O macaco-prego que roubou a cena
seg, mai 3, 2010
Assim que saiu o último ônibus, o macaco-prego velho de guerra atravessou o asfalto da BR-469. Podia ser pura coincidência. Mas ele deu a impressão de saber que estava encerrado o horário de visitação no parque nacional do Iguaçu. E o território voltava ser de bichos como ele.
Fez bem. Não faz tanto tempo assim que um macaco-prego como ele foi atropelado naquela estrada federal, dentro da unidade de conservação. E ali estava um inequívoco exemplar muito vivido de Cebus nigrittus (Nota: esse nigrittus é legítimo copyright Fábio Olmos, eu tinha escrito Cebus apella e ele corrigiu). Tinha uma moldura de pelos brancos ao redor da cara. E manchas de despigmentação entre as orelhas e os olhos. Sem contar as cicatrizes da dura sobrevivência na floresta.
Visto assim, correndo no chão, notava-se claramente a falta de um bom pedaço de sua cauda. A parte essencial, diga-se de passagem. Aquela ponta preensil que, na acrobática rotina de quem passa a vida pulando entre árvores, funciona como a corda de segurança dos trapezistas.
Ele saltava sem rede em seu amplo circo florestal. E ainda por cima tinha uma falha no pé esquerdo, com todo o jeito de ser um naco de carne e unha arrancado a dentada. Provavelmente, outro souvenir dos acertos de conta entre seu bando. Os macacos-pregos formam grupos grandes, de até 50 indivíduos. E, embora não tenham de encarar a despótica instabilidade política dos babuínos, que derrubam pelo menos um chefe por ano, não chegam impunemente a 40 anos de negociações cruciais sobre quem manda e quem obedece em seus bandos.
Trata-se de um animal de porte modesto e bastante vulgar, que se encontra praticamente em toda a América do Sul, da Venezuela à Argentina, sem excluir redutos urbanos, como o arboreto do Jardim Botânico na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde não falta público para alimentá-lo com biscoitos e pipocas. Tudo isso implica uma invejável capacidade de adaptação. Capacidade de adaptação dos macacos-pregos, evidentemente.
Eles não ficam muito aquém dos chimpanzés na vocação para embasbacar cientistas em laboratórios com sua capacidade de aprender coisas certamente inúteis para eles, mas supostamente indispensáveis à ciência, porque desafiam a crença de que os animais, fora os humanos, fazem tudo por instinto. Comprar comida com fichas, por exemplo, não cabe na bagagem hereditária de um bicho. Mas é coisa que o macaco-prego se já dispôs a fazer em benefício das teses de um treinador.
Além disso, eles têm linguagem e um vocabulário compatível com suas obrigações sociais. Seu guincho de “olha o gavião”, por exemplo, é supostamente inconfundível. Quando moram muito perto das pessoas ou as pessoas moram muito perto das florestas, podem invadir casas para praticar pequenos furtos. E, mesmo em seu ambiental natural, recorrem a instrumentos como pedras para quebrar alimentos de casca dura ou gravetos para pescar cupins dentro do ninho.
O macaco-prego come talos de bromélias como se despetalasse uma alcachofra em restaurante. E a maneira como arranca uma a uma asas de borboletas e mariposas antes de engoli-las vivas, com gestos de quem descasca uma banana freneticamente relutante em entrar para a cadeia alimentar da mata atlântica, seria um modelo de etiqueta, se não fosse um espetáculo desagradável de selvageria.
Toda essa peroração acima é para dizer que macaco-prego não é bicho que se vá procurar sem mais nem menos numa floresta como a do Iguaçu, onde ultimamente até as onças-pintadas estão dando sopa. E aquele, mutilado e encanecido, estava longe de ser um candidato sério a qualquer concurso de fotogenia nos trópicos.
Nele, interessante mesmo era o comportamento. Os macacos-pregos do Iguaçu guardam uma solene distância dos turistas. Ao contrário dos quatis, que o excesso de intimidade com seres humanos reduziu à mendicância, eles sabem qual é o seu lugar e o lugar dos turistas. Eles raramente descem das árvores. Catam sem parar frutas e outros ingredientes silvestres de sua dieta, enquanto os quatis se enfiam até em latas de lixo para lamber casquinhas de sorvete ou latas vazias de refrigerantes.
Como se fugissem deliberadamente da modalidade turística de rebaixamento comportamental, os macacos-pregos não cedem um palmo em seu padrão de vida. Transitam de prerefência pelos extratos mais altos da floresta. E, nas trilhas menos transitadas, recebem como instrusos os eventuais visitantes, quebrando galhos com as mãos para dar a entender que são fortes, sim, e estão dispostos a tudo para enxotar invasores.
Por essas e outras, aquele velho macaco-prego cotó que cruzava sozinho o asfalto acabou com uma teleobjetiva grudada em seu rastro. O dia ia mesmo acabando. Com ele, os assuntos habituais das máquinas fotográficas. O sol batia de viés sobre a floresta, em franca retirada. E vinha coado pela névoa que subia das cataratas, com o rio Iguaçu quase transbordando, para cair em gotas do céu limpo, como uma chuva estritamente local.
Tudo, portanto, mandava botar a câmera na mochila e a viola no saco. Mas o macaco-prego corria direto para um gerivá carregado de frutas. E isso acabou se tornando irresistível. Por que só ele, no bando, viu a palmeira do outro lado da estrada é pergunta para se fazer a primatólogos. O que interessa, aqui, é registrar o desempenho admirável do Cebus nigrittus, atacando a penca dourada do gerivá ao mesmo tempo com a voracidade de criança em loja de doces, a ponderação de um chefe de cozinha escolhendo na feira os produtos do jantar e o estoicismo de um curtido guerreiro, que não se impressiona com zumbidos de abelhas e marimbondos.
Em outras palavras, este artigo inteiro é pura conversa fiada, a pretexto de publicar estas fotografias. E, como havia mais fotografias do macaco-prego do que as cinco que couberam neste texto, o autor avisa que,mais dia, menos dia, ele pode recair na tentação.










maio 4th, 2010 at 13:52
Parabéns pelas lindas fotos desse macaco-prego.
realmente ele é muito sábio.
maio 4th, 2010 at 15:04
Odesia,
Confesso que ele me deu uma aula sobre fauna de parque nacional. Eu achava que macaco-prego tinha ficado tão comum que nem merecia mais o dedo no botão do disparador. Como você certamente sabe, quando essas idéias nos ocorrem em relação aos bichos em geral, os irracionais somos nós. Aliás, eu até me esqueci de registrar no texto que a cena durou pouco mais de quinze minutos, porque a luz estava caindo depressa. Mas a série de fotos que o macaco-prego me ofereceu de mão beijada é muito maior do que as publicadas junto com a história. Tive de cortar muita coisa para não desarrumar demais a página. Mas um dia ainda volto ao assunto…
Um abraço,
Marcos
maio 4th, 2010 at 17:23
Belas fotos e um texto ótimo com humor biológico. Apenas para reparar questões de identidade, os pregos escurinhos das matas do sul e sudeste são hoje conhecidos como Cebus nigrittus, os apella sendo os pregos amazônicos. Macacos não ligam para identidades taxonômicas, como a saudável suruba vista nos zoológicos prova, mas nós biólogos pentelhos gostamos de dar nome certo aos bois.
maio 4th, 2010 at 20:24
Marcos: Que delícia de crônica e que fotos maravilhosas! Obrigada por nos fazer participar dessa aventura .
maio 5th, 2010 at 8:53
Prezado Marcos Sá Correa.
Parabéns por suas matérias, sempre tão importantes. Leio todas.
Lembro-me de você como editor da revista Veja, se não me engano. Que bom que mudou. A Veja não é mais a mesma.
Surpreendo-me com as pessoas que dão guinadas importantes em suas vidas, e as admiro.
Então, pergunto: como você conseguiu?
Parabéns pelo O Eco. Trabalho na área de energia e suas matérias são importantes para mim, tanto pessoal com profissionalmente.
maio 5th, 2010 at 21:27
Caro Artur Cesar,
Se todo elogio soa como música, este seu comentário é certamente do gênero sinfônico. Numa coisa você está absolutamente certo – faz algum tempo que mudei de rumo profissional, e não propriamente de emprego no jornalismo. Acho que tomei enjôo incurável dos assuntos que durante décadas fizeram parte de meu dia a dia. E ultimamente não paro de me encantar com as novidades que cada vez encontro nos lugares menos visitados por repóteres. Não me considero, nem de longe, um ambientalista, e sim um repórter que passou a ver as coisas do ponto de vista ambiental – ou seja, pelo lado que me realmente interessa. Se isso, de quebra, ainda serve de informação ou pelo menos de divertimento a leitores como você, aí, francamente, acho que finalmente descobri o que quero ser quando crescer.
Um abraço,
Marcos
maio 6th, 2010 at 12:02
Fábio,
Obrigado por mais esta aula de iniciação à natureza. É por essas e outras que espero para breve sua vinda ao Iguaçu, para me explicar o que estou vendo com olhos de bronco deslumbrado.
Abração,
Marcos
maio 6th, 2010 at 12:03
Vera!
Que prazer encontrá-la aqui no parque! Venha sempre.
Beijo,
Marcos