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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Cataratas do Iguaçu</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>A hora e a vez do Steindachneridion</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Nov 2010 16:15:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Pesquisa de campo]]></category>

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		<description><![CDATA[Às vésperas de fazer 72 anos, o Iguaçu ganha sua primeira pesqiuisa de icitiofauna logo abaixo das  cataratas e descobre, logo na primeira rodada de estudos, que é parque nacional também debaixo d'água.  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/Steindachneridion-scripta_0656.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1302" title="Steindachneridion scripta_0656" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/Steindachneridion-scripta_0656.jpg" alt="" width="409" height="273" /></a></p>
<p><strong>O</strong> nome científico já soa quase como um aviso de que o assunto é sério. O bicho se chama <em>Steindachneridion scriptum</em>.  É um surubim. Seria mais conhecido por Bocudo, se décadas de invisibiliidade não o tivessem reduzido ultimamente à espécie universal dos ilustres desconhecidos, mesmo  entre os pescadores mais tarimbados do rio Iguaçu, que mal se lembram de quantas vezes toparam com ele nas águas escuras do rio lá vão duas ou três décadas.</p>
<p>Mas <em>Steindachneridion scriptum</em> continuou firme nos guias de campo argentinos &#8211; onde consta, por sinal, como <em>scripta</em> &#8211; como se estivesse só esperando a hora de voltar. Lá, é descrito como um bagre manchado, medindo cerca de 80 centímetros. E caiu dias atrás na rede de pesquisadores da ictiofauna, o primeiro censo da fauna aquática de que se tem notícia debaixo das Cataratas, que supostamente dividem o mundo dos peixes no Iguaçu com uma sólida fronteira de basalto a prumo.</p>
<p>Agora os especialistas estão descobrindo que não é bem assim que as coisas rolam nas corredeiras onde o Iguaçu percorre seu último trecho, para desaguar  no rio Paraná. Aparentemente, durante toddo esse tempo de sumiçoo o <em>Steindachneridion scriptum </em>esteve ali, atrás de de uma das paisagens mais vistas e revisitadas do mundo.</p>
<p>Só nas últimas enchentes humanas, mais de 12 mil pessoas se debruçaram em suas corredeiras a cada domingo de feriadão, enquanto o parque acumula seus um recordes de bileheteria. Todo mundo nos mirantes. E o <em>Steindachneridion scriptum </em>logo abaixo,<em> </em><em> </em>nadando incógnito.</p>
<p>Havia indícios de que sua sombra na lembrança das famílias que, ainda na década de 1960, embora o parque já estivesse decretado havia mais de 30 anos antes, compraram no mercado local de grilagem terras devidamente tituladas dentro da unidade de conservação do governo federal. Era gente que, nas horas vagas, caçava e pescava, sem que se pudesse chamar sua atividade de furtiva. Assim como ostensivamente, nos dias úteis, ela se esforçava para empurrar pasra longe a floresta protegida, atirando-a na goela das serrarias.</p>
<p>Eram colonos. Faziam essas coisas com a olena convicção de estarem certos.Estavam ali para derrubar o mato e  levar à última barranca possível a vocação agrícola da economia paranaense. Era gente tão ciosa desses direitos que, fotografando-se em antividade, guardou para a posteridade flagrantes de um Iguaçu mais piscoso e opulento do que, nos últimos tempos, ele ganhou fama de ser. Numa dessas lembranças de família aparece um peixe grande. Fala-se dele como relíquia do velho Iguaçu, quando até o quartel da fronteira comparava peixes tirados do parque nacional para reforçar a bóia dos soldados.  A pesca artesanal e a esportiva em seus remansos eram risonha e franca.</p>
<p>Tres núcleos coloniais de cidades, quase quatro, fincaram no parque raízes que pareceram definitivas. Tinham escola estadual, linha de ônibus e luz elétrica, sem esquecer o papel tirado em cartório, comprovando a legítima propriedade da terra grilada. Nos anos 70 foram despejados dali. Os ex-moradores levaram em suas álbuns de família a tal foto do que parece um bagre corpulento e escuro, carregado com certa dificuldade nos braços de moradores. Mal saíra da água e já era um tratado troféu.</p>
<p>Há dúvidas sobre a classificação exata do peixe que se vê na fotografia. Não estava em voga no vilarejo de Santo Alberto o nome <em>Steindachneridion scriptum, </em>por sinal ilustre, herdado do naturalista Franz Steindachtner que, no século XIX , batizou o primeiro surubim e acabou imortanilzado pelo gênero inteiro.</p>
<p>O exemplar achado no cânion do Iguaçu deu sorte.  Foi devolvido ao rio na mesma noite, praticamente intato, a nâo por duas ou três escamas e um naco de gordura peitoral, que um dia talvez sirva para tirar a espécie da extinção em laboratórios de genética. Isso a lomgo prazo. A curto prazo, o primeiro efeito desse achado foi instantaneo.</p>
<p>Assim que o reconheceram, os pesquisadores Maristella e Sérgio Makrakis, da Unioeste, a universidade estadual da fronteira Paranaense, descbriram também o local da pesquisa como um território novo e paradoxalmente desconhecido, que há pelo menos 72 anos aguardava uma investiogação sistemática do que tem de importante o Iguaçu no trecho que passa entre parques nacionais, para ganha  o atestado de que o rio também integra as unidades de conservação.</p>
<p>O melhor é que o <em>Steindachneridion scriptum </em>deu o ar de sua graça logo na primeira semana, para animnar os trabalhos iniciados em outubro e previstos para durar dois anos. A próxima visita será no fim deste mes, depois de mais um feriadão. Se vier com mais novidades do mesmo calibre, há esperanças para os administradores do parque que os argumentos científicos silenciem a campanha para promover a pesca turística dentro do cânion, entre as quedas e a foz do Iguaçu.</p>
<p>Maristella e Sérgio Makrakis são o mesmo tempo uma equipe e um casal, como acontece tantas vezes num ofício que envolve longas viagens, convivência próxima em local isolado e o gosto comum por meter a mão onde nem todo mundo poria sequer a ponta dos dedos</p>
<p>Estão há mais seis meses recenseando os peixes do Iguaçu, acima das Cataratas, para avaliar os impactos de mais uma hidrelétrica, a quinta a represar o rio. Na parte superior do rio, Maristella e Sérgio coletaram amostras de 60 espécies diferentes. E não tem dúvidas de que passarão das 80 espécies estimadas para a população aquática do Iguaçu. Na margem direita do parque, constataram que o Floriano, o único rio do Sufdeste que corre num parque nacional da nascente à foz, é inquestionavelmente mais vivo do que os outros.  As redes montadas para amostragem em sua desembocadura vinham tão carregadas, que levava  até seis horas o trabalho de revistadas. Em média, issoé tarefa para meia hora.</p>
<p>Antes de chegar às quedas, o Iguaçu passa por quatro grandes comportas que regulam, entre outras coisas, o volume de sua água – e, portanto, o número e a beleza das cachoeiras – com uma agenda oposta à dos turistas. Quando o consumo de energia cresce, as comportas se abrem, a água corre solta e os visitantes que dão a sorte de estar diante delas num dia de trabalho pesado são premiados por cheias instantâneas e artificiais. Nos dias de repouso, quando o consumo de paisagem aumenta e o de eletricidade cai, ocorre o oposto.</p>
<p>Nada ali é natureza intata. Por isso mesmo cada descoberta mais ou menos rara ou inesperada como a do <em>Steindachneridion scriptum</em> dá trunfos à política de conservação.  “As pessoas não sabem a importância que essas coisas têm”, conclui Sérgio Makralis, que não é dado a arroubos retóricos e só enche a boca para soletrar, ao telefone, com a ajuda de Maristella ns sílabas mais arrevezadas,</p>
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		<title>Recordes de visitação em série</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Oct 2010 22:49:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Mudança Climática]]></category>
		<category><![CDATA[Turismo]]></category>

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		<description><![CDATA[O parque enfrentou esta semana dois testes de resistência a pressões sempre crescentes. Passou por lá um furacão da pesada, abrindo clareiras na mata, e um feriadão que empurrou mais de 29 mil pessoas por seus portões adentro. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Ronaldo_3852-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1258" title="Ronaldo_3852 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Ronaldo_3852-copy.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>U</strong>fa! O parque nacional do Iguaçu passou por uma semana de testes. Uma tromba d’água lambeu-o furiosamente na madrugada de quinta-feira. Foi anunciada à tarde pelo rádio como um autêntico tornado. Veio uma espécie de ciclone tropical, que despejou boa parte de sua fúria na Argentina, onde passou primeiro. Invadiu o Brasil no meio da noite, roncando a 95 quilômetros por hora.</p>
<p>Os vendavais fazem parte da história da região e do parque nacional. Mas estão ficando, a cada ano, mais comuns e mais fortes. Caíram, do lado de cá, as vítimas de sempre – árvores, ninhos, orquídeas, bromélias e, como não poderia deixar de ser, a energia elétrica. A devastação florestal abriu um lanho impressionante na floresta, à beira da BR-469, na altura do quilômetro 29. Ali onde as copas mais altas e a vegetação rasteira formavam dias atrás uma parede vegetal praticamente opaca, agora se vêem nacos de céu e nuvens através da mata rala, como se tivesse passado por ali um gigantesco trator de esteira, trabalhando no atacado pela devastação.</p>
<p>O tamanho exato da cicatriz aberta pela ventania ainda não foi avaliado. Mas a eletricidade voltou ao parque nacional do Iguaçu em poucas horas, antes mesmo do amanhecer. E até que a quinta-feira começou, pelo menos sob o ponto de vista dos pássaros, como um dia típico de primavera, inundado de cantos nupciais.</p>
<p>Mas vinha outro vendaval pelo caminho. Dessa vez, um vendaval humano. Ou turístico. Alinharam-se nesse feriadão de outubro festas religiosas, cívicas e pagãs, além de nacionais e continentais, com potência de sobra para jogar em seus portões pelo menos 29 mil pessoas. A previsão dos administradores do parque e dos operadores de turismo era uma enxurrada de 25 mil turistas. Ambos erraram bastante. E erraram para menos.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Hidrobus_2044.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1259" title="Hidrobus_2044" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Hidrobus_2044.jpg" alt="" width="394" height="242" /></a></p>
<p>Só no domingo vieram 12.400 pessoas. Não chegou a ser s um recorde histórico de bilheteria, que continua, por uma diferenta de mais de 100 ingressos, com novembro do ano passado. Mas esses recordes de público estão durando cada vez menos no parque. São quebrados com freqüencia crescente, como a dos grandes temporais. E 2010 tem sido um ano de parque cheio, a começar pela média de cinco mil visitas diárias,  registradas nas férias do verão passado. Tende a fechar dezembro na marca de 1 milhão e 200 mil visitantes. Se não ultrapassá-la. A cidade de Foz do Iguaçu, que vive principalmente do turismo, aposta em 1 milhão e 300 mil.</p>
<p>É um número ambíguo, que aponta ao mesmo tempo para a popularidade internacional das cataratas e a fragilidade do parque nacional como reserva natural. Seus planos de manejo, os relatórios dos pesquisadores, até os guias de fauna ou flora e os dossiês da Unesco, que reavaliam periodicamente seus trunfos como sítio do patrimônio natural da humanidade, torcem os narizes para essa multidão cada vez maior, zanzando lá dentro. Já havia essa tendência a tratar os recordes como problemas em 1979, quando a conta bateu em 712.327 pessoas.</p>
<p>Não podendo barrar a maré turística, o remédio prescrito na ocasião foi tentar espalhar ao máximo os visitantes, oferecendo-lhes como opção programas menos batidos. Senão, eles marcham em filas compactas pela trilha das Cataratas. Deixam para trás, na pressa ou na falta de tempo para entender que aquele ambiente superlotado é, apesar de tudo, natural, garrafas PET, latas de refrigerante e invólucros de lanches rápidos pelo quilômetro e meio do trajeto.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Corticeira_2061.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1260" title="Corticeira_2061" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Corticeira_2061.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Um dos desvios que vieram para atender esse chamado é o Macuco Safari. Com nome de ave esquiva e sobrenome que ainda ressoa a caçadas afrucanas, a empresa movimenta, só no parque, sete barcos como motores de popa menos poluentes, dois botes de <em>rafting</em>, nove carros elétricos, jipes Willys, que são autênticas relíquias da indústria automobilística brasileira, convertidos com tecnologia própria ao consumo de etanol. Há na frota do Macuco até um jipe Willys experimental, de motor elétrico.</p>
<p>A maior parte desse equipamento nasceu ou renasceu na oficina que a Macuco mantem em Porto Meira. Seus botes de <em>rafting </em>se inspiraram, à moda oriental, nos Zodiacs franceses. Em outras palavras, copiaram-nos. Mas, ao copiá-los, tornaram as imitações irreconhecíveis. Até a liga da câmera de borracha com náilon resistente foi inventada em casa. E seu sistema de blindagem para diariamente há mais de dez anos pelo grande laboratório de testes que são nas corredeiras do rio Iguaçu.</p>
<p>Sua operação, só no parque, eenvolve mais de 60 funcionários, entre motoristas, barqueiros, guias e monitores. A equipe inclui uma bióloga residente. E conta ultimamente com um candidato ornitólogo, que treina para a especialização acadêmica levando grupos de forasteiros para conhecer a mata. O Macuco também contrata com freqüência caçadores clandestinos e ladrões de palmito, porque eles conhecem a floresta melhor do que ninguém e, trocando de lado, passam a defendê-la.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Socó_2126.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1261" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Socó_2126" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Socó_2126.jpg" alt="" width="273" height="409" /></a>Quem quiser ver a fauna e a flora da região por dentro da floresta, encharcar-se nas quedas d’água dentro do rio ou descer os 70 metros do cânion por rapel terá que procurar um de seus serviços. Dessa base, a empresa lançou-se ultimamente por mares nunca dantes navegados, como os da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, ou do litoral nosdestino. Mas sua origem não poderia ser mais local.</p>
<p>Ela pertence a Ademir dos Santos, um ex-balseiro, que não tira as mãos do leme nen quando se trata esticar o expediente nos feriados, para ver de perto como as coisas estão funcionando na empresa. Ele herdou do pai a queda para o transporte fluvial. A família operava a balsa que ligava o Porto Lupion, em Capanema, à Estrada do Colono, um corte ilegal pelo parque nacional.</p>
<p>Tinha tradição no ramo. Era uma dinastia de balseiros desde o tempo em que sua base ficava em Chapecó, fazendo a travessia do Rio Grande do Sul a Santa Catarina. E, antes de chegar ao extremo oeste do Paraná, ajudou a transportar madeira nativa pelo rio Uruguai, levando toras para o exterior.</p>
<p>Ademir dos Santos mal passava dos 7 anos quando seu pai comprou uma parte na sociedade que controlava a balsa da Estrada do Colono. A essa altura, já sabia manobrar um rebocador. “Nasci na beira do rio, longe dele eu não sei viver”, diz ele. Ou, pelo menos, longe da água. Sua experiência no ramo inclui as chatas que levam areia entre Foz do Iguaçu e Guaíra, atravessando os quase 200 quilômetros do lago artificial de Itaipu.</p>
<p>Trocou a Estrada do Colono pelo cânion do Iguaçu antes mesmo que aquele caminho no meio do parque fosse fechado de vez pela justiça, as forças armadas e a polícia. Assim como hoje inventa carros elétricos, na época Ademir tirou quase do nada a idéia de navegar entre as cataratas, conduzindo turistas em parceria com o guia norte-americano Alexander Peter Shorsch. E prosperou.</p>
<p>Para alguém com seus antecedentes profissionais, explorar as cataratas foi mais que um simples pulo. Ou seja, foi um salto qualitativo. No Macuco, desenhou a torre para observação de pássaros num braço fechado do rio Iguaçu. Da copa de um ingá, mas sem se escorar nos galhos da árvore, fechada com persianas removíveis e balançando suavemente com o vento, ela se debruça sobre um alagado cheio de aningas, socós, jaçanãs, martins-pescadores e outras aves nem sempre fáceis de ver em liberdade. Com sorte, aparecem  antas por ali. E jacarés do papo amarelo são comuns.</p>
<p>É um lugar onde se tem vontade de passar o dia inteiro, porque cada hora trás suas novidades, embora a maioria dos freqüentadores se contente com uma breve pausa no mirante, para satisfazer sua curiosidade ornitológica. Cerca de 8 a 10% dos turistas que vão ao parque do Iguaçu só para conhecer as cataratas enveram pelos desvios que o Macuco oferece. Parece pouco.</p>
<p>Mas isso significa uns 100 mil clientes por ano. Ou mais de mil pessoas só no domingo passado, para o passeio de barco no cânion. A 140 reais por cabeça, parece ser um bom negócio, mesmo que a maioria dos turistas continue embalada nos pacotes que economizam o gasto nas cataratas, para investi-lo nas lojas do Paraguai, nas churrascarias com <em>show</em> latino e outros pratos feitos dessa florescente indústria, que ocupa o primeiro lugar na economia de Foz do Iguaçu e também se considera parte inseparável de seus atributos naturais.</p>
<p>Com a pequena parte que lhe cabe nessa corrida rumo a recordes históricos, o Macuco Safari acaba de renovar seu contrato de concessão por mais 10 anos. E Ademir dos Santos, vindo de um ramal auxiliar da estrada que promovia a invasão da floresta, sente-se agora tão perto da conservação “que até as onças preferem nossas trilhas”. Ele é um exemplo de que o crescimento do turismo pode até ajudar o parque. Mas é deitando raízes na unidade de conservação, em vez de tanger a clientela para uma olhada ligeira nas quedas d&#8217;águas, entre uma excursão e outra de compras noa Tríplice Fronteira.</p>
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		<title>É tempo de cor na terra e vôo no céu</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/09/29/primavera-por-aqui-quer-dizer-ar-lavado/</link>
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		<pubDate>Wed, 29 Sep 2010 12:30:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>

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		<description><![CDATA[O primeiro sinal da primavera foi a volta dos andorinhões às cataratas. Eles vieram antes da estação. Retomaram seus postos nas rochas a prumo. E, no céu, o lugar dos intermináveis poentes vermelhos, por obra e graça do ar seco e opaco das queimadas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Sol-e-Papagaios_0366-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1221" title="Sol e Papagaios_0366 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Sol-e-Papagaios_0366-copy.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>H</strong>á dias, temporais esparsos andam avisando que acabou a estiagem do inverno. Chove forte, em geral no meio da noite, com trovoadas que nos acordam só para trombetaer a mudança de estação. E, como as coisas no Iguaçu mudam de repente, a passagem do inverno à primavera aconteceu de uma hora para o outro.</p>
<p>Lá se foi o tempo dos poentes intermináveis, que começavam no meio da tarde e mantinham quase no meio do céu um sol redondo e vermelho que, ainda alto, marchava sem pressa para o horizonte. Dava para acompanhá-lo a olho nu, pelo filtro de névoa cinzenta deixado na atmosfera pelas queimadas. Como espetáculo, o por-do-sol era sem dúvida muito bonito. Mas essa beleza toda já não enganava o entomólogo alemão Hermann von Burmeister, quando ele andou pelo interior do Brasil em meados do século XIX.</p>
<p>Não é de hoje que aquele sol que parecia coado por uma placa de vidro fumê, como o descreveu Burmeister nos cafezais do Vale do Paraíba, quer dizer fogo no mato. Ou, à falta de mato, de fogo nos pastos ou na palha da última safra, antes que a chuva reabra o ciclo das plantações. Em outras palavras, uma compensação dos céus pela feiúra na terra, que as coivaras produzem desde que o Brasil ainda nem era Brasil.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0511.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1222" title="Mata Florida_0511" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0511.jpg" alt="" width="401" height="272" /></a></p>
<p>Agora, depois de cada temporal, vem o azul lavado. E uma claridade que os sentidos humanos, e sobretudo os fotômetros das câmeras, há meses não registravam. E até que este ano a seca no Iguaçu não foi tão rigorosa assim.</p>
<p>O parque passou mais ou menos  incólume pela estação em que os incêndios agrícolas da vizinhança costumam lamber-lhe as bordas, enquanto a maioria das duzentas e setenta e tantas cataratas se reduzem a filetes de água no basalto lambido. Em meados setembro, as copas desfolhadas se misturavan com as copas floridas, emprestando cores de outono em país de clima temperado à mata tropical que estofa as margens do cânion, sobre o leito do Iguaçu.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0039-Edit.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1223" title="Mata Florida_0039-Edit" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0039-Edit.jpg" alt="" width="398" height="272" /></a></p>
<p>Regulado pelas barragens de quatro hidrelétricas a montante (e vem por aí uma quinta usina), deu para ver, neste ano de estiagem mais curta e branda, que o fluxo do rio Iguaçu atende mais à influência do abre-fecha de comportas do que propriamente das flutuações naturais do clima.</p>
<p>O rio míngua pontualmente aos sábados, assim que o consumo de energia baixa no fim de semana, induzindo as represas correnteza acima a estocar água. E engordam a partir de segunda, quando a demanda maior de eletricidade escancara os vertedouros das usinas. Tem um comportamento quase previsível. Mas segundo um  calendário que é o avesso do sobe-desce da visitação turística, nos portões do parque.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões_0729.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1224" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Andorinhões_0729" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões_0729.jpg" alt="" width="241" height="363" /></a>Descontados os efeitos especiais da manipulação humana, não poderia haver melhor ocasião para aprender com bichos e plantas a não se iludir com as agendas oficiais. Há meses, o chão continuava encharcado e as botas a escorregar na lama vermelha, quando as folhas da floresta semidecidual começaram pontualmente a cair, preparando as árvores para uma estiagem que, na prática, não veio.</p>
<p>E ainda fazia frio quando, semanas atrás, os andorinhões voltaram ao Iguaçu. Eles andavam sumidos desde o verão. Chegaram antes da primavera para inaugurar a estação do acasamento e da nidificação, que em seu caso acontece atrás das cortinas de água. São pássaros temerários, esses andorinhões.</p>
<p>Eles grudam ninhos com barro e saliva em paredões a pino, cobertos por cortinas d’água que nosso olhar &#8211; e pelo visto também o dos predadores – não atravessa. São um dos símbolos do parque nacional Iguazu, no lado argentino, embora não seja endêmico de lá ou daqui típico. Seu <em>habitat</em> se espalha por vários países aulamericanos, combina florestas tropicais com capoeiras, reservas naturais com áreas obviamente antropizadas.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões-no-Floriano_98692.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1228" title="Andorinhões no Floriano_9869" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões-no-Floriano_98692-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Eles têm nome vulgar mais longo que o científico, fato raro em taxonomia. Chamam- se, por extenso, andorinhões-velhos-da-cascata. E, no dialeto ornitológico, <em>Cypseloides senex.</em> Portanto, o “velho” de seu nome popular tem o endosso científico do “<em>senex</em>”. Mas “andorinhão”, no duro, a ornitologia ensina que ele não é. Trata-se de um membro da família <em>Apopidea. </em>Uma ave de pernas curtas, como as de seus primos beija-flores.</p>
<p>É com essas patas atrofiadas que ele se ancora nas pedras das cachoeiras. Seus ninhos não poderiam ter aparência mais precária. No entanto, é para eles que os andorinhões retornam, ano após ano, no fim de suas ausências migratórias. Os filhotes, crescendo pendurados no abismo, são especialmente “pacatos”, como observou o ornitólogo Mauro Pichorim no parque estadual de Vila Velha, também no Paraná: “Não piavam e agarravam-se aos ninhos”. Afinal, piar para quê, diante do estrondo da cascata? E soltar o ninho como, antes de aprender com os pais a furar a barreira d’água?</p>
<p>Além do desafio de flagrá-los agarrados nas rochas, meio escondidos pelas águas, o sinal mais notório de sua presença é o show permanente de vôos acrobáticos que encenam diante das cachoeiras. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/11/20/a-coreografia-dos-andorinhoes-nas-cachoeiras/">Lá vão quase dois anos que fiz no Salto Floriano, por obra e graça dos andorinhões, minha foto predileta</a>, em muitos anos de perseguição mais ou menos sistemática a imagens da natureza.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões-Blog_2439.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1229" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Andorinhões Blog_2439" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões-Blog_2439.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>Ela nunca apareceu aqui no blog, em parte por estava reservada a publicação em livro. Mas debitou meses atrás na revista Piauí. E aí vai ela de novo. Para quem se interessa por detalhes técnicos, ela resultou da mistura de acaso com premeditação.</p>
<p>Depois de ver de relance uma cena parecida diante do salto, montei a câmera sobre tripé no mirante do elevador, mantendo o ponto onde o primeiro alinhamento de andorinhões havia ocorrido. O obturador foi travado em um milésimo de segundo. E o diafragma, com teleobjetiva média, de 150 milímetros, fechado em <em>f 8,</em> para garantir alguma profundidade de foco e todos os automatismos desligados.</p>
<p>Pronto para o que desse e viesse, sem tirar o olho da frenética dança dos andorinhões, apertei o disparador até perder a conta, cada vez que o vôo dos pássaros dava a impressão de bisar a cena original. Ao fim de mais ou menos uma hora, estavam depositadas no cartão de memória da Canon 50D dezenas de fotos inaproveitáveis, ou mesmo vazias de pássaros. Mas havia quatro ou cinco publicáveis. E esta, até hoje minha favorita. O que não significa que não se continue daqui para a frente tentando fazer outra melhor. Simplesmente porque fotografá-los é irresistível.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0045.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1230" title="Mata Florida_0045" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0045.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
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		<title>Patrimônio Natural da Regionalidade</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Jul 2010 01:48:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Correm em raias paralelas em Brasília  reuniões com a Unesco para garantir, entre os assuntos, o títuto de Patrimônio Nacional da Hiumanidade para o Parque do Iguaçu e um novo projeto para cortá-lo com uma nova versão da velha Estrada do Colono.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Caminho-do-Poço-Preto_9494.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1100" title="Caminho do Poço Preto_9494" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Caminho-do-Poço-Preto_9494.jpg" alt="" width="409" height="272" /></a></p>
<p><strong>O</strong> Parque Nacional do Iguaçu entrou em rota de colisão com seu título de Patrimônio Natural da Humanidade. Aposta essa reputação em mesas avulsas, que o acaso juntou este mes em Brasília, a capital dos desencontros.</p>
<p>Numa rodada, o governo afia a língua para convencer a comissão da Unesco, instalada na cidade nesta virada de mes, que o parque vai bem, obrigado. Há queixas contra ele nos relatórios técnicos que precederam o encontro. Eles lamentam, para começo de conversa, a afobação para bater recordes de visitação ano após ano, em prejuízo da conservação da fauna e da flora.</p>
<p>Mas, até aí, a Garganta do Diabo fala mais alto. O título continuaria no papo, se não tivesse chegado a Brasília, pouco antes da comissão, mais uma proposta para reabrir a Estrada do Colono, cortando ao meio a floresta do Iguaçu. À Unesco se creditou, nove anos atrás, o empenho do governo brasileiro para interditar depressa a estrada, com Exército e a Polícia Federal, antes que o Iguaçu não se rebaixasse a sítio do patrimônio natural ameaçado.</p>
<p>A idéia de reabri-la apresentou-se no Ministério do Meio Ambiente pela mão do desembargador Álvaro Eduardo Junqueira. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região encarregou-o de promover a conciliação entre o parque e seus tradicionais invasores, em vez de julgar o processo. E ele passou a cuidar pessoalmente  do lado que quer porque quer a estrada de volta.</p>
<p>Com esse tipo de conciliação em marcha, o projeto, que antes era assunto de políticos locais, ganhou padrinho federal. E com ele mudou de estilo. A reabertura da estrada agora se chama “restauração”. Dispensa a força e a coreografia da luta armada que usou para ocupar o parque em 1997 e 2001. Sem perder o jeito de fato consumado.</p>
<p>Semanas atrás, os municípios paranaenses ouviram do desembargador, em assembléia, a sugestão de que se contentassem com uma estrada “mais ecológica”. Imediatamente, materializou-se o projeto de Estrada Ecológica, assinada pelas associações de municípios do Oeste e do Sudoeste do Paraná. O deputado paranaese Assis do Couto, de quebra, apresentou na Câmara o projeto de lei 7.123, que cria a “Estrada-Parque Caminho do Colono”. Promete não só &#8220;fomentar o desenvolvimento rural sustentável das regiões oeste e sudoeste do Paraná com o Parque Nacional do Iguaçu&#8221;, como &#8220;assegirar a efgetivação da segurança nacional necessária em área de fronteira&#8221;. Ou seja, servir de atalho em caso de guerra com a Argentina, um assunto que parecia superado como os governos militares.</p>
<p>Vai relatar o projeto  outro  deputado paranaense, o engenheiro Eduardo Sciarra – que, como sócio da construtora CRE, tem um pé na Cataratas S/A, a empresa que explora legalmente os serviços turísticos terceirizados no Iguaçu. E, pelo visto, outro pé na terceirização informal, que atropelas as concessões em vigor, renovadas há pouco por mais dez anos.</p>
<p>A estrada-parque é um atalho para a entrada no parque de concessionários que se credenciam, sobretudo, como detentores da “memória dos prioneiros”. Em outras palavras, da lenda que atribui aos colonos gaúchos e catarinenes a iniciativa “histórica” de rasgar na selva o tal caminho, aberto em terras da União pelo governo estadual. Isso, na década de 1950. Portanto, no mínimo 11 anos depois do decreto que instituiu o parque.</p>
<p>Mas trunfo histórico é coisa que nunca falta, como ensinou o historiador Sérgio Buarque de Holanda em <em>Visões do Paraíso.</em> Como certa boa vontade, há quem ponha o Camimho do Colono no leito imemorial da Trilha do Peabiru, que segundo as lendas quinhentistas teria servido ao apóstolo São Tomé para evangelizar os índios do altiplano andino, vindo da Índia.</p>
<p>Arisco mesmo é o futuro. Ele escapa pelas frinchas da proposta de &#8220;estrada ecológica&#8221;, que fala em calçar os 17,6 quilômetros do caminho de terra com lascas de balsalto, para que o piso irregular obrigue os veículos a trafegar em baixa velocidade. Com isso, estaria garantindo “a travessia segura da fauna”. Mas não a segurança dos veículos, motoristas e passageiros. Por via das dúvidas, manda cortar todas as árvores a um metro e meio da pista, “para evitar acidentes”.</p>
<p>Indica o uso exclusivo de “ônibus elétricos” nos passeios turísticos, sem dar a menor pista de onde pretende encontrá-los. Até onde a vista alcança, ninguém os fabrica em série no Brasil. Enumera 15 investimentos. Não apresenta um só cálculo de custo para eles.</p>
<p>É um documento tão sumária que cabe inteirinho e com folga em menos de 10 páginas, apesar da farta ilustração. Dá para atravessá-lo, de ponta a ponta, em minutos. E, apesar da pressa, não deixa de  abrir espaço para a construção de dois  Centros de Visitantes, &#8220;em cada extremidade&#8221;, para &#8220;educação ambiental e conforto dos viajantes.</p>
<p>Pode ser coincidência, mas ali está, ao pé da letra, o argumento marcial invocado pelo deputado Assis do Couto. Aquele corte na floresta, segundo a proposta de &#8220;restauração&#8221;, tem &#8220;importância inclusive militar&#8221;, porque &#8220;permitiria chegar rapidamente a umas das fronteiras com a Argentina. Isso numa hora em que os consultores da Unesco receitam, para os dois lados do rio Iguaçu, um parque cava dez mais transnacional, de administração compartilhada, como ocorre cada vez mais em lugares onde animais e plantas cruzam fronteiras sem a menor cerimônia. Quer dizer, além de atacar o parque brasileiro pela retaguarda, o Caminho do Colono agora quer estar no front de eventuais confusões com os argentinos.</p>
<p>Se o projeto cair nas mãos da Unesco, o governo brasileiro terá muito o que exlicar à comissão do Patrimônio Natural da Humidade.</p>
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		<title>Maio se despede com ótimas notícias</title>
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		<pubDate>Sat, 29 May 2010 02:11:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Está acabando um mês de maio espetacular no Parque Nacional do Iguaçu. O  rio estava cheio, o clima ameno, o céu mais colorido ao entardecer e a mata cheia de frutas tirou os animais da sombra. É o tipo da coisa para deixar saudades
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Veado_6689.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-919" title="Veado_6689" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Veado_6689.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p><strong>O</strong> único defeito de maio é que, como todo mês, ele um dia acaba. Maio de 2010 foi no Parque Nacional do Iguaçu uma temporada para ninguém botar defeito. Fora a convocação de Pança para prestar serviços à conservação das onças-pintadas, com um rádio-colar no pescoço e a missão de mostrar a quantas anda sua espécie, o rio encheu acima de qualquer expectativa, a temperatura escaldante do verão caiu de repente abaixo dos 15 graus centígrados, e com elas as folhas amarelas do outono, como convém a esta floresta estacional semidecídua, a típica mata tropical do planal paranaense.</p>
<p>No ar mais frio, a névoa levantada pelas quedas custava a se dissipar. Amanhecia ancorada na copa das árvores, em forma de névoa. Caía do céu azul como pingos de chuva. E esticava os últimos raios do sol nos fins de tarde com poentes espetaculares. O rio Iguaçu podia estar barrento ou claro que, sob essa luz filtrada na poeira d’água, pouco antes de escurecer as cataratas se avermelhavam.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Cotia_6757.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-920" title="Cotia_6757" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Cotia_6757.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>O chão, de quebra, encheu-se de frutas silvestres. Caminhar pelas trilhas sabendo que todas elas têm apelido, nome científico, sabores e cheiros, todos desconhecidos, virou o passatempo predileto de quem se dispõe a aprender, pelo menos, até que ponto chega sua vasta ignorância. Dava inveja dos bichos. Eles sim, animais racionais, detentores de informações indispensáveis para tirar o melhor proveito possível da estação.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Quati_6546.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-921" title="Quati_6546" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Quati_6546.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Havia mais pássaros nas árvores. As cotias – que o inglês Gerry Durrell considerava uma das criaturas mais estressadas do planeta, trocaram pela gula uma parte da timidez e tomaram decisões temerárias, como sair em campo aberto por conta da fartura de comida espalhada pela relva dos acostamentos.</p>
<p>Os quatis – que, a fauna nativa nos perdoe, mas só perdem para os mosquitos e os turistas, quando vêm em nuvens, o título de maiores chatos do Iguaçu – passaram a achar tanta novidade comestível na margem da BR-469 voltada para o mato que deixaram de atravessá-la, para pedir restos de sorvete, refrigerante e sanduíches aos outros fregueses habituais das lanchonetes, na trilha das Cataratas.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Iguaçu_67761.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-923" style="margin: 5px;" title="Iguaçu_6776" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Iguaçu_67761.jpg" alt="" width="312" height="454" /></a>De repente, famílias inteiras de quatis – e elas são numerosas, porque a oferta artificial de alimentos está ajudando a produzir ninhadas cada vez maiores – fuçavam o chão com a atenção e o discernimento de porcos do Piemonte em busca de trufas brancas. O quê? Só perguntando a eles. Ninguém, no parque, sabia dizer o que eles desencavam e devoram com tamanha sofreguidão. Mas eles, sem dúvida, sabem.</p>
<p>Alguma coisa na terra orvalhada dia e noite pela bruma das cachoeiras devia ser irresistível, porque excepcionalmente eles não queriam saber de mais nada. Por um fim de semana, pelo menos, no outono de 2010, foram os turistas que correram atrás deles. E olha que turista é um bicho distraído. Tanto que, no domingo, 23 de maio, dia de feriadão na Argentina, com mais de seis mil visitantes passando pela bilheteria do parque, quase ninguém levantou o dedo para apontar o veado mateiro que saiu da floresta às quatro e pouco da tarde, para provar a vegetação rasteira do barranco que costeia a BR-469.</p>
<p>E lá ficou ele, tranqüilamente, diante das escadas que levam ao elevador do salto Floriano, o lugar mais freqüentado em todo o circuito das Cataratas. Como se não passasse por ele naquele instante, do outro lado da pista, uma procissão contínua de visitantes. Se, além de ver as quedas, eles quisessem saber para quê serve mesmo um parque nacional como o do Iguaçu, a resposta esteve ali, por mais de dez minutos, para quem quisesse ver. Um parque nacional é para os seres nativos se sentirem em casa.</p>
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		<title>Fora da Copa, Argentina dá banho</title>
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		<pubDate>Sat, 29 May 2010 02:01:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Num drible espetacular, os argentinos fizeram chegar a Foz do Iguaçu um veto da câmara de deputados ao projeto de fazer shows de luz e som à noite nas Cataratas. E eles têm poder de sobra para isso.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Mulher-na-ponte_9798.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-915" title="Mulher na ponte_9798" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Mulher-na-ponte_9798.jpg" alt="" width="454" height="320" /></a></p>
<p><strong>A</strong>inda bem que Copa ainda não começou. Porque a Argentina acaba de dar no Brasil um drible magistral. Fez chegar a Foz de Iguaçu na semana passada, com o timbre oficial da “Cámara de Diputados de la Nácion”, o resultado de uma votação que reprova “o projeto de criar um show de luzes e som nas Cataratas do Iguaçu”.</p>
<p>O projeto é brasileiro. Nasceu em Foz por iniciativa do prefeito Paulo Mac Donald. Não é de hoje que ele propõe um novo turno de visitação no parque nacional, que abriria às portas de noite para o espetáculo. Sua idéia é projetar na espuma branca da Garganta do Diabo a saga dos colonos que ocuparam o Oeste paranaense em meados do século passado, quando o parque já existia, perdido no mato desde 1939.</p>
<p>Se a história da colonização fosse encenada com o mínimo de realismo, teria que incluir a epopéia dos títulos de terra grilados, o faroeste das questões fundiárias resolvidas a tiro de jagunço, a aventura de um ex-governador fugindo do país para não ser preso por vender o que não era seu e, sobretudo, o ato fulgurante das queimadas, que aliás tem uma aptidão inata para essas coisas de luz e som.</p>
<p>Ultimamente, a campanha ganhou mais eloqüência, porque as Cataratas concorrem a um lugar – por sinal, merecido, ou mesmo irrecusável – entre as sete maravilhas naturais do mundo. Mas, há seis meses, o show era conversa de botequim. A decisão dos deputados em Buenos Aires data de novembro do ano passado. Desde então, pos um ponto final na proposta, em três sucintas linhas. E o que os deputados argentinos têm a ver com isso?</p>
<p>Tudo. Primeiro porque do lado de lá ficam mais de dois terços das Cataratas. Ou todo o anfiteatro de quedas que os turistas vêem quando passeiam pela trilha da margem brasileira, até poderem olhar para estas bandas no fim da linha, quase na boca da Garganta do Diabo. São argentinos praticamente dois quilômetros de saltos, quando o rio Iguaçu está cheio.</p>
<p>Ali, a linha imaginária da fronteira que corre pelo fundo do cânion não separa os dois países. Costura-os. Tudo o que acontece de um lado afeta diretamente o outro. Os argentinos, que foram os primeiros a ter nas Cataratas um parque nacional, ergueram há décadas passarelas de concreto sobre as águas, beirando o abismo. Uma enchente levou-as.</p>
<p>Eles construíram outras, ainda mais extensas, labirínticas e expostas. Ainda por cima, deixaram no rio as pilastras que sobraram da estrutura anterior, como se fossem venerandas ruínas históricas, restos de aqueduto romano ou da ponte do Gard. Agora, quem olha daqui vê os escombros de lá. E só nos resta lamentar que o Brasil não tenha uma Câmara dos Deputados que se preocupe com esses assuntos, para cobrar a remoção do entulho.</p>
<p>Em troca, em noites de lua cheia, os brasileiros eventualmente promovem um luau no restaurante do Porto Canoas, logo acima das quedas. Nessas ocasiões, acendem-se luzes coloridas no deque que se debruça no rio. E a administração do parque argentino, com razão, reclama do mafuá na manhã seguinte.</p>
<p>Como são umbelicalmente ligados pelas Cataratas, os parques, sempre que os regulamentos permitem, funcionem em regime de cooperação. Em 1999, quando o Brasil terceirizar a exploração dos serviços turísticos no Iguaçu, o biólogo Apolônio Rodrigues, hoje diretor de Conservação e Manejo, mas há 18 anos um partidário intransigente da natureza na equipe da administração, discordou do projeto de se erguer, atrás do Hotel das Cataratas, uma torre com 100 metros de altura e, lá em cima, espetar um restaurante giratório.</p>
<p>Na briga interna contra o monstrengo, ele fez aliança, na ocasião, com os argentinos. Advertiu-os sobre o risco de que a revisão do plano de manejo, então em curso, incluísse a autorização para os concessionários fazerem a torre. E trouxe de lá o veto que derrubou a propostas antes que ela saísse do chão.</p>
<p>Falta agora perguntar o que o prefeito de Foz do Iguaçu tem a ver com o governo das Cataratas. A resposta é: nada. “Parque nacional” quer dizer que aquilo se tornou assunto de política nacional. Por isso os municípios recebem indenização, em forma de ICMs Ecológico, ao cederem um pedaço de seu território para criá-lo. No parque nacional o prefeito de Foz apita tanto quanto o prefeito de Uiramutã, em Roraima. Ou seja, como qualquer brasileiro.</p>
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		<title>Água pouca no Iguaçu é bobagem</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Apr 2010 13:26:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Enchente]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Choveu o fim de semana inteiro no parque nacional do Iguaçu? Então é hora de correr para as cataratas e aproveitar, em fim de temporada, o espetáculo da cheia, que transforma o cânion inteiro numa espécie de Garganta do Diabo, onde as cachoeiras cor de terra parecem descer de todas as frinchas da floresta.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Enchente_0051.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-801" title="Enchente_0051" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Enchente_0051.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a> </strong></p>
<p><strong>O</strong> aviso chegou no meio do almoço de sábado, dia 24 de abril. Era um desses dias de chuva que parecem derreter o fim-de-semana desde que se acorda com vontade de ficar na cama. Mas, para provar mais uma vez que o parque nacional do Iguaçu é à prova d&#8217;água e de chatura, o quarto amanheceu coalhado de mariposas e outros insetos notívagos, que escaparam do temporal durante a noite, passando para dentro por qualquer fresta disponível, na porta ou na janela.</p>
<p>Logo cedo, estavam todos lá, espalhados pelas paredes ou pelo chão, pedindo um exame de perto e, depois de rápida aprovação, uma sessão de fotografia da natureza em ambiente artificial, com lentes de aproximação e muito flash, porque a manhã estava escura. Um deles era uma pequena mariposa de asas iridescentes e ao mesmo tempo translúcidas, emoldurados por uma faixa opaca de escamas cor de cobre. Era uma velha conhecida. Encontrei-a pela primeira vez, quase dez anos atrás, no Parque Nacional do Itatiaia, e da que vez não entendi a tempo toda a complexidade da tarefa que tinha pela frente. Só notei a transparência das asas tarde demais, com o filme Velvia revelado no Rio de Janeiro, dias depois. E nunca mais tinha revisto a mesma espécie.</p>
<p>Foi, em resumo, uma colheita mais farta do que o bom tempo costuma garantir em caminhadas às vezes longas pelas trilhas da floresta. E, o que é melhor, servida em casa, praticamente trazida na cama. Estava reservada para ocupar esta página&#8230;</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Argentina_5908.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-814" title="Argentina_5908" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Argentina_5908.jpg" alt="" width="461" height="308" /></a></p>
<p>&#8230;mas os insetos terão que ficar para outro dia, porque neste momento só se fala no parque da cheia do Iguaçu. Na hora do almoço a pasmaceira do sábado encharcado foi sacudida por essa novidade. O rio estava enchendo tão depressa que era preciso interditar a passarela que, nas cataratas, avança até a beira da Garganta do Diabo, passando por pilares de concreto por cima de um braço do rio. O chefe do parque, Jorge Pegoraro, foi tirado da mesa pelo recado. Correu para lá, antes que o espetáculo fosse, literalmente, por água abaixo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Enchente_0032.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-806" title="Enchente_0032" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Enchente_0032.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Desarmar os parapeitos metálicos numa emergência daquelas é uma trabalheira insana. Cada painel tem que ser libertado de duas porcas de grosso calibre, antes que se possa desencaixá-lo dos pilares de apoio. E, como não poderia deixar de ser, a rotina da manutenção acaba sempre cobrindo as roscas com tinta fresca, uma demão em cima da outra. Na hora de desaparafusar o conjunto, haja braço.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Passarela-0644.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-815" title="Passarela-0644" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Passarela-0644.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Felizmente, havia braços de sobra naquela hora. Uma dúzia de homens metidos em capas de plástico amarelo, corria d debaixo da chuva para remover os guarda-corpos, antes que enxurrada, passando por cima do piso, pudesse jogar contra a estrutura galhos pesados ou memo árvores inteiras, que costumam descer com a correnteza nessas ocasiões. Sem as grades, esses aríetes têm mais chance de atravessar a passarela, deixando a estrutura de pé.</p>
<p>Como tudo nas cataratas, a enchente é, além de uma emergência administrativa, um bonito espetáculo natural. Sobretudo para um carioca recém chegado da enhente, que paralisou o Rio de Janeiro no mes passado, derrubou morros, matou centenas de pessoas, arrancou o calçamento das ruas e marcoo os morros ainda verdes com lanhos de racvinas que vão levar muitos anos para esquecer que vieram do barro, e ao barro podem voltar de uma hora para outra. No parque nada disso aconteceu. E anda h;a quem tenha dúvidas sobre a superioridade dos parques, comparado com as cidades, por melhores que elas sejam.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Gainsborough_0656.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-816" title="Gainsborough_0656" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Gainsborough_0656.jpg" alt="" width="461" height="308" /></a></p>
<p>A excitação provocada pela fúria do rio Iguaçu lembrava a madrugada em que John Muir acordou em sua casaba, no meio da noite, com o ronco de um terremoto. Era seu primeiro terremoto na Serra Nevada. E ele, em vez de fugir, enfiou as botinas e corrou para os paredões de rocha que conhecia de cór. Não iria perder um fenômeno daqueles só porque a seu lado rolavam pedras do tamanho de casas.</p>
<p>Era um sábio, esse Muir. Além de ser o homem que acabou fazendo o vale do Yosemite e as grotas de sequóias da costa californiana um pouco à sua imagem e semalhança, de tanto transformar suas caminhadas por territótios selvagems em pretextos para atazanar os políticos com suas campanhas de preservação dos monumentos naturais, que lhe pareciam a maior obra da civilização americana.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Vista.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-819" title="Vista" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Vista.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Os três dias de cheia do Iguaçu transformaram qualquer um num aprendir de Muir. Banidos da passarela, que costuma ser o ponto alto da trilha, os turistas se aglomeravam nos mirantes do elevador, uma torre que geralmente passa a poucos metros do salto Floriano e abre, em vários planos, belveredes suspensos sobre as cachoeiras. Nesse fim de semana, a água espirrava para dentro das plataformas. Embaçava as paredes de vidro do elevador. Sacudia, com a vibração do solo, as portas da loja de souvenirs, como se alguém estivesse empurrando com força as maçanetas.</p>
<p><a style="text-decoration: none;" href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Sol_5970.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-822" title="Sol_5970" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Sol_5970.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Era um programa diferente. E bastava olhar para as caras ensopadas dos visitantes para ter a certeza de que era isso mesmo que estava acontecendo, enquanto a turma da casa corria lá embaixo para evitar o pior. Uma cheia do Iguaçu, naquele ponto, é coisa séria. No sábado de manhã, antes de receber o primeiro aviso da Copel, a Companhia Paranaense de Eletricidade, a vazão das quedas estava no nível de 1.400 metros cúbicos por segundo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Enchente-Blog_0049.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-821" title="Enchente Blog_0049" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Enchente-Blog_0049.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Alta, para a temporada. Mas nada parecido com os 10 mil metros cúbicos por segundo que atingiria no começo da tarde. No domingo, continuava subindo. Parecia a caminho dos 12 mil metros cúbicos por segundo. Chegou a 11.700 metros cúbicos por segundo na segunda-feira à tarde, quando o sol começou a ensaiar sua volta. Todo o cenário mudara diante da cheia. As pedras do rio despareceram nas águas.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Nuvem_0644.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-820" style="margin: 5px;" title="Nuvem_0644" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Nuvem_0644.jpg" alt="" width="299" height="448" /></a></p>
<p>O Iguaçu corria pelo cânion como um mar revolto e barrento, encrespado por ondas altas. Pequenas ilhas de basalto no meio da água sunmergiram, deixando do lado de fora A névoa que subia do choque com as pedras do fundo, lançando borrifos brancos no ar, engolia numa névoa esbanquiçada até a Garganta do Diabo, de ponta a ponta. A mata das margens gotejava sem parar, mesmo quando a chuva dava uma rara trégua. Quando o sol batia na folhagem, cada trilha tinha seu arco-íris.</p>
<p>Em poucas palavras, tudo isso é um grande contratempo, sobretudo para as concessionárias dos serviços turísticos, que precisam alterar roteiros, reduzindo-os aos limites de segurança, e para administração do parque, que nesses casos costuma indenizar os ingressos já pagos, revalidando-os para uma visita posterior. Sem falar nas cidades que ficaram inundadas, como Pato Branco.</p>
<p>Mas, paradoxalmente, os visitantes que levam o passeio até o fim, com ou sem chuva escorrendo por suas câmeras e telefones celulares, deixavam estampados em suas fisionomias que pagariam satisfeitos pelo privilégio de estarem ali, naquele lugar, naquela hora, debaixo daquela tempestade. O parque nacional do Iguaçu teve três dias de gala. O cânion inteiro virou um anfiteatro de cahoeiras. Encostas que passam a maior parte do ano entregues à pedra nua ganharam de repente a elegância temporária de um braço do Iguaçu descendo no meio da vegetação de 70 metros de altura. É difícil imaginá-lo mais bonito do que nesse festival de mau tempo.</p>
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		<title>Cenas de um guia turístico acidental</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Apr 2010 15:25:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA["O Carnívoro" está longe de ser um guia turístico. Trata-se do boletim sobre a conservação de felinos no Parque Nacional do Iguaçu. E circula entre pessoas que se interessam pelo assunto. Mas, na edição de abril, sua coleção de imagens colhidas por armadilhas fotográficas dá um show que raro visitante vê.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-8.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-767" title="Armadilha 8" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-8.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p><strong>S</strong>aiu <strong>O Carnívoro </strong>de abril. Mas não adianta correr paras as bancas de revistas, muito menos se espera encontrar lá um novo guia de churrascarias. Trata-se de um boletim bimensal do Parque Nacional do Iguaçu. É feito pela turma da casa. E aparece quando fica pronto, segundo o princípio de que uma semana a mais ou a menos não faz muita diferença na ordem natural das coisas.</p>
<p><strong>O Carnívoro</strong> tem de singular não só o nome como o fato de ser, provavelmente, a única publicação em cores sobre um lugar conhecido pelas cataratas que não tem uma só fotografia de quedas d’água. E por isso já é, em si, uma novidade histórica, num parque cuja administração, em suas primeiras décadas de existência, falava antes de mais nada das providências para cevar os turistas, a ponto de merecer por volta de 1940 a crítica do zoólogo Cândido de Mello Leitão num programa de rádio sobre a conservação da fauna brasileira. Mello Leitão achava que o Iguaçu, pelo tamanho e a localização, tinha tudo para ser o primeiro parque do país com a chance de ser, efetivamente, uma unidade de conservação da vida silvestre. Mas só cuidava do turismo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-6.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-769" title="Armadilha 6" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-6.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Aos 71 anos de idade, o parque está mudado. E <strong>O Carnívoro</strong> se dedica integralmente aos outros freqüentadores da unidade de conservação, os raros e furtivos, cujo número decresce enquanto aumentam os recordes de bilheteria para ver, estritamente, as cachoeiras do rio Iguaçu. A bicharada, para a maioria dos visitantes apressados, resume-se ao quatí, que sobe até em mesa para pedir ou roubar comida, de tão civilizado que está ficando. Os outros, como raramente aparecem, não existem.</p>
<p>Está aí um bom motivo para incorporar esta edição de <strong>O Carnívoro</strong> ao material distribuído nos portões de ingresso aos turistas. Eles só teriam a ganhar com o fato de serem apresentados aos animais silvestres. E esses, quase sempre esquecidos, lucrariam enormemente se cada visita ao parque servisse, antes de mais nada, para todo mundo saber quem é de fato o dono daquele pedaço de floresta, o último do oeste paranaense. Um pouco de respeito não faz mal a ninguém.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-9.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-771" title="Armadilha 9" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-9.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>No boletim, a pesquisadora Marina Xavier da Silva, que coordena o <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/">Projeto Carnívoros do Iguaçu</a>, dá conta do que foi capturado pelas 72 armadilhas fotográficas usadas, de julho a outubro do ano passado, para “estimar a população de onças-pintadas numa área de 903 quilômetros quadrados”, na unidade de conservação. Ela mesma explica que esses flagrantes “de armadilhas fotográficas servem não só como registro de ocorrência das espécies da área amostrada, mas também como fonte de informações sobre atividade, sexo, aspectos sanitários e reprodutivos, além de comportamentos típicos dos animais em vida livre”.</p>
<p>Em outras palavras, elas devassam o cotidiano sigiloso de criaturas que vêm ao mundo para, de preferência, não serem vistas por nós. Por isso mesmo, são interessantes. E não é à-toa que, segundo Marina, “a revelação dos filmes (trata-se de armadilhas da era pré-digital) é sempre aguardada com grande expectativa pela equipe”. No caso, foram colhidas 3700 fotografias que, selecionadas, renderam “belas imagens de veados com filhotes, bandos de catetos, iraras, tatus, cutias, antas, aves e outros”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-122.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-779" title="Armadilha 12" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-122.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Havia até, na coleção, um tamanduá bandeira, que em princípio vive no Cerrado, longe portanto das florestas do Iguaçu. Mas estava lá. E foi clicado automaticamente, abrindo os olhos dos pesquisadores para outros indícios de sua presença no parque. Os felinos, que são o foco de atenção do projeto, não deram o ar de sua graça com a freqüência esperada. Constam de 78 fotografias. Delas, 49 são de jaguatiricas. Só nove mostram onças-pintadas. Mas bisavam três indivíduos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-774" title="Armadilhas 2" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-2.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>A busca ainda vai longe. Chegou no começo do ano às margens do rio Floriano, na área intangível do parque, de acesso difícil, sem trilhas nem mapas &#8211; no entanto, batida há décadas por caçadores clandestinos. “Para instalar oito estações de monitoramento” nessa região, informa o boletim, os pequisadores precisaram voar 1.700 quilômetros de helicóptero, subir 85 quilômetros de rios e caminhar 16 quilômetros no mato fechado. Sem contar que o trabalho coincidiu com as estações de chuva que, pelo menos uma vez, fizeram a equipe improvisar uma noite ao relento debaixo de um plástico impermeável.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-5.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-775" title="Armadilhas 5" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-5.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Sua vocação para o turismo está longe de ser intencional. Mas, pelas histórias que conta e as fotografias que mostra, o boletim consegue ser mais divertido do que muito roteiro convencional de aventura na selva. Como não circula fora da confraria de iniciados em conservação da natureza, vale a pela vê-lo aqui, nessas amostras das armadilhas fotográficas, apontadas para um lado do Iguaçu que as cataratas, se não chegam a esconder, pelo menos ofuscam.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-41.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-778" title="Armadilhas 4" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-41.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
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		<title>Receita de um dia mais que perfeito</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/19/receita-de-um-dia-mais-que-perfeito/</link>
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		<pubDate>Fri, 19 Mar 2010 20:29:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Quem está a poucos minutos das Cataratas do Iguaçu enfrentará uma certa dificuldade se quiser passar um dia realmente em que tudo está errado. Em último caso, sobram sempre os minutos diante das cachoeiras, de preferência na hora em que o sol se põe. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Elevador_00291.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-686" title="Elevador_0029" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Elevador_00291.jpg" alt="" width="481" height="329" /></a></p>
<p><strong>S</strong>aia da cama com o pé esquerdo. Se possível, pisando nas bolhas que ainda não secaram da última caminhada. A hora passou. O despertador se esqueceu de acordá-lo ou, o que é mais provável, você se esqueceu de ajustá-lo antes de cair na cama, depois de uma longa noitada em companhia do computador. A internet saiu do ar. O trabalho adiantado na véspera vai chegar depois do prazo.</p>
<p>Correr para a cidade não resolve, porque ao ligar o carro se acende no painel aquela luz amarela da gasolina. O posto mais próximo fica a 14 quilômetros. E, ao parar na bomba, evidentemente você descobre que deixou tudo em casa – dinheiro, cartão de crédito e até o cheque guardado como lembrança do tempo em que isso se usava. Sobrou a lábia, para conseguir os litros contados de combustível para a viagem de ida de volta.</p>
<p>Ao todo, contando as gotas do empréstimo, o erro sai por 120 reais, 56 quilômetros extras e quase uma hora perdida. Ou seja, barato. Mas não adianta abater o prejuízo tomando providências há muito tempo empurradas com a barriga, porque o sapato deixado há mais de uma semana para colar a sola não ficou pronto e o sapateiro é um artesão consciencioso, que só vai devolvê-lo quando der por encerrado o expediente da costura à mão.</p>
<p>Para encurtar a conversa, você volta a parque às cinco da tarde. Lá se foi uma quinta-feira que até parecia de outono, com sol forte, ar leve e nuvens de cartão-postal boiando num céu de azul lavado. É tarde demais para pegar uma trilha. Mas as cataratas ficam logo ali. Você cinha fazendo um certo esforço para ignorá-las, porque não se considera um turista qualquer. E elas acabam de pegá-lo de jeito.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Rio-Iguaçu_0023.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-687" title="Rio Iguaçu_0023" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Rio-Iguaçu_0023.jpg" alt="" width="512" height="339" /></a></p>
<p>Aliás, vão praticamente buscá-lo no estacionamento do Porto Canoas. Dá para ver de longe que o rio Iguaçu está gordo, engolindo pedras e barrancos. Em parte porque choveu forte no domingo passado. Mas também porque o espetáculo natural das cachoeiras é regulado, rio acima, por cinco hidrelétricas, que fecham as comportas nos sábados e domingos, aproveitando a queda no consumo de eletricidade para estocar uns goles d’água, e escancaram os reservatórios nos dias úteis.</p>
<p>Com o Iguaçu tão cheio de si, a Garganta do Diabo cospe cataratas acima uma névoa que, nesse instante, para o lado da Argentina, com o sol já baixando no horizonte, acolchoa a floresta em fumos rosados. É, de longe, a melhor hora do dia para ver os saltos, com a luz batendo de frente, em cheio, no conjunto das quedas. E o momento em que passa um funcionário de uniforme, anunciando que vai partir o último ônibus.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Margem-argentina_5086.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-688" title="Margem argentina_5086" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Margem-argentina_5086.jpg" alt="" width="512" height="342" /></a></p>
<p>Mas o aviso é só para os turistas. E você, embora esteja ali, na torre do elevador, debruçado sobre o salto Floriano, no ponto mais turístico do roteiro, nem por isso abdica das prerrogativas de não ser confundido com um eles. Em minutos, o mirante se esvazia.</p>
<p>E, se não lhe sobrassem uns laivos de humildade da difícil negociação com o frentista no posto de gasolina e da aula de brio profissional que lhe deu o sapateiro horas antes, poderia pensar que aquilo tudo – da engenharia cósmica aos derrames de basalto ocorridos na noite do tempo, das tempestades que vieram fechar o verão ao balé das comportas nas usinas do Iguaçu – está se ensaiando há milhões de anos esse encontro exclusivo com você.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Salto-Floriano_5125.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-689" style="margin: 5px;" title="Salto Floriano_5125" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Salto-Floriano_5125-203x300.jpg" alt="" width="203" height="300" /></a>Ou, vá lá, com você, com os bandos de papagaios e o governo Lula. E, o que é melhor, sua velha Canon 5D, que acaba de voltar do conserto, está a postos, em cima do tripé. Você sabe que jamais conseguirá fotografar o que está sentindo. Mas poderá, pelo menos, fotografar o que nem todo turista vê – como o momento exato em que a água barrenta do Iguaçu parece feita de propósito para a luz avermelhada que vem da borda do cânion, para os vórtices iluminados de cachoeiras sombrias, para pedras do leito que os olhos a essa altura confundem com montanhas saindo das nuvens.</p>
<p>Cada mudança dura minutos, e tem que ser fixada pela câmera em segundos. A terra toda à sua volta treme e se move. Mas a máquina deve permanecer imóvel, resguardada de toda trepidação pela espelho travado, o disparador de cabo acionado por movimentos muito lentos, quem sabe com a respiração suspensa. Lá fora a luz cai depressa. Lá dentro ela tem que aumentar rapidamente.</p>
<p>Adicione a essa receita uma boa dose de adrenalina necessária a traduzir a pressa universal em gestos lentos e, quando escurece, você teve um longo dia de meia hora e meia dúzia de fotografias. Provavelmente elas nunca lhe servirão para nada. A não ser para guardar aquela tarde de quinta-feira para sempre.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Garganta-do-Diabo_5120.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-690" title="Garganta do Diabo_5120" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Garganta-do-Diabo_5120.jpg" alt="" width="427" height="640" /></a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>No caminho do Poço Preto</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/</link>
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		<pubDate>Mon, 18 Jan 2010 21:38:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Trilhas]]></category>

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		<description><![CDATA[O longo caminho de uma estrada problemática, até se transformar na peça-chave de um roteiro turístico que leva turistas a conhecer as cataratas do Iguaçu da melhor maneira, que é a clássica: passeando por nove quilômetros à sombra da floresta tropical que enfeita o percurso. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Samabaias_0167.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-464" title="Samabaias_0167" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Samabaias_0167.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>“<strong>S</strong>erá que vai dar para ver alguma coisa?” A pergunta, deixada pasra trás numa entonação meio infantil por um grupo que zarpava para a manhã de Ecoaventura na trilha do Poço Preto, acabou ficando no ar. O grupo foi em frente. E a resposta do guia, se lhe ocorreu dizer alguma coisa, deve ter sumido na distância, que crescia a cada passo.</p>
<p>Foi pena, porque naquele momento daria para apontar para qualquer lado e se encontrariam centenas de respostas para ela – em forma de aranhas <em>Argiopidae,</em> por exemplo. Elas cobrem nossas cabeças com um dossel suplementar de teias orbitais, formando entre as árvores uma rede de fios dourados, naquela hora em que o sol atravessava de viés a estrada ainda sombria. Havia também cogumelos em profusão, das mais variadas formas e feitios, brotando de troncos com a mesma opulência de troncos vivos ou mortos. E pássaros inumeráveis, de tudo quanto é cor, voz e tamanho, chamando a atenção ao mesmo tempo para sua presença esquiva no meio da folhagem e também para a nossa presença indébita em seus territórios.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Borboleta_32042.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-474" title="Borboleta_3204" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Borboleta_32042.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Mas a pergunta provavelmente se referia à esperança de ver coisas mais raras &#8211; ou mesmo ecoaventurosas. Algo mais trepidante que o vai-e-vem das cutias, por exemplo. Elas atravessam sem parar a velha estrada de terra roxa, como encarnações silvestres dos mais escolados vira-latas urbanos. Param na borda da pista, avaliam criteriosamente o movimento, como se estudassem o trânsito. Tudo isso naquela pose olímpica de quem está com os músculos armados, como um atleta imóvel no instante da largada. De repente, com os riscos da travessia aparentemente avaliados, elas dispararm rumo ao outro lado.</p>
<p>Ao contrário dos quatis, que escalam latas de lixo e sobem em mesas, atrás de comida humana, parecendo bandos de meninos de rua em volta de  restaurantesao ar livre nas grandes cidades da capital, as cutias do Parque Nacional do Iguaçu ainda fazem questão de mostrar que não abdicaram inteiramente à vida selvagem, apesar de todas as tentações em contrário.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cutia_31732.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-475" style="margin: 5px;" title="Cutia_3173" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cutia_31732-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Se era algo ainda mais substancial que os ecoaventureiros queriam ver, a coisa em si acabava de cruzar seu caminho, ou vice-versa, algumas centenas de metros atrás. Senão em pessoa, pelo menos como uma prova cabal de sua materialidade – deixando na pista um troféu de sua última caçada, reduzido a um bolo cinzento e cheio de pelos cinzentos, em cujos sais as borboletas azuis faziam naquele momento uma verdadeira orgia, a ponto de pousarem umas sobre as outras.</p>
<p>Sim, em bom português, o que a trilha ofereceria ali para se ver era merda fresca. Mas era do tipo que os biólogos ultimamente procuram sem parar, em investigações de campo. Um dos objetos de sua curiosidade é o excremento de grandes e médios felinos, capaz de informar muita coisa sobre a vida que eles levam. E aquele era, sem dúvida, excremento de um carnívoro grande, quem sabe uma suçuarana, dada a rarefação das onças pintadas no parque.</p>
<p>No momento, sabe-se, através de armadilhas fotográficas, da existência de seis onças lá dentro, pelo menos do lado do parque onde fica a administração. O outro ainda está para se conferir. Resta da metade da população que havia há dez anos. Em contraste com as jaguatiricas, que aparecem com freqüencia crescente nos registros fotográficos e podem estar ocupando vagas abertas pelo recuo populacional da <em>Pantera onca. </em></p>
<p><em><span style="font-style: normal;">A trilha do Poço Preto tem tradição nesse ramo. Foi nela que, em 1991, quando fazia o primeiro recenseamento sistemático das onças remanescentes no Parque Nacional do Iguaçu, <a href="http://www.oeco.com.br/petercrawshaw/84-petercrawshaw/20385-a-volta-do-guru-30-anos-depois">o biólogo Peter Crawshaw Júnior </a>acabou se envolvendo num luta corporal com uma pintada. Ele encarnava então o projeto Carnívoros do Iguaçu, um inventário das jagartiricas e onças iniciado em abril de 1990.</span></em></p>
<p><em><span style="font-style: normal;">O Carnívoros de Iguaçu deslanchou em abril de 1990. Como tema da dissertação de doutorado de Crawshaw  pela Universidade da Florida, era financiado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis &#8211; IBAMA, pelo World Wildlife Fund &#8211; US, pela Helisul Taxi Aéreo Ltda., pelo &#8220;Scott Neotropical Fund&#8221; do Lincoln Park Zoo e pela Ilha do Sol Turismo.  Seu objetivo, conta Crawshaw, &#8221; era comparar a ecologia de dois felinos de hábitos similares, mas de tamanhos diferentes, a jaguatirica e a onça-pintada&#8221;. E naquele mesmo ano se estenderia ao parque nacional del Iguazu, no lado argentino, onde a bióloga residente Silvana Montanelli coletava dados  para o seu doutorado pela Universidade de Buenos Aires. </span></em></p>
<p><em><span style="font-style: normal;">Até dezembro de 1994, segundo Crawshaw, &#8220;foram capturadas 21 jaguatiricas e 7 onças-pintadas, que foram aparelhadas com rádio-colares e monitoradas através da rádio-telemetria. Além desses animais, outros 21 carnívoros foram também capturados, incluindo: 6 quatis, 7 cachorros-do-mato, 2 jaguarundis, 1 gato-maracajá, 1 puma, 2 iraras, e 1 gato-do-mato-pequeno. A maior parte deles foi também aparelhada com rádio-transmissores.  Além das informações pioneiras sobre a ecologia e conservação dessas espécies em ambiente de Mata Atlântica, o projeto foi importante também pelo número de estudantes e profissionais que foram treinados em metodologias sofisticadas à época, como a rádio-telemetria e armadilhas-fotográficas, então ainda no início, no Brasil&#8221;.</span></em></p>
<p>Depois de terminar com tantos créditos, a experiência teve um saldo desalentador. A maioria das onças identificadas no parque por essa iniciativa pioneira morreria ao longo da década na mira de caçadores. Interrompido por mais de 10 anos, o trabalho recomeçou agora, em parte como desagravo ao <a href="http://www.oeco.com.br/reportagens/37-reportagens/21371-tragedia-anunciada-no-parna-do-iguacu">atropelamento de uma pintada em 2009 na BR-469</a>, a rodovia federal que leva às cachoeiras.</p>
<p><em><span style="font-style: normal;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cogumelo_31793.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-493" title="Cogumelo_3179" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cogumelo_31793.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a><br />
</span></em></p>
<p>A bicha caíra numa de suas armadilhas durante a madrugada. De manhã cedo – ou “às sete e meia de 31 de julho”, como ele costuma precisar, com dia, mes e hora, tantos anos depois &#8211; Crawshaw foi examiná-la em sua jaula de madeira. Ao chegar, a fera tentou avançar em sua direção. Sinal de que não iria ser fácil trabalhar com ela. Era parruda. E nervosa. Estava prenhe. E só adormeceu com o dobro da dose de anestésico recomendada para um animal de seu porte. Tinha os maiores caninos que ele mediu em sua longa carreira de especialista brasileiro em grandes felinos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Caninana_3097.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-469" title="Caninana_3097" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Caninana_3097.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Duplamente anestesiada, a onça passou pela revisão de praxe, doou sangue à ciência e ganhou em troca um colar de identificação &#8211; que seria vital em seus reencontros seguintes com Crawshaw. Terminado a rotina de avaliação, o biólgo ficou por ali, matando o tempo, à espera de que a onça acordasse, como se velasse à cabeceira de um paciente indefeso. Foi quando apareceu na trio um trio de observadores de pássaros. “Um escocês e um casal de americanos”, ele especifica.</p>
<p>Crawshaw morava naquela época num alojamento de pesquisa instalado bem no começo da trilha do Poço Preto, uma estrada rústica de quase nove quilômetros, que desemboca margem direita do rio Iguaçu, junto a uma lagoa natural e diante de um largo remanso, acima das cataratas. O Poço Preto propriamente dito fica dentro do rio, no ponto onde ma falha geológica aumenta drasticamente sua profundidade para 27 metros &#8211; ou seja, decuplica-a &#8211; tornando mais escuras as águas cor de terra. Mas isso só se percebe em sobrevôos de helicóptero.</p>
<p>Era raro, na época, aparecerem turistas por ali, quando o Poço Preto ainda não se incorporara de pleno direito aos roteiros alternativos do parque nacional, num esforço da administração para espalhar as multidões que as altas temporadas concentram nos 1.200 metros da trilha das cachoeiras, como se percorressem o corredor de um shopping em vésperas de Natal. Ao tropeçarem num espetáculo natural tão mais trepidante que o habitual, os observadores de pássaros passaram a observar o trabalho de Crawshaw.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Jacaré_32121.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-481" title="Jacaré_3212" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Jacaré_32121.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Estavam no quilômetro dois e meio da estrada, onde a essa altura a onça ainda dormia, fora da jaula. Durante muito tempo, essa estrada foi uma assombração para os técnicos que urdiam planos de manejo para o parque, recomendando a erradição de todas as marcas anteriores de invasão. O caminho do Poço Preto era uma delas, e só teve o futuro assegurado pelo projeto de revitalização que, no fim da década de 1990, designou-o como Zona Primitiva, submetida no passado a &#8220;mínima intervenção humana&#8221; e daí para a frente encarregou-o de &#8220;atrair público mais diversificado, diminuir a pressão atual da visitação sobre as cataratas e melhorar a imagem do parque, oferecendo novas fronteiras de uso público&#8221;.</p>
<p>Em outras palavras, aumentar o uso do parque, reduzindo ao mesmo tempo o impacto das multidões apressadas, pisoteando sempre os mesmos percursos diante das cachoeiras. A implantação de trilhas “com infraestrutura de apoio à visitação” nas antigas vias do parque _ além do Poço Preto, entraram nessa receita as estradas do Rio São João, da Linha Martins, da Onça e da Ilha do Cavalo – acabou sendo <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/12/30/de-olho-na-moldura-das-cataratas/">uma dessas táticas de dispersar os visitantes</a>. Implantou-se como um dos serviços turísiticos terceirizados, que a empresa Macuco Safari opera no Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cipó_32032.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-482" style="margin: 5px;" title="Cipó_3203" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cipó_32032-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a></p>
<p>Em 1991, nada disso existia. E Crawshaw lamenta até hoje não ter enxotado dali, sem maior cerimônia, os observadores de pássaro da área restrita em que estavam. Porque, assim que a onça abriu os olhos, ele viu a inglesa ajoelhar-se diante da fera para fotografá-la. “Eu já tinha dito para meu pessoal que estava lá para não chegar mais perto dela, porque já estava com a pupila dilatada, sintoma de que iria se levantar em poucos instantes&#8221;, ele recorda.</p>
<p>Mas o <em>flash</em> chegou primeiro que seu grito de advertência. “Não deu tempo para mais nada”, ele conta. Só de pular entre a onça e a turista. “E ainda bem que, ao se erguer, ela escorregou. Porque a inglesa também, no susto, tropeçou no barro vermelho de Iguaçu e caiu de costas&#8221;, conta o biólogo.  A onça ficou de pé, e pegou Crawshaw pela cabeça. As unhas lhe dilareraram o  couro cabeludo. Os ossos de seu polegar racharam entre os dentes do bicho, cujo focinho ele tentava manter o mais longe possível de sua cara.</p>
<p>Mas, para tornar breve <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/02/03/a-nova-geracao-gosta-de-oncas/">uma história que a rigor nunca mais terminou</a>, basta dizer que o corpo-a-corpo custou-lhe um bom tempo de convalescença. Nem por isso Crawshaw parou de lidar com onças – inclusive com aquela mesma do encontrou no Poço Preto. Uma noite apareceu em sua casa, no meio da noite, a matou-lhe o cachorro. Mais tarde, foi recapturada. Crawshaw descobriu então que ela havia perdido sabe-se lá como seus dois formidáveis caninos. &#8220;Estava tudo infeccionado&#8221;, dia ele. A fera se reduzira a uma predarora de animais domésticos. Habituara-se a rondar casas e hotéis. E, depois de tratada, foi transferida para o zoológico de Sorocaba. Depois, recrutada para uma tentativa de repovoamento do parque de Ilha Solteira, em São Paulo, onde um dia Crawshae foi visitá-la.</p>
<p>Peter Crawshaw morou no Poço Preto quando ecoaventura era substantivo comum e queria dizer outra coisa. Hoje, dá nome a um passeio tranqüilo, com direito fazer parte do percurso em bicicletas de aluguel e, no Iguaçu, embarcar de volta num barco que costeia as ilhas do rio, com direito a ver jacarés nas margens. Tudo sem sair de bordo, aos cuidados de um piloto que parece saber exatamente onde encontrar todos os bichos incluídos no programa.</p>
<p>O Poço Preto só não cumpre é a promessa a promessa de desafogar as cataratas. Mais de dez mil pessoas passaram pelo Parque do Iguaçu no segundo fim-de-semana de 2010, que promete ser um ano de recordes na bilheria. Cem visitantes, no máximo, foram experimentar a trilha. Podem não ter visto o que viram os três observadores de pássaros. Mas no mínimo saíram do Iguaçu sabendo o que todos os outros estão perdendo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Trilha_0165.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-483" title="Trilha_0165" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Trilha_0165.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
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