O Brasil tem lugar para uma onça?
seg, ago 9, 2010
Cravejado de pontos luminosos, o mapa brilha na tela. Mas o que mais se nota diante do computador é a sombra de dúvidas cruciais, franzindo a jovem testa da bióloga Marina Silva. Da ex-ministra do Meio Ambiente e atual candidata à presidência da República, ela tem o nome, não as certezas inabaláveis. E, como chefe do projeto Carnívoros do Iguaçu, encara neste momento um exemplo concreto de que, na conservação da natureza, as grandes encrencas podem vir até de soluções que pareciam caídas do céu.
No mapa está gravado, como um chão de estrelas, o diário íntimo de Pança, o filhote de onça pintada que virou o assunto do ano no Parque Nacional do Iguaçu. Ele veio ao mundo com um irmão. São dois machos. Não poderia haver melhor cacife do que uma dupla como essa para apostar na perpetuação da espécia, numa região onde talvez não sobrem 25 onças pintadas, em dez mil quilômetros quadrados de retalhos florestais, que vão Paraná ao Rio Grande do Sul, passando pelo Paraguai e pela Argentina.
Pança foi seguido durante dois meses por satélite. Ganhou o rádio-colar em maio, ao ser flagrado comendo um bezerro. Deve o apelido à barriga estufada de carne fresca e fácil, predada nos rebanhos que indevidamente confinam com o parque. Dois meses depois, havia crescido tanto que, para não estrangulá-lo, o aparelho foi solto por controle remoto. Estava a exatamente 380 metros do local onde o instalaram. Pudera. Ali, o proprietário cria cabritos soltos no mato, para fingir que tem reserva florestal, sem abdicar ao uso de cada metro quadrado do terreno.
Pança pode estar errado. Mas na ilegalidade estão os donos de sítios, casas de veraneio e fazendas. Atraído pelas tentações da marginalidade geral, Pança ficou a maior parte do tempo zanzando fora do parque. Usava nessas idas e vindas as margens do rio Iguaçu, que têm mata ciliar, embora em vários trechos ela se resuma a um diáfano biombo de árvores. Nessas aventuras mundanas, ele beirou casas de campo e fundos de hotéis. Num deles, o Canzi, usou fartamene como latrina uma construção abandonada no mato. Esteve perto da Vila Carimã, bairro residencial densamente povoado. Correu o risco de subir o rio Tamanduá e bater diretamente na área urbana de Foz do Iguaçu.
Mesmo no interior do parque, ele circulou de preferência junto às áreas de visitação intensa. Tirou vários finos das residências de funcionários, flanou pela sede administrativa, cruzou insistentemente trilhas reservadas ao ecoturismo e tomou gosto pelo hotel das Cataratas – cujos arredores ostentam outra fulgurante constelação de pontos amarelos, assinalando sua presença. O hotel é de cinco estrelas. Mas Pança não refugou a boia dos operários que, trabalhando na reforma das instalações, jogam restos de comida na beira da floresta.
Pança atravessou duas vezes o rio para se internar nas matas do lado argentino. Mas sempre voltou depressa ao Brasil, talvez porque encontrou por lá um território ocupado por macho adulto. No Brasil, praticamente ignorou a área intangível do Iguaçu, onde em princípio deveria encontrar sua floresta cativa.
Com ele vai seu irmão. Os dois ainda não separaram e, onde aparecem, em geral vêm juntos. Dias atrás, foram ao Macuco Safari, cujo programa oferece aos passageiros sustos na forma de corridas no cânion em barcos infláveis, não de encontros com onças pitadas. Os guias trataram de expulsá-los dali com rojões. Fugiram. Mas, no domingo seguinte, estavam lá de volta, como se nada tivesse acontecido.
E, por falar em fim-de-semana, no passado a dupla atravessou o asfalto a uns 300 metros do portão e tomou a estrada de terra qur desce para o barranco do Iguaçu. Pelo rumo, ia visitar mais uma vez o rebanho de cabritos criados ao deus-dará.
Marina Silva tem, portanto, duas onças para devolver ao que restou de vida selvagem no Oeste do Paraná. Talvez, cercando o parque. Porque não dá para educar ao mesmo tempo duas onças e tanta gente mal acostumada a conviver com unidades de conservação.
Tags: Carnívoros, Conservação, Onças, Parque Nacional do Iguaçu






agosto 9th, 2010 at 11:31
Sublime! Bravo!
agosto 10th, 2010 at 11:49
amigo marcos,
Muitíssimo interessante a notícia de que as onças atravessaram o rio e penambularam no lado argentino, já que essa conexão me parece vital, ainda mais que o parque argentino é contíguo ao Parque provincial Urugua-í, que tem uma superfície nada desprezível de uns 85.000 hectares. Alguma notícia sólida sobre as estimativas da população de onças para toda a área do nosso parque?
Abraço, Luiz
agosto 10th, 2010 at 14:36
Caro Luiz,
Há estimativas sombrias, mas felizmente pouco confiáveis. Elas indicam que a população de onças pintadas seria na região a metade do que era no começo dos anos 90. Por outro lado, posso lhe adiantar é que, neste momento, com sete armadilhas, algumas emprestadas pelo Projeto Carnívoros do Iguaçu, os argentinos estão fazendo uma tentativa de atualizar o senso e omonitoramento de suas onças – ou de nossas onças em comum. Que elas atravessam tranqüilamente de uma margem para a outra é notório, até porque no último trecho em que corre entre os parques, abaixo as cataratas, o rio é relativamente calmo e estrateito, além de correr entre florestas. A outra boa notícia é que a integração desses trabalhos específicos com grandes carnívoros e seu livre trânsito internacional (inclusive com equipes do Paraguai) está muito mais adiantado do que a integração do Iguaçu com o Iguazu – que seria a coisa mais natural do mundo, se a politica e diplomacia não se metessem no meio para complicar a inadiável colaboração entre os dois parques.
Um abraço,
Marcos
agosto 10th, 2010 at 15:07
Uma das imagens que mais me impressionaram foi daquela onça morta, suspensa pelas patas em uma das reportagens como se fosse um bicho de pelúcia, e saber de tantos atropelamentos inclusive na região da grande São Paulo. Somente podemos torcer para que estes belíssimos animais não fiquem tentados a sair da mata fechada para tristes encontros com seres humanos, que certamente resultará em acidentes, em geral, fatais para os grandes felinos!
novembro 20th, 2010 at 7:29
Caro Marcos, favor me orientar como posso divulgar o seu trabalho e ter conhecimento de pessoas ou ONGs sérias que abordem a defesa de nossos PARQUES – RESERVAS E JARDINS BOTANICOS E HORTOS.
Tenho lido seus artigos no “Estadão” e este do HORTO PARA PLANTAR FAVELA, me arrepiou.
Este senhor EDSON SANTOS-PT, é uma pessoa que procura fazer do PÚBLICO – PRIVADO em beneficios de seus eleitores.
Por favor me responda.
Grato
Pedro Augusto Schwab – CPF 138111269-20
Curitiba – Paraná.
novembro 22nd, 2010 at 20:28
Caro Pedro Augusto,
Se o tema lhe interessa, sugiro que ajude a divulgar sobretudo o conteúdo dos processos e das sentenças sobre o caso. Fora isso, tudo o que foi publicado é por definição público, desde que respeitadas as normas de transcrição e de indcação de autoria. Logo, sinta-se livre e mesmo estimulado a levar o assunto adiante. Só não se esqueça de me informar sobre seus progressos.
Um abraço,
Marcos