A última, ou penúltima, do macaco
seg, jul 12, 2010
Os muito entediados que me perdoem, mas esta será, sim, a segunda vez, e pode não ser a última, que os macacos-pregos me invadem o blog, com a mesma sem-cerimônia com que tomam conta da floresta no parque do Iguaçu, como se aquilo tudo fosse deles. Ou será que é?
Agora, então, com a mata mais ou menos desfolhada, como regem na temporada os estatutos da floresta estacional semi-decídua, é irresistível acompanhar seus saltos temerários e acrobáticos de uma copa à outra, por vãos cada vez mais largos, à medida que as clareiras do inverno vão esburacando os caminhos antes contínuos e quase secretos de suas correrias pelo dossel.
Para quem já se cansou de ver macacos-pregos de mãos esticadas, pedindo sobrasde bala ou biscoitos aos visitantes do Jardim Botânico, a poucos passos dos engarrafamentos na Zona Sul no Rio de Janeiro, os bandos do Iguaçu dão um banho literal na indiferença arogante que os moradores da cidade costumam ter pelos animais silvestres que se adaptaram demais à vida urbana. Nem é preciso ir às cartilhas primatológicas, cujo bê-a-bá nos ensina a respeitá-los como criaturas longevas, capazes de aprender muita coisa uns com os outros – e conosco – ao longo de seus 40 anos de intensa vida social.
Na prática, a mata devassada pela queda parcial da folhagem oferece, nesta estação, a chance de se debruçar sobre a intimidade dos macacos-pregos, pelas janelas indiscretas da vegetação, como se espia num edifício o quarto para onde acaba de se mudar uma vizinha bonita. Dá para vê-los quando acordam, aproveitando para o banho de sol os galhos nus das árvores mais altas.
Nessas horas, seus gestos mais simples ganham a dimensão do palco vasto, sem fim a vista. Nessa moldura, o pequeno braço peludo que se estende para catar piolho no macaco ao lado parece, na contra-luz, dourada pela luz da manhã, um fragmento da Criação que saiu do teto da capela Sistina e foi parar em cima de uma árvore.
Aqui, cabem parênteses para os não iniciados em fotografia. O contra-luz, no caso, é um efeito especial obrigatório, quando se mira qualquer detalhe de uma floresta tropical através de uma lente fotográfica. Com luz frontal, a mata é uma mixórdia de sol e sombra, cheia de contrastes que ultrapassam de longe a tolerância dos sensores digitais, como outrora inundavam de claros-escuros invisíveis os melhores filmes convencionais. Mata se enxerga melhor em dia nublado, antes do sol ou depois dele. E, não podendo fugir de seu brilho excessivo, em contra-luz.
Voltando aos macacos, o banho de sol coletivo, tendo por fundo o céu, já é programa para encher a primeira parte de qualquer manhã de bom tempo. Sobretudo, quando o dia acorda meio gelado. A mata, no frio, custa a pegar. E os macacos, lá em cima, já acumularam energia de sobra até para perpetuar a espécie.
De repente, a contemplação acaba e o bando zarpa, cada um por si, as todos no mesmo rumo, mas por trilhas príoprias, atendendo a um chamado que mal se distingue dos guinchos que regiam a pasmaceira do banho-de-sol matinal. Aí, literalmente, é melhor sair de baixo. O que se deflagra, nesse momento, é aquele tipo de ação que, numa praia carioca, em domingo de verão, os jornais jornais tachariam no dia seguinte de arrastão.
No Iguaçu, pode ser inverno, e mato puro. Mas a sensação imediata de que um poder mais alto se alevantou, cheio de fome onívora, disposto a tudo por um café-da-manhã variado e farto. a turba sacode na pressa as gotas de orvalho das folhas, fazendo chover sob o céu azul. Derrubaao mesmo tempo todas as frutas de uma árvore, maduras ou verdes. Espanta os pássaros, que faziam tudo para ficar invisíveis em seus cantos escuros e, diante dos macacos, disparam aos gritos de “perigo à vista”, talvez deixando os ninhos para trás.
As borboletas e mariposas que se acreditavam invulneráveis pelo mimetismo são rapidamente recrutadas para ocupar sua vaga na cadeia alimentar da floresta, onde permanentemente tudo se devora. Com um certo pendor para as emoções mais fortes, pode-se admirar os dedos que arrancam as asas dos insetos com a destreza caracteristas das mãos feitas para descascar bananas, e as bocas glutonas que engolem os bichos vivos, sem os adereços alados que caem ao chão com volteios de pétalas iridescentes. É feio, mas é bonito.
Os macacos comem tudo que poden diferir. Despem troncos para devorar larvas. Desfolham bromélias como se fossem alcachofra num restaurante francês. Investigam todos os ocos de árvores à cata de alimentos indecifráveis. Quebram galhos inteiros para desalojar sabe-se lá o quê. Num lugar onde a maioria dos bichos trata de parecer discreta, seja por ser presa ou por ser predadora, os macacos se dão ao luxo de ser indiscretos e ruidosos.
Têm uma auto-confiança ostentatória. Saltam entre árvores como trapezistas sem outra rede além do próprio rabo. Arreganham caninos pontudos de feras em miniatura para os xeretas lá embaixo, para deixar claro que a posse do território, naquele caso, não é questão de tamanho, mas de domínio do terreno. E, por onde passam, deixam a impressão de que os grandes carnívoros podem até levar a fama, mas não há maior ferocidade que a dos onívoros de qualquer porte.
Em suma, lembram de onde foi que nós viemos.








julho 13th, 2010 at 17:23
Fantastico Texto, Marcos! Com a maestria das palavras, sua caneta, provavelmente em formato de teclado, rege como uma baqueta uma orquestra de sensações! Seguirei em sua inspiração para uma coluna sobre primatas deste Brasil sem fim…! Abs, Gambarini
julho 13th, 2010 at 18:09
Marcos : Você me fez lembrar certos humanos.É isso mesmo , difícil esquecer de onde viemos…Abraços , Vera
julho 14th, 2010 at 11:57
Olá, Vera. Pelo visto, temos mesmo alguns macacos-pregos em comum, não?
Grande abraço,
Marcos
julho 14th, 2010 at 12:10
Gambarini,
Se você vai fazer um portfolio sobre macacos, os meus estão perdidos. Mas terão servido pelo menos para lhe dar esse empurrão. Eu não sei se já disse isso, mas tinha uma velha antipatia pelos macacos-pregos, de tanto tropeçar neles onde eles não deveriam estar, até entender que somos nós que estamos nos lugares errados ou empurrando para os lugares a parte da fauna que consegue se adaptar a tudo. E nisso os macacos-pregos são imbatíveis. Passei a respeitá-los anos atrás, ao ler que têm inteligência comparável a dos chimpanzés, já os flagrei mais de uma vez adaptando pedras e galhos para usá-los como ferramentas, e – por menos que os entenda – percebo pelas entonações dos guinchos e silvos que mantêm coordenados os bandos que os Cebus desenvolveram uma linguagem capaz de dizer muitas coisas. “Gavião”, por exemplo, é um vocábulo dos macacos-pregos já decifrado pelos entomólogos. O que Iguaçu me trouxe de novidade foi a chance de, pela primeira vez, ver os macacos-pregos como legítimos animais silvestres, arredios ao convívio humano, por próximas que as pessoas estejam de seus territórios, indiferentes aos restos de comida deixados nas cestas de lixo pelos turistas e refratários à invasão de seus espaços por observadores curiosos, por mais quietos que tentemos ficar nas circunstâncias. Suponho que isso aconteça aqui no parque por uma simples questão de espaço – o mato, no Iguaçu, por mais que esteja cercado de plantações e cidades, oferece em seus 185 mil hectares uma área suficiente para um bicho onívoro, adaptável, destro e esperto escolher o tipo de vida que prefere levar e, no caso, ele escolheu a vida natural. Estou divagando. Adoraria encontrar pesquisas que me dessem respostas mais confiáveis que minhas suposições. Mas, por enquanto, me divirto com elas.
Aguardo se ensaio sobre macacos.
Grande abraço,
Marcos
julho 22nd, 2010 at 13:22
Para meu espanto, vejo que as belíssimas onças do Iguaçu também foram vítimas de esquema do famoso Tonho da Onça.
Felizmente a operação Jaguar conseguiu desmantelar este sinistro esquema de safari bem nas barbas do IChico e Ibama, dentro de uma UC de proteção integral!!!!
julho 23rd, 2010 at 14:02
Nanci,
Faz tempo, acho que as onças só terão algum futuro no dia em que forem tratadas como o que de fato são – animais que desde tempos imemoriais transitam pelo continente, a ponto de nunca produzir novas espécies, por jamais se isolarem, e isso do México à Argentina. Logo, elas não pertencem aos países por onde passam, o Brasil entre eles. E merecem por isso a cobertura de leis e mecanismos internacionais de proteção. Vejo de perto aqui o esforço que se faz para conservá-las. Mas é trabalho que parte de grupos pequenos, equipes locais, voluntários, instituições pobres, ao passo que os inimigos de sua conservação já internacionalizaram há muito tempo a caça clandestina.
Um abraço,
Marcos