Brabeza de onça é ruindade de caçador
ter, jun 8, 2010
Quando o telefone tocou no quarto às oito da noite, antes mesmo de atender não havia dúvida: “Só pode ser onça”. Celular, aqui no parque, não é instrumento de conversa fiada. E, com as noites frias que junho trouxe, os dias acabam, para todos os efeitos sociais, logo depois que o sol se esconde. Mas deu um certo trabalho confirmar todo esse monte de suposições automáticas, porque ele parou de chamar no quinto toque, antes que desse para desencavar o aparelho no fundo da mochila.
“É onça mesmo, quem ligou estava com pressa”, continuou a cabeça, falando sozinha. No número que ficara gravado na memória, quem atendeu foi o guarda do portão. Felizmente, bem informado. “Deve ter sido o Apolônio”, ele disse. E explicou que duas onças tinham aparecido – depois de longa e sentida ausência – no acostamento da BR-469, “entre a casa do diretor e a do capitão Capelli”. Capelli comanda o destacamento da Polícia Florestal instalado dentro do parque.
Era logo ali. A meros 500 metros de distância. Mas não deu para controlar o reflexo de ligar primeiro para o biólogo Apolônio Rodrigues, diretor de Conservação e Manejo do Iguaçu, além de mateiro tarimbado. Ele atendeu com uma voz quase inaudível: “Liguei sim, mas não deu para esperar. Elas estão bem aqui, na minha frente. Venha devagar, para não assustá-las”.
É claro que o jeito foi sair correndo, catando às pressas o material fotográfico sem examiná-lo, levando inclusive um flash com pilhas exauridas. E o tripé, que esperava de pé ao lado da porta, acabou ficando para trás, esquecido no escuro. Em compensação, minutos depois já se viam os faróis do carro do Apolônio, apontados para a borda da floresta, no acostamento.
Ao lado, sobre a relva baixa, outro carro iluminava a cena. Sem falar que a bióloga Marina Xavier da Silva, do Projeto Carnívoros do Iguaçu, manejava um holofote portátil, alimentado pelo acendedor de cigarros de um dos automóveis. Todos estavam naquele momento exatamente a 11 metros das onças, medidos pelo foco manual da teleobjetiva. As figuras humanas foram se tornando reconhecíveis aos poucos, na sombra. De pé no chão orvalhado, sob um frio de rachar, formavam um grupo calado, ou que no máximo murmurava entre si palavras indispensáveis.
E os bichos lá, à vontade, quase indiferentes aos espectadores, como se soubessem que estavam diante de especialistas. Uma das onças tinha no pescoço o colar do rádio-transmissor. Seria o Pança, o filhote capturado semanas atrás para monitoramento? “Não”, sussurrou Marina. “É um macho argentino. E a outra parece uma fêmea daqui mesmo. Com sorte, vamos pegar um acasalamento”.
Nada disso. Na manhã seguinte, o exame cuidadoso das manchas revelou que era o Pança mesmo, de volta à parte mais habitada do parque, e aparentemente à companhia do irmão. Pena porque a verdade científica desmancharia a promessa de assistir em pré-estréia uma grande co-produção transnacional. O Iguaçu, naquele ponto, depois de se espalhar por 270 cataratas num raio de quase três quilômetros, acalma-se num leito fundo, sinuoso e estreito, que corre mansamente rumo à foz, no rio Paraná. A mata dos parques nacionais cobre suas margens de um lado e do outro. E, ao contrário dos políticos e diplomatas sulamericanos, seus animais sabem que, em parques nacionais, essa história de fronteira internacional é besteira.
A dupla de onça deu um show de educação e fineza por mais 20 minutos. Elas entravam e saíam da mata como se tivessem – e tinham – pleno domínio daquele palco sem fundo. Encaravam atentamente a platéia, sem agressividade ou arreganho de dentes, como se estivessem estudando o comportamento humano. Mastigavam o capim alto que costeia o limite da floresta com o acostamento, sem que alguém ali soubesse explicar o que isso queria dizer.
Pança tinha uma cicatriz aberta no peito, do qual pendia um farrapo de couro – ferida interpretada como um sinal de que suas brincadeiras com o irmão estão aos poucos superando a fase juvenil. Ambos pareciam crescidos e encorpados, depois desse mes de sumiço. Também por isso,não foram reconhecidos à primeira vista.
Mas esses detalhes ficaram para se esclarecerem depois. O que deu para entender na hora, mais uma vez, é como enfiaram em nossas cabeças mentiras difamatórias sobre as onças os livros infantis de Monteiro Lobato ou os relatos de caçadas feitos por caçadores, todos interessados em espelhar na ferocidade dos animais sua própria valentia.
Tratava-se, nesse caso, de feras mitológicas. Até o Inferno de Dante era rondado por uma “onca horrível”, embora a Itália do Renascimento ainda nem tivesse visto uma legítima onça do Novo Mundo. Eram impressões deixadas em geral por animais encurralados e enlouquecidos pelo cerco histérico das matilhas de caça. Nesses casos, como ensinou Camões na história de Inês de Castro, provavelmente “toda a feridade” estava em “peitos humanos”. Porque, vistas assim, sem exibicionismos de parte a parte, as onças até que pareciam amáveis, se não inofensivas.
Pança, de coleira, que em si já lhe dava um certo ar de animal doméstico, acabou se deixando apanhar pela máquina fotográfica placidamente sentado no meio da folhagem, fitando o público, com a língua de fora. Tinha, naquele momento, a mesma cara da onça estilizada e francamente inverossímil, fera de histórias em quadrinhos ou de desenhos animados, que decora a lataria de um dos ônibus de turismo no Parque Nacional do Iguaçu. Por incrível que parece, aquela onça do ônibus existe, sim. Estava na beira da estrada ontem à noite, para desmentir tudo o que se diz e se faz contra sua espécie.
Tags: Carnívoros, Fotografia de Natureza, Onças, Parque Nacional do Iguaçu








junho 8th, 2010 at 18:20
Marcos
Mais um animal injustiçado porque, dizem, nunca tive coragem de confirmar, que os tubarões tb sao tranquilos e nadam em volta dos mergulhadores numa boa.
Os viloes somos nos…
Bjs
Saudades
Marcia
junho 8th, 2010 at 20:03
Sempre achei isso, Marcia. Tubarões, baleias, leões, gorilas, tigres… Na dúvida, basta ler o George Schaller, o inventor da arte de estudar animais selvagens sem matá-los nem prendê-los num zoológico.
Um abraço,
Marcos
junho 9th, 2010 at 10:53
Um sonho de qualquer biólogo (ou da maioria): ver onças em ambiente natural. Desta forma então, dando tempo de sobra para fotografá-las, melhor ainda. Parabéns!
junho 9th, 2010 at 19:07
Olá,
Artigo muito bem escrito, que experiência sensacional ein Marcos!
Agora, divagando sobre a cicatriz no peito de Pança, não seria resultado de uma tentativa sem êxito do animal se ver livre do ingrato colar com que o presentearam?
Abraços
junho 9th, 2010 at 21:36
Marcos,
Belas fotos e igualmente belo texto. Muito bom ler a descrição detalhada do acontecimento (não é a toa que sou fã do Charles Dickens). Me levou um pouco para perto desse magnifico evento ocorrido com vocês. Triste é andar atualmente por essas florestas aqui do Vale do Itajaí (SC) com pouquíssima ou nenhuma esperança de ver tão magnífico animal. O último indivíduo que se tem notícias por aqui foi assassinado em 1983.
Abraço
junho 10th, 2010 at 9:39
caro Marcos,é um prazer ler sua coluna que divulga corretamente as nossas onças pintadas. Só quem tem o previlégio de conviver com elas sabe o quanto são perseguidas por esta á fama que em nada corresponde à realidade.
junho 10th, 2010 at 12:03
Obrigado, Josias. Foi bom mesmo viver essa exeriência. E fiz o possível – que é pouco – para dividi-la com vocês.
Abraço,
Marcos
junho 10th, 2010 at 12:06
Luiz Henrique,
Sensacional mesmo, Henrique. Mas a cicatriz no peito do Pança parece ser mesmo um sinal de que ele o irmão começam a evoluir das brincadeiras para as brigas mais sérias, que acabarão por necessariamente demarcar seus territórios de caça e procriação.
Abraço,
Marcos
junho 10th, 2010 at 12:08
Henrique,
Também acho quase uma iniquidade eu estar lá e você não. Mas, é como não dizia mas deveria dizer o velho ditado: quem não tem diploma caça com biólogos.
Abraço,
Marcos
junho 11th, 2010 at 15:29
Que lindos! Falar mais do que isso seria redundância.
Parabéns pelas belas fotos e experiências.
Cordiais saudações,
Mariza.
Petrópolis/RJ.
junho 11th, 2010 at 15:57
Mariza,
Um detalhe que falta no texto. Naquela noite de segunda-feira, havia chegado à administração do parque a notícia de um desses filhotes estava morto, abatido do outro lado do parque, nos arredores de Capanema, por caçadores clandestinos que, para evitar a localização do corpo, através do colar rádio-transmissor, tiraram-lhe a cabeça. Tudo indicava que a onça morta fosse o Pança. Por isso, inclusive, ele não foi identificado na hora pelos biólogos do Projeto Carnívoros do Igiuaçu, influenciados por essa história que, até agora. não se confirmou. Agora você imagine como é encerrar um dia marcado ppor um boato desses vendo duas onças que se deixavam aproximar como aquelas.
Abraço.
Marcos
setembro 23rd, 2010 at 8:02
Eles são animais maravilhosos tomara que um dia isso dure não extinção!!!