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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Carnívoros</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>O Brasil tem lugar para uma onça?</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/09/o-brasil-tem-lugar-para-uma-onca/</link>
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		<pubDate>Mon, 09 Aug 2010 13:16:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Trazem más notícias os dados coletados em dois meses de andanças pelo rádio-colar instalado num filhote de onça no Iguaçu: Pança gosta de lugares cheios de gente e de animal doméstico solto onde não deveria.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Onça-PNI_74652.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1128" title="Onça PNI_7465" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Onça-PNI_74652.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>C</strong>ravejado de pontos luminosos, o mapa brilha na tela. Mas o que mais se nota diante do computador é a sombra de dúvidas cruciais, franzindo a jovem testa da bióloga Marina Silva. Da ex-ministra do Meio Ambiente e atual candidata à presidência da República, ela tem o nome, não as certezas inabaláveis. E, como chefe do projeto Carnívoros do Iguaçu, encara neste momento um exemplo concreto de que, na conservação da natureza, as grandes encrencas podem vir até de soluções que pareciam caídas do céu.</p>
<p>No mapa está gravado, como um chão de estrelas, o diário íntimo de Pança, o filhote de onça pintada que virou o assunto do ano no Parque Nacional do Iguaçu. Ele veio ao mundo com um irmão. São dois machos. Não poderia haver melhor cacife do que uma dupla como essa para apostar na perpetuação da espécia, numa região onde talvez não sobrem 25 onças pintadas, em dez mil quilômetros quadrados de retalhos florestais, que vão Paraná ao Rio Grande do Sul, passando pelo Paraguai e pela Argentina.</p>
<p>Pança foi seguido durante dois meses por satélite. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/">Ganhou o rádio-colar em maio, ao ser flagrado comendo um bezerro</a>. Deve o apelido à barriga estufada de carne fresca e fácil, predada nos rebanhos que indevidamente confinam com o parque. Dois meses depois, havia crescido tanto que, para não estrangulá-lo, o aparelho foi solto por controle remoto. Estava a exatamente 380 metros do local onde o instalaram. Pudera. Ali, o proprietário cria cabritos soltos no mato, para fingir que tem reserva florestal, sem abdicar ao uso de cada metro quadrado do terreno.</p>
<p>Pança pode estar errado. Mas na ilegalidade estão os donos de sítios, casas de veraneio e fazendas. Atraído pelas tentações da marginalidade geral, Pança ficou a maior parte do tempo zanzando fora do parque. Usava nessas idas e vindas as margens do rio Iguaçu, que têm mata ciliar, embora em vários trechos ela se resuma a um diáfano biombo de árvores. Nessas aventuras mundanas, ele beirou casas de campo e fundos de hotéis. Num deles, o Canzi, usou fartamene como latrina uma construção abandonada no mato. Esteve perto da Vila Carimã, bairro residencial densamente povoado. Correu o risco de subir o rio Tamanduá e bater diretamente na área urbana de Foz do Iguaçu.</p>
<p>Mesmo no interior do parque, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/brabeza-de-onca-e-maldade-de-cacador/">ele circulou de preferência junto às áreas de visitação intens</a>a. Tirou vários finos das residências de funcionários, flanou pela sede administrativa, cruzou insistentemente trilhas reservadas ao ecoturismo e tomou gosto pelo hotel das Cataratas – <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/08/a-onca-pintada-na-era-do-foguete/">cujos arredores ostentam outra fulgurante constelação de pontos amarelos, assinalando sua presença</a>. O hotel é de cinco estrelas. Mas Pança não refugou a boia dos operários que, trabalhando na reforma das instalações, jogam restos de comida na beira da floresta.</p>
<p>Pança atravessou duas vezes o rio para se internar nas matas do lado argentino. Mas sempre voltou depressa ao Brasil, talvez porque encontrou por lá um território ocupado por macho adulto. No Brasil, praticamente ignorou a área intangível do Iguaçu, onde em princípio deveria encontrar sua floresta cativa.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Com ele vai seu irmão. Os dois ainda não separaram e, onde aparecem, em geral vêm juntos. Dias atrás, foram ao Macuco Safari, cujo programa oferece aos passageiros sustos na forma de corridas no cânion em barcos infláveis, não de encontros com onças pitadas. Os guias trataram de expulsá-los dali com rojões. Fugiram. Mas, no domingo seguinte, estavam lá de volta, como se nada tivesse acontecido.</p>
<p>E, por falar em fim-de-semana, no passado a dupla atravessou o asfalto a uns 300 metros do portão e tomou a estrada de terra qur desce para o barranco do Iguaçu. Pelo rumo, ia visitar mais uma vez o rebanho de cabritos criados ao deus-dará.</p>
<p>Marina Silva tem, portanto, duas onças para devolver ao que restou de vida selvagem no Oeste do Paraná. Talvez, cercando o parque. Porque não dá para educar ao mesmo tempo duas onças e tanta gente mal acostumada a conviver com unidades de conservação.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O outro país também chamado Brasil</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/07/30/um-outro-pais-tambem-chamado-brasil/</link>
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		<pubDate>Fri, 30 Jul 2010 03:06:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
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		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
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		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Nada mais desnortente do que estar num parque nacional, onde as notícias e até os boatos sobre aparições de onças corre pelas picadas como sinos do advento, e saber que bem aqui ao lado havia uma operação comercial para liquidá-las pela caça clandestina. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_8136.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1090" title="_MG_8136" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_8136.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>M</strong>orar, mesmo que seja como hóspede, a título provisório, de passagem por um parque nacional, é como viver uma temporada no exterior. Só que esse exterior fica no interior do Brasil.</p>
<p>No parque, você ao mesmo tempo está no Brasil e fora dele. Seu Brasil é outro, um Brasil profundo, feito de retalhos do país original que ao nascer todos herdamos e ao viver vamos sempre perdendo aos poucos, de pedaço em pedaço, de queimada em queimada, de governo em governo, de notícia em notícia – como a notícia, por sinal alvissareira, de que a Polícia Federal e o Ministério do Meio Ambiente finalmente botaram a mão outro dia na quadrilha internacional que traficava com a caça clandestina de animais em extinção.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_82661.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1091" title="_MG_8266" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_82661.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Ela está aqui de perto. Um dos presos é até  vizinho do parque. Mora na cidade de Cascavel, a mais próspera e desenvolvida do extremo oeste paranaense. Ele coleciona troféus. Ou seja, mora, por gosto, num panteão de animais mortos, cabeças empalhadas, chifres, patas, peles. Os fiscais andavam de olho nele faz tempo. E, no entanto, ele mora logo ali em outro mundo, numa terra que nada tem a ver com este lugar em que o mais vago rumor de que podem ter nascido mais dois filhotes de onça pintada corre pelas trilhas como se fosse promessa de redenção.</p>
<p>Ao mesmo tempo, bem a seu lado, tem alguém esperando a hora de botar os últimos exemplares da espécie na lista das vidas raras que, por isso mesmo, valem mais no mercado da caça esportiva, aquela que enterra até carcaças para não deixar provas do crime. Ele é brasileiro também. Mas o Brasil onde ele existe vai deixando depressa de ser o seu a cada dia que você passa no parque – freando o carro para os gambás atravessarem a estrada, tirando à noite do quarto as mariposas que as lâmpadas atraíram e provavelmente, se dormirem lá dentro, amanhecerão espalhadas pelo chão, parando para esperar o momento em que infalivelmente uma borboleta enorpecida pelo frio da madrugada abrirá as asas para o primeiro sol.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_0543-Edit.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1092" title="_MG_0543-Edit" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_0543-Edit.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Cada dia desses é um passo para olhar toda essa gente que atira, derruba, queima, constrói e diz besteiras sobre pererecas e outros bichos com a desenvoltura do presidente Lula como habitantes numerosos, hegemônicos e hostís de um país que também se chama Brasil, mas é contra o seu Brasil. E nunca poderá caber num parque nacional, enquanto houver um canto no Brasil para parques nacionais.</p>
<p>Deve ser por isso que há tantos projetos na política brasileira para revogar os parques, as reservas, o código florestal, tudo aquilo que conserva o que o Brasil dos outros quer suprimir. São projetos feitos de um povo que nunca poderá ter um parque nacional, porque ele é como onça viva – só tem sentido para quem gosta daquilo que não é seu, mas de todos. O outro Brasil só pode ter parques nacionais se acabar como eles.</p>
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		<title>Brabeza de onça é ruindade de caçador</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/brabeza-de-onca-e-maldade-de-cacador/</link>
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		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 14:55:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Duas onças-pintadas posaram para as câmeras na noite de segunda-feira, marcando no Iguaçu a volta dos irmãos que até um mes atrás pareciam estar em toda parte ao mesmo tempo. A boa notícia é que eles cresceram. A má, que ainda há caçadas no parque. De onça, inclusive.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_743.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-945" title="Onça PNI_743" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_743.jpg" alt="" width="453" height="302" /></a></p>
<p><strong>Q</strong>uando o telefone tocou no quarto às oito da noite, antes mesmo de atender não havia dúvida: “Só pode ser onça”. Celular, aqui no parque, não é instrumento de conversa fiada. E, com as noites frias que junho trouxe, os dias acabam, para todos os efeitos sociais, logo depois que o sol se esconde. Mas deu um certo trabalho confirmar todo esse monte de suposições automáticas, porque ele parou de chamar no quinto toque, antes que desse para desencavar o aparelho no fundo da mochila.</p>
<p>“É onça mesmo, quem ligou estava com pressa”, continuou a cabeça, falando sozinha. No número que ficara gravado na memória, quem atendeu foi o guarda do portão. Felizmente, bem informado. “Deve ter sido o Apolônio”, ele disse. E explicou que duas onças tinham aparecido – depois de longa e sentida ausência – no acostamento da BR-469, “entre a casa do diretor e a do capitão Capelli”. Capelli comanda o destacamento da Polícia Florestal instalado dentro do parque.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_7406.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-946" title="Onça PNI_7406" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_7406.jpg" alt="" width="453" height="302" /></a></p>
<p>Era logo ali. A meros 500 metros de distância. Mas não deu para controlar o reflexo de ligar primeiro para o biólogo Apolônio Rodrigues, diretor de Conservação e Manejo do Iguaçu, além de mateiro tarimbado. Ele atendeu com uma voz quase inaudível: “Liguei sim, mas não deu para esperar. Elas estão bem aqui, na minha frente. Venha devagar, para não assustá-las”.</p>
<p>É claro que o jeito foi sair correndo, catando às pressas o material fotográfico sem examiná-lo, levando  inclusive um flash com pilhas exauridas. E o tripé, que esperava de pé ao lado da porta, acabou ficando para trás, esquecido no escuro. Em compensação, minutos depois já se viam os faróis do carro do Apolônio, apontados para a borda da floresta, no acostamento.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_7430.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-947" title="Onça PNI_7430" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_7430.jpg" alt="" width="453" height="302" /></a></p>
<p>Ao lado, sobre a relva baixa, outro carro iluminava a cena. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/">Sem falar que a bióloga Marina Xavier da Silva, do Projeto Carnívoros do Iguaçu</a>, manejava um holofote portátil, alimentado pelo acendedor de cigarros de um dos automóveis. Todos estavam naquele momento exatamente a 11 metros das onças, medidos pelo foco manual da teleobjetiva. As figuras humanas foram se tornando reconhecíveis aos poucos, na sombra. De pé no chão orvalhado, sob um frio de rachar, formavam um grupo calado, ou que no máximo murmurava entre si palavras indispensáveis.</p>
<p>E os bichos lá, à vontade, quase indiferentes aos espectadores, como se soubessem que estavam diante de especialistas. Uma das onças tinha no pescoço o colar do rádio-transmissor. Seria o Pança, o filhote capturado semanas atrás para monitoramento? “Não”, sussurrou Marina. “É um macho argentino. E a outra parece uma fêmea daqui mesmo. Com sorte, vamos pegar um acasalamento”.</p>
<p>Nada disso. Na manhã seguinte, o exame cuidadoso das manchas revelou que era o Pança mesmo, de volta à parte mais habitada do parque, e aparentemente à companhia do irmão. Pena porque a verdade científica desmancharia a promessa de assistir em pré-estréia uma grande co-produção transnacional. O Iguaçu, naquele ponto, depois de se espalhar por 270 cataratas num raio de quase três quilômetros, acalma-se num leito fundo, sinuoso e estreito, que corre mansamente rumo à foz, no rio Paraná. A mata dos parques nacionais cobre suas margens de um lado e do outro. E, ao contrário dos políticos e diplomatas sulamericanos, seus animais sabem que, em parques nacionais, essa história de fronteira internacional é besteira.</p>
<p>A dupla de onça deu um show de educação e fineza por mais 20 minutos. Elas entravam e saíam da mata como se tivessem – e tinham – pleno domínio daquele palco sem fundo. Encaravam atentamente a platéia, sem agressividade ou arreganho de dentes, como se estivessem estudando o comportamento humano. Mastigavam o capim alto que costeia o limite da floresta com o acostamento, sem que alguém ali soubesse explicar o que isso queria dizer.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_74651.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-949" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Onça PNI_7465" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Onça-PNI_74651.jpg" alt="" width="362" height="242" /></a>Pança tinha uma cicatriz aberta no peito, do qual pendia um farrapo de couro &#8211; ferida interpretada como um sinal de que suas brincadeiras com o irmão estão aos poucos superando a fase juvenil. Ambos pareciam crescidos e encorpados, depois desse mes de sumiço. Também por isso,não foram reconhecidos à primeira vista.</p>
<p>Mas esses detalhes ficaram para se esclarecerem depois. O que deu para entender na hora, mais uma vez, é como enfiaram em nossas cabeças mentiras difamatórias sobre as onças os livros infantis de Monteiro Lobato ou os relatos de caçadas feitos por caçadores, todos interessados em espelhar na ferocidade dos animais sua própria valentia.</p>
<p>Tratava-se, nesse caso, de feras mitológicas. Até o Inferno de Dante era rondado por uma “<em>onca</em> horrível&#8221;, embora a Itália do Renascimento ainda nem tivesse visto uma legítima onça do Novo Mundo. Eram impressões deixadas em geral por animais encurralados e enlouquecidos pelo cerco histérico das matilhas de caça. Nesses casos, como ensinou Camões na história de Inês de Castro, provavelmente &#8220;toda a feridade” estava em “peitos humanos”. Porque, vistas assim, sem exibicionismos de parte a parte, as onças até que pareciam amáveis, se não inofensivas.</p>
<p>Pança, de coleira, que em si já lhe dava um certo ar de animal doméstico, acabou se deixando apanhar pela máquina fotográfica placidamente sentado no meio da folhagem, fitando o público, com a língua de fora. Tinha, naquele momento, a mesma cara da onça estilizada e francamente inverossímil, fera de histórias em quadrinhos ou de desenhos animados,  que decora a lataria de um dos ônibus de turismo no Parque Nacional do Iguaçu. Por incrível que parece, aquela onça do ônibus existe, sim. Estava na beira da estrada ontem à noite, para desmentir tudo o que se diz e se faz contra sua espécie.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Cenas de um guia turístico acidental</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/04/21/766/</link>
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		<pubDate>Wed, 21 Apr 2010 15:25:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA["O Carnívoro" está longe de ser um guia turístico. Trata-se do boletim sobre a conservação de felinos no Parque Nacional do Iguaçu. E circula entre pessoas que se interessam pelo assunto. Mas, na edição de abril, sua coleção de imagens colhidas por armadilhas fotográficas dá um show que raro visitante vê.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-8.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-767" title="Armadilha 8" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-8.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p><strong>S</strong>aiu <strong>O Carnívoro </strong>de abril. Mas não adianta correr paras as bancas de revistas, muito menos se espera encontrar lá um novo guia de churrascarias. Trata-se de um boletim bimensal do Parque Nacional do Iguaçu. É feito pela turma da casa. E aparece quando fica pronto, segundo o princípio de que uma semana a mais ou a menos não faz muita diferença na ordem natural das coisas.</p>
<p><strong>O Carnívoro</strong> tem de singular não só o nome como o fato de ser, provavelmente, a única publicação em cores sobre um lugar conhecido pelas cataratas que não tem uma só fotografia de quedas d’água. E por isso já é, em si, uma novidade histórica, num parque cuja administração, em suas primeiras décadas de existência, falava antes de mais nada das providências para cevar os turistas, a ponto de merecer por volta de 1940 a crítica do zoólogo Cândido de Mello Leitão num programa de rádio sobre a conservação da fauna brasileira. Mello Leitão achava que o Iguaçu, pelo tamanho e a localização, tinha tudo para ser o primeiro parque do país com a chance de ser, efetivamente, uma unidade de conservação da vida silvestre. Mas só cuidava do turismo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-6.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-769" title="Armadilha 6" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-6.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Aos 71 anos de idade, o parque está mudado. E <strong>O Carnívoro</strong> se dedica integralmente aos outros freqüentadores da unidade de conservação, os raros e furtivos, cujo número decresce enquanto aumentam os recordes de bilheteria para ver, estritamente, as cachoeiras do rio Iguaçu. A bicharada, para a maioria dos visitantes apressados, resume-se ao quatí, que sobe até em mesa para pedir ou roubar comida, de tão civilizado que está ficando. Os outros, como raramente aparecem, não existem.</p>
<p>Está aí um bom motivo para incorporar esta edição de <strong>O Carnívoro</strong> ao material distribuído nos portões de ingresso aos turistas. Eles só teriam a ganhar com o fato de serem apresentados aos animais silvestres. E esses, quase sempre esquecidos, lucrariam enormemente se cada visita ao parque servisse, antes de mais nada, para todo mundo saber quem é de fato o dono daquele pedaço de floresta, o último do oeste paranaense. Um pouco de respeito não faz mal a ninguém.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-9.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-771" title="Armadilha 9" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-9.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>No boletim, a pesquisadora Marina Xavier da Silva, que coordena o <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/">Projeto Carnívoros do Iguaçu</a>, dá conta do que foi capturado pelas 72 armadilhas fotográficas usadas, de julho a outubro do ano passado, para “estimar a população de onças-pintadas numa área de 903 quilômetros quadrados”, na unidade de conservação. Ela mesma explica que esses flagrantes “de armadilhas fotográficas servem não só como registro de ocorrência das espécies da área amostrada, mas também como fonte de informações sobre atividade, sexo, aspectos sanitários e reprodutivos, além de comportamentos típicos dos animais em vida livre”.</p>
<p>Em outras palavras, elas devassam o cotidiano sigiloso de criaturas que vêm ao mundo para, de preferência, não serem vistas por nós. Por isso mesmo, são interessantes. E não é à-toa que, segundo Marina, “a revelação dos filmes (trata-se de armadilhas da era pré-digital) é sempre aguardada com grande expectativa pela equipe”. No caso, foram colhidas 3700 fotografias que, selecionadas, renderam “belas imagens de veados com filhotes, bandos de catetos, iraras, tatus, cutias, antas, aves e outros”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-122.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-779" title="Armadilha 12" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilha-122.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Havia até, na coleção, um tamanduá bandeira, que em princípio vive no Cerrado, longe portanto das florestas do Iguaçu. Mas estava lá. E foi clicado automaticamente, abrindo os olhos dos pesquisadores para outros indícios de sua presença no parque. Os felinos, que são o foco de atenção do projeto, não deram o ar de sua graça com a freqüência esperada. Constam de 78 fotografias. Delas, 49 são de jaguatiricas. Só nove mostram onças-pintadas. Mas bisavam três indivíduos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-774" title="Armadilhas 2" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-2.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>A busca ainda vai longe. Chegou no começo do ano às margens do rio Floriano, na área intangível do parque, de acesso difícil, sem trilhas nem mapas &#8211; no entanto, batida há décadas por caçadores clandestinos. “Para instalar oito estações de monitoramento” nessa região, informa o boletim, os pequisadores precisaram voar 1.700 quilômetros de helicóptero, subir 85 quilômetros de rios e caminhar 16 quilômetros no mato fechado. Sem contar que o trabalho coincidiu com as estações de chuva que, pelo menos uma vez, fizeram a equipe improvisar uma noite ao relento debaixo de um plástico impermeável.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-5.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-775" title="Armadilhas 5" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-5.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Sua vocação para o turismo está longe de ser intencional. Mas, pelas histórias que conta e as fotografias que mostra, o boletim consegue ser mais divertido do que muito roteiro convencional de aventura na selva. Como não circula fora da confraria de iniciados em conservação da natureza, vale a pela vê-lo aqui, nessas amostras das armadilhas fotográficas, apontadas para um lado do Iguaçu que as cataratas, se não chegam a esconder, pelo menos ofuscam.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-41.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-778" title="Armadilhas 4" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/04/Armadilhas-41.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
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		<title>Uma casa com duas onças no fundo</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/</link>
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		<pubDate>Mon, 15 Mar 2010 15:32:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Os 31 universitários e professores alemães que vieram ao Parque Nacional do Iguaçu desbravar atalhos para o desenvolvimento econômico sem malversação de recursos naturais ganharam de presente a visita de duas onças pintadas, que se instalaram bem atrás de seu alojamento. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Dois-irmãos-3131.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-667" title="Dois irmãos-3131" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Dois-irmãos-3131.jpg" alt="" width="454" height="269" /></a></p>
<p>Fazia um calor emoliente, cozinhando em fogo lento o temporal que desabaria no fim de semana, quando um chamado urgente despertou na sexta-feira o telefone do biólogo Apolônio Rodrigues. Vinha da base do Poço Preto, uma residência funcional desabitada que se repovoou este ano, mais movimentada do que nunca, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/">como alojamento para os estudantes, alunos e pesquisadores que o Parque Nacional do Iguaçu</a> atualmente hospeda para seus cursos.</p>
<p>No caso, encerrava-se naquela tarde a árdua semana de trabalhos de campo para uma turma vinda Alemanha, do Campus Ambiental Birkenfeld, da Universidade de Trier, para aprender e ensinar o que a cidade de Foz do Iguaçu, o parque e seus vizinhos do Sudoeste paranaense podem fazer em favor de uma vida mais próspera e mais limpa, usando o que botam fora como lixo e esgoto.</p>
<p>Eram estudantes universitários. E cumpriram em poucos dias uma tarefa que as administrações públicas no Brasil adiam indefinidamente. À noite, apresentariam suas conclusões no auditório do parque. Estavam, a essa altura, aquertelados na base, batucando em <em>notebooks</em> seus projetos. E acostumados, depois de seis dias, a consultar Apolônio Rodrigues sobre todas as dúvidas que lhes surgiam pelo caminho.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Onde-está-Wally-F3120.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-668" title="Onde está Wally-F3120" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Onde-está-Wally-F3120.jpg" alt="" width="454" height="311" /></a></p>
<p>Mas aquele telefonema pegou de surpresa o diretor de Conservação e Manejo. Estava na linha um coordenador da universidade, contando que havia nos fundos da casa dois bichos que, se não eram, tinham tudo para ser onças pintadas. E pareciam dispostos a ficar por ali.</p>
<p>Apolônio pegou a máquina fotográfica, pulou no carro e correu para o alojamento. Ele dá a impressão de que está sempre com pressa. Mas o calor daquele princípio de tarde havia imobilizado até as folhas na floresta. E a cena que encontraria na base de pesquisas do Poço Preto não dava o menor sinal de que estivesse disposta a se desmanchar espontaneamente, de uma hora para a outra. E isso tornava o espetáculo ainda mais inverossímil.</p>
<p>Eram onças mesmo, constatou Apolônio. Dois filhotes encorpados, beirando o ponto de largar a mãe e cuidar sozinhos das próprias vidas. Provavelmente representavam uma das famílias que, há semanas, t<a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/02/23/a-safra-de-onca-2010-prom">êm aparecido nas encruzilhadas da floresta com o asfalto, na área mais frequentada do parque</a>. Talvez e mesma que posou para a posteridade numa armadilha fotográfica armada na estrada de terra das Bananeiras, em pleno circuito turístico do Macuco Safari.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/No-muro-3130.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-669" title="No muro-3130" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/No-muro-3130.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Na sexta-feira, a dupla repousava languidamente nas ruínas de um canil onde, no começo da década de 1990, a “onça do Peter” entrou à noite para matar seu cachorro. O que é outra história. Naquela madrugada, encontraram-se frente à frente no terreiro limpo, a poucos passos de distância, uma fera especialmente intratável e o biólogo Peter Crawshaw, dono do maior currículo brasileiro em <em>Pantera onca</em> e professor de etiqueta, quando se tratar de lidar com ela em pé de igualdade.</p>
<p><em> </em></p>
<p>O espetáculo que Apolônio flagrou dessa vez era estranhamente plácido. Lembrava um idílio pastoral nas melhores tradições do teatro germânico. Ex-assistente de Crawshaw, ele não estava preparado para encontrar, de um lado, moças e rapazes espalhados pelo chão de uma minúscula varanda, retocando seus relatórios sem tirar os olhos do canil meio demolido, sem porta nem tela, separado do mato por vinte centímetros de tijolos. Ali, a oito metros de distância, as duas onças ocupavam as ruínas sem se importar com a platéia.</p>
<p>Apolônio foi direto ao último ato. Tocou os alunos porta adentro. Numa das salas, encontrou um aluno de engenharia às voltas com os gráficos de seu computador, de costas para a janela aberta. Atrás dele, a um pulo do estudante, as onças. Explicou aos visitantes que onça não é brinquedo. Pode matar uma pessoa com um tapa. Sem contar que a mãe daqueles filhotes provavelmente poderia andar por perto. E reprovar a seu modo tamanha promiscuidade.</p>
<p>Fez tudo como manda o figurino de seu cargo. Sem deixar de ser Apolônio. O diretor de Conservação e Manejo fotografou e filmou os bichos no canil. E em seguida despachou-os de volta à floresta. Mas só à custa de muito berro. No dia seguinte, o guia Wanderlei Vargas encontrou a dupla a 500 metros da casa, junto ao asfalto que atravessa a área visitável do parque. Tinham matado um tapiti. Um deles devorava o coelho silvestre. O outro simplesmente balançava a cauda, &#8220;como gato, sabe?&#8221;. Eram seis e pouco da manhã. O tempo tinha virado. Começava a se armar sobre o parque o temporal que cairia de tarde. Ninguém, fora Wanderlei, estava ali naquela hora para aproveitar as onças.</p>
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		<title>A safra de onças 2010 promete</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Feb 2010 00:12:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Oficialmente, o parque nacional do Iguaçu nunca teve tão pouca onça. Mas cresce sem parar o número de pessoas que encontra pintadas pela primeira vez em sua rotina na unidade de conservação, como se fosse um sinal de que a espécie anda pedindo mais atenção.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-PNI-E181.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-622" title="Onça PNI E18" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-PNI-E181.jpg" alt="" width="454" height="283" /></a></p>
<p><strong>N</strong>a manhã de terça-feira, dia 23 de fevereiro, Clodoaldo da Silva viu uma onça com dois filhotes pequenos na beira da BR-469. É um caminho que ele faz regularmente, como funcionário da área de manutenção do parque nacional e, sobretudo, como encarregado de recolher para a Itaipu Binacional, três vezes por dia, os dados da estação pluviométrica e dos marcos de altura do rio na beira do Iguaçu.</p>
<p>Mas um encontro como aquele era a primeira vez que acontecia. Os bichos estavam a cerca de três metros de seu carro. Aparentemente, ignorando sua presença. A calma dos filhotes o impressionou. Ele, ao contrário, ficou “tão perturbado”  que nem se lembrou de gravar a cena com o telefone celular. “Numa hora dessas, nada funciona”, explicou.</p>
<p>Nesse ponto, podia se considerar na mais fina companhia. Quatro dias antes, mais ou menos na mesma hora, o jornalista Adílson Borges cruzou com uma onça no quilômetro 7,2 da estrada federal, a das cataratas. Ele trabalha na Assessoria de Comunicação do parque há seis anos. Mas aquela foi também a primeira onça de seu currículo.</p>
<p>“Já topei com muito caititu, veado, jacaré. Mas com pintada, nunca, Aliás, nem sussuarana”, ele conta. Borges ia na ocasião fotografar uma solenidade na borda das cataratas. A bolsa com o equipamento fotográfico estava no banco de trás. E lá ficou. “Acho que era um filhote quase adulto. Estava sozinho. Quando saltou do barranco, do outro lado da pista, pensei que fosse um puma. Mas ele passou bem na minha frente, e aí vi as manchas. Ele vinha correndo, mas sem dar a impressão de que estava fugindo ou perseguindo uma presa. Simplesmente atravessou a estrada depressa e entrou no mato à direita, como se meu carro não existisse”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-PNI-E132.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-627" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Onça PNI E13" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-PNI-E132.jpg" alt="" width="255" height="409" /></a>Era uma grande história para contar, na segunda-feira de manhã, a seu chefe, o diretor do parque Jorge Pegoraro. A primeira onça, depois de seis anos&#8230; Mas seu relato não foi longe, porque Pegoraro também tinha muito o que dizer a esse respeito. No cargo desde 2003, ele acabava de ver, na madrugada de sábado, a 200 metros de sua casa, um par de pintadas.</p>
<p>Voltava, na ocasião, de um jantar na Argentina. Sua mulher, Yáskara, assumira o volante. Ele cabeceava no banco do carona. Os dois filhos dormiam a sono solto atrás. De repente, Yáskara exclamou: “Pegoraro, olha lá dois bichos grandes no acostamento”. Veados certamente não eram. O casal está habituado a flagrá-los com os faróis do carro, quando chega em casa em horas mortas. Antes mesmo que os fachos iluminassem os dois animais em cheio, eles sabiam que estavam diante de alguma coisa nova, maior, diferente.</p>
<p>“Pensei que fossem pumas”, lembra Pegoraro. Mas seu batismo de onça dispensaria qualquer abatimento. Eram pintadas legítimas. Aparentemente, uma fêmea com um filhote quase de seu tamanho, mas ainda no pé, costeando o mato que, logo adiante, desemboca em seu jardim. Portanto, duas onças entregues quase a domicílio.</p>
<p>E não se fala mais de outro assunto esta semana. Há uma safra de onça nesta temporada que Iguaçu há muito tempo não colhia. Há duas semanas, uma pintada pesseava pela trilha das Bananeiras, roteiro que em geral oferece aos turísticas um cardápio rico, mas com baseado em pássaros e borboletas. Caminhava pela estrada de terra, como se fizesse parte do programa. Depois, no carnaval, uma guia viu duas onças que pareciam se distrair uma com a outra, como se estivessem brincando.</p>
<p>Seja lá qual for o motivo para tamanha visibilidade, elas vêm em boa hora. Quanto mais aparecerem, menos se pode adiar as medidas de controle da velocidade e do excesso de trânsito na BR-469, onde carros, ônibus e caminhões trafegam no ritmo dcrescentes de uma arrancada turística que este ano levou 10.400 pessoas ao parque só no domingo de carnaval. É um assunto que a administração começou a discutir há um ano, quando  uma pintada foi atropelada em plena juventude mais ou menos no mesmo ponto da estrada onde as sobreviventes agora estão circulando. Ou melhor, dando o ar de sua imensa graça.</p>
<p>E quantas onças sobrevivem no Iguaçu? Esse é outro mistério. Oficialmente, contadas pelas armadilhas fotográficas da ONG Pró-Carnínovoros, elas não passam neste momento de seis exemplares. Apesar de raras, tornaram-se mais visíveis do que nunca – seja para corroborar ou para desmentir o prognóstico sombrio de que, reduzidas a essa população, elas estão a caminho do sumiço definitivo no Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-P.C.-E182.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-631" title="Onça P.C. E18" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-P.C.-E182.jpg" alt="" width="510" height="283" /></a></p>
<p>“Uma coisa é certa”, diz Pegoraro. “<a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/02/03/a-nova-geracao-gosta-de-oncas/">Foi só retomarmos o estudo das onças para elas aparecerem”</a>. O que elas querem dizer com isso os especialistas ainda não foram capazes de traduzir para os programas de manejo do parque nacional. Mas ninguém pode dividar de que elas andam fazendo o possível para receber mais atenção.</p>
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