<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Marcos Sá Correa &#187; Conservação</title>
	<atom:link href="http://marcossacorrea.com.br/tag/conservacao/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://marcossacorrea.com.br</link>
	<description>Colunismo a Quilo</description>
	<lastBuildDate>Sun, 27 Mar 2011 14:59:33 +0000</lastBuildDate>
	<generator>http://wordpress.org/?v=2.9.1</generator>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
			<item>
		<title>Para quem não for ministro em 2011</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/29/para-quem-nao-for-ministro-em-2011/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/29/para-quem-nao-for-ministro-em-2011/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 29 Dec 2010 21:55:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Ano Novo]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Mudança Climática]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1404</guid>
		<description><![CDATA[De quatro em quatros anos, o réveillon se confunde no Brasil com a posse de novos governos. Por isso mesmo, está mais do que na hora de festejar o fato de que nem tudo neste planeta se resolve lá em cima. Muita coisa pode acontecer cá embaixo, enquanto os políticos se divertem, fazendo o possível para o mundo continuar o mesmo. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Fogos.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1405" title="Fogos" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Fogos.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p><strong>O</strong>s políticos trabalharam tanto ultimamente para compor o ministério do governo Dilma Rousseff, embananar mais uma conferência do clima em Cancún e resolver outros problemas cruciais da humanidade, que às vezes a gente se esquece de quem trata de assuntos concretos cá embaixo.</p>
<p>Séculos inteiros podem passar sobre o cotidiano antes que um historiador como Fernand Braudel resolva cavucá-lo em busca da História silenciosa, a que parece imóvel mas, calada, move o mundo. E nada impede que, um dia, 2010 seja lembrado como o ano em que a GM começou a fazer nos Estados Unidos um carro elétrico, o Volt, com a escória do plástico que serviu para enxugar o óleo derramado pela BP no Golfo do México.</p>
<p>Isso não faz necessariamente da GM um modelo para o futuro. Suas vendas de carros estão em queda. As de picapes e outros mastodontes de lata em alta. O Volt fecha o ano com 10 mil carros vendidos. Deve emplacar uns 45 mil em 2011. Por enquanto, só está aí para provar que existe. Mas é o quanto basta para lançar a sombra da obsolescência e do anacronismo sobre os carros que fabricamos, importamos e compramos como nunca no Brasil. Se até a GM já faz carro elétrico, está na hora de adiar a visita às concessionárias que não acertarem o passo com as matrizes estrangeiras.</p>
<p>Não adianta argumentar que, sim, nossos carros novos estão na fila de velharia, mas em compensação o i-Pad e todos os “i-s” da Apple já desembarcaram em massa no Brasil. Vestidos de alumínio, são todos tão elegantes que esta semana, no <em>Wall Street Journal</em>, o jornalista Brett Arends, guru de bolsa, admitiu que as ações da Apple furaram estrepitosamente o teto de cotação que ele considerava prudente, ou mesmo possível. É que não se trata mais de uma empresa de tecnologia, mas de uma grife. “A Apple”, ele alegou, “é uma marca de luxo, como a Hermés ou Tiffany”.</p>
<p>E é exatamente por estar tão em voga que não pode dar ao freguês a sensação de que, ao adquirir um objeto bonito, comete em público um ato feio. Para remediar esse embaraço, a última palavra em acessório para MacBook pode ser um atestado de bom comportamento, expedido em Nova York pela Belgrave Trust.</p>
<p>A Belgrave calculou quanto cada MacBook de alumínio custará ao planeta, da fábrica ao fim da vida útil. São 630 quilos de dióxido de carbono, que o feliz proprietário pode zerar, de saída, pela bagatela de 10 dólares, investidos em reflorestamento. Se colar, a indulgência ambiental da Belgrave arrecadará uns 100 milhões de dólares. É árvore que não acaba mais.</p>
<p>E para não parecer que só o presente aponta para o futuro, ponha-se no pacote deste Natal o Homem de Denisovan. Ou seja, o osso da mão de uma prima do Homem de Neandertal descoberta na Sibéria. É uma velha obsessão do biólogo americano Bernd Heinrich o sumiço repentino dessas criaturas, que tinham cérebros tão grandes quanto os nossos, usavam fogo, despachavam seus mortos com flores e zanzaram pela Ásia e a Europa por mais de 250 mil anos</p>
<p>Ele acredita que o Homem de Neandertal sobreviveu pacificamente a tres eras glaciais por ter o corpo coberto de pelos, como o dos macacos japoneses que vivem na neve. Desapareceu porque o clima esquentou, abrindo alas para o glabro <em>Homo sapiens </em>e sua incurável propensão a exterminar tudo o que considera diferente. O homem peludo sofreu a primeira campanha de limpeza étnica de nossa história. E Heinrich insiste que ele até hoje tem algo a nos dizer sobre as vantagens para o planeta da coexistência pacífica. A época não poderia ser mais propícia para o dedo de Denisovan indicar o caminho.</p>
<p>E feliz Ano Novo!</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/29/para-quem-nao-for-ministro-em-2011/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Adeus à onça, com ótimas lembranças</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/21/adeus-a-onca-com-as-melhores-lembrancas/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/21/adeus-a-onca-com-as-melhores-lembrancas/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 21 Dec 2010 21:12:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1369</guid>
		<description><![CDATA[Em "Jaguar", o biólogo Evaristo Eduardo de Miranda e a jornalista Liana John conseguem nos dar saudades antecipadas desse bicho que continua por aí, mas deixou de ser há muito tempo "O Rei das Américas" do subtítulo,  que o belo livro prudentemente reservou às páginas internas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Onças-trepando.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1368" title="Onças trepando" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Onças-trepando.jpg" alt="" width="474" height="296" /></a></p>
<p><strong>H</strong>á onças que nos perseguem pela vida afora. Como a que atravessa o caminho de Dante para o Inferno. “<em>Lonza leggera</em>”, de pelo “<em>macolato</em>”, vista na “selva selvagem, dura e forte” da Itália do século XIV, quase 200 anos antes que as onças propriamente ditas fossem descobertas pelos europeus na América.</p>
<p>Que <em>lonza</em> era então aquela, tão longe de casa e de época? O livro <em>Jaguar</em>, do biólogo Evaristo Eduardo de Miranda e da jornalista Liana John acaba de dar, senão a resposta, um bom motivo para desistir da pergunta. Afinal, todos os felinos do mundo vêm de um certo <em>Proailurus</em>, que andou pela Europa há uns 25 milhões de anos.</p>
<p>A descendência do <em>Proailurus</em> só veio a perder definitivamente a cidadania européia há 10 mil anos, no corpo da uma <em>Panthera onca toscana. </em>“Toscana”, portanto, como a terra de Dante. Daí a parar na <em>Divina Comédia</em> é um pulo. Grande, sem dúvida. Mas nada que se compare a saltar de um continente a outro, por cima do Atlântico, antes do descobrimento. Basta isso para fazer de <em>Jaguar </em>um desses livros que contam até o que sequer passou pelas cabeças dos autores.</p>
<p>Aí, não há como deixar de conferir o que eles têm a dizer nas outras 299 páginas. O livro oculta um subtítulo: “O Rei das Américas”. Discreto como a própria onça, ele escapou da capa para as páginas internas. Na capa, poderia espantar quem considera o jaguar é o rei de um reino perdido. Perdeu, por exemplo, boa parte de um território que invadia os Estados Unidos pelo menos até o Grand Canion e costeava as praias brasileiras de norte a sul, enquanto nelas ainda havia mata atlântica.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Caçada-de-Onça.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1370" title="Caçada de Onça" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Caçada-de-Onça.jpg" alt="" width="474" height="296" /></a></p>
<p>Está na lista de espécies ameaçadas de extinção da União Internacional de Conservação da Natureza. Quantos são? Com boa vontade, 100 mil. Seja qualquer for seu número, trata-se de uma população cada vez mais isolada em fragmentos florestais declinantes e santuários da fauna tropical que se espalham como retalhos por 18 países.</p>
<p>E de que lhe adianta ser rei nesses tempos republicanos, em que os Estados Unidos lhe negaram em 2008 visto de entrada para projetos de repovoamento? Se ele zanzasse livremente de um lado para outro, abriria brechas na fronteira mexicana a todos os migrantes indesejáveis. Como rei, ele perdeu também estatura. Mal chega às costelas do bisavô <em>Panthera atrox, </em>o leão-americano que, pelos fósseis encontrados na Califórnia, passava dos três metros de comprimento e dos 300 quilos de peso. Humilhava o leão africano.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Peles-de-Onça.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1371" title="Peles de Onça" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Peles-de-Onça.jpg" alt="" width="478" height="299" /></a></p>
<p>O <em>Panthera atrox</em> acabou faz tempo, junto com todo o bestiário mastodôntico que a presença humana tirou do mapa americano milênios antes do descobrimento. E foi assim, pela mão do homem e da mudança climática, que começou o reinado do jaguar como maior carnívoro da América, sem adversário na natureza. “Nenhum império humano durou tanto”, lembra Miranda. Ele agora está no fim pela mesma combinação de fatores que promoveu seu coroamento no fim do Pleistoceno – a influência do homem e a do clima.</p>
<p>Para rei, só não lhe faltam os títulos inatos. É um caçador furtivo e eficaz. Seu nome indígena, <em>jaguar</em>, significa “aquele que luta”. Um macho adulto pode andar 50 quilômetros numa noite, medir quase dois metros, sem contar a cauda, pesar cerca de 100 quilos e fazer tudo isso desaparecer na folhagem mais rala, com o contorno de seu corpo borrado pelas manchas da pelagem. Não tem fronteiras, como prova a inexistência de subespécies da <em>Panthera onca, </em>sinal de que andou por aí trocando genes entre os hemisférios enquanto circulou livremente pela América. Nem por isso mereceu até agora um salvo-conduto internacional como o que, mal ou bem, defende do extermínio as baleias.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Vaso-de-Onça.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1372" title="Vaso de Onça" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Vaso-de-Onça.jpg" alt="" width="474" height="296" /></a></p>
<p>Ainda é caçado no Brasil até dentro de parques nacionais, como troféu esportivo, como dono de pele valorizada pelo mercado negro ou como inimigo número 1 da pecuária. Por isso, cada linha de sua história soa desde já a homenagem póstuma. E não deve ser à toa que a segunda parte do livro trata do “Jaguar Mítico” – o que vai ficar, em forma de esculturas pré-colombianas, pinturas rupestres, cerâmicas indígenas, cédulas de 50 reais ou automóvel inglês. Como souvenir da incompetência humana.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/21/adeus-a-onca-com-as-melhores-lembrancas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Quem nasce Manu não vira Bambi</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/11/14/quem-nasce-manu-nao-vira-bambi/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/11/14/quem-nasce-manu-nao-vira-bambi/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 14 Nov 2010 18:29:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1313</guid>
		<description><![CDATA[Manu, uma corça encontrada no parque do Iguaçu com dois dias de idade, depois de atacada por um predador, resolveu aprender sozinha a viver no mato. E o os biólogos que a adotaram só podem lhe dar apoio. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2125.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1314" title="_MG_2125" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2125.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p><strong>P</strong>ara fazer em documentário o que Bambi fez em desenho animado, Manuela só falta falar. O resto das credenciais para lhe tomar o papel ela tem de sobra. Desde a pelagem cor de ferrugem, salpicada de manchas claras, que pode ser feita para disfarçar sua presença entre folhas secas, mas brilha nas telas como enxoval de lamê. Até a orfandade. Em seu caso, por sinal, mais precoce que a de Bambi.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2144.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1315" title="_MG_2144" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2144.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Mas falar ela não fala. E só por isso Bambi não precisa temer a concorrência. No reino dos animais lacrimogêneos, ele continua imbatível. Manuela – ou melhor, Manu – é só uma corça. Um filhote ao mesmo tempo frágil e rústico de veado mateiro, ou <em>Mazama americana</em>. Está agora no segundo mes de vida.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2176.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1316" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="_MG_2176" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2176.jpg" alt="" width="273" height="409" /></a>Ela trazia ainda na barriga um  fiapo seco de umbigo, que cai no máximo em tres dias, quando foi achada em 25 de outubro por guias turísticos. Presume-se, pelo umbigo, que tivesse dois dias de idade, no máximo. Estava ferida, com sinais de que andara roçando a goela de um predador. Talvez uma irara, que lhe deixara duas marcas de dentes. Mas nenhuma cicatriz nem ferida mais profunda.</p>
<p>Ela apareceu sozinha em local meio habitado, perto da oficina que aluga bicicletas para as pedaladas do Macuco Safari até o Poço Preto. Da oficina ao Poço Preto são quase dez quilômetros de floresta, por um caminho de terra que os anos vão estreitando, em vez de alargar. O caminho passa no verão sob um túnel praticamente contínuo de copas altas, bromélias, cipós e lianas. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/">No outro extremo, parece atualmente ermo e remoto.</a></p>
<p>Mas não foi sempre assim. Há fotografias da década de 1920 em que o Poço Preto serve de pátio a carros de passeio, com vastas grades cromadas e pneus de banda branca. Saídos dos porta-malas, motores de popa e galões de combustível anunciam a intenção de vencer as corredeiras do rio Iguaçu, logo acima das Cataratas. Era uma fase em que os domingos das Cataratas eram de muita festa para poucos.</p>
<p>Trechos do caminho costeavam cercas de arame farpado. Um promotor tinha casa de<a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2241.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1317" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="_MG_2241" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2241.jpg" alt="" width="273" height="409" /></a> campo na beira do rio, onde atualmente só existe um caramanchão de madeira com teto de sapé e um ancoradouro flutuante. Uma placa informa que as instalações de apoio ao turismo na trilha tiveram que se ajustar à constatação de que o lugar é sítio arqueológico, com restos de cerâmica indígina. Mas até hoje resistem de pé nas suas margens postes de concreto, que o musgo camuflou entre os troncos nativos. Dizem que as cutias acabaram tomando gosto por essas tocas sextavadas.</p>
<p>Melhor para elas. Parque nacional não é só natureza intata, muito menos imutável. Também é lugar aonde se vai para voltar no tempo e, com sorte ou boa administração, ver antigos erros ficarem para trás. Há trinta e tantos anos, quando naquelas terras do governo moravam mais de 400 pessoas, havia fazendas de gado e o hotel das Cataratas mantinha um pequeno zoológico no gramado, Manuela dificilmente escaparia de uma jaula – ou até da grelha. Havia caçador vendendo carne de veado na estrada das Cataratas.</p>
<p>Isso mudou. Há outro tipo de gente em atividade lá dentro. Os guias que encontraram a pequena corça ferida confiaram Manu em regime de urgência a estagiários do Carnívoros do Iguaçu, que fazem o recenseamento dos grandes predadores do parque. E o que tem pesquisadores de carnívoros a ver com corça ferida? Tudo. São biólogos. Voluntários da conversação.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2283.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1318" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="_MG_2283" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2283.jpg" alt="" width="289" height="409" /></a><a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/04/21/766/">Os coordenadores do projeto Carnívoros</a>, além de formar o núcleo da equipe, formam um casal acostumado a ter hóspedes em casa das mais variadas espécies. Eles cruzaram o caminho das onças vindos de direções opostas. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/">A bióloga Marina Xavier da Silva se instalou no parque há mais de seis anos</a>, para trabalhar com proteção da fauna por uma ONG que mal conseguia salvar a si mesma da extinção. O biólogo Alexandre Vogliotti chegou ao Iguaçu, seguindo os rastros de sua tese de doutorado sobre cervídeos.</p>
<p>Acabaram juntos em tudo &#8211; casa, esccritório e mato. Cuidam do Carnívoros e de Manu com se tudo isso fosse, como é, uma coisa só. De quebra, a corça caiu nas mãos de um especialista em cervídeos. O nome Manu, aliás, homenageia uma sobrinha de Vogliotti, que mora no Acre e tem dois anos de idade.</p>
<p>A corça passou lepidamente pela convalescença, num quarto da casa onde eles moram, no meio do mato, sem vizinho próximo, beirando o rio Iguaçu. Nos primeiros dias, quando Marina e Alexandre saíam para trabalhar, ela ia junto. Ocupava durante o dia um cercado na sede do parque. A administração parava para para visitá-la.</p>
<p>Terminado o expediente, a família voltava para casa, às vezes pela picada, Manu seguindo seus passos. Em casa, ela espalhava aos saltos pelo jardim, esticando os . s músculos. Nessas ocasiões, ensaiava escapulir pelo portão, sempre escancarado. A floresta estava bem ali, a poucos passos, chamando.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2290.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1319" title="_MG_2290" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2290.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Há semanas, Manu saiu no fim da tarde e não reapareceu para dormir. Tinha mudado de endereço. Mora agora perto do casal. Mas fora de suas cercas. Na noite em que escapou, Marina achou-a alojada na folhagem, junto à velha estrada com calçamento de pedra bruta que desce da administração até a margem do rio Iguaçu. Tudo por sua conta e risco, como manda o figurino dos filhotes de <em>Mazama americana.</em></p>
<p>Desde então, Manu visita duas vezes por dia a casa de Marina e Alexandre. Vai em busca de suas doses diárias de mamadeira, consumindo em média um litro e meio de leite de vaca, enriquecido com ração para gatos recém-nascidos. Cada vez mais, mistura essa dieta com folhas que vai aprendendo sozinha a escolher no mato. Uma vez alimentada, brinca com os pais adotivos. E ao acair da noite sai em busca de sua própria vida.</p>
<p>Antes de tomar esse rumo, ela estava mais ou menos condenada a passar o resto da vida em cativeiro, tão logo ultrapassasse a fase do desmame. Parecia impossível readaptar à floresta uma corça que se desligara tão cedo da mãe. Mas ela pelo visto tem outras planos. E sua reinserção na vida silvestre começa a virar mais um tema de estudos no caderno de Vogliotti.</p>
<p>Onde tudo isso vai dar nem ele sabe. Não é roteirista de desenho animado para fabricar um final feliz para seu personagem. Manu optou pelo risco. Os pais adotivos não tiveram outra escolha além de apoiá-la nessa escolha instintiva. Em parque nacional ninguém é dono de nada. Muito menos das vidas que salva.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_20911.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1321" title="_MG_2091" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_20911.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/11/14/quem-nasce-manu-nao-vira-bambi/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>6</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A hora e a vez do Steindachneridion</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/11/09/steindachneridion-scriptum-sai-da-sombra/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/11/09/steindachneridion-scriptum-sai-da-sombra/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 09 Nov 2010 16:15:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Pesquisa de campo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1301</guid>
		<description><![CDATA[Às vésperas de fazer 72 anos, o Iguaçu ganha sua primeira pesqiuisa de icitiofauna logo abaixo das  cataratas e descobre, logo na primeira rodada de estudos, que é parque nacional também debaixo d'água.  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/Steindachneridion-scripta_0656.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1302" title="Steindachneridion scripta_0656" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/Steindachneridion-scripta_0656.jpg" alt="" width="409" height="273" /></a></p>
<p><strong>O</strong> nome científico já soa quase como um aviso de que o assunto é sério. O bicho se chama <em>Steindachneridion scriptum</em>.  É um surubim. Seria mais conhecido por Bocudo, se décadas de invisibiliidade não o tivessem reduzido ultimamente à espécie universal dos ilustres desconhecidos, mesmo  entre os pescadores mais tarimbados do rio Iguaçu, que mal se lembram de quantas vezes toparam com ele nas águas escuras do rio lá vão duas ou três décadas.</p>
<p>Mas <em>Steindachneridion scriptum</em> continuou firme nos guias de campo argentinos &#8211; onde consta, por sinal, como <em>scripta</em> &#8211; como se estivesse só esperando a hora de voltar. Lá, é descrito como um bagre manchado, medindo cerca de 80 centímetros. E caiu dias atrás na rede de pesquisadores da ictiofauna, o primeiro censo da fauna aquática de que se tem notícia debaixo das Cataratas, que supostamente dividem o mundo dos peixes no Iguaçu com uma sólida fronteira de basalto a prumo.</p>
<p>Agora os especialistas estão descobrindo que não é bem assim que as coisas rolam nas corredeiras onde o Iguaçu percorre seu último trecho, para desaguar  no rio Paraná. Aparentemente, durante toddo esse tempo de sumiçoo o <em>Steindachneridion scriptum </em>esteve ali, atrás de de uma das paisagens mais vistas e revisitadas do mundo.</p>
<p>Só nas últimas enchentes humanas, mais de 12 mil pessoas se debruçaram em suas corredeiras a cada domingo de feriadão, enquanto o parque acumula seus um recordes de bileheteria. Todo mundo nos mirantes. E o <em>Steindachneridion scriptum </em>logo abaixo,<em> </em><em> </em>nadando incógnito.</p>
<p>Havia indícios de que sua sombra na lembrança das famílias que, ainda na década de 1960, embora o parque já estivesse decretado havia mais de 30 anos antes, compraram no mercado local de grilagem terras devidamente tituladas dentro da unidade de conservação do governo federal. Era gente que, nas horas vagas, caçava e pescava, sem que se pudesse chamar sua atividade de furtiva. Assim como ostensivamente, nos dias úteis, ela se esforçava para empurrar pasra longe a floresta protegida, atirando-a na goela das serrarias.</p>
<p>Eram colonos. Faziam essas coisas com a olena convicção de estarem certos.Estavam ali para derrubar o mato e  levar à última barranca possível a vocação agrícola da economia paranaense. Era gente tão ciosa desses direitos que, fotografando-se em antividade, guardou para a posteridade flagrantes de um Iguaçu mais piscoso e opulento do que, nos últimos tempos, ele ganhou fama de ser. Numa dessas lembranças de família aparece um peixe grande. Fala-se dele como relíquia do velho Iguaçu, quando até o quartel da fronteira comparava peixes tirados do parque nacional para reforçar a bóia dos soldados.  A pesca artesanal e a esportiva em seus remansos eram risonha e franca.</p>
<p>Tres núcleos coloniais de cidades, quase quatro, fincaram no parque raízes que pareceram definitivas. Tinham escola estadual, linha de ônibus e luz elétrica, sem esquecer o papel tirado em cartório, comprovando a legítima propriedade da terra grilada. Nos anos 70 foram despejados dali. Os ex-moradores levaram em suas álbuns de família a tal foto do que parece um bagre corpulento e escuro, carregado com certa dificuldade nos braços de moradores. Mal saíra da água e já era um tratado troféu.</p>
<p>Há dúvidas sobre a classificação exata do peixe que se vê na fotografia. Não estava em voga no vilarejo de Santo Alberto o nome <em>Steindachneridion scriptum, </em>por sinal ilustre, herdado do naturalista Franz Steindachtner que, no século XIX , batizou o primeiro surubim e acabou imortanilzado pelo gênero inteiro.</p>
<p>O exemplar achado no cânion do Iguaçu deu sorte.  Foi devolvido ao rio na mesma noite, praticamente intato, a nâo por duas ou três escamas e um naco de gordura peitoral, que um dia talvez sirva para tirar a espécie da extinção em laboratórios de genética. Isso a lomgo prazo. A curto prazo, o primeiro efeito desse achado foi instantaneo.</p>
<p>Assim que o reconheceram, os pesquisadores Maristella e Sérgio Makrakis, da Unioeste, a universidade estadual da fronteira Paranaense, descbriram também o local da pesquisa como um território novo e paradoxalmente desconhecido, que há pelo menos 72 anos aguardava uma investiogação sistemática do que tem de importante o Iguaçu no trecho que passa entre parques nacionais, para ganha  o atestado de que o rio também integra as unidades de conservação.</p>
<p>O melhor é que o <em>Steindachneridion scriptum </em>deu o ar de sua graça logo na primeira semana, para animnar os trabalhos iniciados em outubro e previstos para durar dois anos. A próxima visita será no fim deste mes, depois de mais um feriadão. Se vier com mais novidades do mesmo calibre, há esperanças para os administradores do parque que os argumentos científicos silenciem a campanha para promover a pesca turística dentro do cânion, entre as quedas e a foz do Iguaçu.</p>
<p>Maristella e Sérgio Makrakis são o mesmo tempo uma equipe e um casal, como acontece tantas vezes num ofício que envolve longas viagens, convivência próxima em local isolado e o gosto comum por meter a mão onde nem todo mundo poria sequer a ponta dos dedos</p>
<p>Estão há mais seis meses recenseando os peixes do Iguaçu, acima das Cataratas, para avaliar os impactos de mais uma hidrelétrica, a quinta a represar o rio. Na parte superior do rio, Maristella e Sérgio coletaram amostras de 60 espécies diferentes. E não tem dúvidas de que passarão das 80 espécies estimadas para a população aquática do Iguaçu. Na margem direita do parque, constataram que o Floriano, o único rio do Sufdeste que corre num parque nacional da nascente à foz, é inquestionavelmente mais vivo do que os outros.  As redes montadas para amostragem em sua desembocadura vinham tão carregadas, que levava  até seis horas o trabalho de revistadas. Em média, issoé tarefa para meia hora.</p>
<p>Antes de chegar às quedas, o Iguaçu passa por quatro grandes comportas que regulam, entre outras coisas, o volume de sua água – e, portanto, o número e a beleza das cachoeiras – com uma agenda oposta à dos turistas. Quando o consumo de energia cresce, as comportas se abrem, a água corre solta e os visitantes que dão a sorte de estar diante delas num dia de trabalho pesado são premiados por cheias instantâneas e artificiais. Nos dias de repouso, quando o consumo de paisagem aumenta e o de eletricidade cai, ocorre o oposto.</p>
<p>Nada ali é natureza intata. Por isso mesmo cada descoberta mais ou menos rara ou inesperada como a do <em>Steindachneridion scriptum</em> dá trunfos à política de conservação.  “As pessoas não sabem a importância que essas coisas têm”, conclui Sérgio Makralis, que não é dado a arroubos retóricos e só enche a boca para soletrar, ao telefone, com a ajuda de Maristella ns sílabas mais arrevezadas,</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/11/09/steindachneridion-scriptum-sai-da-sombra/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>6</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Uma palavra vale mais que mil palavras</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/09/13/a-palavra-vale-mais-que-mil-palavras/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/09/13/a-palavra-vale-mais-que-mil-palavras/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 13 Sep 2010 12:37:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[desmatamento]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Iguazu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1185</guid>
		<description><![CDATA[De onde vem a palavra "meandro", tão universal que se encaixa naturalmente no vocabulário de um guia de traços indígenas no rio Iguaçu? De um velho desastre ambiental que o mundo esqueceu. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Rio-Iguaçu_96222.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1188" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Rio Iguaçu_9622" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Rio-Iguaçu_96222.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a><strong>S</strong>ombrio como um túnel de árvores e manso como um igarapé, o Iguaçu nem parece o rio que dali a pouco vai despencar em mais de 200 cachoeiras, por quase três quilômetros de precipícios cavados a prumo no basalto.</p>
<p>O bote inflável desce sob as copas devagar. E, menos para empurrá-lo rio abaixo que para manter a sensação de imobilidade, o guia move os remos com a pachorra de quem sabe que, por baixo da superfície mansa e espelhada, a lenta correnteza nos deixará sem falta no porto, antes das corredeiras e quedas.</p>
<p>Ele tem traços indígenas. E sente-se notoriamente em casa. Para ele, tudo a seu redor conserva, ali na margem argentina, o nome que lhe deram os guaranís. E assim ele chama em voz baixa, quase falando sozinho, os <em>yaguás-pindás, güembés, jotes, ñanguapiris </em>ou<em> comadrejas</em> do caminho.</p>
<p>Está falando de trepadeiras, epífitas, urubus e roedores que existem, iguaizinhos aos do outro lado, o brasileiro. Mas assim, em castelhano ou, melhor ainda, em guaraní, a fauna e a flora soam como invocações de uma floresta mítica, a que existiu ali antes que as últimas sobras da mata nativa se enquadrassem nos estritos limites de dois parques nacionais, entre cidades e fazendas, no trecho final do Iguaçu. São molduras das cataratas.</p>
<p>Antes de chegar a esse ponto, o Iguaçu atravessa mil e tantos quilômetros de afluentes barrentos, comportas de hidrelétricas e bocas de esgoto. Nem parece. Na margem argentina, a curva do rio espalha o leito pela terra adentro, cavando um labirinto meio amazônico de braços, ilhas e praias. O rio passaria por selvagem, se as grandes cheias deste ano não tivessem pendurado nos galhos, agora fora do alcance dos mutirões de limpeza, sacos de plástico e tiras de pano, balançando como fantasmas da poluição industrial.</p>
<p>Foi lá que o guia usou na descrição da paisagem uma palavra mais ou menos universal: “Meandro”. Talvez por falta de equivalente em guarani. E, sem saber, citando um clássico do desmatamento. Meandro era, antes de se transformar em substantivo comum, um rio da Anatólia, na Ásia Menor.</p>
<p>Banhou, até cerca de 200 a.C., um berço da civilização. Na bacia do Meandro os gregos reencontraram os recursos naturais exauridos a oeste pelo apogeu da era do bronze no Mediterrâneo. Era um território de montanhas e florestas. Virou uma região de campos e trigais.</p>
<p>Em aproximadamente 500 anos – ou seja, a idade do Brasil – o machado e o fogo acabaram com as florestas do Meandro. A fertilidade do solo diminuiu. E o arado colaborou com as enxurradas para levar a terra ao curso do rio.</p>
<p>Tanto sedimento caiu no Meandro que os agricultores, quando perdiam suas propriedades pela erosão, podiam legalmente processar o rio. Pelo menos, segundo Estrabão, filósofo, geógrafo e incansável andarilho do mundo antigo, que morreu há quase dois mil anos. John Perlin, historiador contemporâneo, diz coisa pior em <em>A Forest Journey</em>, livro escrito em 1989 e atualizado em 2005.</p>
<p>“No século V a.C.”, conta Perlin, “o que hoje é o baixo vale do Meandro foi mar aberto”. Mios, o porto marítimo da época, fica agora a 25 quilômetros do litoral. Engolido pântanos, acabou colonizado por mosquistos. E os mosquitos derrotaram os gregos da Anatólia a golpes de malária.</p>
<p>É dai que vem “meandro”. A palavra pegou. Continua tão viva que está na boca do guia guarani no Iguaçu. Só o seu significado ambiental o mundo fez questão de esquecer.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/09/13/a-palavra-vale-mais-que-mil-palavras/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>4</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Pra não falar de campanha eleitoral</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/09/09/pra-nao-falar-de-campanha-eleitoral/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/09/09/pra-nao-falar-de-campanha-eleitoral/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 09 Sep 2010 16:08:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[desmatamento]]></category>
		<category><![CDATA[Mata Atlântica]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1157</guid>
		<description><![CDATA[Antes de jogar a toalha, convém se mirar o exemplo do físico Germano Woehl que, em vez de esperar pelas mudanças da política brasileira, resolveu pegar a unha o destino de um fragmento florestal na serra de Santa Catarina e há sete anos o mantém de pé, com denúncias e protestos. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Germano.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1158" title="Germano" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Germano.jpg" alt="" width="409" height="264" /></a></p>
<p><strong>O</strong> físico Germano Woehl Júnior escreve de Guaramirim para dizer que “conseguimos” adiar por sete anos a morte de uma restinga no litoral catarinense. “Nós” quem? Ele sempre põe os verbos na primeira pessoa do plural, o que dá ao destinário a ilusão de que faz parte da história. Antes de ler o resto, qualquer acha que conseguiu evitar algum estrago em lugares que mal consegue ver no mapa, sem a providencial ajuda do Google Earth.</p>
<p>Basta abrir a mensagem para constatar que “nós” é ele. Ou melhor, ele e a mulher, Elza Nishimira Woehl, que divide com o marido essas pequenas vitórias solitárias, exclusivas de quem nasceu para investir dinheiro e energia em causas que, soltas na correnteza das opiniões majoritárias, estariam, por definição, perdidas.</p>
<p>Não poderia ser menos majestático o plural de Woehls. Resume-se ao que os dois, sozinhos, conseguem fazer – como salvar a tal restinga entre Guaramirim e Araquari. É um tipo de floresta que lembra em miniatura a amazônica, “inundada a maior parte do ano, com árvores gigantes como o Olandi e o ipê caixeta” que, como o breve texto não se esquece de informar, também atende pelo apelido de “pau-tamanco”, como convém a uma espécie “explorada predatoriamente para fazer tamanco, artesanato, lápis”.</p>
<p>O fragmento é modesto. Mas ali o casal encontrou três anfíbios endêmicos, que aparentemente não existem em outros lugares dio estado. E sete anos atrás a mata estava condenada ao corte raso, por fazendeiros empenhados em abrir pastos. Coisa de gente grande. Um deles, é dono do maior frigorífico de Jaraguá do Sul, o centro industrial da região.</p>
<p>Denunciá-los aos órgãos ambientais e ao ministério público foi uma dessas imprudências que beiram a maluquice. Os Woehl foram até amaeçados por capangas. Mas levaram para lá os fiscais. Com os fiscais vieram as autuações. E um promotor de Araquari acabou comprando a briga. Por enquanto, a restinga venceu.</p>
<p>O e-mail veio contar que, comparando outro dia, por acaso, as imagens de satélite da época com as do ano passado, os Woehl notaram que o lugar mantem o mesmo desenho que tinha em 2002. Como eles não pregam prego sem estopa, as duas fotografias foram anexadas à mensagem. A mata parece mesmo transborbar o antigo contorno. Mas Germano não é marqueteiro para abusar de maquiagem. A parte que mais cresceu, ele avisa, “é de pinus”. Mas houve um trecho pequeno “que o dono de uma fazenda abandonou”. E ali parece estar ocorrendo a regeneração espontânea da floresta nativa.</p>
<p>E daí? Daí que Germano pode ser, nesta campanha eleitoral, o candidato que faltava para nos lembrar que, sob as borbulhas superficiais que chamamos política, jaz o leito duro do trabalho cotidiano e das obras anônimas. Aquilo que o historiador Fernand Braudel, matutando num campo de prisioneiros da Segunda Guerra Mundial, batizou de “História Imóvel”. É aquela não não dá notícia. Mas também molda o futuro.</p>
<p>Principalmente quando conta com a obstinação dessa gente vinda da lavoura. Elza colheu algodão no Paraná até os 17 anos. Germano entregava leite de porta em porta e puxava enxada quando resolveu, aos 11 anos, ser “pesquisador”. Estudando só em escolas públicas, chegou ao doutorado na Universidade de Campinas com uma tese sobre o comportamento do átomo de cálcio congelado sob raio laser e ao emprego no laboratório de Fotônica do Centro Técnico Aeroespecial de São José dos Campos.</p>
<p>Desde então, ele poupa salários <a href="http://www.ra-bugio.org.br/areasprotegidas.php?id=13">para comprar matas na serra de Santa Catarina</a>. Quer preservar imagens de infância ameaçadas de sobreviver só em sua lembrança. Criou, com isso, três reservas na região. Milhares de alunos das escolas locais costumam visitá-las todos os anos, para conhecer a terra em que quase não nasceram.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/09/09/pra-nao-falar-de-campanha-eleitoral/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Serra Grande já perdeu a eleição</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/22/serra-grande-ja-perdeu-a-eleicao/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/22/serra-grande-ja-perdeu-a-eleicao/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 23 Aug 2010 02:04:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Licença ambiental]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1145</guid>
		<description><![CDATA[O futuro de Serra Grande, no litoral da Bahia, parecia garantido. Seria uma experiência de desenvolvimento social e econômico baseado na conservação de sua natureza excepcional. Um trem de minério atropelou-o. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Vento-ruim.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1146" title="Vento ruim" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Vento-ruim.jpg" alt="" width="363" height="226" /></a></p>
<p><strong>Q</strong>uem está perdendo, até agora, a eleição presidencial é Serra Grande. Não confundir com outro Serra, o “Zé”. Serra Grande é um remoto povoado no litoral baiano. Mal passa dos três mil habitantes. E não tem um segundo sequer de horário eleitoral gratuito.</p>
<p>Por isso mesmo, Serra Grande não poderia ser um exemplo mais eloqüente de que esta campanha vai mal, desde que a entrada triunfal dos marqueteiros na disputa transformou o que parecia uma onda de nacional de bem-estar passageiro numa calmaria conformista a perder de vista. Ou seja, naquele tipo de contentamento geral que Camões chamou de &#8220;apagada e vil tristeza&#8221;.</p>
<p>À margem dos grandes debates nacionais, mas inseparável das escolhas fundamentais que os brasileiros terão de fazer nas urnas daqui a poucas semanas, Serra Grande faz muita falta na campanha. Pelo que tem que bom agora. E pelo que pode ter de ruim num futuro próximo. E assim, tendo tudo para ser uma solução, virou problema.</p>
<p>É uma amostra ainda viva daquele “país tropical, abençado por Deus e bonito por natureza”, como se dizia do Brasil na década de 1970. Tem baleias jubartes passando ao largo de suas praias. Florestas nativas beirando o mar, e tão exuberantes, que os atestados técnicos dos pesquisadores lhes conferem o recorde insuperável de diversidade na mata atlântica. E a modéstia das paisagens tão obviamente nativas que nem precisam de rótulos como <em>eco-resort</em> ou <em>beach-park</em> para mostrar que são genuinamente brasileiras.</p>
<p>Seus riachos se chamam Tijuipe (<em>copyright</em> Dandara) ou Ribeira. Mas não querem dizer  com isso que seus trunfos naturais são produtos típicos do atraso social e econômico. Parada no tempo ela ficou só até o fim da década de 1980, quando chegou lá a primeira estrada e, com o asfalto, as promessas e ameaças do desenvolvimento.</p>
<p>Mas lá a estrada tomou a tempo um desvio para o crescimento civilizador. À custa de muita negociação, Serra Grande se cercou preventivamente de uma área de proteção ambiental, a APA de Itacaré-Serra Grande. Aninhou-se num parque estadual, o do Conduru, com 9.300 hectares de florestas, encravados em 100 mil hectares de matas, manguezais e restingas.</p>
<p>Vista dos morros do Conduru, com o Atlântico moldado em contornos mediterrâneos pelas enseadas verdes, dá a impressão de que já nasceu para balneário e mafuá. Mas, na região, os passos foram cautelosos e negociados. A hotelaria teve que hospedar, antes de mais nada, vastas áreas da vegetação original em reservas privadas. Os proprietários de lotes aprenderam a olhar floresta de seus jardins como luxo primordial.</p>
<p>Com eles vieram ONGs, institutos e doadores que bancaram o reflorestamento de matas degradadas, conceberam bairros bairros populares com arquitetura e saneamento, trocaram invasões de morros por reassentamentos agrícolas ligados a feiras de produtos orgânicos. Brotaram assim  em Serra Grande programas de pós-graduação para aplicar lá mesmo os derivados práticos das últimas palavras em teoria da conservação.</p>
<p>A cidade tem sonhos e créditos para ser um polo de conhecimento aplicado ao uso racional da terra. Quem sabe, ressuscitar a economia do cacau, transformando sua secular parceria com a floresta na base de uma indústria de chocolates finos, com marca de origem.</p>
<p>Nada disso impediu que o governo Jacques Wagner desse, dias atrás, o passo decisico para sacrificar a APA de Itacaré ao Porto Sul. Em Itajuípe, a 45 quilômetros de Ilhéus, em meados de agosto, po5 15 votos a favor, cinco abstenções e um solitário “não”, o conselho gestor da área de proteção tornou quase certa a aprovação do projeto que transforma a região em corredor de exportação para o minério de ferro.</p>
<p>Trata-se de abrir passagem na floresta protegida para a Bamin – ou seja, a Bahia Mineração, um consórcio de empresas da Índia e do Cazaquistão, para vender à China 18 milhões de toneladas de minério de ferro por ano. Baianos mesmo, na Bamin, fora o minério, é a ferrovia de 700 quilômetros que o estado construirá da mina em Caitités até o mar, e o porto. No caminho fica Serra Grande e uma tal de Lagoa Encantada.</p>
<p>Com a largada da corrida final para o licenciamento da obra, Ilhéus amanheceu outro dia sob o letreiro que a declarava “de braços abertos para o futuro”. É com esse tipo de futuro que Serra Grande vai sendo empurrada de volta ao passado, sem que ninguém na campanha presidencial se lembrasse de discutir que Brasil será esse que vai às urnas em outubro para decidir se quer ser o que vem sendo a há mais ou menos 510 anos – uma fonte de matéria-prima para o desenvolvimento alheio.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/22/serra-grande-ja-perdeu-a-eleicao/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>6</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O Brasil tem lugar para uma onça?</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/09/o-brasil-tem-lugar-para-uma-onca/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/09/o-brasil-tem-lugar-para-uma-onca/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 09 Aug 2010 13:16:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1125</guid>
		<description><![CDATA[Trazem más notícias os dados coletados em dois meses de andanças pelo rádio-colar instalado num filhote de onça no Iguaçu: Pança gosta de lugares cheios de gente e de animal doméstico solto onde não deveria.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Onça-PNI_74652.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1128" title="Onça PNI_7465" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Onça-PNI_74652.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>C</strong>ravejado de pontos luminosos, o mapa brilha na tela. Mas o que mais se nota diante do computador é a sombra de dúvidas cruciais, franzindo a jovem testa da bióloga Marina Silva. Da ex-ministra do Meio Ambiente e atual candidata à presidência da República, ela tem o nome, não as certezas inabaláveis. E, como chefe do projeto Carnívoros do Iguaçu, encara neste momento um exemplo concreto de que, na conservação da natureza, as grandes encrencas podem vir até de soluções que pareciam caídas do céu.</p>
<p>No mapa está gravado, como um chão de estrelas, o diário íntimo de Pança, o filhote de onça pintada que virou o assunto do ano no Parque Nacional do Iguaçu. Ele veio ao mundo com um irmão. São dois machos. Não poderia haver melhor cacife do que uma dupla como essa para apostar na perpetuação da espécia, numa região onde talvez não sobrem 25 onças pintadas, em dez mil quilômetros quadrados de retalhos florestais, que vão Paraná ao Rio Grande do Sul, passando pelo Paraguai e pela Argentina.</p>
<p>Pança foi seguido durante dois meses por satélite. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/">Ganhou o rádio-colar em maio, ao ser flagrado comendo um bezerro</a>. Deve o apelido à barriga estufada de carne fresca e fácil, predada nos rebanhos que indevidamente confinam com o parque. Dois meses depois, havia crescido tanto que, para não estrangulá-lo, o aparelho foi solto por controle remoto. Estava a exatamente 380 metros do local onde o instalaram. Pudera. Ali, o proprietário cria cabritos soltos no mato, para fingir que tem reserva florestal, sem abdicar ao uso de cada metro quadrado do terreno.</p>
<p>Pança pode estar errado. Mas na ilegalidade estão os donos de sítios, casas de veraneio e fazendas. Atraído pelas tentações da marginalidade geral, Pança ficou a maior parte do tempo zanzando fora do parque. Usava nessas idas e vindas as margens do rio Iguaçu, que têm mata ciliar, embora em vários trechos ela se resuma a um diáfano biombo de árvores. Nessas aventuras mundanas, ele beirou casas de campo e fundos de hotéis. Num deles, o Canzi, usou fartamene como latrina uma construção abandonada no mato. Esteve perto da Vila Carimã, bairro residencial densamente povoado. Correu o risco de subir o rio Tamanduá e bater diretamente na área urbana de Foz do Iguaçu.</p>
<p>Mesmo no interior do parque, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/brabeza-de-onca-e-maldade-de-cacador/">ele circulou de preferência junto às áreas de visitação intens</a>a. Tirou vários finos das residências de funcionários, flanou pela sede administrativa, cruzou insistentemente trilhas reservadas ao ecoturismo e tomou gosto pelo hotel das Cataratas – <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/08/a-onca-pintada-na-era-do-foguete/">cujos arredores ostentam outra fulgurante constelação de pontos amarelos, assinalando sua presença</a>. O hotel é de cinco estrelas. Mas Pança não refugou a boia dos operários que, trabalhando na reforma das instalações, jogam restos de comida na beira da floresta.</p>
<p>Pança atravessou duas vezes o rio para se internar nas matas do lado argentino. Mas sempre voltou depressa ao Brasil, talvez porque encontrou por lá um território ocupado por macho adulto. No Brasil, praticamente ignorou a área intangível do Iguaçu, onde em princípio deveria encontrar sua floresta cativa.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Com ele vai seu irmão. Os dois ainda não separaram e, onde aparecem, em geral vêm juntos. Dias atrás, foram ao Macuco Safari, cujo programa oferece aos passageiros sustos na forma de corridas no cânion em barcos infláveis, não de encontros com onças pitadas. Os guias trataram de expulsá-los dali com rojões. Fugiram. Mas, no domingo seguinte, estavam lá de volta, como se nada tivesse acontecido.</p>
<p>E, por falar em fim-de-semana, no passado a dupla atravessou o asfalto a uns 300 metros do portão e tomou a estrada de terra qur desce para o barranco do Iguaçu. Pelo rumo, ia visitar mais uma vez o rebanho de cabritos criados ao deus-dará.</p>
<p>Marina Silva tem, portanto, duas onças para devolver ao que restou de vida selvagem no Oeste do Paraná. Talvez, cercando o parque. Porque não dá para educar ao mesmo tempo duas onças e tanta gente mal acostumada a conviver com unidades de conservação.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/09/o-brasil-tem-lugar-para-uma-onca/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>6</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Patrimônio Natural da Regionalidade</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/07/30/patrimonio-natural-da-regionalidade/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/07/30/patrimonio-natural-da-regionalidade/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 31 Jul 2010 01:48:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1099</guid>
		<description><![CDATA[Correm em raias paralelas em Brasília  reuniões com a Unesco para garantir, entre os assuntos, o títuto de Patrimônio Nacional da Hiumanidade para o Parque do Iguaçu e um novo projeto para cortá-lo com uma nova versão da velha Estrada do Colono.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Caminho-do-Poço-Preto_9494.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1100" title="Caminho do Poço Preto_9494" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Caminho-do-Poço-Preto_9494.jpg" alt="" width="409" height="272" /></a></p>
<p><strong>O</strong> Parque Nacional do Iguaçu entrou em rota de colisão com seu título de Patrimônio Natural da Humanidade. Aposta essa reputação em mesas avulsas, que o acaso juntou este mes em Brasília, a capital dos desencontros.</p>
<p>Numa rodada, o governo afia a língua para convencer a comissão da Unesco, instalada na cidade nesta virada de mes, que o parque vai bem, obrigado. Há queixas contra ele nos relatórios técnicos que precederam o encontro. Eles lamentam, para começo de conversa, a afobação para bater recordes de visitação ano após ano, em prejuízo da conservação da fauna e da flora.</p>
<p>Mas, até aí, a Garganta do Diabo fala mais alto. O título continuaria no papo, se não tivesse chegado a Brasília, pouco antes da comissão, mais uma proposta para reabrir a Estrada do Colono, cortando ao meio a floresta do Iguaçu. À Unesco se creditou, nove anos atrás, o empenho do governo brasileiro para interditar depressa a estrada, com Exército e a Polícia Federal, antes que o Iguaçu não se rebaixasse a sítio do patrimônio natural ameaçado.</p>
<p>A idéia de reabri-la apresentou-se no Ministério do Meio Ambiente pela mão do desembargador Álvaro Eduardo Junqueira. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região encarregou-o de promover a conciliação entre o parque e seus tradicionais invasores, em vez de julgar o processo. E ele passou a cuidar pessoalmente  do lado que quer porque quer a estrada de volta.</p>
<p>Com esse tipo de conciliação em marcha, o projeto, que antes era assunto de políticos locais, ganhou padrinho federal. E com ele mudou de estilo. A reabertura da estrada agora se chama “restauração”. Dispensa a força e a coreografia da luta armada que usou para ocupar o parque em 1997 e 2001. Sem perder o jeito de fato consumado.</p>
<p>Semanas atrás, os municípios paranaenses ouviram do desembargador, em assembléia, a sugestão de que se contentassem com uma estrada “mais ecológica”. Imediatamente, materializou-se o projeto de Estrada Ecológica, assinada pelas associações de municípios do Oeste e do Sudoeste do Paraná. O deputado paranaese Assis do Couto, de quebra, apresentou na Câmara o projeto de lei 7.123, que cria a “Estrada-Parque Caminho do Colono”. Promete não só &#8220;fomentar o desenvolvimento rural sustentável das regiões oeste e sudoeste do Paraná com o Parque Nacional do Iguaçu&#8221;, como &#8220;assegirar a efgetivação da segurança nacional necessária em área de fronteira&#8221;. Ou seja, servir de atalho em caso de guerra com a Argentina, um assunto que parecia superado como os governos militares.</p>
<p>Vai relatar o projeto  outro  deputado paranaense, o engenheiro Eduardo Sciarra – que, como sócio da construtora CRE, tem um pé na Cataratas S/A, a empresa que explora legalmente os serviços turísticos terceirizados no Iguaçu. E, pelo visto, outro pé na terceirização informal, que atropelas as concessões em vigor, renovadas há pouco por mais dez anos.</p>
<p>A estrada-parque é um atalho para a entrada no parque de concessionários que se credenciam, sobretudo, como detentores da “memória dos prioneiros”. Em outras palavras, da lenda que atribui aos colonos gaúchos e catarinenes a iniciativa “histórica” de rasgar na selva o tal caminho, aberto em terras da União pelo governo estadual. Isso, na década de 1950. Portanto, no mínimo 11 anos depois do decreto que instituiu o parque.</p>
<p>Mas trunfo histórico é coisa que nunca falta, como ensinou o historiador Sérgio Buarque de Holanda em <em>Visões do Paraíso.</em> Como certa boa vontade, há quem ponha o Camimho do Colono no leito imemorial da Trilha do Peabiru, que segundo as lendas quinhentistas teria servido ao apóstolo São Tomé para evangelizar os índios do altiplano andino, vindo da Índia.</p>
<p>Arisco mesmo é o futuro. Ele escapa pelas frinchas da proposta de &#8220;estrada ecológica&#8221;, que fala em calçar os 17,6 quilômetros do caminho de terra com lascas de balsalto, para que o piso irregular obrigue os veículos a trafegar em baixa velocidade. Com isso, estaria garantindo “a travessia segura da fauna”. Mas não a segurança dos veículos, motoristas e passageiros. Por via das dúvidas, manda cortar todas as árvores a um metro e meio da pista, “para evitar acidentes”.</p>
<p>Indica o uso exclusivo de “ônibus elétricos” nos passeios turísticos, sem dar a menor pista de onde pretende encontrá-los. Até onde a vista alcança, ninguém os fabrica em série no Brasil. Enumera 15 investimentos. Não apresenta um só cálculo de custo para eles.</p>
<p>É um documento tão sumária que cabe inteirinho e com folga em menos de 10 páginas, apesar da farta ilustração. Dá para atravessá-lo, de ponta a ponta, em minutos. E, apesar da pressa, não deixa de  abrir espaço para a construção de dois  Centros de Visitantes, &#8220;em cada extremidade&#8221;, para &#8220;educação ambiental e conforto dos viajantes.</p>
<p>Pode ser coincidência, mas ali está, ao pé da letra, o argumento marcial invocado pelo deputado Assis do Couto. Aquele corte na floresta, segundo a proposta de &#8220;restauração&#8221;, tem &#8220;importância inclusive militar&#8221;, porque &#8220;permitiria chegar rapidamente a umas das fronteiras com a Argentina. Isso numa hora em que os consultores da Unesco receitam, para os dois lados do rio Iguaçu, um parque cava dez mais transnacional, de administração compartilhada, como ocorre cada vez mais em lugares onde animais e plantas cruzam fronteiras sem a menor cerimônia. Quer dizer, além de atacar o parque brasileiro pela retaguarda, o Caminho do Colono agora quer estar no front de eventuais confusões com os argentinos.</p>
<p>Se o projeto cair nas mãos da Unesco, o governo brasileiro terá muito o que exlicar à comissão do Patrimônio Natural da Humidade.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/07/30/patrimonio-natural-da-regionalidade/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O outro país também chamado Brasil</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/07/30/um-outro-pais-tambem-chamado-brasil/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/07/30/um-outro-pais-tambem-chamado-brasil/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 30 Jul 2010 03:06:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1085</guid>
		<description><![CDATA[Nada mais desnortente do que estar num parque nacional, onde as notícias e até os boatos sobre aparições de onças corre pelas picadas como sinos do advento, e saber que bem aqui ao lado havia uma operação comercial para liquidá-las pela caça clandestina. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_8136.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1090" title="_MG_8136" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_8136.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>M</strong>orar, mesmo que seja como hóspede, a título provisório, de passagem por um parque nacional, é como viver uma temporada no exterior. Só que esse exterior fica no interior do Brasil.</p>
<p>No parque, você ao mesmo tempo está no Brasil e fora dele. Seu Brasil é outro, um Brasil profundo, feito de retalhos do país original que ao nascer todos herdamos e ao viver vamos sempre perdendo aos poucos, de pedaço em pedaço, de queimada em queimada, de governo em governo, de notícia em notícia – como a notícia, por sinal alvissareira, de que a Polícia Federal e o Ministério do Meio Ambiente finalmente botaram a mão outro dia na quadrilha internacional que traficava com a caça clandestina de animais em extinção.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_82661.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1091" title="_MG_8266" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_82661.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Ela está aqui de perto. Um dos presos é até  vizinho do parque. Mora na cidade de Cascavel, a mais próspera e desenvolvida do extremo oeste paranaense. Ele coleciona troféus. Ou seja, mora, por gosto, num panteão de animais mortos, cabeças empalhadas, chifres, patas, peles. Os fiscais andavam de olho nele faz tempo. E, no entanto, ele mora logo ali em outro mundo, numa terra que nada tem a ver com este lugar em que o mais vago rumor de que podem ter nascido mais dois filhotes de onça pintada corre pelas trilhas como se fosse promessa de redenção.</p>
<p>Ao mesmo tempo, bem a seu lado, tem alguém esperando a hora de botar os últimos exemplares da espécie na lista das vidas raras que, por isso mesmo, valem mais no mercado da caça esportiva, aquela que enterra até carcaças para não deixar provas do crime. Ele é brasileiro também. Mas o Brasil onde ele existe vai deixando depressa de ser o seu a cada dia que você passa no parque – freando o carro para os gambás atravessarem a estrada, tirando à noite do quarto as mariposas que as lâmpadas atraíram e provavelmente, se dormirem lá dentro, amanhecerão espalhadas pelo chão, parando para esperar o momento em que infalivelmente uma borboleta enorpecida pelo frio da madrugada abrirá as asas para o primeiro sol.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_0543-Edit.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1092" title="_MG_0543-Edit" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_0543-Edit.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Cada dia desses é um passo para olhar toda essa gente que atira, derruba, queima, constrói e diz besteiras sobre pererecas e outros bichos com a desenvoltura do presidente Lula como habitantes numerosos, hegemônicos e hostís de um país que também se chama Brasil, mas é contra o seu Brasil. E nunca poderá caber num parque nacional, enquanto houver um canto no Brasil para parques nacionais.</p>
<p>Deve ser por isso que há tantos projetos na política brasileira para revogar os parques, as reservas, o código florestal, tudo aquilo que conserva o que o Brasil dos outros quer suprimir. São projetos feitos de um povo que nunca poderá ter um parque nacional, porque ele é como onça viva – só tem sentido para quem gosta daquilo que não é seu, mas de todos. O outro Brasil só pode ter parques nacionais se acabar como eles.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/07/30/um-outro-pais-tambem-chamado-brasil/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

