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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Fotografia de Natureza</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Diário de funcionário público</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Jan 2011 18:43:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Serviço Público]]></category>

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		<description><![CDATA[Rotina de funcionário público é a arte de contar as horas que faltam para o fim do expediente. Certo? Errado. Jorge Pegoraro, o chefe do parque nacional do Iguaçu, deu um jeito de esticar os seus dias como fotógrafo de natureza.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Pegoraro-e-Manu_2548.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1412" title="Pegoraro e Manu_2548" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Pegoraro-e-Manu_2548.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p><strong>U</strong>rgente e lacônico, o texto no celular avisa que “as cigarras estão dando sopa”, com a chegada do verão ao parque nacional do Iguaçu. Outro rascunho informa que uma onça-pintada foi vista dias atrás por funcionários da manutenção no quilômetro 26 da estrada que leva os turistas às cataratas. Um recado mais longo conta que “os ninhos de pássaros ao lado da casa 003 foram todos estraçalhados” por “gambá, tucano” ou outro predator “invisível”.</p>
<p>A 003 é a residência oficial do biólogo Jorge Pegoraro, chefe do parque e autor das mensagens. Ele fazia a ronda diária dos ocos e galhos no jardim, desde que a primavera povoou suas árvores de ovos e promessas. Está há quase oito anos no posto. E cada vez mais atraído pelas novidades que cercam seu cotidiano por todos os lados. Meses atrás, comprou uma máquina fotográfica. Passou a registrar seu dia-a-dia com a sofreguidão de quem pos as mãos em brinquedo novo e o conhecimento de causa de quem vê aquilo tudo sistematicamente, por dever profissional.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Socó_1618.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1413" title="Socó_1618" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Socó_1618.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>O dia-a-dia pode ser inexaurível, quando se tem sob sua jurisdição uma floresta de 185 mil hectares. Em poucas semanas de fotografia, Pegoraro tinha juntado uma fartura de imagens. No fim do ano passado, por exemplo, fez “um bonito (eu acho) jacaré (pequeno) no rio Iguaçu, numa volta de barco próxima à ilha dos Papagaios”.</p>
<p>Com as tardes alongadas pelo horário de verão, a cada fim de expediente, se a chuva deixar, ele pega o equipamento, atravessa em longos círculos o jardim e cai nas trilhas que fazem de sua casa um entrocamento de pegadas. Cruzam por ali rastros de catetos, de cutias, de cachorros-vinagre, de veados mateiros e de onças. Só com os pássaros que frequentam sua clareira daria para fazer um guia quase completo das aves do Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Flor-1109.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1414" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Flor-1109" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Flor-1109.jpg" alt="" width="250" height="363" /></a>Só volta depois que a noite cai. Usa uma Rebel T1, a reflex digital mais modesta da Canon. Contenta-se com lentes básicas. Passou batido pelo labirinto técnico dos manuais. Mas tem olho clínico, capaz de identificar na penumbra animais que parecem sombras e ver silhuetas onde aparentemente só há manchas escuras. Com esses trunfos, e a prerrogativa de morar no parque nacional, virou fotógrafo de natureza do dia para a noite. Foi a última virada de uma carreira que, sempre que entorta, aponta mais para o mato.  Ele nasceu em Curitiba, formou-se por lá em Biologia quando o diploma servia quase exclusivamente para dar aulas em sala e entrou para o serviço público, por concurso, via Sudepe. A superintendência da pesca deu-lhe o primeiro emprego no porto de Paranaguá, o extremo oposto do Iguaçu.</p>
<p>Chegou ao Oeste do Paraná em 1989, depois que a criação do Ibama fundiu as autarquias que tratavam de recursos naturais no governo. Pegoraro foi realocado no escritório do Ibama em Cascavel, quando as serrarias já haviam raspado os últimos retalhos de mato no município. Mas o escritório continuava expedindo licenças de desmantamento para as cidades retardatárias cuidarem das sobras.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Gralha_1047.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1415" title="Gralha_1047" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Gralha_1047.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>Ele não levou muito tempo para se convencer de que toda aquela região gravitava, em saber, em torno do parque nacional, cuja floresta é o maior investimento que os colonos conseguiram fazer na economia da região. Basta ver os dados oficiais sobre a economia de Foz do Iguaçu, a maior cidade da vizinhança. O turismo é, de longe, sua maior fonte de ocupação e renda. A &#8220;produção de energia&#8221; &#8211; ou seja, o produto da Itaipu Binacional, a maior hidrelétrica do mundo &#8211; vem em segundo lugar.</p>
<p>Jorge Pegoraro aproximou-se muito do parque na queda-de-braço com políticos locais, quando eles transformaram em questão de honra manter aberta <a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Lua-no-Salto-Floriano_07201.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1419" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Lua no Salto Floriano_0720" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Lua-no-Salto-Floriano_07201.jpg" alt="" width="312" height="454" /></a>a Estrada do Colono. Teve que defender a integridade da floresta contra os pontos de vista até de superiores hierárquicos, dispostos a entregar os pontos.</p>
<p>Acabou nomeado para dirigi-lo, em 1º de abril de 2003. Tem uma rotina complicada que inclui intermináveis reuniões para aparar as arestas e cauterizar os ressentimentos que sobraram da disputa. Encara frequentemente longas horas em viagens ao redor do parque, para manter a conversa em dia com quem mora no lado oposto ao da sede, a 200 quilômetros de distância. E discussões que quase sempre voltam ao ponto de partida. Pegoraro oferece projetos de parceria em turismo ecológico. E ouve pedidos de licença para a pesca esportiva nos rios da reserva.</p>
<p>Ele não abre mão de &#8220;saber tudo o que acontece&#8221; lá dentro, ouvindo mateiros, técnicos, guardas e operadores turísticos. Mas se considera até hoje incapaz de conhecer o parque como se deve &#8211; ou seja, “a fundo” . Seguir a rotina desse funcionário público entre o gabinete e a trilha revoga tudo o que se ouve falar por aí sobre preguiça burocrática.</p>
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		<title>A arte de devolver bichos ao mato</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/10/01/a-arte-de-devolver-bichos-ao-mato/</link>
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		<pubDate>Fri, 01 Oct 2010 14:54:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Há um ruído característico de animais esquivos correndo no mato que acorda os instintos de caçador até no mais pacíficista dos fotógrafos de natureza. E aquele parecia aos ouvidos ser um bicho muito especial. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quati-Represa_0890-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1245" title="Quati Represa_0890 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quati-Represa_0890-copy.jpg" alt="" width="453" height="302" /></a></p>
<p><strong>B</strong>icho! Só pode vir de camadas profundas do cérebro humano, onde sobraram circuitos de caçadores ancestrais, a reação imediata de todos os sentidos ao primeiro sinal de que alguma coisa está fugindo às pressas de nosso caminho, quando se anda no mato.</p>
<p>No caso, era a velha trilha da represa, na verdade uma estrada antiga que a vegetação vai espremendo num corredor sinuoso entre árvores centenárias e, agora, com as copas rebrotando depois do inverno, consegue se manter sombria mesmo debaixo do sol a pino.</p>
<p>É um percurso tão batido que as primeiras deduções vêm sozinhas, sem necessidade de pensar. Fica, de cara, descartada a hipótese de ser a cutia do costume, que mora perto de casa e dispara com a nossa chegada como se não estivesse farta de ver gente. Sua toca ficou centenas de metros para trás.</p>
<p>Teiú também não era. Falta lugar para um lagarto aquecer o corpo no terreno sombreado. Sem contar que ele, arrastando um rabo maior do que o corpo, faz barulho demais na serapilheira para um animal de seu porte. O que se ouviu há menos de um segundo  foi o ruído nas folhas de patas cautelosas mas ligeiras.</p>
<p>Gato? Não. Seria sorte demais topar com o menor felino que fosse, assim, sem mais nem menos, à luz do dia. Mas uma irara que viesse já valeria o desvio, como diz o guia Michelin das coisas que obrigam o turista digno do nome a mudar de roteiro.</p>
<p>Irara mesmo, na certa, porque alguns adiante acabou subitamente o farfalhar nas folhas e os ramos da vegetação rasteira começaram a se mexer, como se soprasse um foco de vento no ar parado. Tronco acima, na primeira forquilha ela estacou.</p>
<p>Dava para enxergar vagamente um retalho ou outro de seu vulto através da folhagem. Mas não chegavam a compor uma figura reconcível. Imóvel como estava, meio dissolvida no ambiente e sem mexer um músculo, era menos uma visão do que um pressentimento.</p>
<p>Certamente me olhava, de seu poleiro. Deve ter seguindo o braço que se esticava para trás, tateando silenciosamente na mochila a teleobjetiva. O gesto acabou acordando nas veias a memória de algum antepassado longínquo que se contorseu assim para catar a flecha na aldrava.</p>
<p>Em seguida, foi preciso achar, andando de lado, um passo, para, um passo, para, até tirar da frente os galhos que escondiam a presa. Foi aí que encarei o quati. Ou seja, o bicho que eu menos esperava. Aqui mesmo, no Iguaçu, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/brabeza-de-onca-e-maldade-de-cacador/">já fotografei onças pintadas com menos adrenalina</a>.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quatis_0544.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1242" title="Quatis_0544" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quatis_0544.jpg" alt="" width="409" height="272" /></a></p>
<p>O quati é o tipo da espécie que se encontra a três por dois, atravessando em fila no meio do parque o asfalto da BR-469, enfiando-se em lixeiras como se fossem tocas de plástico verde ou subindo em mesa de lanchonete, para roubar comida. Em vão as placas no parque pedem para não alimentar quatis. Centenas de vezes por dia, a bordo dos ônibus que ligam os portões de entrada às Cataratas um discurso gravado repete, em três línguas, que os quatis são “selvagens” e podem transmitir sabe-se lá que doenças tropicais.</p>
<p>Ninguém dá a mínima para o aviso. Pudera. Nada mais parecido com um animal doméstico do que um quati de olho no seu prato. Outro dia mesmo topei com uma visitante argentiba que segurava a pata de um quati com a mão esquerda, para se fotografar a seu lado com o celular na mão direita. Trata-se de um desses animais que o excesso de convívio humanizou demais. Humanizou tanto, que o transformou numa caricatura de nós mesmos. Humanizado e caricato, vivendo na fronteira cinzenta da natureza com os vícios domésticos, o quati se torna uma criatura meio desprezível.</p>
<p>Já me peguei mais de uma vez esperando ele sair do enquadramento para fotografar o parque. Ou seja, limpando a realidade com métodos inspirados na censura stalinista. E agora estava ali, encarando o mesmíssimo animal com uma lenta pesada, ambos posando um para o outro como legítimo representante da vida primitiva e selvagem. A fotografia só saiu porque o dedo indicador aperta o botão da máquina por sua própria conta.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quatis-Turistas_0537.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1241" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Quatis &amp; Turistas_0537" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quatis-Turistas_0537.jpg" alt="" width="254" height="363" /></a></p>
<p>Era hipnotizante a transfiguração do quati em fauna nativa de pleno direito. Isso dias depois de fotografar, numa ponte metálica na margem argentina, o momento em que um bando de quatis deu de cara com uma parede humana de turistas e câmeras portáteis, todos esperando para clicá-los como roqueiros a caminho do palco.</p>
<p>Deve ser difícil ser quati com o mínimo de naturalidade num cenário desses. Tudo porque o bicho é capaz de tudo no chão ou em cima de uma árvore, mas não quer saber de entrar na água. E por isso não teve outro remédio senão agüentar o assédio até o fim, quando, um a um, assim que o primeiro deu o aviso de terra à vista, pulou de lado e sumiu no mato. Os quatis, naquele caso, estavam a um pequeno salto da dignidade.</p>
<p>Aquele, não. Talvez fosse o remanescente de uma ninhada que foi parar na barriga de um predador. Solitário, arredio e e decidido a pagar para não ver ou ser visto, quando o dispradador da câmera começou a sussurrar, ele escalou a árvore até os últimos galhos e desapareceu no dossel da foresta tropical.</p>
<p>Deixou para trás uma aula que espero seguir daqui para a frente. Dificilmente haverá hoje no mundo animal raro ou feroz que não tenha a vida íntima devassada em detalhes quase pornográficos pelas modernas técnicas de filmagem ou fotografia de natureza. Mas falta fotografia para mostrar que até o bicho mais banal também não é gente e que parque nacional, por mais que seja criado para divertir as pessoas,está longe de ser um mafuá.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>É tempo de cor na terra e vôo no céu</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/09/29/primavera-por-aqui-quer-dizer-ar-lavado/</link>
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		<pubDate>Wed, 29 Sep 2010 12:30:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>

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		<description><![CDATA[O primeiro sinal da primavera foi a volta dos andorinhões às cataratas. Eles vieram antes da estação. Retomaram seus postos nas rochas a prumo. E, no céu, o lugar dos intermináveis poentes vermelhos, por obra e graça do ar seco e opaco das queimadas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Sol-e-Papagaios_0366-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1221" title="Sol e Papagaios_0366 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Sol-e-Papagaios_0366-copy.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>H</strong>á dias, temporais esparsos andam avisando que acabou a estiagem do inverno. Chove forte, em geral no meio da noite, com trovoadas que nos acordam só para trombetaer a mudança de estação. E, como as coisas no Iguaçu mudam de repente, a passagem do inverno à primavera aconteceu de uma hora para o outro.</p>
<p>Lá se foi o tempo dos poentes intermináveis, que começavam no meio da tarde e mantinham quase no meio do céu um sol redondo e vermelho que, ainda alto, marchava sem pressa para o horizonte. Dava para acompanhá-lo a olho nu, pelo filtro de névoa cinzenta deixado na atmosfera pelas queimadas. Como espetáculo, o por-do-sol era sem dúvida muito bonito. Mas essa beleza toda já não enganava o entomólogo alemão Hermann von Burmeister, quando ele andou pelo interior do Brasil em meados do século XIX.</p>
<p>Não é de hoje que aquele sol que parecia coado por uma placa de vidro fumê, como o descreveu Burmeister nos cafezais do Vale do Paraíba, quer dizer fogo no mato. Ou, à falta de mato, de fogo nos pastos ou na palha da última safra, antes que a chuva reabra o ciclo das plantações. Em outras palavras, uma compensação dos céus pela feiúra na terra, que as coivaras produzem desde que o Brasil ainda nem era Brasil.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0511.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1222" title="Mata Florida_0511" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0511.jpg" alt="" width="401" height="272" /></a></p>
<p>Agora, depois de cada temporal, vem o azul lavado. E uma claridade que os sentidos humanos, e sobretudo os fotômetros das câmeras, há meses não registravam. E até que este ano a seca no Iguaçu não foi tão rigorosa assim.</p>
<p>O parque passou mais ou menos  incólume pela estação em que os incêndios agrícolas da vizinhança costumam lamber-lhe as bordas, enquanto a maioria das duzentas e setenta e tantas cataratas se reduzem a filetes de água no basalto lambido. Em meados setembro, as copas desfolhadas se misturavan com as copas floridas, emprestando cores de outono em país de clima temperado à mata tropical que estofa as margens do cânion, sobre o leito do Iguaçu.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0039-Edit.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1223" title="Mata Florida_0039-Edit" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0039-Edit.jpg" alt="" width="398" height="272" /></a></p>
<p>Regulado pelas barragens de quatro hidrelétricas a montante (e vem por aí uma quinta usina), deu para ver, neste ano de estiagem mais curta e branda, que o fluxo do rio Iguaçu atende mais à influência do abre-fecha de comportas do que propriamente das flutuações naturais do clima.</p>
<p>O rio míngua pontualmente aos sábados, assim que o consumo de energia baixa no fim de semana, induzindo as represas correnteza acima a estocar água. E engordam a partir de segunda, quando a demanda maior de eletricidade escancara os vertedouros das usinas. Tem um comportamento quase previsível. Mas segundo um  calendário que é o avesso do sobe-desce da visitação turística, nos portões do parque.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões_0729.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1224" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Andorinhões_0729" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões_0729.jpg" alt="" width="241" height="363" /></a>Descontados os efeitos especiais da manipulação humana, não poderia haver melhor ocasião para aprender com bichos e plantas a não se iludir com as agendas oficiais. Há meses, o chão continuava encharcado e as botas a escorregar na lama vermelha, quando as folhas da floresta semidecidual começaram pontualmente a cair, preparando as árvores para uma estiagem que, na prática, não veio.</p>
<p>E ainda fazia frio quando, semanas atrás, os andorinhões voltaram ao Iguaçu. Eles andavam sumidos desde o verão. Chegaram antes da primavera para inaugurar a estação do acasamento e da nidificação, que em seu caso acontece atrás das cortinas de água. São pássaros temerários, esses andorinhões.</p>
<p>Eles grudam ninhos com barro e saliva em paredões a pino, cobertos por cortinas d’água que nosso olhar &#8211; e pelo visto também o dos predadores – não atravessa. São um dos símbolos do parque nacional Iguazu, no lado argentino, embora não seja endêmico de lá ou daqui típico. Seu <em>habitat</em> se espalha por vários países aulamericanos, combina florestas tropicais com capoeiras, reservas naturais com áreas obviamente antropizadas.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões-no-Floriano_98692.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1228" title="Andorinhões no Floriano_9869" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões-no-Floriano_98692-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Eles têm nome vulgar mais longo que o científico, fato raro em taxonomia. Chamam- se, por extenso, andorinhões-velhos-da-cascata. E, no dialeto ornitológico, <em>Cypseloides senex.</em> Portanto, o “velho” de seu nome popular tem o endosso científico do “<em>senex</em>”. Mas “andorinhão”, no duro, a ornitologia ensina que ele não é. Trata-se de um membro da família <em>Apopidea. </em>Uma ave de pernas curtas, como as de seus primos beija-flores.</p>
<p>É com essas patas atrofiadas que ele se ancora nas pedras das cachoeiras. Seus ninhos não poderiam ter aparência mais precária. No entanto, é para eles que os andorinhões retornam, ano após ano, no fim de suas ausências migratórias. Os filhotes, crescendo pendurados no abismo, são especialmente “pacatos”, como observou o ornitólogo Mauro Pichorim no parque estadual de Vila Velha, também no Paraná: “Não piavam e agarravam-se aos ninhos”. Afinal, piar para quê, diante do estrondo da cascata? E soltar o ninho como, antes de aprender com os pais a furar a barreira d’água?</p>
<p>Além do desafio de flagrá-los agarrados nas rochas, meio escondidos pelas águas, o sinal mais notório de sua presença é o show permanente de vôos acrobáticos que encenam diante das cachoeiras. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/11/20/a-coreografia-dos-andorinhoes-nas-cachoeiras/">Lá vão quase dois anos que fiz no Salto Floriano, por obra e graça dos andorinhões, minha foto predileta</a>, em muitos anos de perseguição mais ou menos sistemática a imagens da natureza.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões-Blog_2439.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1229" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Andorinhões Blog_2439" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões-Blog_2439.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>Ela nunca apareceu aqui no blog, em parte por estava reservada a publicação em livro. Mas debitou meses atrás na revista Piauí. E aí vai ela de novo. Para quem se interessa por detalhes técnicos, ela resultou da mistura de acaso com premeditação.</p>
<p>Depois de ver de relance uma cena parecida diante do salto, montei a câmera sobre tripé no mirante do elevador, mantendo o ponto onde o primeiro alinhamento de andorinhões havia ocorrido. O obturador foi travado em um milésimo de segundo. E o diafragma, com teleobjetiva média, de 150 milímetros, fechado em <em>f 8,</em> para garantir alguma profundidade de foco e todos os automatismos desligados.</p>
<p>Pronto para o que desse e viesse, sem tirar o olho da frenética dança dos andorinhões, apertei o disparador até perder a conta, cada vez que o vôo dos pássaros dava a impressão de bisar a cena original. Ao fim de mais ou menos uma hora, estavam depositadas no cartão de memória da Canon 50D dezenas de fotos inaproveitáveis, ou mesmo vazias de pássaros. Mas havia quatro ou cinco publicáveis. E esta, até hoje minha favorita. O que não significa que não se continue daqui para a frente tentando fazer outra melhor. Simplesmente porque fotografá-los é irresistível.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0045.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1230" title="Mata Florida_0045" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0045.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
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		<title>Dois surucuás e uma história sem fim</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Aug 2010 16:05:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Aves]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[É época de acasalamento dos surucuás, os pássaros mais vistosos e discretos da temporada. Seu canto em surdina está em todo parte. E seu vulto imóvel também. Mas um casal resolveu fazer ninho bem diante da janela, na sede do parque.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0790-Edit.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1109" title="Macho_0790-Edit" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0790-Edit.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>O</strong>s bichos às vezes dão a impressão de saber que, aqui no Iguaçu, vivem num ambiente de regalias administrativas. Senão, como explicar que, com tanta mata a seu redor, aquele casal de surucuás veio se empoleirar logo nos galhos que ficam bem diante do janelão envidraçado da casa onde mora o diretor do parque nacional.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Fêmea_0756.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1110" title="Fêmea_0756" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Fêmea_0756.jpg" alt="" width="423" height="272" /></a></p>
<p>O surucuá é um pássaro ao mesmo tempo vistoso e discreto. Tem parentesco próximo com o quetzal da América Central, cuja plumagem embasbacou os colonizadores espanhóis com a exuberância iridescente do cocar de Montezuma. Hoje, o quetzal, em si, é ave rara. Mas virou nome de moeda na Guatemala.</p>
<p>O quetzal é um espanto. A palavra, por sinal, quer dizer em língua nativa qualquer coisa como “cauda grande e brilhante”. E lhe valeu, em grego, o cognome científico de <em>Pharomachrus</em>, que também se refere a seu “manto longo”. Mas, sem a fantasia de luxo carnavalesco do primo rico, o surucuá pertence a uma família tão colorida, a <em>Trogon</em>, que os nomes populares de suas espécies acabam geralmente em apostos como &#8220;do-peito-azul&#8221; ou &#8220;da-barriga-dourada&#8221;.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0769.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1111" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; margin-left: 2px; margin-right: 2px;" title="Macho_0769" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0769-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Ele chama tanta atenção que, dias atrás, a foto de um surucuá neste blog mereceu um comentário de leitor diferente – no caso, uma leitora que escreviaespecificamente para saber como se chama o animal mostrado numa ilustração. Sim, era ele. Ou seja, tecnicamente o mesmo pássaro que visitava o jardim da leitoria. Mas suas cores variam tanto, até por efeito da luz em suas penas prismáticas, ou mesmo entre macho e fêmea ou de uma região a outra, que nem sempre é fácil reconhecê-lo nos guias de aves &#8211; a menos que ele conste do retrato de família.</p>
<p>Sendo tão resplandescente, como o surucuá consegue ser discreto? Pelo comportamento. Ele se mexe nos galhos com a calma e a ponderação de quem sabe que tem estampa demais para não dar na vista, o que costuma ser um tormento na vida das criaturas mansas. O surucuá – que se alimenta de insetos e frutas, sempre pequenos – nasce desarmado até no bico, curto demais para seu porte e ainda por cima quase enterrado num tufo de penugem decorativa.</p>
<p>Seu canto, que alguns ornitólogos classificam como “melancólico”, soa como a repetição de uma nota só em flauta de bambu, com um compasso final em surdina. Dá para ouvi-lo com freqüencia ultimamente nas beiradas de trilhas do Iguaçu, porque o surucuá está em fase de acasalamento.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Surucuá_0780.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1112" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; margin-left: 2px; margin-right: 2px;" title="Surucuá_0780" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Surucuá_0780-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>No mato, ouvi-lo não é garantia de vê-lo. A não ser que um raio de sol revele de repente o brilho inconfundível de suas penas, sua figura imóvel se perde na folhagem – inclusive na folhagem rala da temporada, na floresta estacional semidecídua do parque. Mas, cantando no jardim do diretor, é outra história.</p>
<p>O casal passou horas, na tarde do domingo passado, chamando a máquina fotográfica de um lado para o outro. É típico do surucuá trocar de poleiro em vôos curtos e silenciosos. Na floresta, bastam-lhe poucos metros para sumir de vista, às vezes definitivamente. Mas num terreno onde as árvores nativas se espalham no chão limpo, como se estivessem num mostruário vivo da botânica local, a conversa é outra.</p>
<p>Aonde ia um surucuá, a teleobjetiva ia atrás. Acompanhada de flash, para revelar o indescritível colorido das penas. Tratando-se da perseguição a um casal, o equipamento fotográfico deu voltas no jardim até entender que os vôos do macho e da fêmea, sempre próximos mas separados, tinham um padrão intrigante, como se cumprissem um roteiro ao redor do jardim.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0807.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1113" title="Macho_0807" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0807.jpg" alt="" width="385" height="272" /></a></p>
<p>Até que o círculo se fechou num oco de árvore, onde se encaixava, como uma torre de barro, o ninho de cupins. É em lugares assim que os surucuás costumam se instalar como inquilinos, na época da procriação, sem com isso expulsar os proprietários. Havia um buraco redondo, recém cavado no cupim. E nele estava o eixo de todas aquelas voltas aparentemente a esmo através do jardim.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_08191.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1115" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; margin-left: 2px; margin-right: 2px;" title="Macho_0819" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_08191-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>O macho não teve dúvidas. Tapou imediatamente a entrada do ninho com o corpo, exibindo nesse momento todo o fulgor metálico de seu dorso. Aparentemente, para proteger a casa. Era, naquele momento, presa fácil. Expor-se a esse ponto só podia ser prova de coragem. Coragem que, pelo visto, a fêmea só faltou aplaudir como espectadora, admirando a cena de um ramo baixo, quase na primeira fila, diante do ninho, atenta ao desenrolar dos acontecimentos, com o olhar acentuado pelos cílios longos.</p>
<p>Foi grande a tentação de seguir a história da dupla até o fim, agora que ela tinha acrescentado, à coreagrafia estonteante dos vôos circulares, um enredo óbvio até para o mais ignorante dos observadores ou fotógrafos bissextos de aves. Mas era mais claro ainda o sinal de que estava na hora de deixá-los a sós, aos cuidados da janela do diretor.  Poranto, a história dos surucuás acaba aqui.</p>
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		<title>A última, ou penúltima, do macaco</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Jul 2010 21:39:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[A queda das folhas nas árvores mais altas abriu alas na floresta para o desfile dos bandos de macacos-pregos, com saltos espetaculares e arrastões irresistíveis, em que parecem dispostos a comer tudo o que encontram.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-Prego_81681.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1135" title="Macaco-Prego_8168" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-Prego_81681.jpg" alt="" width="410" height="274" /></a></p>
<p style="text-align: left;"><strong>O</strong>s muito entediados que me perdoem, mas esta será, sim, a segunda vez, e pode não ser a última, que os macacos-pregos me invadem o blog, com a mesma sem-cerimônia com que tomam conta da floresta no parque do Iguaçu,  como se aquilo tudo fosse deles. Ou será que é?</p>
<p>Agora, então, com a mata mais ou menos desfolhada, como regem na temporada os estatutos da floresta estacional semi-decídua, é irresistível acompanhar seus saltos temerários e acrobáticos de uma copa à outra, por vãos cada vez mais largos, à medida que as clareiras do inverno vão esburacando os caminhos antes contínuos e quase secretos de suas correrias pelo dossel.</p>
<p>Para quem já se cansou de ver macacos-pregos de mãos esticadas, pedindo sobrasde bala ou biscoitos aos visitantes do Jardim Botânico, a poucos passos dos engarrafamentos na Zona Sul no Rio de Janeiro, os bandos do Iguaçu dão um banho literal na indiferença arogante que os moradores da cidade costumam ter pelos animais silvestres que se adaptaram demais à vida urbana. Nem é preciso ir às cartilhas primatológicas, cujo bê-a-bá nos ensina a respeitá-los como criaturas longevas, capazes de aprender muita coisa uns com os outros – e conosco &#8211; ao longo de seus 40 anos de intensa vida social.</p>
<p>Na prática, a mata devassada pela queda parcial da folhagem oferece, nesta estação, a chance de se debruçar sobre a intimidade dos macacos-pregos, pelas janelas indiscretas da vegetação, como se espia num edifício o quarto para onde acaba de se mudar uma vizinha bonita. Dá para vê-los quando acordam, aproveitando para o banho de sol os galhos nus das árvores mais altas.</p>
<p>Nessas horas, seus gestos mais simples ganham a dimensão do palco vasto, sem fim a vista. Nessa moldura, o pequeno braço peludo que se estende para catar piolho no macaco ao lado parece, na contra-luz, dourada pela luz da manhã, um fragmento da Criação que saiu do teto da capela Sistina e foi parar em cima de uma árvore.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Aqui, cabem parênteses para os não iniciados em fotografia. O contra-luz, no caso, é um efeito especial obrigatório, quando se mira qualquer detalhe de uma floresta tropical através de uma lente fotográfica. Com luz frontal, a mata é uma mixórdia de sol e sombra, cheia de contrastes que ultrapassam de longe a tolerância dos sensores digitais, como outrora inundavam de claros-escuros invisíveis os melhores filmes convencionais. Mata se enxerga melhor em dia nublado, antes do sol ou depois dele. E, não podendo fugir de seu brilho excessivo, em contra-luz.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-Prego_8187.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1054" title="Macaco-Prego_8187" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-Prego_8187.jpg" alt="" width="410" height="274" /></a></p>
<p>Voltando aos macacos, o banho de sol coletivo, tendo por fundo o céu, já é programa para encher a primeira parte de qualquer manhã de bom tempo. Sobretudo, quando o dia acorda meio gelado. A mata, no frio, custa a pegar. E os macacos, lá em cima, já acumularam energia de sobra até para perpetuar a espécie.</p>
<p>De repente, a contemplação acaba e o bando zarpa, cada um por si, as todos no mesmo rumo, mas por trilhas príoprias, atendendo a um chamado que mal se distingue dos guinchos que regiam a pasmaceira do banho-de-sol matinal. Aí, literalmente, é melhor sair de baixo. O que se deflagra, nesse momento, é aquele tipo de ação que, numa praia carioca, em domingo de verão, os jornais jornais tachariam no dia seguinte de arrastão.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-prego_8014.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1055" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Macaco-prego_8014" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-prego_8014.jpg" alt="" width="311" height="409" /></a>No Iguaçu, pode ser inverno, e mato puro. Mas a sensação imediata de que um poder mais alto se alevantou, cheio de fome onívora, disposto a tudo por um café-da-manhã variado e farto. a turba sacode na pressa as gotas de orvalho das folhas, fazendo chover sob o céu azul. Derrubaao mesmo tempo todas as frutas de uma árvore, maduras ou verdes. Espanta os pássaros, que faziam tudo para ficar invisíveis em seus cantos escuros e, diante dos macacos, disparam aos gritos de “perigo à vista”, talvez deixando os ninhos para trás.</p>
<p>As borboletas e mariposas que se acreditavam invulneráveis pelo mimetismo são rapidamente recrutadas para ocupar sua vaga na cadeia alimentar da floresta, onde permanentemente tudo se devora. Com um certo pendor para as emoções mais fortes, pode-se admirar os dedos que arrancam as asas dos insetos com a destreza caracteristas das mãos feitas para descascar bananas, e as bocas glutonas que engolem os bichos vivos, sem os adereços alados que caem ao chão com volteios de pétalas iridescentes. É feio, mas é bonito.</p>
<p>Os macacos comem tudo que poden diferir. Despem troncos para devorar larvas. Desfolham bromélias como se fossem alcachofra num restaurante francês. Investigam todos os ocos de árvores à cata de alimentos indecifráveis. Quebram galhos inteiros para desalojar sabe-se lá o quê. Num lugar onde a maioria dos bichos trata de parecer discreta, seja por ser presa ou por ser predadora, os macacos se dão ao luxo de ser indiscretos e ruidosos.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-Prego_81291.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1064" title="Macaco-Prego_8129" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-Prego_81291.jpg" alt="" width="410" height="274" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p>Têm uma auto-confiança ostentatória. Saltam entre árvores como trapezistas sem outra rede além do próprio rabo. Arreganham caninos pontudos de feras em miniatura para os xeretas lá embaixo, para deixar claro que a posse do território, naquele caso, não é questão de tamanho, mas de domínio do terreno. E, por onde passam, deixam a impressão de que os grandes carnívoros podem até levar a fama, mas não há maior ferocidade que a dos onívoros de qualquer porte.</p>
<p>Em suma, lembram de onde  foi que nós viemos.</p>
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		<title>A floresta é mais estacional no outono</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/06/25/a-floresta-estacional-se-revela-no-outono/</link>
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		<pubDate>Fri, 25 Jun 2010 20:05:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Floresta]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Outono]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA["Floresta Estacional Semidecídua" pode dizer tudo aos botânicos, mas diz pouco aos leigos, até eles terem a chance de acompanhar, passo a passo, suas mudanças diárias, quando o frio e as estiagem chegam a Iguaçu.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Outono_0308.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-996" title="Outono_0308" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Outono_0308.jpg" alt="" width="416" height="272" /></a></p>
<p><strong>O</strong>s ambientalistas que me perdoem, mas a língua que eles usam achando ser a portuguesa tem uma certa dívida a saldar com a natureza brasileira. Atravancou-lhe o caminho com palavras difíceis de engolir, ou mesmo de proferir, como bioma. Para os iniciados, bioma pode ser um termo indispensável para designar uma “grande comunidade estável e desenvolvida, adaptada às condições ecológicas de uma certa região, e geralmente caracterizada por um tipo principal de vegetação” etc.</p>
<p>Mas, para quem ainda está tateando o assunto ou, melhor ainda, dando os primeiros passos em direção à natureza, a palavra soa como nome de uma vaga doença desconhecida, talvez um novo sintoma da hipocondria cósmica que os muito anti-ecológicos instistem em diagnosticar nos ecologistas. E, vamos e venhamos: “bioma mata atlântica” é quase um convite a não se aproximar da floresta, um espantalho verbal afastando os intrusos.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Tres-Mosqueteros_0358.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-997" title="Tres Mosqueteros_0358" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Tres-Mosqueteros_0358.jpg" alt="" width="409" height="272" /></a></p>
<p>Essa conversa fiada veio por conta do outono que, sem obediência cega ao calendário, vai acabando aos poucos no parque do Iguaçu, retardado pela temporada interminável de chuvas que, este ano, ainda não deu tempo sequer para o fundo das trilhas secar – e menos ainda secar a floresta à sua volta. Talvez por isso mesmo, a estação teve a chance de se revelar aos poucos. O que dá ao forasteiro a chance de perceber aquilo que, passando por sua frente em velocidade de cruzeiro, talvez continuasse desapercebido.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Araçari_7530.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-998" title="Araçari_7530" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Araçari_7530.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Por exemplo, que Iguaçu tem mesmo outono. Não é como aqueles que amarelam de um dia para o outro montanhas inteiras no hemisfério norte. Ou mesmo os que avermelham de repente os vales aos pés da Patagônia andina. No Iguaçu ele vem em mancha esparsas. Uma folhagem amarela aqui, outra avermelha adiante.Folhas caem aos montes ainda verdes, ao primeiro pé de vento. E, no fim, juntando as coisas, mais cedo ou mais tarde até os turistas aprendem, na prática, o que quer dizer ao vivo e em cores a tal da floresta estacional semidecídua.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Fungos_7150.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-999" title="Fungos_7150" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Fungos_7150.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Sim, ela muda com a estação. E, sim, também perde folhas. O chão da mata com, elas fica diferente. E as copas mais altas, quando se desfolham, abrem embaixo clareiras provisórias, onde as flores e as lianas parecem estar esperando para pegar sol exatamente na parte do ano onde ele sobe mais tarde e cai mais cedo. Entre o fim da manhã e o começo da noite, a floresta fica ensolarada. O bosque rasteiro, que até outro dia passava meio desapercebido como uma massa mais ou menos informe de vegetação opaca, ganha destaque e perspectiva.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Jacaré_0448.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1000" title="Jacaré_0448" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Jacaré_0448.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>No entardecer, o sol bate transversalmente num dossel que deixou de ser continuo, para se encher de falhas providenciais, que abrem alas para a luz chegar a troncos e galhos que passaram metade do ano na sombra impenetrável das árvores dominantes. Aí, o pássaro que outro dia mesmo era uma voz sem forma ou uma silhueta escura se cobre de cores vivas que nunca se mostravam antes. Aparentemente, há mais bichos. Na verdade,são menos bichos, mas incomparavelmente mais e</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Gosto de borboleta não se discute</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/gosto-de-borboleta-nao-se-discute/</link>
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		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 15:05:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Floresta]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[O que fazer com uma fotografia de borboletas, moscas coloridas e berousos variados disputando o privilégio de pousar num excremento? Os biólogos americanos Adrian Forsyth e Kenneth Miyata deram há tempos a resposta em Tropical Nature.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Cocô_7024.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-955" title="Cocô_7024" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Cocô_7024.jpg" alt="" width="449" height="302" /></a></p>
<p><strong>P</strong>elo menos para os entomólogos, há retratos de família sobrando nesta foto. Mas, para as moscas, besouros, borboletas e outros bichos que posaram no domingo passado para a câmera, o centro das atenções está mais embaixo. É aquilo que juntou no chão, diante da represa que um dia alimentou dentro do parque nacional a primeira hidrelétrica de Foz do Iguaçu, tantas espécies diferentes de criaturas aladas, que umas chegavam a aterrissar sobre as outras.</p>
<p>A causa de tamanho combate aéreo não poderia nos parecer mais inglória. Era ela. A própria. Fresca. Produto talvez da madrugada anterior. Obra de um carnívoro, sem dúvida, pela fartura de pelos cinzentos que entrara em sua massa. Provavelmente de um felino de médio ou de grande porte. Onça? Os entendidos na matéria – fecal, diga-se de uma vez por todas – acharam que só podia ser coisa de puma.</p>
<p>Há nela borboletas difíceis de ver em outras circunstâncias. Como a <em>Achlyodes busirus rioja</em>, que <strong>Misiones</strong>, um guia argentino dos lepdópteros da região, considera “difícil de se descrever”, pela complexidade de suas asas aveludadas. Ela “voa dando pquenos saltos e gosta de locais sombrios”. Para quem fizer quiser questão de vê-la ao vivo, aqui vai a dica dos autores: “Encontra-se alimentando-se em lugares onde outros animais deixaram seus excrementos”.</p>
<p>Mas a fotografia entrou aqui como puro pretexto. Não é de hoje que este blog andava atrás de uma ilustração convincente para dois ous três parágrafos sobre essa versão silvestre da mesa de bufê em jantar beneficente, colhidos num livro brilhante, o <strong>Tropical Nature</strong> – filho único, por sinal, de uma parceria entre biólogos que se dissolveu para sempre quando a obra ainda estava no prelo. Um dos autores, Kenneth Miyata, morreu afogado, pescando truta no Yellowstone. O outro, Adrian Forsyth, dedicou-lhe o livro como um tributo à vocação de Miyata para viver “a experiência biológica em seus extremos”.</p>
<p>Eles formavam em seus textos uma linha de passe tão certeira que só por uma pista oferecida por Forsyth na introdução do livro – ele pesquisou a selva tropical na Costa Rica, Miyata no Equador – dá para farejar os vagos sinais de autoria deixados ao longo dos 17 capítulos. Publicado nos Estados Unidos em 1984 e, como acontece freqüentemente com os melhores títulos da pesquisa biológica, até hoje sem tradução para o português, <strong>Tropical Nature </strong>é uma ferramenta indispensável para abrir os olhos do brasileiro a tudo o que ele e geral não enxerga nas florestas nativas.</p>
<p>O que se vê nela até hoje é a miragem de que, embaixo de tamanha exuberância. só pode estar uma terra excepcionalmente fértil, esperando pelo machado e o fogo para enriquecer os pioneiros. Foi assim que os Europeus entraram pela primeira vez nos trópicos. E que a fronteira agrícola do Brasil continua avançando até hoje pela Amazônia adentro, atrás de uma ilusão criada pelos fungos que, potencializados pelo calor e pela umidade, reciclam sem parar a vegetação que jamais repousa.</p>
<p>Os detritos de uma floresta tropical não se acumulam no solo, porque são rapidamente digeridos por novas formas de vida. Logo, tirada a floresta, a fertilidade acaba de uma safra a outra, como descobriram os cafeicultores do Vale do Paraíba no século XIX. Forsyth e Miyata oferecem, logo nas primeiras páginas do livro, uma aula prática e gratuita de como a mata úmida devolve seus mortos ao mundo dos vivos.</p>
<p>Basta tirar o melhor proveito educacional da rica dieta de feijão, gordura e carboidratos da cozinha regional. “O que ocorre com os excrementos no chão da floresta tropical é um dos vastos espetáculos da natureza em pequena escala, o da competição por recursos escassos levada aos últimos limites – uma batalha e um salve-se quem puder cheios de colorido e método.” Nada mais simples do que observá-lo, garantem os autores.</p>
<p>É só, “quando a natureza o chamar”, não ir embora o mais depressa possível, como quem deixa o local de um crime. Mas se sentar “calmamente ali por perto. Os primeiros competidores chegarão tão logo você se acomode”. São os pequenos besouros Scarabaeidae e as moscas de brilho metálico da família Otitidae, as populares varejeiras.</p>
<p>“As moscas imediatamente se estabelecem lá em cima para o acasalamento”, enquanto os besouros simplesmente “mergulham fundo e começam a comer”. No caso, as fêmeas na certa estarão “carregadas de ovos maduros”, prontos para serem depositados ali, ao mesmo tempo em que elas “gostosamente se fartam”. Em seguida chegam os besouros de maior porte, ou populares rola-bosta. Eles demoram um pouco mais para dar o ar de sua graça, porque têm pior olfato que seus primos menores e custam a acertar o alvo.</p>
<p>Em compensação, realizam manobras infinitamente mais complicadas do que eles, modelando bolas perfeitamente esféricas com as patas traseiras e tratando de levar para lugar seguro seu butim. Em seu meio, há fêmeas que escolhem o parceiro pelo tamanho da “esfera nupcial rolante”. Logo, convém caprichar com as patas na massa. Para dizer o “sim”, elas se equilibram em cima da bola, e o macho se encarrega de levar a noiva e a incubadora até o ninho, também laboriosamente escavado por ele a uns bons metros de distância da arena onde o conquistou.</p>
<p>Até 50 espécies diferentes de Scarabaeidae podem entrar em cena, enquanto dura o espetáculo – vários dias, se o excremento é de carnívoro, ou menos de duas horas, se for humano. E eles são só um dos inumeráveis tipos de insetos que participam do elenco. “Nós gastamos muitas horas estudando essa luta e ponderando suas lições”, contam Miyata e Forsyth. “É uma revelação ver essa matéria tão desprezada ser objeto de tanto desejo entre tantas criaturas tão lindas. Mas nossas tentativas de interessar amigos e alunos nesses eventos não têm sido completamente exitosas”.</p>
<p>Talvez por lhes faltarem por lá as irresistíveis borboletas do Iguaçu, eles acabaram concluindo que “a fetilidade crua não é bela”.</p>
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		<title>Brabeza de onça é ruindade de caçador</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/brabeza-de-onca-e-maldade-de-cacador/</link>
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		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 14:55:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Duas onças-pintadas posaram para as câmeras na noite de segunda-feira, marcando no Iguaçu a volta dos irmãos que até um mes atrás pareciam estar em toda parte ao mesmo tempo. A boa notícia é que eles cresceram. A má, que ainda há caçadas no parque. De onça, inclusive.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_743.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-945" title="Onça PNI_743" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_743.jpg" alt="" width="453" height="302" /></a></p>
<p><strong>Q</strong>uando o telefone tocou no quarto às oito da noite, antes mesmo de atender não havia dúvida: “Só pode ser onça”. Celular, aqui no parque, não é instrumento de conversa fiada. E, com as noites frias que junho trouxe, os dias acabam, para todos os efeitos sociais, logo depois que o sol se esconde. Mas deu um certo trabalho confirmar todo esse monte de suposições automáticas, porque ele parou de chamar no quinto toque, antes que desse para desencavar o aparelho no fundo da mochila.</p>
<p>“É onça mesmo, quem ligou estava com pressa”, continuou a cabeça, falando sozinha. No número que ficara gravado na memória, quem atendeu foi o guarda do portão. Felizmente, bem informado. “Deve ter sido o Apolônio”, ele disse. E explicou que duas onças tinham aparecido – depois de longa e sentida ausência – no acostamento da BR-469, “entre a casa do diretor e a do capitão Capelli”. Capelli comanda o destacamento da Polícia Florestal instalado dentro do parque.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_7406.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-946" title="Onça PNI_7406" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_7406.jpg" alt="" width="453" height="302" /></a></p>
<p>Era logo ali. A meros 500 metros de distância. Mas não deu para controlar o reflexo de ligar primeiro para o biólogo Apolônio Rodrigues, diretor de Conservação e Manejo do Iguaçu, além de mateiro tarimbado. Ele atendeu com uma voz quase inaudível: “Liguei sim, mas não deu para esperar. Elas estão bem aqui, na minha frente. Venha devagar, para não assustá-las”.</p>
<p>É claro que o jeito foi sair correndo, catando às pressas o material fotográfico sem examiná-lo, levando  inclusive um flash com pilhas exauridas. E o tripé, que esperava de pé ao lado da porta, acabou ficando para trás, esquecido no escuro. Em compensação, minutos depois já se viam os faróis do carro do Apolônio, apontados para a borda da floresta, no acostamento.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_7430.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-947" title="Onça PNI_7430" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_7430.jpg" alt="" width="453" height="302" /></a></p>
<p>Ao lado, sobre a relva baixa, outro carro iluminava a cena. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/">Sem falar que a bióloga Marina Xavier da Silva, do Projeto Carnívoros do Iguaçu</a>, manejava um holofote portátil, alimentado pelo acendedor de cigarros de um dos automóveis. Todos estavam naquele momento exatamente a 11 metros das onças, medidos pelo foco manual da teleobjetiva. As figuras humanas foram se tornando reconhecíveis aos poucos, na sombra. De pé no chão orvalhado, sob um frio de rachar, formavam um grupo calado, ou que no máximo murmurava entre si palavras indispensáveis.</p>
<p>E os bichos lá, à vontade, quase indiferentes aos espectadores, como se soubessem que estavam diante de especialistas. Uma das onças tinha no pescoço o colar do rádio-transmissor. Seria o Pança, o filhote capturado semanas atrás para monitoramento? “Não”, sussurrou Marina. “É um macho argentino. E a outra parece uma fêmea daqui mesmo. Com sorte, vamos pegar um acasalamento”.</p>
<p>Nada disso. Na manhã seguinte, o exame cuidadoso das manchas revelou que era o Pança mesmo, de volta à parte mais habitada do parque, e aparentemente à companhia do irmão. Pena porque a verdade científica desmancharia a promessa de assistir em pré-estréia uma grande co-produção transnacional. O Iguaçu, naquele ponto, depois de se espalhar por 270 cataratas num raio de quase três quilômetros, acalma-se num leito fundo, sinuoso e estreito, que corre mansamente rumo à foz, no rio Paraná. A mata dos parques nacionais cobre suas margens de um lado e do outro. E, ao contrário dos políticos e diplomatas sulamericanos, seus animais sabem que, em parques nacionais, essa história de fronteira internacional é besteira.</p>
<p>A dupla de onça deu um show de educação e fineza por mais 20 minutos. Elas entravam e saíam da mata como se tivessem – e tinham – pleno domínio daquele palco sem fundo. Encaravam atentamente a platéia, sem agressividade ou arreganho de dentes, como se estivessem estudando o comportamento humano. Mastigavam o capim alto que costeia o limite da floresta com o acostamento, sem que alguém ali soubesse explicar o que isso queria dizer.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_74651.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-949" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Onça PNI_7465" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_74651.jpg" alt="" width="362" height="242" /></a>Pança tinha uma cicatriz aberta no peito, do qual pendia um farrapo de couro &#8211; ferida interpretada como um sinal de que suas brincadeiras com o irmão estão aos poucos superando a fase juvenil. Ambos pareciam crescidos e encorpados, depois desse mes de sumiço. Também por isso,não foram reconhecidos à primeira vista.</p>
<p>Mas esses detalhes ficaram para se esclarecerem depois. O que deu para entender na hora, mais uma vez, é como enfiaram em nossas cabeças mentiras difamatórias sobre as onças os livros infantis de Monteiro Lobato ou os relatos de caçadas feitos por caçadores, todos interessados em espelhar na ferocidade dos animais sua própria valentia.</p>
<p>Tratava-se, nesse caso, de feras mitológicas. Até o Inferno de Dante era rondado por uma “<em>onca</em> horrível&#8221;, embora a Itália do Renascimento ainda nem tivesse visto uma legítima onça do Novo Mundo. Eram impressões deixadas em geral por animais encurralados e enlouquecidos pelo cerco histérico das matilhas de caça. Nesses casos, como ensinou Camões na história de Inês de Castro, provavelmente &#8220;toda a feridade” estava em “peitos humanos”. Porque, vistas assim, sem exibicionismos de parte a parte, as onças até que pareciam amáveis, se não inofensivas.</p>
<p>Pança, de coleira, que em si já lhe dava um certo ar de animal doméstico, acabou se deixando apanhar pela máquina fotográfica placidamente sentado no meio da folhagem, fitando o público, com a língua de fora. Tinha, naquele momento, a mesma cara da onça estilizada e francamente inverossímil, fera de histórias em quadrinhos ou de desenhos animados,  que decora a lataria de um dos ônibus de turismo no Parque Nacional do Iguaçu. Por incrível que parece, aquela onça do ônibus existe, sim. Estava na beira da estrada ontem à noite, para desmentir tudo o que se diz e se faz contra sua espécie.</p>
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		<title>Maio se despede com ótimas notícias</title>
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		<pubDate>Sat, 29 May 2010 02:11:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Está acabando um mês de maio espetacular no Parque Nacional do Iguaçu. O  rio estava cheio, o clima ameno, o céu mais colorido ao entardecer e a mata cheia de frutas tirou os animais da sombra. É o tipo da coisa para deixar saudades
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Veado_6689.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-919" title="Veado_6689" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Veado_6689.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p><strong>O</strong> único defeito de maio é que, como todo mês, ele um dia acaba. Maio de 2010 foi no Parque Nacional do Iguaçu uma temporada para ninguém botar defeito. Fora a convocação de Pança para prestar serviços à conservação das onças-pintadas, com um rádio-colar no pescoço e a missão de mostrar a quantas anda sua espécie, o rio encheu acima de qualquer expectativa, a temperatura escaldante do verão caiu de repente abaixo dos 15 graus centígrados, e com elas as folhas amarelas do outono, como convém a esta floresta estacional semidecídua, a típica mata tropical do planal paranaense.</p>
<p>No ar mais frio, a névoa levantada pelas quedas custava a se dissipar. Amanhecia ancorada na copa das árvores, em forma de névoa. Caía do céu azul como pingos de chuva. E esticava os últimos raios do sol nos fins de tarde com poentes espetaculares. O rio Iguaçu podia estar barrento ou claro que, sob essa luz filtrada na poeira d’água, pouco antes de escurecer as cataratas se avermelhavam.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Cotia_6757.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-920" title="Cotia_6757" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Cotia_6757.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>O chão, de quebra, encheu-se de frutas silvestres. Caminhar pelas trilhas sabendo que todas elas têm apelido, nome científico, sabores e cheiros, todos desconhecidos, virou o passatempo predileto de quem se dispõe a aprender, pelo menos, até que ponto chega sua vasta ignorância. Dava inveja dos bichos. Eles sim, animais racionais, detentores de informações indispensáveis para tirar o melhor proveito possível da estação.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Quati_6546.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-921" title="Quati_6546" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Quati_6546.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Havia mais pássaros nas árvores. As cotias – que o inglês Gerry Durrell considerava uma das criaturas mais estressadas do planeta, trocaram pela gula uma parte da timidez e tomaram decisões temerárias, como sair em campo aberto por conta da fartura de comida espalhada pela relva dos acostamentos.</p>
<p>Os quatis – que, a fauna nativa nos perdoe, mas só perdem para os mosquitos e os turistas, quando vêm em nuvens, o título de maiores chatos do Iguaçu – passaram a achar tanta novidade comestível na margem da BR-469 voltada para o mato que deixaram de atravessá-la, para pedir restos de sorvete, refrigerante e sanduíches aos outros fregueses habituais das lanchonetes, na trilha das Cataratas.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Iguaçu_67761.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-923" style="margin: 5px;" title="Iguaçu_6776" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Iguaçu_67761.jpg" alt="" width="312" height="454" /></a>De repente, famílias inteiras de quatis – e elas são numerosas, porque a oferta artificial de alimentos está ajudando a produzir ninhadas cada vez maiores – fuçavam o chão com a atenção e o discernimento de porcos do Piemonte em busca de trufas brancas. O quê? Só perguntando a eles. Ninguém, no parque, sabia dizer o que eles desencavam e devoram com tamanha sofreguidão. Mas eles, sem dúvida, sabem.</p>
<p>Alguma coisa na terra orvalhada dia e noite pela bruma das cachoeiras devia ser irresistível, porque excepcionalmente eles não queriam saber de mais nada. Por um fim de semana, pelo menos, no outono de 2010, foram os turistas que correram atrás deles. E olha que turista é um bicho distraído. Tanto que, no domingo, 23 de maio, dia de feriadão na Argentina, com mais de seis mil visitantes passando pela bilheteria do parque, quase ninguém levantou o dedo para apontar o veado mateiro que saiu da floresta às quatro e pouco da tarde, para provar a vegetação rasteira do barranco que costeia a BR-469.</p>
<p>E lá ficou ele, tranqüilamente, diante das escadas que levam ao elevador do salto Floriano, o lugar mais freqüentado em todo o circuito das Cataratas. Como se não passasse por ele naquele instante, do outro lado da pista, uma procissão contínua de visitantes. Se, além de ver as quedas, eles quisessem saber para quê serve mesmo um parque nacional como o do Iguaçu, a resposta esteve ali, por mais de dez minutos, para quem quisesse ver. Um parque nacional é para os seres nativos se sentirem em casa.</p>
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		<title>O macaco-prego que roubou a cena</title>
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		<pubDate>Tue, 04 May 2010 00:53:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[
Assim que saiu o último ônibus, o macaco-prego velho de guerra atravessou o asfalto da BR-469. Podia ser pura coincidência. Mas ele deu a impressão de saber que estava encerrado o horário de visitação no parque nacional do Iguaçu. E o território voltava ser de bichos como ele.
Fez bem. Não faz tanto tempo assim que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Cinco_6431.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-836" title="Cinco_6431" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Cinco_6431.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p><strong>A</strong>ssim que saiu o último ônibus, o macaco-prego velho de guerra atravessou o asfalto da BR-469. Podia ser pura coincidência. Mas ele deu a impressão de saber que estava encerrado o horário de visitação no parque nacional do Iguaçu. E o território voltava ser de bichos como ele.</p>
<p>Fez bem. Não faz tanto tempo assim que um macaco-prego como ele foi atropelado naquela estrada federal, dentro da unidade de conservação. E ali estava um inequívoco exemplar muito vivido de <em>Cebus nigrittus (Nota: esse nigrittus </em>é legítimo<em> copyright </em>Fábio Olmos, eu tinha escrito Cebus <em>apella</em> e ele corrigiu). Tinha uma moldura de pelos brancos ao redor da cara. E manchas de despigmentação entre as orelhas e os olhos. Sem contar as cicatrizes da dura sobrevivência na floresta.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Um_64261.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-837" style="margin: 5px;" title="Um_6426" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Um_64261.jpg" alt="" width="281" height="409" /></a></p>
<p>Visto assim, correndo no chão, notava-se claramente a falta de um bom pedaço de sua cauda. A parte essencial, diga-se de passagem. Aquela ponta preensil que, na acrobática rotina de quem passa a vida pulando entre árvores, funciona como a corda de segurança dos trapezistas.</p>
<p>Ele saltava sem rede em seu amplo circo florestal. E ainda por cima tinha uma falha no pé esquerdo, com todo o jeito de ser um naco de carne e unha arrancado a dentada. Provavelmente, outro souvenir dos acertos de conta entre seu bando. Os macacos-pregos formam grupos grandes, de até 50 indivíduos. E, embora não tenham de encarar a despótica instabilidade política dos babuínos, que derrubam pelo menos um chefe por ano, não chegam impunemente a 40 anos de negociações cruciais sobre quem manda e quem obedece em seus bandos.</p>
<p>Trata-se de um animal de porte modesto e bastante vulgar, que se encontra praticamente em  toda a América do Sul, da Venezuela à Argentina, sem excluir redutos urbanos, como o arboreto do Jardim Botânico na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde não falta público para alimentá-lo com biscoitos e pipocas. Tudo isso implica uma invejável capacidade de adaptação. Capacidade de adaptação dos macacos-pregos, evidentemente.</p>
<p>Eles não ficam muito aquém dos chimpanzés na vocação para embasbacar cientistas em laboratórios com sua capacidade de aprender coisas certamente inúteis para eles, mas supostamente indispensáveis à ciência, porque desafiam a crença de que os animais, fora os humanos, fazem tudo por instinto. Comprar comida com fichas, por exemplo, não cabe na bagagem hereditária de um bicho. Mas é coisa que o macaco-prego se já dispôs a fazer em  benefício das teses de um treinador.</p>
<p>Além disso, eles têm linguagem e um vocabulário compatível com suas obrigações sociais. Seu guincho de “olha o gavião”, por exemplo, é supostamente inconfundível. Quando moram muito perto das pessoas ou as pessoas moram muito perto das florestas, podem invadir casas para praticar pequenos furtos. E, mesmo em seu ambiental natural, recorrem a instrumentos como pedras para quebrar alimentos de casca dura ou gravetos para pescar cupins dentro do ninho.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Dois_64091.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-838" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 2px; margin-right: 2px;" title="Dois_6409" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Dois_64091.jpg" alt="" width="281" height="409" /></a></p>
<p>O macaco-prego come talos de bromélias como se despetalasse uma alcachofra em restaurante. E a maneira como arranca uma a uma asas de borboletas e mariposas antes de engoli-las vivas, com gestos de quem descasca uma banana freneticamente relutante em entrar para a cadeia alimentar da mata atlântica, seria um modelo de etiqueta, se não fosse um espetáculo desagradável de selvageria.</p>
<p>Toda essa peroração acima é para dizer que macaco-prego não é bicho que se vá procurar sem mais nem menos numa floresta como a do Iguaçu, onde ultimamente até as onças-pintadas estão dando sopa. E aquele, mutilado e encanecido, estava longe de ser um candidato sério a qualquer concurso de fotogenia nos trópicos.</p>
<p>Nele, interessante mesmo era o comportamento. Os macacos-pregos do Iguaçu guardam uma solene distância dos turistas. Ao contrário dos quatis, que o excesso de intimidade com seres humanos reduziu à mendicância, eles sabem qual é o seu lugar e o lugar dos turistas. Eles raramente descem das árvores. Catam sem parar frutas e outros ingredientes silvestres de sua dieta, enquanto os quatis se enfiam até em latas de lixo para lamber casquinhas de sorvete ou latas vazias de refrigerantes.</p>
<p>Como se fugissem deliberadamente da modalidade turística de rebaixamento comportamental, os macacos-pregos não cedem um palmo em seu padrão de vida. Transitam de prerefência pelos extratos mais altos da floresta. E, nas trilhas menos transitadas, recebem como instrusos os eventuais visitantes, quebrando galhos com as mãos para dar a entender que são fortes, sim, e estão dispostos a tudo para enxotar invasores.</p>
<p>Por essas e outras, aquele velho macaco-prego cotó que cruzava sozinho o asfalto acabou com uma teleobjetiva grudada em seu rastro. O dia ia mesmo acabando. Com ele, os assuntos habituais das máquinas fotográficas. O sol batia de viés sobre a floresta, em franca retirada. E vinha coado pela névoa que subia das cataratas, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/04/26/chuva-pouca-no-iguacu-e-bobagem/">com o rio Iguaçu quase transbordando</a>, para cair em gotas do céu limpo, como uma chuva estritamente local.</p>
<p><a style="text-decoration: none;" href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Quatro_6429.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-839" title="Quatro_6429" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Quatro_6429.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Tudo, portanto, mandava botar a câmera na mochila e a viola no saco. Mas o macaco-prego corria direto para um gerivá carregado de frutas. E isso acabou se tornando irresistível. Por que só ele, no bando, viu a palmeira do outro lado da estrada é pergunta para se fazer a primatólogos. O que interessa, aqui, é registrar o desempenho admirável do <em>Cebus nigrittus,</em> atacando a penca dourada do gerivá ao mesmo tempo com a voracidade de criança em loja de doces, a ponderação de um chefe de cozinha escolhendo na feira os produtos do jantar e o estoicismo de um curtido guerreiro, que não se impressiona com zumbidos de abelhas e marimbondos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Seis_6427.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-840" title="Seis_6427" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Seis_6427.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Em outras palavras, este artigo inteiro é pura conversa fiada, a pretexto de publicar estas fotografias. E, como havia mais fotografias do macaco-prego do que as cinco que  couberam neste texto, o autor avisa que,mais dia, menos dia, ele  pode recair na tentação.</p>
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