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O outro país também chamado Brasil

sex, jul 30, 2010

Iguaçu 2010

Morar, mesmo que seja como hóspede, a título provisório, de passagem por um parque nacional, é como viver uma temporada no exterior. Só que esse exterior fica no interior do Brasil.

No parque, você ao mesmo tempo está no Brasil e fora dele. Seu Brasil é outro, um Brasil profundo, feito de retalhos do país original que ao nascer todos herdamos e ao viver vamos sempre perdendo aos poucos, de pedaço em pedaço, de queimada em queimada, de governo em governo, de notícia em notícia – como a notícia, por sinal alvissareira, de que a Polícia Federal e o Ministério do Meio Ambiente finalmente botaram a mão outro dia na quadrilha internacional que traficava com a caça clandestina de animais em extinção.

Ela está aqui de perto. Um dos presos é até  vizinho do parque. Mora na cidade de Cascavel, a mais próspera e desenvolvida do extremo oeste paranaense. Ele coleciona troféus. Ou seja, mora, por gosto, num panteão de animais mortos, cabeças empalhadas, chifres, patas, peles. Os fiscais andavam de olho nele faz tempo. E, no entanto, ele mora logo ali em outro mundo, numa terra que nada tem a ver com este lugar em que o mais vago rumor de que podem ter nascido mais dois filhotes de onça pintada corre pelas trilhas como se fosse promessa de redenção.

Ao mesmo tempo, bem a seu lado, tem alguém esperando a hora de botar os últimos exemplares da espécie na lista das vidas raras que, por isso mesmo, valem mais no mercado da caça esportiva, aquela que enterra até carcaças para não deixar provas do crime. Ele é brasileiro também. Mas o Brasil onde ele existe vai deixando depressa de ser o seu a cada dia que você passa no parque – freando o carro para os gambás atravessarem a estrada, tirando à noite do quarto as mariposas que as lâmpadas atraíram e provavelmente, se dormirem lá dentro, amanhecerão espalhadas pelo chão, parando para esperar o momento em que infalivelmente uma borboleta enorpecida pelo frio da madrugada abrirá as asas para o primeiro sol.

Cada dia desses é um passo para olhar toda essa gente que atira, derruba, queima, constrói e diz besteiras sobre pererecas e outros bichos com a desenvoltura do presidente Lula como habitantes numerosos, hegemônicos e hostís de um país que também se chama Brasil, mas é contra o seu Brasil. E nunca poderá caber num parque nacional, enquanto houver um canto no Brasil para parques nacionais.

Deve ser por isso que há tantos projetos na política brasileira para revogar os parques, as reservas, o código florestal, tudo aquilo que conserva o que o Brasil dos outros quer suprimir. São projetos feitos de um povo que nunca poderá ter um parque nacional, porque ele é como onça viva – só tem sentido para quem gosta daquilo que não é seu, mas de todos. O outro Brasil só pode ter parques nacionais se acabar como eles.

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2 Comments For This Post

  1. Nanci Says:

    Qual o nome do pássaro que ilustra esta reportagem? Um deles aparece em meu bosque e não conseguí saber o seu nome mesmo olhando no livro de aves.

  2. Marcos Sá Corrêa Says:

    Nanci,

    É um saracuá. Ou, para quem gosta destas coisas com nome e sobrenome, um Trogon sarrucura. O da foto é um macho, ainda mais colorido que a fêmea, com o dorso verde metálico que, dependendo da luz, chega a ser azuk escuro. No mesmo encontro, domingo passado, deu para fotografar também a fêmea, que é um pouco mais discreta, com dorso cinza azulado e peito laranja, também muito vivo, beirando o vermelho sangue. O mais estranho é que esses pássaros tão coloridos conseguem ser discretos. Pousam imóveis em galhos mais ou menos escondidos na vegetação. Têm um canto que soa como primeira aula de solfejo. Enfim, levam uma vida mais ou menos obscura. Mas estão sempre por perto da gente, sobretudo em beira de água.

    Um abraço,

    Marcos

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