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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Destaques</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Diário de funcionário público</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2011/01/10/diario-ilustrado-de-funcionario-publico/</link>
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		<pubDate>Mon, 10 Jan 2011 18:43:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia de Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>
		<category><![CDATA[Serviço Público]]></category>

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		<description><![CDATA[Rotina de funcionário público é a arte de contar as horas que faltam para o fim do expediente. Certo? Errado. Jorge Pegoraro, o chefe do parque nacional do Iguaçu, deu um jeito de esticar os seus dias como fotógrafo de natureza.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Pegoraro-e-Manu_2548.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1412" title="Pegoraro e Manu_2548" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Pegoraro-e-Manu_2548.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p><strong>U</strong>rgente e lacônico, o texto no celular avisa que “as cigarras estão dando sopa”, com a chegada do verão ao parque nacional do Iguaçu. Outro rascunho informa que uma onça-pintada foi vista dias atrás por funcionários da manutenção no quilômetro 26 da estrada que leva os turistas às cataratas. Um recado mais longo conta que “os ninhos de pássaros ao lado da casa 003 foram todos estraçalhados” por “gambá, tucano” ou outro predator “invisível”.</p>
<p>A 003 é a residência oficial do biólogo Jorge Pegoraro, chefe do parque e autor das mensagens. Ele fazia a ronda diária dos ocos e galhos no jardim, desde que a primavera povoou suas árvores de ovos e promessas. Está há quase oito anos no posto. E cada vez mais atraído pelas novidades que cercam seu cotidiano por todos os lados. Meses atrás, comprou uma máquina fotográfica. Passou a registrar seu dia-a-dia com a sofreguidão de quem pos as mãos em brinquedo novo e o conhecimento de causa de quem vê aquilo tudo sistematicamente, por dever profissional.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Socó_1618.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1413" title="Socó_1618" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Socó_1618.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>O dia-a-dia pode ser inexaurível, quando se tem sob sua jurisdição uma floresta de 185 mil hectares. Em poucas semanas de fotografia, Pegoraro tinha juntado uma fartura de imagens. No fim do ano passado, por exemplo, fez “um bonito (eu acho) jacaré (pequeno) no rio Iguaçu, numa volta de barco próxima à ilha dos Papagaios”.</p>
<p>Com as tardes alongadas pelo horário de verão, a cada fim de expediente, se a chuva deixar, ele pega o equipamento, atravessa em longos círculos o jardim e cai nas trilhas que fazem de sua casa um entrocamento de pegadas. Cruzam por ali rastros de catetos, de cutias, de cachorros-vinagre, de veados mateiros e de onças. Só com os pássaros que frequentam sua clareira daria para fazer um guia quase completo das aves do Iguaçu.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Flor-1109.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1414" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Flor-1109" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Flor-1109.jpg" alt="" width="250" height="363" /></a>Só volta depois que a noite cai. Usa uma Rebel T1, a reflex digital mais modesta da Canon. Contenta-se com lentes básicas. Passou batido pelo labirinto técnico dos manuais. Mas tem olho clínico, capaz de identificar na penumbra animais que parecem sombras e ver silhuetas onde aparentemente só há manchas escuras. Com esses trunfos, e a prerrogativa de morar no parque nacional, virou fotógrafo de natureza do dia para a noite. Foi a última virada de uma carreira que, sempre que entorta, aponta mais para o mato.  Ele nasceu em Curitiba, formou-se por lá em Biologia quando o diploma servia quase exclusivamente para dar aulas em sala e entrou para o serviço público, por concurso, via Sudepe. A superintendência da pesca deu-lhe o primeiro emprego no porto de Paranaguá, o extremo oposto do Iguaçu.</p>
<p>Chegou ao Oeste do Paraná em 1989, depois que a criação do Ibama fundiu as autarquias que tratavam de recursos naturais no governo. Pegoraro foi realocado no escritório do Ibama em Cascavel, quando as serrarias já haviam raspado os últimos retalhos de mato no município. Mas o escritório continuava expedindo licenças de desmantamento para as cidades retardatárias cuidarem das sobras.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Gralha_1047.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1415" title="Gralha_1047" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Gralha_1047.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>Ele não levou muito tempo para se convencer de que toda aquela região gravitava, em saber, em torno do parque nacional, cuja floresta é o maior investimento que os colonos conseguiram fazer na economia da região. Basta ver os dados oficiais sobre a economia de Foz do Iguaçu, a maior cidade da vizinhança. O turismo é, de longe, sua maior fonte de ocupação e renda. A &#8220;produção de energia&#8221; &#8211; ou seja, o produto da Itaipu Binacional, a maior hidrelétrica do mundo &#8211; vem em segundo lugar.</p>
<p>Jorge Pegoraro aproximou-se muito do parque na queda-de-braço com políticos locais, quando eles transformaram em questão de honra manter aberta <a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Lua-no-Salto-Floriano_07201.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1419" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Lua no Salto Floriano_0720" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Lua-no-Salto-Floriano_07201.jpg" alt="" width="312" height="454" /></a>a Estrada do Colono. Teve que defender a integridade da floresta contra os pontos de vista até de superiores hierárquicos, dispostos a entregar os pontos.</p>
<p>Acabou nomeado para dirigi-lo, em 1º de abril de 2003. Tem uma rotina complicada que inclui intermináveis reuniões para aparar as arestas e cauterizar os ressentimentos que sobraram da disputa. Encara frequentemente longas horas em viagens ao redor do parque, para manter a conversa em dia com quem mora no lado oposto ao da sede, a 200 quilômetros de distância. E discussões que quase sempre voltam ao ponto de partida. Pegoraro oferece projetos de parceria em turismo ecológico. E ouve pedidos de licença para a pesca esportiva nos rios da reserva.</p>
<p>Ele não abre mão de &#8220;saber tudo o que acontece&#8221; lá dentro, ouvindo mateiros, técnicos, guardas e operadores turísticos. Mas se considera até hoje incapaz de conhecer o parque como se deve &#8211; ou seja, “a fundo” . Seguir a rotina desse funcionário público entre o gabinete e a trilha revoga tudo o que se ouve falar por aí sobre preguiça burocrática.</p>
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		<title>A história de Manu, último capítulo</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Dec 2010 14:48:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Iguaçu 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Nacional do Iguaçu]]></category>

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		<description><![CDATA[Durou 55 dias a vida de Manu, o filhote de veado mateiro que foi achado em outubro no parque nacional do Iguaçu, ferido e desgarrado da mãe. Dias atrás, foi atacada por uma jaguatirica. Morreu no mato, o lugar certo. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2090.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1384" title="Manu_2090" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2090.jpg" alt="" width="408" height="272" /></a></p>
<p><strong>M</strong>anu morreu. Teve uma vida breve a corça recém-nascida, encontrada em outubro no parque nacional do Iguaçu. Estava, na ocasião, levemente ferida e prematuramente separada da mãe por um predador frustrado – supostamente, uma irara. Em 17 de dezembro, uma jaguatirica atacou-a durante a noite, num ataque rápido e conclusivo.</p>
<p>Ela durou 55 dias. Mas deixou no parque uma extensa biografia, com seus passos documentados por fotografias, filmes e notas. Era um tema irresistível para quem a visitou na casa dos biólogos Marina Xavier da Silva e Alexandre Vogliotti, um lugar ermo, junto à usina hidrelétrica do rio São João, hoje sem máquinas e com ares de ruína. O endereço certo para quem prefere viver no mato, e quanto mais no mato melhor.</p>
<p>A casa fica na floresta que margeia o rio Iguaçu. Não tem vizinhos próximos. É o último lugar habitado da estrada de pedras brutas, estreita e sem acostamento, que desce da sede administrativa e termina, logo depois, numa pequena praia. É caminho de bicho e gente. Mais bicho do que gente.</p>
<p>Recolhida com dois diasde idade, Manu ganhou o nome de uma sobrinha de Vogliotti, que chegou ao parque como pesquisador de cervídeos e agora integra a equipe do projeto Carnívoros do Iguaçu, capitaneado por Marina Xavier da Silva, sua mulher. Ele passou do estudo das presas à intimidade com os predadores. E Manu se instalou bem no meio dessa encruzilhada vocacional.</p>
<p>O filhote passou as primeiras semanas num quarto da casa. Dormia em caixa de papelão, onde cabia de sobra. Mamava duas vezes por dia. Passava o dia num cercado, na sede do parque, acompanhando o casal durante o expediente. Todo fim de tarde, gastava as energias no quintal, aos saltos. Até que atravessou ao anoitecer o portão invariavelmente escancarado, embrenhou-se na floresta a poucos passos de casa e passou a dormir fora, como convem a um filhote de <em>Mazama americana. </em></p>
<p>Mas <a href="http://marcossacorrea.com.br/2010/11/14/quem-nasce-manu-nao-vira-bambi/">essa história já foi contada aqui</a>. A novidade veio dias atrás, num e-mail de Marina Silva que ensina, em poucos parágrafos e com muitos pontos de exclamação, um biólogo de campo a conciliar dever com sentimento. Começa informando que, “infelizmente”, naquela madrugada, “para nosso completo desespero, uma jaguatirica atacou” Manu.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/ManuMorta.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1385" title="ManuMorta" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/ManuMorta.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p>Para que ninguém estranhe esse “infelizmente” e o “desespero”, é bom não perder de vista que se tratava de um animal que passara de doméstico em outubro para selvagem em novembro, sem deixar o convívio do casal. “Ela crescia linda”,  “continuava com suas brincadeiras vespertinas” e, naquela noite, “havia escolhido para dormir um lugar bem perto de casa”. E assim eles a ouviram  “berrar desesperadamente no momento do ataque”.</p>
<p>“Corremos, gritamos por ela, mas a jaguatirica foi rápida e precisa!” Expor-se aos riscos da vida silvestre, lembra Marina, fora “escolha nossa e dela”. Senão, teriam salvo uma corça incapaz de sobreviver no mato. Logo, destinada ao confinamento num zoológico, por falta de traquejo em seu habitat. “Foi duro ouvi-la berrar”. Mas “a natureza é dura mesmo”. E eles dois estão no Iguaçu a trabalho.</p>
<p>Meia hora depois de ouvir o berro, Vogliotti encontrou a carcaça de Manu “na borda da mata”. O casal suspeitou de cara que aquilo era obra de jaguatirica. E não podia dormir sem testar a suposição. Morta, Manu era isca. Armaram uma armadilha fotográfica perto do corpo. E a máquina flagrou o autor de volta à cena do crime. Era mesmo jaguatirica. “Um macho grande, cumprindo exatamente seu papel de predador”, comenta Marina em sua mensagem.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_21693.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1389" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Manu_2169" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_21693.jpg" alt="" width="242" height="363" /></a>Dito isso, na frase seguinte ela exclama: “MALDITO!! Podia ao menos ser uma onça-pintada”. Onça-pintada, sim, é uma espécie cada vez mais rara no parque. Depois de uma temporada de visibilidade até excessiva em meados de 2010, quando todo nmundo parecia topar com ela, sumiu de uma hora para outra, driblando há meses os esforços dos pesquisadores que buscam por todo canto sinais de sua presença. Só neste fiunalzinho de dezembro deu o ar de sua graça, avistado por um funcionário da concessionária que explora o tutrismo nas Cataratas. Estava no quilômetro 26 da BR-469.</p>
<p>Restaram de Manu histórias e imagens. Vogliotti, “mesmo tendo uma boa experiência com os cervídeos”, admite que se surpreendeu “com o nível de interação que ela estabelecia conosco”, em “lutinhas, correrias, expedições pela mata, o rio Iguaçu e a cachoreira do São João”. Vogliotti acabou se convencendo de que Manu parecia “realmente se divertir nessas atividades”.</p>
<p>Ele pretendia estudar o processo de reintegração de Manu ao Iguaçu. Ela “continuava firme no objetivo de viver na mata”, ele escreve. “Ia lentamente ampliando seus horizontes. Revezava seus repousos/pernoites entre uns tres ou quatro sítios diferentes, que iam até perto da usina do São João, acima ou abaixo da trilha. Alguns eu nunca consegui localizar exatamente”.</p>
<p>Andava cada vez mais independente. “Pela manhã, ela atendia prontamente ao nosso chamado”, conta Vogliotti. “Mas, no fim da tarde, demorava mais a nos procurar e ficava um bom tempo consumindo brotos e folhas diversas, aqui e ali. Não cheguei a catalogar todas as plantas que ela vinha provando, mas sei de tres espécias, ainda não identificadas, pelas quais tinha predileção considerável”.</p>
<p>Às vezes, ele e Marina tinham que buscar Manu no mato “para mamar em tempo hábil”. E houve uma tarde em que desistiram de esperá-la. “Apareceu na tarde do dia seguinte, faminta, exigindo sua mamadeira aos berros (gravados pela Marina} e dando cabeçadas em quem quer que aparecesse à sua frente. Mamou um litro e meio em sequência”.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2538.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1398" title="Manu_2538" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Manu_2538.jpg" alt="" width="409" height="273" /></a></p>
<p>Tomava leite “de caixinha”, reforçado com “ração de gato moída”. Não se adaptou a “um sucedâneo comercial para bezerros”, que lhe provocou uma semana de diarréia – um indício do que esses bezerros desmamados andam engolindo por aí. A não ser por “breves lambidas” para saciar a curiosidade, Manu jamais bebeu água, “apesar de sempre demonstrar uma grande atração por ela. Quando íamos aos rios, ela sempre entrava na água até a altura da barriga”.</p>
<p style="text-align: center;">
<p>Costumava lambrer-lhes os braços. “Pensávamos que fosse pelo sal”, quase sempre deficitário na dieta da floresta. “Conseguimos um pouco de sal mineral (de uso pecuário) na intenção de suprir esses nutrientes, mas não teve o efeito esperado”. Ela provava a novidade e nem por isso deixava de lambê-los, talvez mais por “ interação social” que por necessidade “nutricional”. Lambia também a cabeça de Vogliotti. “E passava um bom tempo assim, se eu permitisse”.</p>
<p>O diário de Manu mal estava começando. E ficará para sempre incompleto. “Agora os fins de tarde custam muito a passar para a gente”, conclui Marina. Resta ao casal o consolo “de ver o parque funcionando”. Ou seja, com predadores e presas, como mandam os preceitos da conservação ambiental. “Mas podia não ser com a Manuzinha, não é mesmo???!!!”</p>
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