteiros os retardatários, que se esfalfavam sozinhos para improvisar a instalação de um domicílio modesto lá no alto.</p>
<p>Lá em cima, aparentemente, ficam os barracos dos guaxes. São notoriamente mais acanhados e expostos aos inconvenientes da construção irregular em lugares perigosos. Presume-se que chegue primeiro à ponta das palmeiras os predadores. Sem contar que não há como dobrar aquelas palmas ainda novas, apontadas para o céu, nos arcos elegantes em que se penduram os cestos alongados, típicos dos endereços mais valorizados na confraria dos guaxes.</p>
<p>Pior, só lá embaixo. Junto ao tronco das jerivás pendem, vazios, os ninhos do ano passado. Guaxo nenhum se arrisca a ocupá-los em segunda locação, talvez porque as folhas que lhes servem de alicerces, agora secas, tendem a cair de uma hora para outra, na primeira tempestade.</p>
<p>Os solitários ficam também mais sujeitos que os casados a perder um pedaço de seu patrimônio imobiliário assim que viram as costas para buscar mais fios no mato para tecer seus ninhos. O roubo do material de construção, entre os guaxes, parece comum. Ou natura. Mas provoca brigas ruidosas a até combates aéreos, com manobras que lembram os malabarismos alados da Primeira Guerra Mundial. Só que, no caso, sem baixas a festejar ou lamentar.</p>
<p>São bichos paradoxais, os guaxes. Pássaros negros, porém coloridos, com berrantes bicos <a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxos_MG_9828.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1178" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Guaxos_MG_9828" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxos_MG_9828.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>amarelos, olhos azuis e uma viva mancha vermelha no dorso, que os denuncia à distância, cada vez que abrem as asas. São grandes, porém tímidos, senão pusilânimes. Vivem juntos em comunidades numerosas, porque essa não deixa de ser sua maneira de se esconder.</p>
<p>Sua única reação de defesa é o barulho atordoante que produzem sob ataque. Não resistem a invasões. E muito menos enfrentam inimigos jurados. Preferem a presença humana ao risco de viver num mato povoado por tucanos. Devem confiar na probabilidade estatística de que, juntando muitos ninhos, não haverá tucano que dê conta de todos os filhotes. Se é assim, a vítima pode ser a prole do vizinho, não a sua.</p>
<p>Vivem em condomínio. E todo mundo que já viveu em condomínio sabe que isso é um bate-boca permanente, a serviço da hierarquia e da demarcação de território. Pelo menos é assim a vida social dos corvos, que passou a ser minuciosamente esquadrinhada pelos ornitólogos desde que Konrad Lorenz encontrou dentro daquelas pequenas cabeças negras cérebros capazes de malícias e cálculos assombrosos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxo_1402.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1179" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Guaxo_1402" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxo_1402.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>Entre os corvos, as disputas essenciais da existência, seja por comida ou reprodução, ficam previamente acertadas entre vencedores e perdedores vitalícios. Essas prerrogativas se derramam em cascata pelo bando abaixo, via parentesco, amizade ou aliança política. Quem é amigo de quem manda manda em quem obedece. E isso vale inclusibe nas menores bicadas cotidianas. Mais ou menos como acontece no país com os empregos públicos, quando um partido chega ao poder.</p>
<p>Dois ou três dias de nariz para cima debaixo das jerivás apinhadas, vendo os guaxes se ajeitar para a próxima primavera, não dá a ninguém o direito de insinuar que, como os corvos, eles convivem estreitamente num regime de castas. Mas não há dúvida que estão empenhados o tempo todo em debates vitais. Há muito tempo o presidente Lula não passava tão perto de uma autêntica corrida pelo poder, quanto em sua breve hospedagem no parque do Iguaçu.</p>
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		<title>De volta ao parque, com mil desculpas</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Sep 2010 17:33:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Estiagem]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Primavera]]></category>

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		<description><![CDATA[Como recuperar três semanas de ausência no parque nacional do Iguaçu? Dando baixa no tempo perdido, que só volta no ano que vem, e correndo atrás das novidades da estação, que também passam depressa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Rio-Iguaçu_9793.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1162" title="Rio Iguaçu_9793" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Rio-Iguaçu_9793.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>T</strong>rês semanas de ausência são ausência que não acaba mais no parque nacional do Iguaçu. Pode-se passar um tempão sem notícia fresca do país que fica em volta do parque e se chama Brasil. Na volta, está tudo mais ou menos como se deixou na véspera – a campanha presidencial, a popularidade esfuziante do esfuziante presidente Lula, as enquetes eleitorais.</p>
<p>Aqui, não. Um pedaço do ano que passa é quase um ano inteiro perdido. As coisas mudam da noite para o dia. E só voltam, se voltarem, 12 meses depois. Em agosto, a mata estacional semidecídua estava cheia de folhas no chão e quase toda desfolhada nas copas mais altas.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões_9201.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1163" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Andorinhões_9201" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões_9201.jpg" alt="" width="274" height="410" /></a></p>
<p>Via-se através da floresta como se ela estivesse transformada numa cortina amarelada e diáfana, pronta para um inverno seco que, a rigor, não veio. Durante a maior parte da estação, pisava em barro vermelho sob um sol que caía no chão da mata, despertando toda a vegetação rasteira que, por falta de luz, hiberna no verão.</p>
<p>Mas o inverno que a mata esperava dá para contar nos dedos. Foram dias esparsos, às vezes gelados, que amanheciam tampados pela névoa e freqüentemente acabavam em tardes esplendorosamente ensoladados.</p>
<p>Em vez do inverno, veio foi uma primavera antecipada, de dias quentes e noites frescas. Pelo visto, as árvores do Iguaçu, reguladas por seus relógios internos, não estão nem aí para as circunstâncias meteorológicas. Porque agora, com a estiagem começando a sério, as cataratas minguando e o rio se encolhendo entre barrancos dia a dia mais altos, a mata está se recobrindo de folhas novas, tenras e luminosas.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Jacaré_9779.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1164" title="Jacaré_9779" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Jacaré_9779.jpg" alt="" width="386" height="272" /></a></p>
<p>Em outras palavras, a postos para fabricar oxigênio, bombeando água de um solo finalmente meio ressecado. Dito assim, parece que a paisagem enfeiou-se. Que nada. Se os parágrafos acima soaram assim, só pode ser despeito de quem perdeu irremediavelmete o espetáculo dessa mudança súbita e radical.</p>
<p>Neste monento, o Iguaçu é, antes de mais nada, das serpentes e dos lagartos, que estão saindo de um longo recesso. Dos pássaros que preparam ninhos. Dos andorinhões-velhos que voltaram a varar a muralha d’água para se pendurar a pino nas pedras atrás das cataratas. Das andorinhas-do-rio, que caçam insetos nas corredeiras e acabam de recuperá-las, com o afloramento das rochas submersas. Os patos selvagens. Todos os bichos que andaram meio sumidos estão de regresso, vindos sabe-se lá de onde.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Biguás_9518.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1165" title="Biguás_9518" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Biguás_9518.jpg" alt="" width="403" height="285" /></a></p>
<p>Navegar no Iguaçu ficou mais difícil para os pilotos do Macuco Safari, obrigados a esgueirar os barcos por estreitos corredores de pedra. Mas, com os barrancos escancarados pelo recuo das águas, melhorou muito para os passageiros. Não há mais roteiro que não exclua os jacarés-de-papo-amarelo, invariavelmente coroados por guirlandas de borboletas coloridas, que devem enxergar suas escamas como salinas vivas mas imóveis, à disposição de suas trombas.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Jacutinga_9469.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1166" title="Jacutinga_9469" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Jacutinga_9469.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Em resumo, o que se perde em três semanas fora do Iguaçu pode ser inestimável. Mas o que se ganha com a aceleração de sua primavera é assunto demais para este recomeço de conversa. Será o assunto das próximas fotografias e reportagens. E com elas se espera que a ausência seja perdoada.</p>
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		<title>O Brasil tem lugar para uma onça?</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Aug 2010 13:16:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Trazem más notícias os dados coletados em dois meses de andanças pelo rádio-colar instalado num filhote de onça no Iguaçu: Pança gosta de lugares cheios de gente e de animal doméstico solto onde não deveria.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Onça-PNI_74652.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1128" title="Onça PNI_7465" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Onça-PNI_74652.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>C</strong>ravejado de pontos luminosos, o mapa brilha na tela. Mas o que mais se nota diante do computador é a sombra de dúvidas cruciais, franzindo a jovem testa da bióloga Marina Silva. Da ex-ministra do Meio Ambiente e atual candidata à presidência da República, ela tem o nome, não as certezas inabaláveis. E, como chefe do projeto Carnívoros do Iguaçu, encara neste momento um exemplo concreto de que, na conservação da natureza, as grandes encrencas podem vir até de soluções que pareciam caídas do céu.</p>
<p>No mapa está gravado, como um chão de estrelas, o diário íntimo de Pança, o filhote de onça pintada que virou o assunto do ano no Parque Nacional do Iguaçu. Ele veio ao mundo com um irmão. São dois machos. Não poderia haver melhor cacife do que uma dupla como essa para apostar na perpetuação da espécia, numa região onde talvez não sobrem 25 onças pintadas, em dez mil quilômetros quadrados de retalhos florestais, que vão Paraná ao Rio Grande do Sul, passando pelo Paraguai e pela Argentina.</p>
<p>Pança foi seguido durante dois meses por satélite. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/">Ganhou o rádio-colar em maio, ao ser flagrado comendo um bezerro</a>. Deve o apelido à barriga estufada de carne fresca e fácil, predada nos rebanhos que indevidamente confinam com o parque. Dois meses depois, havia crescido tanto que, para não estrangulá-lo, o aparelho foi solto por controle remoto. Estava a exatamente 380 metros do local onde o instalaram. Pudera. Ali, o proprietário cria cabritos soltos no mato, para fingir que tem reserva florestal, sem abdicar ao uso de cada metro quadrado do terreno.</p>
<p>Pança pode estar errado. Mas na ilegalidade estão os donos de sítios, casas de veraneio e fazendas. Atraído pelas tentações da marginalidade geral, Pança ficou a maior parte do tempo zanzando fora do parque. Usava nessas idas e vindas as margens do rio Iguaçu, que têm mata ciliar, embora em vários trechos ela se resuma a um diáfano biombo de árvores. Nessas aventuras mundanas, ele beirou casas de campo e fundos de hotéis. Num deles, o Canzi, usou fartamene como latrina uma construção abandonada no mato. Esteve perto da Vila Carimã, bairro residencial densamente povoado. Correu o risco de subir o rio Tamanduá e bater diretamente na área urbana de Foz do Iguaçu.</p>
<p>Mesmo no interior do parque, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/brabeza-de-onca-e-maldade-de-cacador/">ele circulou de preferência junto às áreas de visitação intens</a>a. Tirou vários finos das residências de funcionários, flanou pela sede administrativa, cruzou insistentemente trilhas reservadas ao ecoturismo e tomou gosto pelo hotel das Cataratas – <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/08/a-onca-pintada-na-era-do-foguete/">cujos arredores ostentam outra fulgurante constelação de pontos amarelos, assinalando sua presença</a>. O hotel é de cinco estrelas. Mas Pança não refugou a boia dos operários que, trabalhando na reforma das instalações, jogam restos de comida na beira da floresta.</p>
<p>Pança atravessou duas vezes o rio para se internar nas matas do lado argentino. Mas sempre voltou depressa ao Brasil, talvez porque encontrou por lá um território ocupado por macho adulto. No Brasil, praticamente ignorou a área intangível do Iguaçu, onde em princípio deveria encontrar sua floresta cativa.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Com ele vai seu irmão. Os dois ainda não separaram e, onde aparecem, em geral vêm juntos. Dias atrás, foram ao Macuco Safari, cujo programa oferece aos passageiros sustos na forma de corridas no cânion em barcos infláveis, não de encontros com onças pitadas. Os guias trataram de expulsá-los dali com rojões. Fugiram. Mas, no domingo seguinte, estavam lá de volta, como se nada tivesse acontecido.</p>
<p>E, por falar em fim-de-semana, no passado a dupla atravessou o asfalto a uns 300 metros do portão e tomou a estrada de terra qur desce para o barranco do Iguaçu. Pelo rumo, ia visitar mais uma vez o rebanho de cabritos criados ao deus-dará.</p>
<p>Marina Silva tem, portanto, duas onças para devolver ao que restou de vida selvagem no Oeste do Paraná. Talvez, cercando o parque. Porque não dá para educar ao mesmo tempo duas onças e tanta gente mal acostumada a conviver com unidades de conservação.</p>
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		<title>Dois surucuás e uma história sem fim</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Aug 2010 16:05:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Aves]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[É época de acasalamento dos surucuás, os pássaros mais vistosos e discretos da temporada. Seu canto em surdina está em todo parte. E seu vulto imóvel também. Mas um casal resolveu fazer ninho bem diante da janela, na sede do parque.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0790-Edit.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1109" title="Macho_0790-Edit" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0790-Edit.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>O</strong>s bichos às vezes dão a impressão de saber que, aqui no Iguaçu, vivem num ambiente de regalias administrativas. Senão, como explicar que, com tanta mata a seu redor, aquele casal de surucuás veio se empoleirar logo nos galhos que ficam bem diante do janelão envidraçado da casa onde mora o diretor do parque nacional.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Fêmea_0756.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1110" title="Fêmea_0756" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Fêmea_0756.jpg" alt="" width="423" height="272" /></a></p>
<p>O surucuá é um pássaro ao mesmo tempo vistoso e discreto. Tem parentesco próximo com o quetzal da América Central, cuja plumagem embasbacou os colonizadores espanhóis com a exuberância iridescente do cocar de Montezuma. Hoje, o quetzal, em si, é ave rara. Mas virou nome de moeda na Guatemala.</p>
<p>O quetzal é um espanto. A palavra, por sinal, quer dizer em língua nativa qualquer coisa como “cauda grande e brilhante”. E lhe valeu, em grego, o cognome científico de <em>Pharomachrus</em>, que também se refere a seu “manto longo”. Mas, sem a fantasia de luxo carnavalesco do primo rico, o surucuá pertence a uma família tão colorida, a <em>Trogon</em>, que os nomes populares de suas espécies acabam geralmente em apostos como &#8220;do-peito-azul&#8221; ou &#8220;da-barriga-dourada&#8221;.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0769.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1111" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; margin-left: 2px; margin-right: 2px;" title="Macho_0769" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0769-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Ele chama tanta atenção que, dias atrás, a foto de um surucuá neste blog mereceu um comentário de leitor diferente – no caso, uma leitora que escreviaespecificamente para saber como se chama o animal mostrado numa ilustração. Sim, era ele. Ou seja, tecnicamente o mesmo pássaro que visitava o jardim da leitoria. Mas suas cores variam tanto, até por efeito da luz em suas penas prismáticas, ou mesmo entre macho e fêmea ou de uma região a outra, que nem sempre é fácil reconhecê-lo nos guias de aves &#8211; a menos que ele conste do retrato de família.</p>
<p>Sendo tão resplandescente, como o surucuá consegue ser discreto? Pelo comportamento. Ele se mexe nos galhos com a calma e a ponderação de quem sabe que tem estampa demais para não dar na vista, o que costuma ser um tormento na vida das criaturas mansas. O surucuá – que se alimenta de insetos e frutas, sempre pequenos – nasce desarmado até no bico, curto demais para seu porte e ainda por cima quase enterrado num tufo de penugem decorativa.</p>
<p>Seu canto, que alguns ornitólogos classificam como “melancólico”, soa como a repetição de uma nota só em flauta de bambu, com um compasso final em surdina. Dá para ouvi-lo com freqüencia ultimamente nas beiradas de trilhas do Iguaçu, porque o surucuá está em fase de acasalamento.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Surucuá_0780.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1112" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; margin-left: 2px; margin-right: 2px;" title="Surucuá_0780" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Surucuá_0780-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>No mato, ouvi-lo não é garantia de vê-lo. A não ser que um raio de sol revele de repente o brilho inconfundível de suas penas, sua figura imóvel se perde na folhagem – inclusive na folhagem rala da temporada, na floresta estacional semidecídua do parque. Mas, cantando no jardim do diretor, é outra história.</p>
<p>O casal passou horas, na tarde do domingo passado, chamando a máquina fotográfica de um lado para o outro. É típico do surucuá trocar de poleiro em vôos curtos e silenciosos. Na floresta, bastam-lhe poucos metros para sumir de vista, às vezes definitivamente. Mas num terreno onde as árvores nativas se espalham no chão limpo, como se estivessem num mostruário vivo da botânica local, a conversa é outra.</p>
<p>Aonde ia um surucuá, a teleobjetiva ia atrás. Acompanhada de flash, para revelar o indescritível colorido das penas. Tratando-se da perseguição a um casal, o equipamento fotográfico deu voltas no jardim até entender que os vôos do macho e da fêmea, sempre próximos mas separados, tinham um padrão intrigante, como se cumprissem um roteiro ao redor do jardim.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0807.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1113" title="Macho_0807" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0807.jpg" alt="" width="385" height="272" /></a></p>
<p>Até que o círculo se fechou num oco de árvore, onde se encaixava, como uma torre de barro, o ninho de cupins. É em lugares assim que os surucuás costumam se instalar como inquilinos, na época da procriação, sem com isso expulsar os proprietários. Havia um buraco redondo, recém cavado no cupim. E nele estava o eixo de todas aquelas voltas aparentemente a esmo através do jardim.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_08191.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1115" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; margin-left: 2px; margin-right: 2px;" title="Macho_0819" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_08191-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>O macho não teve dúvidas. Tapou imediatamente a entrada do ninho com o corpo, exibindo nesse momento todo o fulgor metálico de seu dorso. Aparentemente, para proteger a casa. Era, naquele momento, presa fácil. Expor-se a esse ponto só podia ser prova de coragem. Coragem que, pelo visto, a fêmea só faltou aplaudir como espectadora, admirando a cena de um ramo baixo, quase na primeira fila, diante do ninho, atenta ao desenrolar dos acontecimentos, com o olhar acentuado pelos cílios longos.</p>
<p>Foi grande a tentação de seguir a história da dupla até o fim, agora que ela tinha acrescentado, à coreagrafia estonteante dos vôos circulares, um enredo óbvio até para o mais ignorante dos observadores ou fotógrafos bissextos de aves. Mas era mais claro ainda o sinal de que estava na hora de deixá-los a sós, aos cuidados da janela do diretor.  Poranto, a história dos surucuás acaba aqui.</p>
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		<title>Patrimônio Natural da Regionalidade</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Jul 2010 01:48:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Correm em raias paralelas em Brasília  reuniões com a Unesco para garantir, entre os assuntos, o títuto de Patrimônio Nacional da Hiumanidade para o Parque do Iguaçu e um novo projeto para cortá-lo com uma nova versão da velha Estrada do Colono.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Caminho-do-Poço-Preto_9494.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1100" title="Caminho do Poço Preto_9494" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Caminho-do-Poço-Preto_9494.jpg" alt="" width="409" height="272" /></a></p>
<p><strong>O</strong> Parque Nacional do Iguaçu entrou em rota de colisão com seu título de Patrimônio Natural da Humanidade. Aposta essa reputação em mesas avulsas, que o acaso juntou este mes em Brasília, a capital dos desencontros.</p>
<p>Numa rodada, o governo afia a língua para convencer a comissão da Unesco, instalada na cidade nesta virada de mes, que o parque vai bem, obrigado. Há queixas contra ele nos relatórios técnicos que precederam o encontro. Eles lamentam, para começo de conversa, a afobação para bater recordes de visitação ano após ano, em prejuízo da conservação da fauna e da flora.</p>
<p>Mas, até aí, a Garganta do Diabo fala mais alto. O título continuaria no papo, se não tivesse chegado a Brasília, pouco antes da comissão, mais uma proposta para reabrir a Estrada do Colono, cortando ao meio a floresta do Iguaçu. À Unesco se creditou, nove anos atrás, o empenho do governo brasileiro para interditar depressa a estrada, com Exército e a Polícia Federal, antes que o Iguaçu não se rebaixasse a sítio do patrimônio natural ameaçado.</p>
<p>A idéia de reabri-la apresentou-se no Ministério do Meio Ambiente pela mão do desembargador Álvaro Eduardo Junqueira. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região encarregou-o de promover a conciliação entre o parque e seus tradicionais invasores, em vez de julgar o processo. E ele passou a cuidar pessoalmente  do lado que quer porque quer a estrada de volta.</p>
<p>Com esse tipo de conciliação em marcha, o projeto, que antes era assunto de políticos locais, ganhou padrinho federal. E com ele mudou de estilo. A reabertura da estrada agora se chama “restauração”. Dispensa a força e a coreografia da luta armada que usou para ocupar o parque em 1997 e 2001. Sem perder o jeito de fato consumado.</p>
<p>Semanas atrás, os municípios paranaenses ouviram do desembargador, em assembléia, a sugestão de que se contentassem com uma estrada “mais ecológica”. Imediatamente, materializou-se o projeto de Estrada Ecológica, assinada pelas associações de municípios do Oeste e do Sudoeste do Paraná. O deputado paranaese Assis do Couto, de quebra, apresentou na Câmara o projeto de lei 7.123, que cria a “Estrada-Parque Caminho do Colono”. Promete não só &#8220;fomentar o desenvolvimento rural sustentável das regiões oeste e sudoeste do Paraná com o Parque Nacional do Iguaçu&#8221;, como &#8220;assegirar a efgetivação da segurança nacional necessária em área de fronteira&#8221;. Ou seja, servir de atalho em caso de guerra com a Argentina, um assunto que parecia superado como os governos militares.</p>
<p>Vai relatar o projeto  outro  deputado paranaense, o engenheiro Eduardo Sciarra – que, como sócio da construtora CRE, tem um pé na Cataratas S/A, a empresa que explora legalmente os serviços turísticos terceirizados no Iguaçu. E, pelo visto, outro pé na terceirização informal, que atropelas as concessões em vigor, renovadas há pouco por mais dez anos.</p>
<p>A estrada-parque é um atalho para a entrada no parque de concessionários que se credenciam, sobretudo, como detentores da “memória dos prioneiros”. Em outras palavras, da lenda que atribui aos colonos gaúchos e catarinenes a iniciativa “histórica” de rasgar na selva o tal caminho, aberto em terras da União pelo governo estadual. Isso, na década de 1950. Portanto, no mínimo 11 anos depois do decreto que instituiu o parque.</p>
<p>Mas trunfo histórico é coisa que nunca falta, como ensinou o historiador Sérgio Buarque de Holanda em <em>Visões do Paraíso.</em> Como certa boa vontade, há quem ponha o Camimho do Colono no leito imemorial da Trilha do Peabiru, que segundo as lendas quinhentistas teria servido ao apóstolo São Tomé para evangelizar os índios do altiplano andino, vindo da Índia.</p>
<p>Arisco mesmo é o futuro. Ele escapa pelas frinchas da proposta de &#8220;estrada ecológica&#8221;, que fala em calçar os 17,6 quilômetros do caminho de terra com lascas de balsalto, para que o piso irregular obrigue os veículos a trafegar em baixa velocidade. Com isso, estaria garantindo “a travessia segura da fauna”. Mas não a segurança dos veículos, motoristas e passageiros. Por via das dúvidas, manda cortar todas as árvores a um metro e meio da pista, “para evitar acidentes”.</p>
<p>Indica o uso exclusivo de “ônibus elétricos” nos passeios turísticos, sem dar a menor pista de onde pretende encontrá-los. Até onde a vista alcança, ninguém os fabrica em série no Brasil. Enumera 15 investimentos. Não apresenta um só cálculo de custo para eles.</p>
<p>É um documento tão sumária que cabe inteirinho e com folga em menos de 10 páginas, apesar da farta ilustração. Dá para atravessá-lo, de ponta a ponta, em minutos. E, apesar da pressa, não deixa de  abrir espaço para a construção de dois  Centros de Visitantes, &#8220;em cada extremidade&#8221;, para &#8220;educação ambiental e conforto dos viajantes.</p>
<p>Pode ser coincidência, mas ali está, ao pé da letra, o argumento marcial invocado pelo deputado Assis do Couto. Aquele corte na floresta, segundo a proposta de &#8220;restauração&#8221;, tem &#8220;importância inclusive militar&#8221;, porque &#8220;permitiria chegar rapidamente a umas das fronteiras com a Argentina. Isso numa hora em que os consultores da Unesco receitam, para os dois lados do rio Iguaçu, um parque cava dez mais transnacional, de administração compartilhada, como ocorre cada vez mais em lugares onde animais e plantas cruzam fronteiras sem a menor cerimônia. Quer dizer, além de atacar o parque brasileiro pela retaguarda, o Caminho do Colono agora quer estar no front de eventuais confusões com os argentinos.</p>
<p>Se o projeto cair nas mãos da Unesco, o governo brasileiro terá muito o que exlicar à comissão do Patrimônio Natural da Humidade.</p>
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