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	<title>Marcos Sá Correa &#187; desmatamento</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Árvore é coisa que não se faz num dia</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Sep 2010 22:16:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[desmatamento]]></category>
		<category><![CDATA[Dia da Árvore]]></category>
		<category><![CDATA[Educação Ambiental]]></category>

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		<description><![CDATA[O Dia da Árvore é uma ótima ocasião perdida para os brasileiros aprenderam que não adiante enfiar no chão as mudas distribuídas pelos organizadores da festa e dar o caso do desmatamento por encerrado. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Dia-da-Arvore_3000.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1200" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Dia da Arvore_3000" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Dia-da-Arvore_3000.jpg" alt="" width="272" height="408" /></a>O</strong> país comemora esta semana mais um aniversário de seu atraso ambiental. É o Dia da Árvore.</p>
<p>A data deitou raízes no calendário cívico nacional há quase 100 anos. Isto é, pelo menos cinco décadas depois de desabrochar nos Estados Unidos. A festa começou no Nebrasca em 1872, quase ao mesmo tempo em que surgiam lá por cima do continente os primeiros parques nacionais do mundo. O Dia da Árvore original fazia parte de uma onda de conservação da natureza que o resto do mundo imitaria mais cedo ou mais tarde.</p>
<p>Aqui, a adesão à moda norte-americana ficou para mais tarde. Perdeu com isso a chance de marcar, no fim dos século XIX, a campanha contra o desmatamento do sueco Alberto Loefgren, chefe da seção de botânica da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo. Loefgren queria o pacote completo. Não apenas o plantio simbólico de mudas. Mas, sobretudo, os parques e o código florestal.</p>
<p>A resposta do governo saiu no começo do século XX. Reduzira-se ao Dia da Árvore, que na prática era o a campanha de Loefgren contra o desmatamento reduzida à mínima potência. O código florestal e os primeiros parques nacionais, discutidos desde o Segundo Reinado e empurrados com a barriga por toda a República Velha, só vingaram na década de 1930, às vésperas do Estado Novo. Bem depois que a onda se alastrara até pelas colônias africanas.</p>
<p>Nos Estados Unidos, o Dia da Árvore, que em outros lugares do hemisfério norte cai em março, como a primavera, acontece em 23 de setembro, para coincidir com o aniversário de Julius Morton, o cidadão do Nebrasca que inventou a cerimônia. No Brasil, cai em 21 de setembro, para coincidir com a entrada da primavera, época em que uma tradição indígena muito mais renitente celebra nacionalmente a estação das queimadas.</p>
<p>Em homenagem a esse paradoxo, nosso Dia da Árvore – que, pelo decreto 55.795, chama-se Festa Anual da Árvore desde 1965 – deveria se chamar Dia da Muda. Árvore é coisa que se leva muito tempo para fazer. Muda, não. Dá fruto no dia da festa. E geralmente isso basta.</p>
<p>Como o decreto de 1965, que o país esqueceu, as mudas plantadas todo 21 de setembro têm forte pendor para não ir adiante. Quem passou pelos bancos das escolas públicas no Rio de Janeiro lá pela longínqua década de 1950, no tempo em que os alunos cantavam diariamente o Hino Nacional e hasteavam a bandeira antes de entrar na sala de aula, deve recordar a data como o dia em que a garotada se perfilava em volta de um buraco no pátio, onde as professoras cravavam uma haste tenra e desfolhada, dizendo tratar-se de um futuro pau-brasil &#8211; ou árvore  que o valha.</p>
<p>Meio século depois, se uma ínfima percentagem desses brotos tivesse crescido, as escolas públicas cariocas estariam hoje no meio de bosques. Não em áreas cimentadas, como se encontram. E essa aridez não é só produto do acaso, nem do cerco imobiliário que abraçou as escolas entre muros estreitos neste país cada vez mais urbano.</p>
<p>O Movimento Viva Rio, dez anos atrás, tentou doar mudas para Cieps da Zona Oeste, onde os prédios de Oscar Niemeyer cozinham ao sol escaldante em terrenos desérticos. Ouviu, da primeira diretora consultada, que árvore em escola só serve para os alunos se esconderem atrás do tronco, fazendo sabe-se lá que bobagens.</p>
<p>Mas as mudas nem por isso perderam seu dia seu dia de festa. No fim de semana passado, pelo menos nas rodovias de São Paulo, 120 mil miniaturas de espécies nativas foram distribuídas nos postos de pedágio pela ONG SOS Mata Atlântica, com minuciosas intruções sobre como e onde plantá-las.</p>
<p>Mas não quando, como faria, se estivesse lá, o engenheiro agrônomo José Francisco Nehring: “Deixe para distribuir a muda e plantá-la só quando vier a primeira chuva”, ele avisou lá de Presidente Prudente. Só assim, argumentava Nehring, “a natureza agradecerá com lindas árvores”</p>
<p>Eis uma oportunidade que a educação ambiental dos estudantes brasileiros não deveria perder. Bastaria lhes dar a tarefa de seguir passo a passo o destino dessas menores, até chegar a hora de virarem, de pleno direito, árvores. Daqui a uns dois ou tres anos.</p>
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		<title>Uma palavra vale mais que mil palavras</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Sep 2010 12:37:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[desmatamento]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Iguazu]]></category>

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		<description><![CDATA[De onde vem a palavra "meandro", tão universal que se encaixa naturalmente no vocabulário de um guia de traços indígenas no rio Iguaçu? De um velho desastre ambiental que o mundo esqueceu. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Rio-Iguaçu_96222.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1188" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Rio Iguaçu_9622" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Rio-Iguaçu_96222.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a><strong>S</strong>ombrio como um túnel de árvores e manso como um igarapé, o Iguaçu nem parece o rio que dali a pouco vai despencar em mais de 200 cachoeiras, por quase três quilômetros de precipícios cavados a prumo no basalto.</p>
<p>O bote inflável desce sob as copas devagar. E, menos para empurrá-lo rio abaixo que para manter a sensação de imobilidade, o guia move os remos com a pachorra de quem sabe que, por baixo da superfície mansa e espelhada, a lenta correnteza nos deixará sem falta no porto, antes das corredeiras e quedas.</p>
<p>Ele tem traços indígenas. E sente-se notoriamente em casa. Para ele, tudo a seu redor conserva, ali na margem argentina, o nome que lhe deram os guaranís. E assim ele chama em voz baixa, quase falando sozinho, os <em>yaguás-pindás, güembés, jotes, ñanguapiris </em>ou<em> comadrejas</em> do caminho.</p>
<p>Está falando de trepadeiras, epífitas, urubus e roedores que existem, iguaizinhos aos do outro lado, o brasileiro. Mas assim, em castelhano ou, melhor ainda, em guaraní, a fauna e a flora soam como invocações de uma floresta mítica, a que existiu ali antes que as últimas sobras da mata nativa se enquadrassem nos estritos limites de dois parques nacionais, entre cidades e fazendas, no trecho final do Iguaçu. São molduras das cataratas.</p>
<p>Antes de chegar a esse ponto, o Iguaçu atravessa mil e tantos quilômetros de afluentes barrentos, comportas de hidrelétricas e bocas de esgoto. Nem parece. Na margem argentina, a curva do rio espalha o leito pela terra adentro, cavando um labirinto meio amazônico de braços, ilhas e praias. O rio passaria por selvagem, se as grandes cheias deste ano não tivessem pendurado nos galhos, agora fora do alcance dos mutirões de limpeza, sacos de plástico e tiras de pano, balançando como fantasmas da poluição industrial.</p>
<p>Foi lá que o guia usou na descrição da paisagem uma palavra mais ou menos universal: “Meandro”. Talvez por falta de equivalente em guarani. E, sem saber, citando um clássico do desmatamento. Meandro era, antes de se transformar em substantivo comum, um rio da Anatólia, na Ásia Menor.</p>
<p>Banhou, até cerca de 200 a.C., um berço da civilização. Na bacia do Meandro os gregos reencontraram os recursos naturais exauridos a oeste pelo apogeu da era do bronze no Mediterrâneo. Era um território de montanhas e florestas. Virou uma região de campos e trigais.</p>
<p>Em aproximadamente 500 anos – ou seja, a idade do Brasil – o machado e o fogo acabaram com as florestas do Meandro. A fertilidade do solo diminuiu. E o arado colaborou com as enxurradas para levar a terra ao curso do rio.</p>
<p>Tanto sedimento caiu no Meandro que os agricultores, quando perdiam suas propriedades pela erosão, podiam legalmente processar o rio. Pelo menos, segundo Estrabão, filósofo, geógrafo e incansável andarilho do mundo antigo, que morreu há quase dois mil anos. John Perlin, historiador contemporâneo, diz coisa pior em <em>A Forest Journey</em>, livro escrito em 1989 e atualizado em 2005.</p>
<p>“No século V a.C.”, conta Perlin, “o que hoje é o baixo vale do Meandro foi mar aberto”. Mios, o porto marítimo da época, fica agora a 25 quilômetros do litoral. Engolido pântanos, acabou colonizado por mosquistos. E os mosquitos derrotaram os gregos da Anatólia a golpes de malária.</p>
<p>É dai que vem “meandro”. A palavra pegou. Continua tão viva que está na boca do guia guarani no Iguaçu. Só o seu significado ambiental o mundo fez questão de esquecer.</p>
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		<title>Pra não falar de campanha eleitoral</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/09/09/pra-nao-falar-de-campanha-eleitoral/</link>
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		<pubDate>Thu, 09 Sep 2010 16:08:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[desmatamento]]></category>
		<category><![CDATA[Mata Atlântica]]></category>

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		<description><![CDATA[Antes de jogar a toalha, convém se mirar o exemplo do físico Germano Woehl que, em vez de esperar pelas mudanças da política brasileira, resolveu pegar a unha o destino de um fragmento florestal na serra de Santa Catarina e há sete anos o mantém de pé, com denúncias e protestos. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Germano.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1158" title="Germano" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Germano.jpg" alt="" width="409" height="264" /></a></p>
<p><strong>O</strong> físico Germano Woehl Júnior escreve de Guaramirim para dizer que “conseguimos” adiar por sete anos a morte de uma restinga no litoral catarinense. “Nós” quem? Ele sempre põe os verbos na primeira pessoa do plural, o que dá ao destinário a ilusão de que faz parte da história. Antes de ler o resto, qualquer acha que conseguiu evitar algum estrago em lugares que mal consegue ver no mapa, sem a providencial ajuda do Google Earth.</p>
<p>Basta abrir a mensagem para constatar que “nós” é ele. Ou melhor, ele e a mulher, Elza Nishimira Woehl, que divide com o marido essas pequenas vitórias solitárias, exclusivas de quem nasceu para investir dinheiro e energia em causas que, soltas na correnteza das opiniões majoritárias, estariam, por definição, perdidas.</p>
<p>Não poderia ser menos majestático o plural de Woehls. Resume-se ao que os dois, sozinhos, conseguem fazer – como salvar a tal restinga entre Guaramirim e Araquari. É um tipo de floresta que lembra em miniatura a amazônica, “inundada a maior parte do ano, com árvores gigantes como o Olandi e o ipê caixeta” que, como o breve texto não se esquece de informar, também atende pelo apelido de “pau-tamanco”, como convém a uma espécie “explorada predatoriamente para fazer tamanco, artesanato, lápis”.</p>
<p>O fragmento é modesto. Mas ali o casal encontrou três anfíbios endêmicos, que aparentemente não existem em outros lugares dio estado. E sete anos atrás a mata estava condenada ao corte raso, por fazendeiros empenhados em abrir pastos. Coisa de gente grande. Um deles, é dono do maior frigorífico de Jaraguá do Sul, o centro industrial da região.</p>
<p>Denunciá-los aos órgãos ambientais e ao ministério público foi uma dessas imprudências que beiram a maluquice. Os Woehl foram até amaeçados por capangas. Mas levaram para lá os fiscais. Com os fiscais vieram as autuações. E um promotor de Araquari acabou comprando a briga. Por enquanto, a restinga venceu.</p>
<p>O e-mail veio contar que, comparando outro dia, por acaso, as imagens de satélite da época com as do ano passado, os Woehl notaram que o lugar mantem o mesmo desenho que tinha em 2002. Como eles não pregam prego sem estopa, as duas fotografias foram anexadas à mensagem. A mata parece mesmo transborbar o antigo contorno. Mas Germano não é marqueteiro para abusar de maquiagem. A parte que mais cresceu, ele avisa, “é de pinus”. Mas houve um trecho pequeno “que o dono de uma fazenda abandonou”. E ali parece estar ocorrendo a regeneração espontânea da floresta nativa.</p>
<p>E daí? Daí que Germano pode ser, nesta campanha eleitoral, o candidato que faltava para nos lembrar que, sob as borbulhas superficiais que chamamos política, jaz o leito duro do trabalho cotidiano e das obras anônimas. Aquilo que o historiador Fernand Braudel, matutando num campo de prisioneiros da Segunda Guerra Mundial, batizou de “História Imóvel”. É aquela não não dá notícia. Mas também molda o futuro.</p>
<p>Principalmente quando conta com a obstinação dessa gente vinda da lavoura. Elza colheu algodão no Paraná até os 17 anos. Germano entregava leite de porta em porta e puxava enxada quando resolveu, aos 11 anos, ser “pesquisador”. Estudando só em escolas públicas, chegou ao doutorado na Universidade de Campinas com uma tese sobre o comportamento do átomo de cálcio congelado sob raio laser e ao emprego no laboratório de Fotônica do Centro Técnico Aeroespecial de São José dos Campos.</p>
<p>Desde então, ele poupa salários <a href="http://www.ra-bugio.org.br/areasprotegidas.php?id=13">para comprar matas na serra de Santa Catarina</a>. Quer preservar imagens de infância ameaçadas de sobreviver só em sua lembrança. Criou, com isso, três reservas na região. Milhares de alunos das escolas locais costumam visitá-las todos os anos, para conhecer a terra em que quase não nasceram.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um salto de oito mil anos para trás</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2009/10/21/um-salto-de-oito-mil-anos-para-tras/</link>
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		<pubDate>Wed, 21 Oct 2009 19:44:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura]]></category>
		<category><![CDATA[desmatamento]]></category>

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		<description><![CDATA[É impróprio dizer que o deputado Luiz Carlos Heize, da frente parlamentar de oposição do Código Florestal, só tenha visão de curto prazo. Ele examina o assunto de um ponto-de-vista ostensivamente pré-histórico.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_175" class="wp-caption aligncenter" style="width: 461px"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Lorenzetti.jpg"><img class="size-full wp-image-175      " title="Lorenzetti" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Lorenzetti.jpg" alt="Lorenzetti" width="451" height="118" /></a><p class="wp-caption-text">Ambrigio Lorenzetti, alegorias do bom e mau governo, Siena, século XIV</p></div>
<p style="text-align: left;"><strong> Q</strong>uem acha que os políticos brasileiros têm visão de curto prazo não conhece o deputado Luiz Carlos Heize. Ele é gaúcho, engenheiro agrônomo, fazendeiro e abarca na vida pública um horizonte mais vasto que o dos campos de soja em seu estado, pelo menos quando se trata de desmontar o Código Florestal.</p>
<p>O Código caiu nas mãos calejadas dos ruralistas. E vai sendo levado para  o abate pelo cabresto da comissão especial que prepara sua reforma na Câmara dos Deputados, o que deu a Heize a oportunidade de provar que enxerga longe, sobretudo os assuntos mais próximos de seus interesses pessoais. Ele acredita que o Código Florestal – como a soja transgênica, que aliás Heize defende – é essencialmente um produto importado. Está no Brasil para semear a idéia de “que os trouxas aqui têm que preservar, depois que a Europa, há oito mil anos, já desmatou o que tinha”.</p>
<p>Isso é que se chama visão histórica. Ou melhor, pré-histórica. A última palavra da política brasileira em matéria de competição internacional desabrochou na oratória de um deputado que, não faz muito tempo, mal conseguia avistar, do alto de seu terceiro mandato, o que acontecia no país quando ele tinha cerca de 15 anos.</p>
<p>Naquele tempo, o Congresso aprovou o Código Florestal. Era o segundo que o Brasil fazia para depois não usar. O primeiro, então ultrapassado, datava de 1934. E continuava mais virgem do que as florestas que tentou manter. Legisla-se há 75 anos sobre a conservação de matas no Brasil, sem contar as ordenações portuguesas e outras velharias nacionais que nunca pegaram. Tudo com base na suposição de que as matas são bens públicos, mesmo se estão em terras privadas.</p>
<div id="attachment_176" class="wp-caption alignleft" style="width: 287px"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Mau-governo-6x6.jpg"><img class="size-full wp-image-176  " title="Mau governo 6x6" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Mau-governo-6x6.jpg" alt="Lorenzetti, detalhes do mau governo" width="277" height="277" /></a><p class="wp-caption-text">Lorenzetti, detalhes do mau governo</p></div>
<p><strong>U</strong>m deputado capaz de ver o que aconteceu no Velho Mundo há oito mil anos deveria ser capaz de perceber também o que houve no Brasil uns 44 anos atrás. Mas não. El deve estar precisando de óculos para perto, porque outro dia mesmo surpreendeu-se com o decreto 6.686 que, com quase meio século de atraso e considerável desconto em várias cláusulas, ameaça pôr em prática o que os autores do Código de 1965 puseram no papel sobre reservas legais.</p>
<p>Heize reagiu ao decreto com espanto: “Se já não bastassem as inúmeras dificuldades enfrentadas pelos agricultores para sobreviver no campo, agora querem que cada um destine 20% de suas terras para preservação”, ele protestou. Seu “agora querem” soa mais anacrônico que seus “oito mil anos”.</p>
<p>Pena que não dê para embarcá-lo numa viagem parlamentar, com tudo pago, ao mundo de oito mil anos atrás. Ele visitaria magníficas ruinas de florestas primevas, inclusive no Crescente Fértil, onde a agricultura nascente, com a ajuda das mudanças climáticas, começava a plantar o atual deserto. Não foi à toa que foi ali a expulsão do paraíso. No caso, o paraíso das florestas de carvalho que cobriam as margens do Eufrates, um berço da civilização no atual Oriente Médio.</p>
<p>Havia por lá queimadas para deputado brasileiro nenhum botar defeito. “Em cada temporada de plantio, espessas fumaças cinzentas se misturavam às chamas saltitantes no embaçado céu azul”, conta o antropólogo Brian Fagan sobre a chegada da civilização neolítica à Europa. E Heize poderia se hospedar em cavernas tão sufocadas de fumaça que “pulmões enegrecidos são comuns em corpos mumificados” daquela época, segundo o historiador John McNeill.</p>
<p>A receita do progresso que Heize advoga está mesmo pronta. Para tentar de novo, basta regar com suor e tragédias por oito mil anos. E, mais dia, menos dia, chegaremos aonde o mundo está.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A agricultura do país ainda é colonial</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2009/10/05/agricultura-colonial-modelo-brasil-2009/</link>
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		<pubDate>Mon, 05 Oct 2009 18:55:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura]]></category>
		<category><![CDATA[desmatamento]]></category>
		<category><![CDATA[VI CBUC]]></category>

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		<description><![CDATA[A conversa de que a agricultura brasileira está emparedada pelo excesso de reservas ambientais esbarrou em Curitiba com o historiador José Augusto Drummond. E caiu no ridículo. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<p>Se a medida da distância for o noticiário, o Brasil passou a semana muito mais perto de Nova York, onde a ONU fez um tímido ensaio geral para a conferência do clima em Copenhagen, que de Curitiba, onde rolava longe das manchetes o VI Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, da Fundação O Boticário.</p>
<p>Com isso perdem informações vitais até para a reconciliação de sua política externa com a agenda internacional da desordem climática, que podem ser recuperadas, pelo menos em grande parte, aqui mesmo neste site. Mas é urgete ouvir o que o historiador José Augusto Drummond contou, na segunda-feira, a um auditório com 1.200 pessoas, sobre a choradeira dos agricultores contra o despropósito das áreas protegidas. Porque esse é um assunto do dia a dia que ameaça amanhecer um belo dia encravado de uma vez por todas no futuro dos brasileiros.</p>
<p><strong>Terra de sobra</strong></p>
<p>Drummond coordena o Centro de Desenvolvimento Sustentatável da Universidade de Brasília. É um “consumidor” declarado de parques nacionais. Quer dizer, alguém que os visita regularmente. E por isso sabe, com base na experiência própria, que eles estão longe de ser um pedaço perdido do território nacional, como muita gente boa pensa ou pelo menos anda dizendo o ministro da Agricultura Reinhold Stephanes.</p>
<p>Stephanes toca há tempos uma campanha oficial de desobediência civil ao Código Florestal, papel certamente impensável num governo menos anárquico que o do presidente Lula. Já disse, entre outras apostas, que os agricultores no Brasil só conseguem produzir porque desobedecem ostensivamente essa lei de 1965, segunda versão de um regulamento ambiental de uso da terra que o país discute sem aplicar desde o começo do século passado. Só a indigestão de escândalos e gafes políticas pode explicar como a conspiração contra uma lei vigente por um ministro em exercício passa pela opinião pública como debate normal.</p>
<p>Se fosse normal, o ministro Stephanes não estaria na campanha que o governador André Puccinelli  abriu esta semana contra o zoneamento proposto pelo Ministério do Meio Ambiente para conter os canaviais que avançam sobre o Pantanal Matogrossense. Puccinelli declarou que, se o ministro Carlos Minc pisasse no Mato Grosso do Sul, “iria correr atrás dele e estuprar em praça pública”.</p>
<p>Mas, felizmente, Stephanes não tem a seu lado só os Puccinellis da vida. Ele também se apoia em dados estatísticos que, em si, parecem sérios, senão incontroversos. Vêm carimbados por monitoramento de satélite. E trazem o selo respeitável da Embrapa. E isso merece ser discutido.</p>
<p style="text-align: center;">
<p><strong>Dados da Embrapa</strong></p>
<p>Faz tempo que esses dados circulam pelo país como verdade estabelecida, como tudo no Brasil que trazem números e percetagens como atestados de pedigree acadêmico. Mas Drummond mostrou em Curitiba que eles não passam da última versão de uma antiquíssima conversa fiada, que balança o berço esplêndido desde que desembarcou aqui com os europeus. No Novo Mundo, eles aproveitaram a fartura aparentemente inexaurível de terras virgens para reabilitar tecnologias neolíticas de agricultura.</p>
<p>Ou, mais precisamente, rebrotou em nosso clima um tipo de agricultura que já estava para lá de caduca na Europa, depois de devastar até a exaustão a orla do Mediterrâneo nos primódios da Idade do Bronze. Transplantada para este lado do Atlântico, ela cruzou com a coivara indígena para gerar uma política fundiária que, antes de mais nada, pretendia ocupar o máximo de espaço com o mínimo de imigrantes. E está aí até hoje, como o popular fogo no mato.</p>
<p>Na colonia, estorricar o solo depressa era um meio de furar a fila interminável dos candidatos a sesmarias. Terra esgotada era credencial para perpetuar o direito de queimar florestas nativas. O Brasil foi ocupado por fazendeiros que, segundo Sérgio Buarque de Hollanda, “mineravam” a terra, até exaurir seus recursos. Foi assim que, no século 19, os cafezais e outras culturas de exportação consumiram 25 mil quilômetros quadrados de mata atlântica só na serra fluminense, produzindo riquezas efêmeras e uma duradoura falta d’água na capital do império, que só melhorou com o reflorestamento das encostas no Alto da Boa Vista.</p>
<p>Esta história, Drummond conta muito bem contada em Devastação e Preservação Ambiental no Rio de Janeiro. Trata-se de desses grandes livros, de leitura indispensável, que infelizmente não vingaram no Brasil. Se mais brasileiros o lessem, talvez o ministro Stephanes não dissesse com tanta desenvoltura o que diz. Porque a história depõe contra seus argumentos. Como os sesmeiros portugueses, ele prega o atraso em nome do progresso. Lastreia-se em números gordos, até impressionantes, que parecer falar por si. Em parte porque foram com terras indígenas, quilombos e outras categorias frouxas de conservação, para dar a impressão de que o país é mais pródigo em áreas protegidas do que, cada vez menos, consegue ser, apesar dos milhões de hectares que se acrescentaram nos últimos anos ao escore da política ambiental.</p>
<p>Drummond botou os números do ministro em seu devido lugar &#8211; má companhia da depredação colonial. Para tanto, nem precisou desmentir as contas, pelas quais, juntando tudo, sobrariam menos de 30% para a agricultura brasileira. Ou mesmo “26%”. Usou-as para lembrar que elas podem afirmar o contrário do que parecem estar dizendo.</p>
<p>Para isso, discutiu o que vêm a ser mesmo, na prática, 26% de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. É tanta terra que só a soja, dona atualmente de 2,49% do país, ocupa duas vezes e meia o espaço que cabe ao estado de Santa Catarina inteiro. A pecuária tem sob suas patas 20,23% do território nacional. Os assentamentos da reforma agrária, 5,5%.</p>
<p>Olhando assim, o que se vê, por todos os lados, mesmo nos números da Embrapa, não pode ser falta de terra. Deve ser então falta daquilo que outro historiador, Capistrano de Abreu, chamou de “vergonha na cara”. Mas isso, segundo Capistrano, não é assunto para reforma do Código Florestal. Era um artigo único de um projeto revolucionário da Constituição brasileira.</p>
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