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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Oeste do Paraná</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Quilombola, mas só nas horas vagas</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Oct 2010 21:48:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Populações Tradicionais]]></category>
		<category><![CDATA[Turismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Guia de ecoturismo num fundo do parque nacional que quase ninguém visita e quilombola por obra e graça de uma largueza do governo, Almiro Marcelino Pereira administra sozinho um tesouro turístico que o Brasil ignora. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Miro_9539.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1268" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Miro_9539" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Miro_9539.jpg" alt="" width="277" height="410" /></a>A</strong>s perneiras de couro, contra picadas de cobra, são inseparáveis do ritual de ingresso na Linha Martins. Mas vêm do estoque cheirando a mofo, apesar da discreta espanada que lhes deu o guia, antes de entregá-las. E não adianta dizer que sabe andar no mato, não tem medo de cobra ou faz calor. É a norma, Miro responde.</p>
<p>Ele se chama Almiro Marcelino Pereira. Mas, como avisou de véspera, pelo celular que não faz, só recebe chamadas, não adianta procurá-lo por esse nome nos confins do parque nacional com o município de São Miguel do Iguaçu, onde uma estrada de terra magra como um aceiro costeia a floresta e a soja. “Aqui, todo mundo só conhece o Miro”.</p>
<p>A divisa do parque com o município é um corte reto, traçado a máquina. E tão estreito, que a sombra das copas à tarde se projeta na margem das plantações. Nos dias mais quentes, é seu único anteparo contra o sol que cai sobre os campos como uma praga dos céus. Aprender o apelido é indispensável porque sem Miro não se vai à Linha Martins.</p>
<p>Também não adianta procurá-lo diretamente no portão de entrada, porque ali ele vai pouco. É um escritório caprichado, feito pela Macuco Safari com toras de eucalipto. Tem pórtico na frente, varanda nos fundos, virada para floresta, e até enfermaria. Mas turista é o que Miro menos vê na Linha Martins, desde que passou a operá-la lá vão mais de cinco anos.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Linha-Martins_9563.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1269" title="Linha Martins_9563" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Linha-Martins_9563.jpg" alt="" width="403" height="269" /></a></p>
<p>Onça, sim, é visita que não lhe falta. Cada avistamento de onça, pintada ou não, está metodicamente inscrito, com dia, hora e local, na planilha da administração. O resto da fauna não merece tamanha consideração. Miro perdeu a conta das varas de porcos do mato, dos bandos de macacos, das antas e das jaguatiricas com que topou em suas andanças, capinando regularmente uma trilha que, por falta de uso, está sob o risco permanente de invasão pelo mato.</p>
<p>A prática tirou-lhe o pavor que tinha das jararacas, cascavéis e outras serpentes que lhe atravessam habitualmente o caminho. Mas as perneiras continuam sagradas. Miro nasceu em Minas Gerais. Seus pais se mudaram para o Paraná quando ele tinha um ano de idade. Morou em outros lugares. Mas cresceu bem atrás do parque, sem nunca pisar lá dentro. Trabalhava na lavoura, quando achava serviço. O mato não o atraía. Ao contrário, metia-lhe medo, com suas histórias de bichos brabos.</p>
<p>Ele se criou num antigo fundo de fazenda, loteado pelos herdeiros em pequenos sítios de um alqueire. A maioria dos lotes foi comprada por negros.  São menos de 30 pessoas, ao todo. Poucas, mas o bastante para, em terra de louros descendentes de imigrantes alemães, italianos ou poloneses, fundarem ali sem querer um lugar conhecido localmente como a &#8220;Vila dos Pretos&#8221;.</p>
<p>Como Vila dos Pretos, uma comissão de Curitiva reconheceu-a como Comunidade Quilombola da Sanga Funda. Com o título vieram promessas de mais terras, sementes gratuitas e outras prerrogativas oficiais de quilombo. Nem tudo saiu. Masw Miro não deprecia as vantagens de virar quilombola. “As pessoas assim nos tratam com mais consideração”, ele garante.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Linha-Martins_9559.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1270" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Linha Martins_9559" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Linha-Martins_9559.jpg" alt="" width="299" height="448" /></a></p>
<p>A picada corta o parque de um lado a outro, em menos de quatro quilômetros, a menor distância entre seus limites. Já se pensou em extirpar essa verruga florestal da unidade de conservação, encravada como está numa fronteira agrícola sempre em avanço. A demarcação definitiva preservou-a. E a Linha Martins foi uma compensação, para calar as críticas de que o parque fica de costas para quem mora longe de seus portões.</p>
<p>Nisso, fracassou. Ela recebe raros visitantes. E da vizinhança, até hoje, não veio ninguém. Só o prefeito de São Miguel do Iguaçu passou por lá na inauguração, sem parar para ver o que havia além do pórtico. Miro, no entanto, mantem a picada pronta para o que der e vier, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/10/12/um-recorde-historico-atras-do-outro/">desde que foi convocado pelo dono da Macuco, Ademir dos Santos</a>, em termos peremptórios: &#8220;Você vai trabalhar comigo&#8221;. Miro estava desempregado. E acabara de ouvir de um mendigo que receberia uma proposta. Aceitou-a.</p>
<p>Ele aplica ao pé da letra o regulamento para a recepção de grupos, mesmo se atende um visitante desgarrado que lhe sugere, à falta de testemunhas, esquecer aquela história de calçar perneiras. É um mateiro cioso e tarimbado, que aprendeu a gostar de mato na Linha Martins. Mas vive num país que só consegue enxergá-lo como quilombola.</p>
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		<title>O medo do mato como o povo gosta</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/09/24/o-medo-do-mato-como-o-povo-gosta/</link>
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		<pubDate>Fri, 24 Sep 2010 23:39:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Colonização]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Numa série inédita de vídeos, entre depoimentos de ex-diretores do Iguaçu e descendentes de pioneiros, a entrevista de uma ex-moradora do parque destoa pelo horror ao mato. Mas é história típica da fronteira.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Teiú_2738-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1207" title="Teiú_2738 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Teiú_2738-copy.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>A</strong> residência oficial do diretor, onde morou por 15 dias só para não deixar a casa inteiramente deserta, era “meio assombradona”. Uma tarde, no atalho para o antigo museu, um tatu cruzou-lhe o caminho, e ela correu, “com um bebê no colo”, até encontrar uma porta aberta para trancar-se.</p>
<p>Aquele tatu até hoje povoa seu bestiário particular como um “bicho com capa nas costas”. O tamanduá, para ela, é quase um monstro “que come formiga” e encarou-a como se escolhesse a próxima vítima. No primeiro outono que passou na borda da floresta, mal as árvores da careira começaram a despejar frutos no chão, ela se viu sitiada por feras inomináveis, que saíam do mato para comer diante de suas janelas. Todos a assustaram, a começar pelo miúdo e sociável quati. Mas nada se comparava ao susto que lhe deu “aquele dos chifres para todo lado”. Ou seja, o veado mateiro, que nem tão chifrudo é assim.</p>
<p>Pior, só o dia em que encontrou na cozinha um lagarto “com um rabão enorme”. Correu para o quarto. Voltando à noitinha do serviço, o marido encontrou-a ainda de pé, em cima da cama, com a filha nos braços. “É só um teiú”, ele disse, tocando-o com uma vassoura para o terreiro.</p>
<p>Esse depoimento de 23 minutos consta das 40 entrevistas gravadas em DVD para o <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/10/22/iguacu-um-parque-com-saga-e-historia/">Projeto Memória das Cataratas</a>, uma iniciativa de de dois pesquisadores e de uma agência local de publicidade, que em 2008 vasculhou os guardados e as lembranças de famílias pioneiras, para contar na primeira pessoa a história da colonização de Foz do Iguaçu.</p>
<p>A cidade ficava para esses colonos nos cafundós do Oeste paranaense. E nela a maior parte do que agora vai sumindo no passado remoto tem pouco mais de meio século. Mas continua visível e vistável nos 185 mil hectares do parque nacional do Iguaçu, que em janeiro do ano passado completou 70 anos. Ouviram-se de preferência os descendentes dos primeiros colonizadores e antigos funcionários do Iguaçu. Inês é exceção.</p>
<p>No aniversário do parque, o Memória das Cataratas virou livro e exposição de fotos antigas. Sobraram as entrevistas em vídeo, guardadas em caixas de papelão onde, pelo esquecimento, tornaram-se em pouco tempo duplamente históricas. Quem abre hoje a caixa se espanta, antes de mais nada, com a memória que se está perdendo outra vez de 2008 para cá.</p>
<p>Como é o caso do depoimento de Inês, tão íntimo e destampado que é melhor nem publicar aqui seu nome completo. Ela não parece falar para a câmera. Ignora as perguntas dos entrevistadores. Disserta sem a menor censura sobre sua própria vida, desde que trocou Santo Antônio do Oeste, um lugar “muito ovo”, pela cidade grande de Foz do Iguaçu. “Eu era muito ambiciosa”, esclarece.</p>
<p>Aos 15 anos, trabalhando “como garçonete do hotel Carimã”, viu passar pela estrada seu futuro marido. Ele vinha do batente numa pedreira próxima, e chamou-lhe a atenção pela “sujeira”. Acabaram se conhecendo numa festa. Inês casou grávida e depressa. Pouco depois, como o casal precisava arrumar a vida, eles fizeram juntos o concurso para funcionário do parque. Ambos passaram. Mas, por norma do serviço público, só um poderia ser contratado. Ele virou guarda. E, num belo dia de 1978, foi buscá-la “na viatura” para lhe mostrar a nova casa.</p>
<p>Quando viu aonde sua vida iria parar, Inês teve “muito medo”. Medo “de tudo”. Em suma, “medo do mato”. O casal começou a brigar ali mesmo. E brigou até separar-se, cinco ou seis anos depois. O casamento ia tão mal que ela tomou tudo o que lhe sugeriram para abortar o segundo filho. Nasceu uma menina forte.</p>
<p>O relato de seu inferno conjugal no inferno verde consome, com profusão de detalhes, pelo menos metade do depoimento. Até que, de repente, depois de descrever situações melodramáticas ela começa a chorar, mas não pelo casamento perdido. Conta que sente agora saudades de tudo &#8211; da casa, das cataratas, dos filhos crescendo em segurança longe das tentações urbanas, do <em>playground</em> sem fim que eles tiveram na primeira infância e até do forno de pão ao ar livre.</p>
<p>“Já trouxe meus netos aqui”, diz ela. Não encontrou mais a casa em que morava. Foi posta abaixo na atual administração, cumprindo uma exigência do plano de manejo, que quer um parque menos edificado. Nem por isso deixou de levá-los para ver o que já não existe: “Ali era o quarto da avó, o banheiro da avó&#8230;”</p>
<p>Nesse ponto, depois de fazer tudo para dar a impressão de que entrara no Memória das Cataratas por engano, Inês se transforma, na melhor testemunha da tragédia histórica que é a relação dos brasileiros com sua floresta. Inacabado como os outros, seu DVD nasceu clássico.</p>
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		<title>Não parece que foi ontem. Mas foi.</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Jul 2010 15:40:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Colonização]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Em vez de acalentar velhos mitos, a professora Adriana Tavares preferiu ir procurar na vida real a história da cidade onde nasceu, na década de 1970, dentro do parque nacional do Iguaçu. E encontrou um tesouro enterrado em velhos baús.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Veado-morto_05251.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1043" title="Veado morto_0525" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Veado-morto_05251.jpg" alt="" width="409" height="266" /></a></p>
<p><strong>N</strong>a escola estadual Parigot de Souza, a professora Adriana Marshall Tavares abre os envelopes vindos dos baús de parentes nos cafundós de Goiás e, em São Miguel do Iguaçu, a mesa da diretoria logo fica pequena para tanta fotografia despejada no tampo de fórmica.</p>
<p>As fotos têm legendas, que a própria Adriana colou em suas bordas seis anos atrás. São tiras supérfluas de papel amarfanhado, porque ela e seu tio, o diretor Jaime Emir Bogorni, sabem tudo de cor. Reconhecem de cara, por exemplo, o motorista Elmo Buche, que dirigia, uniformizado e de gravata, o único ônibus da linha intermunicipal a trafegar diante de sua casa na infância. Dão nomes aos jovens que empunham canecos de chope no Clube Aliança Três Fronteiras, “a nossa Oktoberfest”. E ao time de futebol.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Time_0258.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1032" title="Time_0258" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Time_0258.jpg" alt="" width="435" height="257" /></a></p>
<p>Nas imagens meio desfocadas e de cores esmaecidas está o dia-a-dia de quatro núcleos coloniais no Oeste paranaense. Há, por exemplo, o flagrante noturno de caçadores prestes a tirar o couro de uma onça pintada, morta nos fundos de casa. Um grupo de crianças posando em torno  do veado mateiro pronto para virar carne. E um velho caminhão quase esmagado pelo tronco descomunal que carrega para “a serraria do Alberto Matte”.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Serraria_0222.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1033" title="Serraria_0222" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Serraria_0222.jpg" alt="" width="446" height="286" /></a></p>
<p>Tudo isso aconteceu entre as décadas de 1960 e 1970 no Parque Nacional do Iguaçu. Atenção ao detalhe: <strong>dentro do Parque Nacional do Iguaçu</strong>. Vinte e um anos depois de sua criação, ele foi loteado por um advogado de Foz do Iguaçu, chamado Gaspar Coutinho. Seus agentes imobiliários andaram vendendo terras até no Rio Grande do Sul.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Onça_0236.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1044" title="Onça_0236" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Onça_0236.jpg" alt="" width="435" height="286" /></a></p>
<p>Os novos proprietários chegaram com os títulos na mão e uma desconfiança na cabeça. Seriam regulares aqueles lotes comprados num parque nacional? O cartório de São Miguel garantiu que sim. E registrou-os. O vigário José Gaertner sugeriu que o primeiro núcleo se denominasse São José do Iguaçu, batizado à “sombra de uma enorme figueira na mata”. Rapidamente se juntaram ao povoamento os vilarejos de Dois Irmãos, Santo Alberto e São Luiz.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Centro-Clube_0230.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1034" title="Centro Clube_0230" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Centro-Clube_0230.jpg" alt="" width="428" height="286" /></a></p>
<p>E o loteamento prosperou. Em 1969, a prefeitura dotou Santo Alberto de uma escola com quatro salas de aula, num grande prédio de madeira, com espaço “para mais de 100 alunos”. No ano seguinte, oficializou a colonização como Núcleo Administrativo. E a câmara de vereadores providenciou-lhe a rede elétrica e o posto de saúde. Eram, em pouco tempo, cidades pioneiras em acelerado processo de consolidação.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Foto-aérea_02771.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1035" title="Foto aérea_0277" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Foto-aérea_02771.jpg" alt="" width="429" height="286" /></a></p>
<p>Já funcionavam nos arruados de terra farmácia, açougue e dentista, quando do céu caiu sobre os colonos a sombra de um monomotor, voando baixo, para a tomada de fotos aéreas. Com ele chegou a notícia de que o governo federal queria de volta aquele pedaço do parque, que os moradores haviam adquirido, com a papelada aparentemente em ordem. Naquele momento, o Iguaçu passava, sob a coordenação da engenheira agrônoma Maria Tereza Pádua, um processo tardio de regularização fundiária, feito com todos os cuidados para livrá-lo, de uma vez por todas, de contestações e disputas judiciárias.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Túmulo_02631.jpg"><img class="size-medium wp-image-1037 alignright" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Túmulo_0263" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Túmulo_02631-197x300.jpg" alt="" width="158" height="240" /></a>Indenizados, os proprietários foram transferidos, a contragosto, para três novos povoamentos, do outro lado de São Miguel do Iguaçu, nas margens do rio Ocoí. Ali, seus  lotes teriam, em princípio, o dobro do tamanho. Mas, em média, 60% de sua área estavam previamente destinados à inundação iminente pelo reservatório de Itaipu. O novo endereço era ainda um lugar de matas virgens. Mas a mata que sobrou já não estava tão disponível quanto antes à serra e ao fogo, tradicionais instrumentos desbravadores da fronteira agrícola. Pelo menos um dos reassentados foi parar na cadeia por queimar seu naco de floresta. Os núcleos do Ocoí vingaram como bairros. Sua vocação agrícola ficou pelo caminho.</p>
<p>Adriana nasceu em Santo Alberto há 36 anos. Saiu aos dez meses da casa de madeira e chão de cimento que a família Bogorni construiu. Da construção resta hoje a escada da varanda, que Adriana só voltou a pisar três décadas depois, cercada de mato por todos os lados. Posou para uma fotografia no mesmo ponto onde aparece num retrato antigo, ainda aprendendo a andar, sobre o piso de vermelhão. Santo Alberto virou precocemente um sítio arqueológico, com poços, túmulos azulejados e vasos de samambaia tragados pela selva, no melhor estilo das imemoriais ruínas maias.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Adriana_0220.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1039" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Adriana_0220" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Adriana_0220-195x300.jpg" alt="" width="137" height="210" /></a></p>
<p style="text-align: left;">Em 2004, a professora restaurou o que sobrava das quatro cidades mortas nas lembranças e nos guardados de seus antigos moradores. O trabalho, com entrevistas gravadas em vídeo e pesquisas de campo, exigiu um mutirão de várias escolas. Três delas racharam as despesas, orçadas ao todo em 120 reais. O resulto foi exposto e visitado em 2004. Depois, engavetou-se novamente. Adriana passou todos esses anos sem revê-lo. Todo esse trabalho brotou, por iniciativa própria, de uma pesquisa que ela precisava fazer sobre a região, como formalidade para a conclusão de um curso de educação ambiental que fez na escola do Parque Nacional do Iguaçu. A descrever impessoalmente um lugar qualquer, ela preferiu ir atrás de sua própria história. E constatou, com olhos de adulta, que mesmo as piores recordações de uma crise familiar tem dois lados.</p>
<p style="text-align: left;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Adriana-Grande_02462.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1041" style="margin: 3px;" title="Adriana Grande_0246" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Adriana-Grande_02462-194x300.jpg" alt="" width="136" height="210" /></a>Ao rever as fotografias, ela lamenta ambas as perdas – as próprias e as do parque. Tudo isso por 120 reais deve ser o maior investimento ambiental que já se fez no Oeste paranaense com orçamento esquelético. Se os municípios das região fizessem apostas semelhantes, na certa se livrariam de seus mais renitentes fantasmas, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/06/05/a-estrada-do-colono-morreu-mas-se-mexe/">como a Estrada do Colono.</a> Neste ano eleitoral, ela ensaia mais uma vez um movimento político de ressurreição, para abocanhar um naco do Iguaçu, um parque nacional que, caso raro no Brasil, enterrou  há mais de duas décadas todas as suas encrencas legais ou fundiárias. Debates intermináveis como esse só podem ser resolvidos à luz da história e não à sombra de velhas lendas.</p>
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		<title>No meio do caminho tem ferro-velho</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/07/02/no-caminho-tem-um-ferro-velho/</link>
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		<pubDate>Fri, 02 Jul 2010 23:30:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Estrada do Colono]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[As prefeituras que achavam a Estrada do Colono indispensável ao escoamento de suas safras agrícolas agora querem explorá-la como roteiro "ecológico", mas nunca levantaram um dedo contra a pirataria no parque. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Justiça-Divina_0074.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1015" title="Justiça Divina_0074" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Justiça-Divina_0074.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>F</strong>unciona um ferro-velho dentro do parque nacional do Iguaçu. Feio como todo ferro-velho. É um terreno baldio onde relíquias da civilização industrial apodrecem ao relento. Fica num pequeno desvio da estrada que leva os turistas às cataratas. Mas, escondido pudicamente atrás das árvores, não passa nem perto do roteiro da visitação.</p>
<p>O que é lastimável. Seria uma parada indispensável à educação ambiental do público. Porque aqueles carros enferrujados, de modelos que saíram de linha faz muito tempo, com o mato subindo pelas latarias, foram todos apreendidos pelos fiscais nas mãos de caçadores clandestinos, palmiteiros e outros agentes da pilhagem constante que os moradores da vizinhança praticam, em nome de costumes locais irreprimíveis, contra o patrimônio do país, guardado no Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Carros_0092.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1016" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 4px; margin-right: 4px;" title="Carros_0092" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Carros_0092.jpg" alt="" width="273" height="409" /></a>Antes, aquelas sucatas eram entregues às delegacias locais. Mas voltavam rapidamente às mãos dos proprietários, devolvidas por uma polícia simpática ou cúmplice, sob as ordens de políticos e prefeitos que tratam essas coisas como manifestações culturais.</p>
<p>Presos no parque até o fim de processos que não acabam nunca, os carros, pelo menos, não reincidem no furto, como seus donos. São Wons, Stumpf, Bergen ou Simermann, formando verdadeiras dinastias de infratores. Repetem-se na papelada, também, suas  histórias – quase sempre de “agricultores”, “pedreiros”, “marceneiros”,  trabalhadores humildes, que estavam “sem emprego” e por isso foram contratados para ganhar no meio da noite um dinheirinho fácil e pingado. Ou seja, obra grande de povo miúdo.</p>
<p>Seus depoimentos perpetuam a lenda de que roubar o parque é atividade de subsistência. Mas elas têm por trás autênticas indústrias. Pelo menos um mandado levou à casa de um pastor protestante, que abriu a porta aos fiscais com a afabilidade de quem não tinha nada a esconder. Tomou mesmo a iniciativa de ir à frente com a mulher, guiando a busca, cômodo por cômodo, como se tivesse orgulho de exibir a orden doméstica simples e decorosa.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Brasília_0093.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1017" title="Brasília_0093" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Brasília_0093.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Até que um fiscal se ajoelhou diante de uma cama, coberta até o chão por colcha imaculada. E descobriu que todos os móveis estocavam maços de palmito entre as pernas. Tratava-se, nas horas vagas do culto, de um empresário do ramo de conservas caseiras.</p>
<p>Outros nomes recorrentes são os das cidades nas placas dos automóveis. De Capanema, Medianeira, Serranópolis vem a maior parte da frota encalhada no ferro-velho. Não só por serem cidades próximas. Mas sobretudo por nunca levantarem um dedo para coibir a pirataria, mesmo se muitas delas embolsam como ICMs ecológico as indenizações pela presença de uma unidade de conservação federal em território municipal.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Caravan_0276.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1018" title="Caravan_0276" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Caravan_0276.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>São essas as cidades que o projeto 7.123, do deputado paranaense Assis do Couto, quer agora premiar com a reabertura da <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/06/05/a-estrada-do-colono-morreu-mas-se-mexe/">Estrada do Colono, cortando o parque de um lado a outro</a>. Ela deixou de ser aquele atalho rodoviário de anos atrás, defendido por invasões violentas como  indispensável ao escoamento da produção agrícola. Virou “ecológica”. Promete fazer “educação ambiental” e promover o “desenvolvimento rural sustentável”.</p>
<p>Só se a engenharia genética tantas fez que agora a soja transgênica quer porque quer passear na floresta. Porque difícil mesmo de acreditar é na nova política de boa vizinhança. Os municípios envolvidos com a Estrada do Colono já provaram até cansar que têm prefeituras inidôneas para lidar com o parque.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Morta, a estrada do Colono se move</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/06/05/a-estrada-do-colono-morreu-mas-se-mexe/</link>
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		<pubDate>Sun, 06 Jun 2010 00:46:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Código Florestal]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação Ambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[O desembargador Álvaro Eduardo Junqueiro, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. corre o risco de reavivar uma velha briga, a título de promover a conciliação entre as partes. Seria melhor ouvir só os argumentos de quem quer a reabri-la.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Estrada-do-Colono_33311.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-941" title="Estrada do Colono_3331" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Estrada-do-Colono_33311.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p><strong>O</strong> desembargador Álvaro Eduardo Junqueira, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, está retomando no Oeste do Paraná a velha conversa sobre a Estrada do Colono. Louve-se o seu senso de oportunidade. O assunto sai da gaveta bem na hora em que o Conselho Nacional de Meio Ambiente resolveu entregar às populações tradicionais e pequenos agricultores as terras ilegalmente devastadas em áreas de preservação permanente, uma sentença acaba de declarar extinto o Parque Nacional de Ilha Grande e o Congresso se prepara para adaptar o Código Florestal ao gosto de quem o descumpriu frontalmente.</p>
<p>O momento, portanto, não poderia ser mais propício para botar na roda dos enjeitados o Parque Nacional do Iguaçu, que a Estrada do Colono corta no melhor pedaço, a parte em que a floresta foi declarada “intangível”. Mas se o que ele pretende é mesmo promover a “conciliação entre as partes”, cumprindo uma decisão unânime do Tribunal em Porto Alegre, o método que escolheu vai dar briga na certa..</p>
<p>Ele começou ouvindo exclusivamente os municípios que já manifestaram, mais de uma vez, pela invasão dessa unidade federal de conservação, sua opinião sobre o assunto. De cara, o desembargador federal municipalizou uma questão federal. E ainda aproveitou para contar que morou em Foz do Iguaçu, mantem com a região laços afetivos e reconhece a importância da estrada para sua gente.</p>
<p>Pelo cheiro, ele acendeu um fósforo para examinar um vazamento de combustível. Se era para conciliar uma parte só, o desembargador nem precisaria sair de Porto Alegre. Bastava ler atentamente, em seu gabinete, os argumentos em favor da reabertura. Se um deles ficar de pé sozinho, está resolvida a parada.</p>
<p>O problema é que eles são contraditórios ou implausíveis. Por exemplo, quando que aqueles 17,6 quilômetros rasgados na mata se assentam sobre uma picada aberta pelos  colonos catarinenses e gaúchos, ao chegarem ao Paraná na década de 1940. A essa altura, o parque já existia. Mas a estrada seria patrimônio histórico dos povoadores.</p>
<p>Se é, passou por ali uma raça de gigantes, capaz de atravessar florestas em linha reta, coisa que nem os elefantes costumam fazer na selva equatorial. Quem faz isso é linha telegráfica ou máquina muito poderosa. No caso, a máquina de corrupção política que impulsionou foi a do governo Moisés Lupion, que abriu passagem com os tratores para a especulação com terras devolutas, onde o lucro por alqueire chegou a bater em 6.684%. Era tão bom negócio que o governador titulava glebas umas sobre as outras.</p>
<p>Foi contra essa “psicose titulatória”, como disse o historiador paranaense Ruy Christovam Christovam, que se levantaram os colonos, numa série de rebeliões com mortios e feridos, entre 1957 e 1961. Na época, eles reagiram a bala aos grileiros fabricados por Lupion, que lhes queriam vender à força o que eles, na prática, já possuíam.</p>
<p>Tamanha foi a bagunça fundiária que, mais de 20 anos de decretado o parque, um advogado vendeu lá dentro lotes suficientes para criar, na floresta do governo federal, quatro vilarejos agrícolas, com luz elétrica, serrarias, porcos, bois, campo de futebol, duas escolas estaduais, ônibus, igreja, clube e cemitério. Os compradores de papéis falsos e baratos só saíram do parque em 1975, ao serem transferidos para lotes maiores em 1975.</p>
<p>Se é esse o passado que o Caminho do Colono quer preservar, o que o desembargador está correndo o risco de reabrir não é uma estrada, mas uma chaga.</p>
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		<title>Fora da Copa, Argentina dá banho</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/05/28/fora-de-campo-a-argentina-deu-banho/</link>
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		<pubDate>Sat, 29 May 2010 02:01:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Num drible espetacular, os argentinos fizeram chegar a Foz do Iguaçu um veto da câmara de deputados ao projeto de fazer shows de luz e som à noite nas Cataratas. E eles têm poder de sobra para isso.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Mulher-na-ponte_9798.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-915" title="Mulher na ponte_9798" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Mulher-na-ponte_9798.jpg" alt="" width="454" height="320" /></a></p>
<p><strong>A</strong>inda bem que Copa ainda não começou. Porque a Argentina acaba de dar no Brasil um drible magistral. Fez chegar a Foz de Iguaçu na semana passada, com o timbre oficial da “Cámara de Diputados de la Nácion”, o resultado de uma votação que reprova “o projeto de criar um show de luzes e som nas Cataratas do Iguaçu”.</p>
<p>O projeto é brasileiro. Nasceu em Foz por iniciativa do prefeito Paulo Mac Donald. Não é de hoje que ele propõe um novo turno de visitação no parque nacional, que abriria às portas de noite para o espetáculo. Sua idéia é projetar na espuma branca da Garganta do Diabo a saga dos colonos que ocuparam o Oeste paranaense em meados do século passado, quando o parque já existia, perdido no mato desde 1939.</p>
<p>Se a história da colonização fosse encenada com o mínimo de realismo, teria que incluir a epopéia dos títulos de terra grilados, o faroeste das questões fundiárias resolvidas a tiro de jagunço, a aventura de um ex-governador fugindo do país para não ser preso por vender o que não era seu e, sobretudo, o ato fulgurante das queimadas, que aliás tem uma aptidão inata para essas coisas de luz e som.</p>
<p>Ultimamente, a campanha ganhou mais eloqüência, porque as Cataratas concorrem a um lugar – por sinal, merecido, ou mesmo irrecusável – entre as sete maravilhas naturais do mundo. Mas, há seis meses, o show era conversa de botequim. A decisão dos deputados em Buenos Aires data de novembro do ano passado. Desde então, pos um ponto final na proposta, em três sucintas linhas. E o que os deputados argentinos têm a ver com isso?</p>
<p>Tudo. Primeiro porque do lado de lá ficam mais de dois terços das Cataratas. Ou todo o anfiteatro de quedas que os turistas vêem quando passeiam pela trilha da margem brasileira, até poderem olhar para estas bandas no fim da linha, quase na boca da Garganta do Diabo. São argentinos praticamente dois quilômetros de saltos, quando o rio Iguaçu está cheio.</p>
<p>Ali, a linha imaginária da fronteira que corre pelo fundo do cânion não separa os dois países. Costura-os. Tudo o que acontece de um lado afeta diretamente o outro. Os argentinos, que foram os primeiros a ter nas Cataratas um parque nacional, ergueram há décadas passarelas de concreto sobre as águas, beirando o abismo. Uma enchente levou-as.</p>
<p>Eles construíram outras, ainda mais extensas, labirínticas e expostas. Ainda por cima, deixaram no rio as pilastras que sobraram da estrutura anterior, como se fossem venerandas ruínas históricas, restos de aqueduto romano ou da ponte do Gard. Agora, quem olha daqui vê os escombros de lá. E só nos resta lamentar que o Brasil não tenha uma Câmara dos Deputados que se preocupe com esses assuntos, para cobrar a remoção do entulho.</p>
<p>Em troca, em noites de lua cheia, os brasileiros eventualmente promovem um luau no restaurante do Porto Canoas, logo acima das quedas. Nessas ocasiões, acendem-se luzes coloridas no deque que se debruça no rio. E a administração do parque argentino, com razão, reclama do mafuá na manhã seguinte.</p>
<p>Como são umbelicalmente ligados pelas Cataratas, os parques, sempre que os regulamentos permitem, funcionem em regime de cooperação. Em 1999, quando o Brasil terceirizar a exploração dos serviços turísticos no Iguaçu, o biólogo Apolônio Rodrigues, hoje diretor de Conservação e Manejo, mas há 18 anos um partidário intransigente da natureza na equipe da administração, discordou do projeto de se erguer, atrás do Hotel das Cataratas, uma torre com 100 metros de altura e, lá em cima, espetar um restaurante giratório.</p>
<p>Na briga interna contra o monstrengo, ele fez aliança, na ocasião, com os argentinos. Advertiu-os sobre o risco de que a revisão do plano de manejo, então em curso, incluísse a autorização para os concessionários fazerem a torre. E trouxe de lá o veto que derrubou a propostas antes que ela saísse do chão.</p>
<p>Falta agora perguntar o que o prefeito de Foz do Iguaçu tem a ver com o governo das Cataratas. A resposta é: nada. “Parque nacional” quer dizer que aquilo se tornou assunto de política nacional. Por isso os municípios recebem indenização, em forma de ICMs Ecológico, ao cederem um pedaço de seu território para criá-lo. No parque nacional o prefeito de Foz apita tanto quanto o prefeito de Uiramutã, em Roraima. Ou seja, como qualquer brasileiro.</p>
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		<title>Como embrulhar um parque de papel</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/04/30/como-embrulhar-um-parque-de-papel/</link>
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		<pubDate>Sat, 01 May 2010 00:30:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Justiça]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional de Ilha Grande]]></category>

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		<description><![CDATA[A sentença que anulou este mes a criação do Parque Nacional de Ilha Grande, com argumentos que põem em risco todo o sistema nacional de unidades de conservação, é um exemplo de como os autos podem levar juízes para longe da realidade nua e crua. No caso, saiu ganhando a grilagem.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Daumier-Blog.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-827" style="margin: 5px;" title="Daumier Blog" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Daumier-Blog.jpg" alt="" width="347" height="441" /></a> S</strong>e todo brasileiro pudesse viver nos autos, na meritíssima companhia dos juízes, a sentença que anulou este mes o Parque Nacional de Ilha Grande seria uma aula de Direito. O juiz federal Nicolau Konkel Junior, provocado por ação civil pública da Colonia de Pescadores Z-13, caprichou na crítica à criação no país de unidades de conservação “no papel” e na lerdeza das autoridades ambientais, que deixa os desapropriados “na espera” da indenização “por longa data”.</p>
<p style="text-align: left;">Saber que alguém no judiciário nacional tem pressa é uma grande notícia. Ela se expressa com eloquência nos parágrafos conclusivos, uma rajada de verbos fortes e frases curtas: “Motivei”, “Condeno”, “Publique-se”. Se fosse no cinema, daria para ver o magistrado, dito isso, sair de cena, num esvoaçar de toga.</p>
<p style="text-align: left;">O problema é que, cá embaixo, as coisas nem sempre funcionam como nos autos, ou aquele psicopata de Luziânia não teria assassinado seis meninos no gozo de seus direitos à progressão da pena, por bom comportamento. Na história de Ilha Grande, as águas também são mais turvas do que parecem na sentença.</p>
<p style="text-align: left;">O rio Paraná banha ali uma fronteira tirada há tão pouco tempo do patrimônio público a machado, serra e fósforo, que a maioria dos títulos de propriedade na região tem origem mais ou menos artificial. Ao formar a barragem de Itaipu, o governo militar teve que mandar o Incra empapelar depressa os posseiros, para poder indenizá-los antes da remoção.</p>
<p style="text-align: left;">Na Ilha Grande, que na época estava reservada para virar mais uma hidrelérica, cerca de mil títulos foram doados pelo governo, como aviso prévio de expulsão. O projeto gorou. E os futuros desapropriados ficaram com seus papéis amarelando nas mãos. Eram em geral titulares de terras exíguas e inundáveis, num arquipélago fluvial de 200 ilhas. Só quando, dois anos atrás, o processo de Ilha Grande foi aberto é que, da noite para o dia, apareceram documentos oficiais aos montes. E sua cotação quintuplicou.</p>
<p>A própria colonia de pesca a que o juiz Konkel Junior deu toda razão arrasta, na Polícia Federal, um inquérito por emissão ou posse de títulos falsos. Pode-se debitar pelo menos em parte a essa corrida especulativa o entrave nas indenizações. E não foi só o parque que perdeu prazos. Mesmo nas mãos de proprietários legalizados na década 1980 havia títulos caducos, que não foram quitados a tempo junto ao Incra.</p>
<p>Ilha Grande, como a maioria das unidades de conservação no Brasil, é cercada de papéis por todos os lados, porque teve de se encaixar tardiamente em cinco séculos de privatização das terras públicas, costume tão entranhado na história do Brasil como o patoá forense. Nem por isso se pode dizer que Ilha Grande seja um parque “de papel”.</p>
<p>Com 78.500 hectares, um dos maiores parques nacionais fora da Amazônia, tem dois funcionários, contando com o chefe Romano Pulzatto Neto. Mas se mete em maratonas de fiscalização, sobretudo da pesca ilegal, como a operação que recentemente mobilizou 43 agentes e 15 veículos do gverno estadual e das administrações municipais.</p>
<p>Numa das lagoas internas, os fiscais encontraram um pescador. Perguntaram-lhe se não sabia que a pesca ali era proibida. E ele respondeu tranqüilamente que o parque “acabou”. Nisso a sentença do juiz Konkel Junior foi tiro e queda.</p>
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		<item>
		<title>A festa rural da mudança climática</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/02/10/a-festa-rural-da-mudanca-climatica/</link>
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		<pubDate>Wed, 10 Feb 2010 15:27:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>

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		<description><![CDATA[O Show Rural Coopavel 2010 mostra, com suas máquinas portentosas, sua organização impecável, suas sementes de laboratório e sua força econômica, que há menos coisas entre a cidade e o campo do que faz crer nossa vã nostalgia da agricultura bucólica.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-milho1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-567" title="photo milho" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-milho1.jpg" alt="" width="448" height="336" /></a></p>
<p><strong>O</strong> Show Rural Coopavel 2010 tem tudo o que se possa esperar de uma feira agrícola, menos show. Não há vaga para duplas sertanejas em seus múltiplos palcos. Estão todos reservados a palestras técnicas, inclusive sobre investimentos em bolsa. Nem sobra tempo para a vida noturna em sua agenda de negócios. O pavilhões enfileirados em quadriláteros quilométricos fecham, pontualmente, às seis da tarde.</p>
<p>O Coopavel dorme com as galinhas. Mas o que menos se vê neles é galinha, para nem falar dos porcos e outros pratos típicos da criação caipira. Eles vão saindo de cena. Encarnam um passado bucólico, como tudo que vem do tempo da ordenha manual, do boi no pasto e da rede no alpendre, sempre esperando a chuva ou o sol. O Show Rural está aí desde 1989 para mostrar, antes de mais nada aos próprios agricultores, que a agricultura não é mais a mesma.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-piloto1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-560" style="margin: 5px;" title="photo piloto" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-piloto1-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a>Esta semana, ele abriu com16 mil vagas para automóveis – e bota lugar para picape e 4&#215;4 nessa estimativa de espaço – no estacionamento, restaurante com quatro mil lugares à mesa, 4,8 mil terrenos reservados à demonstração concreta de experiências no campo, como latifúndios produtivos em miniatura, e 3,5 mil pesquisadores e recepcionaistas à disposição dos 150 visitantes que passarão por lá até domingo, em visita de trabalho.</p>
<p>Não corre uma gota de álcool nas veias do show. Cerveja nem adianta pedir. Em compensação, os bebedouros com água gelada, copos descartáveis e marcas bem visíveis dos patrocinadores, ficam sempre a poucos passos de distância. Os banheiros públicos, escovados sem parar com panos de chão, cheiram a desinfetante até o fim do expediente, mesmo depois que um temporal inesperado transforma as calçadas de pedra em riachos de barro vermelho.</p>
<p>E não se vê lixo no chão. “Pode procurar”, desafia o engenheiro agrônomo Rogério Rizzardi. Ele é o coordenador e o inventor dessas feiras de amostras da Coopavel, que estrearam de maneira modesta há 22 anos. Começaram com 110 associados trocando entre si informações, por um dia, no Centro Tecnológico de Cascavel.</p>
<p>A cidade nasceu em 1928, mais ou menos como todas que brotaram no Oeste do Paraná no século 20. Seu nome vem, é claro, das cobras que assombravam as noites dos pioneiros. Em seus passos veio Nhô Jeca, ou seja, o colono Antônio José Elias que arrendou as terras dos posseiros para investir em colonização. Em pouco tempo, as madeireiras acabaram com a floresta, que hoje só se vê para lá das cercas do parque nacional do Iguaçu.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-trator.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-561" title="photo trator" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-trator.jpg" alt="" width="448" height="287" /></a></p>
<p>O desmatamento implacável gerou, a quase 500 quilômetros de Curitiba, uma cidade de 300 mil habitantes, com 21 mil universitários, PIB per capita superior a 11 mil reais e IDH de países mais prósperos e organizados que o Brasil. Tem um centro com torres de vidro e praças floridas, além de neste momento movimento 23 municípios no show da Coopavel.</p>
<p>O show dura a semana inteira. Proclama-se o maior do mundo por alguns critérios, como “a diversificação de produtos”. Recebe governadores e políticos. Caravanas vêm de longe, até do Piauí, para ver e ouvir as últimas do campo. Mas suas estrelas nos palanques são, por exemplo, as espigas “longas e cilíndricas” de um milho uniforme e dourado que, como legítimo produto dos laboratórios de manipulação genética, atende por nomes de outrora pertenciam aos robôs nos filmes de ficção científica – como o millho “BX 767”, “superprecoce”, ou o “BX 970”, notável por sua “arquitetura de planta moderna”.</p>
<p>Mais vistosas, só as máquinas. Um trator como o H3000I chega a ser tão que as conversas entre vendedores e clientes podem desdenhar as cadeiras de jardim nos estandes cobertos. Realizam-se ali mesmo, sobre a grama, na vasta sombra de seu chassi. Está em demonstração tambén o Auto Pilot RTK. A engenhoca eletrônica, instalada no painel de um trator, faz sozinha a colheita automática de cana-de-açúca, percorrendo “com precisão de 2 a 5 centímetros” e “100% de paralelização” os talhões assinalados no GPS.</p>
<p>Custa 45 mil reais. É parente do Auto Drive Ag 500, que dirige o trator para o fazendeiro, girando o volante automaticamente. E o vendedor reage ao menor sinal de espanto diante do produto, afirmando que “já tem muitos desses rodando por aqui”. Diante de tantose tamanhos lançamentos, os pequenos produtores e assentados, que comparecem ao Show Rural com seus produtos orgânicos e artesanais, parecem uma montagem de época num espetáculo futurista. Não é fácil exibir um vidro de compota entre máquinas que talvez nem caibam em suas roças.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-vento.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-562" title="photo vento" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-vento.jpg" alt="" width="448" height="336" /></a></p>
<p>O Coopavel é um aviso de que a agricultura de ponta está aprendendo a mascar o jargão do ambientalismo, que os fazendeiros tradicionais concideravam intragável. Seus prospectos andam cheios atualmente de palavras como “sustentabilidade” ou “reciclagem”. O que não impede a tecnologia das sementes clonadas ou da dispersão eletrônica de agrotóxicos de ir adiante, supostamente abrindo caminho para a troca do desperdício poluente pela eficácia, que é a versão do agronegócio para um mundo mais limpo</p>
<p>Ainda por cima, o Show Rural 2010 coincide com uma safra que teve  “o sol certo, a chuva certa”, segundo um dos campeões locais de produtividade, num ano de vários recordes agrícolas regionais. O rendimento médio por hectare cresceu no Oeste do Paraná mais de 30%. E que não lhe venham falar de aquecimento global com um barulho desses.</p>
<p>Os céus bem que tentaram. O tempo mudou de repente da tarde de segunda-feira. O sol atordoante das últimas semanas sumiu atrás de nuvens negras. Às quatro da tarde, com a Coopavel cheia, desabou uma chuva repentina e forte, trazida por um vendaval. Painéis inteiros desabaram nos estandes. Tetos de pano se soltaram das amarras, drapejando como velas soltas ao vento. Balões de publicidade murcharam de tanto bater de um lado para o outro. Vazou água aos cântaros em áreas cobertas. E logotipos coloridos voaram como se fossem de plástico e isopor, o que provavelmente eles eram.</p>
<p>O que isso tudo querria dizer? Talvez nada. Às cinco e meia, assim que a tempestade amainou, os expositores já estavam em seus postos, deixando tudo novo em folha para a manhã seguinte. Encharcados até os ossos, às vezes rindo do susto. Pareciam mesmo convencidos de que estão ali para ficar.</p>
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		<title>Wanderlei, outro filho do Brasil</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/01/27/wanderlei-outro-filho-do-brasil/</link>
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		<pubDate>Wed, 27 Jan 2010 15:20:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>

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		<description><![CDATA[Wanderlei Vargas, guia de ecoturismo em Iguaçu, prova que não é preciso muita coisa para que um descente da colonização do Oeste paranaense passe do desmatamento à conservação da floresta. No seu caso, bastou gostar de mato e ser vizinho de um parque nacional.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Wanderlei_3736.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-522" title="Wanderlei_3736" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Wanderlei_3736.jpg" alt="" width="409" height="273" /></a></p>
<p><strong>A</strong>o tirar os olhos do visor, quase esbarrei em Wanderlei Vargas. Ele estava a dois passos do tripé, calado e imóvel. Chegara sem o menor ruído, embora pisasse em folhas secas. Ficou em silêncio até ver que não iria atrapalhar o trabalho alheio. Aí, sim, era hora de perguntar: “O senhor tem licença para sair por aí fotografando sozinho?”</p>
<p>A autorização cusou a sair do bolso e estava meio desfeita pelo suor. Ele conferiu o timbre sem desdobrá-la. E se deu por satisfeito. Usava crachá no peito, enganchado na camiseta, mas não posava de autoridade. Falava baixo, num tom que só o mato pode dar à educação de quem passa a vida fazendo com o menor barulho possível, porque vive entre vizinhos desconfiados e de ouvidos atentos.</p>
<p>Dali para a frente, passamos a nos esbarrar  quase diariamente, um indo, outro vindo, no mesmo caminho, em pontos diferentes. Ele tinha sempre, nessas ocasiões, uma novidade a apontar. O caminho de uma peroba centenária. Um pássaro escondido na folhagem. A cobra caninana tomando sol no meio da estrada.</p>
<p>Às vezes, seu desembaraço como mateiro fica embaraçoso a quem também acha que anda sempre por ali de olhos abertos. &#8220;Está vendo aquele poste?&#8221; Não. Era de concreto, hegagonal, mas espetado como estava na orla da trilha, como relíquia de uma antiga fundição, ele aabara tão embrulhado por epífitas e pelos cipós que se camuflara com as árvores. &#8220;É ôco. Tem ninho de cutia. Todos os postes daqui até a sanga pode ver que têm cutia morando dentro&#8221;.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Poço_3730.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-523" title="Poço_3730" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Poço_3730.jpg" alt="" width="425" height="284" /></a></p>
<p>Uma vez, comentou que naquele mato devia ter morado muita gente, porque às vezes encontrava “lá dentro” restos de tijolos e de alvenaria. Isso não parecia possível. Pelos relatórios técnicos que serviram de base aos projetos de administração, aquilo sempre foi “área de pequena ou mínima intervenção humana”. Ele não retrucou. Dias depois, num fim de tarde, encerrado seu expediente no Macuco Safari, embrenhou-se pelos da trilha para “mostrar uma coisa”. No meio da vegetação cerrada, havia mesmo restos de um forno a lenha e um poço cercado de tijolos maciços, verdes de líquem. Encerrrou o assunto sem dizer palavra.</p>
<p>Está no atual emprego há dois anos e meio. Antes, fez de tudo muito. Domou cavalos, abriu pastos, derrubou matos, colheu algodão em Palatina, vendeu produtos eletrônicos em loja no Paraguai. Correu muito sem nuna ir muito longe de Cascavel, onde nasceu, zanzando de emprego em emprego pela fronteira escancarada da região. Aos nove anos, abordava os turistas argentinos que desciam do ônibus em Foz do Iguaçu, vendendo  panos de prato e quadros feitos com asas de borboleta. Para isso, o irmão mais velho ensinou-lhe o essencial do ofício de camelô: “Dibujo de mariposas”, “cien pesos”.</p>
<p>Criou-se em Matelândia, do lado de lá do parque. É uma das cidades que enconstam em seus limites pelo eixo da BR-277. E muitas vezes andaram às turras com ele. Os Vargas viviam num sítio rústico, onde a luz era de lamparina e o banho, de rio barrento. Hoje a propriedade, de sete alqueires, além de água corrente e eletricidade, tem um alqueire meio de mata restaurada, e por isso o rio é limpo. “Ainda bem que estão obrigando as pessoas a recuperarem a mata, senão cortavam tudo”, ele admite.</p>
<p>Para saldar a hipoteca do sítio, trabalhou com o irmão dois anos e tanto para um fazendeiro libanês no Paraguai, que remetia todo ganho no mês à família em Matelândia. “Eu comia inhame, sal de gado, que é mais barato, e teiú, que é fácil de pegar”, ele conta, para retificar a afirmação de que nunca havia posto carne de caça na boca. “De lagarto, botei sim”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Forno_3740.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-524" title="Forno_3740" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Forno_3740.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Saiu de casa aos 12 anos, despachado pela mãe, &#8220;que só queria saber do filho mais velho&#8221;. Levou “duas camisas e o dinheiro do ônibus”. Foi parar em Palotina, paras os lados de Guaíra, onde dormiu duas semanas no cemitério, porque &#8220;era mais seguro e não chovia debaixo das casinhas&#8221;, até pegar o primeiro contrato num caminhão de bóia-fria. De colheita em colheita, acabou se arrumando na vida. Tirou o diploma da sexta série depois dos 18 anos. Só foi provar a primeira cerveja aos 22. E agora, aos 37, quando acha filhos de animais silvestres extraviados, leva para os biólogos criarem e devolve à natureza.</p>
<p>Descende de lavradores que ajudaram a desmataram o sertão do Paraná. E está cuidando de um parque nacional. Nessas horas, até parece que o mundo tem jeito.</p>
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		<title>Toda atenção à moldura dos saltos</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2009/12/30/de-olho-na-moldura-das-cataratas/</link>
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		<pubDate>Wed, 30 Dec 2009 17:44:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[As viagens às Cataratas do Iguaçu ficaram tão fáceis que os visitantes perderam a perspectiva obrigatória de quem se aproximava delas no século passado: a moldura indispensável da floresta. Este blog quer ser uma tentativa de recuperá-la. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Turistas_MG_1351-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-386" title="Turistas_MG_1351 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Turistas_MG_1351-copy.jpg" alt="Turistas_MG_1351 copy" width="454" height="300" /></a></p>
<p><strong> E</strong>ste blog nasceu de uma aposta arriscada. Apostou tudo na floresta que é parte inseparável das cataratas no Parque Nacional do Iguaçu, mas nem sempre recebe a atenção que merece. Ela não é mais, nem pode ser, a primeira coisa que chama a atenção dos visitantes, a não ser que eles venham predispostos a admirá-la por algum interesse específico ou pela pesquisa botânica.</p>
<p>O que leva mais de um milhão de turtistas por ano a Foz do Iguaçu é o espetáculo das cachoeiras. E, em sua presença, as águas caem sobre todos os sentidos ao mesmo tempo como uma cortina de fumaça liquefeita. Não sobra espanto para mais nada. Mas este blog – que, no fundo, é o esboço de um livro, chocado por ensaios e erros ao longo de 2010 aqui nestas páginas &#8211; pretende mostrar, com fotografias e palavras, que muitas vezes compensa olhar para os lados, mesmo quando se tem pela frente as quedas do Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Borboleta_1487-copy.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-389" style="margin: 5px;" title="Borboleta_1487 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Borboleta_1487-copy-200x300.jpg" alt="Borboleta_1487 copy" width="200" height="300" /></a></p>
<p>Em torno delas um parque nacional – ou dois, contando com o do lado argentino &#8211; que as cachoeiras, com sua estrondosa eloqüência natural, ao mesmo tempo protegem e escondem. Os parques e as cataratas são unha e carne. Sem os parques, as cataratas não seriam hoje mais do que uma sombra do que já foram. E, sem as cataratas, os parques nem estariam ali, numa fronteira de onde a vegetação original, sobretudo na margem brasileira, foi arrasada em poucos anos pela corrida migratória que ocupou há cerca de meio século o sertão paranaense.</p>
<p>Nos parques estão as florestas tropicais que sobraram da febre colonizadora. Hoje, com aviões comerciais pousando várias vezes por dia praticamente ao lado das cataratas e uma estrada de asfalto depositando turistas na boca das picadas pavimentadas nos circuitos panorâmicos, a maiora das pessoas atravessa a mata que estofa as cachoeiras praticamente sem enxergá-la – exceto pela aparição de enxames de borboletas coloridas, bandos de quatís ou os sinais vermelhos que assinalam na folhagem a presença de tucanos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Cogumelo_2532-copy.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-390" style="margin: 5px;" title="Cogumelo_2532 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Cogumelo_2532-copy-209x300.jpg" alt="Cogumelo_2532 copy" width="209" height="300" /></a>O resto, é uma barreira de verde indistinto, como costumam ser as florestas tropicais para mateiros de primeira viagem. Sem ver a floresta, ele mal se dá conta de quanto deve ao parque nacional pelo que está vendo – exceto, talvez, ao pagar o ingresso na portaria. Dali para a frente, a mata passa correndo pelo acostamento, apesar dos limites de velocidade vigentes na rodovia federal que leva ao cânion do rio Iguaçu. E o parque se resume a um conjunto de restrições e regulamentos.</p>
<p>Nem sempe foi assim. Antes do parque, das estradas e das viagens aéreas, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/10/22/iguacu-um-parque-com-saga-e-historia/">durante muito tempo os pioneiros chegaram a Iguaçu passando orbigatoriamente pela floresta</a>. E ela se impunha como parte da experiência e das lembranças que traziam de lá. Tratava-se, afinal, de “uma longa travessia por lugares que só admitem o passo do animal meticuloso cuidado em evitar o resvalo no abismo”, escreveu um deles, o paranaense Silveira Netto, que em 1905 instalou em Foz do Iguaçu para o Ministério da Fazenda o primeiro posto fiscal – ou seja, “Mesa de Renda”- da cidade.</p>
<p>Antes de chegar às cataratas, Silveira Netto fala longamente da “mata e solidão em meio a uma flora requintada em exuberância e coloridos, e uma fauna variada e rica, do inseto ao pássaro”. Varavam-se através da selva, naquele tempo, 67 léguas – ou quase 450 quilômetros &#8211; de Guarapuava a Foz do Iguaçu.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Transparente_6301-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-391" title="Transparente_6301 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Transparente_6301-copy.jpg" alt="Transparente_6301 copy" width="496" height="319" /></a></p>
<p style="text-align: left;">E concluiu que “o viajante que penetra aquela viçosa e secular floresta verá surpreso erguer-se por todos os lados” uma paisagem onde mesmo o olhar mais treinado pode ser perder em detalhes, como se estivesse folhendo uma enciclopédia de botânica tropical ao vivo e em cores.</p>
<p>Os registros do século passado falam de um tempo que ficou rapidamente distante, quando o interior do Paraná tinha 80 milhões de araucárias e a trilha para Foz do Iguaçu serpenteava entre perobas, “cujo diâmetro atinge dois metros” e em quantidade tamanha que, supunha-se, seria “o futuro de nossos estaleiros naquele porto”, quando o país aprendesse a aproveitar sua madeira “cor de rosa, flexível e dútil”, capaz de se prestar “a qualquer tipo de construção”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Japonesa-copy1.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-394" style="margin: 5px;" title="Japonesa copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Japonesa-copy1-219x300.jpg" alt="Japonesa copy" width="219" height="300" /></a>O percuro era pontuado por ipês, “que na primavera enche as encostas com suas flores purpurinas”, alecrins, tajubas, guajuviras, louros e cabreúvas, “De um perfume sueva na casca e cerne também, cheiroso”. Para comer, não faltavam frutas silvestres – como genipapo, araçá, jaboticaba e mamão. Tudo isso incorporado à memória dos forasteiros.</p>
<p>Iguaçu começava a entrar, atrasada mas cheia de pressa, no circuito turístico nacional e internacional. Quando Silveira Netto chegou à cidade, o antigo posto militarde fronteira não passava de 2 mil habitantes. Seu núcleo urbano se resumia a cinco prédios federais, dois estaduais e 244 casas. Sua frota inteira não passava de nove automóveis, 19 caminhões e 206 carroças.</p>
<p>Situada ao lado de um tesouro, vivia da fabricação de móveis, aguardentes e rapaduras. Para transporte, dependia do rio Paraná, cuja navegação fluvial, que era o caminho mais confortável até para os curitibanos que, nas estações das chuvas, para ir a Foz do Iguaçu davam a volta por Buenos Aires, estava entregue aos argentinos – principalmente, à companhia Milnovich Ltda. Seu vapor, segundo Silveira Netto, “sobe o rio em 12 horas e desce em 7”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Iguaçu-03-09_MG_1207-copy1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-396" style="margin: 5px;" title="Iguaçu 03-09_MG_1207 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Iguaçu-03-09_MG_1207-copy1-200x300.jpg" alt="Iguaçu 03-09_MG_1207 copy" width="200" height="300" /></a>Como todo mundo, na época, ele achou que o futuro da região estava na economia madeireira. Mas não naquilo que ocorria diante de seus olhos, com a madeira nativa dominada pelo contrabando, como verdadeiro monopólio argentino e paraguaio. “Não que devêssemos conservar a selva intengível, como recanto sagrado, impenetrável nos seus recônditos, para o gozo platônico do viandante e para documento virgem da colossal e decantada riqueza natural do Brasil”, ele escreveu num relatório que virou livro, <strong>Do Guaira aos Saltos do Iguaçu.</strong></p>
<p>Pregava um sistema de “aproveitamento metódico” que tivesse “cuidado no corte, com a época própria, a escolha das zonas a serem exploradas”, evitando “desarborizar por completo determinados  pontos”. Mas assitiu a uma “larga e anárquica devastação que tem lavrado na floresta pelos exportadores de madeira”. Isso numa região que continuava praticamente despovoada.</p>
<p>No livro de Silveira Netto, <strong>Os Saltos do Iguaçu</strong> formam um capítulo à parte, que só aparecem na página 81. E mesmo assim o mato continuava a lhe barrar a entrada até as portas da Garganta do Diabo. “Munidos de farnel e preparos de pouso, cavalgamos nossos animais, na sede da antiga Colônia do Iguaçu, e partimos por ínvios atalhos, florestas adentro, dorso curvado para evitar o galho pendente ou o espinheiro agressivo da picada”, ele relata.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-399 aligncenter" title="Arco-íris Lumix_0273 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Arco-íris-Lumix_0273-copy2.jpg" alt="Arco-íris Lumix_0273 copy" width="459" height="345" /></p>
<p style="text-align: left;">Na borda do cânion, depois de vadear o rio São João, “o cenário ainda era a floresta. Compacta, umbrosa, e, variegada gama da cor verde, em nunaças de coloridos diveros, como enorme palheta primaveril, coroada de flores e frutos”. Nas clareiras, encontrava “de quando em quando, borboletas de colorações admiráveis, lindas flores aladas”. Os troncos de peroba, cedro, carvalho formavam “colunas possantes de uma arquitetura não sonhada”.</p>
<p>E, antes de avistar as cataratas, ele as ouviu, na forma de “um sussurro contínuo e bárbaro acordando o silêncio da mata, invadindo a floresta, cheio e grave, apavorando-nos o ouvido pelos sombrios meadros da selva”. Os mateiros lhe explicaram que se tratava do ronco da água. “E estávamos ainda a três quilômetros das cachoeiras”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Gralha_0487-copy.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-400" style="margin: 5px;" title="Gralha_0487 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Gralha_0487-copy-192x300.jpg" alt="Gralha_0487 copy" width="192" height="300" /></a></p>
<p>Só lá pelo meio da página 86 Silveira Netto começa a descrever as cataratas. E, mesmo assim, jamais perde de vista a moldura vegetal que compõe a paisagem. “Desde a margem do rio, a floresta inicia, do arbusto ao arvoredo possante, a guarda selvática daquele esplendor catedralesco de pedras e vagalhões”. Insiste que “a flora acolita a celebração das águas”.</p>
<p>Tratava-se de “árvores altaneiras, de gossos troncos, sob copas frondosas, de copas recurvadas ao peso do umbroso folhame, onde se acoitam o jaguar e o lobo, zumbe o inseto e gorgeia a passarada”, sob “o cipoal pendente, lianas que se enroscam na ramada florida”, além de “begônias olorosas, palmeiras em fila, aristocráticas e lindas”.</p>
<p>A floresta, para quem, como ele, chegava através dela para admirar as cachoeiras”, era “como um templo”, onde os saltos ocupavam o altar. O visitante ganhou muito, em Foz do Iguaçu, com a universalização do acesso aos serviços turísticos. Sobretudo, ganhou tempo, encurtando a viagem. Mas perdeu o vagar para ver com calma o conjunto natural das Cataratas.</p>
<p>Hoje elas podem ser percorridas numa trilha calçada de um quilômetro e meio, contados todos os pequenos desvios e belvederes do trajeto. A maioria dos turistas cobre a distância em marcha batida, reduzindo o passeio a menos de uma hora. E uma das ambições deste blog é recuperar os detalhes que vão ficando pelo caminho. Mesmo que às vezes isso implique ficar de costas para uma das maravilhas naturais do planeta. E sim para ignorá-las. Mas para vê-las melhor.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Arco-íris_0175-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-679" title="Arco-íris_0175 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/12/Arco-íris_0175-copy.jpg" alt="" width="454" height="297" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
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