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Morta, a estrada do Colono se move

sáb, jun 5, 2010

Iguaçu 2010

O desembargador Álvaro Eduardo Junqueira, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, está retomando no Oeste do Paraná a velha conversa sobre a Estrada do Colono. Louve-se o seu senso de oportunidade. O assunto sai da gaveta bem na hora em que o Conselho Nacional de Meio Ambiente resolveu entregar às populações tradicionais e pequenos agricultores as terras ilegalmente devastadas em áreas de preservação permanente, uma sentença acaba de declarar extinto o Parque Nacional de Ilha Grande e o Congresso se prepara para adaptar o Código Florestal ao gosto de quem o descumpriu frontalmente.

O momento, portanto, não poderia ser mais propício para botar na roda dos enjeitados o Parque Nacional do Iguaçu, que a Estrada do Colono corta no melhor pedaço, a parte em que a floresta foi declarada “intangível”. Mas se o que ele pretende é mesmo promover a “conciliação entre as partes”, cumprindo uma decisão unânime do Tribunal em Porto Alegre, o método que escolheu vai dar briga na certa..

Ele começou ouvindo exclusivamente os municípios que já manifestaram, mais de uma vez, pela invasão dessa unidade federal de conservação, sua opinião sobre o assunto. De cara, o desembargador federal municipalizou uma questão federal. E ainda aproveitou para contar que morou em Foz do Iguaçu, mantem com a região laços afetivos e reconhece a importância da estrada para sua gente.

Pelo cheiro, ele acendeu um fósforo para examinar um vazamento de combustível. Se era para conciliar uma parte só, o desembargador nem precisaria sair de Porto Alegre. Bastava ler atentamente, em seu gabinete, os argumentos em favor da reabertura. Se um deles ficar de pé sozinho, está resolvida a parada.

O problema é que eles são contraditórios ou implausíveis. Por exemplo, quando que aqueles 17,6 quilômetros rasgados na mata se assentam sobre uma picada aberta pelos  colonos catarinenses e gaúchos, ao chegarem ao Paraná na década de 1940. A essa altura, o parque já existia. Mas a estrada seria patrimônio histórico dos povoadores.

Se é, passou por ali uma raça de gigantes, capaz de atravessar florestas em linha reta, coisa que nem os elefantes costumam fazer na selva equatorial. Quem faz isso é linha telegráfica ou máquina muito poderosa. No caso, a máquina de corrupção política que impulsionou foi a do governo Moisés Lupion, que abriu passagem com os tratores para a especulação com terras devolutas, onde o lucro por alqueire chegou a bater em 6.684%. Era tão bom negócio que o governador titulava glebas umas sobre as outras.

Foi contra essa “psicose titulatória”, como disse o historiador paranaense Ruy Christovam Christovam, que se levantaram os colonos, numa série de rebeliões com mortios e feridos, entre 1957 e 1961. Na época, eles reagiram a bala aos grileiros fabricados por Lupion, que lhes queriam vender à força o que eles, na prática, já possuíam.

Tamanha foi a bagunça fundiária que, mais de 20 anos de decretado o parque, um advogado vendeu lá dentro lotes suficientes para criar, na floresta do governo federal, quatro vilarejos agrícolas, com luz elétrica, serrarias, porcos, bois, campo de futebol, duas escolas estaduais, ônibus, igreja, clube e cemitério. Os compradores de papéis falsos e baratos só saíram do parque em 1975, ao serem transferidos para lotes maiores em 1975.

Se é esse o passado que o Caminho do Colono quer preservar, o que o desembargador está correndo o risco de reabrir não é uma estrada, mas uma chaga.

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16 Comments For This Post

  1. Sergio Says:

    Se essa estrada for reaberta temos que cortar nosso saco mesmo, pois é inadimissível tal brutalidade contra nosso patrimônio natural!
    Tenho dito.

  2. Marcos Sá Corrêa Says:

    Parabéns, Sérgio. Enfim um brasileiro indignado! Há quanto tempo não se via um. A espécie anda tão rara quanto onça.

    Abraço,

    Marcos

  3. joao carlos Says:

    Brilhante!!! Brilhante!1 é o que eu posso dizer do artigo uUm ferro-velho no caminho, ques aiu no Estadão desta sexta-feira 02/07. Sempre leio os teus artigos. isso há anos. mas o que mais me toca é quando eles se referem ao Parque Nacional do Iguaçu e a Estrada do Colono. Conheco Paraná, onde devastaram florestas para plantar café. Morei durante anos em Cascavel, Oeste do Paraná. vi de perto os movimentos de políticos e lideranças empresarias pela reabertura da Estrada do Colono. Todos atrás de votos e de prestigilio. Numa demaogia e populismo sem par. tu és um bravo. A estrada não poderá ser reaberta… continue na luta. abraços

    joão carlos meassi

  4. Kleiton Franciscatto Says:

    Percebe-se que falta muito conhecimento das pessoas que fazem o comentário acima.(todos)
    Gente vão estudar antes de falar “bobagem”.
    Vocês devem sair dos prédios e dos centros das cidades não ligar mais as torneiras pois estão consumindo a aguá que não lhes pertence sem falar nas luzes e piscinas que estão na suas casas.
    Vão morar no meio da selva/mato, assim vocês realmente vão colocar em prática o que estão comentando,ou seja, é o típico exemplo desta frase: “faça o que o eu digo mas não faça o que eu faço”.
    O progresso econômico, social e cultural e a preservação ambiental devem andar juntos, situação elencada na Constituição Federal.
    É isso que a população e toda região busca.
    Com muito respeito.
    Obrigado.

  5. Marcos Sá Corrêa Says:

    Prezado Kleiton

    Estou vivendo no mato por opção desde janeiro. Isso me dá algum crédito para falar de um parque que, por ser nacional, é de todos os brasileiros, e não só de seus vizinhos?

    Além disso, o progresso social e cultural da região agradeceria muito se você não escrevesse ‘gente vão estudar’.

    Um abraço,

    Marcos

  6. Roberto Says:

    A questão é bastante complicada. Por um lado, se reaberta, a Estrada do Colono aqueceria a economia de cidades como Capanema e Serranópolis, uma vez que ela seria rota quase que obrigatoria para quem viaja entre Foz do Iguaçu e boa parte do sul do Brasil, o que movimentaria o comércio e os serviços em geral, gerando muitos empregos para as populações das cidades mencionadas. Ninguém critica a existência da rodovia das cataratas, que também atravessa o Parque Nacional do Iguaçu e da mesma forma afetaria o ecossistema local, isso seria porque essa rodovia dá acesso às cataratas e isso gera lucro, correto? Da mesma forma, do lado argentino, existe a Ruta Nacional 101, que liga as cidades de Andresito e Puerto Iguazu, que atravessa o Parque Nacional del Iguazu e nem por isso são relatados abusos ou agressões no lado argentino do parque. No entanto, as populações de duas cidades têm cerceado seu direito de ir e vir entre as duas cidades, sob a justificativa de uma suposta proteção ambiental. Sou a favor dos que defendem a reabertura da estrada, desde que de forma vigiada e com restrições. Por exemplo: tráfego permitido somente entre as 8 e as 18 horas, a exemplo do que ocorre na estrada que liga Manaua a Boa Vista e atravessa em determinado trecho a reserva dos índios Wairimi-Atroari, em plena floresta amazônica, região tão importante quanto o Parque Nacional do Iguaçu. Já pensaram se aquela estrada também fosse fechada? Outra sugestão seria a cobrança de pedágio, que seria revertido para o próprio parque, o que ajudaria em sua preservação. A fiscalização teria que ser redobrada, triplicada talvez, mas isso seria perfeitamente viável com a admissão de guarda-parques por meio de concurso público e a instalação de cãmeras de vigilância ao longo da estrada. Sim, porque o outro lado da moeda seria esse, infelizmente muita gente não teria a consciência de respeitar a natureza, mas nada que muita fiscalização e uma legislação severa – que poderia ser criada especificamente para regular o trânsito pela estrada – resolvessem.

  7. Marcos Sá Corrêa Says:

    Roberto,

    Você tem razão. A questão é mesmo muito complicada. E por isso concordo com várias de suas ponderações sobre a BR-469, a rodovia das Cataratas. Ela provoca muito impacto e um impacto em grande parte desnecessário, porque bastaria reduzir o tráfego em suas pistas ao estritamente necessário – ou seja, os ônibus da concessionária e os carros de serviço do parque – para reduzir esse impacto a proporções mais razoáveis. Cada vez mais, as operadoras de turismo e até os táxis transitam pelo parque, a pretexto de dar mais conforto aos clientes mas, na prática, tornando-os reféns dos guias de contrararam e, uma vez contratados, não querem perder o direito de conduzilos pela mão a todos os passos do programa, porque cada etapa gera uma contrapartida extra. Em último lugar, nessa conta, vem o interesso do turista. Como você vê, a BR-469 é criticada, sim, desde os tempos do primeiro plano de manejo. E já se falou de seus problemas várias vezes aqui nestas páginas. Mas a comparação da estrada do Colono com a BR-469 me parece descabida. Uma, apesar dos pesares, passa pela área mais policiada do parque. Na outra, essa estrutura de policiamente teria de ser criada especificamente para vigiá-la, o que nunca entrou na conta das propostas de reabri-la como rodovia ecológica. Uma segue o traçado de uma caminho comprovadoamente histórico de visitação do cânion, que antecede o parque nacional. Na outra, o atalho aberto pelo governo do Parará em território da União, num momento em que o estado era governado por fabricantes de títulos falsos. Uma tem clientela internacional e interesse turístico mais que comprovado. A outra está usando o turismo como pretexto para reaviar. como você mesmo diz, “a economia de cidades como Capanema e Serranópolis, uma vez que ela seria rota quase que obrigatoria para quem viaja entre Foz do Iguaçu e boa parte do sul do Brasil, o que movimentaria o comércio e os serviços em geral, gerando muitos empregos para as populações das cidades mencionadas”. Ou seja, o parque serviria apenas à sua passagem.

    Grande abraço e obrigado pelos comentários,

    Marcos

  8. Roberto Says:

    Caro Marcos,

    Desculpe-me, acho que não me expressei de maneira completa…concordo plenamente contigo no que se refere à preservação do patrimônio natural…na minha opinião a estrada do Colono deveria ser reaberta sim, mas desde que seguisse os mesmos moldes da BR-469, ou seja, teria que ser montada uma estrutura de policiamento e fiscalização, da mesma forma que ocorre na rodovia das Cataratas…sou totalmente contra à sua abertura sem que haja a fiscalização que um local tão especial como o Parque do Iguaçu merece e exige…e não defendi em momento algum a sua reabertura com interesse turístico, mas sim como meio de utilidade mesmo. A Ruta Nacional 101, na Argentina, também é usada como corredor encurtando distancias dentro da província de Misiones. Moro no RS e eu mesmo, quando vou a Foz do Iguaçu, onde tenho parentes, sou obrigado a dirigir-me até Cascavel, o que aumenta muito minha quilometragem e tempo de viagem.

    Abraços!

  9. Marcos Sá Corrêa Says:

    Roberto,

    Se é para discutir a reabertura da estrada do colono, concordo com seu ponto de vista que é melhor tratá-la sinceramente como o que ela de fato será – um atalho rodoviário e eventualmente um corredor de transporte – do que disfarçá-la como a tal “rodovia ecológica” que ela nunca será. Ao menos assim se discutem a tempo as salvaguardas necessárias. Que são muitas.

    Obrigado por botar um pouco de ordem e razão num debate que saiu dos trilhos racionais há muito tempo.

    Grande abraço,

    Marcos

  10. Dilso Ceron Says:

    nasci e me criei em Capanema, hoje sinto tristeza quando visito esta cidade que está isolada do resto do Brasil, sem prespectiva de desenvolvimento, pois está no fim da linha. dados as circunstancias o povo das duas margens do parque se comprometeram com o governo em preservar tanto a fauna quanto a flora, desde que a estrada continuasse aberta. o que não ocorreu, hoje existe uma revolta dos moradores da região e com isso tornaram-se ezimeos caçadores, preciso dizer mais alguma coisa???? eu faria o mesmo se estivesse aí.. abraços

  11. Marcos Sá Corrêa Says:

    Dilson,

    Será mesmo que esta história não seria mains bem cointada de trás para diante. Tenho conversado por aqui com ex-caçadores e ex-pescadores que, depois do fechamento da estrada, passaram a trabalhar no parque e aderiram à cionservação. A maioria deles, assim com a maioria dos ladrões de caça e palmito, vem de Capanema. Cresceram em famílias que caçavam e pescavam havia gerações. Botar a culpa na interdição da estrada me parece uma grande resistência ao fato e que unidade de conservação é unidade de conservação é unidade de conservação e que lei, mesmo ambiental, é lei. Quem escolhe o outro lado faria a mesma coisa em qualquer lugar. Numa favela carioca dominada por taficantes, por exemplo. E isso não se conserta com a leganização da ilegalidade no mato. Se for para ceder, eu, pelo menos, simpatizop muito mais com os argumentos favoráveis à liberação das drogas. Elas se destinam a um cinsumidor que, bem ou mal, pode escolhê-las. As armadilhas, redes, anzóis e balas de carabina se destinam a uma cliebntela que não tem opção além de pagar pelos errops alheios.

    Um abraço,

    Marcos

  12. morador da cidade Says:

    cara eu peço que esse pessoal antes de falar merda primeiro conhece o local eu acho que todos que fizerem comentario falarem so merda o pessoal falar ate papagaio fala eu estou aqui deixando esse recado e eu sou a favor sobre a reabertura da estrada do colono porque com a estrada fechada a cidade de capanema è morta eu respeito a opinião de cada um mas antes de comentar voceis devem conhecer

  13. Marcos Sá Corrêa Says:

    Morador da Cidade.

    Contra argumentos tão claros e convincentes, não tenho resposta. Não me arrisco nem a dizer que estive lá mais uma vez há cinco diuas e não vi nada que um pouco menos de estrago ambiental não pudesse consertar.

    Abraço,

    Marcos

  14. Dilso Ceron Says:

    Marcos..
    nasci morei no municipio de capanema onde tenho muitos amigos e morei varios anos em Medianeira tambem, tenho muitos conhecidos em serranópolis do iguaçu que se tornaram caçadores, não por hobby, mas sim por indignação com as autoridades, Marcos a caça existe sim e em grande escala, ninguem vai lhe dizer que es´tá caçando, isso jamais, tanto é que os animais, raramente se vê algum animal naquela região aalem de algumas capivaras que saem para comer milho. te pergunto??? se dexiste tanta preocupação em preservação, porque a estrada das cataratas ainda não foi fechada, claro ali tem interesse de grandes empresarios e não meros e pequenos agricultores. esta é minha pergunta.
    abraços
    Dilso

  15. Marcos Sá Corrêa Says:

    Caro Dilso,

    Considero sua denúncia muito importante. Ela merece toda a atenção das autoridades. Tomara que sirva para acordá-las e acabar com as desculpas esfarrapadas que costumam dar os fiscais do parque, quando os caçadores e outros predadores da fauna e da flora são apanhados em flagrante.

    Um abraço,

    Marcos

  16. Kennedy Miguel de Sá Says:

    As Cataratas do Iguaçu é banhada pelo segundo rio mais poluído do Brasil, grandes empresas em Araucáia como a Petrobras são responsaveis por este segundo lugar. O Parque Nacional e o rio Iguaçu percorre mais de 60 Km no município de Capanema, não à nem uma empresa poluíndo o rio no município. Há mais de quinze anos, construiram uma ponte sobre o rio Sto Antonio para ligar Capanema a Argentina com a finalidade de diminuir o prejuízo da população com o fechamento da Estrada do Colono, a ponte esta lá, mas não a trafego de cargas, a ponte não esta legalizada para esta finalidade. Cinto-me aborrecido e com pouca fé nas autoridades competentes. Capanema tem grande area de vegetação, não faremos mal ao Parque do Iguaçu, bem ao contario cuidaremos mais ainda,esta estrada é a união das pessoas com a natureza preservada pelo homem. Convido as pessoas que não conhece nosso minicípio para conhece-lo melhor, antes de criticar pessoas que aqui estão com a finalidade de preservar e amar o rio iguaçu e o Parque Nacional do Iguaçu. A Estrada do Colono deve sim ser reaberta, com uma política séria de preservação onde une o ser humano com a natureza preservada. Muito obrigado. Kennedy Miguel de Sá “capanemense com orgulho”

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