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A floresta é mais estacional no outono

sex, jun 25, 2010

Iguaçu 2010

Os ambientalistas que me perdoem, mas a língua que eles usam achando ser a portuguesa tem uma certa dívida a saldar com a natureza brasileira. Atravancou-lhe o caminho com palavras difíceis de engolir, ou mesmo de proferir, como bioma. Para os iniciados, bioma pode ser um termo indispensável para designar uma “grande comunidade estável e desenvolvida, adaptada às condições ecológicas de uma certa região, e geralmente caracterizada por um tipo principal de vegetação” etc.

Mas, para quem ainda está tateando o assunto ou, melhor ainda, dando os primeiros passos em direção à natureza, a palavra soa como nome de uma vaga doença desconhecida, talvez um novo sintoma da hipocondria cósmica que os muito anti-ecológicos instistem em diagnosticar nos ecologistas. E, vamos e venhamos: “bioma mata atlântica” é quase um convite a não se aproximar da floresta, um espantalho verbal afastando os intrusos.

Essa conversa fiada veio por conta do outono que, sem obediência cega ao calendário, vai acabando aos poucos no parque do Iguaçu, retardado pela temporada interminável de chuvas que, este ano, ainda não deu tempo sequer para o fundo das trilhas secar – e menos ainda secar a floresta à sua volta. Talvez por isso mesmo, a estação teve a chance de se revelar aos poucos. O que dá ao forasteiro a chance de perceber aquilo que, passando por sua frente em velocidade de cruzeiro, talvez continuasse desapercebido.

Por exemplo, que Iguaçu tem mesmo outono. Não é como aqueles que amarelam de um dia para o outro montanhas inteiras no hemisfério norte. Ou mesmo os que avermelham de repente os vales aos pés da Patagônia andina. No Iguaçu ele vem em mancha esparsas. Uma folhagem amarela aqui, outra avermelha adiante.Folhas caem aos montes ainda verdes, ao primeiro pé de vento. E, no fim, juntando as coisas, mais cedo ou mais tarde até os turistas aprendem, na prática, o que quer dizer ao vivo e em cores a tal da floresta estacional semidecídua.

Sim, ela muda com a estação. E, sim, também perde folhas. O chão da mata com, elas fica diferente. E as copas mais altas, quando se desfolham, abrem embaixo clareiras provisórias, onde as flores e as lianas parecem estar esperando para pegar sol exatamente na parte do ano onde ele sobe mais tarde e cai mais cedo. Entre o fim da manhã e o começo da noite, a floresta fica ensolarada. O bosque rasteiro, que até outro dia passava meio desapercebido como uma massa mais ou menos informe de vegetação opaca, ganha destaque e perspectiva.

No entardecer, o sol bate transversalmente num dossel que deixou de ser continuo, para se encher de falhas providenciais, que abrem alas para a luz chegar a troncos e galhos que passaram metade do ano na sombra impenetrável das árvores dominantes. Aí, o pássaro que outro dia mesmo era uma voz sem forma ou uma silhueta escura se cobre de cores vivas que nunca se mostravam antes. Aparentemente, há mais bichos. Na verdade,são menos bichos, mas incomparavelmente mais e

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4 Comments For This Post

  1. nina k Says:

    faz vontade de ter mais, de estar la, e banhar-se na luz que desce dos cedros e jequitibas.

  2. Luciana Chiyo Says:

    Não sou iguaçuense, sou paulista, mas tenho muito orgulho da cidade, e me alegro em ver como escreve bem, especialmente sobre essa preciosidade que é o nosso Parque Nacional do Iguaçu. Obrigada por sempre enaltecer a conservação das belezas naturais!

  3. Marcos Sá Corrêa Says:

    Prometo tentar, Nina. O problema é que o parque me enche sempre de tanta coisa para fazer, aprender, fotografar e contar – sem dizer que, nas horas vagas, preciso trabalhar em vários lugares, porque a vida lá fora continua – que estou sempre atrasado em relação às coisas do Iguaçu. Vou passar em revista eus arquivos sobre árvores. E voltar ao assunto o mais depressa possível.

    Um abraço,

    Marcos

  4. Marcos Sá Corrêa Says:

    Luciana,

    Também não sou iguaçuense, mas estou cada vez com mais dificuldade de pegar o avião e ir para casa, no Rio.

    Abraço,

    Marcos

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