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Diário de funcionário público

seg, jan 10, 2011

Destaques, Iguaçu 2010

Urgente e lacônico, o texto no celular avisa que “as cigarras estão dando sopa”, com a chegada do verão ao parque nacional do Iguaçu. Outro rascunho informa que uma onça-pintada foi vista dias atrás por funcionários da manutenção no quilômetro 26 da estrada que leva os turistas às cataratas. Um recado mais longo conta que “os ninhos de pássaros ao lado da casa 003 foram todos estraçalhados” por “gambá, tucano” ou outro predator “invisível”.

A 003 é a residência oficial do biólogo Jorge Pegoraro, chefe do parque e autor das mensagens. Ele fazia a ronda diária dos ocos e galhos no jardim, desde que a primavera povoou suas árvores de ovos e promessas. Está há quase oito anos no posto. E cada vez mais atraído pelas novidades que cercam seu cotidiano por todos os lados. Meses atrás, comprou uma máquina fotográfica. Passou a registrar seu dia-a-dia com a sofreguidão de quem pos as mãos em brinquedo novo e o conhecimento de causa de quem vê aquilo tudo sistematicamente, por dever profissional.

O dia-a-dia pode ser inexaurível, quando se tem sob sua jurisdição uma floresta de 185 mil hectares. Em poucas semanas de fotografia, Pegoraro tinha juntado uma fartura de imagens. No fim do ano passado, por exemplo, fez “um bonito (eu acho) jacaré (pequeno) no rio Iguaçu, numa volta de barco próxima à ilha dos Papagaios”.

Com as tardes alongadas pelo horário de verão, a cada fim de expediente, se a chuva deixar, ele pega o equipamento, atravessa em longos círculos o jardim e cai nas trilhas que fazem de sua casa um entrocamento de pegadas. Cruzam por ali rastros de catetos, de cutias, de cachorros-vinagre, de veados mateiros e de onças. Só com os pássaros que frequentam sua clareira daria para fazer um guia quase completo das aves do Iguaçu.

Só volta depois que a noite cai. Usa uma Rebel T1, a reflex digital mais modesta da Canon. Contenta-se com lentes básicas. Passou batido pelo labirinto técnico dos manuais. Mas tem olho clínico, capaz de identificar na penumbra animais que parecem sombras e ver silhuetas onde aparentemente só há manchas escuras. Com esses trunfos, e a prerrogativa de morar no parque nacional, virou fotógrafo de natureza do dia para a noite. Foi a última virada de uma carreira que, sempre que entorta, aponta mais para o mato.  Ele nasceu em Curitiba, formou-se por lá em Biologia quando o diploma servia quase exclusivamente para dar aulas em sala e entrou para o serviço público, por concurso, via Sudepe. A superintendência da pesca deu-lhe o primeiro emprego no porto de Paranaguá, o extremo oposto do Iguaçu.

Chegou ao Oeste do Paraná em 1989, depois que a criação do Ibama fundiu as autarquias que tratavam de recursos naturais no governo. Pegoraro foi realocado no escritório do Ibama em Cascavel, quando as serrarias já haviam raspado os últimos retalhos de mato no município. Mas o escritório continuava expedindo licenças de desmantamento para as cidades retardatárias cuidarem das sobras.

Ele não levou muito tempo para se convencer de que toda aquela região gravitava, em saber, em torno do parque nacional, cuja floresta é o maior investimento que os colonos conseguiram fazer na economia da região. Basta ver os dados oficiais sobre a economia de Foz do Iguaçu, a maior cidade da vizinhança. O turismo é, de longe, sua maior fonte de ocupação e renda. A “produção de energia” – ou seja, o produto da Itaipu Binacional, a maior hidrelétrica do mundo – vem em segundo lugar.

Jorge Pegoraro aproximou-se muito do parque na queda-de-braço com políticos locais, quando eles transformaram em questão de honra manter aberta a Estrada do Colono. Teve que defender a integridade da floresta contra os pontos de vista até de superiores hierárquicos, dispostos a entregar os pontos.

Acabou nomeado para dirigi-lo, em 1º de abril de 2003. Tem uma rotina complicada que inclui intermináveis reuniões para aparar as arestas e cauterizar os ressentimentos que sobraram da disputa. Encara frequentemente longas horas em viagens ao redor do parque, para manter a conversa em dia com quem mora no lado oposto ao da sede, a 200 quilômetros de distância. E discussões que quase sempre voltam ao ponto de partida. Pegoraro oferece projetos de parceria em turismo ecológico. E ouve pedidos de licença para a pesca esportiva nos rios da reserva.

Ele não abre mão de “saber tudo o que acontece” lá dentro, ouvindo mateiros, técnicos, guardas e operadores turísticos. Mas se considera até hoje incapaz de conhecer o parque como se deve – ou seja, “a fundo” . Seguir a rotina desse funcionário público entre o gabinete e a trilha revoga tudo o que se ouve falar por aí sobre preguiça burocrática.

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8 Comments For This Post

  1. Luiz Aurélio Says:

    A foto confirma a tese de que os biólogos constituem a única espécie que acha um chinelo algo muito confortável para se andar …. no mato.

    Marcos, andei eu percorrendo o texto à procura de um fotógrafo amador e não achei.

  2. Marcos Sá Corrêa Says:

    Caro Luiz Aurelio,

    Concordo com você da cabeça aos pés do Pegoraro. Biólogo é mesmo uma raça que usa chinelo como bota de trilha. Aliás, tenho um amigo argentino que é guia na Patagônia andina e, como ensina na prática turismo de baixo impacto, exige que se leve uma sandália na mochila pelo menos para usar nos acampamentos, porque isso diminui o pisoteio em volta da barraca. E biólogo, quando se mete a fotografar natureza, já sai mesmo para lá do meio do caminho. É amador, no máximo, pela metade

    Aproveito para dizer que, de volta ao Rio, pelo menos provisoriamente, estou enfim tentando por em ordem um guia do Brasil que acabou, por Francisco de Barros Júnior.

    Abração,

    Marcos

  3. Bruno Filippo Says:

    Caro Marcos,

    Conceda-me o direito de desviar do tema, por favor.
    Li outro dia a história de “Martinelli, o pródigo”, que você escreveu numa amarelada “Veja” do início de 1982. A história é fantástica! Fiquei pensando em que fim ela levou! Acho que você poderia escrever na “Piauí” sobre ela.

    Abraços de um fã

  4. Marcos Sá Corrêa Says:

    Que memória, hein, Bruno? Eu nem me lembrava mais de ter publicado a história do Martinelli. Será que ainda se encontra o processo? Obrigado pela lembrança.

    Abraço,

    Marcos

  5. Crisomar Lobato Says:

    Execelente trabalho do Chefe do Parque Nacional de Foz do Iguaçu. A maioria dos Funcinários Públicos são trabalhadores, competentes e honestos. A mídia é que só divulga a parte podre.
    Crisomar Lobato
    Diretor de Áreas Protegidas – SEMA/Pará

  6. Jane Says:

    Olá Marcos, vc vai publicar a coluna de ontem: “Aplausos para a paisagem que restou”?
    Estou aguardando p/ comentar.

  7. Marcos Sá Corrêa Says:

    Agora mesmo, Jane. Releve o atraso. Tive problemas com a conexão.

    Um abraço,

    Marcos

  8. Marcos Sá Corrêa Says:

    Antes de ir ao ar, a coluna provocou um comentário da arquiteta Andréa G. Redondo, anexando o seguinte artigo:

    O novo Plano Diretor para a Cidade do Rio de Janeiro, será sancionado:atribuição do Executivo e Legislativo municipais e obrigação constitucional desde 1988, é lei de especial interesse para urbanistas, arquitetos e juristas. As conseqüências de sua aplicação dizem respeito a todos.

    Graças à permanente e importante condição político-administrativa do Rio, a cidade sempre foi alvo de normas urbanísticas. Inúmeras. O Plano Diretor Decenal que está em vigor, de 1992, foi elaborado com participação ativa da sociedade civil. Compilou normas existentes, teve avanços e méritos: fortaleceu princípios das Políticas Sociais, consolidou conceitos sobre a Proteção do Meio Ambiente e do Patrimônio Cultural e estabeleceu fundamentos para igualar o valor da terra, só mais tarde presentes no Estatuto da Cidade.

    Denominou-se Decenal por ter sido prevista sua execução em dez anos,obviamente por excessivo otimismo do legislador, tamanha é a complexidade da metrópole.
    Ao ser revisto a cada 5 anos, se necessário, poderia ser objeto de inovações e adaptações conforme a dinâmica da cidade assim o exigisse. Caberia acrescentar poucos instrumentos da política urbana previstos no Estatuto em 2001, porventura ainda não contemplados.

    O texto aprovado pelo Legislativo e em vias de ser sancionado pretende ser o seguimento de proposta apresentada oficialmente em 2006, que fora objeto de audiências públicas, debates, e sugestões, mas cujo andamento estava paralisado. Pela primeira vez um projeto de lei complementar propunha regulamentar a figura do Solo Criado, conquista do Plano de 1992 que, se aprovada, modificaria as práticas do mercado imobiliário e, provavelmente, induziria a distribuição dos ganhos vindos da importante indústria da construção civil e beneficiaria programas habitacionais para a população de baixa renda. A idéia não prosperou.
    As alterações feitas no texto de 2006 a partir de 2009 permitem afirmar que trata-se de um novo projeto de lei. O cerne do futuro Plano – aumento e venda de índices construtivos na cidade, não guarda relação com os objetivos do Solo Criado. Esse aspecto central somado ao resto do conteúdo diverso comprova que se trata de lei reescrita pela nova gestão municipal. Basta comparar as laudas.
    Seria cabível apresentar novas idéias, não fosse o texto consolidado ter vindo a público apenas há poucos dias, sem que tenha havido divulgação prévia e sequer tempo hábil para análise por técnicos, instituições acadêmicas e associações de moradores. Seria cabível apresentar um novo Plano, não fosse no rastro de processo legislativo iniciado há quatro anos com etapas já cumpridas, referentes a projeto de lei agora descaracterizado.

    Também motivo de apreensão, em paralelo ao estranho processo legislativo outras leis foram aprovadas à revelia do Plano atual: por exemplo, o estímulo à construção nas várzeas e encostas frágeis do Maciço da Pedra Branca nos limites de importante bacia hidrográfica da Zona Oeste, onde os alagamentos são freqüentes; a previsão de torres com 30 andares na Cidade do Samba, recém construída com recursos públicos; a alteração da Reserva Biológica de Guaratiba; e os privilégios construtivos e fiscais criados para a indústria hoteleira sob a bandeira dos eventos internacionais de 2014 e 2016, como se as importantes conquistas justificassem servir-se do solo urbano indiscriminadamente.

    Apresentado sob o foco de uma desejada e teórica cidade sustentável – qualquer uma – o Plano Diretor do Rio de Janeiro a caminho é figura de retórica, que, sutil e silenciosamente, poderá validar decisões que desrespeitaram as normas vigentes e anular a possibilidade de regulamentar a distribuição dos ônus e benefícios inerentes à urbanização da terra, diretriz preconizada no Plano Diretor de 1992 e mantida pelo Estatuto da Cidade.

    Tudo em meio à falta de transparência e à ausência de um documento ordenado para leitura, fatos questionáveis dentro de um processo legislativo do qual somente se poderiam esperar lisura e a defesa da cidade.
    No mínimo, perde-se a oportunidade para aperfeiçoar o principal plano urbanístico do Rio de Janeiro.

    Andréa Redondo

    Rio de Janeiro, 20 de janeiro de 2011.

    Dia do santo padroeiro da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

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