Cenas de um guia turístico acidental
qua, abr 21, 2010
Saiu O Carnívoro de abril. Mas não adianta correr paras as bancas de revistas, muito menos se espera encontrar lá um novo guia de churrascarias. Trata-se de um boletim bimensal do Parque Nacional do Iguaçu. É feito pela turma da casa. E aparece quando fica pronto, segundo o princípio de que uma semana a mais ou a menos não faz muita diferença na ordem natural das coisas.
O Carnívoro tem de singular não só o nome como o fato de ser, provavelmente, a única publicação em cores sobre um lugar conhecido pelas cataratas que não tem uma só fotografia de quedas d’água. E por isso já é, em si, uma novidade histórica, num parque cuja administração, em suas primeiras décadas de existência, falava antes de mais nada das providências para cevar os turistas, a ponto de merecer por volta de 1940 a crítica do zoólogo Cândido de Mello Leitão num programa de rádio sobre a conservação da fauna brasileira. Mello Leitão achava que o Iguaçu, pelo tamanho e a localização, tinha tudo para ser o primeiro parque do país com a chance de ser, efetivamente, uma unidade de conservação da vida silvestre. Mas só cuidava do turismo.
Aos 71 anos de idade, o parque está mudado. E O Carnívoro se dedica integralmente aos outros freqüentadores da unidade de conservação, os raros e furtivos, cujo número decresce enquanto aumentam os recordes de bilheteria para ver, estritamente, as cachoeiras do rio Iguaçu. A bicharada, para a maioria dos visitantes apressados, resume-se ao quatí, que sobe até em mesa para pedir ou roubar comida, de tão civilizado que está ficando. Os outros, como raramente aparecem, não existem.
Está aí um bom motivo para incorporar esta edição de O Carnívoro ao material distribuído nos portões de ingresso aos turistas. Eles só teriam a ganhar com o fato de serem apresentados aos animais silvestres. E esses, quase sempre esquecidos, lucrariam enormemente se cada visita ao parque servisse, antes de mais nada, para todo mundo saber quem é de fato o dono daquele pedaço de floresta, o último do oeste paranaense. Um pouco de respeito não faz mal a ninguém.
No boletim, a pesquisadora Marina Xavier da Silva, que coordena o Projeto Carnívoros do Iguaçu, dá conta do que foi capturado pelas 72 armadilhas fotográficas usadas, de julho a outubro do ano passado, para “estimar a população de onças-pintadas numa área de 903 quilômetros quadrados”, na unidade de conservação. Ela mesma explica que esses flagrantes “de armadilhas fotográficas servem não só como registro de ocorrência das espécies da área amostrada, mas também como fonte de informações sobre atividade, sexo, aspectos sanitários e reprodutivos, além de comportamentos típicos dos animais em vida livre”.
Em outras palavras, elas devassam o cotidiano sigiloso de criaturas que vêm ao mundo para, de preferência, não serem vistas por nós. Por isso mesmo, são interessantes. E não é à-toa que, segundo Marina, “a revelação dos filmes (trata-se de armadilhas da era pré-digital) é sempre aguardada com grande expectativa pela equipe”. No caso, foram colhidas 3700 fotografias que, selecionadas, renderam “belas imagens de veados com filhotes, bandos de catetos, iraras, tatus, cutias, antas, aves e outros”.
Havia até, na coleção, um tamanduá bandeira, que em princípio vive no Cerrado, longe portanto das florestas do Iguaçu. Mas estava lá. E foi clicado automaticamente, abrindo os olhos dos pesquisadores para outros indícios de sua presença no parque. Os felinos, que são o foco de atenção do projeto, não deram o ar de sua graça com a freqüência esperada. Constam de 78 fotografias. Delas, 49 são de jaguatiricas. Só nove mostram onças-pintadas. Mas bisavam três indivíduos.
A busca ainda vai longe. Chegou no começo do ano às margens do rio Floriano, na área intangível do parque, de acesso difícil, sem trilhas nem mapas – no entanto, batida há décadas por caçadores clandestinos. “Para instalar oito estações de monitoramento” nessa região, informa o boletim, os pequisadores precisaram voar 1.700 quilômetros de helicóptero, subir 85 quilômetros de rios e caminhar 16 quilômetros no mato fechado. Sem contar que o trabalho coincidiu com as estações de chuva que, pelo menos uma vez, fizeram a equipe improvisar uma noite ao relento debaixo de um plástico impermeável.
Sua vocação para o turismo está longe de ser intencional. Mas, pelas histórias que conta e as fotografias que mostra, o boletim consegue ser mais divertido do que muito roteiro convencional de aventura na selva. Como não circula fora da confraria de iniciados em conservação da natureza, vale a pela vê-lo aqui, nessas amostras das armadilhas fotográficas, apontadas para um lado do Iguaçu que as cataratas, se não chegam a esconder, pelo menos ofuscam.
Tags: Carnívoros, Cataratas do Iguaçu, Conservação, Parque Nacional












abril 22nd, 2010 at 17:39
Cenas espetacular imagens que devem serem preservadas por milênios!
abril 23rd, 2010 at 13:52
Fico sempre muito feliz de saber da existência de projetos para conservação desses mamíferos, cada vez mais ameaçados, e ainda mais feliz pela divulgação que é feita. Assim as informações não ficam restritas apenas ao meio acadêmico.
Parabéns PARNA Iguaçu pelo projeto e divulgação e parabéns pela reportagem…
Aline
abril 23rd, 2010 at 17:53
Aline, de seus parabéns ao parque nacional do Iguaçu pelo projeto Carnívoros eu participo plenamente. Dos parabéns a esta página pela divulgação do trabablho deles a modéstina me impede… Abraço, Marcos