<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Marcos Sá Correa &#187; Biologia</title>
	<atom:link href="http://marcossacorrea.com.br/tag/biologia/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://marcossacorrea.com.br</link>
	<description>Colunismo a Quilo</description>
	<lastBuildDate>Sun, 27 Mar 2011 14:59:33 +0000</lastBuildDate>
	<generator>http://wordpress.org/?v=2.9.1</generator>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
			<item>
		<title>A história de Manu, último capítulo</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/28/a-historia-de-manu-ultimo-capitulo/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/28/a-historia-de-manu-ultimo-capitulo/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 28 Dec 2010 14:48:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1383</guid>
		<description><![CDATA[Durou 55 dias a vida de Manu, o filhote de veado mateiro que foi achado em outubro no parque nacional do Iguaçu, ferido e desgarrado da mãe. Dias atrás, foi atacada por uma jaguatirica. Morreu no mato, o lugar certo. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2090.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1384" title="Manu_2090" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2090.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>M</strong>anu morreu. Teve uma vida breve a corça recém-nascida, encontrada em outubro no parque nacional do Iguaçu. Estava, na ocasião, levemente ferida e prematuramente separada da mãe por um predador frustrado – supostamente, uma irara. Em 17 de dezembro, uma jaguatirica atacou-a durante a noite, num ataque rápido e conclusivo.</p>
<p>Ela durou 55 dias. Mas deixou no parque uma extensa biografia, com seus passos documentados por fotografias, filmes e notas. Era um tema irresistível para quem a visitou na casa dos biólogos Marina Xavier da Silva e Alexandre Vogliotti, um lugar ermo, junto à usina hidrelétrica do rio São João, hoje sem máquinas e com ares de ruína. O endereço certo para quem prefere viver no mato, e quanto mais no mato melhor.</p>
<p>A casa fica na floresta que margeia o rio Iguaçu. Não tem vizinhos próximos. É o último lugar habitado da estrada de pedras brutas, estreita e sem acostamento, que desce da sede administrativa e termina, logo depois, numa pequena praia. É caminho de bicho e gente. Mais bicho do que gente.</p>
<p>Recolhida com dois diasde idade, Manu ganhou o nome de uma sobrinha de Vogliotti, que chegou ao parque como pesquisador de cervídeos e agora integra a equipe do projeto Carnívoros do Iguaçu, capitaneado por Marina Xavier da Silva, sua mulher. Ele passou do estudo das presas à intimidade com os predadores. E Manu se instalou bem no meio dessa encruzilhada vocacional.</p>
<p>O filhote passou as primeiras semanas num quarto da casa. Dormia em caixa de papelão, onde cabia de sobra. Mamava duas vezes por dia. Passava o dia num cercado, na sede do parque, acompanhando o casal durante o expediente. Todo fim de tarde, gastava as energias no quintal, aos saltos. Até que atravessou ao anoitecer o portão invariavelmente escancarado, embrenhou-se na floresta a poucos passos de casa e passou a dormir fora, como convem a um filhote de <em>Mazama americana. </em></p>
<p>Mas <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/11/14/quem-nasce-manu-nao-vira-bambi/">essa história já foi contada aqui</a>. A novidade veio dias atrás, num e-mail de Marina Silva que ensina, em poucos parágrafos e com muitos pontos de exclamação, um biólogo de campo a conciliar dever com sentimento. Começa informando que, “infelizmente”, naquela madrugada, “para nosso completo desespero, uma jaguatirica atacou” Manu.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/ManuMorta.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1385" title="ManuMorta" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/ManuMorta.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>Para que ninguém estranhe esse “infelizmente” e o “desespero”, é bom não perder de vista que se tratava de um animal que passara de doméstico em outubro para selvagem em novembro, sem deixar o convívio do casal. “Ela crescia linda”,  “continuava com suas brincadeiras vespertinas” e, naquela noite, “havia escolhido para dormir um lugar bem perto de casa”. E assim eles a ouviram  “berrar desesperadamente no momento do ataque”.</p>
<p>“Corremos, gritamos por ela, mas a jaguatirica foi rápida e precisa!” Expor-se aos riscos da vida silvestre, lembra Marina, fora “escolha nossa e dela”. Senão, teriam salvo uma corça incapaz de sobreviver no mato. Logo, destinada ao confinamento num zoológico, por falta de traquejo em seu habitat. “Foi duro ouvi-la berrar”. Mas “a natureza é dura mesmo”. E eles dois estão no Iguaçu a trabalho.</p>
<p>Meia hora depois de ouvir o berro, Vogliotti encontrou a carcaça de Manu “na borda da mata”. O casal suspeitou de cara que aquilo era obra de jaguatirica. E não podia dormir sem testar a suposição. Morta, Manu era isca. Armaram uma armadilha fotográfica perto do corpo. E a máquina flagrou o autor de volta à cena do crime. Era mesmo jaguatirica. “Um macho grande, cumprindo exatamente seu papel de predador”, comenta Marina em sua mensagem.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_21693.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1389" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Manu_2169" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_21693.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>Dito isso, na frase seguinte ela exclama: “MALDITO!! Podia ao menos ser uma onça-pintada”. Onça-pintada, sim, é uma espécie cada vez mais rara no parque. Depois de uma temporada de visibilidade até excessiva em meados de 2010, quando todo nmundo parecia topar com ela, sumiu de uma hora para outra, driblando há meses os esforços dos pesquisadores que buscam por todo canto sinais de sua presença. Só neste fiunalzinho de dezembro deu o ar de sua graça, avistado por um funcionário da concessionária que explora o tutrismo nas Cataratas. Estava no quilômetro 26 da BR-469.</p>
<p>Restaram de Manu histórias e imagens. Vogliotti, “mesmo tendo uma boa experiência com os cervídeos”, admite que se surpreendeu “com o nível de interação que ela estabelecia conosco”, em “lutinhas, correrias, expedições pela mata, o rio Iguaçu e a cachoreira do São João”. Vogliotti acabou se convencendo de que Manu parecia “realmente se divertir nessas atividades”.</p>
<p>Ele pretendia estudar o processo de reintegração de Manu ao Iguaçu. Ela “continuava firme no objetivo de viver na mata”, ele escreve. “Ia lentamente ampliando seus horizontes. Revezava seus repousos/pernoites entre uns tres ou quatro sítios diferentes, que iam até perto da usina do São João, acima ou abaixo da trilha. Alguns eu nunca consegui localizar exatamente”.</p>
<p>Andava cada vez mais independente. “Pela manhã, ela atendia prontamente ao nosso chamado”, conta Vogliotti. “Mas, no fim da tarde, demorava mais a nos procurar e ficava um bom tempo consumindo brotos e folhas diversas, aqui e ali. Não cheguei a catalogar todas as plantas que ela vinha provando, mas sei de tres espécias, ainda não identificadas, pelas quais tinha predileção considerável”.</p>
<p>Às vezes, ele e Marina tinham que buscar Manu no mato “para mamar em tempo hábil”. E houve uma tarde em que desistiram de esperá-la. “Apareceu na tarde do dia seguinte, faminta, exigindo sua mamadeira aos berros (gravados pela Marina} e dando cabeçadas em quem quer que aparecesse à sua frente. Mamou um litro e meio em sequência”.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2538.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1398" title="Manu_2538" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2538.jpg" alt="" width="409" height="273" /></a></p>
<p>Tomava leite “de caixinha”, reforçado com “ração de gato moída”. Não se adaptou a “um sucedâneo comercial para bezerros”, que lhe provocou uma semana de diarréia – um indício do que esses bezerros desmamados andam engolindo por aí. A não ser por “breves lambidas” para saciar a curiosidade, Manu jamais bebeu água, “apesar de sempre demonstrar uma grande atração por ela. Quando íamos aos rios, ela sempre entrava na água até a altura da barriga”.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Costumava lambrer-lhes os braços. “Pensávamos que fosse pelo sal”, quase sempre deficitário na dieta da floresta. “Conseguimos um pouco de sal mineral (de uso pecuário) na intenção de suprir esses nutrientes, mas não teve o efeito esperado”. Ela provava a novidade e nem por isso deixava de lambê-los, talvez mais por “ interação social” que por necessidade “nutricional”. Lambia também a cabeça de Vogliotti. “E passava um bom tempo assim, se eu permitisse”.</p>
<p>O diário de Manu mal estava começando. E ficará para sempre incompleto. “Agora os fins de tarde custam muito a passar para a gente”, conclui Marina. Resta ao casal o consolo “de ver o parque funcionando”. Ou seja, com predadores e presas, como mandam os preceitos da conservação ambiental. “Mas podia não ser com a Manuzinha, não é mesmo???!!!”</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/28/a-historia-de-manu-ultimo-capitulo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A hora e a vez do Steindachneridion</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/11/09/steindachneridion-scriptum-sai-da-sombra/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/11/09/steindachneridion-scriptum-sai-da-sombra/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 09 Nov 2010 16:15:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Pesquisa de campo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1301</guid>
		<description><![CDATA[Às vésperas de fazer 72 anos, o Iguaçu ganha sua primeira pesqiuisa de icitiofauna logo abaixo das  cataratas e descobre, logo na primeira rodada de estudos, que é parque nacional também debaixo d'água.  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/Steindachneridion-scripta_0656.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1302" title="Steindachneridion scripta_0656" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/Steindachneridion-scripta_0656.jpg" alt="" width="409" height="273" /></a></p>
<p><strong>O</strong> nome científico já soa quase como um aviso de que o assunto é sério. O bicho se chama <em>Steindachneridion scriptum</em>.  É um surubim. Seria mais conhecido por Bocudo, se décadas de invisibiliidade não o tivessem reduzido ultimamente à espécie universal dos ilustres desconhecidos, mesmo  entre os pescadores mais tarimbados do rio Iguaçu, que mal se lembram de quantas vezes toparam com ele nas águas escuras do rio lá vão duas ou três décadas.</p>
<p>Mas <em>Steindachneridion scriptum</em> continuou firme nos guias de campo argentinos &#8211; onde consta, por sinal, como <em>scripta</em> &#8211; como se estivesse só esperando a hora de voltar. Lá, é descrito como um bagre manchado, medindo cerca de 80 centímetros. E caiu dias atrás na rede de pesquisadores da ictiofauna, o primeiro censo da fauna aquática de que se tem notícia debaixo das Cataratas, que supostamente dividem o mundo dos peixes no Iguaçu com uma sólida fronteira de basalto a prumo.</p>
<p>Agora os especialistas estão descobrindo que não é bem assim que as coisas rolam nas corredeiras onde o Iguaçu percorre seu último trecho, para desaguar  no rio Paraná. Aparentemente, durante toddo esse tempo de sumiçoo o <em>Steindachneridion scriptum </em>esteve ali, atrás de de uma das paisagens mais vistas e revisitadas do mundo.</p>
<p>Só nas últimas enchentes humanas, mais de 12 mil pessoas se debruçaram em suas corredeiras a cada domingo de feriadão, enquanto o parque acumula seus um recordes de bileheteria. Todo mundo nos mirantes. E o <em>Steindachneridion scriptum </em>logo abaixo,<em> </em><em> </em>nadando incógnito.</p>
<p>Havia indícios de que sua sombra na lembrança das famílias que, ainda na década de 1960, embora o parque já estivesse decretado havia mais de 30 anos antes, compraram no mercado local de grilagem terras devidamente tituladas dentro da unidade de conservação do governo federal. Era gente que, nas horas vagas, caçava e pescava, sem que se pudesse chamar sua atividade de furtiva. Assim como ostensivamente, nos dias úteis, ela se esforçava para empurrar pasra longe a floresta protegida, atirando-a na goela das serrarias.</p>
<p>Eram colonos. Faziam essas coisas com a olena convicção de estarem certos.Estavam ali para derrubar o mato e  levar à última barranca possível a vocação agrícola da economia paranaense. Era gente tão ciosa desses direitos que, fotografando-se em antividade, guardou para a posteridade flagrantes de um Iguaçu mais piscoso e opulento do que, nos últimos tempos, ele ganhou fama de ser. Numa dessas lembranças de família aparece um peixe grande. Fala-se dele como relíquia do velho Iguaçu, quando até o quartel da fronteira comparava peixes tirados do parque nacional para reforçar a bóia dos soldados.  A pesca artesanal e a esportiva em seus remansos eram risonha e franca.</p>
<p>Tres núcleos coloniais de cidades, quase quatro, fincaram no parque raízes que pareceram definitivas. Tinham escola estadual, linha de ônibus e luz elétrica, sem esquecer o papel tirado em cartório, comprovando a legítima propriedade da terra grilada. Nos anos 70 foram despejados dali. Os ex-moradores levaram em suas álbuns de família a tal foto do que parece um bagre corpulento e escuro, carregado com certa dificuldade nos braços de moradores. Mal saíra da água e já era um tratado troféu.</p>
<p>Há dúvidas sobre a classificação exata do peixe que se vê na fotografia. Não estava em voga no vilarejo de Santo Alberto o nome <em>Steindachneridion scriptum, </em>por sinal ilustre, herdado do naturalista Franz Steindachtner que, no século XIX , batizou o primeiro surubim e acabou imortanilzado pelo gênero inteiro.</p>
<p>O exemplar achado no cânion do Iguaçu deu sorte.  Foi devolvido ao rio na mesma noite, praticamente intato, a nâo por duas ou três escamas e um naco de gordura peitoral, que um dia talvez sirva para tirar a espécie da extinção em laboratórios de genética. Isso a lomgo prazo. A curto prazo, o primeiro efeito desse achado foi instantaneo.</p>
<p>Assim que o reconheceram, os pesquisadores Maristella e Sérgio Makrakis, da Unioeste, a universidade estadual da fronteira Paranaense, descbriram também o local da pesquisa como um território novo e paradoxalmente desconhecido, que há pelo menos 72 anos aguardava uma investiogação sistemática do que tem de importante o Iguaçu no trecho que passa entre parques nacionais, para ganha  o atestado de que o rio também integra as unidades de conservação.</p>
<p>O melhor é que o <em>Steindachneridion scriptum </em>deu o ar de sua graça logo na primeira semana, para animnar os trabalhos iniciados em outubro e previstos para durar dois anos. A próxima visita será no fim deste mes, depois de mais um feriadão. Se vier com mais novidades do mesmo calibre, há esperanças para os administradores do parque que os argumentos científicos silenciem a campanha para promover a pesca turística dentro do cânion, entre as quedas e a foz do Iguaçu.</p>
<p>Maristella e Sérgio Makrakis são o mesmo tempo uma equipe e um casal, como acontece tantas vezes num ofício que envolve longas viagens, convivência próxima em local isolado e o gosto comum por meter a mão onde nem todo mundo poria sequer a ponta dos dedos</p>
<p>Estão há mais seis meses recenseando os peixes do Iguaçu, acima das Cataratas, para avaliar os impactos de mais uma hidrelétrica, a quinta a represar o rio. Na parte superior do rio, Maristella e Sérgio coletaram amostras de 60 espécies diferentes. E não tem dúvidas de que passarão das 80 espécies estimadas para a população aquática do Iguaçu. Na margem direita do parque, constataram que o Floriano, o único rio do Sufdeste que corre num parque nacional da nascente à foz, é inquestionavelmente mais vivo do que os outros.  As redes montadas para amostragem em sua desembocadura vinham tão carregadas, que levava  até seis horas o trabalho de revistadas. Em média, issoé tarefa para meia hora.</p>
<p>Antes de chegar às quedas, o Iguaçu passa por quatro grandes comportas que regulam, entre outras coisas, o volume de sua água – e, portanto, o número e a beleza das cachoeiras – com uma agenda oposta à dos turistas. Quando o consumo de energia cresce, as comportas se abrem, a água corre solta e os visitantes que dão a sorte de estar diante delas num dia de trabalho pesado são premiados por cheias instantâneas e artificiais. Nos dias de repouso, quando o consumo de paisagem aumenta e o de eletricidade cai, ocorre o oposto.</p>
<p>Nada ali é natureza intata. Por isso mesmo cada descoberta mais ou menos rara ou inesperada como a do <em>Steindachneridion scriptum</em> dá trunfos à política de conservação.  “As pessoas não sabem a importância que essas coisas têm”, conclui Sérgio Makralis, que não é dado a arroubos retóricos e só enche a boca para soletrar, ao telefone, com a ajuda de Maristella ns sílabas mais arrevezadas,</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/11/09/steindachneridion-scriptum-sai-da-sombra/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>6</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Como o dinheiro desceu da árvore</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/16/como-o-dinheiro-desceu-da-arvore/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/16/como-o-dinheiro-desceu-da-arvore/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 16 Aug 2010 12:05:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Patrocínio]]></category>
		<category><![CDATA[Zooógicos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1140</guid>
		<description><![CDATA[Os ensaios de patrocínio das campanhas presidenciais via internet ainda não chegaram ao ponto, no Brasil, em que o doador sabe imediatamente para onde foi seu dinheiro, como entre os gorilas no zoológico do Bronx.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Gorilas.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1142" title="Gorilas" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Gorilas.jpg" alt="" width="383" height="257" /></a></p>
<p><strong>A</strong> campanha presidencial entrou na era das doações pela internet. Mas foi festa de debutante. Por enquanto, ficou só na inauguração.</p>
<p>Cada candidato fez da estréia a reiteração de seu estilo. Dilma Rousseff ganhou da primeira-dama Marina Silva mil e treze reais num <em>pas de deux</em> palaciano, porque o sistema on-line, em si, não funcionou. José Serra deu a volta na conta, mostrando que o programa de arrecadação on-line tende a custar muito e render pouco. Marina Silva, mais uma vez, saiu na frente, recolhendo via blog quase 11.300 reais só no dia da largada, enviadas por 127 simpatizantes em cotas de 5, 50 e 100 reais.</p>
<p>Com isso, simbolicamente, a corrida presidencial queria dizer que está chegando no Brasil ao ponto que atingiu Barak Obama dois anos, mobilizando o eleitorado americano para o pinga-pinga eletrônico da política participativa. Mas, nisso, o modelo dos Estados Unidos vem de mais longe.</p>
<p>Funciona há mais de uma década no zoológico do Bronx. Mais precisamente, nos 2,6 hectares da <strong>Gorilla Forest</strong>, um pedaço do Congo transplantado, com seus bichos e árvores, para o norte de Manhattan. Ocupa 2% do parque. Deve ter – pelo menos no mercado da habitação animal – o metro mais caro de Nova York.</p>
<p>Dos 27 dólares que os visitantes pagam para ver o parque inteiro, 5 cobrem o ingresso na <strong>Gorilla Forest</strong><em>.</em> Parece uma exorbitância, até eles aprenderem ali dentro, passo a passo, o preço de viver num mundo onde ainda existem gorilas, resistindo a guerras civis africanas, ao costume quase canibalesco de comer carne de primatas superiores e outras endemias locais, das vinditas tribais ao vírus Ebola.</p>
<p>O que está em exibição ali no Bronx não é gorila na jaula. E sim uma amostra do que fazem cientistas, pesquisadores, voluntários, médicos e até programas humanitários para mantê-lo vivo em seus territórios originais, na companhia de ocapis, micos, babuínos e outras relóquis simbólicas da África equatorial.</p>
<p>Deixá-los lá foi uma virada radical do processo civilizatório. No caso, ela ocorreu no dia em que o biólogo George Schaller sentou-se num galho de árvore, para observar pacificamente o cotidiano dos gorilas, nas colinas do Virungo. Nasceu assim, em 1959, a idéia de que não é preciso matar, empalhar ou engaiolar feras para conhecê-las intimamente.</p>
<p>De lá para cá, sobretudo no caso dos gorilas e outros oprimatas, o avanço foi tamanho que varou a fronteira da antropologia com a da primatologia. Alguns dos melhores livros de ciência política lançados nas últimas décadas se devem ao que a humanidade aprendeu sobre a luta pelo poder nos altos círculos da macacada.</p>
<p>Agora temos a chance de desverndar com eles, também, o segredo das doações on-line. Na <strong>Gorilla Forest</strong>, a saída passa obrigatoriamente por um salão, onde terminais de computadores, empoleirados em totens que nunca ultrapassam os olhos das crianças, convidam os visitantes a escolher o destino de seus cinco dólares &#8211; aqueles que lhes cobraram nos guichês do parque.</p>
<p>Eles irão todos para programas de conservação do outro lado do mundo. E cada um tem o direito de patrocinar seu pesquisador ou animal predileto. Com um clique, os caraminguás atravessam o Atlantico na tela, e caem numa conta cujos saldos e gastos, resultados e carências estão escancarados diante do doador.</p>
<p>Foi assim que, em seus primeiros 10 anos de experiência, a <strong>Gorilla Forest</strong> despachou para a selva mais de 10 milhões de dólares. Não é nada, não é nada, dariam para começar por aqui uma modesta campanha eleitoral.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/16/como-o-dinheiro-desceu-da-arvore/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A primeira onça-pintada de Marina</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 16 May 2010 00:56:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=876</guid>
		<description><![CDATA[Chama-se "Pança", por estar de barriga cheia, a primeira onça-pintada capturada e solta pelo Projeto Carnívoros do Iguaçu, que é o recomeço da conservação no parque e um marco na carreira da bióloga Marina Xavier da Silva, há seis anos esperando essa chance.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-1_00581.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-880" title="Foto 1_0058" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-1_00581.jpg" alt="" width="453" height="376" /></a></p>
<p><strong>“</strong><strong>Foi</strong> tudo perfeito”, diz a bióloga Marina Xavier da Silva. Mas acrescenta, no mesmo fôlego: “Tirando&#8230;” Dias depois de fazer sua primeira captura de onça-pintada no Parque Nacional do Iguaçu, sua voz ainda não voltara à suavidade de sempre, pelo menos ao falar do assunto. Talvez porque o detalhe que teria preferido excluir com esse “tirando” fosse seu encontro inesperado com o bicho, cara a cara, “a uns dois metros e meio de distância, se tanto”.</p>
<p>Marina estava na ocasião seguindo o rastro de um bezerro levado por onça de um sítio vizinho ao parque. Os sinais deixados no chão pela carcaça se enfiavam numa capoeira baixa e entrelaçada, pouco além da cerca. O bezerro fora roubado quase na fronteira do parque com terrenos particulares. No caso, atrás do hangar onde ficam os helicopteros da empresa Helisul, de onde veio o alarme de que havia onças rondando o gado.</p>
<p>No charrascal, ao encontrar a presa, ela esbarrou com o predador. O imprevisto obrigou-a a invocar na prática tudo o que nos últimos anos veio aprendendo na teoria, como coordenadora do Projeto Carnívoros. Os preparativos para esse encontro surpreendente mas há muito tempo aguardado a levaram inclusive a treinar, semanas atrás, no Cerrado, a captura de onças com laços.</p>
<p>Marina fez tudo como manda a cartilha. Evitou que dois voluntários da equipe fugissem dali correndo, o que é meio caminho andado para se transformar em presas. Lembrou-se de falar alto, para o bicho saber que estava lidando com gente. E, tendo que decidir depressa se era ou não o caso de disputar a carcaça com o novo dono, tomou posse do bezerro batendo a lâmina do facão numa pedra, para fazer o maior barulho possível. Precisava dos despojos para usar como isca de armadilha.</p>
<p>A onça fugiu. Mas dali para a frente era praticamente certa a sua volta. E, no dia seguinte, sábado, 8 de maio, ela amanheceu atrás das grades. Foi anestesiada com dardo de zarabatana. Submeteu-se, desacordada, aos exames de praxe. Transformou-se na versão mais atual de animal selvagem, que é aquele que vive em liberdade, mas tem ficha veterinária e o dia a dia controlado à distância, como convém às existências preciosas de exemplares que encarnam as chances de sobrevivência de uma espécie inteira.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Filhote_0023.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-882" title="Foto Filhote_0023" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Filhote_0023.jpg" alt="" width="446" height="312" /></a></p>
<p>Aquela onça-pintada estava, diga-se de passagem, vendendo saúde. Pesava 41 quilos. Tinha a barriga tão cheia da carne farta e fácil do pasto que o ventre arredondado lhe valeu, na hora, o nome de Pança. “É um dos gêmeos”, concluiu o biólogo Apolônio Rodrigues, diretor de Conservação e Manejo do Iguaçu. <strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/">Tratava-se, portanto, de um dos filhotes que há dois meses Apolônio fotografou à luz do dia</a></strong>, numa tarde emoliente de verão, a oito metros do alojamento que hospedava, naquele  momento, mais de vinte alunos de uma universidade alemã.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/08/a-onca-pintada-na-era-do-foguete/">Desde esta estréia ruidosa, os filhotes assombravam funcionários e visitantes com aparições nos lugares mais implausíveis</a>. Cruzavam a BR-469 a qualquer hora do dia ou da noite. Tangenciavam a piscina do hotel das Cataratas. Chegaram a por as patas nas escadas do centro administrativo e as circunstâncias em que foi apanhado atestam que aquele macho, ainda imaturo, já contraíra maus hábitos. Pegando gosto por predar bezerros e outros animais domésticos, estava no rumo certo dos conflitos dos grandes carnívoros com sitiantes e pecuaristas dos arredores. O vício de pular cerca sempre serviu de pretexto para levar as onças à beira do extermínio definitivo, não só no Iguaçu, como em todo fragmento de paisagem natural ilhado pela presença humana.</p>
<p>Pança voltou rapidamente ao mato. Foi devolvido no mesmo sábado frio e chuvoso <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/">à trilha do Poço Preto</a>, nem tão perto dos portões que estimulasse recaídas no assalto a animais domésticos, nem tão longe do território original que o pusesse inadvertidamente em área já dominada por um macho adulto, capaz de escorraçá-lo com argumentos certamente ferozes. Pança leva agora um rádio-transmissor, que dança em seu pescoço como um colarinho frouxo mas sólido, feito de aço. Não era, obviamente, um colar para felinos de seu porte. Mas, graças a ele, Pança terá seu cotidiano monitorado  por satélites e mapas geo-referenciados. Tornou-se uma fera identificada &#8211; e, como tal, supostamente protegida.</p>
<p>Ela tem ainda um longo caminho a percorrer, antes de prestar serviços naturais à perpetuação da espécie no parque. Tomara que vingue e chegue até lá, porque no ano passado o Iguaçu perdeu por atropelamento um macho jovem, em plena forma física, pronto para a procriação. Mas, se a adolescência de Pança ainda vai longe, com ele amadureceu este mes definitivamente o <a href="http://">Projeto Carnívoros do Iguaçu</a>, depois de uma gestação que se estendeu por mais de seis anos e custou a Marina Xavier da Silva praticamente uma década inteira de teimosia. Ela é paulistana. Criou-se na metrópole pensando, desde criança, em trabalhar no mato. “Nunca tive dúvidas sobre o que iria fazer quando crescesse”, ela conta. Era arredia, pouco festeira, “sem muita habilidade para lidar com gente”. Gostava era de bicho.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Marina-DSCF2902.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-883" title="Foto Marina DSCF2902" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Marina-DSCF2902.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Aos 13, 14 anos, já seguia o irmão mais velho, que inaugurou a dinastia dos biólogos na família, em pesquisas de campo, no litoral de São Paulo. Quando chegou sua hora de fazer vestibular, cravou só Biologia – “sem opção”. Cursando a USP, pegava à unha estágios em zoológicos, como candidata permanente “ao trabalho braçal” que implica botar a mão nas contingências materiais da sobrevivência da fauna silvestre. No Zoo de Campinas, limpou jaulas, preparou rações e encontrou o atalho da conservação através da ONG Mata Ciliar, que recolhe animais silvestres em Jundiai.</p>
<p>Aos 21 anos estava morando no parque do Iguaçu, por conta da  ONG pobre mas ambiciosa, que lhe enviava para isso 600 reais “mes sim, mes não”. Cabia-lhe gerenciar estágios na Escola Parque, que funciona no Iguaçu. “Era burocracia mesmo”, ela admite. No fim do expediente, pegava o último ônibus gratuito da Cataratas, a concessionária dos serviços turísticos, cuja frota circula no parque durente o horário de visitação, e ia para casa.</p>
<p>Ou seja, recolhia-se a seu beliche num dormitório coletivo, mas quase sempre vazio, instalado num barracão da extinta Vila Satake, que anos atrás foi demolida, por decrépita. Passava a maior parte do tempo caminhando pelas trilhas ou mergulhada nos arquivos do parque, para desvendá-lo. E assim foi desde cedo percebendo que a maior parte do que via nas picadas não constava das prateleiras. E que a universidade não lhe “tinha ensinado nada”.</p>
<p>Para ela, no Iguaçu, tudo estava por descobrir. Em sua primeira caminhada, viu um bando de macacos-pregos. Um dia, na trilha da Represa, cruzou com uma suçuarana com dois filhotes. Naufragou numa corredeira do Iguaçu e guarda, do acidente que poderia ser fatal, a lembrança a água correndo por cima de sua cabeça. E pegou bernes de perder a conta. No hospital de Foz do Iguaçu os médicos não sabiam o que fazer com aquilo. “Foram os mateiros do parque, os guias do Macuco Safari, que me trataram”, ela recorda.</p>
<p>Mas a solidão do alojamento era relativa. Ocasionalmente, arranchavam por lá guardas-parques e pesquisadores. Marina grudava em seus calcanhares, disposta a aprender o que a universidade não lhe ensinara. Foi por esse desvio que acabou casada com o biólogo Alexandre Vogliotti, que se instalou no Iguaçu por conta de uma pós-graduação em Cervídeos e hoje é seu assistente no Projeto Carnívoros.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Marina-Macaco-DSCF8051.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-884" style="margin: 5px;" title="Foto Marina Macaco DSCF8051" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Foto-Marina-Macaco-DSCF8051.jpg" alt="" width="312" height="454" /></a>Marina foi muito mais longe do que ela mesma esperava. “Quando cheguei aqui, todos os técnicos gostavam mesmo era de onça, principalmente onça-pintada. Achei que nunca iria sobrar onça para mim e fui cuidar de anfíbios. Os mamíferos em geral já me pareciam fora de alcance&#8221;. Interessou-se por Botânica, “que não era meu forte”. Estudou sementes, sapos, insetos, tudo o que não achava nas coleções científicas do parque. Mudou-se para o parque com a intenção de ficar dois anos. Lá se foram quase seis anos e ela está começando agora a fazer o que faria se pudesse pelo resto da vida.</p>
<p>Chegou aonde está por pura persistência. Sua óbvia teimosia em conhecer a fundo a unidade de conservação valeu-lhe um contrato de funcionária no setor de manejo. De tanto vê-la arrumando os arquivos, o diretor Jorge Pegoraro ofereceu-lhe uma vaga no setor de Manejo. E com isso, Marina se aproximou de uma mesa de alta voltagem, que é a do biólogo Apolônio Rodrigues, infatigável gerador de novidades na administração do Iguaçu.</p>
<p>“Apolônio e eu começamos imadiatamente a sonhar com o Projeto Carnívoros”, diz Marina. Durante muito tempo, ela presumiu que estava simplesmente “peruando” o projeto. Mas, no momento em que as discussões enveredaram pelo caminho das iniciativas concretas, o diretor de Conservação e Manejo entregou-lhe a coordenação de uma idéia que ainda não tinha dotação, sala ou equipe – mas estava destinada a virar, a partir de 2009, a maior aposta já feita nesses 71 anos de existência do parque para transformá-lo efetivamente numa unidade de conversação – coisa que, na década de 1940, o zoólogo Cândido de Mello Leitão duvidava que um dia pudesse acontecer ali, tal a obsessão dos primeiros diretores pelo “turismo paisagista”.</p>
<p>Não pode ser só coincidência que, em 2009, quando o Projeto Carnívoros saiu de uma vez por todas do papel e entrou no mato, o Iguaçu figurou pela primeira vez entre os parques nacionais recordistas em propostas de pesquisa científica no país. Mas isso, para Marina, já não basta. “Eu não quero mexer com onça só por mexer com onça. Estou aqui fazer conservação”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Onça-Sangue_0035.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-895" title="Onça Sangue_0035" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/05/Onça-Sangue_0035.jpg" alt="" width="454" height="304" /></a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>7</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Uma casa com duas onças no fundo</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 15 Mar 2010 15:32:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=666</guid>
		<description><![CDATA[Os 31 universitários e professores alemães que vieram ao Parque Nacional do Iguaçu desbravar atalhos para o desenvolvimento econômico sem malversação de recursos naturais ganharam de presente a visita de duas onças pintadas, que se instalaram bem atrás de seu alojamento. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Dois-irmãos-3131.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-667" title="Dois irmãos-3131" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Dois-irmãos-3131.jpg" alt="" width="454" height="269" /></a></p>
<p>Fazia um calor emoliente, cozinhando em fogo lento o temporal que desabaria no fim de semana, quando um chamado urgente despertou na sexta-feira o telefone do biólogo Apolônio Rodrigues. Vinha da base do Poço Preto, uma residência funcional desabitada que se repovoou este ano, mais movimentada do que nunca, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/">como alojamento para os estudantes, alunos e pesquisadores que o Parque Nacional do Iguaçu</a> atualmente hospeda para seus cursos.</p>
<p>No caso, encerrava-se naquela tarde a árdua semana de trabalhos de campo para uma turma vinda Alemanha, do Campus Ambiental Birkenfeld, da Universidade de Trier, para aprender e ensinar o que a cidade de Foz do Iguaçu, o parque e seus vizinhos do Sudoeste paranaense podem fazer em favor de uma vida mais próspera e mais limpa, usando o que botam fora como lixo e esgoto.</p>
<p>Eram estudantes universitários. E cumpriram em poucos dias uma tarefa que as administrações públicas no Brasil adiam indefinidamente. À noite, apresentariam suas conclusões no auditório do parque. Estavam, a essa altura, aquertelados na base, batucando em <em>notebooks</em> seus projetos. E acostumados, depois de seis dias, a consultar Apolônio Rodrigues sobre todas as dúvidas que lhes surgiam pelo caminho.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Onde-está-Wally-F3120.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-668" title="Onde está Wally-F3120" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Onde-está-Wally-F3120.jpg" alt="" width="454" height="311" /></a></p>
<p>Mas aquele telefonema pegou de surpresa o diretor de Conservação e Manejo. Estava na linha um coordenador da universidade, contando que havia nos fundos da casa dois bichos que, se não eram, tinham tudo para ser onças pintadas. E pareciam dispostos a ficar por ali.</p>
<p>Apolônio pegou a máquina fotográfica, pulou no carro e correu para o alojamento. Ele dá a impressão de que está sempre com pressa. Mas o calor daquele princípio de tarde havia imobilizado até as folhas na floresta. E a cena que encontraria na base de pesquisas do Poço Preto não dava o menor sinal de que estivesse disposta a se desmanchar espontaneamente, de uma hora para a outra. E isso tornava o espetáculo ainda mais inverossímil.</p>
<p>Eram onças mesmo, constatou Apolônio. Dois filhotes encorpados, beirando o ponto de largar a mãe e cuidar sozinhos das próprias vidas. Provavelmente representavam uma das famílias que, há semanas, t<a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/02/23/a-safra-de-onca-2010-prom">êm aparecido nas encruzilhadas da floresta com o asfalto, na área mais frequentada do parque</a>. Talvez e mesma que posou para a posteridade numa armadilha fotográfica armada na estrada de terra das Bananeiras, em pleno circuito turístico do Macuco Safari.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/No-muro-3130.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-669" title="No muro-3130" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/No-muro-3130.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Na sexta-feira, a dupla repousava languidamente nas ruínas de um canil onde, no começo da década de 1990, a “onça do Peter” entrou à noite para matar seu cachorro. O que é outra história. Naquela madrugada, encontraram-se frente à frente no terreiro limpo, a poucos passos de distância, uma fera especialmente intratável e o biólogo Peter Crawshaw, dono do maior currículo brasileiro em <em>Pantera onca</em> e professor de etiqueta, quando se tratar de lidar com ela em pé de igualdade.</p>
<p><em> </em></p>
<p>O espetáculo que Apolônio flagrou dessa vez era estranhamente plácido. Lembrava um idílio pastoral nas melhores tradições do teatro germânico. Ex-assistente de Crawshaw, ele não estava preparado para encontrar, de um lado, moças e rapazes espalhados pelo chão de uma minúscula varanda, retocando seus relatórios sem tirar os olhos do canil meio demolido, sem porta nem tela, separado do mato por vinte centímetros de tijolos. Ali, a oito metros de distância, as duas onças ocupavam as ruínas sem se importar com a platéia.</p>
<p>Apolônio foi direto ao último ato. Tocou os alunos porta adentro. Numa das salas, encontrou um aluno de engenharia às voltas com os gráficos de seu computador, de costas para a janela aberta. Atrás dele, a um pulo do estudante, as onças. Explicou aos visitantes que onça não é brinquedo. Pode matar uma pessoa com um tapa. Sem contar que a mãe daqueles filhotes provavelmente poderia andar por perto. E reprovar a seu modo tamanha promiscuidade.</p>
<p>Fez tudo como manda o figurino de seu cargo. Sem deixar de ser Apolônio. O diretor de Conservação e Manejo fotografou e filmou os bichos no canil. E em seguida despachou-os de volta à floresta. Mas só à custa de muito berro. No dia seguinte, o guia Wanderlei Vargas encontrou a dupla a 500 metros da casa, junto ao asfalto que atravessa a área visitável do parque. Tinham matado um tapiti. Um deles devorava o coelho silvestre. O outro simplesmente balançava a cauda, &#8220;como gato, sabe?&#8221;. Eram seis e pouco da manhã. O tempo tinha virado. Começava a se armar sobre o parque o temporal que cairia de tarde. Ninguém, fora Wanderlei, estava ali naquela hora para aproveitar as onças.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/15/uma-casa-com-duas-oncas-de-fundo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>7</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Uma aula de estilo para biólogos</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/04/uma-aula-de-estilo-para-biologos/</link>
		<comments>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/04/uma-aula-de-estilo-para-biologos/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 04 Mar 2010 13:06:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=640</guid>
		<description><![CDATA[Todo biólogo, sobretudo se estive metido em pesquisasde campo, deveria aprender com o entomólogo Bernd Heinrich como se faz um livro universal sobre o que acomtece no quintal de sua casa. O mundo precisa muito de descobrir as coisas que só eles sabem./]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Heinrich-capa.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-643" style="margin: 5px;" title="Heinrich capa" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Heinrich-capa-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a><em>Summer World &#8211; a season of bounty</em>, do entomólogo Bernd Heinrich, é um desses livros sobre assuntos universais em detalhes minúsculos que só os biólogos são capazes de fazer. O problema é que Heinrich, professor emérito da Universidade do Vermont, está longe de ser um biólogo como outro qualquer.</p>
<p>Para começo de conversa,  ele mesmo ilustra copiosamente suas páginas, não só com fotografias documentais, mas sobretudo com desenhos a mão livre, feitos com traços precisos e verossímeis, sem perder o lirismo de quem está vendo as coisas pela primeira vez, o que lhes dá um certo grau de parentesco com as figuras que povoam as páginas de histórias infantís. E isso mesmo quando retrata a autópsia de um pássaro abatido no choque com as vidraças de sua casa.</p>
<p>Ele é também um maratonista de fôlego. E bota fôlego nisso. Quase quarentão, perdeu por meros três segundos a vaga na equipe dos Estados Unidos para os jogos olímpicos de 1980. De lá para cá, veio acumulando  títulos e recordes de longa distâncua, correndo 100 quilômetros em pouco mais de sete horas e 100 milhas em doze horas.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Heinrich-foto.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-642" style="margin: 5px;" title="Heinrich foto" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Heinrich-foto-223x300.jpg" alt="" width="223" height="300" /></a></p>
<p>De quebra, escreveu sobre as maratonas para a seção de esportes do jornal <em>The New York Times</em>. E o artigo foi premiado. Pudera. Ele fez um livro de História Natural sobre os impulsos biológicos que na noite dos tempos produziran homens alcançar antílopes e outras criaturas prodigiosamente lépidas, graças à soma de persistência com vontade de vencer.</p>
<p>Tudo em que ele bota o olho fica interessante – sejam rãs, moscas, besouros, vespas, aranhas, a disputa acirrada entre insetos pelo espólio de corpos em decomposição ou o padrão metódico com que os pica-paus de peito amarelo picotam, ano após ano, a casca branca das bétulas, para lhes sugar a seiva açucarada. Estudando mamangás, demonstrou em outro livro que essas abelhas corpulentas poupam energias com o tino de verdadeiros economistas, para se manter mais quentes que o ar à sua volta. E, futricando a vida social dos corvos, provou que eles raciocinam e fazem escolhas conscientes.</p>
<p>Henrich, ainda por cima, escreve com a desenvoltura de quem acha a coisa mais natural do mundo pular, em poucas linhas, de esquemas cosmológicos sobre a inclinação do eixo terrestre que aquece o hemisfério norte, virando-o três meses por ano para o lado do sol, para uma citação de “Here comes the sun”, de George Harrison – o estribilho completo, com o “da-da-di-da-da” e tudo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Flores-Heinrich_4488.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-652" style="margin: 5px;" title="Flores Heinrich_4488" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Flores-Heinrich_4488-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Seu novo livro, este “Mundo do Verão”, mal saído do prelo nos Estados Unidos, portanto ainda longe da língua portuguesa, é exatamente o que diz o título: o mundo visto do fundo de seu quintal, nas florestas do Maine, entre os verões de 2005 e 2009, na estação em que animais e plantas aproveitam o maná de fótons que cai do céu para crescer e multiplicar-se.</p>
<p>Embora as explorações de novs continentes no século 19 tenha associado para sempre a imagem dos naturalistas as grandes viagens exploratórias pelos confins mais exóticos do planeta, a curiosidade centífica que Henrich aplica a criaturas e lugares supostamente banais tem antepassados ilustres. Foi assim, literalmente nos jardins provençais de sua casa no sul da França, que nasceram no século XIX os livros de Jacques Henri Fabre, o padroeiro dos estudos sistemáticos da vida íntima de insetos. O próprio Charles Darwin não passou o resto da vida, como parece, ruminando os troféus de seus cinco anos de viagem a bordo do Beagle. Seu último livro trata da influência das minhocas na paisagem inglesa. É uma típica &#8211; e fascnante &#8211; produção caseira.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Pássaros-Heinrich_4508.jpg"><img class="alignright size-thumbnail wp-image-653" style="margin: 5px;" title="Pássaros Heinrich_4508" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Pássaros-Heinrich_4508-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a></p>
<p>Mas Heinrich tem, a seu favor, um pendor à primeira vista contraditório para olhar para perto e enxergar longe. Só um fundista como ele para contar, como aventura épica, a migração do <em>Archilochus colubris. </em> O beija-flor do papo rubi, genuíno cidadão dos trópicos, uma vez por ano desembarca nos bosques norte-americanos, para acasalar-se e criar filhotes.</p>
<p>O macho dessa espécie pesa cerca de três gramas. Bate as asas até 60 vezes por segundo. E, ao migrar, atravessa de ida e volta o golfo do México, voando sobre quase mil quilômetros de água a 55 quilômetros por hora. São, portanto, em velocidade de cruzeiro, 17 horas sem reabastecer, costeando o limite da inanição. Eis uma narrativa de viagem para Amyr Klink nenhum botar defeito.</p>
<p>Com a mesma ligeireza, Henrich transita entre decomposição de um peru selvagem caçado por coiotes na vizinhança de sua casa para a correspondência com um ex-aluno que, desenganado pelos médicos, escreveu-lhe solicitando o favor de deixar seu corpo apodrecer ao relento nas terras do professor. Segundo explica, aos “cuidados de moscas, besouros” e outros “celebrantes da renovação”, capazes de conduzi-lo à única forma de imortalidade em que acredita – a do reaproveitamento natural das fontes de vida.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Insetos-Heinrich_4490.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-654" title="Insetos Heinrich_4490" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Insetos-Heinrich_4490.jpg" alt="" width="454" height="308" /></a>Heinrich responde que, com quase sete bilhões de seres humanos partlhando a terra, essa modalidade de serviço  fúnebre se tornou, no mínimo, pouco prática. Não sem antes dar inteira razão ao remetente. Golpe de mestre, num livro que talvez nem todo biólogo precise ler, mas que todo biólogo deveria, pelo menos, desejar escrever, porque a terra nunca precisou tanto de que os leigos se interessam sobre a sua infinita complexidade.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://marcossacorrea.com.br/2010/03/04/uma-aula-de-estilo-para-biologos/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>6</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

