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	<title>Marcos Sá Correa</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Como ir à urna de lenço no nariz</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Sep 2010 14:54:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação Ambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Eleição presidencial]]></category>
		<category><![CDATA[Poluição do ar]]></category>

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		<description><![CDATA[Se o eleitorado respirar fundo, não precisará perder um minuto com o horário gratuito de propaganda eleitoral para notar que, nesta campanha, deveria estar em debate o modelo de desenvolvimento que troca ar por fumaça. Mas a fumaça que sufoca também embaça a visão.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Bosch.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1152" title="Bosch" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Bosch.jpg" alt="" width="409" height="311" /></a></p>
<p><strong>S</strong>e há uma coisa que não está acontecendo pela primeira vez na história do Brasil é esta mistura de ar seco, horizonte encardido  e céu opaco que marca mais uma estiagem como a hora tradicional de botar fogo no mato.</p>
<p>Disso o entomólogo alemão Hermann von Burmeister já se queixou uns 200 anos atrás, em suas viagens de pesquisa pelo interior do Brasil, onde “tamanha era a quantidade de fumaça que, durante dias, ou mesmo meses, o sol ofusca quase totalmente oculto e, se o vemos, ele é vermelho”.</p>
<p>É a mesma fumaça que atualmente nos amplia o entardecer com um festival interminável de panoramas alaranjados, para a alegria dos fotógrafos. Burmeister, mais crítico, vaiou o espetáculo, resmungando contra esse efeito especial equivalente a enxergar o mundo “através de um vidro enegrecido”, sem contar que, nessas ocasiões, a atmosfera dos trópicos ardia nos olhos, irritava as narinas e inflamava os pulmões.</p>
<p>O que ele viu foi o Brasil crescendo do jeito que sabe. No caso, estava diante de Burmeister a prosperidade do café no Vale do Paraíba, derrubando as florestas para abrir alas a uma festa que durou uma geração, deixando de herança barões falidos, casarões em ruínas e um mar de morros carcomidos, que a posteridade até hoje não sabe como consertar.</p>
<p>Nisso, o Brasil está cansado de ter história. O que 2010 registra pela primeira vez nos anais da imprevidência política é o encontro das queimadas com uma campanha presidencial em que pelo menos a candidata Marina Silva tenta, em vão, discutir se é isso mesmo que os brasileiros querem daqui para a frente.</p>
<p>Pelo visto, sim. É pelo menos o que pesquisas andam dizendo. Pobre Marina. Mais sufocante que ar poluído e seco, só uma eleição conservada em índices tóxicos de pasmaceira conformista. O Brasil vai às urnas daqui a pouco num dos piores ciclos de seu desastroso currículo embiental. E não está nem aí para isso.</p>
<p>Aos inconformados, como Sérgio Leitão, do Greenpeace, resta apontar a revoada de sinais agourentos em direção a caminhos sem saída. Este foi o ano em que o Código Florestal caiu em desuso, entregue a um Congresso que só ouvia a voz dos pequenos, médios, grandes e enormes agricultores, todos alegando que não dá para sobreviver no campo sem enterrá-lo.</p>
<p>A reforma sequer acabou. E o triunfo do fogo sobre o Código já mostra em que deu o movimento nacional para malhá-lo ainda em vida. Na Amazônia, o Imazon contabilizou nada menos de 37 propostas simultâneas de madeireiros, mineradores, pecuaristas e grileiros em geral, para avançar sobre 48 áreas protegidas na região. São quase 50 mil quilômetros quadrados de florestas no butim.</p>
<p>Na Bahia, a Bamin, um consórcio de indianos e cazaquistães, acaba de derrubar os entraves legais ao Porto Sul, um terminal de exportação de minério a se erguer no último trecho do litoral onde a legítima terra do descobrimento – ou seja, a paisagem original descrita na carta de Caminha – tinha chance de progredir economicamente sem pisar nas próprias cinzas.</p>
<p>Os parques nacionais estão sob ataque na justiça. O Jardim Botânico acaba de ser deserdado no Rio de Janeiro pela Secretaria do Patrimônio da União, que prefere deixar invasores aboletados o arboreto, a reaver seu primeiro laboratório ao ar livre de pesquisa aplicada à conservação. Isso, claro, numa terra que precisa como nunca formar especialistas em manejo de florestas nativas.</p>
<p>E lá vamos nós. Estamos prontos para cutucar o Pré-Sal com canos enferrujados. Temos cada vez mais projetos de hidrelétricas em bacias fluviais sujeitas a reviravoltas climáticas. Perdemos um século culpando os ingleses que levaram nossos seringais para a Malásia. E nem notamos que, hoje, o tambaqui da Amazônia já se mudou para a China, que aprendeu antes de nós a cultivá-lo em cativeiro. Aliás, o Peru é o maior exportador mundial de castanha do Pará. Aquela que lá fora se chama “Brazil’s nuts”.</p>
<p>Mas nada disso tem a ver com eleição presidencial, não é mesmo?</p>
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		<title>Serra Grande já perdeu a eleição</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/22/serra-grande-ja-perdeu-a-eleicao/</link>
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		<pubDate>Mon, 23 Aug 2010 02:04:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Licença ambiental]]></category>

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		<description><![CDATA[O futuro de Serra Grande, no litoral da Bahia, parecia garantido. Seria uma experiência de desenvolvimento social e econômico baseado na conservação de sua natureza excepcional. Um trem de minério atropelou-o. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Vento-ruim.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1146" title="Vento ruim" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Vento-ruim.jpg" alt="" width="363" height="226" /></a></p>
<p><strong>Q</strong>uem está perdendo, até agora, a eleição presidencial é Serra Grande. Não confundir com outro Serra, o “Zé”. Serra Grande é um remoto povoado no litoral baiano. Mal passa dos três mil habitantes. E não tem um segundo sequer de horário eleitoral gratuito.</p>
<p>Por isso mesmo, Serra Grande não poderia ser um exemplo mais eloqüente de que esta campanha vai mal, desde que a entrada triunfal dos marqueteiros na disputa transformou o que parecia uma onda de nacional de bem-estar passageiro numa calmaria conformista a perder de vista. Ou seja, naquele tipo de contentamento geral que Camões chamou de &#8220;apagada e vil tristeza&#8221;.</p>
<p>À margem dos grandes debates nacionais, mas inseparável das escolhas fundamentais que os brasileiros terão de fazer nas urnas daqui a poucas semanas, Serra Grande faz muita falta na campanha. Pelo que tem que bom agora. E pelo que pode ter de ruim num futuro próximo. E assim, tendo tudo para ser uma solução, virou problema.</p>
<p>É uma amostra ainda viva daquele “país tropical, abençado por Deus e bonito por natureza”, como se dizia do Brasil na década de 1970. Tem baleias jubartes passando ao largo de suas praias. Florestas nativas beirando o mar, e tão exuberantes, que os atestados técnicos dos pesquisadores lhes conferem o recorde insuperável de diversidade na mata atlântica. E a modéstia das paisagens tão obviamente nativas que nem precisam de rótulos como <em>eco-resort</em> ou <em>beach-park</em> para mostrar que são genuinamente brasileiras.</p>
<p>Seus riachos se chamam Tijuipe (<em>copyright</em> Dandara) ou Ribeira. Mas não querem dizer  com isso que seus trunfos naturais são produtos típicos do atraso social e econômico. Parada no tempo ela ficou só até o fim da década de 1980, quando chegou lá a primeira estrada e, com o asfalto, as promessas e ameaças do desenvolvimento.</p>
<p>Mas lá a estrada tomou a tempo um desvio para o crescimento civilizador. À custa de muita negociação, Serra Grande se cercou preventivamente de uma área de proteção ambiental, a APA de Itacaré-Serra Grande. Aninhou-se num parque estadual, o do Conduru, com 9.300 hectares de florestas, encravados em 100 mil hectares de matas, manguezais e restingas.</p>
<p>Vista dos morros do Conduru, com o Atlântico moldado em contornos mediterrâneos pelas enseadas verdes, dá a impressão de que já nasceu para balneário e mafuá. Mas, na região, os passos foram cautelosos e negociados. A hotelaria teve que hospedar, antes de mais nada, vastas áreas da vegetação original em reservas privadas. Os proprietários de lotes aprenderam a olhar floresta de seus jardins como luxo primordial.</p>
<p>Com eles vieram ONGs, institutos e doadores que bancaram o reflorestamento de matas degradadas, conceberam bairros bairros populares com arquitetura e saneamento, trocaram invasões de morros por reassentamentos agrícolas ligados a feiras de produtos orgânicos. Brotaram assim  em Serra Grande programas de pós-graduação para aplicar lá mesmo os derivados práticos das últimas palavras em teoria da conservação.</p>
<p>A cidade tem sonhos e créditos para ser um polo de conhecimento aplicado ao uso racional da terra. Quem sabe, ressuscitar a economia do cacau, transformando sua secular parceria com a floresta na base de uma indústria de chocolates finos, com marca de origem.</p>
<p>Nada disso impediu que o governo Jacques Wagner desse, dias atrás, o passo decisico para sacrificar a APA de Itacaré ao Porto Sul. Em Itajuípe, a 45 quilômetros de Ilhéus, em meados de agosto, po5 15 votos a favor, cinco abstenções e um solitário “não”, o conselho gestor da área de proteção tornou quase certa a aprovação do projeto que transforma a região em corredor de exportação para o minério de ferro.</p>
<p>Trata-se de abrir passagem na floresta protegida para a Bamin – ou seja, a Bahia Mineração, um consórcio de empresas da Índia e do Cazaquistão, para vender à China 18 milhões de toneladas de minério de ferro por ano. Baianos mesmo, na Bamin, fora o minério, é a ferrovia de 700 quilômetros que o estado construirá da mina em Caitités até o mar, e o porto. No caminho fica Serra Grande e uma tal de Lagoa Encantada.</p>
<p>Com a largada da corrida final para o licenciamento da obra, Ilhéus amanheceu outro dia sob o letreiro que a declarava “de braços abertos para o futuro”. É com esse tipo de futuro que Serra Grande vai sendo empurrada de volta ao passado, sem que ninguém na campanha presidencial se lembrasse de discutir que Brasil será esse que vai às urnas em outubro para decidir se quer ser o que vem sendo a há mais ou menos 510 anos – uma fonte de matéria-prima para o desenvolvimento alheio.</p>
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		<title>Como o dinheiro desceu da árvore</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Aug 2010 12:05:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Patrocínio]]></category>
		<category><![CDATA[Zooógicos]]></category>

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		<description><![CDATA[Os ensaios de patrocínio das campanhas presidenciais via internet ainda não chegaram ao ponto, no Brasil, em que o doador sabe imediatamente para onde foi seu dinheiro, como entre os gorilas no zoológico do Bronx.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Gorilas.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1142" title="Gorilas" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Gorilas.jpg" alt="" width="383" height="257" /></a></p>
<p><strong>A</strong> campanha presidencial entrou na era das doações pela internet. Mas foi festa de debutante. Por enquanto, ficou só na inauguração.</p>
<p>Cada candidato fez da estréia a reiteração de seu estilo. Dilma Rousseff ganhou da primeira-dama Marina Silva mil e treze reais num <em>pas de deux</em> palaciano, porque o sistema on-line, em si, não funcionou. José Serra deu a volta na conta, mostrando que o programa de arrecadação on-line tende a custar muito e render pouco. Marina Silva, mais uma vez, saiu na frente, recolhendo via blog quase 11.300 reais só no dia da largada, enviadas por 127 simpatizantes em cotas de 5, 50 e 100 reais.</p>
<p>Com isso, simbolicamente, a corrida presidencial queria dizer que está chegando no Brasil ao ponto que atingiu Barak Obama dois anos, mobilizando o eleitorado americano para o pinga-pinga eletrônico da política participativa. Mas, nisso, o modelo dos Estados Unidos vem de mais longe.</p>
<p>Funciona há mais de uma década no zoológico do Bronx. Mais precisamente, nos 2,6 hectares da <strong>Gorilla Forest</strong>, um pedaço do Congo transplantado, com seus bichos e árvores, para o norte de Manhattan. Ocupa 2% do parque. Deve ter – pelo menos no mercado da habitação animal – o metro mais caro de Nova York.</p>
<p>Dos 27 dólares que os visitantes pagam para ver o parque inteiro, 5 cobrem o ingresso na <strong>Gorilla Forest</strong><em>.</em> Parece uma exorbitância, até eles aprenderem ali dentro, passo a passo, o preço de viver num mundo onde ainda existem gorilas, resistindo a guerras civis africanas, ao costume quase canibalesco de comer carne de primatas superiores e outras endemias locais, das vinditas tribais ao vírus Ebola.</p>
<p>O que está em exibição ali no Bronx não é gorila na jaula. E sim uma amostra do que fazem cientistas, pesquisadores, voluntários, médicos e até programas humanitários para mantê-lo vivo em seus territórios originais, na companhia de ocapis, micos, babuínos e outras relóquis simbólicas da África equatorial.</p>
<p>Deixá-los lá foi uma virada radical do processo civilizatório. No caso, ela ocorreu no dia em que o biólogo George Schaller sentou-se num galho de árvore, para observar pacificamente o cotidiano dos gorilas, nas colinas do Virungo. Nasceu assim, em 1959, a idéia de que não é preciso matar, empalhar ou engaiolar feras para conhecê-las intimamente.</p>
<p>De lá para cá, sobretudo no caso dos gorilas e outros oprimatas, o avanço foi tamanho que varou a fronteira da antropologia com a da primatologia. Alguns dos melhores livros de ciência política lançados nas últimas décadas se devem ao que a humanidade aprendeu sobre a luta pelo poder nos altos círculos da macacada.</p>
<p>Agora temos a chance de desverndar com eles, também, o segredo das doações on-line. Na <strong>Gorilla Forest</strong>, a saída passa obrigatoriamente por um salão, onde terminais de computadores, empoleirados em totens que nunca ultrapassam os olhos das crianças, convidam os visitantes a escolher o destino de seus cinco dólares &#8211; aqueles que lhes cobraram nos guichês do parque.</p>
<p>Eles irão todos para programas de conservação do outro lado do mundo. E cada um tem o direito de patrocinar seu pesquisador ou animal predileto. Com um clique, os caraminguás atravessam o Atlantico na tela, e caem numa conta cujos saldos e gastos, resultados e carências estão escancarados diante do doador.</p>
<p>Foi assim que, em seus primeiros 10 anos de experiência, a <strong>Gorilla Forest</strong> despachou para a selva mais de 10 milhões de dólares. Não é nada, não é nada, dariam para começar por aqui uma modesta campanha eleitoral.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O Brasil tem lugar para uma onça?</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/09/o-brasil-tem-lugar-para-uma-onca/</link>
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		<pubDate>Mon, 09 Aug 2010 13:16:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Trazem más notícias os dados coletados em dois meses de andanças pelo rádio-colar instalado num filhote de onça no Iguaçu: Pança gosta de lugares cheios de gente e de animal doméstico solto onde não deveria.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Onça-PNI_74652.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1128" title="Onça PNI_7465" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Onça-PNI_74652.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>C</strong>ravejado de pontos luminosos, o mapa brilha na tela. Mas o que mais se nota diante do computador é a sombra de dúvidas cruciais, franzindo a jovem testa da bióloga Marina Silva. Da ex-ministra do Meio Ambiente e atual candidata à presidência da República, ela tem o nome, não as certezas inabaláveis. E, como chefe do projeto Carnívoros do Iguaçu, encara neste momento um exemplo concreto de que, na conservação da natureza, as grandes encrencas podem vir até de soluções que pareciam caídas do céu.</p>
<p>No mapa está gravado, como um chão de estrelas, o diário íntimo de Pança, o filhote de onça pintada que virou o assunto do ano no Parque Nacional do Iguaçu. Ele veio ao mundo com um irmão. São dois machos. Não poderia haver melhor cacife do que uma dupla como essa para apostar na perpetuação da espécia, numa região onde talvez não sobrem 25 onças pintadas, em dez mil quilômetros quadrados de retalhos florestais, que vão Paraná ao Rio Grande do Sul, passando pelo Paraguai e pela Argentina.</p>
<p>Pança foi seguido durante dois meses por satélite. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/">Ganhou o rádio-colar em maio, ao ser flagrado comendo um bezerro</a>. Deve o apelido à barriga estufada de carne fresca e fácil, predada nos rebanhos que indevidamente confinam com o parque. Dois meses depois, havia crescido tanto que, para não estrangulá-lo, o aparelho foi solto por controle remoto. Estava a exatamente 380 metros do local onde o instalaram. Pudera. Ali, o proprietário cria cabritos soltos no mato, para fingir que tem reserva florestal, sem abdicar ao uso de cada metro quadrado do terreno.</p>
<p>Pança pode estar errado. Mas na ilegalidade estão os donos de sítios, casas de veraneio e fazendas. Atraído pelas tentações da marginalidade geral, Pança ficou a maior parte do tempo zanzando fora do parque. Usava nessas idas e vindas as margens do rio Iguaçu, que têm mata ciliar, embora em vários trechos ela se resuma a um diáfano biombo de árvores. Nessas aventuras mundanas, ele beirou casas de campo e fundos de hotéis. Num deles, o Canzi, usou fartamene como latrina uma construção abandonada no mato. Esteve perto da Vila Carimã, bairro residencial densamente povoado. Correu o risco de subir o rio Tamanduá e bater diretamente na área urbana de Foz do Iguaçu.</p>
<p>Mesmo no interior do parque, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/brabeza-de-onca-e-maldade-de-cacador/">ele circulou de preferência junto às áreas de visitação intens</a>a. Tirou vários finos das residências de funcionários, flanou pela sede administrativa, cruzou insistentemente trilhas reservadas ao ecoturismo e tomou gosto pelo hotel das Cataratas – <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/08/a-onca-pintada-na-era-do-foguete/">cujos arredores ostentam outra fulgurante constelação de pontos amarelos, assinalando sua presença</a>. O hotel é de cinco estrelas. Mas Pança não refugou a boia dos operários que, trabalhando na reforma das instalações, jogam restos de comida na beira da floresta.</p>
<p>Pança atravessou duas vezes o rio para se internar nas matas do lado argentino. Mas sempre voltou depressa ao Brasil, talvez porque encontrou por lá um território ocupado por macho adulto. No Brasil, praticamente ignorou a área intangível do Iguaçu, onde em princípio deveria encontrar sua floresta cativa.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Com ele vai seu irmão. Os dois ainda não separaram e, onde aparecem, em geral vêm juntos. Dias atrás, foram ao Macuco Safari, cujo programa oferece aos passageiros sustos na forma de corridas no cânion em barcos infláveis, não de encontros com onças pitadas. Os guias trataram de expulsá-los dali com rojões. Fugiram. Mas, no domingo seguinte, estavam lá de volta, como se nada tivesse acontecido.</p>
<p>E, por falar em fim-de-semana, no passado a dupla atravessou o asfalto a uns 300 metros do portão e tomou a estrada de terra qur desce para o barranco do Iguaçu. Pelo rumo, ia visitar mais uma vez o rebanho de cabritos criados ao deus-dará.</p>
<p>Marina Silva tem, portanto, duas onças para devolver ao que restou de vida selvagem no Oeste do Paraná. Talvez, cercando o parque. Porque não dá para educar ao mesmo tempo duas onças e tanta gente mal acostumada a conviver com unidades de conservação.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Dois surucuás e uma história sem fim</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/08/04/dois-surucuas-e-um-caso-sem-fim/</link>
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		<pubDate>Wed, 04 Aug 2010 16:05:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Aves]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[É época de acasalamento dos surucuás, os pássaros mais vistosos e discretos da temporada. Seu canto em surdina está em todo parte. E seu vulto imóvel também. Mas um casal resolveu fazer ninho bem diante da janela, na sede do parque.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0790-Edit.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1109" title="Macho_0790-Edit" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0790-Edit.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>O</strong>s bichos às vezes dão a impressão de saber que, aqui no Iguaçu, vivem num ambiente de regalias administrativas. Senão, como explicar que, com tanta mata a seu redor, aquele casal de surucuás veio se empoleirar logo nos galhos que ficam bem diante do janelão envidraçado da casa onde mora o diretor do parque nacional.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Fêmea_0756.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1110" title="Fêmea_0756" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Fêmea_0756.jpg" alt="" width="423" height="272" /></a></p>
<p>O surucuá é um pássaro ao mesmo tempo vistoso e discreto. Tem parentesco próximo com o quetzal da América Central, cuja plumagem embasbacou os colonizadores espanhóis com a exuberância iridescente do cocar de Montezuma. Hoje, o quetzal, em si, é ave rara. Mas virou nome de moeda na Guatemala.</p>
<p>O quetzal é um espanto. A palavra, por sinal, quer dizer em língua nativa qualquer coisa como “cauda grande e brilhante”. E lhe valeu, em grego, o cognome científico de <em>Pharomachrus</em>, que também se refere a seu “manto longo”. Mas, sem a fantasia de luxo carnavalesco do primo rico, o surucuá pertence a uma família tão colorida, a <em>Trogon</em>, que os nomes populares de suas espécies acabam geralmente em apostos como &#8220;do-peito-azul&#8221; ou &#8220;da-barriga-dourada&#8221;.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0769.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1111" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; margin-left: 2px; margin-right: 2px;" title="Macho_0769" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0769-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Ele chama tanta atenção que, dias atrás, a foto de um surucuá neste blog mereceu um comentário de leitor diferente – no caso, uma leitora que escreviaespecificamente para saber como se chama o animal mostrado numa ilustração. Sim, era ele. Ou seja, tecnicamente o mesmo pássaro que visitava o jardim da leitoria. Mas suas cores variam tanto, até por efeito da luz em suas penas prismáticas, ou mesmo entre macho e fêmea ou de uma região a outra, que nem sempre é fácil reconhecê-lo nos guias de aves &#8211; a menos que ele conste do retrato de família.</p>
<p>Sendo tão resplandescente, como o surucuá consegue ser discreto? Pelo comportamento. Ele se mexe nos galhos com a calma e a ponderação de quem sabe que tem estampa demais para não dar na vista, o que costuma ser um tormento na vida das criaturas mansas. O surucuá – que se alimenta de insetos e frutas, sempre pequenos – nasce desarmado até no bico, curto demais para seu porte e ainda por cima quase enterrado num tufo de penugem decorativa.</p>
<p>Seu canto, que alguns ornitólogos classificam como “melancólico”, soa como a repetição de uma nota só em flauta de bambu, com um compasso final em surdina. Dá para ouvi-lo com freqüencia ultimamente nas beiradas de trilhas do Iguaçu, porque o surucuá está em fase de acasalamento.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Surucuá_0780.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1112" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; margin-left: 2px; margin-right: 2px;" title="Surucuá_0780" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Surucuá_0780-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>No mato, ouvi-lo não é garantia de vê-lo. A não ser que um raio de sol revele de repente o brilho inconfundível de suas penas, sua figura imóvel se perde na folhagem – inclusive na folhagem rala da temporada, na floresta estacional semidecídua do parque. Mas, cantando no jardim do diretor, é outra história.</p>
<p>O casal passou horas, na tarde do domingo passado, chamando a máquina fotográfica de um lado para o outro. É típico do surucuá trocar de poleiro em vôos curtos e silenciosos. Na floresta, bastam-lhe poucos metros para sumir de vista, às vezes definitivamente. Mas num terreno onde as árvores nativas se espalham no chão limpo, como se estivessem num mostruário vivo da botânica local, a conversa é outra.</p>
<p>Aonde ia um surucuá, a teleobjetiva ia atrás. Acompanhada de flash, para revelar o indescritível colorido das penas. Tratando-se da perseguição a um casal, o equipamento fotográfico deu voltas no jardim até entender que os vôos do macho e da fêmea, sempre próximos mas separados, tinham um padrão intrigante, como se cumprissem um roteiro ao redor do jardim.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0807.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1113" title="Macho_0807" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_0807.jpg" alt="" width="385" height="272" /></a></p>
<p>Até que o círculo se fechou num oco de árvore, onde se encaixava, como uma torre de barro, o ninho de cupins. É em lugares assim que os surucuás costumam se instalar como inquilinos, na época da procriação, sem com isso expulsar os proprietários. Havia um buraco redondo, recém cavado no cupim. E nele estava o eixo de todas aquelas voltas aparentemente a esmo através do jardim.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_08191.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1115" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; margin-left: 2px; margin-right: 2px;" title="Macho_0819" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/08/Macho_08191-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>O macho não teve dúvidas. Tapou imediatamente a entrada do ninho com o corpo, exibindo nesse momento todo o fulgor metálico de seu dorso. Aparentemente, para proteger a casa. Era, naquele momento, presa fácil. Expor-se a esse ponto só podia ser prova de coragem. Coragem que, pelo visto, a fêmea só faltou aplaudir como espectadora, admirando a cena de um ramo baixo, quase na primeira fila, diante do ninho, atenta ao desenrolar dos acontecimentos, com o olhar acentuado pelos cílios longos.</p>
<p>Foi grande a tentação de seguir a história da dupla até o fim, agora que ela tinha acrescentado, à coreagrafia estonteante dos vôos circulares, um enredo óbvio até para o mais ignorante dos observadores ou fotógrafos bissextos de aves. Mas era mais claro ainda o sinal de que estava na hora de deixá-los a sós, aos cuidados da janela do diretor.  Poranto, a história dos surucuás acaba aqui.</p>
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		<title>Patrimônio Natural da Regionalidade</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Jul 2010 01:48:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Correm em raias paralelas em Brasília  reuniões com a Unesco para garantir, entre os assuntos, o títuto de Patrimônio Nacional da Hiumanidade para o Parque do Iguaçu e um novo projeto para cortá-lo com uma nova versão da velha Estrada do Colono.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Caminho-do-Poço-Preto_9494.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1100" title="Caminho do Poço Preto_9494" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Caminho-do-Poço-Preto_9494.jpg" alt="" width="409" height="272" /></a></p>
<p><strong>O</strong> Parque Nacional do Iguaçu entrou em rota de colisão com seu título de Patrimônio Natural da Humanidade. Aposta essa reputação em mesas avulsas, que o acaso juntou este mes em Brasília, a capital dos desencontros.</p>
<p>Numa rodada, o governo afia a língua para convencer a comissão da Unesco, instalada na cidade nesta virada de mes, que o parque vai bem, obrigado. Há queixas contra ele nos relatórios técnicos que precederam o encontro. Eles lamentam, para começo de conversa, a afobação para bater recordes de visitação ano após ano, em prejuízo da conservação da fauna e da flora.</p>
<p>Mas, até aí, a Garganta do Diabo fala mais alto. O título continuaria no papo, se não tivesse chegado a Brasília, pouco antes da comissão, mais uma proposta para reabrir a Estrada do Colono, cortando ao meio a floresta do Iguaçu. À Unesco se creditou, nove anos atrás, o empenho do governo brasileiro para interditar depressa a estrada, com Exército e a Polícia Federal, antes que o Iguaçu não se rebaixasse a sítio do patrimônio natural ameaçado.</p>
<p>A idéia de reabri-la apresentou-se no Ministério do Meio Ambiente pela mão do desembargador Álvaro Eduardo Junqueira. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região encarregou-o de promover a conciliação entre o parque e seus tradicionais invasores, em vez de julgar o processo. E ele passou a cuidar pessoalmente  do lado que quer porque quer a estrada de volta.</p>
<p>Com esse tipo de conciliação em marcha, o projeto, que antes era assunto de políticos locais, ganhou padrinho federal. E com ele mudou de estilo. A reabertura da estrada agora se chama “restauração”. Dispensa a força e a coreografia da luta armada que usou para ocupar o parque em 1997 e 2001. Sem perder o jeito de fato consumado.</p>
<p>Semanas atrás, os municípios paranaenses ouviram do desembargador, em assembléia, a sugestão de que se contentassem com uma estrada “mais ecológica”. Imediatamente, materializou-se o projeto de Estrada Ecológica, assinada pelas associações de municípios do Oeste e do Sudoeste do Paraná. O deputado paranaese Assis do Couto, de quebra, apresentou na Câmara o projeto de lei 7.123, que cria a “Estrada-Parque Caminho do Colono”. Promete não só &#8220;fomentar o desenvolvimento rural sustentável das regiões oeste e sudoeste do Paraná com o Parque Nacional do Iguaçu&#8221;, como &#8220;assegirar a efgetivação da segurança nacional necessária em área de fronteira&#8221;. Ou seja, servir de atalho em caso de guerra com a Argentina, um assunto que parecia superado como os governos militares.</p>
<p>Vai relatar o projeto  outro  deputado paranaense, o engenheiro Eduardo Sciarra – que, como sócio da construtora CRE, tem um pé na Cataratas S/A, a empresa que explora legalmente os serviços turísticos terceirizados no Iguaçu. E, pelo visto, outro pé na terceirização informal, que atropelas as concessões em vigor, renovadas há pouco por mais dez anos.</p>
<p>A estrada-parque é um atalho para a entrada no parque de concessionários que se credenciam, sobretudo, como detentores da “memória dos prioneiros”. Em outras palavras, da lenda que atribui aos colonos gaúchos e catarinenes a iniciativa “histórica” de rasgar na selva o tal caminho, aberto em terras da União pelo governo estadual. Isso, na década de 1950. Portanto, no mínimo 11 anos depois do decreto que instituiu o parque.</p>
<p>Mas trunfo histórico é coisa que nunca falta, como ensinou o historiador Sérgio Buarque de Holanda em <em>Visões do Paraíso.</em> Como certa boa vontade, há quem ponha o Camimho do Colono no leito imemorial da Trilha do Peabiru, que segundo as lendas quinhentistas teria servido ao apóstolo São Tomé para evangelizar os índios do altiplano andino, vindo da Índia.</p>
<p>Arisco mesmo é o futuro. Ele escapa pelas frinchas da proposta de &#8220;estrada ecológica&#8221;, que fala em calçar os 17,6 quilômetros do caminho de terra com lascas de balsalto, para que o piso irregular obrigue os veículos a trafegar em baixa velocidade. Com isso, estaria garantindo “a travessia segura da fauna”. Mas não a segurança dos veículos, motoristas e passageiros. Por via das dúvidas, manda cortar todas as árvores a um metro e meio da pista, “para evitar acidentes”.</p>
<p>Indica o uso exclusivo de “ônibus elétricos” nos passeios turísticos, sem dar a menor pista de onde pretende encontrá-los. Até onde a vista alcança, ninguém os fabrica em série no Brasil. Enumera 15 investimentos. Não apresenta um só cálculo de custo para eles.</p>
<p>É um documento tão sumária que cabe inteirinho e com folga em menos de 10 páginas, apesar da farta ilustração. Dá para atravessá-lo, de ponta a ponta, em minutos. E, apesar da pressa, não deixa de  abrir espaço para a construção de dois  Centros de Visitantes, &#8220;em cada extremidade&#8221;, para &#8220;educação ambiental e conforto dos viajantes.</p>
<p>Pode ser coincidência, mas ali está, ao pé da letra, o argumento marcial invocado pelo deputado Assis do Couto. Aquele corte na floresta, segundo a proposta de &#8220;restauração&#8221;, tem &#8220;importância inclusive militar&#8221;, porque &#8220;permitiria chegar rapidamente a umas das fronteiras com a Argentina. Isso numa hora em que os consultores da Unesco receitam, para os dois lados do rio Iguaçu, um parque cava dez mais transnacional, de administração compartilhada, como ocorre cada vez mais em lugares onde animais e plantas cruzam fronteiras sem a menor cerimônia. Quer dizer, além de atacar o parque brasileiro pela retaguarda, o Caminho do Colono agora quer estar no front de eventuais confusões com os argentinos.</p>
<p>Se o projeto cair nas mãos da Unesco, o governo brasileiro terá muito o que exlicar à comissão do Patrimônio Natural da Humidade.</p>
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		<title>O outro país também chamado Brasil</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Jul 2010 03:06:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Nada mais desnortente do que estar num parque nacional, onde as notícias e até os boatos sobre aparições de onças corre pelas picadas como sinos do advento, e saber que bem aqui ao lado havia uma operação comercial para liquidá-las pela caça clandestina. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_8136.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1090" title="_MG_8136" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_8136.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>M</strong>orar, mesmo que seja como hóspede, a título provisório, de passagem por um parque nacional, é como viver uma temporada no exterior. Só que esse exterior fica no interior do Brasil.</p>
<p>No parque, você ao mesmo tempo está no Brasil e fora dele. Seu Brasil é outro, um Brasil profundo, feito de retalhos do país original que ao nascer todos herdamos e ao viver vamos sempre perdendo aos poucos, de pedaço em pedaço, de queimada em queimada, de governo em governo, de notícia em notícia – como a notícia, por sinal alvissareira, de que a Polícia Federal e o Ministério do Meio Ambiente finalmente botaram a mão outro dia na quadrilha internacional que traficava com a caça clandestina de animais em extinção.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_82661.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1091" title="_MG_8266" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_82661.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Ela está aqui de perto. Um dos presos é até  vizinho do parque. Mora na cidade de Cascavel, a mais próspera e desenvolvida do extremo oeste paranaense. Ele coleciona troféus. Ou seja, mora, por gosto, num panteão de animais mortos, cabeças empalhadas, chifres, patas, peles. Os fiscais andavam de olho nele faz tempo. E, no entanto, ele mora logo ali em outro mundo, numa terra que nada tem a ver com este lugar em que o mais vago rumor de que podem ter nascido mais dois filhotes de onça pintada corre pelas trilhas como se fosse promessa de redenção.</p>
<p>Ao mesmo tempo, bem a seu lado, tem alguém esperando a hora de botar os últimos exemplares da espécie na lista das vidas raras que, por isso mesmo, valem mais no mercado da caça esportiva, aquela que enterra até carcaças para não deixar provas do crime. Ele é brasileiro também. Mas o Brasil onde ele existe vai deixando depressa de ser o seu a cada dia que você passa no parque – freando o carro para os gambás atravessarem a estrada, tirando à noite do quarto as mariposas que as lâmpadas atraíram e provavelmente, se dormirem lá dentro, amanhecerão espalhadas pelo chão, parando para esperar o momento em que infalivelmente uma borboleta enorpecida pelo frio da madrugada abrirá as asas para o primeiro sol.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_0543-Edit.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1092" title="_MG_0543-Edit" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/MG_0543-Edit.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Cada dia desses é um passo para olhar toda essa gente que atira, derruba, queima, constrói e diz besteiras sobre pererecas e outros bichos com a desenvoltura do presidente Lula como habitantes numerosos, hegemônicos e hostís de um país que também se chama Brasil, mas é contra o seu Brasil. E nunca poderá caber num parque nacional, enquanto houver um canto no Brasil para parques nacionais.</p>
<p>Deve ser por isso que há tantos projetos na política brasileira para revogar os parques, as reservas, o código florestal, tudo aquilo que conserva o que o Brasil dos outros quer suprimir. São projetos feitos de um povo que nunca poderá ter um parque nacional, porque ele é como onça viva – só tem sentido para quem gosta daquilo que não é seu, mas de todos. O outro Brasil só pode ter parques nacionais se acabar como eles.</p>
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		<title>Conservação também se faz com livro</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Jul 2010 00:35:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Floresta]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Por que custam tanto a sair em português os livros em que os naturalistas conseguem tornar claras e irresistíveis em outras línguas as obrigações que todos nós - inclusive as motosserras - com a conservação da natureza?  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Pinheiro-Branco-BH_0611.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1076" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Pinheiro Branco BH_0611" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Pinheiro-Branco-BH_0611.jpg" alt="" width="263" height="363" /></a>P</strong>arem a motosserras. Vem aí o mapa-mundi das florestas, lembrando que as árvores mais altas da terra estão espetadas na costa oeste dos Estados Unidos e no Sudeste Asiático. As da Amazônia mal batem no peito desses gigantes.</div>
<div>Não é bem esse o planeta que o governo brasileiro desenha, quando descreve para a opinião pública o estado do planeta. Nos outros países nem existem mais árvores, não é mesmo? Pena que o mapa seja o tipo da informação que passa de fininho pelo noticiário, enterra-se nos anais acadêmicos e lá desaparece. Aí, ligam-se as motosserras.</div>
<div>O que mais poderia fazer com essa informação quem vive num tempo em que a ciência empurra sem parar a natureza para além do senso-comum? Onde havia monstros, prodígios e portentos demarcando os limites do mundo conhecido na cartografia medieval, agora há biomas, efeitos antrópicos e aquecimento global disputando espaço com velhas lendas.</div>
<div>E não será só com notícia ligeira que se pisa em terra incógnita. Falta munição em português para desbravá-la, porque os livros em que os naturalistas aprenderam a traduzir para leigos os segredos da realidade saem, geralmente, em inglês. E em ingl6es permanecem. Só em inglês dá para ler de enfiada e com prazer a história da complicação em que se meteu o biólogo Bernd Heinrich, comprando no estado do Maine em 1977, para cultivar uma floresta, terras que fazendas antigas e madeireiras recentes haviam deixado no osso.</div>
<div>A região inaugurou sua primeira serraria em 1626. E passou dois séculos a serviço do apetite internacional pelo grande pinheiro branco – ou melhor, o Pinus strobus, que cobria uma vasta extensão da costa leste norte-americana, como uma fonte inexaurível de madeira macia, leve e resistente, ideal para mastros no apogeu da navegação a vela. Por conta do pinheiro branco, a população do porto do Maine saltou de 277 almas penadas em 1830 para 14.408 em 1860. Tratou-se, sem tirar nem por, de uma corrida extrativista movida pela economia global.</div>
<div>A árvore virou símbolo do Maine. Ilustrava o selo do estado em 1820. Suas flores se tornaram oficiais em 1895. E em 1945 o Maine adotou a alcunha de Estado do Pinheiro. Mais ou menos como aconteceu com a araucária no Paraná. Mas com resultados menos lúgubres, porque foi ele que motivou no começo do século XX a campanha para multiplcação de parques nacionais e reservas nos Estados Unidos, no governo Theodore Roosevelt.</div>
<div>Os ambientalistas levariam muitas décadas para descobrir que o grande pinheiro branco prospera em terra arrasada. Quando a agricultura e a pecuária decaíram, ele voltou a ocupar os campos abandonados com a voracidade de floresta homogênea. E foi isso que Heinrich encontrou há pouco mais de 30 anos. Restaurar o bosque original só com salário de professor era, de cara, um projeto falido. Ele decidiu reflorestar a propriedade usando o dinheiro e a técnica da exploração comercial de madeira.</div>
<div>Tiradas num intervalo de três décadas, fotos aéreas do terreno comprovam que ele acertou a mão. U que essa mão teve cabeça para fazer em cada metro quadrado de suas colinas um considerável investimento de pesquisa. Como resultado de todo esse trabalho ele colheu, fora o prazer de morar numa clareira onde hoje alces e ursos vêm comer maçãs, assuntos de sobra para livros cotados pela crítica como obras-primas da divulgação científica, com várias temporadas na lista dos mais vendidos. No caso, estamos falando de The Trees in My Forest, lançado em 1997.</div>
<div>Henrich é espanosamente prolífico para um autor tão pouco sedentário. Tarimbado corredor de maratonas, ele costuma zanzar por suas matas a qualquer hora do dia e da noite, como se sentisse em casa. Tem uma curiosidade insaciável por tudo o que acontece lá dentro. Controla a cada estação a chegada e a partida dos pássaros, anfíbios, insetos e florações, dedicando-se a meticulosas investigações sobre os mecanismos que regulam o cio das plantas com a ronda dos bichos capazes de polinizá-las. Sobe em pinheiros com lápis e papel na mão, para rascunhar, lá do último galho, vistas panorâmicas que acompanham a evolução da paisagem. Aponta, pessoalmente, as árvores condenadas às serrarias,  para que outras retomem o território que originalmente lhes cabia.</div>
<div>Enfim, cuida de todos os detalhes. E, com isso, sua floresta tornou-se um modelo vivo de ciência aplicada à conservação. Ele costuma usá-la em aulas de campo. E suas aulas soam convicentes, porque anos atrás um ex-aluno desenganado pediu-lhe para deixar seu corpo apodrecer ao relento na mata (o que Heinrich recusou), acreditando que assim chegaria diretamente à unica vida após a morte que se pode conferir molécula por molécula.</div>
<div>Não há assunto obscuro e abstrato que Heirich não torne claro e concreto em duas ou três páginas. A conversa fiada sobre seqüestro de carbono, por exemplo. Ela paira no ar há tanto tempo que parece incapaz de pegar na terra. Heinrich a materializa num galho que cresce diante de sua janela, absorvendo por segundo em cada célula 4,6 milhões de moléculas de dióxido de carbono, possivelmente expelidos por “um tronco em decomposição na Amazônia, um carro nas avenidas de Los Angeles, uma usina a carvão no Utah, um hornbill na Indonésia e um babuíno na Tanzânia”.</div>
<div>Portanto, “cada célula de madeira em cada árvore” de sua propriedade é um permanente “dá-e-toma com o resto do mundo”. Dito assim, parece simples, não? Pois é o mesmo cálculo que o tal mapa-mundi da massa florestal pretende converter à escala planetária. Para que ninguém mais possa dizer que não tem nada a ver com isso.</div>
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		<item>
		<title>A cigarra, a formiga e o código</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/07/23/a-cigarra-a-formiga-e-o-codigo/</link>
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		<pubDate>Sat, 24 Jul 2010 00:17:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Orgânica]]></category>
		<category><![CDATA[Código Florestal]]></category>

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		<description><![CDATA[O país fica devendo um favor às pessoas que enfeitaram o debate sobre o código florestal com citações da velha fábula de La Fontaine sobre a cigarra e a formiga. Ela é há séculos um verdadeiro clássico da ignorância humana sobre a natureza. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Cigarra-La-Fontaine_8659.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1070" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Cigarra La Fontaine_8659" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Cigarra-La-Fontaine_8659.jpg" alt="" width="275" height="248" /></a>P</strong>ior do que o novo Código Florestal é o bate-boca que ele deixa pelo caminho. Na prática, talvez vire um código mais ou menos igual aos outros. Retardatário e inócuo, como todos que o Brasil teve e não usou, desde as ordenações portuguesas contra a depredação das matas nativas, que a colonia soberbamente rebarbou. Se as cumprisse, bastaria deixá-las em vigor para hoje o país ser ambientalmente mais adiantado do que é.</p>
<p>Mas os códigos florestais anteriores, se não tiveram melhores resultados, pelo menos vieram recheados de idéias avançadas. O de 1934, que os políticos remancharam desde o Segundo Reinado, lastreou-se nas expedições botânicas que fundaram, no fim do século 19, as pesquisas genuinamente brasileiras em ciências naturais. Não pegou. Mas tinha pedigree respeitável.</p>
<p>O segundo, de 1965, além de incorporar um debate científico que floresceu nestes trópicos durante a primeira metade do século 20, foi um marco da infiltração esquedista na ditadura militar, graças à valentia do desembargador Osny Duarte Pereira que, tido pelo regime como adversário e ligado à história das lutas sindicais no Brasil, aproveitou a chance que lhe caiu nas mãos para traçar-lhe um roteiro que botou a conservação muito na frente do conservadorismo vigente.</p>
<p>O código engendrado por Osny Duarte Pereira também não pegou, em parte porque a única coisa de governo que costuma pegar sem falta no campo é crédito subsidiado. Mas era o produto típico de um país que se acreditava capaz de pensar no futuro, em vez de fazer o possível e o impossível para eternizar o presente.</p>
<p>Agora coube, por ironia, ao deputado Aldo Rabelo, importante relíquia do Partido Comunista do Brasil, desmontar esse “entulho do esquerdismo” deixado pela ditadura militar. Não vale xingar sua proposta de retrógrada. Esse não é seu defeito, mas seu maior propósito – fazer a lei recuar até o ponto onde se encontra quem, por quase meio século, apostou que ela jamais iria alcancá-lo atrás da cerca.</p>
<p>Se o novo código vai alcançar os infratores dos velhos códigos só o tempo dirá. De cara, o código consagra e premia a desobediência, ou princípio de que no Brasil só valem para valer os costumes vigentes. O resto é conversa de seminário acadêmico ou choradeira de ONG. Tanto é assim que, de todos esses meses de discussão, a memória só extrai agora do noticiário um único argumento com referência bibliográfica. É a fábula da cigarra e da formiga, popularizada no século XVIII por Jean de La Fontaine.</p>
<p>Ela foi invocada com certa malícia para insinuar todo esse barulho en torno do código florestal se resume ao fato de que os ambientalistas chiam enquanto os agricultores trabalham. Bingo! Essa fábula, mais do que o novo código, é um atestado clássico de desinformação e atraso, quando se trata de natureza. Lá vão quase 120 anos que o entomólogo francês Jean-Henri Fabre dissecou a história de La Fontaine como modelo da ignorância humana diante do mundo natural.</p>
<p>Ela não tem pé nem cabeça, porque as cigarras, como lembrou Fabre, nunca passam aperto no inverno. Arrebentam de cantar muito antes da estação. Jamais pediriam às formigas “um grão de trigo”, por serem incapazes de comê-lo com sua tromba, feita exclusivamente para sugar a seiva das árvores, que é seu único alimento. E, se pudessem engoli-lo, não encontrariam uma só formiga em trânsito para mendigar-lhe fosse o que fosse. No frio, a formiga hiberna.</p>
<p>Aliás, é a formiga extorque a cigarra. Em vida, roubando-lhe agressivamentre as minas de líquido açucarado que ela cava nos caules. Na morte, esquartejando seus corpos, para abastecer de matéria orgânica as caves dos formigueiros. La Fontaine errou de alto a baixo, embora fosse no interior da França fiscal de Águas e Minas, antes de ser literato da corte.</p>
<p>Ele, mais que Aldo Rabelo, mereceria ser o padroeiro do novo Código Florestal. Por ensinar por que a natureza vem mais uma vez em último lugar.</p>
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		<title>A última, ou penúltima, do macaco</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Jul 2010 21:39:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[A queda das folhas nas árvores mais altas abriu alas na floresta para o desfile dos bandos de macacos-pregos, com saltos espetaculares e arrastões irresistíveis, em que parecem dispostos a comer tudo o que encontram.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-Prego_81681.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1135" title="Macaco-Prego_8168" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-Prego_81681.jpg" alt="" width="410" height="274" /></a></p>
<p style="text-align: left;"><strong>O</strong>s muito entediados que me perdoem, mas esta será, sim, a segunda vez, e pode não ser a última, que os macacos-pregos me invadem o blog, com a mesma sem-cerimônia com que tomam conta da floresta no parque do Iguaçu,  como se aquilo tudo fosse deles. Ou será que é?</p>
<p>Agora, então, com a mata mais ou menos desfolhada, como regem na temporada os estatutos da floresta estacional semi-decídua, é irresistível acompanhar seus saltos temerários e acrobáticos de uma copa à outra, por vãos cada vez mais largos, à medida que as clareiras do inverno vão esburacando os caminhos antes contínuos e quase secretos de suas correrias pelo dossel.</p>
<p>Para quem já se cansou de ver macacos-pregos de mãos esticadas, pedindo sobrasde bala ou biscoitos aos visitantes do Jardim Botânico, a poucos passos dos engarrafamentos na Zona Sul no Rio de Janeiro, os bandos do Iguaçu dão um banho literal na indiferença arogante que os moradores da cidade costumam ter pelos animais silvestres que se adaptaram demais à vida urbana. Nem é preciso ir às cartilhas primatológicas, cujo bê-a-bá nos ensina a respeitá-los como criaturas longevas, capazes de aprender muita coisa uns com os outros – e conosco &#8211; ao longo de seus 40 anos de intensa vida social.</p>
<p>Na prática, a mata devassada pela queda parcial da folhagem oferece, nesta estação, a chance de se debruçar sobre a intimidade dos macacos-pregos, pelas janelas indiscretas da vegetação, como se espia num edifício o quarto para onde acaba de se mudar uma vizinha bonita. Dá para vê-los quando acordam, aproveitando para o banho de sol os galhos nus das árvores mais altas.</p>
<p>Nessas horas, seus gestos mais simples ganham a dimensão do palco vasto, sem fim a vista. Nessa moldura, o pequeno braço peludo que se estende para catar piolho no macaco ao lado parece, na contra-luz, dourada pela luz da manhã, um fragmento da Criação que saiu do teto da capela Sistina e foi parar em cima de uma árvore.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Aqui, cabem parênteses para os não iniciados em fotografia. O contra-luz, no caso, é um efeito especial obrigatório, quando se mira qualquer detalhe de uma floresta tropical através de uma lente fotográfica. Com luz frontal, a mata é uma mixórdia de sol e sombra, cheia de contrastes que ultrapassam de longe a tolerância dos sensores digitais, como outrora inundavam de claros-escuros invisíveis os melhores filmes convencionais. Mata se enxerga melhor em dia nublado, antes do sol ou depois dele. E, não podendo fugir de seu brilho excessivo, em contra-luz.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-Prego_8187.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1054" title="Macaco-Prego_8187" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-Prego_8187.jpg" alt="" width="410" height="274" /></a></p>
<p>Voltando aos macacos, o banho de sol coletivo, tendo por fundo o céu, já é programa para encher a primeira parte de qualquer manhã de bom tempo. Sobretudo, quando o dia acorda meio gelado. A mata, no frio, custa a pegar. E os macacos, lá em cima, já acumularam energia de sobra até para perpetuar a espécie.</p>
<p>De repente, a contemplação acaba e o bando zarpa, cada um por si, as todos no mesmo rumo, mas por trilhas príoprias, atendendo a um chamado que mal se distingue dos guinchos que regiam a pasmaceira do banho-de-sol matinal. Aí, literalmente, é melhor sair de baixo. O que se deflagra, nesse momento, é aquele tipo de ação que, numa praia carioca, em domingo de verão, os jornais jornais tachariam no dia seguinte de arrastão.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-prego_8014.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1055" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Macaco-prego_8014" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-prego_8014.jpg" alt="" width="311" height="409" /></a>No Iguaçu, pode ser inverno, e mato puro. Mas a sensação imediata de que um poder mais alto se alevantou, cheio de fome onívora, disposto a tudo por um café-da-manhã variado e farto. a turba sacode na pressa as gotas de orvalho das folhas, fazendo chover sob o céu azul. Derrubaao mesmo tempo todas as frutas de uma árvore, maduras ou verdes. Espanta os pássaros, que faziam tudo para ficar invisíveis em seus cantos escuros e, diante dos macacos, disparam aos gritos de “perigo à vista”, talvez deixando os ninhos para trás.</p>
<p>As borboletas e mariposas que se acreditavam invulneráveis pelo mimetismo são rapidamente recrutadas para ocupar sua vaga na cadeia alimentar da floresta, onde permanentemente tudo se devora. Com um certo pendor para as emoções mais fortes, pode-se admirar os dedos que arrancam as asas dos insetos com a destreza caracteristas das mãos feitas para descascar bananas, e as bocas glutonas que engolem os bichos vivos, sem os adereços alados que caem ao chão com volteios de pétalas iridescentes. É feio, mas é bonito.</p>
<p>Os macacos comem tudo que poden diferir. Despem troncos para devorar larvas. Desfolham bromélias como se fossem alcachofra num restaurante francês. Investigam todos os ocos de árvores à cata de alimentos indecifráveis. Quebram galhos inteiros para desalojar sabe-se lá o quê. Num lugar onde a maioria dos bichos trata de parecer discreta, seja por ser presa ou por ser predadora, os macacos se dão ao luxo de ser indiscretos e ruidosos.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-Prego_81291.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1064" title="Macaco-Prego_8129" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Macaco-Prego_81291.jpg" alt="" width="410" height="274" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p>Têm uma auto-confiança ostentatória. Saltam entre árvores como trapezistas sem outra rede além do próprio rabo. Arreganham caninos pontudos de feras em miniatura para os xeretas lá embaixo, para deixar claro que a posse do território, naquele caso, não é questão de tamanho, mas de domínio do terreno. E, por onde passam, deixam a impressão de que os grandes carnívoros podem até levar a fama, mas não há maior ferocidade que a dos onívoros de qualquer porte.</p>
<p>Em suma, lembram de onde  foi que nós viemos.</p>
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