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	<title>Marcos Sá Correa &#187; Artigos</title>
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	<description>Colunismo a Quilo</description>
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		<title>Palmas para a paisagem que restou</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Feb 2011 22:10:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Pão de Açúcar]]></category>
		<category><![CDATA[Plano Diretor]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de cinco séculos de depredação, o novo Plano Diretor do Rio de Janeiro trata a paisagem carioca como um patrimônio que todo morador tem que respeitar e todo governo proteger.  Veio tarde, mas é bem vindo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/02/Pão-de-Açúcar-Ferrez.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1451" title="Pão de Açúcar Ferrez" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/02/Pão-de-Açúcar-Ferrez.jpg" alt="O Pão de Açucar que Marc Frerres viu caindo a prumo na baía no século XIX" width="409" height="306" /></a></p>
<p><strong>O</strong> Rio de Janeiro exagerou no sábado passado. Fez um dia de sol sem nuvem, azul varrido e verão ventilado pela brisa que vinha do mar frio. Parecia de encomenda para ir ao Pão de Açúcar, a pretexto – é claro &#8211; de mostrá-lo a gente de fora.</p>
<p>Carioca que se preza só pega o bondinho com turista empurrando. Pior para ele. Não há ponto-de-vista como o Pão de Açúcar para apreciar o novo Plano Diretor do Rio de Janeiro. Tem até lugar marcado para isso, lá em cima. Anos atrás, o guia da <em>Lonely Planet</em> botou no mapa do mundo o ponto do mirante virado para as montanhas. E ele virou arquibancada de pôr-do-sol.</p>
<p>Quem só faz isso de vez em quando acaba vendo muito mais que o entardecer. Enxerga favelas em quase todas as encostas, lanhando os morros ainda verdes. E elas não davam tanto na vista quatro ou cinco anos atrás, quando duas italianas impuseram aos anfitriões o mesmo programa. Na época, o que chamava a atenção era a torre Rio-Sul, que há mais de 30 anos furou gabaritos e posturas urbanas para tirar o incorporador da insolvência.</p>
<p>Ele continua na mira do sol poente. Mas agora são as favelas que brigam feio com a topografia, fatiando a mata das encostas. Foi nisso que deu o Rio de Janeiro ter um ambientalista na secretaria de Desenvolvimento Urbano, o engenheiro Haroldo Mattos de Lemos, que despachava queixosos dizendo que favela não era problema, e sim solução.</p>
<p>Solução ambiental elas certamente não eram. Mas na década seguinte foram promovidas a “comunidades”, e se tornaram politicamente um assunto tão bem resolvido que o promotor Carlos Frederico Saturnino, encarregado de velar o meio ambiente na cidade, passou uma década falando sozinho, ao insitir que a paisagem do Rio de Janeiro não podia ser privatizada pelas ocupações irregulares por ser patrimônio cultural da população.</p>
<p>É isso que diz agora o Plano Diretor. E bastava aquele cair da tarde no Pão de Açucar para enxergar como ele, embora “novo”, chega atrasado. Não só pelos dez anos que levou tramitando pela Câmara Municipal, como se não fosse assunto urgente. Nem pela favelização. Esse é um capítulo recente na longa história de malversação do cenário natural, que a cidade começou a demolir antes mesmo de ser fundada. Ela nasceu junto ao morro Cara de Cão, ao pé do Pão de Açúcar. E de lá, olhando para baixo, cadê a lagoa que o padre José de Anchieta conheceu em 1565, quando o capitão Estácio de Sá levantou as paredes inaugurais do Rio de Janeiro?</p>
<p>A lagoa tinha “uma légua de água ruim”, escreveu o jesuita. E a primeira batalha dos fundadores não foi contra os franceses e tamoios, mas com terra e pedra para sepultá-la “de todo”. Dela não restou nem a memória. Assim como não há sinal visível da passagem pelo planeta das lagoas do Desterro, da Sentinela, da Pavuna e da Lampadosa, que acabaram embaixo da praça Tiradentes, do Largo da Carioca, do Passeio Público, da Lapa e da Glória.</p>
<p>Nossa guerra pela conquista do território passou batida na futura Zona Sul pela lagoa da Panela, que virou Largo do Machado. E só parou na Rodrigo de Freitas depois de lhe tomar um terço do espelho d’água. Como elas, desapareceram na febre do bota-abaixo que deu ao Rio o título de Cidade Maravilhosa. Só nas primeiras décadas do século XX desapaeceram debaixo de aterros 36 ilhas, 56 praias e 9 enseadas da Baía de Guanabara. E, com elas, o morro do Castelo, que era o centro histórico do Rio de Janeiro.</p>
<p>Eram ilhotas sem importância? Não foi o que comentou no século XVII o inglês Richard Flecknoe, que conheceu a baía “salpicada de ilhas verdejantes de diversos tamanhos”. Outro inglês, o comerciante John Luccock, que vive na cidade no começo do século XIX, descreveu ilhas cobertas de copas floridas, lastimando “a verdadeira fúria de tudo o que se pareça com uma árvore”.</p>
<p>Se os executores do Plano Diretor quiserem levar a sério a tarefa de tratar a paisagem como patrimônio inalienável do Rio de Janeiro, deveriam começar pela instalação de placas lembrando cada marco natural que a cidade desterrou e esqueceu. Senão, o que restou continuará parecendo inexaurível aos deserdados. Como o por-do-sol que os turistas aplaudiram no Pão de Açúcar, sábado passado.</p>
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		<title>O meio ambiente ficou insustentável</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2011/01/28/meio-ambiente-ficou-insustentavel/</link>
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		<pubDate>Fri, 28 Jan 2011 17:45:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Amazônia]]></category>
		<category><![CDATA[Belo Monte]]></category>
		<category><![CDATA[Hidrelétrica]]></category>
		<category><![CDATA[Ibama]]></category>
		<category><![CDATA[Licenciamento Ambiental]]></category>

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		<description><![CDATA[A dança das cadeiras na presidência do Ibama por causa da usina de Belo Monte, no rio Xingu, indica que o meio ambiente virou um negócio insustentável no Brasil. Seus chefes só passam no cargo para aprová-la.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Splash_0581-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1448" title="Splash_0581 copy" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Splash_0581-copy.jpg" alt="" width="409" height="306" /></a></p>
<p><strong>A</strong>ntes de gerar o primeiro quilowatt, a usina de Belo Monte conseguiu transformar o ministério do Meio Ambiente num negócio insustentável. Eletrocutou esta semana mais um presidente do Ibama. Governo vai, governo vem, cada vez mais eles passam e ela fica.</p>
<p>Tragados por Belo Monte, seus nomes escorregam pelo cargo tão depressa que mal dá tempo de aprendê-los. Geralmente, saem de fininho, “exonerados a pedido” e condecorados por processos. Mas chegam com estardalhaço digno de plenipotenciários do patrimonio natural. E é assim que o Brasil está inaugurando esta semana mais um presidente do Ibama. O da vez é o catarinense Américo Ribeiro Tunes.</p>
<p>Experiência em pressão política ele tem. Como superintendente do Ibama em Sata Catarina, viu de perto o governo do estado mandar às favas o Código Florestal e, com ele, uma parte substancial do poder que Brasília tinha para interferir em seus desmandos ambientais. Em outras palavras, foi obrigado a recuar em seu próprio quintal.</p>
<p>Agora, como presidente substituto em Brasília, Tunes recuou na Amazônia. Para tanto, nem precisou assinar a posse no Ibama. Carimbou diretamente seu passapote para a posteridade, assinando a licença “parcial” de Belo Monte. Ela autoriza o desmatamento de 238 hectares na bacia do rio Xingu para a instalação de um canteiro de obras que, formalmente, poderá ou não construir a hidrelétrica. Mas com isso deixou na poeira todos os recursos técnicos e judiciais que o projeto ainda não conseguiu responder.</p>
<p>O demissionário de Abelardo Bayma, antecessor de Tunes, assinou a licença prévia de Belo Monte. O antecessor do antecessor, Roberto Messias Franco, desencalhou em 2009 os estudos de impacto da hidrelétrica. Em 2008, demitiu-se a ministra Marina Silva, ao entrar em rota de colisão com Belo Monte, depois de capitular diante das pressões para liberar as usinas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira. Belo Monte nem precisa de eletricidade para dar choque.</p>
<p>Dure muito ou pouco essa interinidade de Tunes, ele tem um lugar definitivo na história da usina e da burocracia ambiental. Uniu sua assinatura à estreia do conceito de “licença parcial”, um circunlóquio que a rigor só deveria servir para contratar serviço de encanador em reforma de banheiro: “Quebra que depois a gente resolve”.</p>
<p>“Parcial”, no caso de Belo Monte, quer dizer o quê? Se o termo for sincero, significa que o país está entregue a interesses poderosos, sem dúvida, mas insensatos a ponto defenestrar presidentes do Ibama só para construir um canteiro de obra sem a menor garantia de fazer a obra. Idéia semelhante só passou por Brasília uma vez, há mais de 30 anos, através da cabeça prodigiosa do economista Mario Henrique Simonsen.</p>
<p>Como ministro do governo João Figueiredo, ele propôs que o Brasil legalizasse o pagamento de comissões por obras não pretendia executar. Alegava que assim todos sairiam ganhando. A começar pelos brasileiros, que gastariam menos com empreitadas inúteis e perdulárias. Simonsen estava brincando. Queria simplesmente dizer com isso que muita coisa no país só sai do papel porque alguém está de olho na percentagem da intermediação.</p>
<p>Mas a licença “parcial” de Belo Monte, a julgar pelo número de baixas que já causou, está falando a sério, mesmo sem esclarecer se aquilo custará menos de 19 ou cerca de 30 bilhões de reais e gerará 11 mil ou 4 mil megawatts. Mas Belo Monte é urgente porque o Palácio do Planalto está sentado sobre mais de 60 projetos de usinas, licenciadas ou não. Boa parte dessas barragens e linhões foram reservados para a Amazônia. Resolvida a questão de Belo Monte, que é o projeto mais polêmico, o resto irá no vácuo.</p>
<p>Tudoisso por que a região tem potencial sobrando? Quem dera. Por enquanto, o que há são dúvidas sem resposta e advertências no mínimo plausíveis, mas soberbamente ignoradas. Como a do engenheiro Enéas Salati, da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável. Salati vem combinando com calma e cautela o que já se sabe sobre mudança climática com o que se conhece dos rios nas 12 grandes regiões hidrológicas  do território brasileiro.</p>
<p>Ele encara um horizonte de 2015 a 2100. Não tem pressa, porque não vai ganhar nem perder um tostão com obra nem desmatamento. Mas já tem dados suficientes para prever que a vazão média dos rios na Amazônia tende a cair de 30 a 40% até o fim do século. Sem falar dos casos piores, como o do rio Tocantins, que nasce no Cerrado. Esse pode estar condenado murchar nas próximas décadas, reduzndo-se à metade do volume que tinha antes de 1990.</p>
<p>É para lá que o governo nos empurra, custe o que custar.</p>
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		<title>Depois da chuva, o vento pode virar</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Jan 2011 21:01:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades Sustentáveis]]></category>
		<category><![CDATA[Favelização]]></category>
		<category><![CDATA[Mudança Climática]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Os procuradores do Ministério Público Federal em Petrópolis mostram numa tabela como e por que não prosperam ações ambientais contra ocupações irregulares. Nunca foi tão fácil localizar os culpados pelas centenas de mortes na região serrana do Rio de Janeiro. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Petrópolis-Google-Geoeye2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1439" title="Petrópolis Google Geoeye" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Petrópolis-Google-Geoeye2.jpg" alt="" width="409" height="306" /></a></p>
<p><strong>T</strong>romba d’água, em qualquer lugar, cai de repente. Mas, nas cidades serranas do Rio de Janeiro, desastre ambiental é notícia velha. Data no mínimo de cinco anos, pela tabela em que os procuradores Vanessa Seguezzi e Charles Estêvão da Motta Pessoa listaram ações civis públicas na Área de Proteção Ambiental de Petrópolis.</p>
<p>Dela consta, por exemplo, a tentativa de “conter a expansão das ocupações irregulares” na “Comunidade da Vila União, acesso pela Estrada Velha, rua Lopes Trovão”. É uma história de 2005. Em 2009, saiu a liminar que mandava a prefeitura “demolir as moradias desocupadas no prazo de 60 dias, sob pena de multa diária de R$ 10 mil” e encomendava ao Ibama a restauração da floresta nas áreas ainda desocupadas, “no mesmo prazo e sob a mesma pena”, determinando que ambos ficassem dali para a frente encarregados de fiscalizar o local “bimestralmente”, contra a construção de novas casas.</p>
<p>Dito assim, parece que foi tiro e queda. Mas, na coluna seguinte, vem uma anotação que suspende todas as presunções em contrário: “Aguardando sentença”. Seguezzi é paranaense. Chegou em Petrópolis há quatro anos. “Para ficar”, ela afirma. Lá, divide a tutela de interesses coletivos – que incluem a defesa do meio ambiente &#8211; com  Motta Pessoa. Ambos foram recepcionados no município por ações que os antecendem e nem por isso se concluíram.</p>
<p>Foi também em 2005 que começou o processo de “reparação e compensação dos danos ambientais ocorridos na rua Professor Stroller, nº 1.883, Quarteirão Brasileiro”. O Ibama e a Prefeitura foram intimados a apresentar em 150 dias um “estudo técnico da área de risco”. E a administração municipal, a proceder à “retirada e realocação dos habitantes”, nos termos do tal estudo técnico, “informando ao juízo as eventuais pessoas que se recusarem a deixar o local”.</p>
<p>Mas o espaço reservado à a execução dessas ordens está ocupado por um lacônico “não há”. Quer dizer, não existem informações. Coisa que só acontece em favela? Quem dera. Há na lista uma ação de 2003 contra danos ambientais “ocorridos na Ladeira Nair de Oliveira Kronemberg”, como sempre por “ocupação irregular”. Entre os responsáveis pelo loteamento, aparece um Kronenberg, com o mesmo sobrenome da rua. Cheira a coisa de gente fina. Pelo cadastro do IPTU, os imóveis pertencem à Companhia Imobiliária Quitandinha.</p>
<p>Ali também caberia à Prefeitura “realocar as famílias e demolir todas as ocupações irregulares”. Ao Ibama, “apresentar projeto de reflorestamento”. A todos os réus, executá-lo. Nesse ponto, mais uma vez, a história acaba de repente. Não dá mesmo para exigir muita eficácia ambiental de um Município que, segundo Seguezzi, “destina 6,5 milhões de reais à área da Cultura”, “310 mil ao meio ambiente” e “370 mil à habitação”.</p>
<p>Dos dez casos arrolados pela procuradora, só um, aberto há mais de cinco anos na rua Hermógenes Silva, no bairro do Retiro, terminou em “sentença condenatória”, cinco meses atrás. O resto foi deixado no ar. Se não desabou sobre alguém nas últimas chuvas. Além das ações e de 12 inquéritos contra ocupações regulares, Vanessa Seguezzi está juntando pistas de “condomínios irregulares” na APA de Petrópolis. Santo remédio contra a lenda de que a lei só cai em lombo de pobre. Quando tem do outro lado a proteção da natureza, geralmente não cai em lombo de pobre nem de rico.</p>
<p>Fora os processados e os procuradores, até poucos dias atrás ninguém teria maiores motivos para manter os olhos sobre este inventário, que aponta culpas paa todos os lados. Por exemplo, da Ampla, empresa de energia elétrica que, como as outras concessionárias, aproveita o primeiro cutucão judicial para botar postes e fios em ocupações irregulares, ajudando a consolidá-las. É o caso, por exemplo, da invasão na rua Professor Stroller, objeto de uma notificação datada de agosto de 2007.</p>
<p>O dossiê de Vanessa Seguezzi e Charles Motta Pessoa desceu a serra na última enxurrada. Chegou ao centro do Rio de Janeiro, onde – pelas mãos de um padrinho atento a questões ambientais, o procurador Paulo Bessa &#8211; subiu ao gabinete da procuradora Cristina Schwansse Romanó, chefe da Procuradoria Geral da República na 2ª Região. E ali inspirou um pedido para que o Ministério Público siga em Teresópolis e Nova Friburgo o exemplo de Petrópolis, enviando-lhe relatórios semelhantes.</p>
<p>Romanó, pelo cargo que ocupa, tem linha direta com o plenário do Tribunal Regional Federal. É nessa instância que se processam administradores municipais. E, numa calamidade que até o momento teve mais de 700 mortos e nenhum culpado, eis o primeiro sinal de que os ventos podem virar.</p>
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		<title>A chuva não pode ir para a cadeia</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2011/01/15/a-chuva-nao-pode-ir-para-a-cadeia/</link>
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		<pubDate>Sat, 15 Jan 2011 15:02:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura]]></category>
		<category><![CDATA[Código Florestal]]></category>
		<category><![CDATA[Crise climática]]></category>

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		<description><![CDATA[As piores surpresas do clima estão virando rotina. Mas suas consequencias seriam menores se as autoridades que promovem a ocupação das áreas de risco ou a degradação de rios e encostas fossem tratadas como homicidas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1431" class="wp-caption aligncenter" style="width: 419px"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Friburgo-Steimann.jpg"><img class="size-full wp-image-1431 " title="Friburgo Steimann" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Friburgo-Steimann.jpg" alt="" width="409" height="306" /></a><p class="wp-caption-text">Nova Friburgo, na década de 1830, pelo viajante Johann Jacob Steinmann</p></div>
<p><strong>D</strong>as surpresas do clima quem pode falar por todos os políticos com conhecimento de causa são os faraós egípcios. Eles, como o ex-presidente Lula, agiam como enviados do céu à terra. E, ao contrário do ex-presidente Lula, não falam desde que saíram de cena, a não ser por intermédio de escribas e hieroglifos.</p>
<p>Mas, como encarnações do sol, se o sol fracassava lá em cima eram arrancados do trono cá embaixo, surrados e cuspidos no fundo do Nilo. Tudo porque  o rio deixava de inundar o delta que nutria seu reino agrícola. Lá, o regime político mudava conforme o regime do rio. Tornava-se violento e insurreto até o Nilo voltar à normalidade, irrigando uma nova dinastia.</p>
<p>As vítimas dessas tragédias políticas e climáticas não tinham, na época, como saber que as cheias do Nilo eram regidas pelas chuvas de monção do Sudeste Asiático, que por sua vez dependiam de ventos conjurados pela temperatura das águas no oceano Pacífico, do outro lado da terra, na costa da América do Sul, um lugar mais distante que o sol do cotidiano egípcio.</p>
<p>O culpado da desordem era um fenômeno natural que só entrou há duas décadas no noticiário internacional, com o nome de El Niño. Mas deixar o clima fazer seus estragos à solta, em Tebas ou Menfis, tinha custo político, porque da regularidade do rio dependiam vidas humanas. O preço era injusto, cruel e exorbitante. Como é injusto, e talvez seja também cruel e exorbitante, que hoje não se processe no Brasil, por homicídio culposo, o político que patrocina baixas evitáveis e supérfluas em encostas carcomidas e vales entulhados por ocupações criminosas.</p>
<p>No dia em que um prefeito, olhando as nuvens no horizonte, enxergar a mais remota possibilidade de ir para a cadeia pelas mortes que poderia impedir e incentivou, as cidades brasileiras deixariam aos poucos de ser quase todas, como são, feias, vulneráveis e decrépitas. De graça, ou com o dinheiro virtual do PAC, os políticos não consertarão nunca a desordem que os elege.</p>
<p>Não adianta ameaçá-los com ações contra o Estado ou a administração pública, porque o Estado e a administração pública, na hora de pagar a conta, somos nós, os contribuintes. O remédio é responsabilizar homens públicos como pessoas físicas pelos crimes que cometem contra a vida. Às vezes em série, como acaba de acontecer na região serrana do Rio de Janeiro.</p>
<p>O resto é conversa fiada. Ou, pior, papo de verão em vôo de helicóptero, que nessas ocasiões poupa às autoridades até o incômodo de sujar os sapatos na lama. Pobres faraós. O longo e virtuoso o caminho civilizatório que nos separa de seu linchamento está nos levando de volta à impunidade anárquica das entressafras dinásticas, quando a favelização lambia até as suntuosas muralhas de Luxor.</p>
<p>Linchar um político não é a mesma coisa que malhar seus projetos. E os brasileiros estão perdendo mais uma chance de bater com força no projeto de lei número 1876/99, que o deputado Aldo Rabelo transfigurou, para enquadrar o Código Florestal nos princípios do fato consumado. Ele propõe reduz à metade as áreas de preservação em margens de rio, dispensa da reserva legal propriedades pequenas ou médias e consolida os desmatamentos ilegais. Nunca foi tão fácil saber aonde ele quer chegar com isso, folheando as fotografias aéreas das avalanches em Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Dá para ver nas imagens o que havia antes nos pontos mais atingidos. Ou, com clareza maior ainda, <a href="http://www.oecocidades.com/2011/01/14/destruicao-no-vale-do-cuiaba-ocorreu-dentro-de-apps/">nestes estragos que precederam a enxurrada no Vale do Cuiabá</a>. É o que o novo Código Florestal vai produzir no campo. Mais disso.</p>
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		<title>É bom lembrar que o mundo gira</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Jan 2011 13:03:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Crise climática]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Negócios]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando se fala em exportar água das geleiras do Alasca para o Oriente Médio, o mundo dá uma volta completa em torno da Wenham Lake Ice Company, que mandou no século XVIII o gelo de um lago americano para o mundo, até a competição descobrir que qualquer um podia fazer a mesma coisa. O Wenham é hoje um reservatório de Boston.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Glaciar.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1425" title="Glaciar" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Glaciar.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p><strong>N</strong>ada como a reciclagem de uma velha notícia para entrar no reveillon sabendo que, apesar dos pesares, o mundo ainda dá voltas ao redor de si mesmo. Trata-se da história contada em O Globo pelo reporter Cesar Baima sobre água o do lago Blue, no Alasca, que será exportada por duas empresas para uma engarradora na Índia e, de lá, para o Oriente Médio. Sinal dos tempos, certo?</p>
<p>Nem tanto. No verão de 1844, estreou em Londres a filial da Wenham Lake Ice Company, de Boston. Expunha na vitrine um bloco translúcido de gelo. Tirado de glaciações nos Estados Unidos, era tão cristalino que, através dele, lia-se o jornal do dia, como atestado de pureza.</p>
<p>O truque publicitário embasbacou os londrinos, que nunca tinham visto gelo assim. A rainha Victoria credenciou a Wenham como provedora de Buckingham. O novelista William Thackeray engastou o inédito mineral precioso numa de suas tramas de fição. Foi um sucesso retumbante.</p>
<p>E breve. A Noruega, bem ali ao lado, rapidamente invadiu o mercado britânico com seu próprio gelo de Wenham. Vinha do lago de Oppengaard, perto de Oslo. Estava dispensado de cruzar o Atlântico. E, para pegar a onda americana, o lago foi rebatizado. De Oppengaard, virou Wenham, como o precursor já notório.</p>
<p>Tudo isso se deve à obstinação de Frederic Tudor, um bostoniano bem nascido que dissolveu a fortuna da família para implantar o comércio ultramarino de um produto que ninguém precisava fabricar, por ser fornecido pela natureza a céu aberto em quantidades aparentemente ilimitadas.</p>
<p>Bom, bonito e barato, o produto só tinha duas contra-indicações. Era imune a patentes. E tendia a passar do estado sólido ao líquido durante a viagem. Coube ao dinheiro de Tudor bancar as experiências que derreteram a relutância dos armadores em carregar navios com o que, no fundo, era só água.</p>
<p>Sua primeira remessa de tres toneladas descongelou num porto da Inglaterra, enquanto os fiscais da alfândega coçavam as cabeças para classificá-la. Aos poucos, Tudor acabou que blocos compactos e grandes, envoltos em serragem – por sinal, outro artigo então invendável – podiam ir de Boston a Bombaim.</p>
<p>Aliás, o gelo fez com frequencia a circum-navegação das Américas, para chegar da costa leste à Califórnia, via cabo Horn. No fim, Tudor não criou o que hoje se chama “negócio sustentável”. E seu lago de Wenham virou reservatório de Boston. Mas, a suas custas, ele mudou para sempre os costumes e a economia do planeta.</p>
<p>O gelo itinerante universalizou o consumo popular do sorvete, conhecido desde o Império Romano como requinte sasonal e raro. Permitiu que a carne argentina conquistasse o Hemisfério Norte, a lagosta do Pacífico viajasse a Chicago e as frutas tropicais debutassem no inverno europeu. Só na rede ferroviária dos Estados Unidos, até a década de 1930, circulavam mais de 180 mil vagões frigoríficos, refrigerados a gelo.</p>
<p>Esquecidos, o triunfo e o fiasco de Tudor voltaram à tona ultimamente, na enxurrada de livros que anunciam, sobretudo em inglês, o advento da era em que a água e seus derivados serão monopolizados pelos espertos. O escritor norte-americano Bill Bryson pescou-os numa dessas publicações, tornando a história de Wenham mais palatável em <em>At Home – </em>uma dissertação enciclopédica sobre sua velha casa em Norfolk, num cafundó da Inglaterra. Bryson anda empenhado em mostrar que a natureza não parece, mas tem preço.</p>
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		<title>Para quem não for ministro em 2011</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/29/para-quem-nao-for-ministro-em-2011/</link>
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		<pubDate>Wed, 29 Dec 2010 21:55:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Ano Novo]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Mudança Climática]]></category>

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		<description><![CDATA[De quatro em quatros anos, o réveillon se confunde no Brasil com a posse de novos governos. Por isso mesmo, está mais do que na hora de festejar o fato de que nem tudo neste planeta se resolve lá em cima. Muita coisa pode acontecer cá embaixo, enquanto os políticos se divertem, fazendo o possível para o mundo continuar o mesmo. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Fogos.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1405" title="Fogos" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Fogos.jpg" alt="" width="409" height="281" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p><strong>O</strong>s políticos trabalharam tanto ultimamente para compor o ministério do governo Dilma Rousseff, embananar mais uma conferência do clima em Cancún e resolver outros problemas cruciais da humanidade, que às vezes a gente se esquece de quem trata de assuntos concretos cá embaixo.</p>
<p>Séculos inteiros podem passar sobre o cotidiano antes que um historiador como Fernand Braudel resolva cavucá-lo em busca da História silenciosa, a que parece imóvel mas, calada, move o mundo. E nada impede que, um dia, 2010 seja lembrado como o ano em que a GM começou a fazer nos Estados Unidos um carro elétrico, o Volt, com a escória do plástico que serviu para enxugar o óleo derramado pela BP no Golfo do México.</p>
<p>Isso não faz necessariamente da GM um modelo para o futuro. Suas vendas de carros estão em queda. As de picapes e outros mastodontes de lata em alta. O Volt fecha o ano com 10 mil carros vendidos. Deve emplacar uns 45 mil em 2011. Por enquanto, só está aí para provar que existe. Mas é o quanto basta para lançar a sombra da obsolescência e do anacronismo sobre os carros que fabricamos, importamos e compramos como nunca no Brasil. Se até a GM já faz carro elétrico, está na hora de adiar a visita às concessionárias que não acertarem o passo com as matrizes estrangeiras.</p>
<p>Não adianta argumentar que, sim, nossos carros novos estão na fila de velharia, mas em compensação o i-Pad e todos os “i-s” da Apple já desembarcaram em massa no Brasil. Vestidos de alumínio, são todos tão elegantes que esta semana, no <em>Wall Street Journal</em>, o jornalista Brett Arends, guru de bolsa, admitiu que as ações da Apple furaram estrepitosamente o teto de cotação que ele considerava prudente, ou mesmo possível. É que não se trata mais de uma empresa de tecnologia, mas de uma grife. “A Apple”, ele alegou, “é uma marca de luxo, como a Hermés ou Tiffany”.</p>
<p>E é exatamente por estar tão em voga que não pode dar ao freguês a sensação de que, ao adquirir um objeto bonito, comete em público um ato feio. Para remediar esse embaraço, a última palavra em acessório para MacBook pode ser um atestado de bom comportamento, expedido em Nova York pela Belgrave Trust.</p>
<p>A Belgrave calculou quanto cada MacBook de alumínio custará ao planeta, da fábrica ao fim da vida útil. São 630 quilos de dióxido de carbono, que o feliz proprietário pode zerar, de saída, pela bagatela de 10 dólares, investidos em reflorestamento. Se colar, a indulgência ambiental da Belgrave arrecadará uns 100 milhões de dólares. É árvore que não acaba mais.</p>
<p>E para não parecer que só o presente aponta para o futuro, ponha-se no pacote deste Natal o Homem de Denisovan. Ou seja, o osso da mão de uma prima do Homem de Neandertal descoberta na Sibéria. É uma velha obsessão do biólogo americano Bernd Heinrich o sumiço repentino dessas criaturas, que tinham cérebros tão grandes quanto os nossos, usavam fogo, despachavam seus mortos com flores e zanzaram pela Ásia e a Europa por mais de 250 mil anos</p>
<p>Ele acredita que o Homem de Neandertal sobreviveu pacificamente a tres eras glaciais por ter o corpo coberto de pelos, como o dos macacos japoneses que vivem na neve. Desapareceu porque o clima esquentou, abrindo alas para o glabro <em>Homo sapiens </em>e sua incurável propensão a exterminar tudo o que considera diferente. O homem peludo sofreu a primeira campanha de limpeza étnica de nossa história. E Heinrich insiste que ele até hoje tem algo a nos dizer sobre as vantagens para o planeta da coexistência pacífica. A época não poderia ser mais propícia para o dedo de Denisovan indicar o caminho.</p>
<p>E feliz Ano Novo!</p>
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		<title>Adeus à onça, com ótimas lembranças</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/21/adeus-a-onca-com-as-melhores-lembrancas/</link>
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		<pubDate>Tue, 21 Dec 2010 21:12:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação]]></category>
		<category><![CDATA[Fauna]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Onças]]></category>

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		<description><![CDATA[Em "Jaguar", o biólogo Evaristo Eduardo de Miranda e a jornalista Liana John conseguem nos dar saudades antecipadas desse bicho que continua por aí, mas deixou de ser há muito tempo "O Rei das Américas" do subtítulo,  que o belo livro prudentemente reservou às páginas internas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Onças-trepando.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1368" title="Onças trepando" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Onças-trepando.jpg" alt="" width="474" height="296" /></a></p>
<p><strong>H</strong>á onças que nos perseguem pela vida afora. Como a que atravessa o caminho de Dante para o Inferno. “<em>Lonza leggera</em>”, de pelo “<em>macolato</em>”, vista na “selva selvagem, dura e forte” da Itália do século XIV, quase 200 anos antes que as onças propriamente ditas fossem descobertas pelos europeus na América.</p>
<p>Que <em>lonza</em> era então aquela, tão longe de casa e de época? O livro <em>Jaguar</em>, do biólogo Evaristo Eduardo de Miranda e da jornalista Liana John acaba de dar, senão a resposta, um bom motivo para desistir da pergunta. Afinal, todos os felinos do mundo vêm de um certo <em>Proailurus</em>, que andou pela Europa há uns 25 milhões de anos.</p>
<p>A descendência do <em>Proailurus</em> só veio a perder definitivamente a cidadania européia há 10 mil anos, no corpo da uma <em>Panthera onca toscana. </em>“Toscana”, portanto, como a terra de Dante. Daí a parar na <em>Divina Comédia</em> é um pulo. Grande, sem dúvida. Mas nada que se compare a saltar de um continente a outro, por cima do Atlântico, antes do descobrimento. Basta isso para fazer de <em>Jaguar </em>um desses livros que contam até o que sequer passou pelas cabeças dos autores.</p>
<p>Aí, não há como deixar de conferir o que eles têm a dizer nas outras 299 páginas. O livro oculta um subtítulo: “O Rei das Américas”. Discreto como a própria onça, ele escapou da capa para as páginas internas. Na capa, poderia espantar quem considera o jaguar é o rei de um reino perdido. Perdeu, por exemplo, boa parte de um território que invadia os Estados Unidos pelo menos até o Grand Canion e costeava as praias brasileiras de norte a sul, enquanto nelas ainda havia mata atlântica.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Caçada-de-Onça.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1370" title="Caçada de Onça" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Caçada-de-Onça.jpg" alt="" width="474" height="296" /></a></p>
<p>Está na lista de espécies ameaçadas de extinção da União Internacional de Conservação da Natureza. Quantos são? Com boa vontade, 100 mil. Seja qualquer for seu número, trata-se de uma população cada vez mais isolada em fragmentos florestais declinantes e santuários da fauna tropical que se espalham como retalhos por 18 países.</p>
<p>E de que lhe adianta ser rei nesses tempos republicanos, em que os Estados Unidos lhe negaram em 2008 visto de entrada para projetos de repovoamento? Se ele zanzasse livremente de um lado para outro, abriria brechas na fronteira mexicana a todos os migrantes indesejáveis. Como rei, ele perdeu também estatura. Mal chega às costelas do bisavô <em>Panthera atrox, </em>o leão-americano que, pelos fósseis encontrados na Califórnia, passava dos três metros de comprimento e dos 300 quilos de peso. Humilhava o leão africano.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Peles-de-Onça.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1371" title="Peles de Onça" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Peles-de-Onça.jpg" alt="" width="478" height="299" /></a></p>
<p>O <em>Panthera atrox</em> acabou faz tempo, junto com todo o bestiário mastodôntico que a presença humana tirou do mapa americano milênios antes do descobrimento. E foi assim, pela mão do homem e da mudança climática, que começou o reinado do jaguar como maior carnívoro da América, sem adversário na natureza. “Nenhum império humano durou tanto”, lembra Miranda. Ele agora está no fim pela mesma combinação de fatores que promoveu seu coroamento no fim do Pleistoceno – a influência do homem e a do clima.</p>
<p>Para rei, só não lhe faltam os títulos inatos. É um caçador furtivo e eficaz. Seu nome indígena, <em>jaguar</em>, significa “aquele que luta”. Um macho adulto pode andar 50 quilômetros numa noite, medir quase dois metros, sem contar a cauda, pesar cerca de 100 quilos e fazer tudo isso desaparecer na folhagem mais rala, com o contorno de seu corpo borrado pelas manchas da pelagem. Não tem fronteiras, como prova a inexistência de subespécies da <em>Panthera onca, </em>sinal de que andou por aí trocando genes entre os hemisférios enquanto circulou livremente pela América. Nem por isso mereceu até agora um salvo-conduto internacional como o que, mal ou bem, defende do extermínio as baleias.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Vaso-de-Onça.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1372" title="Vaso de Onça" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Vaso-de-Onça.jpg" alt="" width="474" height="296" /></a></p>
<p>Ainda é caçado no Brasil até dentro de parques nacionais, como troféu esportivo, como dono de pele valorizada pelo mercado negro ou como inimigo número 1 da pecuária. Por isso, cada linha de sua história soa desde já a homenagem póstuma. E não deve ser à toa que a segunda parte do livro trata do “Jaguar Mítico” – o que vai ficar, em forma de esculturas pré-colombianas, pinturas rupestres, cerâmicas indígenas, cédulas de 50 reais ou automóvel inglês. Como souvenir da incompetência humana.</p>
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		<title>Vem aí o quilombo do Jardim Botânico?</title>
		<link>http://marcossacorrea.com.br/2010/12/05/vem-ai-o-quilombo-do-jardim-botanico/</link>
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		<pubDate>Sun, 05 Dec 2010 21:07:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Favelização]]></category>
		<category><![CDATA[Jardim Botânico]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Tem a marca da ONG Koinonia, um movimento cristão fundado nos Estados Unidos há 20 anos, a idéia do museu que preservaria a memória dos moradores que ocupam indevidadamente o Jardim Botânico no Rio de Janeiro. Onde a fórmula vingou, plantou-se a semente da titulação fundiária de quilombos, cuja expansão a Koinonia patrocina. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Koinonia.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1353" title="Koinonia" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Koinonia.jpg" alt="" width="363" height="261" /></a></p>
<p><strong>N</strong>ão podia faltar o dedo da Koinonia no projeto para entronizar as invasões do Jardim Botânico num Museu do Horto, contando sua própria história do arboreto bicentenário. O museu deve ser coisa grande e urgente. Tem 1,8 milhão de reais para instalar-se e quase a metade de seu orçamento reservada ao pagamento do pessoal que, mesmo trabalhando pela causa, não é de ferro.</p>
<p>Com essa verba, daria para fazer um programa habitacional de fina lavra para os moradores que se sentem na fila do despejo judicial. Mas a idéia, ali, não é bem essa. Patrocinada por uma rede ecumênica de doadores que inclui a Fundação Ford, a Agência Canadense de Desenvolvimento, a igreja norueguesa e até um Fundo Mundial para o Socorro dos Primatas, a Koinonia devota seus melhores esforços ao avanço de “grupos historica e culturalmente vulneráveis”.</p>
<p>Recuar, portanto, não é com ela. E nós, brasileiros, oferecemos não é de hoje “grupos historica e culturalmente vulneráveis” para todas vocações catequéticas. Já era assim quando os missionários quinhentistas desembarcaram aqui, na proa do comércio ultramarino, para dilatar “a Fé e o Império” em nome de inciativas cristãs sem fins lucrativos, como é a Koinonia.</p>
<p>Ela surgiu há cerca de 20 anos em Greenville, na Carolina do Norte, como Curso da Escola Dominical da Igreja Batista de Wake Forest. Promove “a palavra de Cristo através do serviço aos necessitados”, num mundo sem fronteiras, abarcando “numerosas etnias, realidades sócio-econômicas, modos de vida e idades”, em busca de uma “unidade multicultural” de “alcance global”. Seu nome, <em>Koinonia,</em> vem do grego, para “comunhão”.  É “uma igreja em movimento pelo, para e via o poder de Deus”. Atua em 130 países. Instalou-se no Brasil em 1994.</p>
<p>Aqui, parece estar em todas. Na última campanha presidencial, durante a crise de fervor religioso da candidata Dilma Rousseff, veiculou um abaixo-assinado com as promessas de voto, as queixas e as expectativas do Povo Tradicional de Terreiro. A carta criticava o conchavo da candidata “com pastores evangélicos”, num “infeliz episódio”. Reavivava “as denúncias e mais denúncias” sobre o “repasses de verbas, convênios e parcerias de governos municipais, estaduais e federal” a entidades pentecostais, “que não foram cumpridos ou foram usados de forma indevida, criminosa até”.</p>
<p>Prometia-lhe o apoio da População Negra. E agendava com a presidente um encontro formal com os representantes nacionais do Povo Tradicional de Terreiro, “após as eleições, onde a senhora, com a ajuda dos Vòdúns, Nkices, Òrisá’s, Encantados, Caboclos, Castiços e Exús, será vitoriosa”. O encontro lhe encomendaria a revisão do Estatuto da Igualdade Racial, que até agora não ouviu “a População Negra e suas demandas”.</p>
<p>Como pode acontecer com o Museu do Horto, um dos vínculos que selaram a aliança da Koinonia com o Povo Tradicional de Terreiro foi a organização de centros de memória para o candomblé. E, com a População Negra, funciona um pacto de apoio incondicional à titulação fundiária dos quilombos, em sua acepção mais vaga – a da semântica antropológica, que ultimamente passou a considerar quilombo tudo o que se diz quilombo. Eles já são 743, em 21 estados. A Secretaria Especial para a Promoção da Igualdade Racional – gestora do tal estatuto que o Povo Tradicional de Terreiro acha insatisfatório – estima seu número em “pelo menos” 3 mil.</p>
<p>A vereadora carioca Andrea Gouvêa Vieira levantou uma ponta desse novelo, ao declarar que <a href="Não podia faltar o dedo da Koinonia no projeto para entronizar as invasões do Jardim Botânico num Museu do Horto, contando sua própria história do arboreto bicentenário. O museu deve ser coisa grande e urgente. Tem 1,8 milhão de reais para instalar-se e quase a metade de seu orçamento reservada ao pagamento do pessoal que, mesmo trabalhando pela causa, não é de ferro.  Com essa verba, daria para fazer um programa habitacional de fina lavra para os moradores que se sentem na fila do despejo judicial. Mas a idéia, ali, não é bem essa. Patrocinada por uma rede ecumênica de doadores que inclui a Fundação Ford, a Agência Canadense de Desenvolvimento, a igreja norueguesa e até um Fundo Mundial para o Socorro dos Primatas, a Koinonia devota seus melhores esforços ao avanço de “grupos historica e culturalmente vulneráveis”.  Recuar, portanto, não é com ela. E nós, brasileiros, oferecemos não é de hoje “grupos historica e culturalmente vulneráveis” para todas vocações catequéticas. Já era assim quando os missionários quinhentistas desembarcaram aqui, na proa do comércio ultramarino, para dilatar “a Fé e o Império” em nome de inciativas cristãs sem fins lucrativos, como é a Koinonia.  Ela surgiu há cerca de 20 anos em Greenville, na Carolina do Norte, como Curso da Escola Dominical da Igreja Batista de Wake Forest. Promove “a palavra de Cristo através do serviço aos necessitados”, num mundo sem fronteiras, abarcando “numerosas etnias, realidades sócio-econômicas, modos de vida e idades”, em busca de uma “unidade multicultural” de “alcance global”. Seu nome, Koinonia, vem do grego, para “comunhão”.  É “uma igreja em movimento pelo, para e via o poder de Deus”. Atua em 130 países. Instalou-se no Brasil em 1994.   Aqui, parece estar em todas. Na última campanha presidencial, durante a crise de fervor religioso da candidata Dilma Rousseff, veiculou um abaixo-assinado com as promessas de voto, as queixas e as expectativas do Povo Tradicional de Terreiro. A carta criticava o conchavo da candidata “com pastores evangélicos”, num “infeliz episódio”. Reavivava “as denúncias e mais denúncias” sobre o “repasses de verbas, convênios e parcerias de governos municipais, estaduais e federal” a entidades pentecostais, “que não foram cumpridos ou foram usados de forma indevida, criminosa até”.   Prometia-lhe o apoio da População Negra. E agendava com a presidente um encontro formal com os representantes nacionais do Povo Tradicional de Terreiro, “após as eleições, onde a senhora, com a ajuda dos Vòdúns, Nkices, Òrisá’s, Encantados, Caboclos, Castiços e Exús, será vitoriosa”. O encontro lhe encomendaria a revisão do Estatuto da Igualdade Racial, que até agora não ouviu “a População Negra e suas demandas”.   Como pode acontecer com o Museu do Horto, um dos vínculos que selaram a aliança da Koinonia com o Povo Tradicional de Terreiro foi a organização de centros de memória para o candomblé. E, com a População Negra, funciona um pacto de apoio incondicional à titulação fundiária dos quilombos, em sua acepção mais vaga – a da semântica antropológica, que ultimamente passou a considerar quilombo tudo o que se diz quilombo. Eles já são 743, em 21 estados. A Secretaria Especial para a Promoção da Igualdade Racional – gestora do tal estatuto que o Povo Tradicional de Terreiro acha insatisfatório – estima seu número em “pelo menos” 3 mil.   A vereadora carioca Andrea Gouvêa Vieira levantou uma ponta desse novelo, ao declarar que não é só o futuro das invasões do arboreto que está em jogo no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Talvez esteja em gestação um quilombo do Horto. Não seria a primeira semente exótica a vingar naquele espaço, onde tudo pega. Nem no Brasil, onde já prevenia a Carta do Descobrimento que a terra “de tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”.  ">não é só o futuro das invasões e a integridade do arboreto que estão em jogo no Jardim Botânico do Rio de Janeiro</a>. Talvez esteja em gestação um quilombo do Horto. Não seria a primeira semente exótica a vingar naquele espaço, onde tudo pega. Nem no Brasil, onde já prevenia a Carta do Descobrimento que a terra “de tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”.</p>
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		<title>Que belo horto para plantar favela!</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Dec 2010 20:56:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Favelização]]></category>
		<category><![CDATA[Jardim Botânico]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Agora que estão sainde em série sentenças contra os invasores, está sob bombardeio político a batalha na Justiça que abriu caminho para a restauração do arboreto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro seus limites originais. Lá dentro há mais de 500 moradias irregulares. E o Serviço do Patrimômnio da União não quer as terras de volta. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/JB-Google-Earth.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1350" title="JB Google Earth" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/JB-Google-Earth.jpg" alt="" width="409" height="293" /></a></p>
<p><strong>V</strong>eterano de lutas contra o patrimônio público no Rio de Janeiro, o deputado Edson Santos presenteou a cidade nesta antevéspera de Natal com um texto irrefutável. Não dá para refutá-lo, porque que cada palavra do texto colide com a seguinte, o que é admirável mesmo para numa época em que os políticos brasileiros conquistaram a prerrogativa de dizer qualquer coisa.</p>
<p>A primeira frase de Edson Santos vai diretamente ao ponto final. Ela declara que “é perfeitamente possível conciliar a permanência dos moradores do Horto Florestal com a expansão da  área de visitação do Parque Jardim Botânico, também conhecida como arboreto”. Pode-se parar por aí. Para começo de conversa, ele junta “moradores” com “Horto Florestal” como se não houvesse a menor atrito entre essas palavras.</p>
<p>E o pior é que, até aí, tudo bem. O oxímoro retrata a realidade, porque a realidade ali é absurda. Aquilo se chama Horto porque abrigou no século passado talhões de mudas para reflorestamento. Eles constam de mapas do Ministério da Agricultura até meados da década de 1940. Suas alamedas tinham nomes de árvores.</p>
<p>Era, então, um Horto ao pé da letra. A cidade perdeu-o. Ele foi surrupiado por administrações pródigas e funcionários espertos, depois por descendentes e colaterais de funcionários espertos, enfim por amigos e locatários de funcionários espertos. Qualquer um aproveitou a bagunça para se aboletar no jardim.</p>
<p>O Jardim Botânico sequer fez a conta das casas que semeava. Seu número ainda varia entre 550 e 621. Há entre elas residências funcionais que ainda guardam os traços da arquitetura oficial. E também biroscas, garagens, oficinas e puxadinhos para acomodar famílias que procriam, parentes que chegam de longe e carros não param de se multiplicar.</p>
<p>Favelizou-se, portanto, um jardim bicentenário do Rio de Janeiro. Com pretextos tão frágeis que bastou a teimosia de um procurador para desmontá-los. Ele se chama Luiz Cláudio Pereira Leivas. Disparou sobre cada imóvel do Jardim Botânico um petardo jurídico de longo alcance e mira telescópica. Seus processos tramitaram sozinhos por quase duas décadas, sem que qualquer diretor do Jardim Botânico movesse um dedo para empurrá-los. Vingaram pela força de seus próprios argumentos. E as sentenças para reintegração da posse começaram a despontar em série, uma a uma, nas mais altas instâncias judiciais.</p>
<p>Aí, com o caso julgado, a Secretaria do Patrimônio da União resolveu descumprir as sentenças. O deputado Edson Santos, recém-desembarcado do governo federal, onde foi ministro da Integração Racial, defende essa nova, militante e omissa SPU contra o tradicional Serviço do Patrimônio da União. Ele aprecia invasões. Elege-se em parte com o apoio delas. Defende-as por princípio e por afinidade política. Apoia até a invasão que desfigurou na Zona Oeste a Colonia Juliano Moreira. Nela, hoje, só restam sintomas de sanidade ambiental e administrativa no pavilhão dos dementes. O resto a loucura fundiária e urbanística do Rio de Janeiro contagiou.</p>
<p>Isso faz do deputado Edson Santos um especialista no assunto? Quem dera. A especialização é artigo em baixa na política brasileira. Ao advogar a invasão do Horto, ele errou feio. Definiu de cara o arboreto como “área de visitação do Parque Jardim Botânico”. Ainda nem percebeu que o arboreto é, oficialmente, o laboratório a céu aberto de um instituto de pesquisas chamado Jardim Botânico do Rio de Janeiro, cuja Escola Nacional de Botânica Tropical está, por sinal, separada dos laboratórios e bibliotecas pela favela do tal “Parque Jardim Botânico”. Isso só ele sabe o que é e onde fica.</p>
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		<title>A velhice do Novo Mundo, modelo 2010</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Dec 2010 00:10:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Sá Corrêa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Conservação Ambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Crise climática]]></category>
		<category><![CDATA[Renovação urbana]]></category>

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		<description><![CDATA[O Brasil foi mostrar em Madri que mais do que nunca é o Novo Mundo. E encontrou a velha capital européia renovada pelo esforço que faz a Espanha para se ajustar a um futuro próximo de incertezas climáticas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/PB280047.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1332" title="PB280047" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/PB280047.jpg" alt="" width="363" height="272" /></a></p>
<p><strong>O</strong> Brasil lançou na semana passada em Madri seu modelo 2011 de  Novo Mundo. A nova versão daquele paraiso ultramarino e pródigo que há 500 anos caiu como maná numa Europa exaurida. Foi o primeiro país convidado a participar do Congresso Nacional de Meio Ambiente, uma bienal que, criada pelo Colégio Oficial de Físicos há 18 anos, desde sua primeira edição se manteve, como diz seu nome, estritamente “nacional”. Ou seja, espanhola.</p>
<p>Chegar lá antes de todos os outros países latino-americanos, que pelo menos falam a mesma língua dos anfitriões, não é pouca coisa. E a delegação brasileira fez o possível valorizar seus trunfos, numa euforia típica do clima Pré-Sal e Pós-Lula. Ouviu mais de uma vez dos espanhóis que seus recursos naturais dão “inveja” aos europeus. Em troca, um portavoz da delegação brasileira decalarou que seu país não tem a pretensão de resolver todos os problemas do mundo. Modéstia à parte.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/PB280051.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1333" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="PB280051" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/PB280051.jpg" alt="" width="273" height="363" /></a>O congresso é, antes de mais nada, um foro de “negócios ambientais”, embora corra em seus auditórios o ambientalismo puro-sangue dos circuitos acadêmicos e monastérios budistas.  Ali, só dá para vender autoconfiança com cautela. Ficou claro que a  Amazônia terá que se render de uma vez por todas ao avanço das hidrelétricas, por exemplo. Mas as novas barragens serão construídas sobre plataformas fluviais, que prometem levar consigo os canteiros de obra quando cada usina estiver pronta, deixando na retaguarda florestas recompostas e novas áreas protegidas.</p>
<p>Em ritmo de oba-oba, o Brasil conseguiu falar de crescimento numa Europa cada vez mais conformada com a idéia de que, queiram ou não queiram, até os países mais ricos do planeta terão de aprender daqui para a frente a se virar com menos. E, se possível, viver melhor com menos.</p>
<p>O Palácio Municipal de Congressos, sede do congresso, ficou durante os cinco dias de debates inundado de folhetos sobre o futuro possível ou mesmo desejável da desordem climática. Só na Espanha, 7.500 quilômetros de ferrovias já viraram Vias Verdes, exclusivas para andarilhos e ciclistas. Entraram nos roteiros turísticos as Vias Pecuárias, com 4,2 mil quilômetros de caminhos milenares, traçados por pastores e seus rebanhos entre vales e montanhas.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Madri280004.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-1334" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Madri280004" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Madri280004.jpg" alt="" width="273" height="363" /></a>Parques e bosques se multiplicam no país ultimamente, partindo quase do centro de Madri até os confins mais áridos da Espanha. Dos parapeitos do Palácio Real, os jardins do arquiteto italiano Francesco Sabatini parecem desbobrar-se numa paisagem contínua de campos e florestas que só termina nas encostas já nevadas de Manzares el Real, no horizonte azulado pela distância.</p>
<p>Habituados a metrópoles como o Rio de Janeiro ou São Paulo cuja periferia é um subúrbio sem fim, onde a malha urbana rarefeita ou favelizada empurra para cada vez mais longe a área rural, os olhos de um brasileiro sempre estranham ao ver o interior tão perto do centro de grandes cidades européias.</p>
<p>E não é só. Em Madri, cinco depósitos de entulho ferroviário foram reflorestados e ajardinados. &#8220;Quando venho a Madri e vejo moinhos de vento no alto dos morros que á poucos anos não existiam eu sempre me lembro daquele Senhor de la Mancha&#8221;, comentou na abertura do congresso o presidente da Rede de Cidades para o Clima, Abel Caballero. Ele é de Vigo. E sua rede cobre 30 milhões de habitantes. São nada menos de  300 administrações locais aderiram formalmente a um vasto protocolo de adaptação aos alertas climáticos.</p>
<p>Em Madri, Ana Isabel Mariño, Conselheira de Meio Ambiente, Habitação e Ordenamento Territorial, lembra que até a água usada para lavar os trens do metrô é reciclada. Nas estações as escadas rolantes diminuem automaticamente a eocidade nas horas de movimento para poupar eletricidade. A energia solar aqece a água dos banheiros.</p>
<p>Com tantas prefeituras amarradas a metas estritas para o tratamento do lixo, o aproveitamento do metano como eletricidade, a devolução do esgoto ao estado de água potável ou ao fomento de energias alternativas, da eólica à geotérmica, o mercado não poderia ficar imune à onda de mudanças. Hoje, gravita ao redor da Rede Espanhola de Cidades para o Clima um frondoso comércio de soluções privadas para programas públicos. O mercado oferece desde casas que geram e poupam energia a fábricas que extraem “vidro ecológico” e cerâmicas finas dos tubos de imagem e outrs entranhas de televisores e computadores obsoletos.</p>
<p>Foi nessa moldura de austeridade e de inovação compulsórias que o Brasil exibiu sua fartura de recursos naturais. E freqüentemente valia mais a pena examinar a tal moldura do que admirar o otimismo brasileiro. Para irro, nem era preciso percorrer os estandes do congresso. Bastava descer os degrais da estação de metrô mais próxima e reemergir a esmo em qualquer canto de Madri, para dar de cara com uma capital européia que, em nome da crise climátixa, parecia mais dourada do nunca neste neste outono. Porque plantou 15 milhões de árvores, passou a reciclar 364 mil toneladas de lixo por ano, encheu de flores as alamedas, abriu em terra batida 286 quilômetros de passeios urbanos, tirou das ruas 385 mil carros particulares, diminuiu em 9.100 milhões de quilômetros o movimento de veículos motorizados na superfície e embarcou mais 2,5 milhões madrilenhos por dia nos transportes públicos subterrâneos, onde a propulsão é elétrica e vai se convertendo à eletricidade tirada das usinas de tratamento do esgoto ou do lixo. Segundo Mariño, ambientalismo não é a arte de botar a natureza numa redoma, mas de tratar a tratar sua paisagem como um direito inalienável de todo cidadão.</p>
<p><a href="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Madri-no-Outono80040.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1335" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; margin-left: 3px; margin-right: 3px;" title="Madri no Outono80040" src="http://marcossacorrea.com.br/wp-content/uploads/2010/12/Madri-no-Outono80040.jpg" alt="" width="273" height="363" /></a></p>
<p>Há soluções práticas de sobra na cartilha ambiental. Os vagões do metrô madrilenho – praticamente imunes as grafites – são pintados com tintas à base de água, para evitar a contaminação da atmosfera por solventes qímicos. O país deixou de construir 500 mil residências por ano, dando preferência à reablitação de bairros e cidades inteiras. Sai mais barato. E o resultado urbanistico é melhor. Até nas áreas mais velhas da capital, os quarteirões antigos estão remoçando. Cinemas escuros, daqueles que não podem sequer exibir nos cartazes da porta o que mostam lá dentro, convivem lado a lado pacificamente com lojas de grife e cafés com wi-fi.</p>
<p>Basta uma volta por essa Madri rejuvenescida pela antecipação do futuro climático para sentir que no Brasil anda faltando alguma coisa. Essa coisa que falta é a rotina inspirada na suspeita de que certas coisas um dia podem faltar. E, quando faltarem, é melhor que não façam mais falta alguma.</p>
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