No meio do caminho tem ferro-velho
sex, jul 2, 2010
Funciona um ferro-velho dentro do parque nacional do Iguaçu. Feio como todo ferro-velho. É um terreno baldio onde relíquias da civilização industrial apodrecem ao relento. Fica num pequeno desvio da estrada que leva os turistas às cataratas. Mas, escondido pudicamente atrás das árvores, não passa nem perto do roteiro da visitação.
O que é lastimável. Seria uma parada indispensável à educação ambiental do público. Porque aqueles carros enferrujados, de modelos que saíram de linha faz muito tempo, com o mato subindo pelas latarias, foram todos apreendidos pelos fiscais nas mãos de caçadores clandestinos, palmiteiros e outros agentes da pilhagem constante que os moradores da vizinhança praticam, em nome de costumes locais irreprimíveis, contra o patrimônio do país, guardado no Iguaçu.
Antes, aquelas sucatas eram entregues às delegacias locais. Mas voltavam rapidamente às mãos dos proprietários, devolvidas por uma polícia simpática ou cúmplice, sob as ordens de políticos e prefeitos que tratam essas coisas como manifestações culturais.
Presos no parque até o fim de processos que não acabam nunca, os carros, pelo menos, não reincidem no furto, como seus donos. São Wons, Stumpf, Bergen ou Simermann, formando verdadeiras dinastias de infratores. Repetem-se na papelada, também, suas histórias – quase sempre de “agricultores”, “pedreiros”, “marceneiros”, trabalhadores humildes, que estavam “sem emprego” e por isso foram contratados para ganhar no meio da noite um dinheirinho fácil e pingado. Ou seja, obra grande de povo miúdo.
Seus depoimentos perpetuam a lenda de que roubar o parque é atividade de subsistência. Mas elas têm por trás autênticas indústrias. Pelo menos um mandado levou à casa de um pastor protestante, que abriu a porta aos fiscais com a afabilidade de quem não tinha nada a esconder. Tomou mesmo a iniciativa de ir à frente com a mulher, guiando a busca, cômodo por cômodo, como se tivesse orgulho de exibir a orden doméstica simples e decorosa.
Até que um fiscal se ajoelhou diante de uma cama, coberta até o chão por colcha imaculada. E descobriu que todos os móveis estocavam maços de palmito entre as pernas. Tratava-se, nas horas vagas do culto, de um empresário do ramo de conservas caseiras.
Outros nomes recorrentes são os das cidades nas placas dos automóveis. De Capanema, Medianeira, Serranópolis vem a maior parte da frota encalhada no ferro-velho. Não só por serem cidades próximas. Mas sobretudo por nunca levantarem um dedo para coibir a pirataria, mesmo se muitas delas embolsam como ICMs ecológico as indenizações pela presença de uma unidade de conservação federal em território municipal.
São essas as cidades que o projeto 7.123, do deputado paranaense Assis do Couto, quer agora premiar com a reabertura da Estrada do Colono, cortando o parque de um lado a outro. Ela deixou de ser aquele atalho rodoviário de anos atrás, defendido por invasões violentas como indispensável ao escoamento da produção agrícola. Virou “ecológica”. Promete fazer “educação ambiental” e promover o “desenvolvimento rural sustentável”.
Só se a engenharia genética tantas fez que agora a soja transgênica quer porque quer passear na floresta. Porque difícil mesmo de acreditar é na nova política de boa vizinhança. Os municípios envolvidos com a Estrada do Colono já provaram até cansar que têm prefeituras inidôneas para lidar com o parque.
Tags: Estrada do Colono, Oeste do Paraná, Parque Nacional do Iguaçu








julho 4th, 2010 at 16:42
Oi Marcos, gosto muito dos seus artigos.
Na piuai impressa os artigos da “esquina” não vem assinados. Mas na internet, não sei por que, ali conseguimos saber os autores. E eu vi (e me empolguei) quando vc escreveu no “O Futuro mora atrás” que “Se o caso é conciliar, está aí, justamente, o traquejo do vereador Ampessan”. Pensei “Que bom que mais alguém concorda que o caminho para resolver a questão da estrada do Colono é a conciliação”. Engano meu. Todos os seus artigos seguintes que abordaram direta ou indiretamente o tema o fizeram com o “tacape na mão”. Vejo em você a mesma atitude que se repete há muitos anos, que sequer cogita em pensar em uma alternativa que não seja o radical fechamento da estrada. Veja que há muito, mas muito espaço, entre a abertura de um estradão (o que ninguém quer) e a total interdição (que igualmente não é uma solução ideal, tanto é assim que desde 1986 as tensões permanecem). Me parecem que os municípios estão dispostos a ceder muito, mais do que jamais cederam. Mas não vejo essa postura do IBAMA. Um abraço. Gilson Andraus – Matelandia/Pr
julho 5th, 2010 at 16:01
Caro Gilson,
Obrigado pela leitura e pelos comentários. Mas, pelo visto, não tenho conseguido me explicar em meus artigos. E olha que tento não escrevê-los de tacape na mão. Em princípio, acho mesmo que parque nacional, todo parque nacional, é por definição um patrimônio comum a todos os brasileiros, expropriado em seu nome para que todos os seus descendentes tenham uma chance de conhecer pelo menos alguns fragmentos do país que deveriam, constitucionalente, herdar, mas não herdarão, porque alguém chegou lá antes e lhe deu outro fim. Parque Nacional para mim é isso. Tudo o que consegui ler sobre o assunto me ensinou que essa é a explicação legal de sua existência. E francamente não consigo entender por que alguns munic]ipios teriam o direito de resolver outra coisa sobre um parque nacional, por estar em sua vizinhança. No caso da Estrada do Colono tenho outras razões para achar que tudo esse debate está atravancado por seus próprios equívocos. Anos atrás, ele me foi apresentado, de longe, via noticiártio nacional, em nome de sua importância vital para o escoamento das cidades que, tendo nascido depois do parque, hoje se consideram emparedadas por ele. Por causa desse ponto de vista e sob essa palavra de ordem, na década de 90 o parque foi invadido e a Estrada do Colono reaberta, através de rebelião popular, embora ostensivamente urdida e comandada por prefeitos e outros políticos. Se nesse argumento houvese um fundo de verdade, seria inexplicável para mim que, agora, as mesmas cidades estejam atualmente empenhadas, com a mesma eloqüência, em transformar a estrada em “rodovia ecológica”. Rodovia ecológica não serve para escoamento de safra. E não dá para mudar de opinião e de prioridade de maneira tão radical – ou, como você mesmo disse, “ceder” – sem chamar a atenção para o fato de que o mesmo movimento já teve dois objetivos francamente contraditórios entre si. Também não entendo por que administrações municipais que se candidatam a beneficiárias e madrinhas da tal estrada ecológica jamais tenham demonstrado qualquer boa vontade em evitar, ou pelo menos reprimir, a caça e o extrativismo clandestino no parque nacional que, alegadamente, querem daqui para a frente ajudar a gerir. Se isso não caracteriza a inidoneidade de que uma candidatura, não sei mais o que caracterizaria. Para resumir, li tudo o que pude sobre a Estrada do Colono, de atores locais, ou pelo menos paranaenses. E acabei mais convencido do que antes da fragilidade dos postulados em que se baseia esse interminável debate. Trata-se de um caminho historico aberto por pioneiros? Duvido, Quem abre picada não atravessa floresta em linha reta. A estrada foi aberta décadas depois da decretação do parque por um governo estadual envolvido ostensivamente na especulação imoboliária com a dupla e até tripla titulação dos lotes já ocupados por colonos, depois de desalojados os antigos posseiros. Contra esse governo estadual, os colonos se levantaram numa série de rebeliões sangrentas na década de 1950. De onde vem, agora, todo esse apreço histórico por uma obra do governador Moisés Lupion, que os ameaçou com soldados, capangas e títulos falsos? Não sei. Até agora nenhuma história da Estrada do Colono conseguiu me convencer de que ela tenha fundamentos legítimos na tradição local ou motivos econômicos plausíveis. Logo, sou contra. Mas não é de meu estilo pessoal escrever con tacape. Por isso elogiei o vereador Marcelino Ampessan, como um político de quem se pode divergir sem brigar, até com admiração e apreço.Tenho o maior respeito pela colonização do Oeste parananese, cuja saga até já ajudiu a recompor em livro. E, também por isso, não gosto de ver essa história misturada com a memória de um governo corrupto e hostil aos colonos.
Um abraço,
Marcos
julho 5th, 2010 at 17:26
Oi Marcos, obrigado pela resposta e pela franqueza. O grande detalhe a ser visto é que o fechamento da estrada se deu em 1986 e nós estamos em 2010. São 24 anos. Muita coisa mudou. Sem qualquer juízo de valor, é fato que as pessoas mudaram. Os governantes mudaram. Em 1986, quem poderia pensar que o turismo ecológico, o setor de serviços, poderia ter uma importância econômica maior do que a agricultura? Eu sequer sei se hoje já é assim, mas se não é, certamente no futuro poderá ser. Agora, veja essa enormidade que é o parque, que – por exemplo – ocupa mais da metade do território de Serranópolis do Iguaçu. Quem lucra (em sentido financeiro mesmo) com o parque? Apenas Foz do Iguaçu e o IBAMA. Não vou discordar de ti no que diz respeito ao parque ser um patrimônio de todos os brasileiros. Pelo contrário, vou falar: você está corretíssimo! Todavia, será que não deveria haver uma efetiva compensação? Nesse ponto, o argumento do ICMS ecológico é falho no que diz respeito à estrada. Primeiro, porque se trata de uma receita estadual. Ora, se o parque é nacional, tal compensação deveria vir da União. Segundo, porque a o caminho do colono representa menos de 0,05% do parque. Pergunte se algum dos municípios não aceitaria perder 0,05% do ICMS ecológico em volta da estrada aberta novamente? Por outro lado, todo mundo já percebeu que reabrir a estrada do colono como um estradão é uma grande besteira. Ou emlhor: eu espero que todos tenham percebido isso. Agora, reconhecer isso contradiz os argumentos anteriores? Pode até contradizer. Mas muito pior seria insistir em uma idéia equivocada. Agora, um caminho rústico, apenas para ônibus de passageiros, pode ser uma forma de estender os bonus dos parque (seu potencial turístico) para aqueles que hoje, essencialmente, apenas percebem o ônus real da sua existência. Por isso que eu falei em ceder. Você fala que os municípios não são idôneos para lidar com parque, mas será que isto não mudaria se houvesse uma efetiva integração dos lindeiros com esse paredão verde que os cerca? De qualquer forma, fica aqui o contraponto. Um grande abraço.
julho 6th, 2010 at 12:18
Caro Gilson,
É um prazer cada vez mais raro trocar opiniões e até divergências com quem argumenta de verdade, em vez de simplesmente confundir desaforo com desacordo. Tenho que admitir que, em relação aos métodos e aos propósitos das décadas passadas, a posição dos municipios vizinhos do parque sem dúvida evoluiu. E que uma estrada ecológica, se for realmente ecológica, é uma alternativa indiscutivelmente melhor do que o simples atalho no meio do mato para escoar a produção agrícola dos municipios que confinam com os fundos do parque. Minha dúvida é o real interesse nessa estrada ecológica. Quantas pessoas no mundo estariam dispostas a pagar pelo investimento necessário a fazer uma estrada dessas – certamente cara, se seguir a proposta dos municípios de botar exclusiamente veíoculos elétricos na pista de pedra bruta, calçada à mão – em troca de atravessar um trecho de mata olhando a paisagem pela janela. É isso o que está proposto no “projeto”, do qual obtive uma cópia. Ele ainda está muito longede ser um projeto com cálculos de custo, de possíveis usuários etc., sem falar que não tem uma linha sobre impactos ambientais, e esses estudos seriam indispensávais num caso como esse. Por causa dessas lacunas, não consigo acreditar que a estrada terá, de fatio, o uso para o qual estaria sendo reaberta. Uma vez reaberta, o cumprimento dessas cláusulas dependeriam de fiscalização rigorosa. E até hoje as cidades vizinhas ao parque não deonstraram qualquer intenção de cuidar desse patrimônio, coibindo práticas ilegais. Logo, a discussão andou, sim, mas a meu ver ainda tem um longo caminho pela frente para se tornar tecnicamente exequível. E, mesmo assim, restaria a pergunta: para quë? Em São Miguel do Iguaçu há uma picada de quatro quilômetros que o parque abriu para atender, antes de mais nada, a demanda local. Já fiz essa travesia, a pé, e posso garantir que é ótima. Mas até hoje ninguém da cidade se candidatou a fazer o passeio. O futuro da Estrada do Colono, como roteiro eco-turístico, provavelmente seria o mesmo que o da Linha Martins. E, nesse caso, com toda a razão. Não imagino qual seria o proveito e a graça de um programa eco-turístico em que não se desce do ônibus. Enfim, o fato de o ICMs ser estadual não altera, na inha opinião, o fato de que os municípios que o recebem (e, em pelo menos um caso, cerca de 63% dos recursos municipais vêm daí) devem essa compensação ao fato de existir em seu território uma floresta mantida pelo governo federal. Em resumo, continuo com as minhas opiniões, mas respeito muito as suas.
Outro abraço,
Marcos
setembro 22nd, 2010 at 16:18
Prezado Marcos
Sei que sua opinião (contrária) quanto à reabertura da estrada jamais mudará. Mas de qualquer forma – até mesmo como forma de provocação – eu te encaminho esse link abaixo. Trata-se da experiência da VOLVO em Curitiba com ônibus híbridos eletricidade / biodiesel. Quem sabe nós não os veremos a circular pela estrada do colono?
http://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/prefeito-conhece-o-hibribus-onibus-com-motor-eletrico-e-a-diesel/20626
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O prefeito Luciano Ducci conheceu nesta quarta-feira (22) o ônibus 7700 Hybrid, da Volvo, que tem dois motores, um a diesel e outro elétrico. O novo veículo vai integrar a frota a partir da segunda-feira (27), operando na linha Interbairros 2 experimentalmente durante três semanas. Com isso, Curitiba será a primeira cidade brasileira a testar o modelo, que poderá ser implantando na capital paranaense para a Copa de 2014.
“Esperamos que a nossa fábrica da Volvo já possa viabilizar o projeto para que o ônibus comece a circular para a Copa do Mundo. É um ônibus silencioso, que opera em dois sistemas de combustível, de forma sustentável. Curitiba é modelo no transporte coletivo e este ônibus será outro diferencial da cidade, que pensa na questão ambiental”, afirmou Luciano Ducci, que andou no novo modelo ao redor da Prefeitura, no Dia Sem Carro.
O sistema híbrido da Volvo proporciona uma redução no consumo de combustível de até 35%. A diminuição das emissões de gases poluentes que saem do escape é de cerca de 50%. “Curitiba é a primeira cidade a fazer o teste porque tem exemplo de cuidados ambientais e pela referência no transporte. A cidade tem muito a ganhar, porque com este veiculo reduziremos a poluição”, afirmou o presidente da Volvo Bus América Latina, Luís Carlos Pimenta.
A cada vez que se acionam os freios, a energia de desaceleração é utilizada para carregar as baterias. Quando o veículo está parado, seja no trânsito, em pontos de ônibus ou em semáforos, o motor diesel fica desligado.
O motor elétrico é usado para arrancar o ônibus e acelerá-lo até uma velocidade de cerca de 20 quilômetros por hora, e também como gerador de energia durante as frenagens. O motor diesel entra em funcionamento em velocidades mais altas. “Este sistema rende muito bem na cidade, porque temos paradas freqüentes, em razão do trânsito. Assim, ele se auto-carrega toda vez que para, podendo acionar a parte elétrica e o diesel”, explica o engenheiro da Volvo, Fábio Lorençon.
Para o presidente da Urbanização Curitiba S/A, Marcos Valente Isfer, o ônibus tem inúmeras vantagens, além de ser ecologicamente correto. Por funcionar de maneira auto-sustentável, e com sistema de bateria, não há barulhos para os passageiros, o que certamente será uma diferencial para o transporte da cidade. “É um excelente projeto. A nossa expectativa é que seja desenvolvido pela empresa para que começar a operar e funcionar até a Copa, melhorando ainda mais as condições do transporte em Curitiba”.
Por favor, não é minha intenção estragar seu bom humor e leveza que vemos nos textos. Continuo seu fã (pelo menos na Piaui).
setembro 23rd, 2010 at 13:58
Caro Gilson,
Touché! Eu sou maníaco de carros híbridos desde que eles começaram a circular pelo resto do mundo e nunca entendi por que nunca chegaram aqui, trazidos por marcas como a Honda e a Toyota que pelo visto acham que o brasileiro ainda não merece seus modelos de mais alta tecnologia, mesmo como opção mais cara. Dito isso, gostaria de lembrar-lhe que ônibus híbrido é bom, mas nãi é ônibus elétrico. E continuio sem entender qual é o mercado turístico de uma estrada que era reivindicada anos atrás como opção de transporte pessoal e para o escoamento de safras. A Linha Martibs, uma belíssima trilha aberta do outro lado do parque há anos, nunca foi usada por nenhum morador dos municípios próximos. Neste caso, pelo menos, quem ainda não conseguiu mudar de opinião fui eu.
Um abraço,
Marcos