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Dois surucuás e uma história sem fim

qua, ago 4, 2010

Iguaçu 2010

Os bichos às vezes dão a impressão de saber que, aqui no Iguaçu, vivem num ambiente de regalias administrativas. Senão, como explicar que, com tanta mata a seu redor, aquele casal de surucuás veio se empoleirar logo nos galhos que ficam bem diante do janelão envidraçado da casa onde mora o diretor do parque nacional.

O surucuá é um pássaro ao mesmo tempo vistoso e discreto. Tem parentesco próximo com o quetzal da América Central, cuja plumagem embasbacou os colonizadores espanhóis com a exuberância iridescente do cocar de Montezuma. Hoje, o quetzal, em si, é ave rara. Mas virou nome de moeda na Guatemala.

O quetzal é um espanto. A palavra, por sinal, quer dizer em língua nativa qualquer coisa como “cauda grande e brilhante”. E lhe valeu, em grego, o cognome científico de Pharomachrus, que também se refere a seu “manto longo”. Mas, sem a fantasia de luxo carnavalesco do primo rico, o surucuá pertence a uma família tão colorida, a Trogon, que os nomes populares de suas espécies acabam geralmente em apostos como “do-peito-azul” ou “da-barriga-dourada”.

Ele chama tanta atenção que, dias atrás, a foto de um surucuá neste blog mereceu um comentário de leitor diferente – no caso, uma leitora que escreviaespecificamente para saber como se chama o animal mostrado numa ilustração. Sim, era ele. Ou seja, tecnicamente o mesmo pássaro que visitava o jardim da leitoria. Mas suas cores variam tanto, até por efeito da luz em suas penas prismáticas, ou mesmo entre macho e fêmea ou de uma região a outra, que nem sempre é fácil reconhecê-lo nos guias de aves – a menos que ele conste do retrato de família.

Sendo tão resplandescente, como o surucuá consegue ser discreto? Pelo comportamento. Ele se mexe nos galhos com a calma e a ponderação de quem sabe que tem estampa demais para não dar na vista, o que costuma ser um tormento na vida das criaturas mansas. O surucuá – que se alimenta de insetos e frutas, sempre pequenos – nasce desarmado até no bico, curto demais para seu porte e ainda por cima quase enterrado num tufo de penugem decorativa.

Seu canto, que alguns ornitólogos classificam como “melancólico”, soa como a repetição de uma nota só em flauta de bambu, com um compasso final em surdina. Dá para ouvi-lo com freqüencia ultimamente nas beiradas de trilhas do Iguaçu, porque o surucuá está em fase de acasalamento.

No mato, ouvi-lo não é garantia de vê-lo. A não ser que um raio de sol revele de repente o brilho inconfundível de suas penas, sua figura imóvel se perde na folhagem – inclusive na folhagem rala da temporada, na floresta estacional semidecídua do parque. Mas, cantando no jardim do diretor, é outra história.

O casal passou horas, na tarde do domingo passado, chamando a máquina fotográfica de um lado para o outro. É típico do surucuá trocar de poleiro em vôos curtos e silenciosos. Na floresta, bastam-lhe poucos metros para sumir de vista, às vezes definitivamente. Mas num terreno onde as árvores nativas se espalham no chão limpo, como se estivessem num mostruário vivo da botânica local, a conversa é outra.

Aonde ia um surucuá, a teleobjetiva ia atrás. Acompanhada de flash, para revelar o indescritível colorido das penas. Tratando-se da perseguição a um casal, o equipamento fotográfico deu voltas no jardim até entender que os vôos do macho e da fêmea, sempre próximos mas separados, tinham um padrão intrigante, como se cumprissem um roteiro ao redor do jardim.

Até que o círculo se fechou num oco de árvore, onde se encaixava, como uma torre de barro, o ninho de cupins. É em lugares assim que os surucuás costumam se instalar como inquilinos, na época da procriação, sem com isso expulsar os proprietários. Havia um buraco redondo, recém cavado no cupim. E nele estava o eixo de todas aquelas voltas aparentemente a esmo através do jardim.

O macho não teve dúvidas. Tapou imediatamente a entrada do ninho com o corpo, exibindo nesse momento todo o fulgor metálico de seu dorso. Aparentemente, para proteger a casa. Era, naquele momento, presa fácil. Expor-se a esse ponto só podia ser prova de coragem. Coragem que, pelo visto, a fêmea só faltou aplaudir como espectadora, admirando a cena de um ramo baixo, quase na primeira fila, diante do ninho, atenta ao desenrolar dos acontecimentos, com o olhar acentuado pelos cílios longos.

Foi grande a tentação de seguir a história da dupla até o fim, agora que ela tinha acrescentado, à coreagrafia estonteante dos vôos circulares, um enredo óbvio até para o mais ignorante dos observadores ou fotógrafos bissextos de aves. Mas era mais claro ainda o sinal de que estava na hora de deixá-los a sós, aos cuidados da janela do diretor.  Poranto, a história dos surucuás acaba aqui.

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13 Comments For This Post

  1. Renato Rizzaro Says:

    Grande surucuá!

    Parece mesmo que gostam de janelas e pelo jeito são ou foram tão dados a encontros com humanos quye, segundo o nosso papa Sick, eram abatidos a pelotadas bem ao redor do Rio de Janeiro, um dos primeiros lugares a serem avistados e exterminados em seguida.
    Faltou dizer que comem taturanas venenosas e coloridas, o que lhes garante o multicolorido. É tão peculiar essa ave, que tem a caixa craniana mais frágil dentre as aves e a pele tal qual um papel de seda.
    Seus frágeis pezinhos quase não seguram as poucas gramas de seu corpo, o que lhe dá uma mobilidade tal como que para voar a ré, como os beija-flores.
    Tive a oportunidade de ver, na Reserva Rio das Furnas, em Alfredo Wagner, Santa Catarina uma cena incrível, do sumiço sem mais nem menos, de uma fêmea de surucuá-de-barriga-amarela a qual estava na mira de minha câmera e num segundo simplesmente evaporou numa manobra à ré!

    Outra coisa é preciso lembrar: gosta da floresta fechada e precisa dela para sobreviver.

    No mais, que espetáculo é ouvir seu canto e ver suas manobras radicais sobre nossa cabeça!

    Grande registro em todos os sentidos!

  2. Marcos Sá Corrêa Says:

    Obrigado pela aula, Renato. Um comentário desses melhora qualquer artigo. Acho que nunca mais me meterei com surucuás sem consultá-lo.

    Grande abraço,

    Marcos

  3. Daniele Bragança Says:

    Obrigada pela aula dos dois, mestres!

  4. Germano Woehl Junior Says:

    Marcos,
    Nós tivemos a mesma sorte. Um casal veio fazer o ninho num cupinzeiro ao lado de nossa casa, uns 5 metros da janela da sala, na RPPN Santuário Rã-bugio. O casal nidificou ali durante 4 anos (duas vezes por ano) e ficou famoso. Chegou a aparecer até na Globo, no programa Globo Repórter, produzido pela EPTV de Campinas (SP).

    Quando divulguei as fotos e vídeos, que estão em nosso site

    http://www.ra-bugio.org.br/ver_especie.php?id=123

    o pessoal da UNESP de Rio Claro, me procurou para publicar um artigo cientifico porque era ainda desconhecido da ciência que esta espécie de surucuá alimenta os filhotes com pererecas. Desconhecido da ciência podia ser, mas não de mim e da Elza.

    Para o nosso desespero, este casal quase acabou com nossas pererecas. Quanto os filhotes estavam na fase final de desenvolvimento, era uma atrás da outra que o casal capturara e tratava os filhotes. De dentro de casa, dava para a gente ouvir ossos das pererecas quebrando quando eram trituradas com o bico antes de dar aos filhotes.

  5. Marcos Sá Corrêa Says:

    Olá, Germano.

    Só agora me lembrei da visita dos surucuás ao Rã-Bugio. Sua história do bicho, como todas as suas histórias de briga pela conservação, é imbativel nos quesistos graça e originalidade. É uma honra para mim e para os surucuás do Iguaçu ter sua visita e o link do instituto nesta página.

    Grande abraço,

    Marcos

  6. Marcos Sá Corrêa Says:

    Bem-vinda, Daniele.

    Mas não vá na conversa das minhas aulas. Estou aqui tentando aprender tarde demais o que deveria ter aprendido antes sobre as coisas que realmente importam e sempre acabavam ficando atrás dos assuntos miúdos das notícias nacionais e outras besteiras que dão e passam no jornalismo.

    Abraço,

    Marcps

  7. Nanci Says:

    Graças a foto do site consegui finalmente saber o nome desta belíssima ave, um exemplar macho que adora se “exibir” na janela de minha oozinha em plena Mata Atlântica na região de Delfim Moreira no Sul de Minas Gerais. Passa as manhãs em meio ao bosque de mata nativa… pena que ainda esteja sem companheira. E realmente um dia o peguei caçando as ranzinhas nas águas das bromélias!!!
    O fato de avistar somente um único exemplar enfatiza a necessidade de preservarmos o habitat destes seres tão especiais (eles estão sumindo junto com as matas!!!).

  8. Marcos Sá Corrêa Says:

    Nanci,

    Na verdade, foi você, com sua pergunta sobre o nome do bicho, que deu origem a esta história toda.

    Um abraço,

    Marcos

  9. Germano Woehl Junior Says:

    Uma lição que aprendi é nunca dar palpite nos artigos de jornalistas do nível do Marcos, achando que está faltando alguma coisa. Porque são artigos completos naquilo que nós podemos entender da natureza. As informações do Marcos podem não satisfazer plenamente aqueles que imaginam ser fácil entender a complexidade da natureza, mas são confiáveis. Podemos ter certeza que nos artigos do Marcos não corremos o risco de ver informações equivocadas como a do Renato, no primeiro comentário, afirmando que a coloração das penas do Surucuá deve-se à dieta de lagartas coloridas. Os beija-flores apresentam um colorido mais intenso ainda, dependendo do ângulo que a gente olha. E garanto que eles não se alimentam de lagartas coloridas. O fenômeno que explica o colorido das penas do surucua que varia de tonalidade e brilho conforme o ângulo se chama iridiscência. Devido à estrutura periódica encontrada nas penas de algumas espécies de aves ocorre interferência da luz, cuja cor refletida e brilho varia de acordo com o ângulo de observação. Este fenômeno é conhecido na física como difração.

  10. Marcos Sá Corrêa Says:

    Germano, como sempre preciso e implacável, PhD em tudo o que interessa.

    Abração,

    Marcos

  11. Nanci Says:

    E o melhor, graças ao Germano que tem diligentemente catalogado as espécies de aves em seu site, consegui também saber os nomes de várias espécies que visitam meu bosque.
    Aproveito o espaço da coluna para parabenizar denúncia anônima que levou a prisão de Leonardo Acordi e multa de R$ 500/ave, totalizando R$ 7 mil, e apreensão de arma de fogo – pois 14 aves silvestres eram mantidas em gaiolas em São Miguel do Iguaçu (certamente caçadas em área do Parna) e também a 20 galos de briga que estavam na propriedade.
    Graças a iniciativas como esta ficará cada vez mais difícil caçadores buscaram aves em seus habitats naturais. Vamos contribuir sempre denunciando, fiscalizando e combatendo ativamente a caça ilegal e aves silvestres em gaiolas!

  12. Renato Rizzaro Says:

    Bom, humildemente vejo que há alguma coisa que sempre deve ser aprendida, como a aula que ganhamos sobre optica, uma belezura, parabéns, Germano! O que pode não ter ficado claro na minha explicação, que foi baseada no nosso querido Helmut Sick, é sobre a coloração predominante, no caso estudada por nosso papa da ornito. Vale a pena dar uma consultada para conferir. E, concordo plenamente com o Germano, nada de palpites em matéria de papas.
    Forte abraço!

  13. Marcos Sá Corrêa Says:

    Obrigado a ambos. Nada melhor do que se sentir na platéia de seu próprio blog. Se há uma coisa que me fascina na internet é a página que aprende a andar sozinha, como esta parece estar aprendendo.

    Abraços,

    Marcos

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