Água pouca no Iguaçu é bobagem
seg, abr 26, 2010
O aviso chegou no meio do almoço de sábado, dia 24 de abril. Era um desses dias de chuva que parecem derreter o fim-de-semana desde que se acorda com vontade de ficar na cama. Mas, para provar mais uma vez que o parque nacional do Iguaçu é à prova d’água e de chatura, o quarto amanheceu coalhado de mariposas e outros insetos notívagos, que escaparam do temporal durante a noite, passando para dentro por qualquer fresta disponível, na porta ou na janela.
Logo cedo, estavam todos lá, espalhados pelas paredes ou pelo chão, pedindo um exame de perto e, depois de rápida aprovação, uma sessão de fotografia da natureza em ambiente artificial, com lentes de aproximação e muito flash, porque a manhã estava escura. Um deles era uma pequena mariposa de asas iridescentes e ao mesmo tempo translúcidas, emoldurados por uma faixa opaca de escamas cor de cobre. Era uma velha conhecida. Encontrei-a pela primeira vez, quase dez anos atrás, no Parque Nacional do Itatiaia, e da que vez não entendi a tempo toda a complexidade da tarefa que tinha pela frente. Só notei a transparência das asas tarde demais, com o filme Velvia revelado no Rio de Janeiro, dias depois. E nunca mais tinha revisto a mesma espécie.
Foi, em resumo, uma colheita mais farta do que o bom tempo costuma garantir em caminhadas às vezes longas pelas trilhas da floresta. E, o que é melhor, servida em casa, praticamente trazida na cama. Estava reservada para ocupar esta página…
…mas os insetos terão que ficar para outro dia, porque neste momento só se fala no parque da cheia do Iguaçu. Na hora do almoço a pasmaceira do sábado encharcado foi sacudida por essa novidade. O rio estava enchendo tão depressa que era preciso interditar a passarela que, nas cataratas, avança até a beira da Garganta do Diabo, passando por pilares de concreto por cima de um braço do rio. O chefe do parque, Jorge Pegoraro, foi tirado da mesa pelo recado. Correu para lá, antes que o espetáculo fosse, literalmente, por água abaixo.
Desarmar os parapeitos metálicos numa emergência daquelas é uma trabalheira insana. Cada painel tem que ser libertado de duas porcas de grosso calibre, antes que se possa desencaixá-lo dos pilares de apoio. E, como não poderia deixar de ser, a rotina da manutenção acaba sempre cobrindo as roscas com tinta fresca, uma demão em cima da outra. Na hora de desaparafusar o conjunto, haja braço.
Felizmente, havia braços de sobra naquela hora. Uma dúzia de homens metidos em capas de plástico amarelo, corria d debaixo da chuva para remover os guarda-corpos, antes que enxurrada, passando por cima do piso, pudesse jogar contra a estrutura galhos pesados ou memo árvores inteiras, que costumam descer com a correnteza nessas ocasiões. Sem as grades, esses aríetes têm mais chance de atravessar a passarela, deixando a estrutura de pé.
Como tudo nas cataratas, a enchente é, além de uma emergência administrativa, um bonito espetáculo natural. Sobretudo para um carioca recém chegado da enhente, que paralisou o Rio de Janeiro no mes passado, derrubou morros, matou centenas de pessoas, arrancou o calçamento das ruas e marcoo os morros ainda verdes com lanhos de racvinas que vão levar muitos anos para esquecer que vieram do barro, e ao barro podem voltar de uma hora para outra. No parque nada disso aconteceu. E anda h;a quem tenha dúvidas sobre a superioridade dos parques, comparado com as cidades, por melhores que elas sejam.
A excitação provocada pela fúria do rio Iguaçu lembrava a madrugada em que John Muir acordou em sua casaba, no meio da noite, com o ronco de um terremoto. Era seu primeiro terremoto na Serra Nevada. E ele, em vez de fugir, enfiou as botinas e corrou para os paredões de rocha que conhecia de cór. Não iria perder um fenômeno daqueles só porque a seu lado rolavam pedras do tamanho de casas.
Era um sábio, esse Muir. Além de ser o homem que acabou fazendo o vale do Yosemite e as grotas de sequóias da costa californiana um pouco à sua imagem e semalhança, de tanto transformar suas caminhadas por territótios selvagems em pretextos para atazanar os políticos com suas campanhas de preservação dos monumentos naturais, que lhe pareciam a maior obra da civilização americana.
Os três dias de cheia do Iguaçu transformaram qualquer um num aprendir de Muir. Banidos da passarela, que costuma ser o ponto alto da trilha, os turistas se aglomeravam nos mirantes do elevador, uma torre que geralmente passa a poucos metros do salto Floriano e abre, em vários planos, belveredes suspensos sobre as cachoeiras. Nesse fim de semana, a água espirrava para dentro das plataformas. Embaçava as paredes de vidro do elevador. Sacudia, com a vibração do solo, as portas da loja de souvenirs, como se alguém estivesse empurrando com força as maçanetas.
Era um programa diferente. E bastava olhar para as caras ensopadas dos visitantes para ter a certeza de que era isso mesmo que estava acontecendo, enquanto a turma da casa corria lá embaixo para evitar o pior. Uma cheia do Iguaçu, naquele ponto, é coisa séria. No sábado de manhã, antes de receber o primeiro aviso da Copel, a Companhia Paranaense de Eletricidade, a vazão das quedas estava no nível de 1.400 metros cúbicos por segundo.
Alta, para a temporada. Mas nada parecido com os 10 mil metros cúbicos por segundo que atingiria no começo da tarde. No domingo, continuava subindo. Parecia a caminho dos 12 mil metros cúbicos por segundo. Chegou a 11.700 metros cúbicos por segundo na segunda-feira à tarde, quando o sol começou a ensaiar sua volta. Todo o cenário mudara diante da cheia. As pedras do rio despareceram nas águas.
O Iguaçu corria pelo cânion como um mar revolto e barrento, encrespado por ondas altas. Pequenas ilhas de basalto no meio da água sunmergiram, deixando do lado de fora A névoa que subia do choque com as pedras do fundo, lançando borrifos brancos no ar, engolia numa névoa esbanquiçada até a Garganta do Diabo, de ponta a ponta. A mata das margens gotejava sem parar, mesmo quando a chuva dava uma rara trégua. Quando o sol batia na folhagem, cada trilha tinha seu arco-íris.
Em poucas palavras, tudo isso é um grande contratempo, sobretudo para as concessionárias dos serviços turísticos, que precisam alterar roteiros, reduzindo-os aos limites de segurança, e para administração do parque, que nesses casos costuma indenizar os ingressos já pagos, revalidando-os para uma visita posterior. Sem falar nas cidades que ficaram inundadas, como Pato Branco.
Mas, paradoxalmente, os visitantes que levam o passeio até o fim, com ou sem chuva escorrendo por suas câmeras e telefones celulares, deixavam estampados em suas fisionomias que pagariam satisfeitos pelo privilégio de estarem ali, naquele lugar, naquela hora, debaixo daquela tempestade. O parque nacional do Iguaçu teve três dias de gala. O cânion inteiro virou um anfiteatro de cahoeiras. Encostas que passam a maior parte do ano entregues à pedra nua ganharam de repente a elegância temporária de um braço do Iguaçu descendo no meio da vegetação de 70 metros de altura. É difícil imaginá-lo mais bonito do que nesse festival de mau tempo.
Tags: Cataratas do Iguaçu, Enchente, Parque Nacional do Iguaçu














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