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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Livros</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>É bom lembrar que o mundo gira</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Jan 2011 13:03:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Crise climática]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Negócios]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando se fala em exportar água das geleiras do Alasca para o Oriente Médio, o mundo dá uma volta completa em torno da Wenham Lake Ice Company, que mandou no século XVIII o gelo de um lago americano para o mundo, até a competição descobrir que qualquer um podia fazer a mesma coisa. O Wenham é hoje um reservatório de Boston.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Glaciar.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1425" title="Glaciar" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Glaciar.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p><strong>N</strong>ada como a reciclagem de uma velha notícia para entrar no reveillon sabendo que, apesar dos pesares, o mundo ainda dá voltas ao redor de si mesmo. Trata-se da história contada em O Globo pelo reporter Cesar Baima sobre água o do lago Blue, no Alasca, que será exportada por duas empresas para uma engarradora na Índia e, de lá, para o Oriente Médio. Sinal dos tempos, certo?</p>
<p>Nem tanto. No verão de 1844, estreou em Londres a filial da Wenham Lake Ice Company, de Boston. Expunha na vitrine um bloco translúcido de gelo. Tirado de glaciações nos Estados Unidos, era tão cristalino que, através dele, lia-se o jornal do dia, como atestado de pureza.</p>
<p>O truque publicitário embasbacou os londrinos, que nunca tinham visto gelo assim. A rainha Victoria credenciou a Wenham como provedora de Buckingham. O novelista William Thackeray engastou o inédito mineral precioso numa de suas tramas de fição. Foi um sucesso retumbante.</p>
<p>E breve. A Noruega, bem ali ao lado, rapidamente invadiu o mercado britânico com seu próprio gelo de Wenham. Vinha do lago de Oppengaard, perto de Oslo. Estava dispensado de cruzar o Atlântico. E, para pegar a onda americana, o lago foi rebatizado. De Oppengaard, virou Wenham, como o precursor já notório.</p>
<p>Tudo isso se deve à obstinação de Frederic Tudor, um bostoniano bem nascido que dissolveu a fortuna da família para implantar o comércio ultramarino de um produto que ninguém precisava fabricar, por ser fornecido pela natureza a céu aberto em quantidades aparentemente ilimitadas.</p>
<p>Bom, bonito e barato, o produto só tinha duas contra-indicações. Era imune a patentes. E tendia a passar do estado sólido ao líquido durante a viagem. Coube ao dinheiro de Tudor bancar as experiências que derreteram a relutância dos armadores em carregar navios com o que, no fundo, era só água.</p>
<p>Sua primeira remessa de tres toneladas descongelou num porto da Inglaterra, enquanto os fiscais da alfândega coçavam as cabeças para classificá-la. Aos poucos, Tudor acabou que blocos compactos e grandes, envoltos em serragem – por sinal, outro artigo então invendável – podiam ir de Boston a Bombaim.</p>
<p>Aliás, o gelo fez com frequencia a circum-navegação das Américas, para chegar da costa leste à Califórnia, via cabo Horn. No fim, Tudor não criou o que hoje se chama “negócio sustentável”. E seu lago de Wenham virou reservatório de Boston. Mas, a suas custas, ele mudou para sempre os costumes e a economia do planeta.</p>
<p>O gelo itinerante universalizou o consumo popular do sorvete, conhecido desde o Império Romano como requinte sasonal e raro. Permitiu que a carne argentina conquistasse o Hemisfério Norte, a lagosta do Pacífico viajasse a Chicago e as frutas tropicais debutassem no inverno europeu. Só na rede ferroviária dos Estados Unidos, até a década de 1930, circulavam mais de 180 mil vagões frigoríficos, refrigerados a gelo.</p>
<p>Esquecidos, o triunfo e o fiasco de Tudor voltaram à tona ultimamente, na enxurrada de livros que anunciam, sobretudo em inglês, o advento da era em que a água e seus derivados serão monopolizados pelos espertos. O escritor norte-americano Bill Bryson pescou-os numa dessas publicações, tornando a história de Wenham mais palatável em <em>At Home – </em>uma dissertação enciclopédica sobre sua velha casa em Norfolk, num cafundó da Inglaterra. Bryson anda empenhado em mostrar que a natureza não parece, mas tem preço.</p>
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		<title>Adeus à onça, com ótimas lembranças</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/21/adeus-a-onca-com-as-melhores-lembrancas/</link>
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		<pubDate>Tue, 21 Dec 2010 21:12:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>

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		<description><![CDATA[Em "Jaguar", o biólogo Evaristo Eduardo de Miranda e a jornalista Liana John conseguem nos dar saudades antecipadas desse bicho que continua por aí, mas deixou de ser há muito tempo "O Rei das Américas" do subtítulo,  que o belo livro prudentemente reservou às páginas internas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Onças-trepando.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1368" title="Onças trepando" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Onças-trepando.jpg" alt="" width="474" height="296" /></a></p>
<p><strong>H</strong>á onças que nos perseguem pela vida afora. Como a que atravessa o caminho de Dante para o Inferno. “<em>Lonza leggera</em>”, de pelo “<em>macolato</em>”, vista na “selva selvagem, dura e forte” da Itália do século XIV, quase 200 anos antes que as onças propriamente ditas fossem descobertas pelos europeus na América.</p>
<p>Que <em>lonza</em> era então aquela, tão longe de casa e de época? O livro <em>Jaguar</em>, do biólogo Evaristo Eduardo de Miranda e da jornalista Liana John acaba de dar, senão a resposta, um bom motivo para desistir da pergunta. Afinal, todos os felinos do mundo vêm de um certo <em>Proailurus</em>, que andou pela Europa há uns 25 milhões de anos.</p>
<p>A descendência do <em>Proailurus</em> só veio a perder definitivamente a cidadania européia há 10 mil anos, no corpo da uma <em>Panthera onca toscana. </em>“Toscana”, portanto, como a terra de Dante. Daí a parar na <em>Divina Comédia</em> é um pulo. Grande, sem dúvida. Mas nada que se compare a saltar de um continente a outro, por cima do Atlântico, antes do descobrimento. Basta isso para fazer de <em>Jaguar </em>um desses livros que contam até o que sequer passou pelas cabeças dos autores.</p>
<p>Aí, não há como deixar de conferir o que eles têm a dizer nas outras 299 páginas. O livro oculta um subtítulo: “O Rei das Américas”. Discreto como a própria onça, ele escapou da capa para as páginas internas. Na capa, poderia espantar quem considera o jaguar é o rei de um reino perdido. Perdeu, por exemplo, boa parte de um território que invadia os Estados Unidos pelo menos até o Grand Canion e costeava as praias brasileiras de norte a sul, enquanto nelas ainda havia mata atlântica.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Caçada-de-Onça.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1370" title="Caçada de Onça" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Caçada-de-Onça.jpg" alt="" width="474" height="296" /></a></p>
<p>Está na lista de espécies ameaçadas de extinção da União Internacional de Conservação da Natureza. Quantos são? Com boa vontade, 100 mil. Seja qualquer for seu número, trata-se de uma população cada vez mais isolada em fragmentos florestais declinantes e santuários da fauna tropical que se espalham como retalhos por 18 países.</p>
<p>E de que lhe adianta ser rei nesses tempos republicanos, em que os Estados Unidos lhe negaram em 2008 visto de entrada para projetos de repovoamento? Se ele zanzasse livremente de um lado para outro, abriria brechas na fronteira mexicana a todos os migrantes indesejáveis. Como rei, ele perdeu também estatura. Mal chega às costelas do bisavô <em>Panthera atrox, </em>o leão-americano que, pelos fósseis encontrados na Califórnia, passava dos três metros de comprimento e dos 300 quilos de peso. Humilhava o leão africano.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Peles-de-Onça.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1371" title="Peles de Onça" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Peles-de-Onça.jpg" alt="" width="478" height="299" /></a></p>
<p>O <em>Panthera atrox</em> acabou faz tempo, junto com todo o bestiário mastodôntico que a presença humana tirou do mapa americano milênios antes do descobrimento. E foi assim, pela mão do homem e da mudança climática, que começou o reinado do jaguar como maior carnívoro da América, sem adversário na natureza. “Nenhum império humano durou tanto”, lembra Miranda. Ele agora está no fim pela mesma combinação de fatores que promoveu seu coroamento no fim do Pleistoceno – a influência do homem e a do clima.</p>
<p>Para rei, só não lhe faltam os títulos inatos. É um caçador furtivo e eficaz. Seu nome indígena, <em>jaguar</em>, significa “aquele que luta”. Um macho adulto pode andar 50 quilômetros numa noite, medir quase dois metros, sem contar a cauda, pesar cerca de 100 quilos e fazer tudo isso desaparecer na folhagem mais rala, com o contorno de seu corpo borrado pelas manchas da pelagem. Não tem fronteiras, como prova a inexistência de subespécies da <em>Panthera onca, </em>sinal de que andou por aí trocando genes entre os hemisférios enquanto circulou livremente pela América. Nem por isso mereceu até agora um salvo-conduto internacional como o que, mal ou bem, defende do extermínio as baleias.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Vaso-de-Onça.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1372" title="Vaso de Onça" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Vaso-de-Onça.jpg" alt="" width="474" height="296" /></a></p>
<p>Ainda é caçado no Brasil até dentro de parques nacionais, como troféu esportivo, como dono de pele valorizada pelo mercado negro ou como inimigo número 1 da pecuária. Por isso, cada linha de sua história soa desde já a homenagem póstuma. E não deve ser à toa que a segunda parte do livro trata do “Jaguar Mítico” – o que vai ficar, em forma de esculturas pré-colombianas, pinturas rupestres, cerâmicas indígenas, cédulas de 50 reais ou automóvel inglês. Como souvenir da incompetência humana.</p>
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		<title>Dez meses depois, a COP-15 dá certo</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/10/04/dez-meses-depois-a-cop-15-da-certo/</link>
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		<pubDate>Mon, 04 Oct 2010 19:50:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Aqauecimento Global]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Mudança Climática]]></category>

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		<description><![CDATA[Salva do ridículo político no apagar das luzes pelo segundo escalão, a conferência do clima não acabou em Copenhague, há quase um ano. Ficará no ar por muito tempo, como mostra nesta grande reportagem em forma de livro o cientista político Sergio Abranches. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Copenhague.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1253" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Copenhague" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Copenhague-201x300.jpg" alt="" width="161" height="240" /></a>N</strong>ão é só cá fora que o clima da terra está esquentando. No escurinho dos laboratórios, ele empurra cientistas para o front de uma “revolução econômica, logística, tecnológica e social”. E tem arsenais de relatórios, em que a “frieza dos números e de gráficos cheios de linha” esconde “paixões, simpatias, inimizades, cargos e prestígio”. E, como não poderia faltar, dinheiro.</p>
<p>É por essas e outras que há um ano, quando o mundo se ensaboava para ir à conferência do clima em Copenhague, um sabotador anônimo inoculou as páginas do RealClimate.com <em>e-mails</em> internos da Unidade de Pesquisa Climática da universidade de East Anglia, na Inglaterra, para insinuar que, no fundo, o aquecimento global não passa de uma conspiração acadêmica de paranóicos com intrigantes.</p>
<p>Mas a tramóia serviu mesmo foi para provar que, feita como é por seres de carne e osso, até a melhor ciência se parece “com qualquer atividade humana, ainda que seja conduzida por doutores e premios Nobel”. Diferente, na ciência do clima, é a busca de conhecimento de “velhas árvores, corais, em cavernas, no gelo dos picos mais altos da terra e nos lugares mais gelados do planeta, nos vulcões”.</p>
<p>Isso transformou os cientistas em “montanhistas”, “mergulhadores” ou “trekkers”, misturando uma das maiores aventuras do conhecimento humano nas últimas décadas com a grandes aventuras propriamete ditas, aquelas que pareciam monopólio da turma dos esportes radicais.</p>
<p>Em outras palavras, as de Sérgio Abranches, que aliás é o verdadeiro autor dos parágrafos acima, extraídos de seu livro <em>Copenhague, Antes e Depois, </em>“a ciência do clima é também uma espetacular aventura humana”. Como é o caso do paleoclimatologista Lonnie Thompson, cuja pesquisa de campo abarca, nada mais, nada menos, que a prospecção do gelo milenar nos glaciares mais altos da terra.</p>
<p>Thompson encontrou nos Andes as pistas de desordens climáticas que engoliram civilizações muito antes que o primeiro europeu moderno pusesse os pés no continente americano. Assim como desencavou na cordilheira Qilian Shan, entre o Tibete e a Mongólia, a evidência de que vivemos hoje na época mais calorenta dos últimos 40 mil anos.</p>
<p>A mudança climática, nesses termos, pode ser tudo, menos chata. Nesta reportagem de 321 páginas sobre a conferência de Copenhague, Abranches conseguiu fazer o que nem todo repórter têm fôlego ou tempo para sequer tentar. Vasculhou dezenas de livros e calhamaços acadêmicos em abominável PDF, para armar as peças básicas desse quebra-cabeça essencial do século XXI em capítulos que se pode ler na cama ou no aperto de uma poltrona de avião, enquanto lá fora as turbinas vão enchendo a atmosfera terrestre de mais uma boa dose de CO2.</p>
<p>Sim, ele cobriu de oito da manhã às dez da noite a conferência do ano passado. Alugou para isso um quarto-e-sala numa Copenhague fria e superlotada. Encarou, de ponta a ponta, aquele fiasco político que, a seu ver, tornou irreversível a marcha forçada para um acordo internacional que adapte a economia mundial ao planeta – em vez de insistir em fazer o contrário.</p>
<p>Com sua mulher, que modéstia à parte é a jornalista Miriam Leitão, ele compôs sem dúvida o maior time de repórteres que o Brasil já mandou em qualquer tempo a um foro de meio ambiente. O dia-a-dia de Copenhague está todo lá, assim como seus bastidores. Mas o melhor do livro de Sergio Abranches é condensar num texto rápido tudo sobre esse tal do aquecimento global que provavelmente você teria medo de perguntar a um jornalista e, mais ainda, a um cientista político.</p>
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		<title>Conservação também se faz com livro</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/07/23/1075/</link>
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		<pubDate>Sat, 24 Jul 2010 00:35:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Floresta]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Por que custam tanto a sair em português os livros em que os naturalistas conseguem tornar claras e irresistíveis em outras línguas as obrigações que todos nós - inclusive as motosserras - com a conservação da natureza?  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Pinheiro-Branco-BH_0611.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1076" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Pinheiro Branco BH_0611" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Pinheiro-Branco-BH_0611.jpg" alt="" width="263" height="363" /></a>P</strong>arem a motosserras. Vem aí o mapa-mundi das florestas, lembrando que as árvores mais altas da terra estão espetadas na costa oeste dos Estados Unidos e no Sudeste Asiático. As da Amazônia mal batem no peito desses gigantes.</div>
<div>Não é bem esse o planeta que o governo brasileiro desenha, quando descreve para a opinião pública o estado do planeta. Nos outros países nem existem mais árvores, não é mesmo? Pena que o mapa seja o tipo da informação que passa de fininho pelo noticiário, enterra-se nos anais acadêmicos e lá desaparece. Aí, ligam-se as motosserras.</div>
<div>O que mais poderia fazer com essa informação quem vive num tempo em que a ciência empurra sem parar a natureza para além do senso-comum? Onde havia monstros, prodígios e portentos demarcando os limites do mundo conhecido na cartografia medieval, agora há biomas, efeitos antrópicos e aquecimento global disputando espaço com velhas lendas.</div>
<div>E não será só com notícia ligeira que se pisa em terra incógnita. Falta munição em português para desbravá-la, porque os livros em que os naturalistas aprenderam a traduzir para leigos os segredos da realidade saem, geralmente, em inglês. E em ingl6es permanecem. Só em inglês dá para ler de enfiada e com prazer a história da complicação em que se meteu o biólogo Bernd Heinrich, comprando no estado do Maine em 1977, para cultivar uma floresta, terras que fazendas antigas e madeireiras recentes haviam deixado no osso.</div>
<div>A região inaugurou sua primeira serraria em 1626. E passou dois séculos a serviço do apetite internacional pelo grande pinheiro branco – ou melhor, o Pinus strobus, que cobria uma vasta extensão da costa leste norte-americana, como uma fonte inexaurível de madeira macia, leve e resistente, ideal para mastros no apogeu da navegação a vela. Por conta do pinheiro branco, a população do porto do Maine saltou de 277 almas penadas em 1830 para 14.408 em 1860. Tratou-se, sem tirar nem por, de uma corrida extrativista movida pela economia global.</div>
<div>A árvore virou símbolo do Maine. Ilustrava o selo do estado em 1820. Suas flores se tornaram oficiais em 1895. E em 1945 o Maine adotou a alcunha de Estado do Pinheiro. Mais ou menos como aconteceu com a araucária no Paraná. Mas com resultados menos lúgubres, porque foi ele que motivou no começo do século XX a campanha para multiplcação de parques nacionais e reservas nos Estados Unidos, no governo Theodore Roosevelt.</div>
<div>Os ambientalistas levariam muitas décadas para descobrir que o grande pinheiro branco prospera em terra arrasada. Quando a agricultura e a pecuária decaíram, ele voltou a ocupar os campos abandonados com a voracidade de floresta homogênea. E foi isso que Heinrich encontrou há pouco mais de 30 anos. Restaurar o bosque original só com salário de professor era, de cara, um projeto falido. Ele decidiu reflorestar a propriedade usando o dinheiro e a técnica da exploração comercial de madeira.</div>
<div>Tiradas num intervalo de três décadas, fotos aéreas do terreno comprovam que ele acertou a mão. U que essa mão teve cabeça para fazer em cada metro quadrado de suas colinas um considerável investimento de pesquisa. Como resultado de todo esse trabalho ele colheu, fora o prazer de morar numa clareira onde hoje alces e ursos vêm comer maçãs, assuntos de sobra para livros cotados pela crítica como obras-primas da divulgação científica, com várias temporadas na lista dos mais vendidos. No caso, estamos falando de The Trees in My Forest, lançado em 1997.</div>
<div>Henrich é espanosamente prolífico para um autor tão pouco sedentário. Tarimbado corredor de maratonas, ele costuma zanzar por suas matas a qualquer hora do dia e da noite, como se sentisse em casa. Tem uma curiosidade insaciável por tudo o que acontece lá dentro. Controla a cada estação a chegada e a partida dos pássaros, anfíbios, insetos e florações, dedicando-se a meticulosas investigações sobre os mecanismos que regulam o cio das plantas com a ronda dos bichos capazes de polinizá-las. Sobe em pinheiros com lápis e papel na mão, para rascunhar, lá do último galho, vistas panorâmicas que acompanham a evolução da paisagem. Aponta, pessoalmente, as árvores condenadas às serrarias,  para que outras retomem o território que originalmente lhes cabia.</div>
<div>Enfim, cuida de todos os detalhes. E, com isso, sua floresta tornou-se um modelo vivo de ciência aplicada à conservação. Ele costuma usá-la em aulas de campo. E suas aulas soam convicentes, porque anos atrás um ex-aluno desenganado pediu-lhe para deixar seu corpo apodrecer ao relento na mata (o que Heinrich recusou), acreditando que assim chegaria diretamente à unica vida após a morte que se pode conferir molécula por molécula.</div>
<div>Não há assunto obscuro e abstrato que Heirich não torne claro e concreto em duas ou três páginas. A conversa fiada sobre seqüestro de carbono, por exemplo. Ela paira no ar há tanto tempo que parece incapaz de pegar na terra. Heinrich a materializa num galho que cresce diante de sua janela, absorvendo por segundo em cada célula 4,6 milhões de moléculas de dióxido de carbono, possivelmente expelidos por “um tronco em decomposição na Amazônia, um carro nas avenidas de Los Angeles, uma usina a carvão no Utah, um hornbill na Indonésia e um babuíno na Tanzânia”.</div>
<div>Portanto, “cada célula de madeira em cada árvore” de sua propriedade é um permanente “dá-e-toma com o resto do mundo”. Dito assim, parece simples, não? Pois é o mesmo cálculo que o tal mapa-mundi da massa florestal pretende converter à escala planetária. Para que ninguém mais possa dizer que não tem nada a ver com isso.</div>
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		<title>Monteiro Lobato está pronto para 2010</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/04/17/monteiro-lobato-esta-pronto-para-2010/</link>
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		<pubDate>Sat, 17 Apr 2010 19:35:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura]]></category>
		<category><![CDATA[Código Florestal]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Vai mal uma campanha presidencial que começa com políticos em fim de mandato alterando o Código Florestal, leiloando a hidrelétrica de Belo Monte e autorizando o aproveitamento energético de unidades de conservação. Promete um futuro igualzinho ao tempo em que o escritor Monteiro Lobato viveu.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Lobato.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-762" style="margin: 5px;" title="Lobato" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Lobato.jpg" alt="" width="198" height="283" /></a>Desta vez, a candidata Marina Silva acertou em cheio. Sob pena de acabar antes da largada, uma campanha presidencial não pode engolir em silêncio as mudanças do Código Florestal que, para não dizer mais nada, estão entregues ao deputado Aldo Rebelo. O relator nunca tratou de meio ambiente. E já avisou que considera o código “impraticável”.</p>
<p>Políticos em fim de mandato não deveriam, em princípio, meter a mão no futuro do país como se aquilo já fosse deles. Mas é o que está acontecendo com freqüência alarmante. O presidente Lula faz questão de legar a hidrelétrica de Belo Monte ao sucessor, seja ou não sua candidata Dilma Rousseff, a única partidária dessa aventura na selva, montada à custa de muita incompetência técnica, golpes autoritários e malversação de dinheiro público.</p>
<p>E o governo ainda acaba de baixar um decreto, o 07.154,  autorizando estudos para o aproveitamento energético das unidades de conservação, mesmo se a lei proíbe. Lula está levando seu apagar das luzes ao pé da letra.</p>
<p>Com essas e outras medidas, os brasileiros vão marcando, sem saber, encontros com o passado na próxima década. Seu único consolo é que pelo menos as aparências, nesse caso, não mentem. O deputado Aldo Rabelo e a candidata Dilma Rousseff têm cara de antigamente. São o passado em pessoa. Se não estivessem tão bem arranjados na vida pública, dariam candidatos fortes ao elenco de qualquer novela de época sobre o drama histórico do desenvolvimentismo brasileiro.</p>
<p>Na dúvida, releia-se Monteiro Lobato, o escritor que, olhando o Brasil de cima, pela janela de um avião, enxergou cá embaixo um “deserto de homens e idéias”. Está bem na hora, porque Monteiro Lobato acaba de voltar à terra a tempo de animar a campanha.</p>
<p>Ele reencarnou no livro <strong>Conferências, Artigos e Crônicas</strong>, a reedição de uma antologia póstuma, publicada originalmente há mais de meio século. O tempo lhe fez bem. Tirou-lhe a contundência com que Monteiro Lobato entrava de sola nos grandes problemas nacionais. E, por anacrônico, o livro tornou engraçados até os piores disparates do grande escritor. “Os assuntos são infinitos, mas quando a gente chega na hora de agarrar um não é fácil”, ele confessou em sua última entrevista, dois dias antes de morrer.</p>
<p>Ele dava mesmo palpite sobre qualquer assunto. Via no petróleo o elixir curativo da civilização. Achava que mais cedo ou mais tarde o mundo chegaria, através de uma baldeação no Império Americano, ao Comunismo Universal. Previu que a moda de Machado de Assis seria efêmera, por se tratar de um autor que não enxergava um palmo além “dos pequeninos dramas pessoais” dos “mestiços neurastênicos do litoral” – como diria Euclydes da Cunha que, por sinal, Monteiro Lobato, com toda a razão, considerava o maior escritor brasileiro.</p>
<p>Não tinha meia medida. Em 1941, Monteiro Lobato saiu do cinema “estarrecido”, depois de assistir à estréia de <strong>Fantasia</strong>, o desenho animado musical de Walt Disney, como “uma nova Criação Cósmica assinada pela mais alta expressão do gênio humano”. Em questões raciais, ele nunca passou da cozinha do sítio do Pica-Pau Amarelo. Chegou a escrever que um negro da África do Sul “assemelha-se, intelectual e moralmente, mais aum gorila do que, naturalmente, a um holandês ou a um italiano”.</p>
<p>Dizia coisas que hoje nem Lula seria capaz de dizer. Por exemplo: “O que está faltando ao mundo para o restabelecimento da paz é apenas isto: bombas atômicas para todos, de igual força”. O presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad não imagina o que perdeu conhecendo o Brasil depois de Monteiro Lobato.</p>
<p>Mas, num ponto, o livro mostra um escritor novinho em folha. É o que aparece no capítulo “A nossa doença”, desancando o Brasil como um país empobrecido pelo vício histórico do desenvolvimento predatório, baseado na “caça à fertilidade nativa da terra virgem”. A agricultura nacional avançava “como um caçador de azoto que, de machado ao ombro e isqueiro na mão caminha devorando matas”.</p>
<p>Por isso, cada surto de progresso durava aqui só o tempo de consumir uma fonte de recursos naturais. E seguia em frente, largando para trás pobreza e sucata. “Brtam da terra cidades. Rompem vilas. Abrem-se fazendas. Constroem-se vias férreas. Direis: o país enriqueceu: entraram para a economia tantos prédios, tantas pontes, tantos núcleos urbanos, tantos quilômetros de estrada; isso representa criação de riqueza, é capital acumulado pelo trabalho; é progresso econômico”.</p>
<p>Ledo engano, como explica o ex-fazendeiro Monteiro Lobato na linhas seguintes:  “Essa riqueza, depois de criada, extingue-se. As cidades morrem, por prédios se desvalorizam, o casario imenso das fazendas e todas as benfeitorias; as estradas esburacam-se ao léu; as vias férreas viram desengonçado mambembe a vapor em perpétuo regime de déficits, tênias parasitárias da região”. Etc. e tal.</p>
<p>Algum brasileiro tem a impressão de já ter visto isso em algum lugar? Provavelmente, viu. Se não foi numa beira de rodovia, pode ter sido na revista <strong>Science</strong>, que publicou recentemente m sólido  artigo, assinado por pesquisadores do Imazon, de Belém do Pará, sobre a brevidade suicida dos ciclos de crescimento econômico, que atualmente devastam a Amazônia. Lá, a distância entre o progresso e a decadância se mede geralmente em 16 anos, tempo necessário para a liquidação de toda a madeira comercializável nos municípios pioneiros.</p>
<p>Em matéria ambiental, Monteiro Lobato continua perfeitamente dentro do prazo de validade, porque o Brasil continua na década de 1940.</p>
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		<title>Um guia de viagem para ficar em casa</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Apr 2010 16:44:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Este foi um ano em que o Parque Nacional do Iguaçu bateu todos os recordes de público, beirando 1.300 mil visitantes. É hora portanto de brir as páginas amareladas de um livro de 1918, que conta a visita às cataratas do americano Burton Holmes, precursor dos blogs de viagem,  no tempo do facão de mato e da canoa indígena.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Burton-Holmes-Capa_3334.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-744" style="margin: 5px;" title="Burton Holmes Capa_3334" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Burton-Holmes-Capa_3334-204x300.jpg" alt="" width="204" height="300" /></a><strong>D</strong>epois que 22 mil pessoas passaram pelos portões do parque no último feriadão, nada mais refrescante do que um mergulho nas cataratas que o americano Burton Holmes visitou em 1918 no rio Iguaçu. A história está num de seus <em>Travelogues</em>, o 13º volume da série de relatos de viagem que ele manteve por 60 anos, de fins do século XIX a meados do século XX.</p>
<p>Holmes foi um legítimo blogueiro. Isso uns 100 anos antes que a moda pegasse na internet. Ou mesmo que a internet existisse. Mas nunca teve nada a ver com a atual voga dos guias turísticos, feitos para quem planeja botar o pé no mundo. Ele zanzava de continente em continente para que as as pessoas conhecessem lugares remotos sem sair de casa – ou saindo para ir, no máximo, ao cinema mais próximo.</p>
<p>Porque Holmes também fez cinema falado antes do cinema falado. Ou seja, ele em pessoa falava durante a projeção de seus filmes. Adotou o neologismo <em>Travelogues</em> – soando a “papo de viagem” – para evitar que a platéia debandasse diante da ameaça de ouvir uma palestra em sala de cinema. E seus livros são imitações propositais de velhos diários de bordo, colando impressões a  imagens.</p>
<p>Até aí, nada demais. Difícil era ir às cataratas naquela época, quando a primeira Guerra Mundial mal havia terminado e só o périplo de Buenos Aires a Puerto Aguirre, onde começa a visita aos saltos do Iguaçu, vai da página 301 à 315. As 300 páginas anteriores, diga-se de passagem, percorrem Recife, Salvador, Rio de Janeiro e outros portos da rota para a Argentina. E cada cidade tem seu capítulo próprio.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Holmes_3337.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-752" title="Holmes_3337" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Holmes_3337.jpg" alt="" width="461" height="365" /></a></p>
<p>&#8220;Nunca um destino nos hava parecido tão fugidio&#8221;, ele confessa. &#8220;Alguns nos diziam que os mosquitos nos comeriam vivos ou que o calor dos trópicos se revelaria mortal&#8221;. Na reta final da viagem, ele encarou hotéis “<em>en liquidación</em>”, atendidos por “misantropos enigmáticos”, antes de percorrer a cavalo os 20 quilômetros “encantadores” de uma “soberba avenida” na selva, sob “espantosas borboletas” que lhe coroava a cabeça com “auréolas coloridas”.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Holmes-1_3335.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-745" title="Holmes 1_3335" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Holmes-1_3335.jpg" alt="" width="466" height="337" /></a></p>
<p>Ia a caminho das cataratas que desbancaram as do Niágara. Mas, “Oh! Leitor!”, que ninguém esperasse encontrar por lá, como no Niágara, trilhas pavimentadas, pontes e escadas. O Iguaçu tinha que ser conquistado a facão de mato. Em compensação, suas rochas tinham cor de “chocolate”, emolduradas pelo “verde de uma floresta quase equatorial”.</p>
<p>O grupo passou &#8220;oito dias que jamais serão esquecidos fotografando as cataratas de muitos pontos de vista difíceis de atingir, para os quais tivemos que abrir caminho à força&#8221;. No fim, com “a ajuda de dois guias índios”, Holmes atracou no último dia uma “canoa de tronco” sobre a Garganta do Diabo, onde o rio parece-lhe “literalmente despencar num buraco redondo no meio da correnteza”. Ali, descobriu que os índios nunca tinham feito aquilo antes.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Holmes-3_3340.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-746" style="margin: 5px;" title="Holmes 3_3340" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Holmes-3_3340-300x252.jpg" alt="" width="300" height="252" /></a></p>
<p>Mas não perdeu a chance de se debruçar numa ilhota pendurada sobre o abismo, sentindo a “pedra tremer com o impacto incessante do rio”, para fotografar a cena indescritível de “suprema grandeza”. No fim, a catararas renderam 19 páginas de seu <em>Travelogue</em>.</p>
<p>Holmes não deixou de notar que, embora raramente visitadas, a não ser “por índios pouco impressionáveis”, as cataratas do Iguaçú já tinham naquela ocasião inspirado projetos hidrelétricos a uma civilização incapaz de ver água caindo sem pensar em quilowatts. Fez votos de que, pelo menos, o essencial daquela paisagem escapasse do progresso “para a elevação do espírito humano”.</p>
<p>Ela escapou, como atestam hoje os sucessivos recordes de visitação às cataratas. Mas o livro de Holmes, que aos 90 anos chegou intato a um sebo de Foz do Iguaçu e foi parar na adminitração do parque, bem que poderia ficar exposto na fila de ingresso. Para ninguém pensar que às cataratas se vai assim, sem mais nem menos.</p>
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		<title>Uma aula de estilo para biólogos</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/04/uma-aula-de-estilo-para-biologos/</link>
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		<pubDate>Thu, 04 Mar 2010 13:06:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo biólogo, sobretudo se estive metido em pesquisasde campo, deveria aprender com o entomólogo Bernd Heinrich como se faz um livro universal sobre o que acomtece no quintal de sua casa. O mundo precisa muito de descobrir as coisas que só eles sabem./]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Heinrich-capa.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-643" style="margin: 5px;" title="Heinrich capa" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Heinrich-capa-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a><em>Summer World &#8211; a season of bounty</em>, do entomólogo Bernd Heinrich, é um desses livros sobre assuntos universais em detalhes minúsculos que só os biólogos são capazes de fazer. O problema é que Heinrich, professor emérito da Universidade do Vermont, está longe de ser um biólogo como outro qualquer.</p>
<p>Para começo de conversa,  ele mesmo ilustra copiosamente suas páginas, não só com fotografias documentais, mas sobretudo com desenhos a mão livre, feitos com traços precisos e verossímeis, sem perder o lirismo de quem está vendo as coisas pela primeira vez, o que lhes dá um certo grau de parentesco com as figuras que povoam as páginas de histórias infantís. E isso mesmo quando retrata a autópsia de um pássaro abatido no choque com as vidraças de sua casa.</p>
<p>Ele é também um maratonista de fôlego. E bota fôlego nisso. Quase quarentão, perdeu por meros três segundos a vaga na equipe dos Estados Unidos para os jogos olímpicos de 1980. De lá para cá, veio acumulando  títulos e recordes de longa distâncua, correndo 100 quilômetros em pouco mais de sete horas e 100 milhas em doze horas.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Heinrich-foto.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-642" style="margin: 5px;" title="Heinrich foto" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Heinrich-foto-223x300.jpg" alt="" width="223" height="300" /></a></p>
<p>De quebra, escreveu sobre as maratonas para a seção de esportes do jornal <em>The New York Times</em>. E o artigo foi premiado. Pudera. Ele fez um livro de História Natural sobre os impulsos biológicos que na noite dos tempos produziran homens alcançar antílopes e outras criaturas prodigiosamente lépidas, graças à soma de persistência com vontade de vencer.</p>
<p>Tudo em que ele bota o olho fica interessante – sejam rãs, moscas, besouros, vespas, aranhas, a disputa acirrada entre insetos pelo espólio de corpos em decomposição ou o padrão metódico com que os pica-paus de peito amarelo picotam, ano após ano, a casca branca das bétulas, para lhes sugar a seiva açucarada. Estudando mamangás, demonstrou em outro livro que essas abelhas corpulentas poupam energias com o tino de verdadeiros economistas, para se manter mais quentes que o ar à sua volta. E, futricando a vida social dos corvos, provou que eles raciocinam e fazem escolhas conscientes.</p>
<p>Henrich, ainda por cima, escreve com a desenvoltura de quem acha a coisa mais natural do mundo pular, em poucas linhas, de esquemas cosmológicos sobre a inclinação do eixo terrestre que aquece o hemisfério norte, virando-o três meses por ano para o lado do sol, para uma citação de “Here comes the sun”, de George Harrison – o estribilho completo, com o “da-da-di-da-da” e tudo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Flores-Heinrich_4488.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-652" style="margin: 5px;" title="Flores Heinrich_4488" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Flores-Heinrich_4488-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Seu novo livro, este “Mundo do Verão”, mal saído do prelo nos Estados Unidos, portanto ainda longe da língua portuguesa, é exatamente o que diz o título: o mundo visto do fundo de seu quintal, nas florestas do Maine, entre os verões de 2005 e 2009, na estação em que animais e plantas aproveitam o maná de fótons que cai do céu para crescer e multiplicar-se.</p>
<p>Embora as explorações de novs continentes no século 19 tenha associado para sempre a imagem dos naturalistas as grandes viagens exploratórias pelos confins mais exóticos do planeta, a curiosidade centífica que Henrich aplica a criaturas e lugares supostamente banais tem antepassados ilustres. Foi assim, literalmente nos jardins provençais de sua casa no sul da França, que nasceram no século XIX os livros de Jacques Henri Fabre, o padroeiro dos estudos sistemáticos da vida íntima de insetos. O próprio Charles Darwin não passou o resto da vida, como parece, ruminando os troféus de seus cinco anos de viagem a bordo do Beagle. Seu último livro trata da influência das minhocas na paisagem inglesa. É uma típica &#8211; e fascnante &#8211; produção caseira.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Pássaros-Heinrich_4508.jpg"><img class="alignright size-thumbnail wp-image-653" style="margin: 5px;" title="Pássaros Heinrich_4508" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Pássaros-Heinrich_4508-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a></p>
<p>Mas Heinrich tem, a seu favor, um pendor à primeira vista contraditório para olhar para perto e enxergar longe. Só um fundista como ele para contar, como aventura épica, a migração do <em>Archilochus colubris. </em> O beija-flor do papo rubi, genuíno cidadão dos trópicos, uma vez por ano desembarca nos bosques norte-americanos, para acasalar-se e criar filhotes.</p>
<p>O macho dessa espécie pesa cerca de três gramas. Bate as asas até 60 vezes por segundo. E, ao migrar, atravessa de ida e volta o golfo do México, voando sobre quase mil quilômetros de água a 55 quilômetros por hora. São, portanto, em velocidade de cruzeiro, 17 horas sem reabastecer, costeando o limite da inanição. Eis uma narrativa de viagem para Amyr Klink nenhum botar defeito.</p>
<p>Com a mesma ligeireza, Henrich transita entre decomposição de um peru selvagem caçado por coiotes na vizinhança de sua casa para a correspondência com um ex-aluno que, desenganado pelos médicos, escreveu-lhe solicitando o favor de deixar seu corpo apodrecer ao relento nas terras do professor. Segundo explica, aos “cuidados de moscas, besouros” e outros “celebrantes da renovação”, capazes de conduzi-lo à única forma de imortalidade em que acredita – a do reaproveitamento natural das fontes de vida.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Insetos-Heinrich_4490.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-654" title="Insetos Heinrich_4490" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Insetos-Heinrich_4490.jpg" alt="" width="454" height="308" /></a>Heinrich responde que, com quase sete bilhões de seres humanos partlhando a terra, essa modalidade de serviço  fúnebre se tornou, no mínimo, pouco prática. Não sem antes dar inteira razão ao remetente. Golpe de mestre, num livro que talvez nem todo biólogo precise ler, mas que todo biólogo deveria, pelo menos, desejar escrever, porque a terra nunca precisou tanto de que os leigos se interessam sobre a sua infinita complexidade.</p>
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		<title>Saudades do jornalismo ambiental</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/02/23/saudades-do-jornalismo-ambiental/</link>
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		<pubDate>Wed, 24 Feb 2010 00:21:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação Ambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Populações Tradicionais]]></category>

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		<description><![CDATA[O jornalismo ambiental está reaprendendo agora, às vezes por ensaio e erro, aquilo que há 80 anos já estava em emissoras de rádio e jornais brasileiros, mostra um livro importante e didático dos professores José Luiz de Andrade Franco e José Augusto Drummond.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Livro-Sertão.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-620" style="margin: 5px;" title="Livro Sertão" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Livro-Sertão-196x300.jpg" alt="" width="196" height="300" /></a>O Brasil precisa criar oficialmente um novo premio de jornalismo ambiental. Para entregá-lo, postumamente, pelo conjunto da obra, aos autores e meios de comunicação que fizeram do assunto, na década de 1930, a viga mestra de um projeto para o país, pretendendo, ao mesmo tempo, defender seu patrimônio natural, acertar o passo da população mais pobre e marginalizada com a fartura original da exuberância nativa e reordenar o Estado brasileiro de maneira a torná-lo, nas raízes, essencialmente nacional.</p>
<p>Não foi à-toa que aqueles anos desembocaram, em 1934, na Primeira Conferência Brasileira de Proteção à Natureza. E, pouco mais tarde, na decretação dos primeiros parques nacionais do Brasil &#8211; poucos, pequenos e retardatários, mas pioneiros, em Itatiaia, na Serra dos Órgãos e no Iguaçu.</p>
<p>Depois, como veio, a onda passou, tragada pelos maremotos políticos da Segunda Guerra Mundial e da redemocratização. Ficou esquecida por tanto tempo, que agora parece nova em folha em “Proteção à Natureza e Identidade Nacional no Brasil, ano 1920-1940”. O livro dos professores José Luiz de Andrade Franco e José Augusto Drummond parece uma cartilha das coisas que, por desmemoriado, o jornalismo brasileiro anda reaprendendo ultimamente, como se fossem lições inéditas do século XXI.</p>
<p>Isso numa terra onde, há mais de 70 anos, o zoólogo Cândido de Mello Leitão fazia no rádio um programa chamado “A Vida Maravilhosa dos Animais”, cravejado de citações científicas, para contar  como já era antiga, naquele tempo, a corrida internacional para remediar, com reservas naturais e legislação ambiental, os estragos deixados pelas “realizações humanas interesseiras”.</p>
<p>Mello Leitão tinha sérias dúvidas sobre os parques que o Brasil acabara de instalar. Itatiaia “não passava de “uma pequena reserva florestal”, de valor “quase nulo” para a preservação da fauna, por estar encarapitado em grimpas que nem os cafezais do Vale do Paraíba ousaram escalar. O da Serra dos Órgãos poderia no máximo poupar “por algum tempo a flora”. Mas, “quanto à fauna, será um deserto sem expressão”.</p>
<p>O do Iguaçu, sim, tinha porte e vocação para servir de santuário, por exemplo, a “guarás e lontras”, se “as construções que se fazem sem audiência de um zoólogo” não sinalizassem a intenção de reduzi-lo a “um simples parque de turismo paisagista”. Tudo o que ele disse na época circula na boca dos funcionários e pesquisadores hoje às voltas com a caduquice ambiental desses parques nacionais septuagenários.</p>
<p>Aquela geração sabia o que estava dizendo. O médico convertido em botânico Alberto José Sampaio tinha um programa completo para substituir o modelo tradicional de progresso via desmatamento por uma civilização de “cidades-jardins”, cercadas de matas submetidas a normas severas de manejo e silvicultura.</p>
<p>O escultor Armando Magalhães Corrêa, que acabou morando num sítio em Jacarepaguá, publicou em série no Correio da Manhã, como se fossem parte de um folhetim, as histórias reunidas em “O Sertão Carioca”. Seu livro é o último inventário de tudo o que a cidade perdeu. E ele tinha seu próprio plano conservá-la. Mas andam difíceis de encontrar não só o Rio que ele viu como o livro em que o retratou. Ainda bem que Franco e Drummund se encarregaram de fazer essa garimpagem inadiável.</p>
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