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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Escandinávia</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Rumo ao futuro, mas de olho no passado</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2009/10/27/rumo-ao-futuro-mas-de-olho-no-passado/</link>
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		<pubDate>Tue, 27 Oct 2009 17:31:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Orgânica]]></category>
		<category><![CDATA[Escandinávia]]></category>

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		<description><![CDATA[Numa fazenda sueca que perpetua o costume milenar de soltar o gado nas florestas durante o verão nas florestas para poupar as pastagens, o engenheiro Pers Larsson busca saídas econômicas para o século XXI.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251093.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-204" title="P6251093" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251093.jpg" alt="P6251093" width="461" height="346" /></a> </strong></p>
<p><strong> A</strong>ntes de pôr as botas na terra, Pers Lars Larsson bota na cabeça o chapéu de aba larga, em couro de rena. E isso muda instantaneamente sua postura de engenheiro eletrônico,  que trabalha com tecnologia de ponta em energias alternativas junto a institutos de pesquisa suecos. Fica instantaneamente parecido com o ator John Wayne, pronto para entrarem cena no faroeste da taiga.</p>
<p>“O chapéu era da minha avó, que não saía de casa sem ele”, diz Lars. Faz questão de usá-lo nas florestas que costeiam a estrada para o lago de Draggen, assim que deixa para trás o vago centro urbano da aldeia de Granmor. Depois que nasceu seu primeiro neto, ele está empenhado em não ser o elo que romperá os laços de sua família com um estilo de vida rural enraizado em tradições rurais do século XVII.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251103.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-205" title="P6251103" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251103.jpg" alt="P6251103" width="448" height="336" /></a></p>
<p>Lars estava ali para mostrar uma fazenda de verão, a <em>fäbod</em> de Kal-Tövasen. Ou melhor, traduzi-la. São três casas de troncos, incluindo o estábulo, cercadas de bosque. Entre os pinheiros esguios, os telhados baixos aparecem de repente, na última curva da estrada de terra. Não há uma antena à vista, seja de rádio,TV ou celular, denunciando a presença indispensável das últimas palavras em telecomunicação. Galinhas miúdas e soltas, que no Brasil se chamariam de caipiras, ciscam embaixo das mesas ao ar-livre, mesmo durante o almoço coletivo. O banheiro é uma cabana rústica no fundo do terreno.</p>
<p>Em suma, Kal-Tövasen conserva como relíquia viva um tipo de roça que o interior do Brasil está esquecendo. E Lars cresceu numa <em>faböd</em> como aquela, construída há pelo menos 350 anos. Em sua casa, cozinhava-se na sala, em fogo de chão. Nem se falava em rádio ou TV.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251078.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-206" title="P6251078" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251078.jpg" alt="P6251078" width="448" height="336" /></a></p>
<p>“Só comprávamos café e prego”, ele conta. Lars trabalha em laboratórios avançados. E o que parece um largo desvio em sua careira tomou na maturidade o caminho de volta à roça, onde essa história de energia alternativa não começou ontem. Sua lembrança mais forte da infância é um nítido fragmento da manhã de primavera em que saiu de casa sozinho pela primeira vez. Estava nu em pelo. Corria a céu aberto, depois dos meses intermináveis meses de confinamento do inverno. Sentindo o frio da relva molhada nas pernas. E bafo morno das vacas que lhe lambiam a cara.</p>
<p>Essa existência ele deu por encerrada quando saiu de casa para a escola e, dali, para o curso superior. Aos 18 anos, voltando uma temporada de férias, explicou à avó que o mundo que ela conhecia tinha acabado. A velha ouviu uma a uma todas as novidades que o neto trazia de fora e concluiu: “Não vai dar certo”. Hoje, Lars está convencido de que muita coisa que lhe ensinaram como sendo o progresso inevitável de fato não não deu certo. E procura respostas em velhas tecnologias naturalmente sustentáveis.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251081.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-207" title="P6251081" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251081.jpg" alt="P6251081" width="448" height="336" /></a></p>
<p>A Karl-Tövasens produz diariamente 120 litros de leite, simplesmente deixando suas vinte e tantas vacas pastarem livremente em florestas públicas, onde não há cercas dividindo propriedades. Isso lhe garante a produção de três tipos de queijo e de manteiga fina, enquanto poupa os pastos que a família mantém na aldeia. Poupados do pisoteio e da ruminação, eles são usados para forrar de feno os estoques do confinamento inevitável no longo inverno.</p>
<p>A estrada que passa em sua porteira é de terra batida. Raros automóveis passam por ali. E os que passam geralmente param, para comprar laticínios, geléias e outros produtos tipicamente de aldeia, cujas receitas, feitas de produtos estritamente locais, jamais mudaram, porque os ingredientes são sempre necessariamente os mesmos. Durante o dia – e o dia é longo no curto verão nórdico – pode-se sentar para comer nas mesas rústicas, de bancos corridos, espalhadas sem nenhuma ordem aparente entre a casa e o estábulo.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251072.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-208" title="P6251072" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251072.jpg" alt="P6251072" width="448" height="336" /></a></p>
<p>O convite para o almoço inclui a obrigação explícita de cada um preparar a própria comida, em conchas de ferro com longos cabos de madeira, que se põe sobre a grelha, no braseiro de lenha resinosa, que cobre de fumaça o grupo inteiro . Primeiro, assando os pedaços de carne de porco gordurosa, bem à vista dos porcos que fuçam a cerca diante da floresta. “Vivem soltos”, Lars afirma. Quer dizer: estão ali para virar carne mais dia menos dia, mas até terão o direito a uma vida que deve corresponder a algum projeto suíno de felicidade na terra.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251082.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-209" style="margin: 5px;" title="P6251082" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251082.jpg" alt="P6251082" width="269" height="358" /></a></p>
<p>O resto do prato exige várias idas e vindas entre o fogo e o balcão dos ingredientes. Os queijos da casa. A massa líquida à base de leite que, sobre as brasas, envolverá os nacos de carne numa espécie de panqueca. A geléia ácida de frutas do bosque. A manteiga doce que Lars considera “cinco vezes mais nutritiva e saudável do que a outra”, porque não vem de um organismos alimentados por rações, e sim de uma salada diária de plantas silvestres, que as vacas escolhem com aparente sabedoria.</p>
<p>Em suas andanças, as vacas encontram fungos e plantas que parecem resolver todos os seus problemas veterinários. Uma delas foi seguida por quilômetros, enquanto buscava um cogumelo específico e raro, que cresce sob a terra, como trufa, junto a raízes de coníferas. Para exumá-lo, ela precisava cavar com uma pata dianteira. E assim se tratou sozinha de uma infertilidade crônica, que os veterinários não sabiam como curar. Examinado, o tal fungo se revelou uma fonte natural dos hormônios certos para a saúde reprodutiva.</p>
<p>Lars tornou-se um devoto fervoroso não só da dieta camponesa, como de seus ritos. Conservam-se na fäbod antigos costumes, como o de levar os filhos ao bosque assim que eles nascem e serrar em sua presença o topo de uma árvore. Duas ou três décadas depois, se eles precisarem de madeira para a casa própria, o tronco estará lá, maduro, de pé, à sua espera. Tratado assim, durará séculos em paredes de toras maciças. E a floresta terá todo o tempo necessário para ir repondo a árvore cortada, à medida que ela morre lentamente.</p>
<p>O gado pasta num raio que se estende entre 20 e 40 quilômetros durante o dia. E retorna por sua própria conta à noite, acostumado que está à presença de ursos, quase sempre na ronda. Os animais mais velhos de algum modo transmite aos mais novos o conhecimento da floresta, e isso os poupa do matadouro, quando deixam de dar cria ou leite, tornando-se improdutivos para a pecuária convencional.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251087.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-210" title="P6251087" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6251087.jpg" alt="P6251087" width="448" height="336" /></a></p>
<p>E está mais provado que o solo, nas <em>fäbod</em>, melhora de uma geração à outra, em vez de se empobrecer. Ou seja, ali se pratica sem maiores retóricas aquilo que de uns anos para cá as grandes empresas do mundo passaram a chamar de “sustentabilidade”. Cada geração deixa à seguinte um solo mais rico do que encontrou. Lars está lá por isso. Não vai a Kal-Tövasen a passeio, mas em busca de saídas para os problemas que seu primeiro neto, nascido este ano, certamente terá pela frente, daqui a 2o ou 30 anos.</p>
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		<title>A ilha do tesouro em versão 2009</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Oct 2009 21:14:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Orgânica]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades Sustentáveis]]></category>
		<category><![CDATA[Escandinávia]]></category>

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		<description><![CDATA[Aero, uma ilha no sul da Dinamarca que parou no século XIX, está disparando para chegar na frente a um estilo de vida do século XXI. É modestíssima, mas dá inveja.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200648.jpg"><img class="size-full wp-image-111 aligncenter" title="P6200648" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200648.jpg" alt="P6200648" width="518" height="389" /></a></p>
<p style="text-align: left;"><strong>D</strong>o mar, a primeira coisa que se avista de Aeroskobing é sua monumental modéstia. Ela desfila majestosamente ao lado do <em>ferry</em> que se aproxima do porto e, como se espera dos manifestos arquitetônicos de uma civilização, surpreende pelo tamanho. Mas nada tem de grande. Ao contrário, é tão pequena que chama a atenção.</p>
<p>De longe, parece uma ilusão de ótica entre o barco e o horizonte. Como se um erro de perspectiva encolhesse as casas enfileiradas na praia de Vestre Strandjev, tornando-as menores que as construções mais distantes, no fundo da baía. E, até a hora do desermarque, permanece sem explicação.</p>
<p>Só depois de dar tempo aos olhos e à cabeça para se ajustarem à paisagem singular desta ilha no sul da Dinamarca, enxerga-se o que elas de fato são. Trata-de casas minúsculas, apesar de habitáveis. Com quatro ou seis metros quadrados de área construída. Reduzem-se a uma porta e três janelas. Cabem num só cômodo, que a luz do mar atravessa de lado a lado, sem esbarrar em paredes internas.</p>
<p style="text-align: center;"><a style="text-decoration: none;" href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200759.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-113" title="P6200759" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200759.jpg" alt="P6200759" width="518" height="363" /></a></p>
<p>A miragem que perturba o senso de escala vem do acabamento. Elas foram construídas como se fossem grandes, com tábuas pintadas em cores vivas, batentes brancos, jardins compactos delimitados por cercas de madeira que mal as separam do campo florido à beira-mar. No verão, quem passa por elas em tardes de domingo vê famílias inteiras, em volta da mesa, usando seus “palácios de praia”, que é como o guia de Aeroskobing chama essas cabanas.</p>
<p>Elas dispensam banheiro, cozinha e quarto. Algumas têm camas ao redor das mesas. Nada, nem cortina, isola seus donos da praia quase selvagem, a dois ou três quilômetros da cidade. Não são assim por boniteza, mas por precisão. Era o que dava no orçamento de seus construtores, décadas atrás, no começo do século passado, quando Aeroskobing e outros portos da ilha eram pobres.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200679.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-114" title="P6200679" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200679.jpg" alt="P6200679" width="518" height="389" /></a></p>
<p>Acabavam então de ser desertados pela navegação comercial, quando os navios à vela deixaram de ligar a Dinamarca ao resto da Europa pelas rotas milenares do Báltico. Congelada pela calmaria econômica, Aeroskobing foi ficando para trás. E por tanto tempo que, em meados do século XX, descobriu que tinha nas mãos um tesouro tesouro arquitetônico, valorizado pelo atraso no canto mais remoto do arquipélago de Funes.</p>
<p>Até esse ponto, Aeroskobing é uma obra-prima da fatalidade. Mas, daí para a frente, o que sua população vem fazendo com esse trunfo involuntário dos grandes ciclos econômicos é uma história de progresso atestada por vários premios internacionais de meio ambiente, herança cultural e qualidade de vida, como o Europa Nostra.</p>
<p>Basta pisar em solo para sentir que ali o passado e o futuro acertaram o passo com a precisão dos grandes coreógrafos. O porte dos veleiros atracados no ancoradouro histórico não deixa o guia de viagem mentir. E, na dúvida, pode-se conferir o resultado pela construção de alvenaria encarapitada no molhe de pedra. É a cozinha coletiva. Foi feita no século XVIII em função da lei que proibia acender fogo nas embarcações de madeira ancoradas no porto. E virou churrasqueira sem perder um traço sequer da edificação original.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6210853.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-115" title="P6210853" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6210853.jpg" alt="P6210853" width="518" height="389" /></a></p>
<p>Aerosking se adaptou ao presente nas últimas décadas através da receita futurística de evitar a qualquer custo recorrer a demolições. O armazém de milho se converteu no cinema Andelen sem mudar de características. A delegacia policial, em frente ao porto, tem roseiras subindo na fachada.</p>
<p>A seu lado, o Rogeri, que tradicionalmente vende comida sem talher nem prato, fornece agora a iatistas endinheirados as mesmas combinações imutáveis de arenque defumado, camarão seco, salmão e salada de batata que sempre serviu a marinheiros. As ruas conservam intato o traçado medieval de pedras irregulares que empurra os automóveis para seu devido lugar – andando o mais devagar possível, nos calcanhares dos pedestres.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200803.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-116" title="P6200803" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200803.jpg" alt="P6200803" width="518" height="389" /></a></p>
<p>É possível reconhecer casa por casa num mapa urbano de 1677, mesmo se cada vez as velhas residências viram museus, lojas, restaurantes ou hotéis. Pela fórmula universalmente adotada em Aeroskobing – “baixo custo, uso flexível, integração com a rua, harmonia entre o público e o privado” – nenhum esforço de atualização exigiu reformas grandiosas.</p>
<p>Os moradores se afeiçoaram a uma arquitetura secularmente funcional, definida numa época em que os construtores sabiam que “as casas sobrevivem a seus donos” – e, portanto, a todos os seus usos e costumes. As residências têm janelas baixas abertas para as ruas sem calçadas. Devassadas, passaram a usar bibelôs e outros detalhes da decoração para enfeitar os parapeitos.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Quem não resiste à tentação de espiar a intimidade alheia enxerga, do outro lado, o jardim interno, que também é parte integral daquele estilo de vida. A sala é vazada nas casas urbanas como nas suas miniaturas de praia. Térreas, com quartos nas mansardas, elas foram geralmente construídos antes do século XIX e restauradas com tanto esmero que, em fotografias da década de 1920, parecem mais modernas do que são atualmente.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6210904.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-117" title="P6210904" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6210904.jpg" alt="P6210904" width="518" height="389" /></a></p>
<p>Obra de 500 cidadãos que se associaram para resolver o problema sem esperar por nenhum governo, o plano de conservação de Aeroskobing zela por cada pedra do patrimônio arquitetônico da cidade. Regula tudo nas casas. O tipo de tinta da fachada, a escolha dos materiais, as plantas usadas no ajardinamento e até o desaprumo das paredes tortas, que o tempo quis assim e os proprietários respeitam.</p>
<p>Ninguém mexe em nada sem consultar o projeto geral da cidade. Trata-se, por sinal, de uma legítima “conquista democrática”. Foi negociado ponto por ponto. A maioria mora assim porque quer. Logo, obedece aos estatutos da convivência exemplar como um requisito da liberdade. Euem acha que o excesso de regulamento oprime não conhece, provavelmente, a ditadura da anarquia nas favelas cariocas.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200663.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-119" title="P6200663" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200663.jpg" alt="P6200663" width="518" height="389" /></a></p>
<p>Aeroskobing parece estar em paz com suas posturas. As bicicletas dormem encostadas fora da porta. Os portões passam o dia entreabertos. As mesas ficam postas ao ar livre. Meia dúzia de quilômetros rumo ao interior da ilha mostra que as estradas costeiam fazendas que ainda põem no acostamento suas frutas, batatas e geléias, sem a menor vigilância.</p>
<p>Não adianta esperar que alguém venha atendê-lo. O freguês simplesmente apanha o que quer no balcão rústico, calcula o preço e joga as moedas na caixa do correio. E isso acontece muito, porque a ilha de Aero, com 90 quilômetros quadrados, ou 30 quilômetros de extensão, tem inumeráveis produtos agrícolas para pregar o selo de “orgânico”, desde a carneiros a salames, biscoitos,  condimentos, xampus, sabonetes e até tecidos artesanais.</p>
<p>Há mais de 30 anos aqueles campos não vêem uma gota de agrotóxicos ou fertilizantes. Os pastos são floridos. Nas trilhas que atravessam sem a menor cerimônia as cercas das propriedades rurais passeia-se entre vacas, colhendo morangos silvestres, sempre com o mar de um lado e os bosques de outro. A terra habitada há 10 mil anos tem ar de que tudo ali está começando agora. Ou, pelo menos,  começando de novo.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200726.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-120" title="P6200726" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200726.jpg" alt="P6200726" width="513" height="356" /></a></p>
<p>Isso não quer dizer que ela parou outra vez no tempo. E sim que está andando numa outra direção, que não é a do desenvolvimento econômico retardatário e bruto que se arvorou em modelo universal no século passado. Desde 1997, as cidades de Aero disputam com o resto do mundo desenvolvido quem chega primeiro no século XXI a uma economia avançada que se sustente  exclusivamente em fontes alternativas de energia.</p>
<p>Os sinais dessa proposta se espelham hoje à beira dos 36 quilômetros de picadas que atravessam a ilha e se prolongam por mais 170 quilômetros no arquipélago de Funem. A cidade de Marstal, que já foi o maior porto de Aero, com 350 cargueiros a vela, tem mais de 18 mil metros quadrados de placas solares, que cobrem 30% de sua calefação.</p>
<p>Aeroskobing se contenta por enquanto com cinco mil metros quadrados. Mas três turbinas eólicas de dois megawatts, erguidas por subscrição popular, geram 55% da eletricidade que a ilha consome. Cinco geradores menores suprem o resto. Suaas formas se encaixaram tão bem no cenário bucólico que são carneiros os encarregados de manter o capim aparado sob as células fotoelétricas. E as trilhas que margeiam o campo de aviação são as mais indicadas de Aero para a observação de pássaros.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200805.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-121" title="P6200805" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/P6200805.jpg" alt="P6200805" width="518" height="389" /></a></p>
<p>Volta-se de lá com a certeza de que há mais coisas ultimamente entre o céu e a terra do que supõem os autores do PAC no governo Lula. Mas será que um dia o século XXI ainda vai chegar ao Brasil?</p>
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