<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Marcos Sá Correa &#187; Onças</title>
	<atom:link href="http://marcossacorrea.com.br/tag/oncas/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://marcossacorrea.com.br</link>
	<description>Colunismo a Quilo</description>
	<lastBuildDate>Fri, 10 Sep 2010 13:35:48 +0000</lastBuildDate>
	<generator>http://wordpress.org/?v=2.9.1</generator>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
			<item>
		<title>O Brasil tem lugar para uma onça?</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/09/o-brasil-tem-lugar-para-uma-onca/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/09/o-brasil-tem-lugar-para-uma-onca/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 09 Aug 2010 13:16:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1125</guid>
		<description><![CDATA[Trazem más notícias os dados coletados em dois meses de andanças pelo rádio-colar instalado num filhote de onça no Iguaçu: Pança gosta de lugares cheios de gente e de animal doméstico solto onde não deveria.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Onça-PNI_74652.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1128" title="Onça PNI_7465" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Onça-PNI_74652.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>C</strong>ravejado de pontos luminosos, o mapa brilha na tela. Mas o que mais se nota diante do computador é a sombra de dúvidas cruciais, franzindo a jovem testa da bióloga Marina Silva. Da ex-ministra do Meio Ambiente e atual candidata à presidência da República, ela tem o nome, não as certezas inabaláveis. E, como chefe do projeto Carnívoros do Iguaçu, encara neste momento um exemplo concreto de que, na conservação da natureza, as grandes encrencas podem vir até de soluções que pareciam caídas do céu.</p>
<p>No mapa está gravado, como um chão de estrelas, o diário íntimo de Pança, o filhote de onça pintada que virou o assunto do ano no Parque Nacional do Iguaçu. Ele veio ao mundo com um irmão. São dois machos. Não poderia haver melhor cacife do que uma dupla como essa para apostar na perpetuação da espécia, numa região onde talvez não sobrem 25 onças pintadas, em dez mil quilômetros quadrados de retalhos florestais, que vão Paraná ao Rio Grande do Sul, passando pelo Paraguai e pela Argentina.</p>
<p>Pança foi seguido durante dois meses por satélite. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/">Ganhou o rádio-colar em maio, ao ser flagrado comendo um bezerro</a>. Deve o apelido à barriga estufada de carne fresca e fácil, predada nos rebanhos que indevidamente confinam com o parque. Dois meses depois, havia crescido tanto que, para não estrangulá-lo, o aparelho foi solto por controle remoto. Estava a exatamente 380 metros do local onde o instalaram. Pudera. Ali, o proprietário cria cabritos soltos no mato, para fingir que tem reserva florestal, sem abdicar ao uso de cada metro quadrado do terreno.</p>
<p>Pança pode estar errado. Mas na ilegalidade estão os donos de sítios, casas de veraneio e fazendas. Atraído pelas tentações da marginalidade geral, Pança ficou a maior parte do tempo zanzando fora do parque. Usava nessas idas e vindas as margens do rio Iguaçu, que têm mata ciliar, embora em vários trechos ela se resuma a um diáfano biombo de árvores. Nessas aventuras mundanas, ele beirou casas de campo e fundos de hotéis. Num deles, o Canzi, usou fartamene como latrina uma construção abandonada no mato. Esteve perto da Vila Carimã, bairro residencial densamente povoado. Correu o risco de subir o rio Tamanduá e bater diretamente na área urbana de Foz do Iguaçu.</p>
<p>Mesmo no interior do parque, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/brabeza-de-onca-e-maldade-de-cacador/">ele circulou de preferência junto às áreas de visitação intens</a>a. Tirou vários finos das residências de funcionários, flanou pela sede administrativa, cruzou insistentemente trilhas reservadas ao ecoturismo e tomou gosto pelo hotel das Cataratas – <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/08/a-onca-pintada-na-era-do-foguete/">cujos arredores ostentam outra fulgurante constelação de pontos amarelos, assinalando sua presença</a>. O hotel é de cinco estrelas. Mas Pança não refugou a boia dos operários que, trabalhando na reforma das instalações, jogam restos de comida na beira da floresta.</p>
<p>Pança atravessou duas vezes o rio para se internar nas matas do lado argentino. Mas sempre voltou depressa ao Brasil, talvez porque encontrou por lá um território ocupado por macho adulto. No Brasil, praticamente ignorou a área intangível do Iguaçu, onde em princípio deveria encontrar sua floresta cativa.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Com ele vai seu irmão. Os dois ainda não separaram e, onde aparecem, em geral vêm juntos. Dias atrás, foram ao Macuco Safari, cujo programa oferece aos passageiros sustos na forma de corridas no cânion em barcos infláveis, não de encontros com onças pitadas. Os guias trataram de expulsá-los dali com rojões. Fugiram. Mas, no domingo seguinte, estavam lá de volta, como se nada tivesse acontecido.</p>
<p>E, por falar em fim-de-semana, no passado a dupla atravessou o asfalto a uns 300 metros do portão e tomou a estrada de terra qur desce para o barranco do Iguaçu. Pelo rumo, ia visitar mais uma vez o rebanho de cabritos criados ao deus-dará.</p>
<p>Marina Silva tem, portanto, duas onças para devolver ao que restou de vida selvagem no Oeste do Paraná. Talvez, cercando o parque. Porque não dá para educar ao mesmo tempo duas onças e tanta gente mal acostumada a conviver com unidades de conservação.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/09/o-brasil-tem-lugar-para-uma-onca/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>4</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O outro país também chamado Brasil</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/07/30/um-outro-pais-tambem-chamado-brasil/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/07/30/um-outro-pais-tambem-chamado-brasil/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 30 Jul 2010 03:06:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1085</guid>
		<description><![CDATA[Nada mais desnortente do que estar num parque nacional, onde as notícias e até os boatos sobre aparições de onças corre pelas picadas como sinos do advento, e saber que bem aqui ao lado havia uma operação comercial para liquidá-las pela caça clandestina. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_8136.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1090" title="_MG_8136" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_8136.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>M</strong>orar, mesmo que seja como hóspede, a título provisório, de passagem por um parque nacional, é como viver uma temporada no exterior. Só que esse exterior fica no interior do Brasil.</p>
<p>No parque, você ao mesmo tempo está no Brasil e fora dele. Seu Brasil é outro, um Brasil profundo, feito de retalhos do país original que ao nascer todos herdamos e ao viver vamos sempre perdendo aos poucos, de pedaço em pedaço, de queimada em queimada, de governo em governo, de notícia em notícia – como a notícia, por sinal alvissareira, de que a Polícia Federal e o Ministério do Meio Ambiente finalmente botaram a mão outro dia na quadrilha internacional que traficava com a caça clandestina de animais em extinção.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_82661.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1091" title="_MG_8266" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_82661.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Ela está aqui de perto. Um dos presos é até  vizinho do parque. Mora na cidade de Cascavel, a mais próspera e desenvolvida do extremo oeste paranaense. Ele coleciona troféus. Ou seja, mora, por gosto, num panteão de animais mortos, cabeças empalhadas, chifres, patas, peles. Os fiscais andavam de olho nele faz tempo. E, no entanto, ele mora logo ali em outro mundo, numa terra que nada tem a ver com este lugar em que o mais vago rumor de que podem ter nascido mais dois filhotes de onça pintada corre pelas trilhas como se fosse promessa de redenção.</p>
<p>Ao mesmo tempo, bem a seu lado, tem alguém esperando a hora de botar os últimos exemplares da espécie na lista das vidas raras que, por isso mesmo, valem mais no mercado da caça esportiva, aquela que enterra até carcaças para não deixar provas do crime. Ele é brasileiro também. Mas o Brasil onde ele existe vai deixando depressa de ser o seu a cada dia que você passa no parque – freando o carro para os gambás atravessarem a estrada, tirando à noite do quarto as mariposas que as lâmpadas atraíram e provavelmente, se dormirem lá dentro, amanhecerão espalhadas pelo chão, parando para esperar o momento em que infalivelmente uma borboleta enorpecida pelo frio da madrugada abrirá as asas para o primeiro sol.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_0543-Edit.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1092" title="_MG_0543-Edit" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_0543-Edit.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Cada dia desses é um passo para olhar toda essa gente que atira, derruba, queima, constrói e diz besteiras sobre pererecas e outros bichos com a desenvoltura do presidente Lula como habitantes numerosos, hegemônicos e hostís de um país que também se chama Brasil, mas é contra o seu Brasil. E nunca poderá caber num parque nacional, enquanto houver um canto no Brasil para parques nacionais.</p>
<p>Deve ser por isso que há tantos projetos na política brasileira para revogar os parques, as reservas, o código florestal, tudo aquilo que conserva o que o Brasil dos outros quer suprimir. São projetos feitos de um povo que nunca poderá ter um parque nacional, porque ele é como onça viva – só tem sentido para quem gosta daquilo que não é seu, mas de todos. O outro Brasil só pode ter parques nacionais se acabar como eles.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/07/30/um-outro-pais-tambem-chamado-brasil/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Brabeza de onça é ruindade de caçador</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/brabeza-de-onca-e-maldade-de-cacador/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/brabeza-de-onca-e-maldade-de-cacador/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 14:55:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=944</guid>
		<description><![CDATA[Duas onças-pintadas posaram para as câmeras na noite de segunda-feira, marcando no Iguaçu a volta dos irmãos que até um mes atrás pareciam estar em toda parte ao mesmo tempo. A boa notícia é que eles cresceram. A má, que ainda há caçadas no parque. De onça, inclusive.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_743.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-945" title="Onça PNI_743" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_743.jpg" alt="" width="453" height="302" /></a></p>
<p><strong>Q</strong>uando o telefone tocou no quarto às oito da noite, antes mesmo de atender não havia dúvida: “Só pode ser onça”. Celular, aqui no parque, não é instrumento de conversa fiada. E, com as noites frias que junho trouxe, os dias acabam, para todos os efeitos sociais, logo depois que o sol se esconde. Mas deu um certo trabalho confirmar todo esse monte de suposições automáticas, porque ele parou de chamar no quinto toque, antes que desse para desencavar o aparelho no fundo da mochila.</p>
<p>“É onça mesmo, quem ligou estava com pressa”, continuou a cabeça, falando sozinha. No número que ficara gravado na memória, quem atendeu foi o guarda do portão. Felizmente, bem informado. “Deve ter sido o Apolônio”, ele disse. E explicou que duas onças tinham aparecido – depois de longa e sentida ausência – no acostamento da BR-469, “entre a casa do diretor e a do capitão Capelli”. Capelli comanda o destacamento da Polícia Florestal instalado dentro do parque.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_7406.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-946" title="Onça PNI_7406" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_7406.jpg" alt="" width="453" height="302" /></a></p>
<p>Era logo ali. A meros 500 metros de distância. Mas não deu para controlar o reflexo de ligar primeiro para o biólogo Apolônio Rodrigues, diretor de Conservação e Manejo do Iguaçu, além de mateiro tarimbado. Ele atendeu com uma voz quase inaudível: “Liguei sim, mas não deu para esperar. Elas estão bem aqui, na minha frente. Venha devagar, para não assustá-las”.</p>
<p>É claro que o jeito foi sair correndo, catando às pressas o material fotográfico sem examiná-lo, levando  inclusive um flash com pilhas exauridas. E o tripé, que esperava de pé ao lado da porta, acabou ficando para trás, esquecido no escuro. Em compensação, minutos depois já se viam os faróis do carro do Apolônio, apontados para a borda da floresta, no acostamento.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_7430.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-947" title="Onça PNI_7430" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_7430.jpg" alt="" width="453" height="302" /></a></p>
<p>Ao lado, sobre a relva baixa, outro carro iluminava a cena. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/">Sem falar que a bióloga Marina Xavier da Silva, do Projeto Carnívoros do Iguaçu</a>, manejava um holofote portátil, alimentado pelo acendedor de cigarros de um dos automóveis. Todos estavam naquele momento exatamente a 11 metros das onças, medidos pelo foco manual da teleobjetiva. As figuras humanas foram se tornando reconhecíveis aos poucos, na sombra. De pé no chão orvalhado, sob um frio de rachar, formavam um grupo calado, ou que no máximo murmurava entre si palavras indispensáveis.</p>
<p>E os bichos lá, à vontade, quase indiferentes aos espectadores, como se soubessem que estavam diante de especialistas. Uma das onças tinha no pescoço o colar do rádio-transmissor. Seria o Pança, o filhote capturado semanas atrás para monitoramento? “Não”, sussurrou Marina. “É um macho argentino. E a outra parece uma fêmea daqui mesmo. Com sorte, vamos pegar um acasalamento”.</p>
<p>Nada disso. Na manhã seguinte, o exame cuidadoso das manchas revelou que era o Pança mesmo, de volta à parte mais habitada do parque, e aparentemente à companhia do irmão. Pena porque a verdade científica desmancharia a promessa de assistir em pré-estréia uma grande co-produção transnacional. O Iguaçu, naquele ponto, depois de se espalhar por 270 cataratas num raio de quase três quilômetros, acalma-se num leito fundo, sinuoso e estreito, que corre mansamente rumo à foz, no rio Paraná. A mata dos parques nacionais cobre suas margens de um lado e do outro. E, ao contrário dos políticos e diplomatas sulamericanos, seus animais sabem que, em parques nacionais, essa história de fronteira internacional é besteira.</p>
<p>A dupla de onça deu um show de educação e fineza por mais 20 minutos. Elas entravam e saíam da mata como se tivessem – e tinham – pleno domínio daquele palco sem fundo. Encaravam atentamente a platéia, sem agressividade ou arreganho de dentes, como se estivessem estudando o comportamento humano. Mastigavam o capim alto que costeia o limite da floresta com o acostamento, sem que alguém ali soubesse explicar o que isso queria dizer.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_74651.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-949" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Onça PNI_7465" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_74651.jpg" alt="" width="362" height="242" /></a>Pança tinha uma cicatriz aberta no peito, do qual pendia um farrapo de couro &#8211; ferida interpretada como um sinal de que suas brincadeiras com o irmão estão aos poucos superando a fase juvenil. Ambos pareciam crescidos e encorpados, depois desse mes de sumiço. Também por isso,não foram reconhecidos à primeira vista.</p>
<p>Mas esses detalhes ficaram para se esclarecerem depois. O que deu para entender na hora, mais uma vez, é como enfiaram em nossas cabeças mentiras difamatórias sobre as onças os livros infantis de Monteiro Lobato ou os relatos de caçadas feitos por caçadores, todos interessados em espelhar na ferocidade dos animais sua própria valentia.</p>
<p>Tratava-se, nesse caso, de feras mitológicas. Até o Inferno de Dante era rondado por uma “<em>onca</em> horrível&#8221;, embora a Itália do Renascimento ainda nem tivesse visto uma legítima onça do Novo Mundo. Eram impressões deixadas em geral por animais encurralados e enlouquecidos pelo cerco histérico das matilhas de caça. Nesses casos, como ensinou Camões na história de Inês de Castro, provavelmente &#8220;toda a feridade” estava em “peitos humanos”. Porque, vistas assim, sem exibicionismos de parte a parte, as onças até que pareciam amáveis, se não inofensivas.</p>
<p>Pança, de coleira, que em si já lhe dava um certo ar de animal doméstico, acabou se deixando apanhar pela máquina fotográfica placidamente sentado no meio da folhagem, fitando o público, com a língua de fora. Tinha, naquele momento, a mesma cara da onça estilizada e francamente inverossímil, fera de histórias em quadrinhos ou de desenhos animados,  que decora a lataria de um dos ônibus de turismo no Parque Nacional do Iguaçu. Por incrível que parece, aquela onça do ônibus existe, sim. Estava na beira da estrada ontem à noite, para desmentir tudo o que se diz e se faz contra sua espécie.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/brabeza-de-onca-e-maldade-de-cacador/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>11</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A primeira onça-pintada de Marina</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 16 May 2010 00:56:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=876</guid>
		<description><![CDATA[Chama-se "Pança", por estar de barriga cheia, a primeira onça-pintada capturada e solta pelo Projeto Carnívoros do Iguaçu, que é o recomeço da conservação no parque e um marco na carreira da bióloga Marina Xavier da Silva, há seis anos esperando essa chance.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-1_00581.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-880" title="Foto 1_0058" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-1_00581.jpg" alt="" width="453" height="376" /></a></p>
<p><strong>“</strong><strong>Foi</strong> tudo perfeito”, diz a bióloga Marina Xavier da Silva. Mas acrescenta, no mesmo fôlego: “Tirando&#8230;” Dias depois de fazer sua primeira captura de onça-pintada no Parque Nacional do Iguaçu, sua voz ainda não voltara à suavidade de sempre, pelo menos ao falar do assunto. Talvez porque o detalhe que teria preferido excluir com esse “tirando” fosse seu encontro inesperado com o bicho, cara a cara, “a uns dois metros e meio de distância, se tanto”.</p>
<p>Marina estava na ocasião seguindo o rastro de um bezerro levado por onça de um sítio vizinho ao parque. Os sinais deixados no chão pela carcaça se enfiavam numa capoeira baixa e entrelaçada, pouco além da cerca. O bezerro fora roubado quase na fronteira do parque com terrenos particulares. No caso, atrás do hangar onde ficam os helicopteros da empresa Helisul, de onde veio o alarme de que havia onças rondando o gado.</p>
<p>No charrascal, ao encontrar a presa, ela esbarrou com o predador. O imprevisto obrigou-a a invocar na prática tudo o que nos últimos anos veio aprendendo na teoria, como coordenadora do Projeto Carnívoros. Os preparativos para esse encontro surpreendente mas há muito tempo aguardado a levaram inclusive a treinar, semanas atrás, no Cerrado, a captura de onças com laços.</p>
<p>Marina fez tudo como manda a cartilha. Evitou que dois voluntários da equipe fugissem dali correndo, o que é meio caminho andado para se transformar em presas. Lembrou-se de falar alto, para o bicho saber que estava lidando com gente. E, tendo que decidir depressa se era ou não o caso de disputar a carcaça com o novo dono, tomou posse do bezerro batendo a lâmina do facão numa pedra, para fazer o maior barulho possível. Precisava dos despojos para usar como isca de armadilha.</p>
<p>A onça fugiu. Mas dali para a frente era praticamente certa a sua volta. E, no dia seguinte, sábado, 8 de maio, ela amanheceu atrás das grades. Foi anestesiada com dardo de zarabatana. Submeteu-se, desacordada, aos exames de praxe. Transformou-se na versão mais atual de animal selvagem, que é aquele que vive em liberdade, mas tem ficha veterinária e o dia a dia controlado à distância, como convém às existências preciosas de exemplares que encarnam as chances de sobrevivência de uma espécie inteira.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Filhote_0023.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-882" title="Foto Filhote_0023" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Filhote_0023.jpg" alt="" width="446" height="312" /></a></p>
<p>Aquela onça-pintada estava, diga-se de passagem, vendendo saúde. Pesava 41 quilos. Tinha a barriga tão cheia da carne farta e fácil do pasto que o ventre arredondado lhe valeu, na hora, o nome de Pança. “É um dos gêmeos”, concluiu o biólogo Apolônio Rodrigues, diretor de Conservação e Manejo do Iguaçu. <strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/">Tratava-se, portanto, de um dos filhotes que há dois meses Apolônio fotografou à luz do dia</a></strong>, numa tarde emoliente de verão, a oito metros do alojamento que hospedava, naquele  momento, mais de vinte alunos de uma universidade alemã.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/08/a-onca-pintada-na-era-do-foguete/">Desde esta estréia ruidosa, os filhotes assombravam funcionários e visitantes com aparições nos lugares mais implausíveis</a>. Cruzavam a BR-469 a qualquer hora do dia ou da noite. Tangenciavam a piscina do hotel das Cataratas. Chegaram a por as patas nas escadas do centro administrativo e as circunstâncias em que foi apanhado atestam que aquele macho, ainda imaturo, já contraíra maus hábitos. Pegando gosto por predar bezerros e outros animais domésticos, estava no rumo certo dos conflitos dos grandes carnívoros com sitiantes e pecuaristas dos arredores. O vício de pular cerca sempre serviu de pretexto para levar as onças à beira do extermínio definitivo, não só no Iguaçu, como em todo fragmento de paisagem natural ilhado pela presença humana.</p>
<p>Pança voltou rapidamente ao mato. Foi devolvido no mesmo sábado frio e chuvoso <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/">à trilha do Poço Preto</a>, nem tão perto dos portões que estimulasse recaídas no assalto a animais domésticos, nem tão longe do território original que o pusesse inadvertidamente em área já dominada por um macho adulto, capaz de escorraçá-lo com argumentos certamente ferozes. Pança leva agora um rádio-transmissor, que dança em seu pescoço como um colarinho frouxo mas sólido, feito de aço. Não era, obviamente, um colar para felinos de seu porte. Mas, graças a ele, Pança terá seu cotidiano monitorado  por satélites e mapas geo-referenciados. Tornou-se uma fera identificada &#8211; e, como tal, supostamente protegida.</p>
<p>Ela tem ainda um longo caminho a percorrer, antes de prestar serviços naturais à perpetuação da espécie no parque. Tomara que vingue e chegue até lá, porque no ano passado o Iguaçu perdeu por atropelamento um macho jovem, em plena forma física, pronto para a procriação. Mas, se a adolescência de Pança ainda vai longe, com ele amadureceu este mes definitivamente o <a href="http://">Projeto Carnívoros do Iguaçu</a>, depois de uma gestação que se estendeu por mais de seis anos e custou a Marina Xavier da Silva praticamente uma década inteira de teimosia. Ela é paulistana. Criou-se na metrópole pensando, desde criança, em trabalhar no mato. “Nunca tive dúvidas sobre o que iria fazer quando crescesse”, ela conta. Era arredia, pouco festeira, “sem muita habilidade para lidar com gente”. Gostava era de bicho.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Marina-DSCF2902.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-883" title="Foto Marina DSCF2902" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Marina-DSCF2902.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Aos 13, 14 anos, já seguia o irmão mais velho, que inaugurou a dinastia dos biólogos na família, em pesquisas de campo, no litoral de São Paulo. Quando chegou sua hora de fazer vestibular, cravou só Biologia – “sem opção”. Cursando a USP, pegava à unha estágios em zoológicos, como candidata permanente “ao trabalho braçal” que implica botar a mão nas contingências materiais da sobrevivência da fauna silvestre. No Zoo de Campinas, limpou jaulas, preparou rações e encontrou o atalho da conservação através da ONG Mata Ciliar, que recolhe animais silvestres em Jundiai.</p>
<p>Aos 21 anos estava morando no parque do Iguaçu, por conta da  ONG pobre mas ambiciosa, que lhe enviava para isso 600 reais “mes sim, mes não”. Cabia-lhe gerenciar estágios na Escola Parque, que funciona no Iguaçu. “Era burocracia mesmo”, ela admite. No fim do expediente, pegava o último ônibus gratuito da Cataratas, a concessionária dos serviços turísticos, cuja frota circula no parque durente o horário de visitação, e ia para casa.</p>
<p>Ou seja, recolhia-se a seu beliche num dormitório coletivo, mas quase sempre vazio, instalado num barracão da extinta Vila Satake, que anos atrás foi demolida, por decrépita. Passava a maior parte do tempo caminhando pelas trilhas ou mergulhada nos arquivos do parque, para desvendá-lo. E assim foi desde cedo percebendo que a maior parte do que via nas picadas não constava das prateleiras. E que a universidade não lhe “tinha ensinado nada”.</p>
<p>Para ela, no Iguaçu, tudo estava por descobrir. Em sua primeira caminhada, viu um bando de macacos-pregos. Um dia, na trilha da Represa, cruzou com uma suçuarana com dois filhotes. Naufragou numa corredeira do Iguaçu e guarda, do acidente que poderia ser fatal, a lembrança a água correndo por cima de sua cabeça. E pegou bernes de perder a conta. No hospital de Foz do Iguaçu os médicos não sabiam o que fazer com aquilo. “Foram os mateiros do parque, os guias do Macuco Safari, que me trataram”, ela recorda.</p>
<p>Mas a solidão do alojamento era relativa. Ocasionalmente, arranchavam por lá guardas-parques e pesquisadores. Marina grudava em seus calcanhares, disposta a aprender o que a universidade não lhe ensinara. Foi por esse desvio que acabou casada com o biólogo Alexandre Vogliotti, que se instalou no Iguaçu por conta de uma pós-graduação em Cervídeos e hoje é seu assistente no Projeto Carnívoros.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Marina-Macaco-DSCF8051.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-884" style="margin: 5px;" title="Foto Marina Macaco DSCF8051" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Marina-Macaco-DSCF8051.jpg" alt="" width="312" height="454" /></a>Marina foi muito mais longe do que ela mesma esperava. “Quando cheguei aqui, todos os técnicos gostavam mesmo era de onça, principalmente onça-pintada. Achei que nunca iria sobrar onça para mim e fui cuidar de anfíbios. Os mamíferos em geral já me pareciam fora de alcance&#8221;. Interessou-se por Botânica, “que não era meu forte”. Estudou sementes, sapos, insetos, tudo o que não achava nas coleções científicas do parque. Mudou-se para o parque com a intenção de ficar dois anos. Lá se foram quase seis anos e ela está começando agora a fazer o que faria se pudesse pelo resto da vida.</p>
<p>Chegou aonde está por pura persistência. Sua óbvia teimosia em conhecer a fundo a unidade de conservação valeu-lhe um contrato de funcionária no setor de manejo. De tanto vê-la arrumando os arquivos, o diretor Jorge Pegoraro ofereceu-lhe uma vaga no setor de Manejo. E com isso, Marina se aproximou de uma mesa de alta voltagem, que é a do biólogo Apolônio Rodrigues, infatigável gerador de novidades na administração do Iguaçu.</p>
<p>“Apolônio e eu começamos imadiatamente a sonhar com o Projeto Carnívoros”, diz Marina. Durante muito tempo, ela presumiu que estava simplesmente “peruando” o projeto. Mas, no momento em que as discussões enveredaram pelo caminho das iniciativas concretas, o diretor de Conservação e Manejo entregou-lhe a coordenação de uma idéia que ainda não tinha dotação, sala ou equipe – mas estava destinada a virar, a partir de 2009, a maior aposta já feita nesses 71 anos de existência do parque para transformá-lo efetivamente numa unidade de conversação – coisa que, na década de 1940, o zoólogo Cândido de Mello Leitão duvidava que um dia pudesse acontecer ali, tal a obsessão dos primeiros diretores pelo “turismo paisagista”.</p>
<p>Não pode ser só coincidência que, em 2009, quando o Projeto Carnívoros saiu de uma vez por todas do papel e entrou no mato, o Iguaçu figurou pela primeira vez entre os parques nacionais recordistas em propostas de pesquisa científica no país. Mas isso, para Marina, já não basta. “Eu não quero mexer com onça só por mexer com onça. Estou aqui fazer conservação”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Onça-Sangue_0035.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-895" title="Onça Sangue_0035" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Onça-Sangue_0035.jpg" alt="" width="454" height="304" /></a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>7</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A onça-pintada na era do foguete</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/05/08/a-onca-pintada-na-era-do-foguete/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/05/08/a-onca-pintada-na-era-do-foguete/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 08 May 2010 03:07:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=858</guid>
		<description><![CDATA[Caiu neste fim de semana a primeira onça-pintada nas armadilhas do Projeto Carnívoros do Iguaçu. Bem no momento em que uma circular da administração ensina os moradores e funcionários do parque do Iguaçu a espantar com foguetes as que rondam suas casas. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Onça-Solta_01071.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-897" title="Foto Onça Solta_0107" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Onça-Solta_01071.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p><strong>V</strong>isita de onça-pintada, em parque nacional, é coisa de se receber com foquete. Mas a circular número 125, disparada esta semana no Iguaçu, dá novo significado aos rojões de festa junina.</p>
<p>Seu texto ensina os moradores e funcionários da unidade de conservação a lidar com o bicho, se ele vier com excessos de intimidade para junto das pessoas. Lembra que as crianças não devem zanzar lá dentro sozinhas. Recomenda acompanhá-las “aos pontos de embarque do transporte escolar”. Andar sempre em grupo, mesmo de dia. Manter as luzes acesas fora de casa à noite. E dormir sob o mesmo teto com os animais domésticos, para evitar que eles sirvam de isca à onçada. Tudo isso sem esquecer “que o parque é o ambiente natural das onças e nós devemos buscar uma convivência pacífica com elas”, como já avisava, em ofício do ano passado, o chefe de conservação e manejo Apolônio Rodrigues.</p>
<p>As novas instruções, assinadas pelo diretor Jorge Pegoraro, vão mais longe. Elas acompanham a distribuição, “a cada família”, de quatro rojões, desses de três bombas. Ensinam a usá-los num regulamento que cobre desde os cuidados com explosões acidentais e incêndios até as condições para detoná-los. Isto é, “só quando tiver certeza” de que as onças estão rondando. De preferência, se “estiver efetivamente vendo os animais, para que eles saibam exatamente de onde vieram as explosões e a passem a evitá-las”.</p>
<p>Manda não apontar “os foguetes diretamente sobre os animais”, para “afugentá-los sem provocar ferimentos”. E, se possível, gritar ou bater panelas, “para reforçar o efeito negativo dos fogos”. Cada peça disparada terá que ser devolvida com as devidas explicações. Em outras palavras, não se trata de uma declaração de guerra às onças, que são poucas no parque e extintas na vizinhança. É o começo de um programa para “assegurar uma convivência pacífica dos moradores e usuários” com esses e outros carnívoros, porque o Iguaçu existe para “conservar a fauna e a flora locais”.</p>
<p>A circular fecha a inesquecível temporada do verão de 2010 em que todo mundo parecia ter direito a ver a “sua” onça-pintada nos arredores das cataratas, inclusive a gerente de uma joalheria da H. Stern que funciona no Porto Canoas, logo acima dos saltos. Um <strong>guia de turismo</strong> (atenção: está é uma correção feita pelo leitor <strong>Davi Rocha</strong>, onde estava escrito, erradamente, guia turístico) filmou a onça passando por ele à luz do dia, por mais de três minutos, com seu telefone celular. Um empregado do Hotel das Cataratas, carregado de colchonetes, esbarrou com ela atrás da piscina. Um guarda encontrou-a na escadaria da sede administrativa. Um funcionário do parque flagrou-a na varanda de casa, aparentemente de olho em seu cachorro.</p>
<p>Onça demais? Quem dera. Até prova em contrário, elas estão mesmo é em retirada, com população em rápido declínio. Se tanta gente de repente deu para ver tão pouca onça foi miragem criada por uma dupla de <em>Panthera onca</em>. “Dois jovens machos”, separados há pouco da mãe e ainda “aprendendo a viver por conta própria”, estariam explorando o território. E, como as cotias, os quatis e os veados mateiros, parecem apreciar o movimento na área de uso intensivo do parque. Criados por ali, cresceram mais ou menos “indiferentes à presença humana”, e até atraídos pelas edificações por “sua enorme curiosidade natural”. Como já escreveu o especialista Peter Crawshaw, <a href="http://www.oeco.com.br/petercrawshaw">é o descuido humano que acostuma as onças à vida fácil da caçada de animal doméstico em pastos.</a></p>
<p>Até que esta semana um dos filhotes matou um bezerro num pasto que fica perto do heliporto, na saida do parque. Quando a carcaça foi descoberta, tinha ainda muita carne sobrando. E a equipe do Projeto Carnívoros do Iguaçu aproveitou-a para montar ao predador  uma armadilha, presumindo que ele voltaria à presa. Dito e feito. Na madrugada deste sábado, 8 de maio, o bicho foi apanhado.</p>
<p>Estava gordo e saudável. Pesava 48 quilos. Ganhou no pescoço um rádio-colar de monitoramento. De agora em diante, será rastreado por satélite dia e noite. E passará se possível a viver em outro canto do parque, menos habitado. Pensou-se em levá-lo para Salinê,  uma antiga fazenda na beira do rio Iguaçu, que se incorporou ao parque sem que a capoeira até hoje incorporaase à floresta o capinzal. A chuva forte e o cansaço da equipe obrigou a soltá-lo no caminho do Poço Preto. Com ele começa a fase adulta do projeto, que nasceu no ano passado para estabelecer as bases de pesquisa científica para o manejo das onças e outros grandes carnívoros remanescentes no Iguaçu.</p>
<p>O foguetório foi a ordem de dispersar para a dupla de filhotes. Mas também serviu para comemorar o progresso do Carnívoros. Não vai tão longe assim o tempo em que a administração do parque recebia a bala as onças que davam o ar de sua graça nas Cataratas. O Iguaçu estava então reservado ao turismo e à recreação humana.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/05/08/a-onca-pintada-na-era-do-foguete/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>7</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Podem pôr a culpa na lua cheia</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/30/podem-por-a-culpa-na-lua-cheia/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/30/podem-por-a-culpa-na-lua-cheia/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 30 Mar 2010 15:38:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=722</guid>
		<description><![CDATA[Ele tinha tudo para ser um domingo como outro qualquer no parque nacional do Iguaçu. Começou chuvoso. O céu só se escancarou no por do sol. A lua cheia inundou aind amais as cataratas, com água sobrando. E, fechando a noite, uma onça nos aguardava no estacionamento. Dá para querer mais?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Cânion_05501.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-725" title="Cânion_0550" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Cânion_05501.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p><strong> E</strong>sta deveria ser uma história sobre a lua cheia de domingo. Motivos para isso não lhe faltam. Mas o parque nacional do Iguaçu tinha outros planos. O dia veio carregado de nuvens. Choveu à tarde. O sol estava quase  se pondo quando o céu limpou re repente e, no ar lavado, a luz bateu de viés no cânion, fazendo brilhar a vegetação encharcada como se inaugurasse o Oeste do Paraná naquele instante, novinho em folha.</p>
<p>Só deu tempo de correr para preparar a máquina fotográfica. Pegá-la só não bastava. Com equipamento digital, isso ficou mais complicado do que na era do filme e das regulagens mecânicas. Exige desligar, um a um, antecipadamene, todos os dispositivos automáticos, sob pena de encarar depois uma lua artificial boiando num cenário de opereta.</p>
<p>É prudente travar o espelho que desvia a imagem da lente para o visor, reduzindo ao mínimo todos os de vibração na hora em que se aperta o obturador. Não parece, mas aquele suave <em>ploc-ploc</em> que ele faz ao subir e descer sobre batentes acolchoados repercute na fotografia como um acesso de tremedeira, pelo menos com exposições ou lentes mais longas. E isso implica um breve mergulho no programa da câmera.</p>
<p>Lá se vão, pelo mesmo caminho, o foco automático, que funciona mal no escuro, e não pára de buscar o ponto de maior contraste para trás e para frente. Ou seja, atrapalha-se e nos atrapalha. Como o olho humano, em tais circunstâncias, também não é lá essas coisas, mais vale calcular a distância de cabeça e regular a objetiva pela tabela em metros e pés que, embora muito simplificada em relação aos maus tempos do olhômetro puro, as boas marcas do ramo ainda gravam no exterior da lente, quase sempre sob uma tampa de plástico translúcido.</p>
<p>Se a objetiva ainda por cima tiver estabilizador, “zero&#8221; nele. Com a máquina fixa no tripé e ums cachoeira movendo-se à sua frente, ele pode cair em tentação de estabilizar até a rotação da terra, e fazer isso aos saltos. Enfim, não se pode esquecer de ajustar previamente também o registro de cores para a luz solar, porque dela é que nos virá o luar sobre as cataratas.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Por-do-Sol_05081.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-726" title="Por do Sol_0508" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Por-do-Sol_05081.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>O resto é mera questão de gosto. Mas, como os fotômetros embutidos nas máquinas se tornaram francamente prodigiosos, não custa deixá-los prontos para medir a luz no menor ângulo possível. Assim será mais fácil assestá-los sobre a espuma branca que as quedas produzem. Nesse caso, medindo o branco, para que ele não se torne cinza claro, que é o tom neutro do mundo no cálculo dos fotômetros, multiplica-se de cara a exposição por 2, ou na pior das hipóteses pelo fator um e meio.</p>
<p>Tudo isso convém  executar no claro. Na trilha escura, onde provavelmente faltará uma terceira mão para segurar a lanterna, mesmo as operações mais simples se tornam complicadas, senão traiçoeiras. E agora, pé na estrada, porque mal o sol sumiu de um lado do cânion, na margem argentina, a lua começou a passar por cima das árvores que sombreiam a margem brasileira. E só esse momento já vale a correria, com ou sem fotos.</p>
<p>É a mesma trilha calçada de cimento e demarcada por balaustres metálicos por onde, horas antes, passava um rio de visitantes, praticamente em fila indiana. O parque do Iguaçu está em época de enchente humana. Além, é claro, de ter muita água. Nesta Páscoa, espera 20 mil turistas. E são normalmente só aqueles mil duzentos metros de parque que eles visitam. Os da trilha que percorre os mirantes das cataratas.</p>
<p>Mas, deserto e sombrio como fica assim que os portões de ingresso fecharam, o percurso volta a ser um suvenir convincente da mata original, que há menos de um século barrava o caminho e a vista dos primeiros curiosos que vieram à Garganta do Diabo. Sob o ronco das cachoeiras, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/13/a-recepcao-pelos-donos-da-casa/">passos leves e sutís no chão de folhas recordam o tempo todo que a mata foi provisoriamente devolvida pelo anoitecer a seus legítimos donos</a>.</p>
<p>Na vinda, minutos atrás, foi até preciso parar o carro para que um veado mateiro, estacionado no meio da BR-469, decidisse sem maiores pressões do trânsito o rumo que pretendia seguir na tavessia do asfalto. Outro, um quilômetro adiante, corria pelo acostamento, o mesmo percurso gramado que costumam usar jogging, assim que a tarde refresca, os funcionários e guardas da polícia florestal.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Salto-Floriano_0039.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-727" title="Salto Floriano_0039" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Salto-Floriano_0039.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Mas não se pode deixar que os bichos e outros personagens tomem nesta história o lugar que estava reservado para as fotografias da lua cheia. E ela não negou fogo. Estava alta, resplandescendo no salto Floriano, na chegada ao mirante, uma torre de elevador com plataformas metálicas debruçadas em balanço sobre o rio, que oscilam sensivelmente com o choque da água lá embaixo sobre o leito de basalto.</p>
<p>Aí, irmão, é preciso ter cuidado, porque pode andar por perto sua mulher, dizendo que acaba de ver um arco-íris branco, quase fantasmagórico, na névoa que as quedas lançam sobre as corredeiras, rio abaixo. Miragem pura, provocada pela nossa tendência a descolorir a noite. No escuro, para nossos olhos, todos os gatos são pardos e os arco-íris, pálidos. Mas, daqui a pouco, o sensor imparcial da câmera, devidamente informado de que, apesar das aparências em contrário, está debaixo da luz que vem do sol, irá devolver-lhes todas as faixas do espectro a que têm direito no expediente diurno.</p>
<p>Para isso é que servem as manipulações preventivas do equipamento. Para não deixar que as câmeras se enganem, como nós nos iludimos com o luar. Lembrou-se até de aumentar a sensibilidade para ISO 800? Ótimo. Isso vai lhe custar algum ruído na imagem. Mas nem por isso deixará de ser bom negócio, numa torre que oscila suavemente diante das cataratas. Ali, nem o tripé mais firme – no caso, um valente e surrado Gitzo Mountaineer de titânio – dará fotos de longa exposição com nitidez aceitável.</p>
<p>O segredo é limitar a 10, 11 segundos no máximo, o tempo que o obturador permanecerá aberto. Evidentemente, com o espelho interno recolhido como uma ponte levadiça, e sem você encostar em nada, tentando sentir com os pés a pausa no vai-e-vem irregular da torre metálica. Logo, usando o disparador de cabo – aquele que você quase esqueceu ao juntar a parafernália, tendo que voltar às pressas para buscá-lo. Na câmera, em si, nem se toca. E, sem o disparador, sua noite de luz cheia a essa altura estaria meio  bichada, pelo menos em matéria de fotografia.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Vertical_0048.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-728" style="margin: 5px;" title="Vertical_0048" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Vertical_0048.jpg" alt="" width="303" height="454" /></a> Às dez da noite, com as máquinas quase gotejando de umidade, esgotou-se arbitrariamente o assunto inesgotável. Era hora de voltar para casa. Não sem antes dar uma última paradinha no belvedere do Hotel das Cataratas, diante da série saltos – Dos Hermanos, Cabeza de Vaca, San Martín, Bosetti – que fecham na margem argentina a longa volta do rio Iguaçu pela beira do precipício.</p>
<p>Ali, dois casais, certamente de hóspedes do Hotel das Cataratas, aproveitavam a vista exclusiva do anfiteatro. E havia no ar um excesso de iluminação artificial, vinda do jardim para competir com o luar. Era o toque definitivo de retirada. Daria para encerrar a história por aqui, se ao ligar o carro no estacionamento e sair da vaga em marcha-a-ré, os faróis não batessem de raspão num vulto de animal, na borda do mato ralo que costeia a pista da BR-469.</p>
<p>Outro veado? O terceiro da noite? Foi preciso assestar os faróis em sua direção para constatar que não. Tratava-se de outro bicho. Sem dúvida, de um grande felino. Com sorte uma onça parda, com as patas dianteiras pisando o asfalto, logo ali, na frente do hotel, num ponto onde os ônibus e vans despejam durante o dia milhares de visitantes. A cena parecia à primeira vista um exagero quase inverossímil, coisa que na vida real só acontece com altas doses de luar.</p>
<p>Mas não era uma onça parda. Era muito mais que isso. Ali estava naquele momento, encarando o jardim, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/02/23/a-safra-de-onca-2010-promete/">uma onça pintada</a>, imperturbável, sob o facho dos faróis &#8211; tão perto da escada de acesso ao saguão de entrada que lembrava a onça capturada naquele mesmo jardim  d<a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/">uas décadas atrás pelo biólogo Peter Crawshaw</a>. A tal pintada se habituara a dormir na varanda do gerente.</p>
<p>A onça de domingo passado não cruzou essa fronteira. Voltou do ponto em que estava, com elegância sobrenatural. Sem correria, deu meia volta e o mato se fechou às suas costas como um pano de boca. O que significava sua presença naquele lugar? Nem a turma do Projeto Carnívoros do Iguaçu se arrisca por enquanto a responder. Oficialmente, nunca foram tão poucas as onças pintadas do parque. Seis ao todo, contadas por armadilhas fotográficas que elas parecem driblar sistematicamente nos pontos mais ermos das áreas intengíveis da unidade de conservação.</p>
<p>Escondem-se dos especialistas. E, ao mesmo tempo, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/">nunca apareceram tanto para tantos leigos desavisados, nos locais mais implausíveis, do lado mais populoso, visitado e turístico do Iguaçu</a>. Parecem ter aprendido que ali, pelo menos, não se caça, embora haja o risco de serem atropelaas, como o macho que morreu de madrugada na BR-569, há mais ou menos um ano.</p>
<p>O que elas estariam querendo nos dizer com isso? Trata-se de uma despedida, aviso do triunfo definitivo do engenho humano sobre o mundo natural, como disse o crítico inglês John Berger dos zoológicos, que só viraram moda na Europa do século 19 quando ficou estabelecido de uma vez por todas que a era dos elefantes, leões e rinocerontes estava no fim?</p>
<p>Não é o tipo de pergunta que uma simples história sobre fotografia de lua cheia possa responder. Ver onças nos roteiros mais batidos do parque nacional do Iguaçu pode ser um bom sinal ou um mau sinal, dependendo inclusive do que daqui para a frente fizermos com ele. O certo é que, depois de cruzar sem querer com as intenções sigilosas desses animais arredios, não dá mais para conceber o mundo sem eles. Muito menos o mundo que fica dentro do parque nacional do Iguaçu.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Arco-íris_00431.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-732" title="Arco-íris_0043" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Arco-íris_00431.jpg" alt="" width="513" height="342" /></a></p>
<p>E antes que alguém escreva para saber aonde foi parar a foto da onça de domingo, não custa lembrar que desde a primeira linha este texto deixou claro que iria tratar de fotografia na lua cheia. E, como se sabe, uma câmera regulada para esse tipo de imagem não sai por aí fotografando onça, sem antes se preparar para voltar a ser o que era antes de se arrumar para a vida noturna. Por a <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/03/19/receita-de-um-dia-mais-que-perfeito/">Fotografia, trocada em miúdos, é a arte de botar cada coisa no seu lugar.</a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/30/podem-por-a-culpa-na-lua-cheia/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>12</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Santo de casa não ganha esmola</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/26/santo-de-casa-nao-tem-patrocinio/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/26/santo-de-casa-nao-tem-patrocinio/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 26 Mar 2010 19:14:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=704</guid>
		<description><![CDATA[Uma armadilha fotográfica acaba de flagrar, para os estudos de fauna do Cenap, uma onça parda atacando uma capivara no terreno da Replan, a maior refinaria do Brasil. Resta saber se a Petrobras quer prospectar esse achado em seus programas ambientais.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Puma-e-Capivara-0122.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-701" title="Puma e Capivara 0122" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Puma-e-Capivara-0122.jpg" alt="" width="434" height="287" /></a></p>
<p><strong>A</strong> cena tem uma virtude rara em registros de armadilhas fotográficas: uma composição completa, em vez de um enquadramento aleatório. Comprime numa fração de segundo uma história inteira, dirigindo o olhar para o destino da capivara, que à direita, em primeiro plano, mas de costas, quse desfeita pelo movimento de fuga, virou borrão de rabiscos marrons, como já estivesse se desfazendo.</p>
<p>No canto esquerdo vê-se a onça parda, de frente, nítida até nos fios dos bigodes, com as patas dianteiras no ar e o focinho manso dos predadores que, ao caçar, substituem a ferocidade pela atenção. Os bichos estão frente a frente numa  trilha de várzea, com chão de folhas secas, em mato ralo. Ao lado da onça, desponta do colo, como um cogumelo, um tubo amarelo e vermelho. Logo atrás dela, um caibro fino ostenta uma placa, pequena, mas perfeitamente legível. O letreiro diz: PM-19, Petrobras.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Puma-Petrobras-01221.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-703" style="margin: 5px;" title="Puma Petrobras 0122" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Puma-Petrobras-01221-255x300.jpg" alt="" width="255" height="300" /></a> Isso mesmo. O flagrante ocorreu em fevereiro, junto a Posto de Monitoramento 19 da Replan, a maior refinaria do país. Fica na Região Metropolitana de Campinas, cuja população cresce mais que a do município de São Paulo.</p>
<p>A seu redor, venerandas propriedades rurais viram da noite para o dia condomínios residenciais. Na hora do licenciamento ambiental, tufos de mata nativa se encaixam nos projetos imobiliários. Depois, quando um bicho espremido pela expansão industrial e urbana se transfere para esses refúgios, os mesmos moradores que queriam se mudar para perto da natureza reclamam que foram invadidos.</p>
<p>A Replan confina com as terras da cetenária Usina Esther, que cultiva 18 mil hectares de cana e mantém uma reserva de 173 hectares, reflorestada pelo ambientalista Paulo Nogueira Neto em 1958, quando não se falava muito em plantar mata em terras produtivas. Nogueira Neto, diga-se de passagem, foi o professor que pôs Márcia Rodrigues na trilha da conservação ambiental.</p>
<p>A área da REPLAN é de aproximadamente 154 hectares. Trata-se de um eucaliptal que abriga um bosque em processo espontâneo de regeneração. Daí a atração que exerce sobre a fauna nativa. Cosmos, aonça  parda capturada em fevereiro pelos agricultores de Cosmópolis, atualmente transita, com seu rádio-colar, entre os dois fragmentos florestais &#8211; o da Usina e o da Replan. Na refinaria, um censo preliminar da população silvestre acusou a presença de 40% de veados, 38% de capivaras e 11% de tatus.</p>
<p>Tudo isso é comida de onça. E presa de caçadores. Uma sussuarana caiu recentemente numa armadilha clandestina de caçador. E ele, pelo sim, pelo não, matou-a com seis tiros de revólver. Uma das câmeras que espionam a bicharada da Replan flagrou dois homens armados com espingarda de caça. Um deles trajava o uniforme de uma firma terceirizada que atua na Replan.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Puma-Close-0122-copy.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-705" style="margin: 5px;" title="Puma Close 0122 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Puma-Close-0122-copy-217x300.jpg" alt="" width="217" height="300" /></a> A região tem onças pardas renitentes que, escoladas por quase quatro séculos de ocupação humana, aprenderam a viver onde podem. Muitas passam por lá em trânsito. Outras se estabelecem. Quatro sussuaranas figuram nas estatísticas dos últimos 12 meses. Uma apareceu num condomínio em Vinhedo. Outra, numa a área residencial de Rio das Pedras, junto à Unicamp. A terceira foi atropelada na rodovia Anhangüera e convalesce de um reimplante dentário. E um macho de 6 anos e 50 quilos entrou há poucas semanas para o rol dos felinos monitorados por colar noite e dia.</p>
<p>Tudo isso no fundo do quintal de grandes empresas, como a Replan. Mas só quem parece interessada no eucapital da refinaria é o Centro de Nacional de Predadores, do Meio Ambiente. Em nome do Cenap, a bióloga Márcia Rodrigues, com cinco anos de experiência na Amazônia e outros tantos de trabalho Mata Atlântica, oferece há meses à Petrobras o programa, bancando os rádio-colares para seguir os passos dos animais lá dentro.</p>
<p>Neca. E não é por falta de verba, porque acaba de lançar o edital de sua nova rodada patrocínios. Acena, para isso, com 110 milhões de reais.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/26/santo-de-casa-nao-tem-patrocinio/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>11</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Uma casa com duas onças no fundo</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 15 Mar 2010 15:32:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=666</guid>
		<description><![CDATA[Os 31 universitários e professores alemães que vieram ao Parque Nacional do Iguaçu desbravar atalhos para o desenvolvimento econômico sem malversação de recursos naturais ganharam de presente a visita de duas onças pintadas, que se instalaram bem atrás de seu alojamento. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Dois-irmãos-3131.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-667" title="Dois irmãos-3131" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Dois-irmãos-3131.jpg" alt="" width="454" height="269" /></a></p>
<p>Fazia um calor emoliente, cozinhando em fogo lento o temporal que desabaria no fim de semana, quando um chamado urgente despertou na sexta-feira o telefone do biólogo Apolônio Rodrigues. Vinha da base do Poço Preto, uma residência funcional desabitada que se repovoou este ano, mais movimentada do que nunca, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/">como alojamento para os estudantes, alunos e pesquisadores que o Parque Nacional do Iguaçu</a> atualmente hospeda para seus cursos.</p>
<p>No caso, encerrava-se naquela tarde a árdua semana de trabalhos de campo para uma turma vinda Alemanha, do Campus Ambiental Birkenfeld, da Universidade de Trier, para aprender e ensinar o que a cidade de Foz do Iguaçu, o parque e seus vizinhos do Sudoeste paranaense podem fazer em favor de uma vida mais próspera e mais limpa, usando o que botam fora como lixo e esgoto.</p>
<p>Eram estudantes universitários. E cumpriram em poucos dias uma tarefa que as administrações públicas no Brasil adiam indefinidamente. À noite, apresentariam suas conclusões no auditório do parque. Estavam, a essa altura, aquertelados na base, batucando em <em>notebooks</em> seus projetos. E acostumados, depois de seis dias, a consultar Apolônio Rodrigues sobre todas as dúvidas que lhes surgiam pelo caminho.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Onde-está-Wally-F3120.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-668" title="Onde está Wally-F3120" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Onde-está-Wally-F3120.jpg" alt="" width="454" height="311" /></a></p>
<p>Mas aquele telefonema pegou de surpresa o diretor de Conservação e Manejo. Estava na linha um coordenador da universidade, contando que havia nos fundos da casa dois bichos que, se não eram, tinham tudo para ser onças pintadas. E pareciam dispostos a ficar por ali.</p>
<p>Apolônio pegou a máquina fotográfica, pulou no carro e correu para o alojamento. Ele dá a impressão de que está sempre com pressa. Mas o calor daquele princípio de tarde havia imobilizado até as folhas na floresta. E a cena que encontraria na base de pesquisas do Poço Preto não dava o menor sinal de que estivesse disposta a se desmanchar espontaneamente, de uma hora para a outra. E isso tornava o espetáculo ainda mais inverossímil.</p>
<p>Eram onças mesmo, constatou Apolônio. Dois filhotes encorpados, beirando o ponto de largar a mãe e cuidar sozinhos das próprias vidas. Provavelmente representavam uma das famílias que, há semanas, t<a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/02/23/a-safra-de-onca-2010-prom">êm aparecido nas encruzilhadas da floresta com o asfalto, na área mais frequentada do parque</a>. Talvez e mesma que posou para a posteridade numa armadilha fotográfica armada na estrada de terra das Bananeiras, em pleno circuito turístico do Macuco Safari.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/No-muro-3130.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-669" title="No muro-3130" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/No-muro-3130.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Na sexta-feira, a dupla repousava languidamente nas ruínas de um canil onde, no começo da década de 1990, a “onça do Peter” entrou à noite para matar seu cachorro. O que é outra história. Naquela madrugada, encontraram-se frente à frente no terreiro limpo, a poucos passos de distância, uma fera especialmente intratável e o biólogo Peter Crawshaw, dono do maior currículo brasileiro em <em>Pantera onca</em> e professor de etiqueta, quando se tratar de lidar com ela em pé de igualdade.</p>
<p><em> </em></p>
<p>O espetáculo que Apolônio flagrou dessa vez era estranhamente plácido. Lembrava um idílio pastoral nas melhores tradições do teatro germânico. Ex-assistente de Crawshaw, ele não estava preparado para encontrar, de um lado, moças e rapazes espalhados pelo chão de uma minúscula varanda, retocando seus relatórios sem tirar os olhos do canil meio demolido, sem porta nem tela, separado do mato por vinte centímetros de tijolos. Ali, a oito metros de distância, as duas onças ocupavam as ruínas sem se importar com a platéia.</p>
<p>Apolônio foi direto ao último ato. Tocou os alunos porta adentro. Numa das salas, encontrou um aluno de engenharia às voltas com os gráficos de seu computador, de costas para a janela aberta. Atrás dele, a um pulo do estudante, as onças. Explicou aos visitantes que onça não é brinquedo. Pode matar uma pessoa com um tapa. Sem contar que a mãe daqueles filhotes provavelmente poderia andar por perto. E reprovar a seu modo tamanha promiscuidade.</p>
<p>Fez tudo como manda o figurino de seu cargo. Sem deixar de ser Apolônio. O diretor de Conservação e Manejo fotografou e filmou os bichos no canil. E em seguida despachou-os de volta à floresta. Mas só à custa de muito berro. No dia seguinte, o guia Wanderlei Vargas encontrou a dupla a 500 metros da casa, junto ao asfalto que atravessa a área visitável do parque. Tinham matado um tapiti. Um deles devorava o coelho silvestre. O outro simplesmente balançava a cauda, &#8220;como gato, sabe?&#8221;. Eram seis e pouco da manhã. O tempo tinha virado. Começava a se armar sobre o parque o temporal que cairia de tarde. Ninguém, fora Wanderlei, estava ali naquela hora para aproveitar as onças.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>6</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A safra de onças 2010 promete</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/02/23/a-safra-de-onca-2010-promete/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/02/23/a-safra-de-onca-2010-promete/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 24 Feb 2010 00:12:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=608</guid>
		<description><![CDATA[Oficialmente, o parque nacional do Iguaçu nunca teve tão pouca onça. Mas cresce sem parar o número de pessoas que encontra pintadas pela primeira vez em sua rotina na unidade de conservação, como se fosse um sinal de que a espécie anda pedindo mais atenção.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-PNI-E181.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-622" title="Onça PNI E18" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-PNI-E181.jpg" alt="" width="454" height="283" /></a></p>
<p><strong>N</strong>a manhã de terça-feira, dia 23 de fevereiro, Clodoaldo da Silva viu uma onça com dois filhotes pequenos na beira da BR-469. É um caminho que ele faz regularmente, como funcionário da área de manutenção do parque nacional e, sobretudo, como encarregado de recolher para a Itaipu Binacional, três vezes por dia, os dados da estação pluviométrica e dos marcos de altura do rio na beira do Iguaçu.</p>
<p>Mas um encontro como aquele era a primeira vez que acontecia. Os bichos estavam a cerca de três metros de seu carro. Aparentemente, ignorando sua presença. A calma dos filhotes o impressionou. Ele, ao contrário, ficou “tão perturbado”  que nem se lembrou de gravar a cena com o telefone celular. “Numa hora dessas, nada funciona”, explicou.</p>
<p>Nesse ponto, podia se considerar na mais fina companhia. Quatro dias antes, mais ou menos na mesma hora, o jornalista Adílson Borges cruzou com uma onça no quilômetro 7,2 da estrada federal, a das cataratas. Ele trabalha na Assessoria de Comunicação do parque há seis anos. Mas aquela foi também a primeira onça de seu currículo.</p>
<p>“Já topei com muito caititu, veado, jacaré. Mas com pintada, nunca, Aliás, nem sussuarana”, ele conta. Borges ia na ocasião fotografar uma solenidade na borda das cataratas. A bolsa com o equipamento fotográfico estava no banco de trás. E lá ficou. “Acho que era um filhote quase adulto. Estava sozinho. Quando saltou do barranco, do outro lado da pista, pensei que fosse um puma. Mas ele passou bem na minha frente, e aí vi as manchas. Ele vinha correndo, mas sem dar a impressão de que estava fugindo ou perseguindo uma presa. Simplesmente atravessou a estrada depressa e entrou no mato à direita, como se meu carro não existisse”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-PNI-E132.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-627" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Onça PNI E13" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-PNI-E132.jpg" alt="" width="255" height="409" /></a>Era uma grande história para contar, na segunda-feira de manhã, a seu chefe, o diretor do parque Jorge Pegoraro. A primeira onça, depois de seis anos&#8230; Mas seu relato não foi longe, porque Pegoraro também tinha muito o que dizer a esse respeito. No cargo desde 2003, ele acabava de ver, na madrugada de sábado, a 200 metros de sua casa, um par de pintadas.</p>
<p>Voltava, na ocasião, de um jantar na Argentina. Sua mulher, Yáskara, assumira o volante. Ele cabeceava no banco do carona. Os dois filhos dormiam a sono solto atrás. De repente, Yáskara exclamou: “Pegoraro, olha lá dois bichos grandes no acostamento”. Veados certamente não eram. O casal está habituado a flagrá-los com os faróis do carro, quando chega em casa em horas mortas. Antes mesmo que os fachos iluminassem os dois animais em cheio, eles sabiam que estavam diante de alguma coisa nova, maior, diferente.</p>
<p>“Pensei que fossem pumas”, lembra Pegoraro. Mas seu batismo de onça dispensaria qualquer abatimento. Eram pintadas legítimas. Aparentemente, uma fêmea com um filhote quase de seu tamanho, mas ainda no pé, costeando o mato que, logo adiante, desemboca em seu jardim. Portanto, duas onças entregues quase a domicílio.</p>
<p>E não se fala mais de outro assunto esta semana. Há uma safra de onça nesta temporada que Iguaçu há muito tempo não colhia. Há duas semanas, uma pintada pesseava pela trilha das Bananeiras, roteiro que em geral oferece aos turísticas um cardápio rico, mas com baseado em pássaros e borboletas. Caminhava pela estrada de terra, como se fizesse parte do programa. Depois, no carnaval, uma guia viu duas onças que pareciam se distrair uma com a outra, como se estivessem brincando.</p>
<p>Seja lá qual for o motivo para tamanha visibilidade, elas vêm em boa hora. Quanto mais aparecerem, menos se pode adiar as medidas de controle da velocidade e do excesso de trânsito na BR-469, onde carros, ônibus e caminhões trafegam no ritmo dcrescentes de uma arrancada turística que este ano levou 10.400 pessoas ao parque só no domingo de carnaval. É um assunto que a administração começou a discutir há um ano, quando  uma pintada foi atropelada em plena juventude mais ou menos no mesmo ponto da estrada onde as sobreviventes agora estão circulando. Ou melhor, dando o ar de sua imensa graça.</p>
<p>E quantas onças sobrevivem no Iguaçu? Esse é outro mistério. Oficialmente, contadas pelas armadilhas fotográficas da ONG Pró-Carnínovoros, elas não passam neste momento de seis exemplares. Apesar de raras, tornaram-se mais visíveis do que nunca – seja para corroborar ou para desmentir o prognóstico sombrio de que, reduzidas a essa população, elas estão a caminho do sumiço definitivo no Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-P.C.-E182.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-631" title="Onça P.C. E18" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-P.C.-E182.jpg" alt="" width="510" height="283" /></a></p>
<p>“Uma coisa é certa”, diz Pegoraro. “<a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/02/03/a-nova-geracao-gosta-de-oncas/">Foi só retomarmos o estudo das onças para elas aparecerem”</a>. O que elas querem dizer com isso os especialistas ainda não foram capazes de traduzir para os programas de manejo do parque nacional. Mas ninguém pode dividar de que elas andam fazendo o possível para receber mais atenção.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/02/23/a-safra-de-onca-2010-promete/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A nova geração gosta de onças</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/02/03/a-nova-geracao-gosta-de-oncas/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/02/03/a-nova-geracao-gosta-de-oncas/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 03 Feb 2010 20:53:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=531</guid>
		<description><![CDATA[O Primeiro Curso de Biologia e Manejo de Carnívoros reabre o estudo sistemático das onças e outros felinos selvagens em Iguaçu, ao mesmo tempo que povoa o parque com uma turma tão colorida e animada como a dos turistas, mas que está atrás de um trabalho sério.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: left;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9710.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-539" title="Curso de Onça_9710" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9710.jpg" alt="" width="454" height="335" /></a></p>
<p style="text-align: left;"><strong>O</strong> Parque Nacional do Iguaçu abriu o ano com dois recordes populacionais. Passaram por suas portas em janeiro mais de 167 mil visitantes. E ao mesmo tempo caiu a ficha de que suas onças pintadas, recenseadas por armadilhas fotográficas e farta pesquisa de campo, até segunda ordem estão reduzidas a seis indivíduos. É mais ou menos a metade do que havia uma década atrás, quando <a href="http://www.oeco.com.br/petercrawshaw/84-petercrawshaw/20385-a-volta-do-guru-30-anos-depois">o biólogo Peter Crawshaw</a> concluiu sua última avaliação metódica. <a href="http://www.biodiversityreporting.org/article.sub?docId=214&amp;c=Brazil&amp;cRef=Brazil&amp;year=2001&amp;date=March%202001">O resto morreu atropelado ou a tiro.</a></p>
<p>Em outras palavras, o inegável sucesso do Iguaçu como parque veio junto com uma estatística que põe em causa seu êxito como unidade de conservação. E por isso é um alívio a chegada ao parque da turma que veio fazer, no Iguaçu, o Primeiro Curso de Biologia e Manejo de Carnívoros.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9752.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-540" title="Curso de Onça_9752" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9752.jpg" alt="" width="454" height="298" /></a></p>
<p>São 27 alunos de fora, além dos nove que aderiram programa entre o pessoal do parque e da guarda florestal. Muitos vieram de bem longe, de outros estados ou até do Peru e da Argentina. Pagaram, fora os custos da viagem, 900 reais pela taxa de inscrição. Acomodaram-se num dormitório preparado a toque de caixa para recebê-los, na beira de um caminho de terra que leva ao rio Iguaçu, sob a copa de árvores centenárias. Ou seja, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/">a trilha do Poço Preto</a>.</p>
<p>São, em geral, biólogos ou veterinários. Na média, gente muito jovem. Da turma, 14 alunos nasceram na década de 1980 e 4, nos anos 90. Eles povoaram da noite para o dia estradas e auditórios com rapazes de brinco na orelha e sacola de pano a tiracolo, transitando pelo acostamento da B-469 ou pegando carona em caçamba de picape. E, sobretudo, com moças de short e camiseta que, apesar do uniforme de férias, até à distância se distinguem das turistas, por andarem de lá para cá em trajetos que as visitantes ocasionais nunca percorrem, além de cumprir horários que precedem e ultrapassam com larga folga o funcionamento das bilheterias.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_97081.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-543" title="Curso de Onça_9708" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_97081.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Todos eles estão passando a semana em contato direto, de manhã à noite, com desbravadores da conservação de grandes felinos no Brasil, como Laury Cullen, do Ipê, Ronaldo Gonçalves Morato, do Cenap, ou Dênis Sana, da fundação Pró-Carnívoros. E foram recepcionados com a exuberância de praxe pelo diretor de conservação e manejo Apolônio Rodrigues, um dos funcionários públicos menos convencionais que existem.</p>
<p>Criado em fazenda no sertão de Goiás, ele entrou para o Ministério do Meio Ambiente como auxiliar administrativo. Em outras palavras, comandava contínuos em Brasília. Na prática, aos 18 anos, controlava a papelada dos processos de incentivos fiscais para reflorestamento, nome que se dava na época à derrubada de mata nativa para plantar eucaliptos e pinus com dinheiro do governo. Efetivado na burocracia ambiental, à medida que ia subindo na carreira, ele acabou sem função. O governo Fernando Collor &#8211; &#8220;em boa hora, deve ter sido uma das únicas coisas boas que ele fez&#8221; &#8211; acabou com os incentivos e, por tabela, com suas tarefas.</p>
<p>Para &#8220;não enlouquecer&#8221;, ele passou a organizar por conta própria mutirões que limpavam parques do Cerrado no fim de semana, o mais longe possível do confinamento do escritório. E agarrou agarrou à unha a primeira chance de uma transferência para a linha de frente. Mudou-se para o Iguaçu, sem escolher propriamente o lugar. Iguaçu era o terceiro posto em sua lista de preferências, encabeçada por Natal, no Rio Grande do Norte, e por Vitória, no Espírito Santo.</p>
<p>Mudou-se para lá e nunca mais deixou o parque, onde aliás nasceram e estão crescendo seus dois filhos. Hoje, dá a impressão de conhecer cada palmo dos 185 mil hectares da unidade de conservação, incluindo os meandros mais ermos das áreas intangíveis. Comprou todas as brigas contra agências turísticas, prefeitos da vizinhança e outros especialistas em usar e abusar da unidade de conservação sem dar a mínima para a conveniência de conservá-la. Já viu por isso faixas em Foz do Iguaçu clamando &#8220;Fora, Apolônio&#8221;. Em compensação, mora numa curva de rio que só falta abraçar sua casa de madeira.</p>
<p><a style="text-decoration: none;" href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_97202.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-546" title="Curso de Onça_9720" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_97202.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Tarimbado como está, Apolônio continua a cair no mato com o entusiasmo de quem está vendo cada coisa pela primeira vez. E há muito o que ver em cada passo no Iguaçu. Já fez papel de jagunço numa produção nacional sobre a colonização do Oeste paranaense e lamenta que o filme nunca tenha passado da ilha de edição. Neste momento sente-se obviamente muito à vontade no meio da estudantada, mimetizado entre os recém-chegados pela barba e o cabelo longo, fora a indumentária de quem está sempre prestes a sumir numa trilha ao primeiro pretexto e o fôlego que lhe permite emendar longos expedientes na administração com papos intermináveis noite adentro.</p>
<p>O curso anda bombardeando os alunos com saraivadas de informações frescas, de primeira mão. Laury Cullen contou-lhes durante uma manhã inteira como aprendeu a trabalhar entre fazendeiros e assentamentos dos sem-terra no Pontal do Paranapanema, salvando com isso onças que, enxotadas por barragens e desmatamentos, sobrevivem contra todos os prognósticos mais razoáveis na reserva estadual do Morro do Diabo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9716.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-547" title="Curso de Onça_9716" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9716.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Ensinou-lhes como fez do diploma de Biologia um passaporte para a pesquisa aplicada em conservação da natureza. Seu trabalho de campo, monitorando por satélite as andanças das onças que, entrincheiradas no Morro do Diabo, ignoram fronteiras municiapis, estaduais e internacionais, além de cercas, beiras de cidade, rodovias e rios cuja travessia que as represas estenderam a 1.800 metros de nado livre.</p>
<p>Os sinais que seus colares emitem durante essas andanças acumularam com o tempo dados precisos para traçar um novo mapa da região – o mapa que sem dúvida as onças fariam se pudessem ver seu pedaço da América do Sul de sensores situados na órbita terrestre. Aos olhos das feras andarilhas, a paisagem picotada por limites artificiais se reintegra num emaranhado de rios, fragmentos de florestas e várzeas que liga o Mato Grosso do Sul ao extremo Oeste do Paraná, varando São Paulo e o Paraguai.</p>
<p>A cartografia feita ela onça, se for conhecida e reconhecida, é o caminho mais curto para garantir que os cem derradeiros exemplares de sua espécie, na vasta bacia do rio Paraná, vençam a única barreira que elas não podem transpor sozinhas: a do tempo, que lhes acena, daqui a meio século, com uma alta probabilidade de extinção.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9743.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-548" title="Curso de Onça_9743" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9743.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>A tarde de terça-feira Ronaldo Morato conseguiu ocupar sozinho, literalmente entupindo a turma de informações sobre as últimas receitas dos laboratórios de genética para, entre outras proezas de ficção científica, reproduzir jaguatiricas genuinas através de gatos domésticos, ou guardar em bancos de germoplasma a fórmula para trazer de volta espécies silvestres que o mundo vai perdendo inapelavelmente, cada vez mais depressa.</p>
<p>No fim da aula teórica, ao ver que os alunos cabeceavam sob o peso de tanta novidade extra-curricular, levou-os em bando para uma aula prática de tiro-ao-alvo com zarabatanas, revólveres a gás e carabinas. As armas são heranças da tecnologia de caçadas que, com dardos de anestésicos, transformaram-se em ferramentas da conservação. O assunto era sério. Mas, com a mudança de ares e de metolologia didática, o grupo agüentou firme – e às gargalhadas – até o cair da noite.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9683.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-549" title="Curso de Onça_9683" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9683-200x300.jpg" alt="" width="140" height="210" /></a>O curso promete ser o primeiro de uma série. Reabre com ele a temporada de pesquisas com carnívoros de grande porte no Iguaçu, num momento crítico para discutir sua viabilidade a longo prazo. Porque, ao contrário do que faz crer o senso-comum e nossa vã simpatia pelas vítimas, eles são os guarda-parques primordiais. Ninguém toma conta melhor de sua fauna do que uma onça. Em seu território, o resto costuma estar sob controle, inclusive a pequena vanguarda dos polinizadores, que dependem da variedade da flora para existir &#8211; e vice-versa.</p>
<p>O curso não poderia começar em melhor hora. Nas circunstâncias que juntaram, na semana de estréia, para cada onça recenseada no parque, quase cinco jovens querendo aprender a conhecê-las, para salvá-las. Se, para a <em>Panthera onca</em>, isso não for um sinal de sobrevivência garantida, há de ser pelo menos um alegre consolo.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/02/03/a-nova-geracao-gosta-de-oncas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
