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	<title>Marcos Sá Correa</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Notícias do Marcos</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Mar 2011 14:59:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Prezados leitores,
Os mais assíduos dentre vocês devem ter notado a falta de atividades  neste blog desde o início do mês de fevereiro e podem estar se  perguntando sobre as razões que levaram a isso.
Eis a explicação: na noite do último dia 7 de fevereiro, o autor,  Marcos de Sá Corrêa, meu pai, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Prezados leitores,</p>
<p>Os mais assíduos dentre vocês devem ter notado a falta de atividades  neste blog desde o início do mês de fevereiro e podem estar se  perguntando sobre as razões que levaram a isso.</p>
<p>Eis a explicação: na noite do último dia 7 de fevereiro, o autor,  Marcos de Sá Corrêa, meu pai, teve um sério acidente doméstico ao cair  de uma escada e bater com a cabeça no chão.</p>
<p>“Uma senhora pancada”, nos termos mais usados pelos médicos que o vêm  acompanhando com todo o cuidado e carinho desde o primeiro momento, que  implicou na realização de uma cirurgia de emergência para aliviar a  pressão exercida dentro do crânio por diversas hemorragias e um edema  cerebral.</p>
<p>Hoje, embora ainda ocupando um leito de hospital, o autor caminha a  passos largos, como sempre gostou de fazer, rumo a uma recuperação que,  tudo indica, será plena. E podem ter certeza de que, tendo completado  mais essa jornada, ele voltará a essas páginas, como de costume, para  nos contar como foi mais essa aventura.</p>
<p>Um relato que todos nós aguardamos ansiosamente.</p>
<p>Muito obrigado,</p>
<p>Rafael Corrêa</p>
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		<title>Palmas para a paisagem que restou</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Feb 2011 22:10:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Pão de Açúcar]]></category>
		<category><![CDATA[Plano Diretor]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de cinco séculos de depredação, o novo Plano Diretor do Rio de Janeiro trata a paisagem carioca como um patrimônio que todo morador tem que respeitar e todo governo proteger.  Veio tarde, mas é bem vindo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/02/Pão-de-Açúcar-Ferrez.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1451" title="Pão de Açúcar Ferrez" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/02/Pão-de-Açúcar-Ferrez.jpg" alt="O Pão de Açucar que Marc Frerres viu caindo a prumo na baía no século XIX" width="409" height="306" /></a></p>
<p><strong>O</strong> Rio de Janeiro exagerou no sábado passado. Fez um dia de sol sem nuvem, azul varrido e verão ventilado pela brisa que vinha do mar frio. Parecia de encomenda para ir ao Pão de Açúcar, a pretexto – é claro &#8211; de mostrá-lo a gente de fora.</p>
<p>Carioca que se preza só pega o bondinho com turista empurrando. Pior para ele. Não há ponto-de-vista como o Pão de Açúcar para apreciar o novo Plano Diretor do Rio de Janeiro. Tem até lugar marcado para isso, lá em cima. Anos atrás, o guia da <em>Lonely Planet</em> botou no mapa do mundo o ponto do mirante virado para as montanhas. E ele virou arquibancada de pôr-do-sol.</p>
<p>Quem só faz isso de vez em quando acaba vendo muito mais que o entardecer. Enxerga favelas em quase todas as encostas, lanhando os morros ainda verdes. E elas não davam tanto na vista quatro ou cinco anos atrás, quando duas italianas impuseram aos anfitriões o mesmo programa. Na época, o que chamava a atenção era a torre Rio-Sul, que há mais de 30 anos furou gabaritos e posturas urbanas para tirar o incorporador da insolvência.</p>
<p>Ele continua na mira do sol poente. Mas agora são as favelas que brigam feio com a topografia, fatiando a mata das encostas. Foi nisso que deu o Rio de Janeiro ter um ambientalista na secretaria de Desenvolvimento Urbano, o engenheiro Haroldo Mattos de Lemos, que despachava queixosos dizendo que favela não era problema, e sim solução.</p>
<p>Solução ambiental elas certamente não eram. Mas na década seguinte foram promovidas a “comunidades”, e se tornaram politicamente um assunto tão bem resolvido que o promotor Carlos Frederico Saturnino, encarregado de velar o meio ambiente na cidade, passou uma década falando sozinho, ao insitir que a paisagem do Rio de Janeiro não podia ser privatizada pelas ocupações irregulares por ser patrimônio cultural da população.</p>
<p>É isso que diz agora o Plano Diretor. E bastava aquele cair da tarde no Pão de Açucar para enxergar como ele, embora “novo”, chega atrasado. Não só pelos dez anos que levou tramitando pela Câmara Municipal, como se não fosse assunto urgente. Nem pela favelização. Esse é um capítulo recente na longa história de malversação do cenário natural, que a cidade começou a demolir antes mesmo de ser fundada. Ela nasceu junto ao morro Cara de Cão, ao pé do Pão de Açúcar. E de lá, olhando para baixo, cadê a lagoa que o padre José de Anchieta conheceu em 1565, quando o capitão Estácio de Sá levantou as paredes inaugurais do Rio de Janeiro?</p>
<p>A lagoa tinha “uma légua de água ruim”, escreveu o jesuita. E a primeira batalha dos fundadores não foi contra os franceses e tamoios, mas com terra e pedra para sepultá-la “de todo”. Dela não restou nem a memória. Assim como não há sinal visível da passagem pelo planeta das lagoas do Desterro, da Sentinela, da Pavuna e da Lampadosa, que acabaram embaixo da praça Tiradentes, do Largo da Carioca, do Passeio Público, da Lapa e da Glória.</p>
<p>Nossa guerra pela conquista do território passou batida na futura Zona Sul pela lagoa da Panela, que virou Largo do Machado. E só parou na Rodrigo de Freitas depois de lhe tomar um terço do espelho d’água. Como elas, desapareceram na febre do bota-abaixo que deu ao Rio o título de Cidade Maravilhosa. Só nas primeiras décadas do século XX desapaeceram debaixo de aterros 36 ilhas, 56 praias e 9 enseadas da Baía de Guanabara. E, com elas, o morro do Castelo, que era o centro histórico do Rio de Janeiro.</p>
<p>Eram ilhotas sem importância? Não foi o que comentou no século XVII o inglês Richard Flecknoe, que conheceu a baía “salpicada de ilhas verdejantes de diversos tamanhos”. Outro inglês, o comerciante John Luccock, que vive na cidade no começo do século XIX, descreveu ilhas cobertas de copas floridas, lastimando “a verdadeira fúria de tudo o que se pareça com uma árvore”.</p>
<p>Se os executores do Plano Diretor quiserem levar a sério a tarefa de tratar a paisagem como patrimônio inalienável do Rio de Janeiro, deveriam começar pela instalação de placas lembrando cada marco natural que a cidade desterrou e esqueceu. Senão, o que restou continuará parecendo inexaurível aos deserdados. Como o por-do-sol que os turistas aplaudiram no Pão de Açúcar, sábado passado.</p>
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		<title>O meio ambiente ficou insustentável</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2011/01/28/meio-ambiente-ficou-insustentavel/</link>
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		<pubDate>Fri, 28 Jan 2011 17:45:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Amazônia]]></category>
		<category><![CDATA[Belo Monte]]></category>
		<category><![CDATA[Hidrelétrica]]></category>
		<category><![CDATA[Ibama]]></category>
		<category><![CDATA[Licenciamento Ambiental]]></category>

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		<description><![CDATA[A dança das cadeiras na presidência do Ibama por causa da usina de Belo Monte, no rio Xingu, indica que o meio ambiente virou um negócio insustentável no Brasil. Seus chefes só passam no cargo para aprová-la.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Splash_0581-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1448" title="Splash_0581 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Splash_0581-copy.jpg" alt="" width="409" height="306" /></a></p>
<p><strong>A</strong>ntes de gerar o primeiro quilowatt, a usina de Belo Monte conseguiu transformar o ministério do Meio Ambiente num negócio insustentável. Eletrocutou esta semana mais um presidente do Ibama. Governo vai, governo vem, cada vez mais eles passam e ela fica.</p>
<p>Tragados por Belo Monte, seus nomes escorregam pelo cargo tão depressa que mal dá tempo de aprendê-los. Geralmente, saem de fininho, “exonerados a pedido” e condecorados por processos. Mas chegam com estardalhaço digno de plenipotenciários do patrimonio natural. E é assim que o Brasil está inaugurando esta semana mais um presidente do Ibama. O da vez é o catarinense Américo Ribeiro Tunes.</p>
<p>Experiência em pressão política ele tem. Como superintendente do Ibama em Sata Catarina, viu de perto o governo do estado mandar às favas o Código Florestal e, com ele, uma parte substancial do poder que Brasília tinha para interferir em seus desmandos ambientais. Em outras palavras, foi obrigado a recuar em seu próprio quintal.</p>
<p>Agora, como presidente substituto em Brasília, Tunes recuou na Amazônia. Para tanto, nem precisou assinar a posse no Ibama. Carimbou diretamente seu passapote para a posteridade, assinando a licença “parcial” de Belo Monte. Ela autoriza o desmatamento de 238 hectares na bacia do rio Xingu para a instalação de um canteiro de obras que, formalmente, poderá ou não construir a hidrelétrica. Mas com isso deixou na poeira todos os recursos técnicos e judiciais que o projeto ainda não conseguiu responder.</p>
<p>O demissionário de Abelardo Bayma, antecessor de Tunes, assinou a licença prévia de Belo Monte. O antecessor do antecessor, Roberto Messias Franco, desencalhou em 2009 os estudos de impacto da hidrelétrica. Em 2008, demitiu-se a ministra Marina Silva, ao entrar em rota de colisão com Belo Monte, depois de capitular diante das pressões para liberar as usinas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira. Belo Monte nem precisa de eletricidade para dar choque.</p>
<p>Dure muito ou pouco essa interinidade de Tunes, ele tem um lugar definitivo na história da usina e da burocracia ambiental. Uniu sua assinatura à estreia do conceito de “licença parcial”, um circunlóquio que a rigor só deveria servir para contratar serviço de encanador em reforma de banheiro: “Quebra que depois a gente resolve”.</p>
<p>“Parcial”, no caso de Belo Monte, quer dizer o quê? Se o termo for sincero, significa que o país está entregue a interesses poderosos, sem dúvida, mas insensatos a ponto defenestrar presidentes do Ibama só para construir um canteiro de obra sem a menor garantia de fazer a obra. Idéia semelhante só passou por Brasília uma vez, há mais de 30 anos, através da cabeça prodigiosa do economista Mario Henrique Simonsen.</p>
<p>Como ministro do governo João Figueiredo, ele propôs que o Brasil legalizasse o pagamento de comissões por obras não pretendia executar. Alegava que assim todos sairiam ganhando. A começar pelos brasileiros, que gastariam menos com empreitadas inúteis e perdulárias. Simonsen estava brincando. Queria simplesmente dizer com isso que muita coisa no país só sai do papel porque alguém está de olho na percentagem da intermediação.</p>
<p>Mas a licença “parcial” de Belo Monte, a julgar pelo número de baixas que já causou, está falando a sério, mesmo sem esclarecer se aquilo custará menos de 19 ou cerca de 30 bilhões de reais e gerará 11 mil ou 4 mil megawatts. Mas Belo Monte é urgente porque o Palácio do Planalto está sentado sobre mais de 60 projetos de usinas, licenciadas ou não. Boa parte dessas barragens e linhões foram reservados para a Amazônia. Resolvida a questão de Belo Monte, que é o projeto mais polêmico, o resto irá no vácuo.</p>
<p>Tudoisso por que a região tem potencial sobrando? Quem dera. Por enquanto, o que há são dúvidas sem resposta e advertências no mínimo plausíveis, mas soberbamente ignoradas. Como a do engenheiro Enéas Salati, da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável. Salati vem combinando com calma e cautela o que já se sabe sobre mudança climática com o que se conhece dos rios nas 12 grandes regiões hidrológicas  do território brasileiro.</p>
<p>Ele encara um horizonte de 2015 a 2100. Não tem pressa, porque não vai ganhar nem perder um tostão com obra nem desmatamento. Mas já tem dados suficientes para prever que a vazão média dos rios na Amazônia tende a cair de 30 a 40% até o fim do século. Sem falar dos casos piores, como o do rio Tocantins, que nasce no Cerrado. Esse pode estar condenado murchar nas próximas décadas, reduzndo-se à metade do volume que tinha antes de 1990.</p>
<p>É para lá que o governo nos empurra, custe o que custar.</p>
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		<title>Depois da chuva, o vento pode virar</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2011/01/22/depois-da-chuva-o-vento-pode-virar/</link>
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		<pubDate>Sat, 22 Jan 2011 21:01:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades Sustentáveis]]></category>
		<category><![CDATA[Favelização]]></category>
		<category><![CDATA[Mudança Climática]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Os procuradores do Ministério Público Federal em Petrópolis mostram numa tabela como e por que não prosperam ações ambientais contra ocupações irregulares. Nunca foi tão fácil localizar os culpados pelas centenas de mortes na região serrana do Rio de Janeiro. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Petrópolis-Google-Geoeye2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1439" title="Petrópolis Google Geoeye" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Petrópolis-Google-Geoeye2.jpg" alt="" width="409" height="306" /></a></p>
<p><strong>T</strong>romba d’água, em qualquer lugar, cai de repente. Mas, nas cidades serranas do Rio de Janeiro, desastre ambiental é notícia velha. Data no mínimo de cinco anos, pela tabela em que os procuradores Vanessa Seguezzi e Charles Estêvão da Motta Pessoa listaram ações civis públicas na Área de Proteção Ambiental de Petrópolis.</p>
<p>Dela consta, por exemplo, a tentativa de “conter a expansão das ocupações irregulares” na “Comunidade da Vila União, acesso pela Estrada Velha, rua Lopes Trovão”. É uma história de 2005. Em 2009, saiu a liminar que mandava a prefeitura “demolir as moradias desocupadas no prazo de 60 dias, sob pena de multa diária de R$ 10 mil” e encomendava ao Ibama a restauração da floresta nas áreas ainda desocupadas, “no mesmo prazo e sob a mesma pena”, determinando que ambos ficassem dali para a frente encarregados de fiscalizar o local “bimestralmente”, contra a construção de novas casas.</p>
<p>Dito assim, parece que foi tiro e queda. Mas, na coluna seguinte, vem uma anotação que suspende todas as presunções em contrário: “Aguardando sentença”. Seguezzi é paranaense. Chegou em Petrópolis há quatro anos. “Para ficar”, ela afirma. Lá, divide a tutela de interesses coletivos – que incluem a defesa do meio ambiente &#8211; com  Motta Pessoa. Ambos foram recepcionados no município por ações que os antecendem e nem por isso se concluíram.</p>
<p>Foi também em 2005 que começou o processo de “reparação e compensação dos danos ambientais ocorridos na rua Professor Stroller, nº 1.883, Quarteirão Brasileiro”. O Ibama e a Prefeitura foram intimados a apresentar em 150 dias um “estudo técnico da área de risco”. E a administração municipal, a proceder à “retirada e realocação dos habitantes”, nos termos do tal estudo técnico, “informando ao juízo as eventuais pessoas que se recusarem a deixar o local”.</p>
<p>Mas o espaço reservado à a execução dessas ordens está ocupado por um lacônico “não há”. Quer dizer, não existem informações. Coisa que só acontece em favela? Quem dera. Há na lista uma ação de 2003 contra danos ambientais “ocorridos na Ladeira Nair de Oliveira Kronemberg”, como sempre por “ocupação irregular”. Entre os responsáveis pelo loteamento, aparece um Kronenberg, com o mesmo sobrenome da rua. Cheira a coisa de gente fina. Pelo cadastro do IPTU, os imóveis pertencem à Companhia Imobiliária Quitandinha.</p>
<p>Ali também caberia à Prefeitura “realocar as famílias e demolir todas as ocupações irregulares”. Ao Ibama, “apresentar projeto de reflorestamento”. A todos os réus, executá-lo. Nesse ponto, mais uma vez, a história acaba de repente. Não dá mesmo para exigir muita eficácia ambiental de um Município que, segundo Seguezzi, “destina 6,5 milhões de reais à área da Cultura”, “310 mil ao meio ambiente” e “370 mil à habitação”.</p>
<p>Dos dez casos arrolados pela procuradora, só um, aberto há mais de cinco anos na rua Hermógenes Silva, no bairro do Retiro, terminou em “sentença condenatória”, cinco meses atrás. O resto foi deixado no ar. Se não desabou sobre alguém nas últimas chuvas. Além das ações e de 12 inquéritos contra ocupações regulares, Vanessa Seguezzi está juntando pistas de “condomínios irregulares” na APA de Petrópolis. Santo remédio contra a lenda de que a lei só cai em lombo de pobre. Quando tem do outro lado a proteção da natureza, geralmente não cai em lombo de pobre nem de rico.</p>
<p>Fora os processados e os procuradores, até poucos dias atrás ninguém teria maiores motivos para manter os olhos sobre este inventário, que aponta culpas paa todos os lados. Por exemplo, da Ampla, empresa de energia elétrica que, como as outras concessionárias, aproveita o primeiro cutucão judicial para botar postes e fios em ocupações irregulares, ajudando a consolidá-las. É o caso, por exemplo, da invasão na rua Professor Stroller, objeto de uma notificação datada de agosto de 2007.</p>
<p>O dossiê de Vanessa Seguezzi e Charles Motta Pessoa desceu a serra na última enxurrada. Chegou ao centro do Rio de Janeiro, onde – pelas mãos de um padrinho atento a questões ambientais, o procurador Paulo Bessa &#8211; subiu ao gabinete da procuradora Cristina Schwansse Romanó, chefe da Procuradoria Geral da República na 2ª Região. E ali inspirou um pedido para que o Ministério Público siga em Teresópolis e Nova Friburgo o exemplo de Petrópolis, enviando-lhe relatórios semelhantes.</p>
<p>Romanó, pelo cargo que ocupa, tem linha direta com o plenário do Tribunal Regional Federal. É nessa instância que se processam administradores municipais. E, numa calamidade que até o momento teve mais de 700 mortos e nenhum culpado, eis o primeiro sinal de que os ventos podem virar.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A chuva não pode ir para a cadeia</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Jan 2011 15:02:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura]]></category>
		<category><![CDATA[Código Florestal]]></category>
		<category><![CDATA[Crise climática]]></category>

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		<description><![CDATA[As piores surpresas do clima estão virando rotina. Mas suas consequencias seriam menores se as autoridades que promovem a ocupação das áreas de risco ou a degradação de rios e encostas fossem tratadas como homicidas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1431" class="wp-caption aligncenter" style="width: 419px"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Friburgo-Steimann.jpg"><img class="size-full wp-image-1431 " title="Friburgo Steimann" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Friburgo-Steimann.jpg" alt="" width="409" height="306" /></a><p class="wp-caption-text">Nova Friburgo, na década de 1830, pelo viajante Johann Jacob Steinmann</p></div>
<p><strong>D</strong>as surpresas do clima quem pode falar por todos os políticos com conhecimento de causa são os faraós egípcios. Eles, como o ex-presidente Lula, agiam como enviados do céu à terra. E, ao contrário do ex-presidente Lula, não falam desde que saíram de cena, a não ser por intermédio de escribas e hieroglifos.</p>
<p>Mas, como encarnações do sol, se o sol fracassava lá em cima eram arrancados do trono cá embaixo, surrados e cuspidos no fundo do Nilo. Tudo porque  o rio deixava de inundar o delta que nutria seu reino agrícola. Lá, o regime político mudava conforme o regime do rio. Tornava-se violento e insurreto até o Nilo voltar à normalidade, irrigando uma nova dinastia.</p>
<p>As vítimas dessas tragédias políticas e climáticas não tinham, na época, como saber que as cheias do Nilo eram regidas pelas chuvas de monção do Sudeste Asiático, que por sua vez dependiam de ventos conjurados pela temperatura das águas no oceano Pacífico, do outro lado da terra, na costa da América do Sul, um lugar mais distante que o sol do cotidiano egípcio.</p>
<p>O culpado da desordem era um fenômeno natural que só entrou há duas décadas no noticiário internacional, com o nome de El Niño. Mas deixar o clima fazer seus estragos à solta, em Tebas ou Menfis, tinha custo político, porque da regularidade do rio dependiam vidas humanas. O preço era injusto, cruel e exorbitante. Como é injusto, e talvez seja também cruel e exorbitante, que hoje não se processe no Brasil, por homicídio culposo, o político que patrocina baixas evitáveis e supérfluas em encostas carcomidas e vales entulhados por ocupações criminosas.</p>
<p>No dia em que um prefeito, olhando as nuvens no horizonte, enxergar a mais remota possibilidade de ir para a cadeia pelas mortes que poderia impedir e incentivou, as cidades brasileiras deixariam aos poucos de ser quase todas, como são, feias, vulneráveis e decrépitas. De graça, ou com o dinheiro virtual do PAC, os políticos não consertarão nunca a desordem que os elege.</p>
<p>Não adianta ameaçá-los com ações contra o Estado ou a administração pública, porque o Estado e a administração pública, na hora de pagar a conta, somos nós, os contribuintes. O remédio é responsabilizar homens públicos como pessoas físicas pelos crimes que cometem contra a vida. Às vezes em série, como acaba de acontecer na região serrana do Rio de Janeiro.</p>
<p>O resto é conversa fiada. Ou, pior, papo de verão em vôo de helicóptero, que nessas ocasiões poupa às autoridades até o incômodo de sujar os sapatos na lama. Pobres faraós. O longo e virtuoso o caminho civilizatório que nos separa de seu linchamento está nos levando de volta à impunidade anárquica das entressafras dinásticas, quando a favelização lambia até as suntuosas muralhas de Luxor.</p>
<p>Linchar um político não é a mesma coisa que malhar seus projetos. E os brasileiros estão perdendo mais uma chance de bater com força no projeto de lei número 1876/99, que o deputado Aldo Rabelo transfigurou, para enquadrar o Código Florestal nos princípios do fato consumado. Ele propõe reduz à metade as áreas de preservação em margens de rio, dispensa da reserva legal propriedades pequenas ou médias e consolida os desmatamentos ilegais. Nunca foi tão fácil saber aonde ele quer chegar com isso, folheando as fotografias aéreas das avalanches em Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Dá para ver nas imagens o que havia antes nos pontos mais atingidos. Ou, com clareza maior ainda, <a href="http://www.oecocidades.com/2011/01/14/destruicao-no-vale-do-cuiaba-ocorreu-dentro-de-apps/">nestes estragos que precederam a enxurrada no Vale do Cuiabá</a>. É o que o novo Código Florestal vai produzir no campo. Mais disso.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>É bom lembrar que o mundo gira</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2011/01/11/1424/</link>
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		<pubDate>Tue, 11 Jan 2011 13:03:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Crise climática]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Negócios]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://marcossacorrea.com.br/?p=1424</guid>
		<description><![CDATA[Quando se fala em exportar água das geleiras do Alasca para o Oriente Médio, o mundo dá uma volta completa em torno da Wenham Lake Ice Company, que mandou no século XVIII o gelo de um lago americano para o mundo, até a competição descobrir que qualquer um podia fazer a mesma coisa. O Wenham é hoje um reservatório de Boston.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Glaciar.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1425" title="Glaciar" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Glaciar.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p><strong>N</strong>ada como a reciclagem de uma velha notícia para entrar no reveillon sabendo que, apesar dos pesares, o mundo ainda dá voltas ao redor de si mesmo. Trata-se da história contada em O Globo pelo reporter Cesar Baima sobre água o do lago Blue, no Alasca, que será exportada por duas empresas para uma engarradora na Índia e, de lá, para o Oriente Médio. Sinal dos tempos, certo?</p>
<p>Nem tanto. No verão de 1844, estreou em Londres a filial da Wenham Lake Ice Company, de Boston. Expunha na vitrine um bloco translúcido de gelo. Tirado de glaciações nos Estados Unidos, era tão cristalino que, através dele, lia-se o jornal do dia, como atestado de pureza.</p>
<p>O truque publicitário embasbacou os londrinos, que nunca tinham visto gelo assim. A rainha Victoria credenciou a Wenham como provedora de Buckingham. O novelista William Thackeray engastou o inédito mineral precioso numa de suas tramas de fição. Foi um sucesso retumbante.</p>
<p>E breve. A Noruega, bem ali ao lado, rapidamente invadiu o mercado britânico com seu próprio gelo de Wenham. Vinha do lago de Oppengaard, perto de Oslo. Estava dispensado de cruzar o Atlântico. E, para pegar a onda americana, o lago foi rebatizado. De Oppengaard, virou Wenham, como o precursor já notório.</p>
<p>Tudo isso se deve à obstinação de Frederic Tudor, um bostoniano bem nascido que dissolveu a fortuna da família para implantar o comércio ultramarino de um produto que ninguém precisava fabricar, por ser fornecido pela natureza a céu aberto em quantidades aparentemente ilimitadas.</p>
<p>Bom, bonito e barato, o produto só tinha duas contra-indicações. Era imune a patentes. E tendia a passar do estado sólido ao líquido durante a viagem. Coube ao dinheiro de Tudor bancar as experiências que derreteram a relutância dos armadores em carregar navios com o que, no fundo, era só água.</p>
<p>Sua primeira remessa de tres toneladas descongelou num porto da Inglaterra, enquanto os fiscais da alfândega coçavam as cabeças para classificá-la. Aos poucos, Tudor acabou que blocos compactos e grandes, envoltos em serragem – por sinal, outro artigo então invendável – podiam ir de Boston a Bombaim.</p>
<p>Aliás, o gelo fez com frequencia a circum-navegação das Américas, para chegar da costa leste à Califórnia, via cabo Horn. No fim, Tudor não criou o que hoje se chama “negócio sustentável”. E seu lago de Wenham virou reservatório de Boston. Mas, a suas custas, ele mudou para sempre os costumes e a economia do planeta.</p>
<p>O gelo itinerante universalizou o consumo popular do sorvete, conhecido desde o Império Romano como requinte sasonal e raro. Permitiu que a carne argentina conquistasse o Hemisfério Norte, a lagosta do Pacífico viajasse a Chicago e as frutas tropicais debutassem no inverno europeu. Só na rede ferroviária dos Estados Unidos, até a década de 1930, circulavam mais de 180 mil vagões frigoríficos, refrigerados a gelo.</p>
<p>Esquecidos, o triunfo e o fiasco de Tudor voltaram à tona ultimamente, na enxurrada de livros que anunciam, sobretudo em inglês, o advento da era em que a água e seus derivados serão monopolizados pelos espertos. O escritor norte-americano Bill Bryson pescou-os numa dessas publicações, tornando a história de Wenham mais palatável em <em>At Home – </em>uma dissertação enciclopédica sobre sua velha casa em Norfolk, num cafundó da Inglaterra. Bryson anda empenhado em mostrar que a natureza não parece, mas tem preço.</p>
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		<title>Diário de funcionário público</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2011/01/10/diario-ilustrado-de-funcionario-publico/</link>
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		<pubDate>Mon, 10 Jan 2011 18:43:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Serviço Público]]></category>

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		<description><![CDATA[Rotina de funcionário público é a arte de contar as horas que faltam para o fim do expediente. Certo? Errado. Jorge Pegoraro, o chefe do parque nacional do Iguaçu, deu um jeito de esticar os seus dias como fotógrafo de natureza.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Pegoraro-e-Manu_2548.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1412" title="Pegoraro e Manu_2548" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Pegoraro-e-Manu_2548.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p><strong>U</strong>rgente e lacônico, o texto no celular avisa que “as cigarras estão dando sopa”, com a chegada do verão ao parque nacional do Iguaçu. Outro rascunho informa que uma onça-pintada foi vista dias atrás por funcionários da manutenção no quilômetro 26 da estrada que leva os turistas às cataratas. Um recado mais longo conta que “os ninhos de pássaros ao lado da casa 003 foram todos estraçalhados” por “gambá, tucano” ou outro predator “invisível”.</p>
<p>A 003 é a residência oficial do biólogo Jorge Pegoraro, chefe do parque e autor das mensagens. Ele fazia a ronda diária dos ocos e galhos no jardim, desde que a primavera povoou suas árvores de ovos e promessas. Está há quase oito anos no posto. E cada vez mais atraído pelas novidades que cercam seu cotidiano por todos os lados. Meses atrás, comprou uma máquina fotográfica. Passou a registrar seu dia-a-dia com a sofreguidão de quem pos as mãos em brinquedo novo e o conhecimento de causa de quem vê aquilo tudo sistematicamente, por dever profissional.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Socó_1618.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1413" title="Socó_1618" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Socó_1618.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>O dia-a-dia pode ser inexaurível, quando se tem sob sua jurisdição uma floresta de 185 mil hectares. Em poucas semanas de fotografia, Pegoraro tinha juntado uma fartura de imagens. No fim do ano passado, por exemplo, fez “um bonito (eu acho) jacaré (pequeno) no rio Iguaçu, numa volta de barco próxima à ilha dos Papagaios”.</p>
<p>Com as tardes alongadas pelo horário de verão, a cada fim de expediente, se a chuva deixar, ele pega o equipamento, atravessa em longos círculos o jardim e cai nas trilhas que fazem de sua casa um entrocamento de pegadas. Cruzam por ali rastros de catetos, de cutias, de cachorros-vinagre, de veados mateiros e de onças. Só com os pássaros que frequentam sua clareira daria para fazer um guia quase completo das aves do Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Flor-1109.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1414" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Flor-1109" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Flor-1109.jpg" alt="" width="250" height="363" /></a>Só volta depois que a noite cai. Usa uma Rebel T1, a reflex digital mais modesta da Canon. Contenta-se com lentes básicas. Passou batido pelo labirinto técnico dos manuais. Mas tem olho clínico, capaz de identificar na penumbra animais que parecem sombras e ver silhuetas onde aparentemente só há manchas escuras. Com esses trunfos, e a prerrogativa de morar no parque nacional, virou fotógrafo de natureza do dia para a noite. Foi a última virada de uma carreira que, sempre que entorta, aponta mais para o mato.  Ele nasceu em Curitiba, formou-se por lá em Biologia quando o diploma servia quase exclusivamente para dar aulas em sala e entrou para o serviço público, por concurso, via Sudepe. A superintendência da pesca deu-lhe o primeiro emprego no porto de Paranaguá, o extremo oposto do Iguaçu.</p>
<p>Chegou ao Oeste do Paraná em 1989, depois que a criação do Ibama fundiu as autarquias que tratavam de recursos naturais no governo. Pegoraro foi realocado no escritório do Ibama em Cascavel, quando as serrarias já haviam raspado os últimos retalhos de mato no município. Mas o escritório continuava expedindo licenças de desmantamento para as cidades retardatárias cuidarem das sobras.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Gralha_1047.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1415" title="Gralha_1047" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Gralha_1047.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>Ele não levou muito tempo para se convencer de que toda aquela região gravitava, em saber, em torno do parque nacional, cuja floresta é o maior investimento que os colonos conseguiram fazer na economia da região. Basta ver os dados oficiais sobre a economia de Foz do Iguaçu, a maior cidade da vizinhança. O turismo é, de longe, sua maior fonte de ocupação e renda. A &#8220;produção de energia&#8221; &#8211; ou seja, o produto da Itaipu Binacional, a maior hidrelétrica do mundo &#8211; vem em segundo lugar.</p>
<p>Jorge Pegoraro aproximou-se muito do parque na queda-de-braço com políticos locais, quando eles transformaram em questão de honra manter aberta <a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Lua-no-Salto-Floriano_07201.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1419" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Lua no Salto Floriano_0720" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Lua-no-Salto-Floriano_07201.jpg" alt="" width="312" height="454" /></a>a Estrada do Colono. Teve que defender a integridade da floresta contra os pontos de vista até de superiores hierárquicos, dispostos a entregar os pontos.</p>
<p>Acabou nomeado para dirigi-lo, em 1º de abril de 2003. Tem uma rotina complicada que inclui intermináveis reuniões para aparar as arestas e cauterizar os ressentimentos que sobraram da disputa. Encara frequentemente longas horas em viagens ao redor do parque, para manter a conversa em dia com quem mora no lado oposto ao da sede, a 200 quilômetros de distância. E discussões que quase sempre voltam ao ponto de partida. Pegoraro oferece projetos de parceria em turismo ecológico. E ouve pedidos de licença para a pesca esportiva nos rios da reserva.</p>
<p>Ele não abre mão de &#8220;saber tudo o que acontece&#8221; lá dentro, ouvindo mateiros, técnicos, guardas e operadores turísticos. Mas se considera até hoje incapaz de conhecer o parque como se deve &#8211; ou seja, “a fundo” . Seguir a rotina desse funcionário público entre o gabinete e a trilha revoga tudo o que se ouve falar por aí sobre preguiça burocrática.</p>
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		<title>Para quem não for ministro em 2011</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/29/para-quem-nao-for-ministro-em-2011/</link>
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		<pubDate>Wed, 29 Dec 2010 21:55:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Ano Novo]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Mudança Climática]]></category>

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		<description><![CDATA[De quatro em quatros anos, o réveillon se confunde no Brasil com a posse de novos governos. Por isso mesmo, está mais do que na hora de festejar o fato de que nem tudo neste planeta se resolve lá em cima. Muita coisa pode acontecer cá embaixo, enquanto os políticos se divertem, fazendo o possível para o mundo continuar o mesmo. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Fogos.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1405" title="Fogos" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Fogos.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p><strong>O</strong>s políticos trabalharam tanto ultimamente para compor o ministério do governo Dilma Rousseff, embananar mais uma conferência do clima em Cancún e resolver outros problemas cruciais da humanidade, que às vezes a gente se esquece de quem trata de assuntos concretos cá embaixo.</p>
<p>Séculos inteiros podem passar sobre o cotidiano antes que um historiador como Fernand Braudel resolva cavucá-lo em busca da História silenciosa, a que parece imóvel mas, calada, move o mundo. E nada impede que, um dia, 2010 seja lembrado como o ano em que a GM começou a fazer nos Estados Unidos um carro elétrico, o Volt, com a escória do plástico que serviu para enxugar o óleo derramado pela BP no Golfo do México.</p>
<p>Isso não faz necessariamente da GM um modelo para o futuro. Suas vendas de carros estão em queda. As de picapes e outros mastodontes de lata em alta. O Volt fecha o ano com 10 mil carros vendidos. Deve emplacar uns 45 mil em 2011. Por enquanto, só está aí para provar que existe. Mas é o quanto basta para lançar a sombra da obsolescência e do anacronismo sobre os carros que fabricamos, importamos e compramos como nunca no Brasil. Se até a GM já faz carro elétrico, está na hora de adiar a visita às concessionárias que não acertarem o passo com as matrizes estrangeiras.</p>
<p>Não adianta argumentar que, sim, nossos carros novos estão na fila de velharia, mas em compensação o i-Pad e todos os “i-s” da Apple já desembarcaram em massa no Brasil. Vestidos de alumínio, são todos tão elegantes que esta semana, no <em>Wall Street Journal</em>, o jornalista Brett Arends, guru de bolsa, admitiu que as ações da Apple furaram estrepitosamente o teto de cotação que ele considerava prudente, ou mesmo possível. É que não se trata mais de uma empresa de tecnologia, mas de uma grife. “A Apple”, ele alegou, “é uma marca de luxo, como a Hermés ou Tiffany”.</p>
<p>E é exatamente por estar tão em voga que não pode dar ao freguês a sensação de que, ao adquirir um objeto bonito, comete em público um ato feio. Para remediar esse embaraço, a última palavra em acessório para MacBook pode ser um atestado de bom comportamento, expedido em Nova York pela Belgrave Trust.</p>
<p>A Belgrave calculou quanto cada MacBook de alumínio custará ao planeta, da fábrica ao fim da vida útil. São 630 quilos de dióxido de carbono, que o feliz proprietário pode zerar, de saída, pela bagatela de 10 dólares, investidos em reflorestamento. Se colar, a indulgência ambiental da Belgrave arrecadará uns 100 milhões de dólares. É árvore que não acaba mais.</p>
<p>E para não parecer que só o presente aponta para o futuro, ponha-se no pacote deste Natal o Homem de Denisovan. Ou seja, o osso da mão de uma prima do Homem de Neandertal descoberta na Sibéria. É uma velha obsessão do biólogo americano Bernd Heinrich o sumiço repentino dessas criaturas, que tinham cérebros tão grandes quanto os nossos, usavam fogo, despachavam seus mortos com flores e zanzaram pela Ásia e a Europa por mais de 250 mil anos</p>
<p>Ele acredita que o Homem de Neandertal sobreviveu pacificamente a tres eras glaciais por ter o corpo coberto de pelos, como o dos macacos japoneses que vivem na neve. Desapareceu porque o clima esquentou, abrindo alas para o glabro <em>Homo sapiens </em>e sua incurável propensão a exterminar tudo o que considera diferente. O homem peludo sofreu a primeira campanha de limpeza étnica de nossa história. E Heinrich insiste que ele até hoje tem algo a nos dizer sobre as vantagens para o planeta da coexistência pacífica. A época não poderia ser mais propícia para o dedo de Denisovan indicar o caminho.</p>
<p>E feliz Ano Novo!</p>
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		<title>A história de Manu, último capítulo</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Dec 2010 14:48:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Durou 55 dias a vida de Manu, o filhote de veado mateiro que foi achado em outubro no parque nacional do Iguaçu, ferido e desgarrado da mãe. Dias atrás, foi atacada por uma jaguatirica. Morreu no mato, o lugar certo. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2090.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1384" title="Manu_2090" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2090.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>M</strong>anu morreu. Teve uma vida breve a corça recém-nascida, encontrada em outubro no parque nacional do Iguaçu. Estava, na ocasião, levemente ferida e prematuramente separada da mãe por um predador frustrado – supostamente, uma irara. Em 17 de dezembro, uma jaguatirica atacou-a durante a noite, num ataque rápido e conclusivo.</p>
<p>Ela durou 55 dias. Mas deixou no parque uma extensa biografia, com seus passos documentados por fotografias, filmes e notas. Era um tema irresistível para quem a visitou na casa dos biólogos Marina Xavier da Silva e Alexandre Vogliotti, um lugar ermo, junto à usina hidrelétrica do rio São João, hoje sem máquinas e com ares de ruína. O endereço certo para quem prefere viver no mato, e quanto mais no mato melhor.</p>
<p>A casa fica na floresta que margeia o rio Iguaçu. Não tem vizinhos próximos. É o último lugar habitado da estrada de pedras brutas, estreita e sem acostamento, que desce da sede administrativa e termina, logo depois, numa pequena praia. É caminho de bicho e gente. Mais bicho do que gente.</p>
<p>Recolhida com dois diasde idade, Manu ganhou o nome de uma sobrinha de Vogliotti, que chegou ao parque como pesquisador de cervídeos e agora integra a equipe do projeto Carnívoros do Iguaçu, capitaneado por Marina Xavier da Silva, sua mulher. Ele passou do estudo das presas à intimidade com os predadores. E Manu se instalou bem no meio dessa encruzilhada vocacional.</p>
<p>O filhote passou as primeiras semanas num quarto da casa. Dormia em caixa de papelão, onde cabia de sobra. Mamava duas vezes por dia. Passava o dia num cercado, na sede do parque, acompanhando o casal durante o expediente. Todo fim de tarde, gastava as energias no quintal, aos saltos. Até que atravessou ao anoitecer o portão invariavelmente escancarado, embrenhou-se na floresta a poucos passos de casa e passou a dormir fora, como convem a um filhote de <em>Mazama americana. </em></p>
<p>Mas <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/11/14/quem-nasce-manu-nao-vira-bambi/">essa história já foi contada aqui</a>. A novidade veio dias atrás, num e-mail de Marina Silva que ensina, em poucos parágrafos e com muitos pontos de exclamação, um biólogo de campo a conciliar dever com sentimento. Começa informando que, “infelizmente”, naquela madrugada, “para nosso completo desespero, uma jaguatirica atacou” Manu.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/ManuMorta.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1385" title="ManuMorta" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/ManuMorta.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>Para que ninguém estranhe esse “infelizmente” e o “desespero”, é bom não perder de vista que se tratava de um animal que passara de doméstico em outubro para selvagem em novembro, sem deixar o convívio do casal. “Ela crescia linda”,  “continuava com suas brincadeiras vespertinas” e, naquela noite, “havia escolhido para dormir um lugar bem perto de casa”. E assim eles a ouviram  “berrar desesperadamente no momento do ataque”.</p>
<p>“Corremos, gritamos por ela, mas a jaguatirica foi rápida e precisa!” Expor-se aos riscos da vida silvestre, lembra Marina, fora “escolha nossa e dela”. Senão, teriam salvo uma corça incapaz de sobreviver no mato. Logo, destinada ao confinamento num zoológico, por falta de traquejo em seu habitat. “Foi duro ouvi-la berrar”. Mas “a natureza é dura mesmo”. E eles dois estão no Iguaçu a trabalho.</p>
<p>Meia hora depois de ouvir o berro, Vogliotti encontrou a carcaça de Manu “na borda da mata”. O casal suspeitou de cara que aquilo era obra de jaguatirica. E não podia dormir sem testar a suposição. Morta, Manu era isca. Armaram uma armadilha fotográfica perto do corpo. E a máquina flagrou o autor de volta à cena do crime. Era mesmo jaguatirica. “Um macho grande, cumprindo exatamente seu papel de predador”, comenta Marina em sua mensagem.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_21693.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1389" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Manu_2169" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_21693.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>Dito isso, na frase seguinte ela exclama: “MALDITO!! Podia ao menos ser uma onça-pintada”. Onça-pintada, sim, é uma espécie cada vez mais rara no parque. Depois de uma temporada de visibilidade até excessiva em meados de 2010, quando todo nmundo parecia topar com ela, sumiu de uma hora para outra, driblando há meses os esforços dos pesquisadores que buscam por todo canto sinais de sua presença. Só neste fiunalzinho de dezembro deu o ar de sua graça, avistado por um funcionário da concessionária que explora o tutrismo nas Cataratas. Estava no quilômetro 26 da BR-469.</p>
<p>Restaram de Manu histórias e imagens. Vogliotti, “mesmo tendo uma boa experiência com os cervídeos”, admite que se surpreendeu “com o nível de interação que ela estabelecia conosco”, em “lutinhas, correrias, expedições pela mata, o rio Iguaçu e a cachoreira do São João”. Vogliotti acabou se convencendo de que Manu parecia “realmente se divertir nessas atividades”.</p>
<p>Ele pretendia estudar o processo de reintegração de Manu ao Iguaçu. Ela “continuava firme no objetivo de viver na mata”, ele escreve. “Ia lentamente ampliando seus horizontes. Revezava seus repousos/pernoites entre uns tres ou quatro sítios diferentes, que iam até perto da usina do São João, acima ou abaixo da trilha. Alguns eu nunca consegui localizar exatamente”.</p>
<p>Andava cada vez mais independente. “Pela manhã, ela atendia prontamente ao nosso chamado”, conta Vogliotti. “Mas, no fim da tarde, demorava mais a nos procurar e ficava um bom tempo consumindo brotos e folhas diversas, aqui e ali. Não cheguei a catalogar todas as plantas que ela vinha provando, mas sei de tres espécias, ainda não identificadas, pelas quais tinha predileção considerável”.</p>
<p>Às vezes, ele e Marina tinham que buscar Manu no mato “para mamar em tempo hábil”. E houve uma tarde em que desistiram de esperá-la. “Apareceu na tarde do dia seguinte, faminta, exigindo sua mamadeira aos berros (gravados pela Marina} e dando cabeçadas em quem quer que aparecesse à sua frente. Mamou um litro e meio em sequência”.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2538.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1398" title="Manu_2538" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2538.jpg" alt="" width="409" height="273" /></a></p>
<p>Tomava leite “de caixinha”, reforçado com “ração de gato moída”. Não se adaptou a “um sucedâneo comercial para bezerros”, que lhe provocou uma semana de diarréia – um indício do que esses bezerros desmamados andam engolindo por aí. A não ser por “breves lambidas” para saciar a curiosidade, Manu jamais bebeu água, “apesar de sempre demonstrar uma grande atração por ela. Quando íamos aos rios, ela sempre entrava na água até a altura da barriga”.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Costumava lambrer-lhes os braços. “Pensávamos que fosse pelo sal”, quase sempre deficitário na dieta da floresta. “Conseguimos um pouco de sal mineral (de uso pecuário) na intenção de suprir esses nutrientes, mas não teve o efeito esperado”. Ela provava a novidade e nem por isso deixava de lambê-los, talvez mais por “ interação social” que por necessidade “nutricional”. Lambia também a cabeça de Vogliotti. “E passava um bom tempo assim, se eu permitisse”.</p>
<p>O diário de Manu mal estava começando. E ficará para sempre incompleto. “Agora os fins de tarde custam muito a passar para a gente”, conclui Marina. Resta ao casal o consolo “de ver o parque funcionando”. Ou seja, com predadores e presas, como mandam os preceitos da conservação ambiental. “Mas podia não ser com a Manuzinha, não é mesmo???!!!”</p>
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		<title>Adeus à onça, com ótimas lembranças</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Dec 2010 21:12:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>

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		<description><![CDATA[Em "Jaguar", o biólogo Evaristo Eduardo de Miranda e a jornalista Liana John conseguem nos dar saudades antecipadas desse bicho que continua por aí, mas deixou de ser há muito tempo "O Rei das Américas" do subtítulo,  que o belo livro prudentemente reservou às páginas internas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Onças-trepando.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1368" title="Onças trepando" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Onças-trepando.jpg" alt="" width="474" height="296" /></a></p>
<p><strong>H</strong>á onças que nos perseguem pela vida afora. Como a que atravessa o caminho de Dante para o Inferno. “<em>Lonza leggera</em>”, de pelo “<em>macolato</em>”, vista na “selva selvagem, dura e forte” da Itália do século XIV, quase 200 anos antes que as onças propriamente ditas fossem descobertas pelos europeus na América.</p>
<p>Que <em>lonza</em> era então aquela, tão longe de casa e de época? O livro <em>Jaguar</em>, do biólogo Evaristo Eduardo de Miranda e da jornalista Liana John acaba de dar, senão a resposta, um bom motivo para desistir da pergunta. Afinal, todos os felinos do mundo vêm de um certo <em>Proailurus</em>, que andou pela Europa há uns 25 milhões de anos.</p>
<p>A descendência do <em>Proailurus</em> só veio a perder definitivamente a cidadania européia há 10 mil anos, no corpo da uma <em>Panthera onca toscana. </em>“Toscana”, portanto, como a terra de Dante. Daí a parar na <em>Divina Comédia</em> é um pulo. Grande, sem dúvida. Mas nada que se compare a saltar de um continente a outro, por cima do Atlântico, antes do descobrimento. Basta isso para fazer de <em>Jaguar </em>um desses livros que contam até o que sequer passou pelas cabeças dos autores.</p>
<p>Aí, não há como deixar de conferir o que eles têm a dizer nas outras 299 páginas. O livro oculta um subtítulo: “O Rei das Américas”. Discreto como a própria onça, ele escapou da capa para as páginas internas. Na capa, poderia espantar quem considera o jaguar é o rei de um reino perdido. Perdeu, por exemplo, boa parte de um território que invadia os Estados Unidos pelo menos até o Grand Canion e costeava as praias brasileiras de norte a sul, enquanto nelas ainda havia mata atlântica.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Caçada-de-Onça.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1370" title="Caçada de Onça" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Caçada-de-Onça.jpg" alt="" width="474" height="296" /></a></p>
<p>Está na lista de espécies ameaçadas de extinção da União Internacional de Conservação da Natureza. Quantos são? Com boa vontade, 100 mil. Seja qualquer for seu número, trata-se de uma população cada vez mais isolada em fragmentos florestais declinantes e santuários da fauna tropical que se espalham como retalhos por 18 países.</p>
<p>E de que lhe adianta ser rei nesses tempos republicanos, em que os Estados Unidos lhe negaram em 2008 visto de entrada para projetos de repovoamento? Se ele zanzasse livremente de um lado para outro, abriria brechas na fronteira mexicana a todos os migrantes indesejáveis. Como rei, ele perdeu também estatura. Mal chega às costelas do bisavô <em>Panthera atrox, </em>o leão-americano que, pelos fósseis encontrados na Califórnia, passava dos três metros de comprimento e dos 300 quilos de peso. Humilhava o leão africano.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Peles-de-Onça.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1371" title="Peles de Onça" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Peles-de-Onça.jpg" alt="" width="478" height="299" /></a></p>
<p>O <em>Panthera atrox</em> acabou faz tempo, junto com todo o bestiário mastodôntico que a presença humana tirou do mapa americano milênios antes do descobrimento. E foi assim, pela mão do homem e da mudança climática, que começou o reinado do jaguar como maior carnívoro da América, sem adversário na natureza. “Nenhum império humano durou tanto”, lembra Miranda. Ele agora está no fim pela mesma combinação de fatores que promoveu seu coroamento no fim do Pleistoceno – a influência do homem e a do clima.</p>
<p>Para rei, só não lhe faltam os títulos inatos. É um caçador furtivo e eficaz. Seu nome indígena, <em>jaguar</em>, significa “aquele que luta”. Um macho adulto pode andar 50 quilômetros numa noite, medir quase dois metros, sem contar a cauda, pesar cerca de 100 quilos e fazer tudo isso desaparecer na folhagem mais rala, com o contorno de seu corpo borrado pelas manchas da pelagem. Não tem fronteiras, como prova a inexistência de subespécies da <em>Panthera onca, </em>sinal de que andou por aí trocando genes entre os hemisférios enquanto circulou livremente pela América. Nem por isso mereceu até agora um salvo-conduto internacional como o que, mal ou bem, defende do extermínio as baleias.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Vaso-de-Onça.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1372" title="Vaso de Onça" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Vaso-de-Onça.jpg" alt="" width="474" height="296" /></a></p>
<p>Ainda é caçado no Brasil até dentro de parques nacionais, como troféu esportivo, como dono de pele valorizada pelo mercado negro ou como inimigo número 1 da pecuária. Por isso, cada linha de sua história soa desde já a homenagem póstuma. E não deve ser à toa que a segunda parte do livro trata do “Jaguar Mítico” – o que vai ficar, em forma de esculturas pré-colombianas, pinturas rupestres, cerâmicas indígenas, cédulas de 50 reais ou automóvel inglês. Como souvenir da incompetência humana.</p>
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