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Gosto de borboleta não se discute

ter, jun 8, 2010

Iguaçu 2010

Pelo menos para os entomólogos, há retratos de família sobrando nesta foto. Mas, para as moscas, besouros, borboletas e outros bichos que posaram no domingo passado para a câmera, o centro das atenções está mais embaixo. É aquilo que juntou no chão, diante da represa que um dia alimentou dentro do parque nacional a primeira hidrelétrica de Foz do Iguaçu, tantas espécies diferentes de criaturas aladas, que umas chegavam a aterrissar sobre as outras.

A causa de tamanho combate aéreo não poderia nos parecer mais inglória. Era ela. A própria. Fresca. Produto talvez da madrugada anterior. Obra de um carnívoro, sem dúvida, pela fartura de pelos cinzentos que entrara em sua massa. Provavelmente de um felino de médio ou de grande porte. Onça? Os entendidos na matéria – fecal, diga-se de uma vez por todas – acharam que só podia ser coisa de puma.

Há nela borboletas difíceis de ver em outras circunstâncias. Como a Achlyodes busirus rioja, que Misiones, um guia argentino dos lepdópteros da região, considera “difícil de se descrever”, pela complexidade de suas asas aveludadas. Ela “voa dando pquenos saltos e gosta de locais sombrios”. Para quem fizer quiser questão de vê-la ao vivo, aqui vai a dica dos autores: “Encontra-se alimentando-se em lugares onde outros animais deixaram seus excrementos”.

Mas a fotografia entrou aqui como puro pretexto. Não é de hoje que este blog andava atrás de uma ilustração convincente para dois ous três parágrafos sobre essa versão silvestre da mesa de bufê em jantar beneficente, colhidos num livro brilhante, o Tropical Nature – filho único, por sinal, de uma parceria entre biólogos que se dissolveu para sempre quando a obra ainda estava no prelo. Um dos autores, Kenneth Miyata, morreu afogado, pescando truta no Yellowstone. O outro, Adrian Forsyth, dedicou-lhe o livro como um tributo à vocação de Miyata para viver “a experiência biológica em seus extremos”.

Eles formavam em seus textos uma linha de passe tão certeira que só por uma pista oferecida por Forsyth na introdução do livro – ele pesquisou a selva tropical na Costa Rica, Miyata no Equador – dá para farejar os vagos sinais de autoria deixados ao longo dos 17 capítulos. Publicado nos Estados Unidos em 1984 e, como acontece freqüentemente com os melhores títulos da pesquisa biológica, até hoje sem tradução para o português, Tropical Nature é uma ferramenta indispensável para abrir os olhos do brasileiro a tudo o que ele e geral não enxerga nas florestas nativas.

O que se vê nela até hoje é a miragem de que, embaixo de tamanha exuberância. só pode estar uma terra excepcionalmente fértil, esperando pelo machado e o fogo para enriquecer os pioneiros. Foi assim que os Europeus entraram pela primeira vez nos trópicos. E que a fronteira agrícola do Brasil continua avançando até hoje pela Amazônia adentro, atrás de uma ilusão criada pelos fungos que, potencializados pelo calor e pela umidade, reciclam sem parar a vegetação que jamais repousa.

Os detritos de uma floresta tropical não se acumulam no solo, porque são rapidamente digeridos por novas formas de vida. Logo, tirada a floresta, a fertilidade acaba de uma safra a outra, como descobriram os cafeicultores do Vale do Paraíba no século XIX. Forsyth e Miyata oferecem, logo nas primeiras páginas do livro, uma aula prática e gratuita de como a mata úmida devolve seus mortos ao mundo dos vivos.

Basta tirar o melhor proveito educacional da rica dieta de feijão, gordura e carboidratos da cozinha regional. “O que ocorre com os excrementos no chão da floresta tropical é um dos vastos espetáculos da natureza em pequena escala, o da competição por recursos escassos levada aos últimos limites – uma batalha e um salve-se quem puder cheios de colorido e método.” Nada mais simples do que observá-lo, garantem os autores.

É só, “quando a natureza o chamar”, não ir embora o mais depressa possível, como quem deixa o local de um crime. Mas se sentar “calmamente ali por perto. Os primeiros competidores chegarão tão logo você se acomode”. São os pequenos besouros Scarabaeidae e as moscas de brilho metálico da família Otitidae, as populares varejeiras.

“As moscas imediatamente se estabelecem lá em cima para o acasalamento”, enquanto os besouros simplesmente “mergulham fundo e começam a comer”. No caso, as fêmeas na certa estarão “carregadas de ovos maduros”, prontos para serem depositados ali, ao mesmo tempo em que elas “gostosamente se fartam”. Em seguida chegam os besouros de maior porte, ou populares rola-bosta. Eles demoram um pouco mais para dar o ar de sua graça, porque têm pior olfato que seus primos menores e custam a acertar o alvo.

Em compensação, realizam manobras infinitamente mais complicadas do que eles, modelando bolas perfeitamente esféricas com as patas traseiras e tratando de levar para lugar seguro seu butim. Em seu meio, há fêmeas que escolhem o parceiro pelo tamanho da “esfera nupcial rolante”. Logo, convém caprichar com as patas na massa. Para dizer o “sim”, elas se equilibram em cima da bola, e o macho se encarrega de levar a noiva e a incubadora até o ninho, também laboriosamente escavado por ele a uns bons metros de distância da arena onde o conquistou.

Até 50 espécies diferentes de Scarabaeidae podem entrar em cena, enquanto dura o espetáculo – vários dias, se o excremento é de carnívoro, ou menos de duas horas, se for humano. E eles são só um dos inumeráveis tipos de insetos que participam do elenco. “Nós gastamos muitas horas estudando essa luta e ponderando suas lições”, contam Miyata e Forsyth. “É uma revelação ver essa matéria tão desprezada ser objeto de tanto desejo entre tantas criaturas tão lindas. Mas nossas tentativas de interessar amigos e alunos nesses eventos não têm sido completamente exitosas”.

Talvez por lhes faltarem por lá as irresistíveis borboletas do Iguaçu, eles acabaram concluindo que “a fetilidade crua não é bela”.

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2 Comments For This Post

  1. Evie Says:

    Marcos,
    Sou fã de “Tropical Nature”! Que boa surpresa ouví-lo falar sobre esse que é talvez o meu livro preferido. Agora sei de onde vem sua inspiração. rs
    Também sinto muita falta desse tipo de literatura em português. Você conhece algum outro livro nesse estilo para sugerir?
    Abraços e parabéns pelos textos.

  2. Marcos Sá Corrêa Says:

    Pois é, Evie. E que pena saber que se trata de um livro de estréia que não dará cria, porque era trabalho de dupla e um dos autores morreu antes do lançamento de “Tropical Nature”. Quanto à lista que você pede, vou tentar organizá-la, pelo menos de acordo com meu gosto. Mas, em princípio, tudo que li até hoje do Bernd Heinrich, por exemplo, é coisa fina, embora trate do Maine, não dos trópicos. Mas prometo passar em revista a estante e ver o que me ocorre.

    Um abraço,

    Marcos

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