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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Colonização</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Não parece que foi ontem. Mas foi.</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Jul 2010 15:40:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Colonização]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Em vez de acalentar velhos mitos, a professora Adriana Tavares preferiu ir procurar na vida real a história da cidade onde nasceu, na década de 1970, dentro do parque nacional do Iguaçu. E encontrou um tesouro enterrado em velhos baús.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Veado-morto_05251.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1043" title="Veado morto_0525" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Veado-morto_05251.jpg" alt="" width="409" height="266" /></a></p>
<p><strong>N</strong>a escola estadual Parigot de Souza, a professora Adriana Marshall Tavares abre os envelopes vindos dos baús de parentes nos cafundós de Goiás e, em São Miguel do Iguaçu, a mesa da diretoria logo fica pequena para tanta fotografia despejada no tampo de fórmica.</p>
<p>As fotos têm legendas, que a própria Adriana colou em suas bordas seis anos atrás. São tiras supérfluas de papel amarfanhado, porque ela e seu tio, o diretor Jaime Emir Bogorni, sabem tudo de cor. Reconhecem de cara, por exemplo, o motorista Elmo Buche, que dirigia, uniformizado e de gravata, o único ônibus da linha intermunicipal a trafegar diante de sua casa na infância. Dão nomes aos jovens que empunham canecos de chope no Clube Aliança Três Fronteiras, “a nossa Oktoberfest”. E ao time de futebol.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Time_0258.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1032" title="Time_0258" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Time_0258.jpg" alt="" width="435" height="257" /></a></p>
<p>Nas imagens meio desfocadas e de cores esmaecidas está o dia-a-dia de quatro núcleos coloniais no Oeste paranaense. Há, por exemplo, o flagrante noturno de caçadores prestes a tirar o couro de uma onça pintada, morta nos fundos de casa. Um grupo de crianças posando em torno  do veado mateiro pronto para virar carne. E um velho caminhão quase esmagado pelo tronco descomunal que carrega para “a serraria do Alberto Matte”.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Serraria_0222.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1033" title="Serraria_0222" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Serraria_0222.jpg" alt="" width="446" height="286" /></a></p>
<p>Tudo isso aconteceu entre as décadas de 1960 e 1970 no Parque Nacional do Iguaçu. Atenção ao detalhe: <strong>dentro do Parque Nacional do Iguaçu</strong>. Vinte e um anos depois de sua criação, ele foi loteado por um advogado de Foz do Iguaçu, chamado Gaspar Coutinho. Seus agentes imobiliários andaram vendendo terras até no Rio Grande do Sul.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Onça_0236.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1044" title="Onça_0236" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Onça_0236.jpg" alt="" width="435" height="286" /></a></p>
<p>Os novos proprietários chegaram com os títulos na mão e uma desconfiança na cabeça. Seriam regulares aqueles lotes comprados num parque nacional? O cartório de São Miguel garantiu que sim. E registrou-os. O vigário José Gaertner sugeriu que o primeiro núcleo se denominasse São José do Iguaçu, batizado à “sombra de uma enorme figueira na mata”. Rapidamente se juntaram ao povoamento os vilarejos de Dois Irmãos, Santo Alberto e São Luiz.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Centro-Clube_0230.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1034" title="Centro Clube_0230" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Centro-Clube_0230.jpg" alt="" width="428" height="286" /></a></p>
<p>E o loteamento prosperou. Em 1969, a prefeitura dotou Santo Alberto de uma escola com quatro salas de aula, num grande prédio de madeira, com espaço “para mais de 100 alunos”. No ano seguinte, oficializou a colonização como Núcleo Administrativo. E a câmara de vereadores providenciou-lhe a rede elétrica e o posto de saúde. Eram, em pouco tempo, cidades pioneiras em acelerado processo de consolidação.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Foto-aérea_02771.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1035" title="Foto aérea_0277" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Foto-aérea_02771.jpg" alt="" width="429" height="286" /></a></p>
<p>Já funcionavam nos arruados de terra farmácia, açougue e dentista, quando do céu caiu sobre os colonos a sombra de um monomotor, voando baixo, para a tomada de fotos aéreas. Com ele chegou a notícia de que o governo federal queria de volta aquele pedaço do parque, que os moradores haviam adquirido, com a papelada aparentemente em ordem. Naquele momento, o Iguaçu passava, sob a coordenação da engenheira agrônoma Maria Tereza Pádua, um processo tardio de regularização fundiária, feito com todos os cuidados para livrá-lo, de uma vez por todas, de contestações e disputas judiciárias.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Túmulo_02631.jpg"><img class="size-medium wp-image-1037 alignright" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Túmulo_0263" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Túmulo_02631-197x300.jpg" alt="" width="158" height="240" /></a>Indenizados, os proprietários foram transferidos, a contragosto, para três novos povoamentos, do outro lado de São Miguel do Iguaçu, nas margens do rio Ocoí. Ali, seus  lotes teriam, em princípio, o dobro do tamanho. Mas, em média, 60% de sua área estavam previamente destinados à inundação iminente pelo reservatório de Itaipu. O novo endereço era ainda um lugar de matas virgens. Mas a mata que sobrou já não estava tão disponível quanto antes à serra e ao fogo, tradicionais instrumentos desbravadores da fronteira agrícola. Pelo menos um dos reassentados foi parar na cadeia por queimar seu naco de floresta. Os núcleos do Ocoí vingaram como bairros. Sua vocação agrícola ficou pelo caminho.</p>
<p>Adriana nasceu em Santo Alberto há 36 anos. Saiu aos dez meses da casa de madeira e chão de cimento que a família Bogorni construiu. Da construção resta hoje a escada da varanda, que Adriana só voltou a pisar três décadas depois, cercada de mato por todos os lados. Posou para uma fotografia no mesmo ponto onde aparece num retrato antigo, ainda aprendendo a andar, sobre o piso de vermelhão. Santo Alberto virou precocemente um sítio arqueológico, com poços, túmulos azulejados e vasos de samambaia tragados pela selva, no melhor estilo das imemoriais ruínas maias.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Adriana_0220.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1039" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Adriana_0220" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Adriana_0220-195x300.jpg" alt="" width="137" height="210" /></a></p>
<p style="text-align: left;">Em 2004, a professora restaurou o que sobrava das quatro cidades mortas nas lembranças e nos guardados de seus antigos moradores. O trabalho, com entrevistas gravadas em vídeo e pesquisas de campo, exigiu um mutirão de várias escolas. Três delas racharam as despesas, orçadas ao todo em 120 reais. O resulto foi exposto e visitado em 2004. Depois, engavetou-se novamente. Adriana passou todos esses anos sem revê-lo. Todo esse trabalho brotou, por iniciativa própria, de uma pesquisa que ela precisava fazer sobre a região, como formalidade para a conclusão de um curso de educação ambiental que fez na escola do Parque Nacional do Iguaçu. A descrever impessoalmente um lugar qualquer, ela preferiu ir atrás de sua própria história. E constatou, com olhos de adulta, que mesmo as piores recordações de uma crise familiar tem dois lados.</p>
<p style="text-align: left;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Adriana-Grande_02462.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1041" style="margin: 3px;" title="Adriana Grande_0246" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Adriana-Grande_02462-194x300.jpg" alt="" width="136" height="210" /></a>Ao rever as fotografias, ela lamenta ambas as perdas – as próprias e as do parque. Tudo isso por 120 reais deve ser o maior investimento ambiental que já se fez no Oeste paranaense com orçamento esquelético. Se os municípios das região fizessem apostas semelhantes, na certa se livrariam de seus mais renitentes fantasmas, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/06/05/a-estrada-do-colono-morreu-mas-se-mexe/">como a Estrada do Colono.</a> Neste ano eleitoral, ela ensaia mais uma vez um movimento político de ressurreição, para abocanhar um naco do Iguaçu, um parque nacional que, caso raro no Brasil, enterrou  há mais de duas décadas todas as suas encrencas legais ou fundiárias. Debates intermináveis como esse só podem ser resolvidos à luz da história e não à sombra de velhas lendas.</p>
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		<title>Um parque tirado de velhos baús</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Oct 2009 20:49:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Colonização]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[A história de como as cataratas e a fotografia salvaram no Parque Nacional do Iguaçu a floresta nativa que desapareceu no Oeste do Paraná. Primeiro capítulo.
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center; "><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/MG_6632-210-of-238.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-146" title="_MG_6632 (210 of 238)" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/MG_6632-210-of-238.jpg" alt="_MG_6632 (210 of 238)" width="419" height="280" /></a></p>
<p><strong>S</strong>em a invenção da fotografia, talvez o Parque Nacional não chegasse a tempo, para guardar as Cataratas do Iguaçu em sua moldura original de floresta nativa. Chitás, makás, kaingangues e outros povos indígenas se revezaram através dos milênios na borda suas 275 cachoeiras, deixando para a posteridade só um palavra &#8211; o nome Iguaçu &#8211; gravado na paisagem como o vestígio arqueológico de seu passado.</p>
<p>Iguaçu – ou seja, água grande – não chega a um nome eloqüente. Mas, pelo menos, descreve o lugar com termos extraídos do mundo natural. Os europeus nem isso fizeram. Quando apareceram por lá, em 1542, já traziam um vocabulário pronto para batizar qualquer descoberta do Novo Mundo com onomásticos extraídos do hagiológio cristão. E chamaras as cataratas de Saltos de Santa Maria.</p>
<p>Os dois nomes permanecem no mapa, lado a lado. E, com eles, as quedas do rio Iguaçu ficaram por lá, praticamente esquecidas. Foram, por séculos, um obstáculo a transpor, e não um prodígio a celebrar. E, por conta desse esquecimento, estavam mais ou menos intatas em 1876, quando o engenheiro André Rebouças, pioneiro da exploração madeireira no Paraná e da campanha abolicionista no país, vislumbrou o futuro em <strong>Província do Paraná, Caminhos de Ferro para Mato Grosso e Bolívia</strong>, um livro precoce e visionário.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/MG_1773.jpg"><img class="size-full wp-image-147 alignleft" style="margin: 5px;" title="_MG_1773" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/MG_1773.jpg" alt="_MG_1773" width="248" height="373" /></a></p>
<p>Rebouças sugeriu que se deixasse tudo aquilo exatamente como estava, para dar “às gerações vindouras” o direito inalienável de conhecer as cachoeiras “tal como Deus criou”, em “toda a gradação do belo ao sublime, do pitoresco ao assombroso”. Foi o melhor projeto de desenvolvimento econômico já concebido para a região. Como se verificaria muito tempo depois.</p>
<p>Mas estava muito à frente de sua época. Rebouças não foi só o primeiro brasileiro a falar em parque nacional. Foi, no mundo inteiro, uma das primeiras vozes influentes a propor um parque nacional, dissertando sobre o assunto com segurança e clareza. A idéia acabava de surgir nos Estados Unidos, materializada quatro anos antes no decreto que desviou do Yellowstone a marcha para Oeste da sociedade americana. Levaria algumas décadas para se tornar um modelo de conservação universal.</p>
<p>Quando Rebouças defendeu um parque nacional contínuo, ligando as cataratas do Iguaçu a Sete Quedas pelo eixo do rio Paraná, toda aquela fronteira era terra incógnita e sem dono, imersa numa floresta que parecia sem fim. E, de costas para ela como estava, o Brasil custou a ouvir a sugestão do engenheiro. Quarenta e quatro anos depois de Rebouças, ela parecia menos provável do que nunca, quando em 1920 o deputado paranaense Jayme Ballão viajou a Foz do Iguaçu.</p>
<p>Ballão percorreu “uma rua na floresta virgem”, através do “imenso sertão”, onde “só se ouvia urro das feras e a música soturna do vento nas frinchas das árvores seculares”, para alcançar as cataratas. Espantado com o que encontrou ali, teve que pedir socorro às musas, “como Dante nas portas do Inferno”, e proclamar que não havia “expressões, na linguagem humana, capazes de traduzir os nossos sentimentos de admiração”, para convencer o poder público a tomar posse com urgência dos recursos naturais que lhe pareceram abandonados nos confins do território nacional. O que Ballão queria mesmo era o progresso da economia local.</p>
<p style="text-align: left;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/MG_1663-Edit.jpg"><img class="size-full wp-image-148 alignright" style="margin: 5px;" title="_MG_1663-Edit" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/MG_1663-Edit.jpg" alt="_MG_1663-Edit" width="277" height="414" /></a>As cachoeiras teriam que esperar ainda muitos anos para voltar ao ponto de largada. Antes do parque nacional concebido por Rebouças, vieram os colonos, rasgando a floresta a machado e fósforo. Atrás deles, chegaram as autoridades. Aos poucos os turistas, que a princípio eram os próprios colonos, nos piqueniques, pescarias e até caçadas pelos arredores de suas clareiras, nas horas vagas. Aí, apareceram por lá as máquinas fotográficas. E o mundo passou a ter uma chance de ver territórios virgens antes de desfigruá-los irreediavelmente pela conquista. Não foi propriamente nas Cataratas do Iguaçu que a fotografia estreou neste papel de vanguarda da natureza preservada. Ela já veio ao mundo com esse pendor, talvez por herança de seus inventores. Antes de criar a primeira câmera, o pintor Louis Jacques Daguerre expunha em Paris lugares distantes e exóticos, através de desenhos projetados em torno da  platéia pelo jogo de luzes de seus dioramas.</p>
<p>Pouco depois de Daguere,  o inglês William Henry Fox Talbot, botânico e naturalista, além de pioneito do processo do processo fotográfico, começou a clicar paisagens em 1840.Dali a explorar o planeta para a fotografia recém inventada foi só um pulo. Em 1849, Gustave Le Gray já fotografava as árvores e rochedos da floresta de Fontainebleau, nos arredores de Paris. Três anos depois, saía na França o primeiro álbum de “desenhos fotográficos”, com imagens trazidas por Maxim du Camp de lugares tão remotos como a Núbia e a Síria. A terra inteira virou  “um panorama gigantesco”, diz a curadora das coleções fotográficas do Museu d’Orsay, Françoise Heilbrun. E, mesmo de longe, qualquer pessoa podia ver, ou pelo menos vislumbrar, em preto e branco, sem côres nem movimento, numa ínfima escala da realidade, o que antes não podia sequer imaginar.</p>
<p>A fotografia começou ainda no século XIX a disputar novas fronteiras passo a passo com os povoadores. O decreto que instituiu o primeiro parque nacional foi precedido no Yellowstone pelo fotógrafo William Henry Jackson, popularizando antes que  fosse tarde seus <em>geysers</em> e suas pradarias escancaradas aos bisões. Na Califórnia, o presidente Abraham Lincoln assinou em 1864 a lei que evitou a ocupação do Yosemite, depois que seus vales glaciais e suas sequóias faziam sucesso, de costa a costa, nas galerias de arte, fotografadas por Carleton Watkins.</p>
<p>No Brasil, parecem hoje premonitórias as fotografias de Alberto Henschel no planalto das Agulhas Negras, 67 anos antes que surgisse naquelas montanhas o Parque Nacional do Itatiaia, o primeiro do país. Apesar do vanguardismo de André Rebouças, as Cataratas do Iguaçu ficaram para depois. Em parte porque, até o fim do século 19, o isolamento as preservava naturalmente. E também porque raros brasileiros sabiam o que estavam perdendo ali. E que corriam o risco de perder para sempre. O  Parque Nacional do Iguaçu só foi decretado pelo presidente Getúlio Vargas no dia 10 de janeiro de 1939.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/MG_6384-56-of-238-Edit.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-149" title="_MG_6384 (56 of 238)-Edit" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/MG_6384-56-of-238-Edit.jpg" alt="_MG_6384 (56 of 238)-Edit" width="373" height="249" /></a></p>
<p>Veio atrasado, mas cheio de urgência. Deixava para depois “do indispensável reconhecimento e estudo” a definição de seus limites. E dava prioridade ao edital de licitação, pedindo tudo ao mesmo tempo – sede, casas de funcionários, estradas de rodagem, aeroporto, escadas para a visitação das cachoeiras, trilhas, pontes e corrimãos, além de um hotel de luxo e de uma usina hidrelétrica para gerar 500 quilowatts.</p>
<p>Com o parque , Foz do Iguaçu transformou-se da noite para o dia num canteiro de obras. Meio século depois de instalada, a cidade ainda tinha a essa altura pouco mais de três mil habitantes e quatro casas de alvenaria. Sua economia pulsava ao ritmo das polias de 80 madeireiras. Sua avenida principal se liquefazia nos verões chuvosos. Os aviões que faziam a sua rota pousavam na terra batida.Os parques nacionais têm fama de estrangular cidades. Em Foz do Iguaçu aconteceu o contrário. O parque teve luz gerada por hidrelétrica antes que a cidade. Eela tem hoje mais de 300 mil habitantes por ser, antes de mais nada, um dos grandes destinos turísticos do mundo, com as cataratas atraindo ao parque nacional anualmente, só no lado brasileiro, mais de um milhão de visitantes.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/MG_6387-59-of-238.jpg"><img class="size-full wp-image-151 alignleft" style="margin: 5px;" title="_MG_6387 (59 of 238)" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2009/10/MG_6387-59-of-238.jpg" alt="_MG_6387 (59 of 238)" width="276" height="414" /></a></p>
<p>Mas os números de hoje como as palavras de antigamente são incapazes de dizer tudo sobre as Cataratas do Iguaçu. O cenário, em si, sempre falou e continuará falando mais alto. É ele que, desde a chegada dos pioneiros, sela o compromisso dos povoadores de Foz do Iguaçu com uma paisagem que no fundo pertence a cada um, pois todos visitantes levam um dia para casa um pedaço indelével de sua própria vida, associado pela fotografia à paisagem indescritível do parque nacional.</p>
<p>É dessas experiências, registradas em fotografias atuais e antigas, que tratarão estas páginas daqui para a frente, ao longo de pelo menos um ano inteiro. Dia a dia, passo a passo, seguindo os passos de John Muir. O andarilho escocês ensinou o povo americano a gostar de parques nacionais. E achava que a maior virtude das cachoeiras é abrir os olhos de qualquer pessoa para a beleza natural dos rios. As cataratas prestam esse serviço ao Iguaçu.</p>
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