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A onça-pintada na era do foguete

sáb, mai 8, 2010

Iguaçu 2010

Visita de onça-pintada, em parque nacional, é coisa de se receber com foquete. Mas a circular número 125, disparada esta semana no Iguaçu, dá novo significado aos rojões de festa junina.

Seu texto ensina os moradores e funcionários da unidade de conservação a lidar com o bicho, se ele vier com excessos de intimidade para junto das pessoas. Lembra que as crianças não devem zanzar lá dentro sozinhas. Recomenda acompanhá-las “aos pontos de embarque do transporte escolar”. Andar sempre em grupo, mesmo de dia. Manter as luzes acesas fora de casa à noite. E dormir sob o mesmo teto com os animais domésticos, para evitar que eles sirvam de isca à onçada. Tudo isso sem esquecer “que o parque é o ambiente natural das onças e nós devemos buscar uma convivência pacífica com elas”, como já avisava, em ofício do ano passado, o chefe de conservação e manejo Apolônio Rodrigues.

As novas instruções, assinadas pelo diretor Jorge Pegoraro, vão mais longe. Elas acompanham a distribuição, “a cada família”, de quatro rojões, desses de três bombas. Ensinam a usá-los num regulamento que cobre desde os cuidados com explosões acidentais e incêndios até as condições para detoná-los. Isto é, “só quando tiver certeza” de que as onças estão rondando. De preferência, se “estiver efetivamente vendo os animais, para que eles saibam exatamente de onde vieram as explosões e a passem a evitá-las”.

Manda não apontar “os foguetes diretamente sobre os animais”, para “afugentá-los sem provocar ferimentos”. E, se possível, gritar ou bater panelas, “para reforçar o efeito negativo dos fogos”. Cada peça disparada terá que ser devolvida com as devidas explicações. Em outras palavras, não se trata de uma declaração de guerra às onças, que são poucas no parque e extintas na vizinhança. É o começo de um programa para “assegurar uma convivência pacífica dos moradores e usuários” com esses e outros carnívoros, porque o Iguaçu existe para “conservar a fauna e a flora locais”.

A circular fecha a inesquecível temporada do verão de 2010 em que todo mundo parecia ter direito a ver a “sua” onça-pintada nos arredores das cataratas, inclusive a gerente de uma joalheria da H. Stern que funciona no Porto Canoas, logo acima dos saltos. Um guia de turismo (atenção: está é uma correção feita pelo leitor Davi Rocha, onde estava escrito, erradamente, guia turístico) filmou a onça passando por ele à luz do dia, por mais de três minutos, com seu telefone celular. Um empregado do Hotel das Cataratas, carregado de colchonetes, esbarrou com ela atrás da piscina. Um guarda encontrou-a na escadaria da sede administrativa. Um funcionário do parque flagrou-a na varanda de casa, aparentemente de olho em seu cachorro.

Onça demais? Quem dera. Até prova em contrário, elas estão mesmo é em retirada, com população em rápido declínio. Se tanta gente de repente deu para ver tão pouca onça foi miragem criada por uma dupla de Panthera onca. “Dois jovens machos”, separados há pouco da mãe e ainda “aprendendo a viver por conta própria”, estariam explorando o território. E, como as cotias, os quatis e os veados mateiros, parecem apreciar o movimento na área de uso intensivo do parque. Criados por ali, cresceram mais ou menos “indiferentes à presença humana”, e até atraídos pelas edificações por “sua enorme curiosidade natural”. Como já escreveu o especialista Peter Crawshaw, é o descuido humano que acostuma as onças à vida fácil da caçada de animal doméstico em pastos.

Até que esta semana um dos filhotes matou um bezerro num pasto que fica perto do heliporto, na saida do parque. Quando a carcaça foi descoberta, tinha ainda muita carne sobrando. E a equipe do Projeto Carnívoros do Iguaçu aproveitou-a para montar ao predador  uma armadilha, presumindo que ele voltaria à presa. Dito e feito. Na madrugada deste sábado, 8 de maio, o bicho foi apanhado.

Estava gordo e saudável. Pesava 48 quilos. Ganhou no pescoço um rádio-colar de monitoramento. De agora em diante, será rastreado por satélite dia e noite. E passará se possível a viver em outro canto do parque, menos habitado. Pensou-se em levá-lo para Salinê,  uma antiga fazenda na beira do rio Iguaçu, que se incorporou ao parque sem que a capoeira até hoje incorporaase à floresta o capinzal. A chuva forte e o cansaço da equipe obrigou a soltá-lo no caminho do Poço Preto. Com ele começa a fase adulta do projeto, que nasceu no ano passado para estabelecer as bases de pesquisa científica para o manejo das onças e outros grandes carnívoros remanescentes no Iguaçu.

O foguetório foi a ordem de dispersar para a dupla de filhotes. Mas também serviu para comemorar o progresso do Carnívoros. Não vai tão longe assim o tempo em que a administração do parque recebia a bala as onças que davam o ar de sua graça nas Cataratas. O Iguaçu estava então reservado ao turismo e à recreação humana.

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7 Comments For This Post

  1. Marcia Leite Says:

    Marcos,

    Adorei o blog. Visitarei-o sempre! Beijos

  2. Marcos Sá Corrêa Says:

    Oba!!

  3. Luiz Augusto Catapano Says:

    Caro Marcos,

    Posso estar totalmente errado, mas tenho a impressão que o número total de onças pintadas para o parque foi bastante subestimado. Se o número fosse correto, o parque teria menos onças do que o Parque estadual Morro do diabo, que é muitas vezes menor e cercado também de fazendas.

  4. Marcos Sá Corrêa Says:

    Caro Luiz Augusto,

    Sem dúvida você não está “totalmente errado” e é até provável que os pesquisadores do Projeto Carnívoros do Iguaçu cheguem daqui para a frente a números mais otimistas que os da primeira rodada. Para começo de conversa, não constaram daquela lista de seis onças registradas por armadilhas fotográficas os dois filhotes que passaram a ser vistos depois com freqüência na área de uso intensivo do parque, exatamente porque as câmeras tinham sido montadas no territórrio mais remoto. E dois filhotes de onças-pintadas são uma boa aposta no futuro dessa população. O que parece indiscutível é que morreram muitas onças, por acidente e sobretudo por caça clandestina no Iguaçu, desde o inventário feito por Peter Crawshaw nos anos 90. E no parque, ao contrário do que ocorre no Morro do Diabo, há poucas rotas de imigração para o repovoamento do Iguaçu, apesar da existência do parque argentino, do outro lado do rio. Uma das hipótesesmais plausíveis para esse reforço genético seria a conexão do Iguaçu com o eixo do rio Paraná até o Mato Grosso do Sul, passando pelo Morro do Diabo, através da mata ciliar mais ou menos contínua que se criou em torno da represa de Itaipu. Mas isso ainda precisa ser demonstrado por estudos de campo. Até lá, o jeito é torcermos.

    Um abraço,

    Marcos

  5. rafaela Says:

    Muito legal essa iniciativa de
    divulgação deste metodo de afugentamento!
    É pra ser comemorado com rojões, literalmente! : )
    Espero que a população ao menos tente
    (porque é difícil mudar alguns “cabeças duras”, mas a gente continua tentando….água mole em pedra dura…).
    Mas espero que essa oportunidade de um lugarzinho de paz (sem mortes) tanto para as pessoas, quanto para
    a natureza…dê certo!

    Melhor ainda saber desses “filhotinhos”!!!
    ..
    abraços!

  6. Marcos Sá Corrêa Says:

    Também torço, Rafaela. Aliás, a torcida é grande. E quanto mais gente vestir essa camisa maior a chance das onças e do proketo.

    Abraço,

    Marcos

  7. Xico Says:

    Que belezura de projeto, Marcos. Sensacional o seu relato. Agora entendo porque você anda desaparecido nas selvas. Abração. Adorei o blog.

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