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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Iguaçu 2010</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Diário de funcionário público</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Jan 2011 18:43:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Serviço Público]]></category>

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		<description><![CDATA[Rotina de funcionário público é a arte de contar as horas que faltam para o fim do expediente. Certo? Errado. Jorge Pegoraro, o chefe do parque nacional do Iguaçu, deu um jeito de esticar os seus dias como fotógrafo de natureza.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Pegoraro-e-Manu_2548.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1412" title="Pegoraro e Manu_2548" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Pegoraro-e-Manu_2548.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p><strong>U</strong>rgente e lacônico, o texto no celular avisa que “as cigarras estão dando sopa”, com a chegada do verão ao parque nacional do Iguaçu. Outro rascunho informa que uma onça-pintada foi vista dias atrás por funcionários da manutenção no quilômetro 26 da estrada que leva os turistas às cataratas. Um recado mais longo conta que “os ninhos de pássaros ao lado da casa 003 foram todos estraçalhados” por “gambá, tucano” ou outro predator “invisível”.</p>
<p>A 003 é a residência oficial do biólogo Jorge Pegoraro, chefe do parque e autor das mensagens. Ele fazia a ronda diária dos ocos e galhos no jardim, desde que a primavera povoou suas árvores de ovos e promessas. Está há quase oito anos no posto. E cada vez mais atraído pelas novidades que cercam seu cotidiano por todos os lados. Meses atrás, comprou uma máquina fotográfica. Passou a registrar seu dia-a-dia com a sofreguidão de quem pos as mãos em brinquedo novo e o conhecimento de causa de quem vê aquilo tudo sistematicamente, por dever profissional.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Socó_1618.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1413" title="Socó_1618" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Socó_1618.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>O dia-a-dia pode ser inexaurível, quando se tem sob sua jurisdição uma floresta de 185 mil hectares. Em poucas semanas de fotografia, Pegoraro tinha juntado uma fartura de imagens. No fim do ano passado, por exemplo, fez “um bonito (eu acho) jacaré (pequeno) no rio Iguaçu, numa volta de barco próxima à ilha dos Papagaios”.</p>
<p>Com as tardes alongadas pelo horário de verão, a cada fim de expediente, se a chuva deixar, ele pega o equipamento, atravessa em longos círculos o jardim e cai nas trilhas que fazem de sua casa um entrocamento de pegadas. Cruzam por ali rastros de catetos, de cutias, de cachorros-vinagre, de veados mateiros e de onças. Só com os pássaros que frequentam sua clareira daria para fazer um guia quase completo das aves do Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Flor-1109.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1414" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Flor-1109" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Flor-1109.jpg" alt="" width="250" height="363" /></a>Só volta depois que a noite cai. Usa uma Rebel T1, a reflex digital mais modesta da Canon. Contenta-se com lentes básicas. Passou batido pelo labirinto técnico dos manuais. Mas tem olho clínico, capaz de identificar na penumbra animais que parecem sombras e ver silhuetas onde aparentemente só há manchas escuras. Com esses trunfos, e a prerrogativa de morar no parque nacional, virou fotógrafo de natureza do dia para a noite. Foi a última virada de uma carreira que, sempre que entorta, aponta mais para o mato.  Ele nasceu em Curitiba, formou-se por lá em Biologia quando o diploma servia quase exclusivamente para dar aulas em sala e entrou para o serviço público, por concurso, via Sudepe. A superintendência da pesca deu-lhe o primeiro emprego no porto de Paranaguá, o extremo oposto do Iguaçu.</p>
<p>Chegou ao Oeste do Paraná em 1989, depois que a criação do Ibama fundiu as autarquias que tratavam de recursos naturais no governo. Pegoraro foi realocado no escritório do Ibama em Cascavel, quando as serrarias já haviam raspado os últimos retalhos de mato no município. Mas o escritório continuava expedindo licenças de desmantamento para as cidades retardatárias cuidarem das sobras.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Gralha_1047.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1415" title="Gralha_1047" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Gralha_1047.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>Ele não levou muito tempo para se convencer de que toda aquela região gravitava, em saber, em torno do parque nacional, cuja floresta é o maior investimento que os colonos conseguiram fazer na economia da região. Basta ver os dados oficiais sobre a economia de Foz do Iguaçu, a maior cidade da vizinhança. O turismo é, de longe, sua maior fonte de ocupação e renda. A &#8220;produção de energia&#8221; &#8211; ou seja, o produto da Itaipu Binacional, a maior hidrelétrica do mundo &#8211; vem em segundo lugar.</p>
<p>Jorge Pegoraro aproximou-se muito do parque na queda-de-braço com políticos locais, quando eles transformaram em questão de honra manter aberta <a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Lua-no-Salto-Floriano_07201.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1419" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Lua no Salto Floriano_0720" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Lua-no-Salto-Floriano_07201.jpg" alt="" width="312" height="454" /></a>a Estrada do Colono. Teve que defender a integridade da floresta contra os pontos de vista até de superiores hierárquicos, dispostos a entregar os pontos.</p>
<p>Acabou nomeado para dirigi-lo, em 1º de abril de 2003. Tem uma rotina complicada que inclui intermináveis reuniões para aparar as arestas e cauterizar os ressentimentos que sobraram da disputa. Encara frequentemente longas horas em viagens ao redor do parque, para manter a conversa em dia com quem mora no lado oposto ao da sede, a 200 quilômetros de distância. E discussões que quase sempre voltam ao ponto de partida. Pegoraro oferece projetos de parceria em turismo ecológico. E ouve pedidos de licença para a pesca esportiva nos rios da reserva.</p>
<p>Ele não abre mão de &#8220;saber tudo o que acontece&#8221; lá dentro, ouvindo mateiros, técnicos, guardas e operadores turísticos. Mas se considera até hoje incapaz de conhecer o parque como se deve &#8211; ou seja, “a fundo” . Seguir a rotina desse funcionário público entre o gabinete e a trilha revoga tudo o que se ouve falar por aí sobre preguiça burocrática.</p>
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		<title>A história de Manu, último capítulo</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/28/a-historia-de-manu-ultimo-capitulo/</link>
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		<pubDate>Tue, 28 Dec 2010 14:48:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Durou 55 dias a vida de Manu, o filhote de veado mateiro que foi achado em outubro no parque nacional do Iguaçu, ferido e desgarrado da mãe. Dias atrás, foi atacada por uma jaguatirica. Morreu no mato, o lugar certo. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2090.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1384" title="Manu_2090" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2090.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>M</strong>anu morreu. Teve uma vida breve a corça recém-nascida, encontrada em outubro no parque nacional do Iguaçu. Estava, na ocasião, levemente ferida e prematuramente separada da mãe por um predador frustrado – supostamente, uma irara. Em 17 de dezembro, uma jaguatirica atacou-a durante a noite, num ataque rápido e conclusivo.</p>
<p>Ela durou 55 dias. Mas deixou no parque uma extensa biografia, com seus passos documentados por fotografias, filmes e notas. Era um tema irresistível para quem a visitou na casa dos biólogos Marina Xavier da Silva e Alexandre Vogliotti, um lugar ermo, junto à usina hidrelétrica do rio São João, hoje sem máquinas e com ares de ruína. O endereço certo para quem prefere viver no mato, e quanto mais no mato melhor.</p>
<p>A casa fica na floresta que margeia o rio Iguaçu. Não tem vizinhos próximos. É o último lugar habitado da estrada de pedras brutas, estreita e sem acostamento, que desce da sede administrativa e termina, logo depois, numa pequena praia. É caminho de bicho e gente. Mais bicho do que gente.</p>
<p>Recolhida com dois diasde idade, Manu ganhou o nome de uma sobrinha de Vogliotti, que chegou ao parque como pesquisador de cervídeos e agora integra a equipe do projeto Carnívoros do Iguaçu, capitaneado por Marina Xavier da Silva, sua mulher. Ele passou do estudo das presas à intimidade com os predadores. E Manu se instalou bem no meio dessa encruzilhada vocacional.</p>
<p>O filhote passou as primeiras semanas num quarto da casa. Dormia em caixa de papelão, onde cabia de sobra. Mamava duas vezes por dia. Passava o dia num cercado, na sede do parque, acompanhando o casal durante o expediente. Todo fim de tarde, gastava as energias no quintal, aos saltos. Até que atravessou ao anoitecer o portão invariavelmente escancarado, embrenhou-se na floresta a poucos passos de casa e passou a dormir fora, como convem a um filhote de <em>Mazama americana. </em></p>
<p>Mas <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/11/14/quem-nasce-manu-nao-vira-bambi/">essa história já foi contada aqui</a>. A novidade veio dias atrás, num e-mail de Marina Silva que ensina, em poucos parágrafos e com muitos pontos de exclamação, um biólogo de campo a conciliar dever com sentimento. Começa informando que, “infelizmente”, naquela madrugada, “para nosso completo desespero, uma jaguatirica atacou” Manu.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/ManuMorta.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1385" title="ManuMorta" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/ManuMorta.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>Para que ninguém estranhe esse “infelizmente” e o “desespero”, é bom não perder de vista que se tratava de um animal que passara de doméstico em outubro para selvagem em novembro, sem deixar o convívio do casal. “Ela crescia linda”,  “continuava com suas brincadeiras vespertinas” e, naquela noite, “havia escolhido para dormir um lugar bem perto de casa”. E assim eles a ouviram  “berrar desesperadamente no momento do ataque”.</p>
<p>“Corremos, gritamos por ela, mas a jaguatirica foi rápida e precisa!” Expor-se aos riscos da vida silvestre, lembra Marina, fora “escolha nossa e dela”. Senão, teriam salvo uma corça incapaz de sobreviver no mato. Logo, destinada ao confinamento num zoológico, por falta de traquejo em seu habitat. “Foi duro ouvi-la berrar”. Mas “a natureza é dura mesmo”. E eles dois estão no Iguaçu a trabalho.</p>
<p>Meia hora depois de ouvir o berro, Vogliotti encontrou a carcaça de Manu “na borda da mata”. O casal suspeitou de cara que aquilo era obra de jaguatirica. E não podia dormir sem testar a suposição. Morta, Manu era isca. Armaram uma armadilha fotográfica perto do corpo. E a máquina flagrou o autor de volta à cena do crime. Era mesmo jaguatirica. “Um macho grande, cumprindo exatamente seu papel de predador”, comenta Marina em sua mensagem.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_21693.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1389" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Manu_2169" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_21693.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>Dito isso, na frase seguinte ela exclama: “MALDITO!! Podia ao menos ser uma onça-pintada”. Onça-pintada, sim, é uma espécie cada vez mais rara no parque. Depois de uma temporada de visibilidade até excessiva em meados de 2010, quando todo nmundo parecia topar com ela, sumiu de uma hora para outra, driblando há meses os esforços dos pesquisadores que buscam por todo canto sinais de sua presença. Só neste fiunalzinho de dezembro deu o ar de sua graça, avistado por um funcionário da concessionária que explora o tutrismo nas Cataratas. Estava no quilômetro 26 da BR-469.</p>
<p>Restaram de Manu histórias e imagens. Vogliotti, “mesmo tendo uma boa experiência com os cervídeos”, admite que se surpreendeu “com o nível de interação que ela estabelecia conosco”, em “lutinhas, correrias, expedições pela mata, o rio Iguaçu e a cachoreira do São João”. Vogliotti acabou se convencendo de que Manu parecia “realmente se divertir nessas atividades”.</p>
<p>Ele pretendia estudar o processo de reintegração de Manu ao Iguaçu. Ela “continuava firme no objetivo de viver na mata”, ele escreve. “Ia lentamente ampliando seus horizontes. Revezava seus repousos/pernoites entre uns tres ou quatro sítios diferentes, que iam até perto da usina do São João, acima ou abaixo da trilha. Alguns eu nunca consegui localizar exatamente”.</p>
<p>Andava cada vez mais independente. “Pela manhã, ela atendia prontamente ao nosso chamado”, conta Vogliotti. “Mas, no fim da tarde, demorava mais a nos procurar e ficava um bom tempo consumindo brotos e folhas diversas, aqui e ali. Não cheguei a catalogar todas as plantas que ela vinha provando, mas sei de tres espécias, ainda não identificadas, pelas quais tinha predileção considerável”.</p>
<p>Às vezes, ele e Marina tinham que buscar Manu no mato “para mamar em tempo hábil”. E houve uma tarde em que desistiram de esperá-la. “Apareceu na tarde do dia seguinte, faminta, exigindo sua mamadeira aos berros (gravados pela Marina} e dando cabeçadas em quem quer que aparecesse à sua frente. Mamou um litro e meio em sequência”.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2538.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1398" title="Manu_2538" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2538.jpg" alt="" width="409" height="273" /></a></p>
<p>Tomava leite “de caixinha”, reforçado com “ração de gato moída”. Não se adaptou a “um sucedâneo comercial para bezerros”, que lhe provocou uma semana de diarréia – um indício do que esses bezerros desmamados andam engolindo por aí. A não ser por “breves lambidas” para saciar a curiosidade, Manu jamais bebeu água, “apesar de sempre demonstrar uma grande atração por ela. Quando íamos aos rios, ela sempre entrava na água até a altura da barriga”.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Costumava lambrer-lhes os braços. “Pensávamos que fosse pelo sal”, quase sempre deficitário na dieta da floresta. “Conseguimos um pouco de sal mineral (de uso pecuário) na intenção de suprir esses nutrientes, mas não teve o efeito esperado”. Ela provava a novidade e nem por isso deixava de lambê-los, talvez mais por “ interação social” que por necessidade “nutricional”. Lambia também a cabeça de Vogliotti. “E passava um bom tempo assim, se eu permitisse”.</p>
<p>O diário de Manu mal estava começando. E ficará para sempre incompleto. “Agora os fins de tarde custam muito a passar para a gente”, conclui Marina. Resta ao casal o consolo “de ver o parque funcionando”. Ou seja, com predadores e presas, como mandam os preceitos da conservação ambiental. “Mas podia não ser com a Manuzinha, não é mesmo???!!!”</p>
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		<title>Quem nasce Manu não vira Bambi</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Nov 2010 18:29:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Manu, uma corça encontrada no parque do Iguaçu com dois dias de idade, depois de atacada por um predador, resolveu aprender sozinha a viver no mato. E o os biólogos que a adotaram só podem lhe dar apoio. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2125.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1314" title="_MG_2125" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2125.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p><strong>P</strong>ara fazer em documentário o que Bambi fez em desenho animado, Manuela só falta falar. O resto das credenciais para lhe tomar o papel ela tem de sobra. Desde a pelagem cor de ferrugem, salpicada de manchas claras, que pode ser feita para disfarçar sua presença entre folhas secas, mas brilha nas telas como enxoval de lamê. Até a orfandade. Em seu caso, por sinal, mais precoce que a de Bambi.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2144.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1315" title="_MG_2144" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2144.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Mas falar ela não fala. E só por isso Bambi não precisa temer a concorrência. No reino dos animais lacrimogêneos, ele continua imbatível. Manuela – ou melhor, Manu – é só uma corça. Um filhote ao mesmo tempo frágil e rústico de veado mateiro, ou <em>Mazama americana</em>. Está agora no segundo mes de vida.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2176.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1316" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="_MG_2176" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2176.jpg" alt="" width="273" height="409" /></a>Ela trazia ainda na barriga um  fiapo seco de umbigo, que cai no máximo em tres dias, quando foi achada em 25 de outubro por guias turísticos. Presume-se, pelo umbigo, que tivesse dois dias de idade, no máximo. Estava ferida, com sinais de que andara roçando a goela de um predador. Talvez uma irara, que lhe deixara duas marcas de dentes. Mas nenhuma cicatriz nem ferida mais profunda.</p>
<p>Ela apareceu sozinha em local meio habitado, perto da oficina que aluga bicicletas para as pedaladas do Macuco Safari até o Poço Preto. Da oficina ao Poço Preto são quase dez quilômetros de floresta, por um caminho de terra que os anos vão estreitando, em vez de alargar. O caminho passa no verão sob um túnel praticamente contínuo de copas altas, bromélias, cipós e lianas. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/01/18/no-caminho-do-poco-preto/">No outro extremo, parece atualmente ermo e remoto.</a></p>
<p>Mas não foi sempre assim. Há fotografias da década de 1920 em que o Poço Preto serve de pátio a carros de passeio, com vastas grades cromadas e pneus de banda branca. Saídos dos porta-malas, motores de popa e galões de combustível anunciam a intenção de vencer as corredeiras do rio Iguaçu, logo acima das Cataratas. Era uma fase em que os domingos das Cataratas eram de muita festa para poucos.</p>
<p>Trechos do caminho costeavam cercas de arame farpado. Um promotor tinha casa de<a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2241.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1317" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="_MG_2241" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2241.jpg" alt="" width="273" height="409" /></a> campo na beira do rio, onde atualmente só existe um caramanchão de madeira com teto de sapé e um ancoradouro flutuante. Uma placa informa que as instalações de apoio ao turismo na trilha tiveram que se ajustar à constatação de que o lugar é sítio arqueológico, com restos de cerâmica indígina. Mas até hoje resistem de pé nas suas margens postes de concreto, que o musgo camuflou entre os troncos nativos. Dizem que as cutias acabaram tomando gosto por essas tocas sextavadas.</p>
<p>Melhor para elas. Parque nacional não é só natureza intata, muito menos imutável. Também é lugar aonde se vai para voltar no tempo e, com sorte ou boa administração, ver antigos erros ficarem para trás. Há trinta e tantos anos, quando naquelas terras do governo moravam mais de 400 pessoas, havia fazendas de gado e o hotel das Cataratas mantinha um pequeno zoológico no gramado, Manuela dificilmente escaparia de uma jaula – ou até da grelha. Havia caçador vendendo carne de veado na estrada das Cataratas.</p>
<p>Isso mudou. Há outro tipo de gente em atividade lá dentro. Os guias que encontraram a pequena corça ferida confiaram Manu em regime de urgência a estagiários do Carnívoros do Iguaçu, que fazem o recenseamento dos grandes predadores do parque. E o que tem pesquisadores de carnívoros a ver com corça ferida? Tudo. São biólogos. Voluntários da conversação.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2283.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1318" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="_MG_2283" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2283.jpg" alt="" width="289" height="409" /></a><a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/04/21/766/">Os coordenadores do projeto Carnívoros</a>, além de formar o núcleo da equipe, formam um casal acostumado a ter hóspedes em casa das mais variadas espécies. Eles cruzaram o caminho das onças vindos de direções opostas. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/05/15/a-primeira-onca-pintada-de-marina/">A bióloga Marina Xavier da Silva se instalou no parque há mais de seis anos</a>, para trabalhar com proteção da fauna por uma ONG que mal conseguia salvar a si mesma da extinção. O biólogo Alexandre Vogliotti chegou ao Iguaçu, seguindo os rastros de sua tese de doutorado sobre cervídeos.</p>
<p>Acabaram juntos em tudo &#8211; casa, esccritório e mato. Cuidam do Carnívoros e de Manu com se tudo isso fosse, como é, uma coisa só. De quebra, a corça caiu nas mãos de um especialista em cervídeos. O nome Manu, aliás, homenageia uma sobrinha de Vogliotti, que mora no Acre e tem dois anos de idade.</p>
<p>A corça passou lepidamente pela convalescença, num quarto da casa onde eles moram, no meio do mato, sem vizinho próximo, beirando o rio Iguaçu. Nos primeiros dias, quando Marina e Alexandre saíam para trabalhar, ela ia junto. Ocupava durante o dia um cercado na sede do parque. A administração parava para para visitá-la.</p>
<p>Terminado o expediente, a família voltava para casa, às vezes pela picada, Manu seguindo seus passos. Em casa, ela espalhava aos saltos pelo jardim, esticando os . s músculos. Nessas ocasiões, ensaiava escapulir pelo portão, sempre escancarado. A floresta estava bem ali, a poucos passos, chamando.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2290.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1319" title="_MG_2290" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_2290.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Há semanas, Manu saiu no fim da tarde e não reapareceu para dormir. Tinha mudado de endereço. Mora agora perto do casal. Mas fora de suas cercas. Na noite em que escapou, Marina achou-a alojada na folhagem, junto à velha estrada com calçamento de pedra bruta que desce da administração até a margem do rio Iguaçu. Tudo por sua conta e risco, como manda o figurino dos filhotes de <em>Mazama americana.</em></p>
<p>Desde então, Manu visita duas vezes por dia a casa de Marina e Alexandre. Vai em busca de suas doses diárias de mamadeira, consumindo em média um litro e meio de leite de vaca, enriquecido com ração para gatos recém-nascidos. Cada vez mais, mistura essa dieta com folhas que vai aprendendo sozinha a escolher no mato. Uma vez alimentada, brinca com os pais adotivos. E ao acair da noite sai em busca de sua própria vida.</p>
<p>Antes de tomar esse rumo, ela estava mais ou menos condenada a passar o resto da vida em cativeiro, tão logo ultrapassasse a fase do desmame. Parecia impossível readaptar à floresta uma corça que se desligara tão cedo da mãe. Mas ela pelo visto tem outras planos. E sua reinserção na vida silvestre começa a virar mais um tema de estudos no caderno de Vogliotti.</p>
<p>Onde tudo isso vai dar nem ele sabe. Não é roteirista de desenho animado para fabricar um final feliz para seu personagem. Manu optou pelo risco. Os pais adotivos não tiveram outra escolha além de apoiá-la nessa escolha instintiva. Em parque nacional ninguém é dono de nada. Muito menos das vidas que salva.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_20911.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1321" title="_MG_2091" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/MG_20911.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
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		<title>A hora e a vez do Steindachneridion</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/11/09/steindachneridion-scriptum-sai-da-sombra/</link>
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		<pubDate>Tue, 09 Nov 2010 16:15:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Pesquisa de campo]]></category>

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		<description><![CDATA[Às vésperas de fazer 72 anos, o Iguaçu ganha sua primeira pesqiuisa de icitiofauna logo abaixo das  cataratas e descobre, logo na primeira rodada de estudos, que é parque nacional também debaixo d'água.  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/Steindachneridion-scripta_0656.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1302" title="Steindachneridion scripta_0656" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/11/Steindachneridion-scripta_0656.jpg" alt="" width="409" height="273" /></a></p>
<p><strong>O</strong> nome científico já soa quase como um aviso de que o assunto é sério. O bicho se chama <em>Steindachneridion scriptum</em>.  É um surubim. Seria mais conhecido por Bocudo, se décadas de invisibiliidade não o tivessem reduzido ultimamente à espécie universal dos ilustres desconhecidos, mesmo  entre os pescadores mais tarimbados do rio Iguaçu, que mal se lembram de quantas vezes toparam com ele nas águas escuras do rio lá vão duas ou três décadas.</p>
<p>Mas <em>Steindachneridion scriptum</em> continuou firme nos guias de campo argentinos &#8211; onde consta, por sinal, como <em>scripta</em> &#8211; como se estivesse só esperando a hora de voltar. Lá, é descrito como um bagre manchado, medindo cerca de 80 centímetros. E caiu dias atrás na rede de pesquisadores da ictiofauna, o primeiro censo da fauna aquática de que se tem notícia debaixo das Cataratas, que supostamente dividem o mundo dos peixes no Iguaçu com uma sólida fronteira de basalto a prumo.</p>
<p>Agora os especialistas estão descobrindo que não é bem assim que as coisas rolam nas corredeiras onde o Iguaçu percorre seu último trecho, para desaguar  no rio Paraná. Aparentemente, durante toddo esse tempo de sumiçoo o <em>Steindachneridion scriptum </em>esteve ali, atrás de de uma das paisagens mais vistas e revisitadas do mundo.</p>
<p>Só nas últimas enchentes humanas, mais de 12 mil pessoas se debruçaram em suas corredeiras a cada domingo de feriadão, enquanto o parque acumula seus um recordes de bileheteria. Todo mundo nos mirantes. E o <em>Steindachneridion scriptum </em>logo abaixo,<em> </em><em> </em>nadando incógnito.</p>
<p>Havia indícios de que sua sombra na lembrança das famílias que, ainda na década de 1960, embora o parque já estivesse decretado havia mais de 30 anos antes, compraram no mercado local de grilagem terras devidamente tituladas dentro da unidade de conservação do governo federal. Era gente que, nas horas vagas, caçava e pescava, sem que se pudesse chamar sua atividade de furtiva. Assim como ostensivamente, nos dias úteis, ela se esforçava para empurrar pasra longe a floresta protegida, atirando-a na goela das serrarias.</p>
<p>Eram colonos. Faziam essas coisas com a olena convicção de estarem certos.Estavam ali para derrubar o mato e  levar à última barranca possível a vocação agrícola da economia paranaense. Era gente tão ciosa desses direitos que, fotografando-se em antividade, guardou para a posteridade flagrantes de um Iguaçu mais piscoso e opulento do que, nos últimos tempos, ele ganhou fama de ser. Numa dessas lembranças de família aparece um peixe grande. Fala-se dele como relíquia do velho Iguaçu, quando até o quartel da fronteira comparava peixes tirados do parque nacional para reforçar a bóia dos soldados.  A pesca artesanal e a esportiva em seus remansos eram risonha e franca.</p>
<p>Tres núcleos coloniais de cidades, quase quatro, fincaram no parque raízes que pareceram definitivas. Tinham escola estadual, linha de ônibus e luz elétrica, sem esquecer o papel tirado em cartório, comprovando a legítima propriedade da terra grilada. Nos anos 70 foram despejados dali. Os ex-moradores levaram em suas álbuns de família a tal foto do que parece um bagre corpulento e escuro, carregado com certa dificuldade nos braços de moradores. Mal saíra da água e já era um tratado troféu.</p>
<p>Há dúvidas sobre a classificação exata do peixe que se vê na fotografia. Não estava em voga no vilarejo de Santo Alberto o nome <em>Steindachneridion scriptum, </em>por sinal ilustre, herdado do naturalista Franz Steindachtner que, no século XIX , batizou o primeiro surubim e acabou imortanilzado pelo gênero inteiro.</p>
<p>O exemplar achado no cânion do Iguaçu deu sorte.  Foi devolvido ao rio na mesma noite, praticamente intato, a nâo por duas ou três escamas e um naco de gordura peitoral, que um dia talvez sirva para tirar a espécie da extinção em laboratórios de genética. Isso a lomgo prazo. A curto prazo, o primeiro efeito desse achado foi instantaneo.</p>
<p>Assim que o reconheceram, os pesquisadores Maristella e Sérgio Makrakis, da Unioeste, a universidade estadual da fronteira Paranaense, descbriram também o local da pesquisa como um território novo e paradoxalmente desconhecido, que há pelo menos 72 anos aguardava uma investiogação sistemática do que tem de importante o Iguaçu no trecho que passa entre parques nacionais, para ganha  o atestado de que o rio também integra as unidades de conservação.</p>
<p>O melhor é que o <em>Steindachneridion scriptum </em>deu o ar de sua graça logo na primeira semana, para animnar os trabalhos iniciados em outubro e previstos para durar dois anos. A próxima visita será no fim deste mes, depois de mais um feriadão. Se vier com mais novidades do mesmo calibre, há esperanças para os administradores do parque que os argumentos científicos silenciem a campanha para promover a pesca turística dentro do cânion, entre as quedas e a foz do Iguaçu.</p>
<p>Maristella e Sérgio Makrakis são o mesmo tempo uma equipe e um casal, como acontece tantas vezes num ofício que envolve longas viagens, convivência próxima em local isolado e o gosto comum por meter a mão onde nem todo mundo poria sequer a ponta dos dedos</p>
<p>Estão há mais seis meses recenseando os peixes do Iguaçu, acima das Cataratas, para avaliar os impactos de mais uma hidrelétrica, a quinta a represar o rio. Na parte superior do rio, Maristella e Sérgio coletaram amostras de 60 espécies diferentes. E não tem dúvidas de que passarão das 80 espécies estimadas para a população aquática do Iguaçu. Na margem direita do parque, constataram que o Floriano, o único rio do Sufdeste que corre num parque nacional da nascente à foz, é inquestionavelmente mais vivo do que os outros.  As redes montadas para amostragem em sua desembocadura vinham tão carregadas, que levava  até seis horas o trabalho de revistadas. Em média, issoé tarefa para meia hora.</p>
<p>Antes de chegar às quedas, o Iguaçu passa por quatro grandes comportas que regulam, entre outras coisas, o volume de sua água – e, portanto, o número e a beleza das cachoeiras – com uma agenda oposta à dos turistas. Quando o consumo de energia cresce, as comportas se abrem, a água corre solta e os visitantes que dão a sorte de estar diante delas num dia de trabalho pesado são premiados por cheias instantâneas e artificiais. Nos dias de repouso, quando o consumo de paisagem aumenta e o de eletricidade cai, ocorre o oposto.</p>
<p>Nada ali é natureza intata. Por isso mesmo cada descoberta mais ou menos rara ou inesperada como a do <em>Steindachneridion scriptum</em> dá trunfos à política de conservação.  “As pessoas não sabem a importância que essas coisas têm”, conclui Sérgio Makralis, que não é dado a arroubos retóricos e só enche a boca para soletrar, ao telefone, com a ajuda de Maristella ns sílabas mais arrevezadas,</p>
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		<title>Quilombola, mas só nas horas vagas</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/10/16/mateiro-por-oficio-quilombola-por-acaso/</link>
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		<pubDate>Sat, 16 Oct 2010 21:48:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Populações Tradicionais]]></category>
		<category><![CDATA[Turismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Guia de ecoturismo num fundo do parque nacional que quase ninguém visita e quilombola por obra e graça de uma largueza do governo, Almiro Marcelino Pereira administra sozinho um tesouro turístico que o Brasil ignora. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Miro_9539.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1268" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Miro_9539" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Miro_9539.jpg" alt="" width="277" height="410" /></a>A</strong>s perneiras de couro, contra picadas de cobra, são inseparáveis do ritual de ingresso na Linha Martins. Mas vêm do estoque cheirando a mofo, apesar da discreta espanada que lhes deu o guia, antes de entregá-las. E não adianta dizer que sabe andar no mato, não tem medo de cobra ou faz calor. É a norma, Miro responde.</p>
<p>Ele se chama Almiro Marcelino Pereira. Mas, como avisou de véspera, pelo celular que não faz, só recebe chamadas, não adianta procurá-lo por esse nome nos confins do parque nacional com o município de São Miguel do Iguaçu, onde uma estrada de terra magra como um aceiro costeia a floresta e a soja. “Aqui, todo mundo só conhece o Miro”.</p>
<p>A divisa do parque com o município é um corte reto, traçado a máquina. E tão estreito, que a sombra das copas à tarde se projeta na margem das plantações. Nos dias mais quentes, é seu único anteparo contra o sol que cai sobre os campos como uma praga dos céus. Aprender o apelido é indispensável porque sem Miro não se vai à Linha Martins.</p>
<p>Também não adianta procurá-lo diretamente no portão de entrada, porque ali ele vai pouco. É um escritório caprichado, feito pela Macuco Safari com toras de eucalipto. Tem pórtico na frente, varanda nos fundos, virada para floresta, e até enfermaria. Mas turista é o que Miro menos vê na Linha Martins, desde que passou a operá-la lá vão mais de cinco anos.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Linha-Martins_9563.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1269" title="Linha Martins_9563" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Linha-Martins_9563.jpg" alt="" width="403" height="269" /></a></p>
<p>Onça, sim, é visita que não lhe falta. Cada avistamento de onça, pintada ou não, está metodicamente inscrito, com dia, hora e local, na planilha da administração. O resto da fauna não merece tamanha consideração. Miro perdeu a conta das varas de porcos do mato, dos bandos de macacos, das antas e das jaguatiricas com que topou em suas andanças, capinando regularmente uma trilha que, por falta de uso, está sob o risco permanente de invasão pelo mato.</p>
<p>A prática tirou-lhe o pavor que tinha das jararacas, cascavéis e outras serpentes que lhe atravessam habitualmente o caminho. Mas as perneiras continuam sagradas. Miro nasceu em Minas Gerais. Seus pais se mudaram para o Paraná quando ele tinha um ano de idade. Morou em outros lugares. Mas cresceu bem atrás do parque, sem nunca pisar lá dentro. Trabalhava na lavoura, quando achava serviço. O mato não o atraía. Ao contrário, metia-lhe medo, com suas histórias de bichos brabos.</p>
<p>Ele se criou num antigo fundo de fazenda, loteado pelos herdeiros em pequenos sítios de um alqueire. A maioria dos lotes foi comprada por negros.  São menos de 30 pessoas, ao todo. Poucas, mas o bastante para, em terra de louros descendentes de imigrantes alemães, italianos ou poloneses, fundarem ali sem querer um lugar conhecido localmente como a &#8220;Vila dos Pretos&#8221;.</p>
<p>Como Vila dos Pretos, uma comissão de Curitiva reconheceu-a como Comunidade Quilombola da Sanga Funda. Com o título vieram promessas de mais terras, sementes gratuitas e outras prerrogativas oficiais de quilombo. Nem tudo saiu. Masw Miro não deprecia as vantagens de virar quilombola. “As pessoas assim nos tratam com mais consideração”, ele garante.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Linha-Martins_9559.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1270" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Linha Martins_9559" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Linha-Martins_9559.jpg" alt="" width="299" height="448" /></a></p>
<p>A picada corta o parque de um lado a outro, em menos de quatro quilômetros, a menor distância entre seus limites. Já se pensou em extirpar essa verruga florestal da unidade de conservação, encravada como está numa fronteira agrícola sempre em avanço. A demarcação definitiva preservou-a. E a Linha Martins foi uma compensação, para calar as críticas de que o parque fica de costas para quem mora longe de seus portões.</p>
<p>Nisso, fracassou. Ela recebe raros visitantes. E da vizinhança, até hoje, não veio ninguém. Só o prefeito de São Miguel do Iguaçu passou por lá na inauguração, sem parar para ver o que havia além do pórtico. Miro, no entanto, mantem a picada pronta para o que der e vier, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/10/12/um-recorde-historico-atras-do-outro/">desde que foi convocado pelo dono da Macuco, Ademir dos Santos</a>, em termos peremptórios: &#8220;Você vai trabalhar comigo&#8221;. Miro estava desempregado. E acabara de ouvir de um mendigo que receberia uma proposta. Aceitou-a.</p>
<p>Ele aplica ao pé da letra o regulamento para a recepção de grupos, mesmo se atende um visitante desgarrado que lhe sugere, à falta de testemunhas, esquecer aquela história de calçar perneiras. É um mateiro cioso e tarimbado, que aprendeu a gostar de mato na Linha Martins. Mas vive num país que só consegue enxergá-lo como quilombola.</p>
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		<title>Recordes de visitação em série</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Oct 2010 22:49:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Mudança Climática]]></category>
		<category><![CDATA[Turismo]]></category>

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		<description><![CDATA[O parque enfrentou esta semana dois testes de resistência a pressões sempre crescentes. Passou por lá um furacão da pesada, abrindo clareiras na mata, e um feriadão que empurrou mais de 29 mil pessoas por seus portões adentro. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Ronaldo_3852-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1258" title="Ronaldo_3852 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Ronaldo_3852-copy.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>U</strong>fa! O parque nacional do Iguaçu passou por uma semana de testes. Uma tromba d’água lambeu-o furiosamente na madrugada de quinta-feira. Foi anunciada à tarde pelo rádio como um autêntico tornado. Veio uma espécie de ciclone tropical, que despejou boa parte de sua fúria na Argentina, onde passou primeiro. Invadiu o Brasil no meio da noite, roncando a 95 quilômetros por hora.</p>
<p>Os vendavais fazem parte da história da região e do parque nacional. Mas estão ficando, a cada ano, mais comuns e mais fortes. Caíram, do lado de cá, as vítimas de sempre – árvores, ninhos, orquídeas, bromélias e, como não poderia deixar de ser, a energia elétrica. A devastação florestal abriu um lanho impressionante na floresta, à beira da BR-469, na altura do quilômetro 29. Ali onde as copas mais altas e a vegetação rasteira formavam dias atrás uma parede vegetal praticamente opaca, agora se vêem nacos de céu e nuvens através da mata rala, como se tivesse passado por ali um gigantesco trator de esteira, trabalhando no atacado pela devastação.</p>
<p>O tamanho exato da cicatriz aberta pela ventania ainda não foi avaliado. Mas a eletricidade voltou ao parque nacional do Iguaçu em poucas horas, antes mesmo do amanhecer. E até que a quinta-feira começou, pelo menos sob o ponto de vista dos pássaros, como um dia típico de primavera, inundado de cantos nupciais.</p>
<p>Mas vinha outro vendaval pelo caminho. Dessa vez, um vendaval humano. Ou turístico. Alinharam-se nesse feriadão de outubro festas religiosas, cívicas e pagãs, além de nacionais e continentais, com potência de sobra para jogar em seus portões pelo menos 29 mil pessoas. A previsão dos administradores do parque e dos operadores de turismo era uma enxurrada de 25 mil turistas. Ambos erraram bastante. E erraram para menos.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Hidrobus_2044.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1259" title="Hidrobus_2044" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Hidrobus_2044.jpg" alt="" width="394" height="242" /></a></p>
<p>Só no domingo vieram 12.400 pessoas. Não chegou a ser s um recorde histórico de bilheteria, que continua, por uma diferenta de mais de 100 ingressos, com novembro do ano passado. Mas esses recordes de público estão durando cada vez menos no parque. São quebrados com freqüencia crescente, como a dos grandes temporais. E 2010 tem sido um ano de parque cheio, a começar pela média de cinco mil visitas diárias,  registradas nas férias do verão passado. Tende a fechar dezembro na marca de 1 milhão e 200 mil visitantes. Se não ultrapassá-la. A cidade de Foz do Iguaçu, que vive principalmente do turismo, aposta em 1 milhão e 300 mil.</p>
<p>É um número ambíguo, que aponta ao mesmo tempo para a popularidade internacional das cataratas e a fragilidade do parque nacional como reserva natural. Seus planos de manejo, os relatórios dos pesquisadores, até os guias de fauna ou flora e os dossiês da Unesco, que reavaliam periodicamente seus trunfos como sítio do patrimônio natural da humanidade, torcem os narizes para essa multidão cada vez maior, zanzando lá dentro. Já havia essa tendência a tratar os recordes como problemas em 1979, quando a conta bateu em 712.327 pessoas.</p>
<p>Não podendo barrar a maré turística, o remédio prescrito na ocasião foi tentar espalhar ao máximo os visitantes, oferecendo-lhes como opção programas menos batidos. Senão, eles marcham em filas compactas pela trilha das Cataratas. Deixam para trás, na pressa ou na falta de tempo para entender que aquele ambiente superlotado é, apesar de tudo, natural, garrafas PET, latas de refrigerante e invólucros de lanches rápidos pelo quilômetro e meio do trajeto.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Corticeira_2061.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1260" title="Corticeira_2061" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Corticeira_2061.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p>Um dos desvios que vieram para atender esse chamado é o Macuco Safari. Com nome de ave esquiva e sobrenome que ainda ressoa a caçadas afrucanas, a empresa movimenta, só no parque, sete barcos como motores de popa menos poluentes, dois botes de <em>rafting</em>, nove carros elétricos, jipes Willys, que são autênticas relíquias da indústria automobilística brasileira, convertidos com tecnologia própria ao consumo de etanol. Há na frota do Macuco até um jipe Willys experimental, de motor elétrico.</p>
<p>A maior parte desse equipamento nasceu ou renasceu na oficina que a Macuco mantem em Porto Meira. Seus botes de <em>rafting </em>se inspiraram, à moda oriental, nos Zodiacs franceses. Em outras palavras, copiaram-nos. Mas, ao copiá-los, tornaram as imitações irreconhecíveis. Até a liga da câmera de borracha com náilon resistente foi inventada em casa. E seu sistema de blindagem para diariamente há mais de dez anos pelo grande laboratório de testes que são nas corredeiras do rio Iguaçu.</p>
<p>Sua operação, só no parque, eenvolve mais de 60 funcionários, entre motoristas, barqueiros, guias e monitores. A equipe inclui uma bióloga residente. E conta ultimamente com um candidato ornitólogo, que treina para a especialização acadêmica levando grupos de forasteiros para conhecer a mata. O Macuco também contrata com freqüência caçadores clandestinos e ladrões de palmito, porque eles conhecem a floresta melhor do que ninguém e, trocando de lado, passam a defendê-la.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Socó_2126.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1261" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Socó_2126" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Socó_2126.jpg" alt="" width="273" height="409" /></a>Quem quiser ver a fauna e a flora da região por dentro da floresta, encharcar-se nas quedas d’água dentro do rio ou descer os 70 metros do cânion por rapel terá que procurar um de seus serviços. Dessa base, a empresa lançou-se ultimamente por mares nunca dantes navegados, como os da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, ou do litoral nosdestino. Mas sua origem não poderia ser mais local.</p>
<p>Ela pertence a Ademir dos Santos, um ex-balseiro, que não tira as mãos do leme nen quando se trata esticar o expediente nos feriados, para ver de perto como as coisas estão funcionando na empresa. Ele herdou do pai a queda para o transporte fluvial. A família operava a balsa que ligava o Porto Lupion, em Capanema, à Estrada do Colono, um corte ilegal pelo parque nacional.</p>
<p>Tinha tradição no ramo. Era uma dinastia de balseiros desde o tempo em que sua base ficava em Chapecó, fazendo a travessia do Rio Grande do Sul a Santa Catarina. E, antes de chegar ao extremo oeste do Paraná, ajudou a transportar madeira nativa pelo rio Uruguai, levando toras para o exterior.</p>
<p>Ademir dos Santos mal passava dos 7 anos quando seu pai comprou uma parte na sociedade que controlava a balsa da Estrada do Colono. A essa altura, já sabia manobrar um rebocador. “Nasci na beira do rio, longe dele eu não sei viver”, diz ele. Ou, pelo menos, longe da água. Sua experiência no ramo inclui as chatas que levam areia entre Foz do Iguaçu e Guaíra, atravessando os quase 200 quilômetros do lago artificial de Itaipu.</p>
<p>Trocou a Estrada do Colono pelo cânion do Iguaçu antes mesmo que aquele caminho no meio do parque fosse fechado de vez pela justiça, as forças armadas e a polícia. Assim como hoje inventa carros elétricos, na época Ademir tirou quase do nada a idéia de navegar entre as cataratas, conduzindo turistas em parceria com o guia norte-americano Alexander Peter Shorsch. E prosperou.</p>
<p>Para alguém com seus antecedentes profissionais, explorar as cataratas foi mais que um simples pulo. Ou seja, foi um salto qualitativo. No Macuco, desenhou a torre para observação de pássaros num braço fechado do rio Iguaçu. Da copa de um ingá, mas sem se escorar nos galhos da árvore, fechada com persianas removíveis e balançando suavemente com o vento, ela se debruça sobre um alagado cheio de aningas, socós, jaçanãs, martins-pescadores e outras aves nem sempre fáceis de ver em liberdade. Com sorte, aparecem  antas por ali. E jacarés do papo amarelo são comuns.</p>
<p>É um lugar onde se tem vontade de passar o dia inteiro, porque cada hora trás suas novidades, embora a maioria dos freqüentadores se contente com uma breve pausa no mirante, para satisfazer sua curiosidade ornitológica. Cerca de 8 a 10% dos turistas que vão ao parque do Iguaçu só para conhecer as cataratas enveram pelos desvios que o Macuco oferece. Parece pouco.</p>
<p>Mas isso significa uns 100 mil clientes por ano. Ou mais de mil pessoas só no domingo passado, para o passeio de barco no cânion. A 140 reais por cabeça, parece ser um bom negócio, mesmo que a maioria dos turistas continue embalada nos pacotes que economizam o gasto nas cataratas, para investi-lo nas lojas do Paraguai, nas churrascarias com <em>show</em> latino e outros pratos feitos dessa florescente indústria, que ocupa o primeiro lugar na economia de Foz do Iguaçu e também se considera parte inseparável de seus atributos naturais.</p>
<p>Com a pequena parte que lhe cabe nessa corrida rumo a recordes históricos, o Macuco Safari acaba de renovar seu contrato de concessão por mais 10 anos. E Ademir dos Santos, vindo de um ramal auxiliar da estrada que promovia a invasão da floresta, sente-se agora tão perto da conservação “que até as onças preferem nossas trilhas”. Ele é um exemplo de que o crescimento do turismo pode até ajudar o parque. Mas é deitando raízes na unidade de conservação, em vez de tanger a clientela para uma olhada ligeira nas quedas d&#8217;águas, entre uma excursão e outra de compras noa Tríplice Fronteira.</p>
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		<title>A arte de devolver bichos ao mato</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/10/01/a-arte-de-devolver-bichos-ao-mato/</link>
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		<pubDate>Fri, 01 Oct 2010 14:54:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Há um ruído característico de animais esquivos correndo no mato que acorda os instintos de caçador até no mais pacíficista dos fotógrafos de natureza. E aquele parecia aos ouvidos ser um bicho muito especial. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quati-Represa_0890-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1245" title="Quati Represa_0890 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quati-Represa_0890-copy.jpg" alt="" width="453" height="302" /></a></p>
<p><strong>B</strong>icho! Só pode vir de camadas profundas do cérebro humano, onde sobraram circuitos de caçadores ancestrais, a reação imediata de todos os sentidos ao primeiro sinal de que alguma coisa está fugindo às pressas de nosso caminho, quando se anda no mato.</p>
<p>No caso, era a velha trilha da represa, na verdade uma estrada antiga que a vegetação vai espremendo num corredor sinuoso entre árvores centenárias e, agora, com as copas rebrotando depois do inverno, consegue se manter sombria mesmo debaixo do sol a pino.</p>
<p>É um percurso tão batido que as primeiras deduções vêm sozinhas, sem necessidade de pensar. Fica, de cara, descartada a hipótese de ser a cutia do costume, que mora perto de casa e dispara com a nossa chegada como se não estivesse farta de ver gente. Sua toca ficou centenas de metros para trás.</p>
<p>Teiú também não era. Falta lugar para um lagarto aquecer o corpo no terreno sombreado. Sem contar que ele, arrastando um rabo maior do que o corpo, faz barulho demais na serapilheira para um animal de seu porte. O que se ouviu há menos de um segundo  foi o ruído nas folhas de patas cautelosas mas ligeiras.</p>
<p>Gato? Não. Seria sorte demais topar com o menor felino que fosse, assim, sem mais nem menos, à luz do dia. Mas uma irara que viesse já valeria o desvio, como diz o guia Michelin das coisas que obrigam o turista digno do nome a mudar de roteiro.</p>
<p>Irara mesmo, na certa, porque alguns adiante acabou subitamente o farfalhar nas folhas e os ramos da vegetação rasteira começaram a se mexer, como se soprasse um foco de vento no ar parado. Tronco acima, na primeira forquilha ela estacou.</p>
<p>Dava para enxergar vagamente um retalho ou outro de seu vulto através da folhagem. Mas não chegavam a compor uma figura reconcível. Imóvel como estava, meio dissolvida no ambiente e sem mexer um músculo, era menos uma visão do que um pressentimento.</p>
<p>Certamente me olhava, de seu poleiro. Deve ter seguindo o braço que se esticava para trás, tateando silenciosamente na mochila a teleobjetiva. O gesto acabou acordando nas veias a memória de algum antepassado longínquo que se contorseu assim para catar a flecha na aldrava.</p>
<p>Em seguida, foi preciso achar, andando de lado, um passo, para, um passo, para, até tirar da frente os galhos que escondiam a presa. Foi aí que encarei o quati. Ou seja, o bicho que eu menos esperava. Aqui mesmo, no Iguaçu, <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/06/08/brabeza-de-onca-e-maldade-de-cacador/">já fotografei onças pintadas com menos adrenalina</a>.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quatis_0544.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1242" title="Quatis_0544" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quatis_0544.jpg" alt="" width="409" height="272" /></a></p>
<p>O quati é o tipo da espécie que se encontra a três por dois, atravessando em fila no meio do parque o asfalto da BR-469, enfiando-se em lixeiras como se fossem tocas de plástico verde ou subindo em mesa de lanchonete, para roubar comida. Em vão as placas no parque pedem para não alimentar quatis. Centenas de vezes por dia, a bordo dos ônibus que ligam os portões de entrada às Cataratas um discurso gravado repete, em três línguas, que os quatis são “selvagens” e podem transmitir sabe-se lá que doenças tropicais.</p>
<p>Ninguém dá a mínima para o aviso. Pudera. Nada mais parecido com um animal doméstico do que um quati de olho no seu prato. Outro dia mesmo topei com uma visitante argentiba que segurava a pata de um quati com a mão esquerda, para se fotografar a seu lado com o celular na mão direita. Trata-se de um desses animais que o excesso de convívio humanizou demais. Humanizou tanto, que o transformou numa caricatura de nós mesmos. Humanizado e caricato, vivendo na fronteira cinzenta da natureza com os vícios domésticos, o quati se torna uma criatura meio desprezível.</p>
<p>Já me peguei mais de uma vez esperando ele sair do enquadramento para fotografar o parque. Ou seja, limpando a realidade com métodos inspirados na censura stalinista. E agora estava ali, encarando o mesmíssimo animal com uma lenta pesada, ambos posando um para o outro como legítimo representante da vida primitiva e selvagem. A fotografia só saiu porque o dedo indicador aperta o botão da máquina por sua própria conta.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quatis-Turistas_0537.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1241" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Quatis &amp; Turistas_0537" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Quatis-Turistas_0537.jpg" alt="" width="254" height="363" /></a></p>
<p>Era hipnotizante a transfiguração do quati em fauna nativa de pleno direito. Isso dias depois de fotografar, numa ponte metálica na margem argentina, o momento em que um bando de quatis deu de cara com uma parede humana de turistas e câmeras portáteis, todos esperando para clicá-los como roqueiros a caminho do palco.</p>
<p>Deve ser difícil ser quati com o mínimo de naturalidade num cenário desses. Tudo porque o bicho é capaz de tudo no chão ou em cima de uma árvore, mas não quer saber de entrar na água. E por isso não teve outro remédio senão agüentar o assédio até o fim, quando, um a um, assim que o primeiro deu o aviso de terra à vista, pulou de lado e sumiu no mato. Os quatis, naquele caso, estavam a um pequeno salto da dignidade.</p>
<p>Aquele, não. Talvez fosse o remanescente de uma ninhada que foi parar na barriga de um predador. Solitário, arredio e e decidido a pagar para não ver ou ser visto, quando o dispradador da câmera começou a sussurrar, ele escalou a árvore até os últimos galhos e desapareceu no dossel da foresta tropical.</p>
<p>Deixou para trás uma aula que espero seguir daqui para a frente. Dificilmente haverá hoje no mundo animal raro ou feroz que não tenha a vida íntima devassada em detalhes quase pornográficos pelas modernas técnicas de filmagem ou fotografia de natureza. Mas falta fotografia para mostrar que até o bicho mais banal também não é gente e que parque nacional, por mais que seja criado para divertir as pessoas,está longe de ser um mafuá.</p>
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		<title>É tempo de cor na terra e vôo no céu</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/09/29/primavera-por-aqui-quer-dizer-ar-lavado/</link>
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		<pubDate>Wed, 29 Sep 2010 12:30:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Cataratas do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>

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		<description><![CDATA[O primeiro sinal da primavera foi a volta dos andorinhões às cataratas. Eles vieram antes da estação. Retomaram seus postos nas rochas a prumo. E, no céu, o lugar dos intermináveis poentes vermelhos, por obra e graça do ar seco e opaco das queimadas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Sol-e-Papagaios_0366-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1221" title="Sol e Papagaios_0366 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Sol-e-Papagaios_0366-copy.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>H</strong>á dias, temporais esparsos andam avisando que acabou a estiagem do inverno. Chove forte, em geral no meio da noite, com trovoadas que nos acordam só para trombetaer a mudança de estação. E, como as coisas no Iguaçu mudam de repente, a passagem do inverno à primavera aconteceu de uma hora para o outro.</p>
<p>Lá se foi o tempo dos poentes intermináveis, que começavam no meio da tarde e mantinham quase no meio do céu um sol redondo e vermelho que, ainda alto, marchava sem pressa para o horizonte. Dava para acompanhá-lo a olho nu, pelo filtro de névoa cinzenta deixado na atmosfera pelas queimadas. Como espetáculo, o por-do-sol era sem dúvida muito bonito. Mas essa beleza toda já não enganava o entomólogo alemão Hermann von Burmeister, quando ele andou pelo interior do Brasil em meados do século XIX.</p>
<p>Não é de hoje que aquele sol que parecia coado por uma placa de vidro fumê, como o descreveu Burmeister nos cafezais do Vale do Paraíba, quer dizer fogo no mato. Ou, à falta de mato, de fogo nos pastos ou na palha da última safra, antes que a chuva reabra o ciclo das plantações. Em outras palavras, uma compensação dos céus pela feiúra na terra, que as coivaras produzem desde que o Brasil ainda nem era Brasil.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0511.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1222" title="Mata Florida_0511" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0511.jpg" alt="" width="401" height="272" /></a></p>
<p>Agora, depois de cada temporal, vem o azul lavado. E uma claridade que os sentidos humanos, e sobretudo os fotômetros das câmeras, há meses não registravam. E até que este ano a seca no Iguaçu não foi tão rigorosa assim.</p>
<p>O parque passou mais ou menos  incólume pela estação em que os incêndios agrícolas da vizinhança costumam lamber-lhe as bordas, enquanto a maioria das duzentas e setenta e tantas cataratas se reduzem a filetes de água no basalto lambido. Em meados setembro, as copas desfolhadas se misturavan com as copas floridas, emprestando cores de outono em país de clima temperado à mata tropical que estofa as margens do cânion, sobre o leito do Iguaçu.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0039-Edit.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1223" title="Mata Florida_0039-Edit" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0039-Edit.jpg" alt="" width="398" height="272" /></a></p>
<p>Regulado pelas barragens de quatro hidrelétricas a montante (e vem por aí uma quinta usina), deu para ver, neste ano de estiagem mais curta e branda, que o fluxo do rio Iguaçu atende mais à influência do abre-fecha de comportas do que propriamente das flutuações naturais do clima.</p>
<p>O rio míngua pontualmente aos sábados, assim que o consumo de energia baixa no fim de semana, induzindo as represas correnteza acima a estocar água. E engordam a partir de segunda, quando a demanda maior de eletricidade escancara os vertedouros das usinas. Tem um comportamento quase previsível. Mas segundo um  calendário que é o avesso do sobe-desce da visitação turística, nos portões do parque.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões_0729.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1224" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Andorinhões_0729" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões_0729.jpg" alt="" width="241" height="363" /></a>Descontados os efeitos especiais da manipulação humana, não poderia haver melhor ocasião para aprender com bichos e plantas a não se iludir com as agendas oficiais. Há meses, o chão continuava encharcado e as botas a escorregar na lama vermelha, quando as folhas da floresta semidecidual começaram pontualmente a cair, preparando as árvores para uma estiagem que, na prática, não veio.</p>
<p>E ainda fazia frio quando, semanas atrás, os andorinhões voltaram ao Iguaçu. Eles andavam sumidos desde o verão. Chegaram antes da primavera para inaugurar a estação do acasamento e da nidificação, que em seu caso acontece atrás das cortinas de água. São pássaros temerários, esses andorinhões.</p>
<p>Eles grudam ninhos com barro e saliva em paredões a pino, cobertos por cortinas d’água que nosso olhar &#8211; e pelo visto também o dos predadores – não atravessa. São um dos símbolos do parque nacional Iguazu, no lado argentino, embora não seja endêmico de lá ou daqui típico. Seu <em>habitat</em> se espalha por vários países aulamericanos, combina florestas tropicais com capoeiras, reservas naturais com áreas obviamente antropizadas.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões-no-Floriano_98692.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1228" title="Andorinhões no Floriano_9869" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões-no-Floriano_98692-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Eles têm nome vulgar mais longo que o científico, fato raro em taxonomia. Chamam- se, por extenso, andorinhões-velhos-da-cascata. E, no dialeto ornitológico, <em>Cypseloides senex.</em> Portanto, o “velho” de seu nome popular tem o endosso científico do “<em>senex</em>”. Mas “andorinhão”, no duro, a ornitologia ensina que ele não é. Trata-se de um membro da família <em>Apopidea. </em>Uma ave de pernas curtas, como as de seus primos beija-flores.</p>
<p>É com essas patas atrofiadas que ele se ancora nas pedras das cachoeiras. Seus ninhos não poderiam ter aparência mais precária. No entanto, é para eles que os andorinhões retornam, ano após ano, no fim de suas ausências migratórias. Os filhotes, crescendo pendurados no abismo, são especialmente “pacatos”, como observou o ornitólogo Mauro Pichorim no parque estadual de Vila Velha, também no Paraná: “Não piavam e agarravam-se aos ninhos”. Afinal, piar para quê, diante do estrondo da cascata? E soltar o ninho como, antes de aprender com os pais a furar a barreira d’água?</p>
<p>Além do desafio de flagrá-los agarrados nas rochas, meio escondidos pelas águas, o sinal mais notório de sua presença é o show permanente de vôos acrobáticos que encenam diante das cachoeiras. <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/11/20/a-coreografia-dos-andorinhoes-nas-cachoeiras/">Lá vão quase dois anos que fiz no Salto Floriano, por obra e graça dos andorinhões, minha foto predileta</a>, em muitos anos de perseguição mais ou menos sistemática a imagens da natureza.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões-Blog_2439.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1229" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Andorinhões Blog_2439" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Andorinhões-Blog_2439.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>Ela nunca apareceu aqui no blog, em parte por estava reservada a publicação em livro. Mas debitou meses atrás na revista Piauí. E aí vai ela de novo. Para quem se interessa por detalhes técnicos, ela resultou da mistura de acaso com premeditação.</p>
<p>Depois de ver de relance uma cena parecida diante do salto, montei a câmera sobre tripé no mirante do elevador, mantendo o ponto onde o primeiro alinhamento de andorinhões havia ocorrido. O obturador foi travado em um milésimo de segundo. E o diafragma, com teleobjetiva média, de 150 milímetros, fechado em <em>f 8,</em> para garantir alguma profundidade de foco e todos os automatismos desligados.</p>
<p>Pronto para o que desse e viesse, sem tirar o olho da frenética dança dos andorinhões, apertei o disparador até perder a conta, cada vez que o vôo dos pássaros dava a impressão de bisar a cena original. Ao fim de mais ou menos uma hora, estavam depositadas no cartão de memória da Canon 50D dezenas de fotos inaproveitáveis, ou mesmo vazias de pássaros. Mas havia quatro ou cinco publicáveis. E esta, até hoje minha favorita. O que não significa que não se continue daqui para a frente tentando fazer outra melhor. Simplesmente porque fotografá-los é irresistível.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0045.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1230" title="Mata Florida_0045" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Mata-Florida_0045.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O medo do mato como o povo gosta</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Sep 2010 23:39:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Colonização]]></category>
		<category><![CDATA[Oeste do Paraná]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Numa série inédita de vídeos, entre depoimentos de ex-diretores do Iguaçu e descendentes de pioneiros, a entrevista de uma ex-moradora do parque destoa pelo horror ao mato. Mas é história típica da fronteira.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Teiú_2738-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1207" title="Teiú_2738 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Teiú_2738-copy.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>A</strong> residência oficial do diretor, onde morou por 15 dias só para não deixar a casa inteiramente deserta, era “meio assombradona”. Uma tarde, no atalho para o antigo museu, um tatu cruzou-lhe o caminho, e ela correu, “com um bebê no colo”, até encontrar uma porta aberta para trancar-se.</p>
<p>Aquele tatu até hoje povoa seu bestiário particular como um “bicho com capa nas costas”. O tamanduá, para ela, é quase um monstro “que come formiga” e encarou-a como se escolhesse a próxima vítima. No primeiro outono que passou na borda da floresta, mal as árvores da careira começaram a despejar frutos no chão, ela se viu sitiada por feras inomináveis, que saíam do mato para comer diante de suas janelas. Todos a assustaram, a começar pelo miúdo e sociável quati. Mas nada se comparava ao susto que lhe deu “aquele dos chifres para todo lado”. Ou seja, o veado mateiro, que nem tão chifrudo é assim.</p>
<p>Pior, só o dia em que encontrou na cozinha um lagarto “com um rabão enorme”. Correu para o quarto. Voltando à noitinha do serviço, o marido encontrou-a ainda de pé, em cima da cama, com a filha nos braços. “É só um teiú”, ele disse, tocando-o com uma vassoura para o terreiro.</p>
<p>Esse depoimento de 23 minutos consta das 40 entrevistas gravadas em DVD para o <a href="http://marcossacorrea.com.br/2009/10/22/iguacu-um-parque-com-saga-e-historia/">Projeto Memória das Cataratas</a>, uma iniciativa de de dois pesquisadores e de uma agência local de publicidade, que em 2008 vasculhou os guardados e as lembranças de famílias pioneiras, para contar na primeira pessoa a história da colonização de Foz do Iguaçu.</p>
<p>A cidade ficava para esses colonos nos cafundós do Oeste paranaense. E nela a maior parte do que agora vai sumindo no passado remoto tem pouco mais de meio século. Mas continua visível e vistável nos 185 mil hectares do parque nacional do Iguaçu, que em janeiro do ano passado completou 70 anos. Ouviram-se de preferência os descendentes dos primeiros colonizadores e antigos funcionários do Iguaçu. Inês é exceção.</p>
<p>No aniversário do parque, o Memória das Cataratas virou livro e exposição de fotos antigas. Sobraram as entrevistas em vídeo, guardadas em caixas de papelão onde, pelo esquecimento, tornaram-se em pouco tempo duplamente históricas. Quem abre hoje a caixa se espanta, antes de mais nada, com a memória que se está perdendo outra vez de 2008 para cá.</p>
<p>Como é o caso do depoimento de Inês, tão íntimo e destampado que é melhor nem publicar aqui seu nome completo. Ela não parece falar para a câmera. Ignora as perguntas dos entrevistadores. Disserta sem a menor censura sobre sua própria vida, desde que trocou Santo Antônio do Oeste, um lugar “muito ovo”, pela cidade grande de Foz do Iguaçu. “Eu era muito ambiciosa”, esclarece.</p>
<p>Aos 15 anos, trabalhando “como garçonete do hotel Carimã”, viu passar pela estrada seu futuro marido. Ele vinha do batente numa pedreira próxima, e chamou-lhe a atenção pela “sujeira”. Acabaram se conhecendo numa festa. Inês casou grávida e depressa. Pouco depois, como o casal precisava arrumar a vida, eles fizeram juntos o concurso para funcionário do parque. Ambos passaram. Mas, por norma do serviço público, só um poderia ser contratado. Ele virou guarda. E, num belo dia de 1978, foi buscá-la “na viatura” para lhe mostrar a nova casa.</p>
<p>Quando viu aonde sua vida iria parar, Inês teve “muito medo”. Medo “de tudo”. Em suma, “medo do mato”. O casal começou a brigar ali mesmo. E brigou até separar-se, cinco ou seis anos depois. O casamento ia tão mal que ela tomou tudo o que lhe sugeriram para abortar o segundo filho. Nasceu uma menina forte.</p>
<p>O relato de seu inferno conjugal no inferno verde consome, com profusão de detalhes, pelo menos metade do depoimento. Até que, de repente, depois de descrever situações melodramáticas ela começa a chorar, mas não pelo casamento perdido. Conta que sente agora saudades de tudo &#8211; da casa, das cataratas, dos filhos crescendo em segurança longe das tentações urbanas, do <em>playground</em> sem fim que eles tiveram na primeira infância e até do forno de pão ao ar livre.</p>
<p>“Já trouxe meus netos aqui”, diz ela. Não encontrou mais a casa em que morava. Foi posta abaixo na atual administração, cumprindo uma exigência do plano de manejo, que quer um parque menos edificado. Nem por isso deixou de levá-los para ver o que já não existe: “Ali era o quarto da avó, o banheiro da avó&#8230;”</p>
<p>Nesse ponto, depois de fazer tudo para dar a impressão de que entrara no Memória das Cataratas por engano, Inês se transforma, na melhor testemunha da tragédia histórica que é a relação dos brasileiros com sua floresta. Inacabado como os outros, seu DVD nasceu clássico.</p>
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		<title>A campanha do guaxe é mais animada</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Sep 2010 12:56:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Primavera]]></category>

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		<description><![CDATA[Nem a presença do presidente Lula e sua candidata Dilma Rousseff conseguiu abafar, no começo do mes, a campanha matrimonial dos guaxes, que aos berros tecem seus ninhos nas palmas das jerivás.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxos_MG_9854.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1176" title="Guaxos_MG_9854" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxos_MG_9854.jpg" alt="" width="415" height="272" /></a></p>
<p><strong>O</strong>s guaxes andam tão ocupados com a tecelagem de seus ninhos nas palmas das jerivás que, neste começo de setembro, o presidente Lula e sua candidata Dilma Rousseff conseguiram lotar por dois dias, com suas comitivas, o hotel das Cataratas, sem abafar a voz desses pássaros, em plena campanha de acasalamento.</p>
<p>Eles, sim, sabem se esgoelar sem marqueteiro nem horário gratuito. Qualquer galho lhes serve de palanque, mesmo que seja de cabeça para baixo. Sobretudo, eles cumprem suas promessas antes de serem eleitos. Tudo indica que é um trunfo nupcial decisivo entre os <em>Cacicus haemorrhous</em> a habilidade pegar primeiro a melhor ponta da palmeira, para costurar na palha um ninho pênsil que pareça, ao mesmo tempo, resistente ao vento e mais comprido que o temível bico dos tucanos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxos_MG_9833.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1177" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Guaxos_MG_9833" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxos_MG_9833.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>Isso é pura especulação de jornalista. Mas, pelo menos nas jerivás do Porto Canoas, no final da trilha das Cataratas, até agora os ninhos mais espaçosos e bem situados abrigavam casais. Continuavam solteiros os retardatários, que se esfalfavam sozinhos para improvisar a instalação de um domicílio modesto lá no alto.</p>
<p>Lá em cima, aparentemente, ficam os barracos dos guaxes. São notoriamente mais acanhados e expostos aos inconvenientes da construção irregular em lugares perigosos. Presume-se que chegue primeiro à ponta das palmeiras os predadores. Sem contar que não há como dobrar aquelas palmas ainda novas, apontadas para o céu, nos arcos elegantes em que se penduram os cestos alongados, típicos dos endereços mais valorizados na confraria dos guaxes.</p>
<p>Pior, só lá embaixo. Junto ao tronco das jerivás pendem, vazios, os ninhos do ano passado. Guaxo nenhum se arrisca a ocupá-los em segunda locação, talvez porque as folhas que lhes servem de alicerces, agora secas, tendem a cair de uma hora para outra, na primeira tempestade.</p>
<p>Os solitários ficam também mais sujeitos que os casados a perder um pedaço de seu patrimônio imobiliário assim que viram as costas para buscar mais fios no mato para tecer seus ninhos. O roubo do material de construção, entre os guaxes, parece comum. Ou natura. Mas provoca brigas ruidosas a até combates aéreos, com manobras que lembram os malabarismos alados da Primeira Guerra Mundial. Só que, no caso, sem baixas a festejar ou lamentar.</p>
<p>São bichos paradoxais, os guaxes. Pássaros negros, porém coloridos, com berrantes bicos <a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxos_MG_9828.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1178" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Guaxos_MG_9828" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxos_MG_9828.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>amarelos, olhos azuis e uma viva mancha vermelha no dorso, que os denuncia à distância, cada vez que abrem as asas. São grandes, porém tímidos, senão pusilânimes. Vivem juntos em comunidades numerosas, porque essa não deixa de ser sua maneira de se esconder.</p>
<p>Sua única reação de defesa é o barulho atordoante que produzem sob ataque. Não resistem a invasões. E muito menos enfrentam inimigos jurados. Preferem a presença humana ao risco de viver num mato povoado por tucanos. Devem confiar na probabilidade estatística de que, juntando muitos ninhos, não haverá tucano que dê conta de todos os filhotes. Se é assim, a vítima pode ser a prole do vizinho, não a sua.</p>
<p>Vivem em condomínio. E todo mundo que já viveu em condomínio sabe que isso é um bate-boca permanente, a serviço da hierarquia e da demarcação de território. Pelo menos é assim a vida social dos corvos, que passou a ser minuciosamente esquadrinhada pelos ornitólogos desde que Konrad Lorenz encontrou dentro daquelas pequenas cabeças negras cérebros capazes de malícias e cálculos assombrosos.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxo_1402.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1179" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Guaxo_1402" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/09/Guaxo_1402.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>Entre os corvos, as disputas essenciais da existência, seja por comida ou reprodução, ficam previamente acertadas entre vencedores e perdedores vitalícios. Essas prerrogativas se derramam em cascata pelo bando abaixo, via parentesco, amizade ou aliança política. Quem é amigo de quem manda manda em quem obedece. E isso vale inclusibe nas menores bicadas cotidianas. Mais ou menos como acontece no país com os empregos públicos, quando um partido chega ao poder.</p>
<p>Dois ou três dias de nariz para cima debaixo das jerivás apinhadas, vendo os guaxes se ajeitar para a próxima primavera, não dá a ninguém o direito de insinuar que, como os corvos, eles convivem estreitamente num regime de castas. Mas não há dúvida que estão empenhados o tempo todo em debates vitais. Há muito tempo o presidente Lula não passava tão perto de uma autêntica corrida pelo poder, quanto em sua breve hospedagem no parque do Iguaçu.</p>
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