Patrimônio Natural da Regionalidade
sex, jul 30, 2010
O Parque Nacional do Iguaçu entrou em rota de colisão com seu título de Patrimônio Natural da Humanidade. Aposta essa reputação em mesas avulsas, que o acaso juntou este mes em Brasília, a capital dos desencontros.
Numa rodada, o governo afia a língua para convencer a comissão da Unesco, instalada na cidade nesta virada de mes, que o parque vai bem, obrigado. Há queixas contra ele nos relatórios técnicos que precederam o encontro. Eles lamentam, para começo de conversa, a afobação para bater recordes de visitação ano após ano, em prejuízo da conservação da fauna e da flora.
Mas, até aí, a Garganta do Diabo fala mais alto. O título continuaria no papo, se não tivesse chegado a Brasília, pouco antes da comissão, mais uma proposta para reabrir a Estrada do Colono, cortando ao meio a floresta do Iguaçu. À Unesco se creditou, nove anos atrás, o empenho do governo brasileiro para interditar depressa a estrada, com Exército e a Polícia Federal, antes que o Iguaçu não se rebaixasse a sítio do patrimônio natural ameaçado.
A idéia de reabri-la apresentou-se no Ministério do Meio Ambiente pela mão do desembargador Álvaro Eduardo Junqueira. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região encarregou-o de promover a conciliação entre o parque e seus tradicionais invasores, em vez de julgar o processo. E ele passou a cuidar pessoalmente do lado que quer porque quer a estrada de volta.
Com esse tipo de conciliação em marcha, o projeto, que antes era assunto de políticos locais, ganhou padrinho federal. E com ele mudou de estilo. A reabertura da estrada agora se chama “restauração”. Dispensa a força e a coreografia da luta armada que usou para ocupar o parque em 1997 e 2001. Sem perder o jeito de fato consumado.
Semanas atrás, os municípios paranaenses ouviram do desembargador, em assembléia, a sugestão de que se contentassem com uma estrada “mais ecológica”. Imediatamente, materializou-se o projeto de Estrada Ecológica, assinada pelas associações de municípios do Oeste e do Sudoeste do Paraná. O deputado paranaese Assis do Couto, de quebra, apresentou na Câmara o projeto de lei 7.123, que cria a “Estrada-Parque Caminho do Colono”. Promete não só “fomentar o desenvolvimento rural sustentável das regiões oeste e sudoeste do Paraná com o Parque Nacional do Iguaçu”, como “assegirar a efgetivação da segurança nacional necessária em área de fronteira”. Ou seja, servir de atalho em caso de guerra com a Argentina, um assunto que parecia superado como os governos militares.
Vai relatar o projeto outro deputado paranaense, o engenheiro Eduardo Sciarra – que, como sócio da construtora CRE, tem um pé na Cataratas S/A, a empresa que explora legalmente os serviços turísticos terceirizados no Iguaçu. E, pelo visto, outro pé na terceirização informal, que atropelas as concessões em vigor, renovadas há pouco por mais dez anos.
A estrada-parque é um atalho para a entrada no parque de concessionários que se credenciam, sobretudo, como detentores da “memória dos prioneiros”. Em outras palavras, da lenda que atribui aos colonos gaúchos e catarinenes a iniciativa “histórica” de rasgar na selva o tal caminho, aberto em terras da União pelo governo estadual. Isso, na década de 1950. Portanto, no mínimo 11 anos depois do decreto que instituiu o parque.
Mas trunfo histórico é coisa que nunca falta, como ensinou o historiador Sérgio Buarque de Holanda em Visões do Paraíso. Como certa boa vontade, há quem ponha o Camimho do Colono no leito imemorial da Trilha do Peabiru, que segundo as lendas quinhentistas teria servido ao apóstolo São Tomé para evangelizar os índios do altiplano andino, vindo da Índia.
Arisco mesmo é o futuro. Ele escapa pelas frinchas da proposta de “estrada ecológica”, que fala em calçar os 17,6 quilômetros do caminho de terra com lascas de balsalto, para que o piso irregular obrigue os veículos a trafegar em baixa velocidade. Com isso, estaria garantindo “a travessia segura da fauna”. Mas não a segurança dos veículos, motoristas e passageiros. Por via das dúvidas, manda cortar todas as árvores a um metro e meio da pista, “para evitar acidentes”.
Indica o uso exclusivo de “ônibus elétricos” nos passeios turísticos, sem dar a menor pista de onde pretende encontrá-los. Até onde a vista alcança, ninguém os fabrica em série no Brasil. Enumera 15 investimentos. Não apresenta um só cálculo de custo para eles.
É um documento tão sumária que cabe inteirinho e com folga em menos de 10 páginas, apesar da farta ilustração. Dá para atravessá-lo, de ponta a ponta, em minutos. E, apesar da pressa, não deixa de abrir espaço para a construção de dois Centros de Visitantes, “em cada extremidade”, para “educação ambiental e conforto dos viajantes.
Pode ser coincidência, mas ali está, ao pé da letra, o argumento marcial invocado pelo deputado Assis do Couto. Aquele corte na floresta, segundo a proposta de “restauração”, tem “importância inclusive militar”, porque “permitiria chegar rapidamente a umas das fronteiras com a Argentina. Isso numa hora em que os consultores da Unesco receitam, para os dois lados do rio Iguaçu, um parque cava dez mais transnacional, de administração compartilhada, como ocorre cada vez mais em lugares onde animais e plantas cruzam fronteiras sem a menor cerimônia. Quer dizer, além de atacar o parque brasileiro pela retaguarda, o Caminho do Colono agora quer estar no front de eventuais confusões com os argentinos.
Se o projeto cair nas mãos da Unesco, o governo brasileiro terá muito o que exlicar à comissão do Patrimônio Natural da Humidade.
Tags: Cataratas do Iguaçu, Conservação, Parque Nacional do Iguaçu






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