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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Floresta</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Conservação também se faz com livro</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Jul 2010 00:35:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Floresta]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Por que custam tanto a sair em português os livros em que os naturalistas conseguem tornar claras e irresistíveis em outras línguas as obrigações que todos nós - inclusive as motosserras - com a conservação da natureza?  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Pinheiro-Branco-BH_0611.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1076" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Pinheiro Branco BH_0611" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Pinheiro-Branco-BH_0611.jpg" alt="" width="263" height="363" /></a>P</strong>arem a motosserras. Vem aí o mapa-mundi das florestas, lembrando que as árvores mais altas da terra estão espetadas na costa oeste dos Estados Unidos e no Sudeste Asiático. As da Amazônia mal batem no peito desses gigantes.</div>
<div>Não é bem esse o planeta que o governo brasileiro desenha, quando descreve para a opinião pública o estado do planeta. Nos outros países nem existem mais árvores, não é mesmo? Pena que o mapa seja o tipo da informação que passa de fininho pelo noticiário, enterra-se nos anais acadêmicos e lá desaparece. Aí, ligam-se as motosserras.</div>
<div>O que mais poderia fazer com essa informação quem vive num tempo em que a ciência empurra sem parar a natureza para além do senso-comum? Onde havia monstros, prodígios e portentos demarcando os limites do mundo conhecido na cartografia medieval, agora há biomas, efeitos antrópicos e aquecimento global disputando espaço com velhas lendas.</div>
<div>E não será só com notícia ligeira que se pisa em terra incógnita. Falta munição em português para desbravá-la, porque os livros em que os naturalistas aprenderam a traduzir para leigos os segredos da realidade saem, geralmente, em inglês. E em ingl6es permanecem. Só em inglês dá para ler de enfiada e com prazer a história da complicação em que se meteu o biólogo Bernd Heinrich, comprando no estado do Maine em 1977, para cultivar uma floresta, terras que fazendas antigas e madeireiras recentes haviam deixado no osso.</div>
<div>A região inaugurou sua primeira serraria em 1626. E passou dois séculos a serviço do apetite internacional pelo grande pinheiro branco – ou melhor, o Pinus strobus, que cobria uma vasta extensão da costa leste norte-americana, como uma fonte inexaurível de madeira macia, leve e resistente, ideal para mastros no apogeu da navegação a vela. Por conta do pinheiro branco, a população do porto do Maine saltou de 277 almas penadas em 1830 para 14.408 em 1860. Tratou-se, sem tirar nem por, de uma corrida extrativista movida pela economia global.</div>
<div>A árvore virou símbolo do Maine. Ilustrava o selo do estado em 1820. Suas flores se tornaram oficiais em 1895. E em 1945 o Maine adotou a alcunha de Estado do Pinheiro. Mais ou menos como aconteceu com a araucária no Paraná. Mas com resultados menos lúgubres, porque foi ele que motivou no começo do século XX a campanha para multiplcação de parques nacionais e reservas nos Estados Unidos, no governo Theodore Roosevelt.</div>
<div>Os ambientalistas levariam muitas décadas para descobrir que o grande pinheiro branco prospera em terra arrasada. Quando a agricultura e a pecuária decaíram, ele voltou a ocupar os campos abandonados com a voracidade de floresta homogênea. E foi isso que Heinrich encontrou há pouco mais de 30 anos. Restaurar o bosque original só com salário de professor era, de cara, um projeto falido. Ele decidiu reflorestar a propriedade usando o dinheiro e a técnica da exploração comercial de madeira.</div>
<div>Tiradas num intervalo de três décadas, fotos aéreas do terreno comprovam que ele acertou a mão. U que essa mão teve cabeça para fazer em cada metro quadrado de suas colinas um considerável investimento de pesquisa. Como resultado de todo esse trabalho ele colheu, fora o prazer de morar numa clareira onde hoje alces e ursos vêm comer maçãs, assuntos de sobra para livros cotados pela crítica como obras-primas da divulgação científica, com várias temporadas na lista dos mais vendidos. No caso, estamos falando de The Trees in My Forest, lançado em 1997.</div>
<div>Henrich é espanosamente prolífico para um autor tão pouco sedentário. Tarimbado corredor de maratonas, ele costuma zanzar por suas matas a qualquer hora do dia e da noite, como se sentisse em casa. Tem uma curiosidade insaciável por tudo o que acontece lá dentro. Controla a cada estação a chegada e a partida dos pássaros, anfíbios, insetos e florações, dedicando-se a meticulosas investigações sobre os mecanismos que regulam o cio das plantas com a ronda dos bichos capazes de polinizá-las. Sobe em pinheiros com lápis e papel na mão, para rascunhar, lá do último galho, vistas panorâmicas que acompanham a evolução da paisagem. Aponta, pessoalmente, as árvores condenadas às serrarias,  para que outras retomem o território que originalmente lhes cabia.</div>
<div>Enfim, cuida de todos os detalhes. E, com isso, sua floresta tornou-se um modelo vivo de ciência aplicada à conservação. Ele costuma usá-la em aulas de campo. E suas aulas soam convicentes, porque anos atrás um ex-aluno desenganado pediu-lhe para deixar seu corpo apodrecer ao relento na mata (o que Heinrich recusou), acreditando que assim chegaria diretamente à unica vida após a morte que se pode conferir molécula por molécula.</div>
<div>Não há assunto obscuro e abstrato que Heirich não torne claro e concreto em duas ou três páginas. A conversa fiada sobre seqüestro de carbono, por exemplo. Ela paira no ar há tanto tempo que parece incapaz de pegar na terra. Heinrich a materializa num galho que cresce diante de sua janela, absorvendo por segundo em cada célula 4,6 milhões de moléculas de dióxido de carbono, possivelmente expelidos por “um tronco em decomposição na Amazônia, um carro nas avenidas de Los Angeles, uma usina a carvão no Utah, um hornbill na Indonésia e um babuíno na Tanzânia”.</div>
<div>Portanto, “cada célula de madeira em cada árvore” de sua propriedade é um permanente “dá-e-toma com o resto do mundo”. Dito assim, parece simples, não? Pois é o mesmo cálculo que o tal mapa-mundi da massa florestal pretende converter à escala planetária. Para que ninguém mais possa dizer que não tem nada a ver com isso.</div>
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		<title>A floresta é mais estacional no outono</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Jun 2010 20:05:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Floresta]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Outono]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA["Floresta Estacional Semidecídua" pode dizer tudo aos botânicos, mas diz pouco aos leigos, até eles terem a chance de acompanhar, passo a passo, suas mudanças diárias, quando o frio e as estiagem chegam a Iguaçu.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Outono_0308.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-996" title="Outono_0308" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Outono_0308.jpg" alt="" width="416" height="272" /></a></p>
<p><strong>O</strong>s ambientalistas que me perdoem, mas a língua que eles usam achando ser a portuguesa tem uma certa dívida a saldar com a natureza brasileira. Atravancou-lhe o caminho com palavras difíceis de engolir, ou mesmo de proferir, como bioma. Para os iniciados, bioma pode ser um termo indispensável para designar uma “grande comunidade estável e desenvolvida, adaptada às condições ecológicas de uma certa região, e geralmente caracterizada por um tipo principal de vegetação” etc.</p>
<p>Mas, para quem ainda está tateando o assunto ou, melhor ainda, dando os primeiros passos em direção à natureza, a palavra soa como nome de uma vaga doença desconhecida, talvez um novo sintoma da hipocondria cósmica que os muito anti-ecológicos instistem em diagnosticar nos ecologistas. E, vamos e venhamos: “bioma mata atlântica” é quase um convite a não se aproximar da floresta, um espantalho verbal afastando os intrusos.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Tres-Mosqueteros_0358.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-997" title="Tres Mosqueteros_0358" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Tres-Mosqueteros_0358.jpg" alt="" width="409" height="272" /></a></p>
<p>Essa conversa fiada veio por conta do outono que, sem obediência cega ao calendário, vai acabando aos poucos no parque do Iguaçu, retardado pela temporada interminável de chuvas que, este ano, ainda não deu tempo sequer para o fundo das trilhas secar – e menos ainda secar a floresta à sua volta. Talvez por isso mesmo, a estação teve a chance de se revelar aos poucos. O que dá ao forasteiro a chance de perceber aquilo que, passando por sua frente em velocidade de cruzeiro, talvez continuasse desapercebido.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Araçari_7530.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-998" title="Araçari_7530" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Araçari_7530.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Por exemplo, que Iguaçu tem mesmo outono. Não é como aqueles que amarelam de um dia para o outro montanhas inteiras no hemisfério norte. Ou mesmo os que avermelham de repente os vales aos pés da Patagônia andina. No Iguaçu ele vem em mancha esparsas. Uma folhagem amarela aqui, outra avermelha adiante.Folhas caem aos montes ainda verdes, ao primeiro pé de vento. E, no fim, juntando as coisas, mais cedo ou mais tarde até os turistas aprendem, na prática, o que quer dizer ao vivo e em cores a tal da floresta estacional semidecídua.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Fungos_7150.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-999" title="Fungos_7150" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Fungos_7150.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Sim, ela muda com a estação. E, sim, também perde folhas. O chão da mata com, elas fica diferente. E as copas mais altas, quando se desfolham, abrem embaixo clareiras provisórias, onde as flores e as lianas parecem estar esperando para pegar sol exatamente na parte do ano onde ele sobe mais tarde e cai mais cedo. Entre o fim da manhã e o começo da noite, a floresta fica ensolarada. O bosque rasteiro, que até outro dia passava meio desapercebido como uma massa mais ou menos informe de vegetação opaca, ganha destaque e perspectiva.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Jacaré_0448.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1000" title="Jacaré_0448" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Jacaré_0448.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>No entardecer, o sol bate transversalmente num dossel que deixou de ser continuo, para se encher de falhas providenciais, que abrem alas para a luz chegar a troncos e galhos que passaram metade do ano na sombra impenetrável das árvores dominantes. Aí, o pássaro que outro dia mesmo era uma voz sem forma ou uma silhueta escura se cobre de cores vivas que nunca se mostravam antes. Aparentemente, há mais bichos. Na verdade,são menos bichos, mas incomparavelmente mais e</p>
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		<title>Gosto de borboleta não se discute</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 15:05:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Floresta]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[O que fazer com uma fotografia de borboletas, moscas coloridas e berousos variados disputando o privilégio de pousar num excremento? Os biólogos americanos Adrian Forsyth e Kenneth Miyata deram há tempos a resposta em Tropical Nature.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Cocô_7024.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-955" title="Cocô_7024" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Cocô_7024.jpg" alt="" width="449" height="302" /></a></p>
<p><strong>P</strong>elo menos para os entomólogos, há retratos de família sobrando nesta foto. Mas, para as moscas, besouros, borboletas e outros bichos que posaram no domingo passado para a câmera, o centro das atenções está mais embaixo. É aquilo que juntou no chão, diante da represa que um dia alimentou dentro do parque nacional a primeira hidrelétrica de Foz do Iguaçu, tantas espécies diferentes de criaturas aladas, que umas chegavam a aterrissar sobre as outras.</p>
<p>A causa de tamanho combate aéreo não poderia nos parecer mais inglória. Era ela. A própria. Fresca. Produto talvez da madrugada anterior. Obra de um carnívoro, sem dúvida, pela fartura de pelos cinzentos que entrara em sua massa. Provavelmente de um felino de médio ou de grande porte. Onça? Os entendidos na matéria – fecal, diga-se de uma vez por todas – acharam que só podia ser coisa de puma.</p>
<p>Há nela borboletas difíceis de ver em outras circunstâncias. Como a <em>Achlyodes busirus rioja</em>, que <strong>Misiones</strong>, um guia argentino dos lepdópteros da região, considera “difícil de se descrever”, pela complexidade de suas asas aveludadas. Ela “voa dando pquenos saltos e gosta de locais sombrios”. Para quem fizer quiser questão de vê-la ao vivo, aqui vai a dica dos autores: “Encontra-se alimentando-se em lugares onde outros animais deixaram seus excrementos”.</p>
<p>Mas a fotografia entrou aqui como puro pretexto. Não é de hoje que este blog andava atrás de uma ilustração convincente para dois ous três parágrafos sobre essa versão silvestre da mesa de bufê em jantar beneficente, colhidos num livro brilhante, o <strong>Tropical Nature</strong> – filho único, por sinal, de uma parceria entre biólogos que se dissolveu para sempre quando a obra ainda estava no prelo. Um dos autores, Kenneth Miyata, morreu afogado, pescando truta no Yellowstone. O outro, Adrian Forsyth, dedicou-lhe o livro como um tributo à vocação de Miyata para viver “a experiência biológica em seus extremos”.</p>
<p>Eles formavam em seus textos uma linha de passe tão certeira que só por uma pista oferecida por Forsyth na introdução do livro – ele pesquisou a selva tropical na Costa Rica, Miyata no Equador – dá para farejar os vagos sinais de autoria deixados ao longo dos 17 capítulos. Publicado nos Estados Unidos em 1984 e, como acontece freqüentemente com os melhores títulos da pesquisa biológica, até hoje sem tradução para o português, <strong>Tropical Nature </strong>é uma ferramenta indispensável para abrir os olhos do brasileiro a tudo o que ele e geral não enxerga nas florestas nativas.</p>
<p>O que se vê nela até hoje é a miragem de que, embaixo de tamanha exuberância. só pode estar uma terra excepcionalmente fértil, esperando pelo machado e o fogo para enriquecer os pioneiros. Foi assim que os Europeus entraram pela primeira vez nos trópicos. E que a fronteira agrícola do Brasil continua avançando até hoje pela Amazônia adentro, atrás de uma ilusão criada pelos fungos que, potencializados pelo calor e pela umidade, reciclam sem parar a vegetação que jamais repousa.</p>
<p>Os detritos de uma floresta tropical não se acumulam no solo, porque são rapidamente digeridos por novas formas de vida. Logo, tirada a floresta, a fertilidade acaba de uma safra a outra, como descobriram os cafeicultores do Vale do Paraíba no século XIX. Forsyth e Miyata oferecem, logo nas primeiras páginas do livro, uma aula prática e gratuita de como a mata úmida devolve seus mortos ao mundo dos vivos.</p>
<p>Basta tirar o melhor proveito educacional da rica dieta de feijão, gordura e carboidratos da cozinha regional. “O que ocorre com os excrementos no chão da floresta tropical é um dos vastos espetáculos da natureza em pequena escala, o da competição por recursos escassos levada aos últimos limites – uma batalha e um salve-se quem puder cheios de colorido e método.” Nada mais simples do que observá-lo, garantem os autores.</p>
<p>É só, “quando a natureza o chamar”, não ir embora o mais depressa possível, como quem deixa o local de um crime. Mas se sentar “calmamente ali por perto. Os primeiros competidores chegarão tão logo você se acomode”. São os pequenos besouros Scarabaeidae e as moscas de brilho metálico da família Otitidae, as populares varejeiras.</p>
<p>“As moscas imediatamente se estabelecem lá em cima para o acasalamento”, enquanto os besouros simplesmente “mergulham fundo e começam a comer”. No caso, as fêmeas na certa estarão “carregadas de ovos maduros”, prontos para serem depositados ali, ao mesmo tempo em que elas “gostosamente se fartam”. Em seguida chegam os besouros de maior porte, ou populares rola-bosta. Eles demoram um pouco mais para dar o ar de sua graça, porque têm pior olfato que seus primos menores e custam a acertar o alvo.</p>
<p>Em compensação, realizam manobras infinitamente mais complicadas do que eles, modelando bolas perfeitamente esféricas com as patas traseiras e tratando de levar para lugar seguro seu butim. Em seu meio, há fêmeas que escolhem o parceiro pelo tamanho da “esfera nupcial rolante”. Logo, convém caprichar com as patas na massa. Para dizer o “sim”, elas se equilibram em cima da bola, e o macho se encarrega de levar a noiva e a incubadora até o ninho, também laboriosamente escavado por ele a uns bons metros de distância da arena onde o conquistou.</p>
<p>Até 50 espécies diferentes de Scarabaeidae podem entrar em cena, enquanto dura o espetáculo – vários dias, se o excremento é de carnívoro, ou menos de duas horas, se for humano. E eles são só um dos inumeráveis tipos de insetos que participam do elenco. “Nós gastamos muitas horas estudando essa luta e ponderando suas lições”, contam Miyata e Forsyth. “É uma revelação ver essa matéria tão desprezada ser objeto de tanto desejo entre tantas criaturas tão lindas. Mas nossas tentativas de interessar amigos e alunos nesses eventos não têm sido completamente exitosas”.</p>
<p>Talvez por lhes faltarem por lá as irresistíveis borboletas do Iguaçu, eles acabaram concluindo que “a fetilidade crua não é bela”.</p>
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		<title>Como aprendemos a andar no mato</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Jan 2010 15:34:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Floresta]]></category>
		<category><![CDATA[Trilhas]]></category>

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		<description><![CDATA[Andar no mato a passeio não é tão natural assim para uma espécie que - metaforicamente - desceu das árvores na noite dos tempos. É uma invenção do século XIX, que ficamos devendo a um francês manco chamado Claude François Denecourt. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/A-la-Millet-Blog.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-499" title="A la Millet Blog" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/A-la-Millet-Blog.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p><strong>C</strong>aminhar no mato parece a coisa mais natural do mundo, pelo menos desde que nossos ancestrais desceram das árvores e adotaram esta postura instável, que nos condena a problemas de coluna e, em troca, libera os membros superiores para tarefas mais elevadas – como estapear mosquistos ou empunhar o telefone celular para fotografar cada passo da jornada.</p>
<p>Mas, apesar dessa aparente naturalidade, andar no mato é uma invenção recente, que talvez por isso no Brasil ainda depende de empresas especializadas e guias meio fanáticos, para apontar aos desavisados o caminho das trilhas como se elas fossem a estrada de Damasco. Basta um dia de enchente humana num parque nacional para ver o bom serviço que eles prestam. Sem seu fervor quase evangélico, as picadas estariam às moscas. Ligando geralmente o nada a lugar nenhum, elas dependem, para ter algum tráfego, da “caminhada romântica”, moda que, segundo o historiador Simon Schama, nasceu no século XIX e tem autor conhecido.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Barbizon-Blog.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-501" title="Barbizon Blog" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Barbizon-Blog.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Chamava-se Claude François Denecourt. Antes dele, só se ia ao mato para derrubar árvore, matar bicho ou fugir da cadeia. Ele mudou isso radicalmente. Denecourt foi retratato pelo literato Theophile Gauthier como “um homenzinho vestido com simplicidade, portanto um chapelão e óculos, segurando o galho de azevinho que lhe serve de bastão para subir a encosta”. Ninguém se iluda. Seu despojamento era grife, sua fantasia de “Le Sylvain”, o gênio da floresta. A Nike, a Columbia, a Patagonia e outras etiquetas do ramo só viriam aprimorar o figurino dos caminhantes muitas décadas depois.</p>
<p>Denecourt foi, basicamente, um comerciante de conhaque em Fontainebleau, nos arredores de Paris. Ferido nas guerras napoleônicas, coxeava. Embora manco, era um andarilho infatigável, treinado em marchar por anos a fio de um lado para outro na Europa, arrastado com as campanhas do imperador como soldado do 88º Batalhão de Infantaria Ligeira. Ao dar baixa, conheceu a floresta de Fontainebleau quando ela caía aos pedaços. Fora uma reserva de caça real, e passou a ser tratada como terra de ninguém na França revolucionária – mais ou menos como por aqui, à falta de governo, fazem os grileiros da Amazônia.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Fontainebleau-Floresta-Blog1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-503" style="margin: 5px;" title="Fontainebleau Floresta Blog" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Fontainebleau-Floresta-Blog1-199x300.jpg" alt="" width="199" height="300" /></a>Desmatada, defaunada e invadida, Fontainebleau sobreviveu aos tropicões da história francesa porque Denecourt promoveu sua reciclagem como lugar de passeio. Ele abriu pessoalmente 300 quilômetros de picadas na floresta. Batizou itinerários, árvores e pântanos. Transformou em refúgios rústicos as cavernas que antes tinham fama de abrigar bandidos.</p>
<p>Sua influência foi, literalmente, incomensurável. Chegou até a concepção original do Central Park em Nova York ou, para ficar mais perto, à Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Aliás, todo jardim do paisagista Auguste François Glaziou, que reinou na corte de D. Pedro II, não deixava de ser uma espécie de miniatura da Fontainebleau de Denecourt.</p>
<p>Fontainebleau, onde Deneccourt é nome de rua e tem estátua en praça pública, continua cercada por 24 mil hectares de velhos bosques, preservados desde que, no rastro de Denecourt, foram parar lá, de carruagem, os grã-finos do Império. Com eles vieram os pintores, toda uma geração pré-impressionista que arranchou no vilarejo de Barbizon, na beira do bosque, e cevou ali uma escola de paisagismo e um culto da natureza que serviu, nos Estados Unidos, para inspirar a decretação dos primeiros parques nacionais.</p>
<p>Em resumo, os guias de ecoturismo são apóstolos de Denecourt mesmo que não saibam. Como ele, acreditam que caminhar no mato não é coisa que se nasça sabendo. É algo que se aprende. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/10/30/um-curto-desvio-sem-fim/">Como todo passo civilizatório.</a></p>
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