Não escapa nem o jardim bicentenário
sex, jun 18, 2010
O Rio de Janeiro não parece satisfeito com a privatização de um jardim público na Zona Sul, o Parque da Cidade, pelas duas favelas que o estrangularam no bairro da Gávea. A Câmara Municipal jogou nas mãos pródigas dos vereadores, em véspera de eleição, um projeto que promove a Áreas de Relevante Interesse Social os 19 focos de invasão do Jardim Botânico e do Horto Florestal.
É o toque carioca na grande queima dos saldos de patrimônio público inalienável de 2010, com a liquidação de parques nacionais, retalhos de florestas e estoques de água no ano em que, pela primeira vez, o Brasil ensaiou a discussão do meio ambiente numa eleição presidencial.
No Horto e no Jardim Botânico, os vereadores entram em campo numa hora em que a União vinha ganhando silenciosamente, uma a uma, nas últimas instâncias da Justiça, todas as ações de despejo contra os invasores, inclusive o clube de futebol que ocupa um dos antigos talhões onde o Jardim Botânico produzia mudas de árvores nativas.
As vitórias judiciais contra os invasores saíram da teimosia infatigável de um único servidor público, o procurador regional da República Luiz Cláudio Teixeira Leivas. São causas que se arrastaram no Judiciário por 15, 20 anos, sem que os administradores das instituições lesadas prestassem ao esforço de Leivas sequer a cortesia protocolar de comparecer às audiências, para defender o que o país confiou a eles. As casas devolvidas ao arboreto do Jardim Botânico nesta década foram esvaziadas por argumentos que o procurador invocou nos processos há muito tempo. Desde então, por impopulares, tiveram que abrir praticamente sozinhos o caminho dos tribunais.
Parecem juridicamente imabatíveis. Mas é para dar um jeito nessas coisas que existe a política. A defesa das invasões é tão capenga que até hoje figura em destaque na internet, na página da Associação dos Amigos e Moradores do Horto, uma carta do ex-prefeito César Maia, tomando cinco anos atrás, do alto da administração municipal, o partido dos invasores. É um dos documentos mais destrambelhados que já mereceram o aconchego de um papel com timbre oficial.
Vem dele a idéia de sacramentar as invasões como áreas de relevante interesse social porque, “ao consultarmos o histórico da ocupação do Horto, verificamos que este tipo de ocupação está intimamente ligado à História do bairro, assim como do próprio Jardim Botânico, fundado à época de D. João VI”. Nele se instalou uma “população que, em sua maioria, ali reside há mais de 60 anos”. E “as informações dão conta de que a estratégia adotada pelos diretores do Jardim Botânico para fazer o parque funcionar consistiu em, no trecho que hoje se encontra ocupado por 589 famílias, doar terras para que os funcionários construíssem suas próprias casas”, porque “o pagamento não vinha regularmente”.
Beleza. Em poucos parágrafos, o ex-prefeito afirma que o Jardim Botânico foi fundado em 1808 por um príncipe-regente que só viraria D. João VI em 1818, e que isso ocorreu há mais ou menos 60 anos, porque foi em seu tempo que se aboletaram lá dentro os 589 funcionários. Esses, pelo número, deviam fazer jardinagem com pinça e alicate de cutícula, ou faltaria espaço para tanta enxada. Mas é nessas coisas que a política brasileira, por esperteza, acredita.
Tags: Conservação, Jardim Botânico, Rio de Janeiro






junho 21st, 2010 at 11:18
1/4 a menos para a Serra da Canastra em nome de mineradoras estrangeiras!!! E o Gabeira disse que “não conhecia as críticas e que apresentará recurso para reabrir a discussão”. Caso contrário, até a próxima semana o projeto de lei que reduz em 24% a área do Parque da Canastra (MG), local da nascente do Rio São Francisco, será aprovado pela Câmara e irá para o Senado.
Marcos/Tereza – outro polêmico tema a ser devidamente investigado.
Reportagem da Folha fala sobre interesses de mineradoras estrangeiras na exploração de quartzito e até diamantes do subsolo!
junho 21st, 2010 at 17:50
Existe um certo exagero uma apelação sem fundamento a materia fala pelo poder judiciario da classe politica sem nenhuma procuração ou autotrização para essa questão vamos comover os poderes na forma da Lei. E Não com Drama! Deixe a justiça fora disso e vamos apoiar e buscar resolver os conflitos socio-amobientais que envolve familias de moradores e o jardim botânico para que não haja prejuízos em ambas as partes, pega leve Marcão..ôxi!
junho 21st, 2010 at 18:39
Caro Carlos Henrique,
Neste ponto estamos plenamente de acordo: também sou a favor de pegar leve.
Abraço,
Marcos
junho 21st, 2010 at 19:15
Talvez não haja tanto sentido em classificar as mineradoras entre estrangeiras e nacionais, ou entre novas ou antigas, já que a predação não tem vergonha ou bandeira. Também não deve haver sentido em compartimentalizar os problemas que nos acompanham há séculos e que tem por síntese o visível descaso com que o poder, de ontem e de hoje, encara os espaços e aquilo que é de todos. De unidades de conservação a qualquer outra coisa.
Diminuir costuma ser a prática para aumentar ilegítimos e, via de regra, ilegais benefícios ou lucros. Diminuem áreas de preservação, extinguem a reserva legal, apartam, sem desconforto, dos crimes ambientais a ilegalidade e varrem para mais longe ainda a necessária punição. Tudo em nome dos mesmos, dos que manobram governos e decisões com os dois olhos voltados exclusivamente para seus inconfessáveis interesses: de votos a dinheiro. Difícil distribuir não uniformemente a culpa entre corruptos e corruptores.
Diminuem também os juros dos empréstimos do BNDES para que continuem a missão de espoliar. Assim, paradoxo maior da devastação, os que clamam por justiça e lucidez ambiental ainda são obrigados pelo “desgoverno” a pagarem para que destruam e contaminem a terra que é e deveria permanecer sendo de todos.
É preciso impingir a este estado de coisas um ponto de inflexão. E já vai tarde essa urgência! Talvez não seja mais oportuno pegar leve a não para deixar rastros menos visíveis do estrago que nossa espécie é capaz replicar.
Em livro, da primeira metade do século passado, registra Francisco de Barros Júnior a antiguidade da ganância sobre o quartzo: “Corinto é uma pequena cidade, à qual ….. falta água, calçamento e esgotos. O território é rico em quartzo, e durante os últimos anos da guerra, tornou-se empório desse cristal, de que eram ávidos os americanos e ingleses”. A guerra a que se refere é a 2ª Grande Guerra, mas a pobreza maior deveria ser a dos responsáveis por ancorarem o Brasil na armadilha do valor agregado ZERO e na primarização de sua riqueza, tudo a pressionar desmedidamente nossos recursos naturais. É o pior dos mundos: agressão ambiental e nenhuma distribuição da riqueza.
No mesmo livro, Caçando e Pescando por todo o Brasil, 2º volume, arremata: época em que “(…) a flora e a fauna mal começaram a sentir a mão implacável do homem, a caminho do seu desenvolvimento.”
Seria esperar demais que escrevesse, na época, “crescimento” e não “desenvolvimento”.
junho 21st, 2010 at 22:52
Pegar leve??? Queremos que se cumpra a lei! O Jardim Botânico é uma área particular, esses “moradores” ocupam uma área ilegalmente! Isso é fato. A única parte que interessa é a legalidade. Chega de conivência com a balbúrdia e a imoralidade. Olha no que o Rio se transformou graças a conivência de políticos pilantras…
junho 22nd, 2010 at 8:05
Caro Jorge,
“Pegar leve”, para mim, queri dizer exatamente isso. Não sair por aí pegando as coisas sem mais nem menos, sobretudo quando se trata de propriedade pública.
Um abraço,
Marcos
junho 22nd, 2010 at 8:08
Luiz Aurélio,
Você está conseguindo provar que o velho Francisco de Barros Júnior serve mesmo para qualquer assunto que passe por perto da natureza – ou seja, todos. Eu sempre achei que ele se aplicava só ao patrimônio ambiental que o Brasil dilapidou sem sequer aproveitar de verdade. Mas estou vendo que me enganei.
Grande abraço,
Marcos
julho 28th, 2010 at 13:28
Não acho que deva pegar leve nem pesado. É a realidade! É um patrimônio da União que deva ser preservado. Se há famílias oriundas daqueles tempos idos dos funcionários deve haver um diálogo pacífico para saída delas, mas permanecer nunca.
Hoje são 500 casas, depois 600 e por aí vai.
Já perdeu a finalidade de abrigar funcionários do Jardim Botânico há muito tempo.
Parabéns está certo seu comentário.
dezembro 3rd, 2010 at 15:52
Caro Vasco,
Até para fazer pizza tem que bater a massa.
Abraço,
Marcos