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A cigarra, a formiga e o código

sex, jul 23, 2010

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Pior do que o novo Código Florestal é o bate-boca que ele deixa pelo caminho. Na prática, talvez vire um código mais ou menos igual aos outros. Retardatário e inócuo, como todos que o Brasil teve e não usou, desde as ordenações portuguesas contra a depredação das matas nativas, que a colonia soberbamente rebarbou. Se as cumprisse, bastaria deixá-las em vigor para hoje o país ser ambientalmente mais adiantado do que é.

Mas os códigos florestais anteriores, se não tiveram melhores resultados, pelo menos vieram recheados de idéias avançadas. O de 1934, que os políticos remancharam desde o Segundo Reinado, lastreou-se nas expedições botânicas que fundaram, no fim do século 19, as pesquisas genuinamente brasileiras em ciências naturais. Não pegou. Mas tinha pedigree respeitável.

O segundo, de 1965, além de incorporar um debate científico que floresceu nestes trópicos durante a primeira metade do século 20, foi um marco da infiltração esquedista na ditadura militar, graças à valentia do desembargador Osny Duarte Pereira que, tido pelo regime como adversário e ligado à história das lutas sindicais no Brasil, aproveitou a chance que lhe caiu nas mãos para traçar-lhe um roteiro que botou a conservação muito na frente do conservadorismo vigente.

O código engendrado por Osny Duarte Pereira também não pegou, em parte porque a única coisa de governo que costuma pegar sem falta no campo é crédito subsidiado. Mas era o produto típico de um país que se acreditava capaz de pensar no futuro, em vez de fazer o possível e o impossível para eternizar o presente.

Agora coube, por ironia, ao deputado Aldo Rabelo, importante relíquia do Partido Comunista do Brasil, desmontar esse “entulho do esquerdismo” deixado pela ditadura militar. Não vale xingar sua proposta de retrógrada. Esse não é seu defeito, mas seu maior propósito – fazer a lei recuar até o ponto onde se encontra quem, por quase meio século, apostou que ela jamais iria alcancá-lo atrás da cerca.

Se o novo código vai alcançar os infratores dos velhos códigos só o tempo dirá. De cara, o código consagra e premia a desobediência, ou princípio de que no Brasil só valem para valer os costumes vigentes. O resto é conversa de seminário acadêmico ou choradeira de ONG. Tanto é assim que, de todos esses meses de discussão, a memória só extrai agora do noticiário um único argumento com referência bibliográfica. É a fábula da cigarra e da formiga, popularizada no século XVIII por Jean de La Fontaine.

Ela foi invocada com certa malícia para insinuar todo esse barulho en torno do código florestal se resume ao fato de que os ambientalistas chiam enquanto os agricultores trabalham. Bingo! Essa fábula, mais do que o novo código, é um atestado clássico de desinformação e atraso, quando se trata de natureza. Lá vão quase 120 anos que o entomólogo francês Jean-Henri Fabre dissecou a história de La Fontaine como modelo da ignorância humana diante do mundo natural.

Ela não tem pé nem cabeça, porque as cigarras, como lembrou Fabre, nunca passam aperto no inverno. Arrebentam de cantar muito antes da estação. Jamais pediriam às formigas “um grão de trigo”, por serem incapazes de comê-lo com sua tromba, feita exclusivamente para sugar a seiva das árvores, que é seu único alimento. E, se pudessem engoli-lo, não encontrariam uma só formiga em trânsito para mendigar-lhe fosse o que fosse. No frio, a formiga hiberna.

Aliás, é a formiga extorque a cigarra. Em vida, roubando-lhe agressivamentre as minas de líquido açucarado que ela cava nos caules. Na morte, esquartejando seus corpos, para abastecer de matéria orgânica as caves dos formigueiros. La Fontaine errou de alto a baixo, embora fosse no interior da França fiscal de Águas e Minas, antes de ser literato da corte.

Ele, mais que Aldo Rabelo, mereceria ser o padroeiro do novo Código Florestal. Por ensinar por que a natureza vem mais uma vez em último lugar.

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