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	<title>Marcos Sá Correa</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>O futuro não será uma eterna era Lula</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Mar 2010 10:51:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Energia]]></category>
		<category><![CDATA[Mudança Climática]]></category>

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		<description><![CDATA["Estimativas de Oferta de Recursos Hídricos no Brasil em Cenários Futuros de Clima 2015-2100" não é, como se vê, um título para dar manchete. Mas anuncia mudanças na oferta de água que farão o Brasil mais cedo ou mais tarde encarar um futuro com menos hidrelétricas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Gotas_0369.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-660" title="Gotas_0369" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Gotas_0369.jpg" alt="" width="425" height="251" /></a></strong></p>
<p><strong>N</strong>um debate que faz tempo a estridência enrouqueceu, a voz do agrônomo Eneas Salati soa como uma pausa de orquestra em aberturas sinfônicas. Chama atenção pelo silêncio. Ele tem algo a declarar sobre os efeitos da desordem climática numa política energética que joga todas as fichas nas hidrelétricas. Pede para isso “alguns minutos”.</p>
<p>E trata de resumir com o mínimo de retórica as “Estimativas da Oferta de Recursos Hídricos no Brasil em Cenários Futuros de Clima 2015-2100”, cujo título já é um sinal de que não veio ao mundo para fazer barulho. O documento de 76 páginas é, em si, um extrato de prognósticos internacionais e dados dez especialistas, aninhados em redes de computadores, levaram mais de um ano mastigando.</p>
<p>Concentrado em gráficos à primeira vista cabalísticos e traduzido no tom pausado e meio inaudível de Salati, leva-se algum tempo para notar que o relatório é bombástico. Avisa que está passando a  hora de se pensar a sério em alternativas energéticas, “tais como solar, eólica, das marés e biomassa”.</p>
<p>Ao contrário do que prometem as políticas vigentes, as águas tendem a rolar daqui ao fim do século de um jeito que, como não disse ainda o presidente Lula, mas no caso poderia dizer com toda a razão, nunca aconteceu antes na história do Brasil. E isso altera em doses variadas e contraditórias as 12 grandes bacias hidrográficas que oficialmente dividem o território brasileiro.</p>
<p>No Tocantins, o  rio dos grandes investimentos hidrelétricos, a vazão ameaça chegar ao ano 2.100 com a metade da média que o rio manteve entre as décadas de 1960 e 1990. Na Amazônia, a perda vai de 30 e 40%. No São Francisco, o rio da transposição corre o risco de virar um terço do atual em 2040.</p>
<p>Isso significa que a bacia do São Francisco, “onde se concentra grande parte da fruticultura de exportação nacional”, tem chances de passar de lugar “seco e sub-úmido com pouco ou nenhum excesso de água para semi-árido”. O sertão, pelo visto, não vai mesmo virar mar. Mas o mar do Atlântico Leste ameaçar lamber o sertão, à medida que ele se aproximar da costa.</p>
<p>“São cenários”, adverte Salati. Ou seja, hipóteses formuladas com rigor científico em cima de informações e métodos disponíveis. Lidam principalmere com previsões sobre os efeitos regionais do clima no regime de chuvas e na perda de água por evaporação. Podem mudar, se novos dados rolarem na mesa. O resto, só com horóscopo ou jogo de búzios.</p>
<p>Por enquanto, o que se vê é um Brasil com menos sombra e água fresca. Num mundo mais quente, a evaporação devolverá ao céu uma percentagem cada vez maior das chuvas que ainda caírem. No São Francisco, essa perda está orçada em 83%. Na do Paraguai, que corta o Pantanal Matogrossense, 84%. Haja mata ciliar para segurar esses rios. Mas não é nisso que o país está investindo.</p>
<p>O relatório é pontuado por ressalvas. Recomenda, na conclusão,  mais e melhores estudos do problema daqui para a frente. Adverte que “o nível de incerteza ainda é grande em relação ao que de fato possa acontecer”.</p>
<p>Salati está longe de ser candidato ao estrelato em manchetes catastrofistas. Pessoalmente, acredita que as previsões científicas servem antes de mais nada para evitar que as incertezas aconteçam.</p>
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		<title>Uma aula de estilo para biólogos</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Mar 2010 13:06:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo biólogo, sobretudo se estive metido em pesquisasde campo, deveria aprender com o entomólogo Bernd Heinrich como se faz um livro universal sobre o que acomtece no quintal de sua casa. O mundo precisa muito de descobrir as coisas que só eles sabem./]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Heinrich-capa.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-643" style="margin: 5px;" title="Heinrich capa" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Heinrich-capa-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a><em>Summer World &#8211; a season of bounty</em>, do entomólogo Bernd Heinrich, é um desses livros sobre assuntos universais em detalhes minúsculos que só os biólogos são capazes de fazer. O problema é que Heinrich, professor emérito da Universidade do Vermont, está longe de ser um biólogo como outro qualquer.</p>
<p>Para começo de conversa,  ele mesmo ilustra copiosamente suas páginas, não só com fotografias documentais, mas sobretudo com desenhos a mão livre, feitos com traços precisos e verossímeis, sem perder o lirismo de quem está vendo as coisas pela primeira vez, o que lhes dá um certo grau de parentesco com as figuras que povoam as páginas de histórias infantís. E isso mesmo quando retrata a autópsia de um pássaro abatido no choque com as vidraças de sua casa.</p>
<p>Ele é também um maratonista de fôlego. E bota fôlego nisso. Quase quarentão, perdeu por meros três segundos a vaga na equipe dos Estados Unidos para os jogos olímpicos de 1980. De lá para cá, veio acumulando  títulos e recordes de longa distâncua, correndo 100 quilômetros em pouco mais de sete horas e 100 milhas em doze horas.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Heinrich-foto.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-642" style="margin: 5px;" title="Heinrich foto" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Heinrich-foto-223x300.jpg" alt="" width="223" height="300" /></a></p>
<p>De quebra, escreveu sobre as maratonas para a seção de esportes do jornal <em>The New York Times</em>. E o artigo foi premiado. Pudera. Ele fez um livro de História Natural sobre os impulsos biológicos que na noite dos tempos produziran homens alcançar antílopes e outras criaturas prodigiosamente lépidas, graças à soma de persistência com vontade de vencer.</p>
<p>Tudo em que ele bota o olho fica interessante – sejam rãs, moscas, besouros, vespas, aranhas, a disputa acirrada entre insetos pelo espólio de corpos em decomposição ou o padrão metódico com que os pica-paus de peito amarelo picotam, ano após ano, a casca branca das bétulas, para lhes sugar a seiva açucarada. Estudando mamangás, demonstrou em outro livro que essas abelhas corpulentas poupam energias com o tino de verdadeiros economistas, para se manter mais quentes que o ar à sua volta. E, futricando a vida social dos corvos, provou que eles raciocinam e fazem escolhas conscientes.</p>
<p>Henrich, ainda por cima, escreve com a desenvoltura de quem acha a coisa mais natural do mundo pular, em poucas linhas, de esquemas cosmológicos sobre a inclinação do eixo terrestre que aquece o hemisfério norte, virando-o três meses por ano para o lado do sol, para uma citação de “Here comes the sun”, de George Harrison – o estribilho completo, com o “da-da-di-da-da” e tudo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Flores-Heinrich_4488.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-652" style="margin: 5px;" title="Flores Heinrich_4488" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Flores-Heinrich_4488-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>Seu novo livro, este “Mundo do Verão”, mal saído do prelo nos Estados Unidos, portanto ainda longe da língua portuguesa, é exatamente o que diz o título: o mundo visto do fundo de seu quintal, nas florestas do Maine, entre os verões de 2005 e 2009, na estação em que animais e plantas aproveitam o maná de fótons que cai do céu para crescer e multiplicar-se.</p>
<p>Embora as explorações de novs continentes no século 19 tenha associado para sempre a imagem dos naturalistas as grandes viagens exploratórias pelos confins mais exóticos do planeta, a curiosidade centífica que Henrich aplica a criaturas e lugares supostamente banais tem antepassados ilustres. Foi assim, literalmente nos jardins provençais de sua casa no sul da França, que nasceram no século XIX os livros de Jacques Henri Fabre, o padroeiro dos estudos sistemáticos da vida íntima de insetos. O próprio Charles Darwin não passou o resto da vida, como parece, ruminando os troféus de seus cinco anos de viagem a bordo do Beagle. Seu último livro trata da influência das minhocas na paisagem inglesa. É uma típica &#8211; e fascnante &#8211; produção caseira.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Pássaros-Heinrich_4508.jpg"><img class="alignright size-thumbnail wp-image-653" style="margin: 5px;" title="Pássaros Heinrich_4508" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Pássaros-Heinrich_4508-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a></p>
<p>Mas Heinrich tem, a seu favor, um pendor à primeira vista contraditório para olhar para perto e enxergar longe. Só um fundista como ele para contar, como aventura épica, a migração do <em>Archilochus colubris. </em> O beija-flor do papo rubi, genuíno cidadão dos trópicos, uma vez por ano desembarca nos bosques norte-americanos, para acasalar-se e criar filhotes.</p>
<p>O macho dessa espécie pesa cerca de três gramas. Bate as asas até 60 vezes por segundo. E, ao migrar, atravessa de ida e volta o golfo do México, voando sobre quase mil quilômetros de água a 55 quilômetros por hora. São, portanto, em velocidade de cruzeiro, 17 horas sem reabastecer, costeando o limite da inanição. Eis uma narrativa de viagem para Amyr Klink nenhum botar defeito.</p>
<p>Com a mesma ligeireza, Henrich transita entre decomposição de um peru selvagem caçado por coiotes na vizinhança de sua casa para a correspondência com um ex-aluno que, desenganado pelos médicos, escreveu-lhe solicitando o favor de deixar seu corpo apodrecer ao relento nas terras do professor. Segundo explica, aos “cuidados de moscas, besouros” e outros “celebrantes da renovação”, capazes de conduzi-lo à única forma de imortalidade em que acredita – a do reaproveitamento natural das fontes de vida.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Insetos-Heinrich_4490.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-654" title="Insetos Heinrich_4490" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Insetos-Heinrich_4490.jpg" alt="" width="454" height="308" /></a>Heinrich responde que, com quase sete bilhões de seres humanos partlhando a terra, essa modalidade de serviço  fúnebre se tornou, no mínimo, pouco prática. Não sem antes dar inteira razão ao remetente. Golpe de mestre, num livro que talvez nem todo biólogo precise ler, mas que todo biólogo deveria, pelo menos, desejar escrever, porque a terra nunca precisou tanto de que os leigos se interessam sobre a sua infinita complexidade.</p>
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		<title>Saudades do jornalismo ambiental</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Feb 2010 00:21:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Conservação Ambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Populações Tradicionais]]></category>

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		<description><![CDATA[O jornalismo ambiental está reaprendendo agora, às vezes por ensaio e erro, aquilo que há 80 anos já estava em emissoras de rádio e jornais brasileiros, mostra um livro importante e didático dos professores José Luiz de Andrade Franco e José Augusto Drummond.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Livro-Sertão.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-620" style="margin: 5px;" title="Livro Sertão" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Livro-Sertão-196x300.jpg" alt="" width="196" height="300" /></a>O Brasil precisa criar oficialmente um novo premio de jornalismo ambiental. Para entregá-lo, postumamente, pelo conjunto da obra, aos autores e meios de comunicação que fizeram do assunto, na década de 1930, a viga mestra de um projeto para o país, pretendendo, ao mesmo tempo, defender seu patrimônio natural, acertar o passo da população mais pobre e marginalizada com a fartura original da exuberância nativa e reordenar o Estado brasileiro de maneira a torná-lo, nas raízes, essencialmente nacional.</p>
<p>Não foi à-toa que aqueles anos desembocaram, em 1934, na Primeira Conferência Brasileira de Proteção à Natureza. E, pouco mais tarde, na decretação dos primeiros parques nacionais do Brasil &#8211; poucos, pequenos e retardatários, mas pioneiros, em Itatiaia, na Serra dos Órgãos e no Iguaçu.</p>
<p>Depois, como veio, a onda passou, tragada pelos maremotos políticos da Segunda Guerra Mundial e da redemocratização. Ficou esquecida por tanto tempo, que agora parece nova em folha em “Proteção à Natureza e Identidade Nacional no Brasil, ano 1920-1940”. O livro dos professores José Luiz de Andrade Franco e José Augusto Drummond parece uma cartilha das coisas que, por desmemoriado, o jornalismo brasileiro anda reaprendendo ultimamente, como se fossem lições inéditas do século XXI.</p>
<p>Isso numa terra onde, há mais de 70 anos, o zoólogo Cândido de Mello Leitão fazia no rádio um programa chamado “A Vida Maravilhosa dos Animais”, cravejado de citações científicas, para contar  como já era antiga, naquele tempo, a corrida internacional para remediar, com reservas naturais e legislação ambiental, os estragos deixados pelas “realizações humanas interesseiras”.</p>
<p>Mello Leitão tinha sérias dúvidas sobre os parques que o Brasil acabara de instalar. Itatiaia “não passava de “uma pequena reserva florestal”, de valor “quase nulo” para a preservação da fauna, por estar encarapitado em grimpas que nem os cafezais do Vale do Paraíba ousaram escalar. O da Serra dos Órgãos poderia no máximo poupar “por algum tempo a flora”. Mas, “quanto à fauna, será um deserto sem expressão”.</p>
<p>O do Iguaçu, sim, tinha porte e vocação para servir de santuário, por exemplo, a “guarás e lontras”, se “as construções que se fazem sem audiência de um zoólogo” não sinalizassem a intenção de reduzi-lo a “um simples parque de turismo paisagista”. Tudo o que ele disse na época circula na boca dos funcionários e pesquisadores hoje às voltas com a caduquice ambiental desses parques nacionais septuagenários.</p>
<p>Aquela geração sabia o que estava dizendo. O médico convertido em botânico Alberto José Sampaio tinha um programa completo para substituir o modelo tradicional de progresso via desmatamento por uma civilização de “cidades-jardins”, cercadas de matas submetidas a normas severas de manejo e silvicultura.</p>
<p>O escultor Armando Magalhães Corrêa, que acabou morando num sítio em Jacarepaguá, publicou em série no Correio da Manhã, como se fossem parte de um folhetim, as histórias reunidas em “O Sertão Carioca”. Seu livro é o último inventário de tudo o que a cidade perdeu. E ele tinha seu próprio plano conservá-la. Mas andam difíceis de encontrar não só o Rio que ele viu como o livro em que o retratou. Ainda bem que Franco e Drummund se encarregaram de fazer essa garimpagem inadiável.</p>
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		<title>A safra de onças 2010 promete</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Feb 2010 00:12:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Carnívoros]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Oficialmente, o parque nacional do Iguaçu nunca teve tão pouca onça. Mas cresce sem parar o número de pessoas que encontra pintadas pela primeira vez em sua rotina na unidade de conservação, como se fosse um sinal de que a espécie anda pedindo mais atenção.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-PNI-E181.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-622" title="Onça PNI E18" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-PNI-E181.jpg" alt="" width="454" height="283" /></a></p>
<p><strong>N</strong>a manhã de terça-feira, dia 23 de fevereiro, Clodoaldo da Silva viu uma onça com dois filhotes pequenos na beira da BR-469. É um caminho que ele faz regularmente, como funcionário da área de manutenção do parque nacional e, sobretudo, como encarregado de recolher para a Itaipu Binacional, três vezes por dia, os dados da estação pluviométrica e dos marcos de altura do rio na beira do Iguaçu.</p>
<p>Mas um encontro como aquele era a primeira vez que acontecia. Os bichos estavam a cerca de três metros de seu carro. Aparentemente, ignorando sua presença. A calma dos filhotes o impressionou. Ele, ao contrário, ficou “tão perturbado”  que nem se lembrou de gravar a cena com o telefone celular. “Numa hora dessas, nada funciona”, explicou.</p>
<p>Nesse ponto, podia se considerar na mais fina companhia. Quatro dias antes, mais ou menos na mesma hora, o jornalista Adílson Borges cruzou com uma onça no quilômetro 7,2 da estrada federal, a das cataratas. Ele trabalha na Assessoria de Comunicação do parque há seis anos. Mas aquela foi também a primeira onça de seu currículo.</p>
<p>“Já topei com muito caititu, veado, jacaré. Mas com pintada, nunca, Aliás, nem sussuarana”, ele conta. Borges ia na ocasião fotografar uma solenidade na borda das cataratas. A bolsa com o equipamento fotográfico estava no banco de trás. E lá ficou. “Acho que era um filhote quase adulto. Estava sozinho. Quando saltou do barranco, do outro lado da pista, pensei que fosse um puma. Mas ele passou bem na minha frente, e aí vi as manchas. Ele vinha correndo, mas sem dar a impressão de que estava fugindo ou perseguindo uma presa. Simplesmente atravessou a estrada depressa e entrou no mato à direita, como se meu carro não existisse”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-PNI-E132.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-627" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Onça PNI E13" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-PNI-E132.jpg" alt="" width="255" height="409" /></a>Era uma grande história para contar, na segunda-feira de manhã, a seu chefe, o diretor do parque Jorge Pegoraro. A primeira onça, depois de seis anos&#8230; Mas seu relato não foi longe, porque Pegoraro também tinha muito o que dizer a esse respeito. No cargo desde 2003, ele acabava de ver, na madrugada de sábado, a 200 metros de sua casa, um par de pintadas.</p>
<p>Voltava, na ocasião, de um jantar na Argentina. Sua mulher, Yáskara, assumira o volante. Ele cabeceava no banco do carona. Os dois filhos dormiam a sono solto atrás. De repente, Yáskara exclamou: “Pegoraro, olha lá dois bichos grandes no acostamento”. Veados certamente não eram. O casal está habituado a flagrá-los com os faróis do carro, quando chega em casa em horas mortas. Antes mesmo que os fachos iluminassem os dois animais em cheio, eles sabiam que estavam diante de alguma coisa nova, maior, diferente.</p>
<p>“Pensei que fossem pumas”, lembra Pegoraro. Mas seu batismo de onça dispensaria qualquer abatimento. Eram pintadas legítimas. Aparentemente, uma fêmea com um filhote quase de seu tamanho, mas ainda no pé, costeando o mato que, logo adiante, desemboca em seu jardim. Portanto, duas onças entregues quase a domicílio.</p>
<p>E não se fala mais de outro assunto esta semana. Há uma safra de onça nesta temporada que Iguaçu há muito tempo não colhia. Há duas semanas, uma pintada pesseava pela trilha das Bananeiras, roteiro que em geral oferece aos turísticas um cardápio rico, mas com baseado em pássaros e borboletas. Caminhava pela estrada de terra, como se fizesse parte do programa. Depois, no carnaval, uma guia viu duas onças que pareciam se distrair uma com a outra, como se estivessem brincando.</p>
<p>Seja lá qual for o motivo para tamanha visibilidade, elas vêm em boa hora. Quanto mais aparecerem, menos se pode adiar as medidas de controle da velocidade e do excesso de trânsito na BR-469, onde carros, ônibus e caminhões trafegam no ritmo dcrescentes de uma arrancada turística que este ano levou 10.400 pessoas ao parque só no domingo de carnaval. É um assunto que a administração começou a discutir há um ano, quando  uma pintada foi atropelada em plena juventude mais ou menos no mesmo ponto da estrada onde as sobreviventes agora estão circulando. Ou melhor, dando o ar de sua imensa graça.</p>
<p>E quantas onças sobrevivem no Iguaçu? Esse é outro mistério. Oficialmente, contadas pelas armadilhas fotográficas da ONG Pró-Carnínovoros, elas não passam neste momento de seis exemplares. Apesar de raras, tornaram-se mais visíveis do que nunca – seja para corroborar ou para desmentir o prognóstico sombrio de que, reduzidas a essa população, elas estão a caminho do sumiço definitivo no Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-P.C.-E182.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-631" title="Onça P.C. E18" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Onça-P.C.-E182.jpg" alt="" width="510" height="283" /></a></p>
<p>“Uma coisa é certa”, diz Pegoraro. “<a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/02/03/a-nova-geracao-gosta-de-oncas/">Foi só retomarmos o estudo das onças para elas aparecerem”</a>. O que elas querem dizer com isso os especialistas ainda não foram capazes de traduzir para os programas de manejo do parque nacional. Mas ninguém pode dividar de que elas andam fazendo o possível para receber mais atenção.</p>
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		<title>Blecaute veio com tudo no carnaval</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Feb 2010 21:32:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Apagões]]></category>
		<category><![CDATA[Arborização]]></category>

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		<description><![CDATA[Num país que desde cedo se acostumou a culpar as árvores por tudo, de ataques de índios a surtos de febres tropicais, a história da Eletronorte sobre o galho que cortou o fornecimento de eletricidade em dez estados foi a maior alegoria desse carnnaval.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Tempestade_5625.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-571" title="Tempestade_5625" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Tempestade_5625.jpg" alt="" width="454" height="298" /></a></p>
<p><strong>A</strong> melhor fantasia deste carnaval foi, com sombras de dúvida, a da Eletronorte. Ela saiu de <strong>Árvore do Apagão</strong>. Guarnecida com os mais preciosos penduricalhos técnicos. Costurada com fios de alta tensão. Cintilando com as luzes que piscaram em dez estados para anunciar sua chegada, do Norte ao Centro-Oeste. Um luxo só.</p>
<p>Foi tempo em que o máximo de Blecaute com que se podia contar no Carnaval era o cantor Otávio Henrique de Oliveira, o de “Chegou o General da Banda, ê, ê”. Agora temos para nos embalar a festa um enredo muito mais imaginoso &#8211; o do galho que atravessou o caminho da rede elétrica entre Colinas e Miracema, no Tocantins, conjurando forças ocultas a desligar em série três linhões e engolir 3.600 megawatts no Nordeste, “ê, ê”.</p>
<p>Quem não entendeu muito bem a explicação empresa só pode estar se embriagando demais com firulas técnicas. Nem os engenheiros eletricistas e outros especialistas na matéria levaram a sério a conversa da Eletronorte. Alegaram que as linhas de transmissão geralmente correm sobre um vasto leito de devastação proposital e sistemática. Logo, se havia árvore sob as torres do Tocantins, o problema não seria o galho sabotador, e sim o descuido das rotinas de manutenção.</p>
<p>Daí para insinuar que há qualquer coisa bruxuleando no sistema que gerou a fama da administradora Dilma Rousseff no ministério das Minas e Energia, e agora alimenta sua candidatura à presidência da República, era um pulo. Mas no Carnaval só se pula por bons motivos. A hora é de reconhecer que a história da Eletronorte acertou em cheio no quesito alegoria. Culpar a árvore foi um achado sociológico.</p>
<p>As árvores, no Brasil, são as suspeitas de sempre, como diria o capitão Louis Reanult, se isto aqui fosse Casablanca. O país está sempre pronto a acreditar que as árvores. mais cedo ou mais tarde, vão lhe aprontar alguma, quebrando calçadas, sujando jardins com folhas mortas, manchando de flores a pintura dos carros e, claro, caindo nos fios para provocar pequenos apagões – porque os grandes só as operadoras do sistema sabem fazer.</p>
<p>A má-vontade é tanta, tamanha e tão basta que o brasileiro típico “quase não sabe os nomes das árvores, das palmeiras, das plantas nativas da região em que vive”, segundo o sociólogo Gilberto Freyre, como sempre traduzindo as excentricidades nacionais para o melhor português possível. Certa vez, lá vão quase 90 anos, ele comparou os alarmes contra o desmatamento a “gritos carnavalescos”, que se ouvem como convites a não fazer nada.</p>
<p>A nota da Eletronorte, como um todo samba-enredo que se preza, enrolou-se num mito popular e consagrado, desde que os primeiros povoadores acreditavam que atrás de cada tronco havia índios para atacar suas aldeias, feras para comer seu gado ou doenças tropicais para derrubá-los definitivamente nas redes em que seriam enterrados.</p>
<p>Os europeus que vieram ao Brasil no século XIX estranharam a deliberada aridez das cidades brasileiras, com a selva dando sopa tão perto de seus subúrbios. O sol batia em cheio sobre suas ruas sem calçamento, porque à sombra de toda copa haveria perigos inomináveis. Por essas e outras, “limpar” ainda é o nome que se dá no país a qualquer obra de motosserra. E tudo indica que é o que, passado o carnaval, vai acontecer no Tocantins.</p>
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		<title>A festa rural da mudança climática</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Feb 2010 15:27:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>

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		<description><![CDATA[O Show Rural Coopavel 2010 mostra, com suas máquinas portentosas, sua organização impecável, suas sementes de laboratório e sua força econômica, que há menos coisas entre a cidade e o campo do que faz crer nossa vã nostalgia da agricultura bucólica.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-milho1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-567" title="photo milho" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-milho1.jpg" alt="" width="448" height="336" /></a></p>
<p><strong>O</strong> Show Rural Coopavel 2010 tem tudo o que se possa esperar de uma feira agrícola, menos show. Não há vaga para duplas sertanejas em seus múltiplos palcos. Estão todos reservados a palestras técnicas, inclusive sobre investimentos em bolsa. Nem sobra tempo para a vida noturna em sua agenda de negócios. O pavilhões enfileirados em quadriláteros quilométricos fecham, pontualmente, às seis da tarde.</p>
<p>O Coopavel dorme com as galinhas. Mas o que menos se vê neles é galinha, para nem falar dos porcos e outros pratos típicos da criação caipira. Eles vão saindo de cena. Encarnam um passado bucólico, como tudo que vem do tempo da ordenha manual, do boi no pasto e da rede no alpendre, sempre esperando a chuva ou o sol. O Show Rural está aí desde 1989 para mostrar, antes de mais nada aos próprios agricultores, que a agricultura não é mais a mesma.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-piloto1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-560" style="margin: 5px;" title="photo piloto" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-piloto1-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a>Esta semana, ele abriu com16 mil vagas para automóveis – e bota lugar para picape e 4&#215;4 nessa estimativa de espaço – no estacionamento, restaurante com quatro mil lugares à mesa, 4,8 mil terrenos reservados à demonstração concreta de experiências no campo, como latifúndios produtivos em miniatura, e 3,5 mil pesquisadores e recepcionaistas à disposição dos 150 visitantes que passarão por lá até domingo, em visita de trabalho.</p>
<p>Não corre uma gota de álcool nas veias do show. Cerveja nem adianta pedir. Em compensação, os bebedouros com água gelada, copos descartáveis e marcas bem visíveis dos patrocinadores, ficam sempre a poucos passos de distância. Os banheiros públicos, escovados sem parar com panos de chão, cheiram a desinfetante até o fim do expediente, mesmo depois que um temporal inesperado transforma as calçadas de pedra em riachos de barro vermelho.</p>
<p>E não se vê lixo no chão. “Pode procurar”, desafia o engenheiro agrônomo Rogério Rizzardi. Ele é o coordenador e o inventor dessas feiras de amostras da Coopavel, que estrearam de maneira modesta há 22 anos. Começaram com 110 associados trocando entre si informações, por um dia, no Centro Tecnológico de Cascavel.</p>
<p>A cidade nasceu em 1928, mais ou menos como todas que brotaram no Oeste do Paraná no século 20. Seu nome vem, é claro, das cobras que assombravam as noites dos pioneiros. Em seus passos veio Nhô Jeca, ou seja, o colono Antônio José Elias que arrendou as terras dos posseiros para investir em colonização. Em pouco tempo, as madeireiras acabaram com a floresta, que hoje só se vê para lá das cercas do parque nacional do Iguaçu.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-trator.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-561" title="photo trator" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-trator.jpg" alt="" width="448" height="287" /></a></p>
<p>O desmatamento implacável gerou, a quase 500 quilômetros de Curitiba, uma cidade de 300 mil habitantes, com 21 mil universitários, PIB per capita superior a 11 mil reais e IDH de países mais prósperos e organizados que o Brasil. Tem um centro com torres de vidro e praças floridas, além de neste momento movimento 23 municípios no show da Coopavel.</p>
<p>O show dura a semana inteira. Proclama-se o maior do mundo por alguns critérios, como “a diversificação de produtos”. Recebe governadores e políticos. Caravanas vêm de longe, até do Piauí, para ver e ouvir as últimas do campo. Mas suas estrelas nos palanques são, por exemplo, as espigas “longas e cilíndricas” de um milho uniforme e dourado que, como legítimo produto dos laboratórios de manipulação genética, atende por nomes de outrora pertenciam aos robôs nos filmes de ficção científica – como o millho “BX 767”, “superprecoce”, ou o “BX 970”, notável por sua “arquitetura de planta moderna”.</p>
<p>Mais vistosas, só as máquinas. Um trator como o H3000I chega a ser tão que as conversas entre vendedores e clientes podem desdenhar as cadeiras de jardim nos estandes cobertos. Realizam-se ali mesmo, sobre a grama, na vasta sombra de seu chassi. Está em demonstração tambén o Auto Pilot RTK. A engenhoca eletrônica, instalada no painel de um trator, faz sozinha a colheita automática de cana-de-açúca, percorrendo “com precisão de 2 a 5 centímetros” e “100% de paralelização” os talhões assinalados no GPS.</p>
<p>Custa 45 mil reais. É parente do Auto Drive Ag 500, que dirige o trator para o fazendeiro, girando o volante automaticamente. E o vendedor reage ao menor sinal de espanto diante do produto, afirmando que “já tem muitos desses rodando por aqui”. Diante de tantose tamanhos lançamentos, os pequenos produtores e assentados, que comparecem ao Show Rural com seus produtos orgânicos e artesanais, parecem uma montagem de época num espetáculo futurista. Não é fácil exibir um vidro de compota entre máquinas que talvez nem caibam em suas roças.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-vento.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-562" title="photo vento" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/photo-vento.jpg" alt="" width="448" height="336" /></a></p>
<p>O Coopavel é um aviso de que a agricultura de ponta está aprendendo a mascar o jargão do ambientalismo, que os fazendeiros tradicionais concideravam intragável. Seus prospectos andam cheios atualmente de palavras como “sustentabilidade” ou “reciclagem”. O que não impede a tecnologia das sementes clonadas ou da dispersão eletrônica de agrotóxicos de ir adiante, supostamente abrindo caminho para a troca do desperdício poluente pela eficácia, que é a versão do agronegócio para um mundo mais limpo</p>
<p>Ainda por cima, o Show Rural 2010 coincide com uma safra que teve  “o sol certo, a chuva certa”, segundo um dos campeões locais de produtividade, num ano de vários recordes agrícolas regionais. O rendimento médio por hectare cresceu no Oeste do Paraná mais de 30%. E que não lhe venham falar de aquecimento global com um barulho desses.</p>
<p>Os céus bem que tentaram. O tempo mudou de repente da tarde de segunda-feira. O sol atordoante das últimas semanas sumiu atrás de nuvens negras. Às quatro da tarde, com a Coopavel cheia, desabou uma chuva repentina e forte, trazida por um vendaval. Painéis inteiros desabaram nos estandes. Tetos de pano se soltaram das amarras, drapejando como velas soltas ao vento. Balões de publicidade murcharam de tanto bater de um lado para o outro. Vazou água aos cântaros em áreas cobertas. E logotipos coloridos voaram como se fossem de plástico e isopor, o que provavelmente eles eram.</p>
<p>O que isso tudo querria dizer? Talvez nada. Às cinco e meia, assim que a tempestade amainou, os expositores já estavam em seus postos, deixando tudo novo em folha para a manhã seguinte. Encharcados até os ossos, às vezes rindo do susto. Pareciam mesmo convencidos de que estão ali para ficar.</p>
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		<title>A nova geração gosta de onças</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Feb 2010 20:53:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[O Primeiro Curso de Biologia e Manejo de Carnívoros reabre o estudo sistemático das onças e outros felinos selvagens em Iguaçu, ao mesmo tempo que povoa o parque com uma turma tão colorida e animada como a dos turistas, mas que está atrás de um trabalho sério.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: left;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9710.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-539" title="Curso de Onça_9710" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9710.jpg" alt="" width="454" height="335" /></a></p>
<p style="text-align: left;"><strong>O</strong> Parque Nacional do Iguaçu abriu o ano com dois recordes populacionais. Passaram por suas portas em janeiro mais de 167 mil visitantes. E ao mesmo tempo caiu a ficha de que suas onças pintadas, recenseadas por armadilhas fotográficas e farta pesquisa de campo, até segunda ordem estão reduzidas a seis indivíduos. É mais ou menos a metade do que havia uma década atrás, quando <a href="http://www.oeco.com.br/petercrawshaw/84-petercrawshaw/20385-a-volta-do-guru-30-anos-depois">o biólogo Peter Crawshaw</a> concluiu sua última avaliação metódica. <a href="http://www.biodiversityreporting.org/article.sub?docId=214&amp;c=Brazil&amp;cRef=Brazil&amp;year=2001&amp;date=March%202001">O resto morreu atropelado ou a tiro.</a></p>
<p>Em outras palavras, o inegável sucesso do Iguaçu como parque veio junto com uma estatística que põe em causa seu êxito como unidade de conservação. E por isso é um alívio a chegada ao parque da turma que veio fazer, no Iguaçu, o Primeiro Curso de Biologia e Manejo de Carnívoros.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9752.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-540" title="Curso de Onça_9752" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9752.jpg" alt="" width="454" height="298" /></a></p>
<p>São 27 alunos de fora, além dos nove que aderiram programa entre o pessoal do parque e da guarda florestal. Muitos vieram de bem longe, de outros estados ou até do Peru e da Argentina. Pagaram, fora os custos da viagem, 900 reais pela taxa de inscrição. Acomodaram-se num dormitório preparado a toque de caixa para recebê-los, na beira de um caminho de terra que leva ao rio Iguaçu, sob a copa de árvores centenárias. Ou seja, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/">a trilha do Poço Preto</a>.</p>
<p>São, em geral, biólogos ou veterinários. Na média, gente muito jovem. Da turma, 14 alunos nasceram na década de 1980 e 4, nos anos 90. Eles povoaram da noite para o dia estradas e auditórios com rapazes de brinco na orelha e sacola de pano a tiracolo, transitando pelo acostamento da B-469 ou pegando carona em caçamba de picape. E, sobretudo, com moças de short e camiseta que, apesar do uniforme de férias, até à distância se distinguem das turistas, por andarem de lá para cá em trajetos que as visitantes ocasionais nunca percorrem, além de cumprir horários que precedem e ultrapassam com larga folga o funcionamento das bilheterias.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_97081.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-543" title="Curso de Onça_9708" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_97081.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Todos eles estão passando a semana em contato direto, de manhã à noite, com desbravadores da conservação de grandes felinos no Brasil, como Laury Cullen, do Ipê, Ronaldo Gonçalves Morato, do Cenap, ou Dênis Sana, da fundação Pró-Carnívoros. E foram recepcionados com a exuberância de praxe pelo diretor de conservação e manejo Apolônio Rodrigues, um dos funcionários públicos menos convencionais que existem.</p>
<p>Criado em fazenda no sertão de Goiás, ele entrou para o Ministério do Meio Ambiente como auxiliar administrativo. Em outras palavras, comandava contínuos em Brasília. Na prática, aos 18 anos, controlava a papelada dos processos de incentivos fiscais para reflorestamento, nome que se dava na época à derrubada de mata nativa para plantar eucaliptos e pinus com dinheiro do governo. Efetivado na burocracia ambiental, à medida que ia subindo na carreira, ele acabou sem função. O governo Fernando Collor &#8211; &#8220;em boa hora, deve ter sido uma das únicas coisas boas que ele fez&#8221; &#8211; acabou com os incentivos e, por tabela, com suas tarefas.</p>
<p>Para &#8220;não enlouquecer&#8221;, ele passou a organizar por conta própria mutirões que limpavam parques do Cerrado no fim de semana, o mais longe possível do confinamento do escritório. E agarrou agarrou à unha a primeira chance de uma transferência para a linha de frente. Mudou-se para o Iguaçu, sem escolher propriamente o lugar. Iguaçu era o terceiro posto em sua lista de preferências, encabeçada por Natal, no Rio Grande do Norte, e por Vitória, no Espírito Santo.</p>
<p>Mudou-se para lá e nunca mais deixou o parque, onde aliás nasceram e estão crescendo seus dois filhos. Hoje, dá a impressão de conhecer cada palmo dos 185 mil hectares da unidade de conservação, incluindo os meandros mais ermos das áreas intangíveis. Comprou todas as brigas contra agências turísticas, prefeitos da vizinhança e outros especialistas em usar e abusar da unidade de conservação sem dar a mínima para a conveniência de conservá-la. Já viu por isso faixas em Foz do Iguaçu clamando &#8220;Fora, Apolônio&#8221;. Em compensação, mora numa curva de rio que só falta abraçar sua casa de madeira.</p>
<p><a style="text-decoration: none;" href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_97202.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-546" title="Curso de Onça_9720" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_97202.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Tarimbado como está, Apolônio continua a cair no mato com o entusiasmo de quem está vendo cada coisa pela primeira vez. E há muito o que ver em cada passo no Iguaçu. Já fez papel de jagunço numa produção nacional sobre a colonização do Oeste paranaense e lamenta que o filme nunca tenha passado da ilha de edição. Neste momento sente-se obviamente muito à vontade no meio da estudantada, mimetizado entre os recém-chegados pela barba e o cabelo longo, fora a indumentária de quem está sempre prestes a sumir numa trilha ao primeiro pretexto e o fôlego que lhe permite emendar longos expedientes na administração com papos intermináveis noite adentro.</p>
<p>O curso anda bombardeando os alunos com saraivadas de informações frescas, de primeira mão. Laury Cullen contou-lhes durante uma manhã inteira como aprendeu a trabalhar entre fazendeiros e assentamentos dos sem-terra no Pontal do Paranapanema, salvando com isso onças que, enxotadas por barragens e desmatamentos, sobrevivem contra todos os prognósticos mais razoáveis na reserva estadual do Morro do Diabo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9716.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-547" title="Curso de Onça_9716" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9716.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Ensinou-lhes como fez do diploma de Biologia um passaporte para a pesquisa aplicada em conservação da natureza. Seu trabalho de campo, monitorando por satélite as andanças das onças que, entrincheiradas no Morro do Diabo, ignoram fronteiras municiapis, estaduais e internacionais, além de cercas, beiras de cidade, rodovias e rios cuja travessia que as represas estenderam a 1.800 metros de nado livre.</p>
<p>Os sinais que seus colares emitem durante essas andanças acumularam com o tempo dados precisos para traçar um novo mapa da região – o mapa que sem dúvida as onças fariam se pudessem ver seu pedaço da América do Sul de sensores situados na órbita terrestre. Aos olhos das feras andarilhas, a paisagem picotada por limites artificiais se reintegra num emaranhado de rios, fragmentos de florestas e várzeas que liga o Mato Grosso do Sul ao extremo Oeste do Paraná, varando São Paulo e o Paraguai.</p>
<p>A cartografia feita ela onça, se for conhecida e reconhecida, é o caminho mais curto para garantir que os cem derradeiros exemplares de sua espécie, na vasta bacia do rio Paraná, vençam a única barreira que elas não podem transpor sozinhas: a do tempo, que lhes acena, daqui a meio século, com uma alta probabilidade de extinção.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9743.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-548" title="Curso de Onça_9743" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9743.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>A tarde de terça-feira Ronaldo Morato conseguiu ocupar sozinho, literalmente entupindo a turma de informações sobre as últimas receitas dos laboratórios de genética para, entre outras proezas de ficção científica, reproduzir jaguatiricas genuinas através de gatos domésticos, ou guardar em bancos de germoplasma a fórmula para trazer de volta espécies silvestres que o mundo vai perdendo inapelavelmente, cada vez mais depressa.</p>
<p>No fim da aula teórica, ao ver que os alunos cabeceavam sob o peso de tanta novidade extra-curricular, levou-os em bando para uma aula prática de tiro-ao-alvo com zarabatanas, revólveres a gás e carabinas. As armas são heranças da tecnologia de caçadas que, com dardos de anestésicos, transformaram-se em ferramentas da conservação. O assunto era sério. Mas, com a mudança de ares e de metolologia didática, o grupo agüentou firme – e às gargalhadas – até o cair da noite.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9683.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-549" title="Curso de Onça_9683" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/02/Curso-de-Onça_9683-200x300.jpg" alt="" width="140" height="210" /></a>O curso promete ser o primeiro de uma série. Reabre com ele a temporada de pesquisas com carnívoros de grande porte no Iguaçu, num momento crítico para discutir sua viabilidade a longo prazo. Porque, ao contrário do que faz crer o senso-comum e nossa vã simpatia pelas vítimas, eles são os guarda-parques primordiais. Ninguém toma conta melhor de sua fauna do que uma onça. Em seu território, o resto costuma estar sob controle, inclusive a pequena vanguarda dos polinizadores, que dependem da variedade da flora para existir &#8211; e vice-versa.</p>
<p>O curso não poderia começar em melhor hora. Nas circunstâncias que juntaram, na semana de estréia, para cada onça recenseada no parque, quase cinco jovens querendo aprender a conhecê-las, para salvá-las. Se, para a <em>Panthera onca</em>, isso não for um sinal de sobrevivência garantida, há de ser pelo menos um alegre consolo.</p>
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		<title>Wanderlei, outro filho do Brasil</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/01/27/wanderlei-outro-filho-do-brasil/</link>
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		<pubDate>Wed, 27 Jan 2010 15:20:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>

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		<description><![CDATA[Wanderlei Vargas, guia de ecoturismo em Iguaçu, prova que não é preciso muita coisa para que um descente da colonização do Oeste paranaense passe do desmatamento à conservação da floresta. No seu caso, bastou gostar de mato e ser vizinho de um parque nacional.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Wanderlei_3736.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-522" title="Wanderlei_3736" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Wanderlei_3736.jpg" alt="" width="409" height="273" /></a></p>
<p><strong>A</strong>o tirar os olhos do visor, quase esbarrei em Wanderlei Vargas. Ele estava a dois passos do tripé, calado e imóvel. Chegara sem o menor ruído, embora pisasse em folhas secas. Ficou em silêncio até ver que não iria atrapalhar o trabalho alheio. Aí, sim, era hora de perguntar: “O senhor tem licença para sair por aí fotografando sozinho?”</p>
<p>A autorização cusou a sair do bolso e estava meio desfeita pelo suor. Ele conferiu o timbre sem desdobrá-la. E se deu por satisfeito. Usava crachá no peito, enganchado na camiseta, mas não posava de autoridade. Falava baixo, num tom que só o mato pode dar à educação de quem passa a vida fazendo com o menor barulho possível, porque vive entre vizinhos desconfiados e de ouvidos atentos.</p>
<p>Dali para a frente, passamos a nos esbarrar  quase diariamente, um indo, outro vindo, no mesmo caminho, em pontos diferentes. Ele tinha sempre, nessas ocasiões, uma novidade a apontar. O caminho de uma peroba centenária. Um pássaro escondido na folhagem. A cobra caninana tomando sol no meio da estrada.</p>
<p>Às vezes, seu desembaraço como mateiro fica embaraçoso a quem também acha que anda sempre por ali de olhos abertos. &#8220;Está vendo aquele poste?&#8221; Não. Era de concreto, hegagonal, mas espetado como estava na orla da trilha, como relíquia de uma antiga fundição, ele aabara tão embrulhado por epífitas e pelos cipós que se camuflara com as árvores. &#8220;É ôco. Tem ninho de cutia. Todos os postes daqui até a sanga pode ver que têm cutia morando dentro&#8221;.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Poço_3730.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-523" title="Poço_3730" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Poço_3730.jpg" alt="" width="425" height="284" /></a></p>
<p>Uma vez, comentou que naquele mato devia ter morado muita gente, porque às vezes encontrava “lá dentro” restos de tijolos e de alvenaria. Isso não parecia possível. Pelos relatórios técnicos que serviram de base aos projetos de administração, aquilo sempre foi “área de pequena ou mínima intervenção humana”. Ele não retrucou. Dias depois, num fim de tarde, encerrado seu expediente no Macuco Safari, embrenhou-se pelos da trilha para “mostrar uma coisa”. No meio da vegetação cerrada, havia mesmo restos de um forno a lenha e um poço cercado de tijolos maciços, verdes de líquem. Encerrrou o assunto sem dizer palavra.</p>
<p>Está no atual emprego há dois anos e meio. Antes, fez de tudo muito. Domou cavalos, abriu pastos, derrubou matos, colheu algodão em Palatina, vendeu produtos eletrônicos em loja no Paraguai. Correu muito sem nuna ir muito longe de Cascavel, onde nasceu, zanzando de emprego em emprego pela fronteira escancarada da região. Aos nove anos, abordava os turistas argentinos que desciam do ônibus em Foz do Iguaçu, vendendo  panos de prato e quadros feitos com asas de borboleta. Para isso, o irmão mais velho ensinou-lhe o essencial do ofício de camelô: “Dibujo de mariposas”, “cien pesos”.</p>
<p>Criou-se em Matelândia, do lado de lá do parque. É uma das cidades que enconstam em seus limites pelo eixo da BR-277. E muitas vezes andaram às turras com ele. Os Vargas viviam num sítio rústico, onde a luz era de lamparina e o banho, de rio barrento. Hoje a propriedade, de sete alqueires, além de água corrente e eletricidade, tem um alqueire meio de mata restaurada, e por isso o rio é limpo. “Ainda bem que estão obrigando as pessoas a recuperarem a mata, senão cortavam tudo”, ele admite.</p>
<p>Para saldar a hipoteca do sítio, trabalhou com o irmão dois anos e tanto para um fazendeiro libanês no Paraguai, que remetia todo ganho no mês à família em Matelândia. “Eu comia inhame, sal de gado, que é mais barato, e teiú, que é fácil de pegar”, ele conta, para retificar a afirmação de que nunca havia posto carne de caça na boca. “De lagarto, botei sim”.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Forno_3740.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-524" title="Forno_3740" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Forno_3740.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Saiu de casa aos 12 anos, despachado pela mãe, &#8220;que só queria saber do filho mais velho&#8221;. Levou “duas camisas e o dinheiro do ônibus”. Foi parar em Palotina, paras os lados de Guaíra, onde dormiu duas semanas no cemitério, porque &#8220;era mais seguro e não chovia debaixo das casinhas&#8221;, até pegar o primeiro contrato num caminhão de bóia-fria. De colheita em colheita, acabou se arrumando na vida. Tirou o diploma da sexta série depois dos 18 anos. Só foi provar a primeira cerveja aos 22. E agora, aos 37, quando acha filhos de animais silvestres extraviados, leva para os biólogos criarem e devolve à natureza.</p>
<p>Descende de lavradores que ajudaram a desmataram o sertão do Paraná. E está cuidando de um parque nacional. Nessas horas, até parece que o mundo tem jeito.</p>
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		<title>Como aprendemos a andar no mato</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Jan 2010 15:34:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Floresta]]></category>
		<category><![CDATA[Trilhas]]></category>

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		<description><![CDATA[Andar no mato a passeio não é tão natural assim para uma espécie que - metaforicamente - desceu das árvores na noite dos tempos. É uma invenção do século XIX, que ficamos devendo a um francês manco chamado Claude François Denecourt. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/A-la-Millet-Blog.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-499" title="A la Millet Blog" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/A-la-Millet-Blog.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p><strong>C</strong>aminhar no mato parece a coisa mais natural do mundo, pelo menos desde que nossos ancestrais desceram das árvores e adotaram esta postura instável, que nos condena a problemas de coluna e, em troca, libera os membros superiores para tarefas mais elevadas – como estapear mosquistos ou empunhar o telefone celular para fotografar cada passo da jornada.</p>
<p>Mas, apesar dessa aparente naturalidade, andar no mato é uma invenção recente, que talvez por isso no Brasil ainda depende de empresas especializadas e guias meio fanáticos, para apontar aos desavisados o caminho das trilhas como se elas fossem a estrada de Damasco. Basta um dia de enchente humana num parque nacional para ver o bom serviço que eles prestam. Sem seu fervor quase evangélico, as picadas estariam às moscas. Ligando geralmente o nada a lugar nenhum, elas dependem, para ter algum tráfego, da “caminhada romântica”, moda que, segundo o historiador Simon Schama, nasceu no século XIX e tem autor conhecido.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Barbizon-Blog.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-501" title="Barbizon Blog" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Barbizon-Blog.jpg" alt="" width="454" height="302" /></a></p>
<p>Chamava-se Claude François Denecourt. Antes dele, só se ia ao mato para derrubar árvore, matar bicho ou fugir da cadeia. Ele mudou isso radicalmente. Denecourt foi retratato pelo literato Theophile Gauthier como “um homenzinho vestido com simplicidade, portanto um chapelão e óculos, segurando o galho de azevinho que lhe serve de bastão para subir a encosta”. Ninguém se iluda. Seu despojamento era grife, sua fantasia de “Le Sylvain”, o gênio da floresta. A Nike, a Columbia, a Patagonia e outras etiquetas do ramo só viriam aprimorar o figurino dos caminhantes muitas décadas depois.</p>
<p>Denecourt foi, basicamente, um comerciante de conhaque em Fontainebleau, nos arredores de Paris. Ferido nas guerras napoleônicas, coxeava. Embora manco, era um andarilho infatigável, treinado em marchar por anos a fio de um lado para outro na Europa, arrastado com as campanhas do imperador como soldado do 88º Batalhão de Infantaria Ligeira. Ao dar baixa, conheceu a floresta de Fontainebleau quando ela caía aos pedaços. Fora uma reserva de caça real, e passou a ser tratada como terra de ninguém na França revolucionária – mais ou menos como por aqui, à falta de governo, fazem os grileiros da Amazônia.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Fontainebleau-Floresta-Blog1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-503" style="margin: 5px;" title="Fontainebleau Floresta Blog" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Fontainebleau-Floresta-Blog1-199x300.jpg" alt="" width="199" height="300" /></a>Desmatada, defaunada e invadida, Fontainebleau sobreviveu aos tropicões da história francesa porque Denecourt promoveu sua reciclagem como lugar de passeio. Ele abriu pessoalmente 300 quilômetros de picadas na floresta. Batizou itinerários, árvores e pântanos. Transformou em refúgios rústicos as cavernas que antes tinham fama de abrigar bandidos.</p>
<p>Sua influência foi, literalmente, incomensurável. Chegou até a concepção original do Central Park em Nova York ou, para ficar mais perto, à Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Aliás, todo jardim do paisagista Auguste François Glaziou, que reinou na corte de D. Pedro II, não deixava de ser uma espécie de miniatura da Fontainebleau de Denecourt.</p>
<p>Fontainebleau, onde Deneccourt é nome de rua e tem estátua en praça pública, continua cercada por 24 mil hectares de velhos bosques, preservados desde que, no rastro de Denecourt, foram parar lá, de carruagem, os grã-finos do Império. Com eles vieram os pintores, toda uma geração pré-impressionista que arranchou no vilarejo de Barbizon, na beira do bosque, e cevou ali uma escola de paisagismo e um culto da natureza que serviu, nos Estados Unidos, para inspirar a decretação dos primeiros parques nacionais.</p>
<p>Em resumo, os guias de ecoturismo são apóstolos de Denecourt mesmo que não saibam. Como ele, acreditam que caminhar no mato não é coisa que se nasça sabendo. É algo que se aprende. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/10/30/um-curto-desvio-sem-fim/">Como todo passo civilizatório.</a></p>
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		<title>No caminho do Poço Preto</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Jan 2010 21:38:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Trilhas]]></category>

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		<description><![CDATA[O longo caminho de uma estrada problemática, até se transformar na peça-chave de um roteiro turístico que leva turistas a conhecer as cataratas do Iguaçu da melhor maneira, que é a clássica: passeando por nove quilômetros à sombra da floresta tropical que enfeita o percurso. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Samabaias_0167.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-464" title="Samabaias_0167" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Samabaias_0167.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>“<strong>S</strong>erá que vai dar para ver alguma coisa?” A pergunta, deixada pasra trás numa entonação meio infantil por um grupo que zarpava para a manhã de Ecoaventura na trilha do Poço Preto, acabou ficando no ar. O grupo foi em frente. E a resposta do guia, se lhe ocorreu dizer alguma coisa, deve ter sumido na distância, que crescia a cada passo.</p>
<p>Foi pena, porque naquele momento daria para apontar para qualquer lado e se encontrariam centenas de respostas para ela – em forma de aranhas <em>Argiopidae,</em> por exemplo. Elas cobrem nossas cabeças com um dossel suplementar de teias orbitais, formando entre as árvores uma rede de fios dourados, naquela hora em que o sol atravessava de viés a estrada ainda sombria. Havia também cogumelos em profusão, das mais variadas formas e feitios, brotando de troncos com a mesma opulência de troncos vivos ou mortos. E pássaros inumeráveis, de tudo quanto é cor, voz e tamanho, chamando a atenção ao mesmo tempo para sua presença esquiva no meio da folhagem e também para a nossa presença indébita em seus territórios.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Borboleta_32042.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-474" title="Borboleta_3204" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Borboleta_32042.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Mas a pergunta provavelmente se referia à esperança de ver coisas mais raras &#8211; ou mesmo ecoaventurosas. Algo mais trepidante que o vai-e-vem das cutias, por exemplo. Elas atravessam sem parar a velha estrada de terra roxa, como encarnações silvestres dos mais escolados vira-latas urbanos. Param na borda da pista, avaliam criteriosamente o movimento, como se estudassem o trânsito. Tudo isso naquela pose olímpica de quem está com os músculos armados, como um atleta imóvel no instante da largada. De repente, com os riscos da travessia aparentemente avaliados, elas dispararm rumo ao outro lado.</p>
<p>Ao contrário dos quatis, que escalam latas de lixo e sobem em mesas, atrás de comida humana, parecendo bandos de meninos de rua em volta de  restaurantesao ar livre nas grandes cidades da capital, as cutias do Parque Nacional do Iguaçu ainda fazem questão de mostrar que não abdicaram inteiramente à vida selvagem, apesar de todas as tentações em contrário.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cutia_31732.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-475" style="margin: 5px;" title="Cutia_3173" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cutia_31732-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Se era algo ainda mais substancial que os ecoaventureiros queriam ver, a coisa em si acabava de cruzar seu caminho, ou vice-versa, algumas centenas de metros atrás. Senão em pessoa, pelo menos como uma prova cabal de sua materialidade – deixando na pista um troféu de sua última caçada, reduzido a um bolo cinzento e cheio de pelos cinzentos, em cujos sais as borboletas azuis faziam naquele momento uma verdadeira orgia, a ponto de pousarem umas sobre as outras.</p>
<p>Sim, em bom português, o que a trilha ofereceria ali para se ver era merda fresca. Mas era do tipo que os biólogos ultimamente procuram sem parar, em investigações de campo. Um dos objetos de sua curiosidade é o excremento de grandes e médios felinos, capaz de informar muita coisa sobre a vida que eles levam. E aquele era, sem dúvida, excremento de um carnívoro grande, quem sabe uma suçuarana, dada a rarefação das onças pintadas no parque.</p>
<p>No momento, sabe-se, através de armadilhas fotográficas, da existência de seis onças lá dentro, pelo menos do lado do parque onde fica a administração. O outro ainda está para se conferir. Resta da metade da população que havia há dez anos. Em contraste com as jaguatiricas, que aparecem com freqüencia crescente nos registros fotográficos e podem estar ocupando vagas abertas pelo recuo populacional da <em>Pantera onca. </em></p>
<p><em><span style="font-style: normal;">A trilha do Poço Preto tem tradição nesse ramo. Foi nela que, em 1991, quando fazia o primeiro recenseamento sistemático das onças remanescentes no Parque Nacional do Iguaçu, <a href="http://www.oeco.com.br/petercrawshaw/84-petercrawshaw/20385-a-volta-do-guru-30-anos-depois">o biólogo Peter Crawshaw Júnior </a>acabou se envolvendo num luta corporal com uma pintada. Ele encarnava então o projeto Carnívoros do Iguaçu, um inventário das jagartiricas e onças iniciado em abril de 1990. E que fechou com um saldo desalentador. A maioria das onças identificadas no parque por essa iniciativa pioneira morreria ao longo da década na mira de caçadores. Interrompido por mais de 10 anos, o trabalho recomeçou agora, em parte como desagravo ao <a href="http://www.oeco.com.br/reportagens/37-reportagens/21371-tragedia-anunciada-no-parna-do-iguacu">atropelamento de uma pintada em 2009 na BR-469</a>, a rodovia federal que leva às cachoeiras.</span></em></p>
<p><em><span style="font-style: normal;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cogumelo_31793.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-493" title="Cogumelo_3179" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cogumelo_31793.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a><br />
</span></em></p>
<p>A bicha caíra numa de suas armadilhas durante a madrugada. De manhã cedo – ou “às sete e meia de 31 de julho”, como ele costuma precisar, com dia, mes e hora, tantos anos depois &#8211; Crawshaw foi examiná-la em sua jaula de madeira. Ao chegar, a fera tentou avançar em sua direção. Sinal de que não iria ser fácil trabalhar com ela. Era parruda. E nervosa. Estava prenhe. E só adormeceu com o dobro da dose de anestésico recomendada para um animal de seu porte. Tinha os maiores caninos que ele mediu em sua longa carreira de especialista brasileiro em grandes felinos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Caninana_3097.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-469" title="Caninana_3097" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Caninana_3097.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
<p>Duplamente anestesiada, a onça passou pela revisão de praxe, doou sangue à ciência e ganhou em troca um colar de identificação &#8211; que seria vital em seus reencontros seguintes com Crawshaw. Terminado a rotina de avaliação, o biólgo ficou por ali, matando o tempo, à espera de que a onça acordasse, como se velasse à cabeceira de um paciente indefeso. Foi quando apareceu na trio um trio de observadores de pássaros. “Um escocês e um casal de americanos”, ele especifica.</p>
<p>Crawshaw morava naquela época num alojamento de pesquisa instalado bem no começo da trilha do Poço Preto, uma estrada rústica de quase nove quilômetros, que desemboca margem direita do rio Iguaçu, junto a uma lagoa natural e diante de um largo remanso, acima das cataratas. O Poço Preto propriamente dito fica dentro do rio, no ponto onde ma falha geológica aumenta drasticamente sua profundidade para 27 metros &#8211; ou seja, decuplica-a &#8211; tornando mais escuras as águas cor de terra. Mas isso só se percebe em sobrevôos de helicóptero.</p>
<p>Era raro, na época, aparecerem turistas por ali, quando o Poço Preto ainda não se incorporara de pleno direito aos roteiros alternativos do parque nacional, num esforço da administração para espalhar as multidões que as altas temporadas concentram nos 1.200 metros da trilha das cachoeiras, como se percorressem o corredor de um shopping em vésperas de Natal. Ao tropeçarem num espetáculo natural tão mais trepidante que o habitual, os observadores de pássaros passaram a observar o trabalho de Crawshaw.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Jacaré_32121.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-481" title="Jacaré_3212" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Jacaré_32121.jpg" alt="" width="454" height="312" /></a></p>
<p>Estavam no quilômetro dois e meio da estrada, onde a essa altura a onça ainda dormia, fora da jaula. Durante muito tempo, essa estrada foi uma assombração para os técnicos que urdiam planos de manejo para o parque, recomendando a erradição de todas as marcas anteriores de invasão. O caminho do Poço Preto era uma delas, e só teve o futuro assegurado pelo projeto de revitalização que, no fim da década de 1990, designou-o como Zona Primitiva, submetida no passado a &#8220;mínima intervenção humana&#8221; e daí para a frente encarregou-o de &#8220;atrair público mais diversificado, diminuir a pressão atual da visitação sobre as cataratas e melhorar a imagem do parque, oferecendo novas fronteiras de uso público&#8221;.</p>
<p>Em outras palavras, aumentar o uso do parque, reduzindo ao mesmo tempo o impacto das multidões apressadas, pisoteando sempre os mesmos percursos diante das cachoeiras. A implantação de trilhas “com infraestrutura de apoio à visitação” nas antigas vias do parque _ além do Poço Preto, entraram nessa receita as estradas do Rio São João, da Linha Martins, da Onça e da Ilha do Cavalo – acabou sendo <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/12/30/de-olho-na-moldura-das-cataratas/">uma dessas táticas de dispersar os visitantes</a>. Implantou-se como um dos serviços turísiticos terceirizados, que a empresa Macuco Safari opera no Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cipó_32032.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-482" style="margin: 5px;" title="Cipó_3203" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Cipó_32032-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a></p>
<p>Em 1991, nada disso existia. E Crawshaw lamenta até hoje não ter enxotado dali, sem maior cerimônia, os observadores de pássaro da área restrita em que estavam. Porque, assim que a onça abriu os olhos, ele viu a inglesa ajoelhar-se diante da fera para fotografá-la. “Eu já tinha dito para meu pessoal que estava lá para não chegar mais perto dela, porque já estava com a pupila dilatada, sintoma de que iria se levantar em poucos instantes&#8221;, ele recorda.</p>
<p>Mas o <em>flash</em> chegou primeiro que seu grito de advertência. “Não deu tempo para mais nada”, ele conta. Só de pular entre a onça e a turista. “E ainda bem que, ao se erguer, ela escorregou. Porque a inglesa também, no susto, tropeçou no barro vermelho de Iguaçu e caiu de costas&#8221;, conta o biólogo.  A onça ficou de pé, e pegou Crawshaw pela cabeça. As unhas lhe dilareraram o  couro cabeludo. Os ossos de seu polegar racharam entre os dentes do bicho, cujo focinho ele tentava manter o mais longe possível de sua cara.</p>
<p>Mas, para tornar breve <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/02/03/a-nova-geracao-gosta-de-oncas/">uma história que a rigor nunca mais terminou</a>, basta dizer que o corpo-a-corpo custou-lhe um bom tempo de convalescença. Nem por isso Crawshaw parou de lidar com onças – inclusive com aquela mesma do encontrou no Poço Preto. Uma noite apareceu em sua casa, no meio da noite, a matou-lhe o cachorro. Mais tarde, foi recapturada. Crawshaw descobriu então que ela havia perdido sabe-se lá como seus dois formidáveis caninos. &#8220;Estava tudo infeccionado&#8221;, dia ele. A fera se reduzira a uma predarora de animais domésticos. Habituara-se a rondar casas e hotéis. E, depois de tratada, foi transferida para o zoológico de Sorocaba. Depois, recrutada para uma tentativa de repovoamento do parque de Ilha Solteira, em São Paulo, onde um dia Crawshae foi visitá-la.</p>
<p>Peter Crawshaw morou no Poço Preto quando ecoaventura era substantivo comum e queria dizer outra coisa. Hoje, dá nome a um passeio tranqüilo, com direito fazer parte do percurso em bicicletas de aluguel e, no Iguaçu, embarcar de volta num barco que costeia as ilhas do rio, com direito a ver jacarés nas margens. Tudo sem sair de bordo, aos cuidados de um piloto que parece saber exatamente onde encontrar todos os bichos incluídos no programa.</p>
<p>O Poço Preto só não cumpre é a promessa a promessa de desafogar as cataratas. Mais de dez mil pessoas passaram pelo Parque do Iguaçu no segundo fim-de-semana de 2010, que promete ser um ano de recordes na bilheria. Cem visitantes, no máximo, foram experimentar a trilha. Podem não ter visto o que viram os três observadores de pássaros. Mas no mínimo saíram do Iguaçu sabendo o que todos os outros estão perdendo.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Trilha_0165.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-483" title="Trilha_0165" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/01/Trilha_0165.jpg" alt="" width="454" height="303" /></a></p>
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