Monteiro Lobato está pronto para 2010
sáb, abr 17, 2010
Desta vez, a candidata Marina Silva acertou em cheio. Sob pena de acabar antes da largada, uma campanha presidencial não pode engolir em silêncio as mudanças do Código Florestal que, para não dizer mais nada, estão entregues ao deputado Aldo Rebelo. O relator nunca tratou de meio ambiente. E já avisou que considera o código “impraticável”.
Políticos em fim de mandato não deveriam, em princípio, meter a mão no futuro do país como se aquilo já fosse deles. Mas é o que está acontecendo com freqüência alarmante. O presidente Lula faz questão de legar a hidrelétrica de Belo Monte ao sucessor, seja ou não sua candidata Dilma Rousseff, a única partidária dessa aventura na selva, montada à custa de muita incompetência técnica, golpes autoritários e malversação de dinheiro público.
E o governo ainda acaba de baixar um decreto, o 07.154, autorizando estudos para o aproveitamento energético das unidades de conservação, mesmo se a lei proíbe. Lula está levando seu apagar das luzes ao pé da letra.
Com essas e outras medidas, os brasileiros vão marcando, sem saber, encontros com o passado na próxima década. Seu único consolo é que pelo menos as aparências, nesse caso, não mentem. O deputado Aldo Rabelo e a candidata Dilma Rousseff têm cara de antigamente. São o passado em pessoa. Se não estivessem tão bem arranjados na vida pública, dariam candidatos fortes ao elenco de qualquer novela de época sobre o drama histórico do desenvolvimentismo brasileiro.
Na dúvida, releia-se Monteiro Lobato, o escritor que, olhando o Brasil de cima, pela janela de um avião, enxergou cá embaixo um “deserto de homens e idéias”. Está bem na hora, porque Monteiro Lobato acaba de voltar à terra a tempo de animar a campanha.
Ele reencarnou no livro Conferências, Artigos e Crônicas, a reedição de uma antologia póstuma, publicada originalmente há mais de meio século. O tempo lhe fez bem. Tirou-lhe a contundência com que Monteiro Lobato entrava de sola nos grandes problemas nacionais. E, por anacrônico, o livro tornou engraçados até os piores disparates do grande escritor. “Os assuntos são infinitos, mas quando a gente chega na hora de agarrar um não é fácil”, ele confessou em sua última entrevista, dois dias antes de morrer.
Ele dava mesmo palpite sobre qualquer assunto. Via no petróleo o elixir curativo da civilização. Achava que mais cedo ou mais tarde o mundo chegaria, através de uma baldeação no Império Americano, ao Comunismo Universal. Previu que a moda de Machado de Assis seria efêmera, por se tratar de um autor que não enxergava um palmo além “dos pequeninos dramas pessoais” dos “mestiços neurastênicos do litoral” – como diria Euclydes da Cunha que, por sinal, Monteiro Lobato, com toda a razão, considerava o maior escritor brasileiro.
Não tinha meia medida. Em 1941, Monteiro Lobato saiu do cinema “estarrecido”, depois de assistir à estréia de Fantasia, o desenho animado musical de Walt Disney, como “uma nova Criação Cósmica assinada pela mais alta expressão do gênio humano”. Em questões raciais, ele nunca passou da cozinha do sítio do Pica-Pau Amarelo. Chegou a escrever que um negro da África do Sul “assemelha-se, intelectual e moralmente, mais aum gorila do que, naturalmente, a um holandês ou a um italiano”.
Dizia coisas que hoje nem Lula seria capaz de dizer. Por exemplo: “O que está faltando ao mundo para o restabelecimento da paz é apenas isto: bombas atômicas para todos, de igual força”. O presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad não imagina o que perdeu conhecendo o Brasil depois de Monteiro Lobato.
Mas, num ponto, o livro mostra um escritor novinho em folha. É o que aparece no capítulo “A nossa doença”, desancando o Brasil como um país empobrecido pelo vício histórico do desenvolvimento predatório, baseado na “caça à fertilidade nativa da terra virgem”. A agricultura nacional avançava “como um caçador de azoto que, de machado ao ombro e isqueiro na mão caminha devorando matas”.
Por isso, cada surto de progresso durava aqui só o tempo de consumir uma fonte de recursos naturais. E seguia em frente, largando para trás pobreza e sucata. “Brtam da terra cidades. Rompem vilas. Abrem-se fazendas. Constroem-se vias férreas. Direis: o país enriqueceu: entraram para a economia tantos prédios, tantas pontes, tantos núcleos urbanos, tantos quilômetros de estrada; isso representa criação de riqueza, é capital acumulado pelo trabalho; é progresso econômico”.
Ledo engano, como explica o ex-fazendeiro Monteiro Lobato na linhas seguintes: “Essa riqueza, depois de criada, extingue-se. As cidades morrem, por prédios se desvalorizam, o casario imenso das fazendas e todas as benfeitorias; as estradas esburacam-se ao léu; as vias férreas viram desengonçado mambembe a vapor em perpétuo regime de déficits, tênias parasitárias da região”. Etc. e tal.
Algum brasileiro tem a impressão de já ter visto isso em algum lugar? Provavelmente, viu. Se não foi numa beira de rodovia, pode ter sido na revista Science, que publicou recentemente m sólido artigo, assinado por pesquisadores do Imazon, de Belém do Pará, sobre a brevidade suicida dos ciclos de crescimento econômico, que atualmente devastam a Amazônia. Lá, a distância entre o progresso e a decadância se mede geralmente em 16 anos, tempo necessário para a liquidação de toda a madeira comercializável nos municípios pioneiros.
Em matéria ambiental, Monteiro Lobato continua perfeitamente dentro do prazo de validade, porque o Brasil continua na década de 1940.
Tags: Agricultura, Código Florestal, Livros





abril 20th, 2010 at 7:30
Excelente texto, parabéns. No entanto… pouco se discute aqui nesse espaço, me refiro aO Eco, o que podemos fazer para adotar um modelo de crescimento sustentável de verdade. Todos criticam o governo Lula como se fosse um desastre completo ambiental. O que os faz pensar que Serra faria diferente? Que Marina faria diferente? Esquecem todos que o governo Lula foi o mais aberto ao diálogo da história, em todos os setores. Não reconhecem que os movimentos sociais, incluindo o ambientalista, foram bastante ouvidos. Nunca se criou tanta área protegida e nunca se desmatou tão pouco na história. Longe de ser um governo ecológico, mas ainda mais longe de um demônio predador de florestas.
Em tempo, o texto de Lobato refere-se mais à nossa sociedade nos anos 40’s cuja derrubada de matas significava benfeitoria da terra. Estavam construindo a paisagem, não a destruindo ao desbravar florestas, há que se ponderar.
Desenvolvimento sustentável precisa de ciência e tecnologia para desenvolver com floresta em pé. Agroecologia e energia solar ainda são soluções pontuais, sem escala e sem poder de transformação.
abril 20th, 2010 at 12:04
Desculpa Felipe, mas trabalho na área ambiental do governo e falo com toda segurança que, se tem uma coisa que esse governo não fez foi ouvir movimentos sociais. Não se iluda – o PT tem horror a participação popular! Ninguém sabe o que virá ou o que poderia ter sido, mas de um governo que se espelha no modelo Chines de crescimento, a última coisa que se espera é participação popular e respeito a meio ambiente, né?
abril 20th, 2010 at 12:06
Caro Felipe,
Obrigado pela leitura e pelo comentário. Mas acho que não será ainda nesta troca de mensagens que iremos aplainar as divergências de nossos pontos de vista. A começar por Monteiro Lobato. Ele era mesmo um desenvolvimentista. Tinha projetos de todo o tipo para tirar o Brasil do atraso. Meteu-se de cabeça bacampanha pela exploração do petróleo, que considerava o remédio supremo para todos os males do subdesenvolvimento. Atirava a torto e a direito. Mas não conheço uma linha dele que tratasse a derrubada de florestas como uma construção da paisagem. Para ele, aquilo era pura pilhagem e malversação de recursos naturais. Como segue sendo, o texto citado por mim poderia descrever hoje o que acontece na Amazônia, embora escrito nos anos 40. Em mais de meio século, não nos livramos do que ele chamava de “tara guarani” – ou seja, em dialeto lobatês, a mania de tocar fogo no mato para roubar o solo fértil que ele produziu.
Do Eco, o que posso lhe dizer é que ele não foi feito para tratar de tudo, mas só de meio ambiente. Como é um site pequeno, feito por pouca gente, estreitar seu campo de ação foi a única maneira de torná-lo eficiente pelo menos no assunto que cobre. Mas você tem razão. Falta ao jornalismo ambiental que fazemos uma coberta sistemática das alernativas de crescimento que surgem a toda hora em outros lugares do mundo e não chega ao Brasil porque anda temos um resto de florestas para queimar, gerando surtos de progresso para uma só geração, e um resto de rios para estrangular com barragens, cujo prazo de validade raramente chega aos 100 anos. É disso que Monteiro Lobato, lá à maneira dele, tratava.
Enfim, Lula me parece o governo mais aberto ao monólogo da história. Diálogo, que é bom, raramente se consegue com o presidente, sem descambar rapidamente para o bate-boca de palanque. É um governo onde os projetos saem de conversas sigilosas – senão inconfessáveis – e aparecem prontos (prontos para inaugurar antes de fazer, diga-se de passagem) sem que nem mesmo as divergências internas do governo sejam previamente esclarecidas, como se viu com a hidrelétrica de Belo Monte. E, como se não bastassem os oitos anos de anarquia autoritária, ele agora quer deixar em sua vaga o autoristarismo sisudo e franco da candidata Dilma Rousseff, cujo desprezo por qualquer tipo de cautela ambiental é público e notório.
Grande abraço,
Marcos
abril 20th, 2010 at 12:19
Obrigado pela ajuda, Henrique. Não é nada, não é nada, estamos fazendo aqui uma coisa rara – um diálogo ambiental ainda no governo Lula.
Um abraço,
Marcos
abril 20th, 2010 at 18:41
Nunca vi um site ambientalista tão engajado numa campanha eleitoral- pro psdb paulista como O Eco. Eu já desconfiava porém não ponderava que fosse possível. Decepção politizar um assunto tão importante.
abril 20th, 2010 at 19:00
Vixe!!!!!
E agora eu vi, patrocinado por Itaipú
Decepcionante, vou informar aos meus colegas que lutam contra hidrelétricas para nunca mais repassarem artigos de voces….
abril 20th, 2010 at 20:20
Não publicaram meus comentários e ainda apagaram o link de itaipu, quanta democracia……..
Tipico do PSDB
abril 21st, 2010 at 11:50
Engajado na campanha de José Serra. cujo nome você publicou aqui pela primeira vez, Henrique? Francamente, não entendi. Um abraço, Marcos.
abril 21st, 2010 at 11:56
Agora entendo menos ainda, Henrique. Numa hora você diz que o site está engajado na campanha do José Serra. Na outra, que é patrocinado por Itaipu, logo não pode crititar hidrelétricas. A idéia que se possa ser independente de uma coisa e de outra não lhe passa pela cabeça, não é? Ou está procurando qualquer pretexto para condenar uma opinião de que diverge, mesmo se para isso tiver que invocar pretextos contraditórios entre si? Abraço, Marcos
abril 21st, 2010 at 11:58
Agora a confusão ficou completa, Henrique. Desta vez nem sei do que você está falando. Parabéns pela insistência. Se continiuar assim daqui a pouco me exime de responder. Mais um abraço, Marcos
abril 21st, 2010 at 21:38
Usina: Potência (MW) / Alagamento (Km2)
1) Belo Monte (Pará): 11.233 / 516 = 21,77
2) Jirau (Rondônia): 3.450 / 258 = 13,37
3) Santo Antônio (Rondônia): 3.150 / 271 = 11,62
4) Itaipu (Paraná): 14.000 / 1.350 = 10,37
5) Tucuruí (Pará): 8.370 / 2.850 = 2,94
6) Ilha Solteira (São Paulo): 3.444 / 1.195 = 2,88
Belo Monte – bem melhor que Itaipu e muito melhor que as usinas de são paulo
abril 21st, 2010 at 21:41
Eu nem falei o nome de Serra, olha acima.
Carapuça?
abril 22nd, 2010 at 11:48
Tem razão, José Henrique. Não falou mesmo. Só escreveu que o blog estava “engajado numa campanha eleitoral- pro psdb paulista”. Foi tão sutil que me confundi. Certamente se tratava de outro assunto e outra pessoa. Peço-lhe desculpas por ter interpretadio mal suas palavras. E, quanto a isso, enfio a carapuça. Um abraço, Marcos
abril 22nd, 2010 at 11:56
Obrigado pelos dados, Carlos. Reforçam minha convicção de que um dos maiores equívocos do Brasil é chamar de limpa a energia hidrelétrica. Já fizemos tantos estragos calamitosos em nome desse equívoco. E parece que ainda não aprendemos com os erros. Já nem me lembro mais onde li que Tucuruí, por exemplo, teve um impacto quatro vezes maior que as usinas de diesel que substituiu. Um abraço, Marcos.
maio 13th, 2010 at 1:56
Para colaborar no capítulo da atualidade do que foi escrito no passado, outro texto de Monteiro Lobato, agora sobre a ocupação do oeste paulista pelo café, no século XIX, caiu-me no colo quando pesquisava na biblioteca do Museu Imperial de Petrópolis informações sobre o americano Stanley Stein autor do livro “Vassouras – a Brazilian Coffe Country: 1860 a 1900”.
Escreveu Monteiro Lobato:
“Repete-se, então, o movimento bandeirante de outrora. Atrai o homem aventureiro não mais o ouro dissimulado em pepitas no seio da terra, mas o ouro anual das bagas vermelhas que se derriçam em balaios.
A região era toda um mataréu virgem de majestosa beleza.
Rasgara-a a facão o bandeirante antigo, por meio de picadas; o bandeirante moderno, machado ao ombro e facho incendiário nas mãos, vinha agora não penetrá-la, mas destruí-la.
Almas fechadas ao contemplativismo, nunca lhes amolestou o pulso a beleza augusta dos jequitibás de frondes sussurrantes como o oceano, nem o vulto grave da perobeiras milenares.
Sua ambição feroz preferia à beleza da desordem natural a beleza alinhada da árvore que dá ouro. [ ... ]“
Nessa mesma pesquisa deparei-me com a vida do jurista Baltazar da Silva Lisboa que em 1797 foi nomeado “ouvidor e juiz conservador das matas na comarca de Ilhéus”. Poucos anos mais tarde, registrou em livro a expectativa de que houvessem
“os cuidados do nosso corpo legislativo, para as saudáveis regulações que, conciliando o sistema liberal no exercício da propriedade dos cidadãos com os direitos não menos sagrados do interesse geral do Império, previna a destruição e promova a reprodução das matas”.
Faço minhas, duzentos anos depois e milhares de quilômetros quadrados de matas a menos, as mesmas palavras. Na qualidade de “juiz conservador das matas” ele clamava por leis. Hoje as temos, mas é grande e articulado o esforço para mudá-las e desproporcionalmente pequeno o esforço para que sejam cumpridas. O exemplo do descaso começa pelo desgoverno Lula e segue firme para promotores e juízes avessos a aplicá-las.
Uma das muitas utilidades correlacionadas ao estudo da história é a eventual conquista da capacidade de não se repetir os erros do passado. Esses, depois de compreendidos, deveriam ser transformados num legado a não ser seguido. Mas não é o que o garimpo no Museu Imperial de Petrópolis nos mostra. Lá, o que não faltam são relatos diversos registrando as conseqüências da devastação.
Apesar deles, o que continua ser necessário fazer é escrever com tintas ainda mais vermelhas aquilo que direta ou indiretamente já foi escrito.
Mas sempre resta a esperança de que a pedagogia assentada nas conseqüências dos erros provoque reflexos e mudanças onde elas hoje são mais necessárias: nas urnas eletrônicas de outubro.
A propósito: O acima citado Stanley Stein levantou a tese de que em pouco menos de meio século o município de Vassouras-RJ, e a maior parte do extenso Vale do Paraíba, foram cenário de um ciclo econômico completo que teve início com a floresta tropical, passou a ser a maior área plantada de café do mundo, e terminou com encostas desmatadas e desgastadas e nenhum pé de café. Agora recomeça na região o que alguns desavisados chamam de novo surto de desenvolvimento: tem gente que resolveu plantar eucaliptos.
Dá para imaginar até que o Brasil está mesmo é no Século XIX, e não na década de 40.
maio 13th, 2010 at 14:50
Caro Luiz Aurélio,
Obrigado pelo adendo. Quanto mais Monteiro Lobato neste blog melhor, principalmente se for para falar de conservação de natureza – ou de nosso velho pendor para o desperdício ambiental. Também sou fã do livro do Stein sobre os estragos do café no Vale do Paraíba. Você conhece a maravilhosa definição que Monteiro Lobato fez do vale no começo do século passado? “Aqui tudo foi, nada é”. Pode-se dizer mais em poucas palavras? Se você gosta do assunto, recomendo-lhe dois autores sobre escreveram sobre a história de nossa devastação – por coincidência, são dois José Augusto: o Pádua e o Drummond. E, claro, se ainda não tem você deve se armar o mais depressa possível como o Warren Dean de “A Ferro e Fogo”. A paisagem brasileira nunca mais será a mesma diante de seus olhos. Você começará a ver em toda parte o que está faltando nela. E o que está faltando é quase sempre muito mais do que ainda está lá.
Um abraço,
Marcos
maio 13th, 2010 at 18:27
Marcos,
já tive o prazer de ler todos os autores e talvez todos os livros e textos que já publicaram.
Quando saiu o “A Ferro e Fogo” precisei interromper o que estava escrevendo para não ser acusado de plágio. Não de textos, mas de idéia, o que dá no mesmo. E nem de longe me considero um escritor. Mas tive vontade de escrever e comecei a pesquisa histórica que me levou a lugares e a livros realmente maravilhosos.
Agora estou relendo, depois achá-lo na casa de minha mãe, e passados quase 40 anos, um dos livros da série “Caçando e Pescando pelo Brasil”. É interessante notar como o passado se conecta ao futuro por caminhos obliquos e tortuosos. Um livro sobre caçadas está no rastro da minha vida que sequer sabia seria um dia pintada de verde, va lá que vou deixar barato e direi verde claro. Mas o autor, bem menos conhecido hoje em dia do que os que mencionou, foi o primeiro “ambientalista” com quem tive contato: defendia a preservação do meio ambiente para que pudesse caçar. Isto no início do século passado. Alguém pode – com razão – alegar que a motivação não era nobre. Mas, de fato, se dependesse de Francisco de Barros o Sul de Minas ainda seria sertão.
Lembrei-me do livro quando lí seu artigo sobre as aventuras do americano na região que, anos depois, seria o Iguaçu.
Lutei para que minas filhas não lessem, no primeiro grau, coisas como Machado de Assis etc. Não que não são bons, são ótimos, mas não há como começar a gostar de ler sem contar com a sorte de começar o vício por, por exemplo, um Monteiro Lobato.
Dos disparates que falou …. eu nem me lembro.
Forte abraço.
maio 13th, 2010 at 18:41
Nossa, Luiz Aurélio.
Pelo visto, passamos a vida lendo os mesmos livros com as mesmas reações. “A Ferro e Fogo” eu costumo dizer que literalmente caiu na minha cabeça uns dez anos atrás e me tirou para sempre – graças a Deus e a Dean – da reportagem política. “Caçando e Pescando por Todo o Brasil”, do Francisco de Barros Júnior, foi livro de cabeceira de dezenas de ambientalistas importantes, como Claudio Pádua, Peter Crawshaw e outros, que passaram a infância querendo crescer para fazer as mesmas caçadas que o autor fazia e, ao chegar na idade de sair por aí dando tiro, constataram que o Brasil de Francisco de Barros Júnior simplesmente não existia mais. Logo, o que restava nele era a nostalgia de uma paisagem e de um país desfigurados pelo desmatamento e a voracidade desenvolvimentista. Daí ao ambientalismo é só um passo.
Grande abraço,
Marcos
maio 13th, 2010 at 19:08
Achei que essa sua migração profissional era definitiva apenas quando o vi enfiado no Iguaçu. Mas o caminho vem, pelo que conheço, desde Itatiaia.
O primeiro texto que vi tratando e associando preservação ambiental e estética, algo que você tanto valoriza numa rara combinação de competência fotográfica com qualidade de texto, foi através de escritos do Barão de Pati do Alferes, se não me falha a memória foi dono da fazenda Arcozelo da qual você provavelmente deve ter informações.
Seria apenas mais uma voz a denunciar a correlação entre destruição da natureza e burrice empresarial se não o tivesse feito no meio do século XIX. É, como disse, um dos primeiros relatos no Brasil a registrar que a estética, a beleza proporcionada pela natureza, agrega, por si só, valor a qualquer propriedade. Independentemente do que possa ser avaliado em função da presença da madeira, na visão dele, tomada como recurso.
Em relação ao que considerava como uma estupidez econômica, um desatino gerencial, o Barão, grande plantador de café, observou em 1847:
“[...] Para obviar esse inferno de fogo, nas grandes derribadas, que em menos de uma hora deixam em cinzas aquilo que a natureza levou séculos a criar, ordenai aos vossos derribadores que não deitem abaixo um só pau de lei, (…). É, pois, tal o desmazelo que há sobre este importante ramo que mete dó, e faz o coração aos pés daqueles que estendem suas vistas à posteridade e olham para o futuro que espera seus predecessores. O governo deve começar a dar atenção a este estado de atrasamento em que cegamente marchamos, ordenando que todos os fazendeiros sejam obrigados a plantar à margem dos caminhos de suas fazendas certa porção de paus de lei. O cedro, v. g., que pega otimamente de galho, a temboíba, o pinho-das-minas e outras árvores que, em 30 ou 50 anos, dão excelente tabuado. Com esse método se tira a duplicada vantagem da utilização das madeiras e aformoseamento das fazendas. [...]”
Hoje é preciso ressaltar que “estender as vistas à posteridade” não significa – de forma alguma – reduzir o horizonte para outubro deste ano. Data que, para os mais pobres de espírito e ricos em miopia crônica, pode representar o paraíso ou o fim do mundo.
Como assim abandonar o jornalismo político? Não é isso que posso deduzir de posts que li acima.
maio 13th, 2010 at 19:30
Acho uma injustiça a história do ambientalismo brasileiro não ter dedicado uma única linha ao atirador Francisco de Barros Junior. Meu, ou melhor, nosso ídolo de uma infância desprovida de televisão.
Os três livros (é o que tenho) estão recheados de frases e parágrafos dignos de qualquer ambientalista de carteirinha.
Ainda não acabei de ler nem o primeiro volume, mas me lembro que fala, em algum lugar, das Setes Quedas e das cataratas.
maio 13th, 2010 at 20:14
Também acho, Luiz Aurélio. Faz tempo defendo uma edição ambiental da obra completa de Francisco de Barros Júnior (tenho cinco dos sete livros, foram a trilogia que ele fez como literatura infantil), deixando fora o tiroteio para se concentrar na descrição do Brasil que ele palmilhou e descreveu, um país que não existe mais, a não ser em retalhos. Ele viveu num tempo (e estamos falando da primeira metade do século XX) em que ainda se podia ir do Rio Grande do Sul a São Paulo – logo, ao Mato Grosso e a à Amazônia – em florestas contínuas. Que tal começarmos um movimento pró Barros Júnior 2010? Já somos dois e uma causa. Tem muito partido político por aí que não chega a tanto.
Abração,
Marcos
maio 13th, 2010 at 20:16
Se não abandonei o jornalismo político, pelo menos aprendi a ficar mais longe possível dos políticos. Já é alguma coisa, não?
maio 13th, 2010 at 22:55
Minha leitura é lenta, mas pinço e sorvo as metáforas e os apelos ambientais que sem esforço pulam e estão generosamente colocados em diversas páginas do livro.
A título de matar, ele clamou diversas vezes por preservar e, não sei se por torcida ou vontade de distorcer, percebo o relato de constrangimentos por trás de tiros que romanticamente disparou.
É difícil poder revisitar esse Brasil que, como você disse, não existe mais se não pela mão de quem o verdadeiramente percorreu, com todos os sentidos, e só largava o anzol ou o gatilho para escrever. Era tudo e não era pouco o que sabia fazer.
Tô dentro do projeto! O que será do relato que sobreviveu intacto à nossa vocação para destruir?
maio 13th, 2010 at 22:58
É melhor perguntar de novo: O quê será?
Bem, afastar-se de políticos passarei ao tomar como sendo o melhor exemplo 2010 da conservação da vida, da vontade de viver e da sanidade.
maio 14th, 2010 at 10:22
Luiz Aurélio, se é assim, mãos à obra do Francisco de Barros Júnior. Começarei por uma caça aos volume que estão faltando. Sebo virtual é para isso.
Grande abraço,
Marcos
maio 14th, 2010 at 10:29
Luiz Aurélio,
Tentando me explicar melhor: uma das vantagens do jornalismo ambiental é entrar em contato com assuntos novos, em vez de retomar os mesmos assuntos de sempre renovados pelo jornal do dia, e sobretudo descobrir que há várias gerações de brasileiros ilustres, movidos por espírito público, embora o público não se interesse por eles, trabalhando duro fora dos gabinetes, sem verbas oficiais, com orçamentos magros, grandes novidades para contar que ninguém parece ouvir e, certamente, mais relevantes que os políticos convencionais, mesmo quando esta relevância é metida pelo denominador comum do alcance concreto das medidas que tomam diariamente no anonimato. É isso que eu quero dizer quando digo que me livrei dos políticos, Achei personagens de melhor extração.
Grande abraço,
Marcos
maio 14th, 2010 at 23:45
Creio que sei o que você sente e mais tarde volto ao assunto.
maio 15th, 2010 at 11:50
Ainda estou por descobrir o que o autor, em http://www.santohuberto.com/sh_conteudo.asp?id=1566,quis dizer com “caçador ético”, embora desconfie que caçar com balas de baixo calibre e a longa distância pode ser o suficiente para que um caçador não seja “ético”. “Pequenos pecadilhos”, então … é bom nem imaginar. Mas fiquei surpreso por descobrir que ainda se caça no gigantesco e biodiverso país chamado Portugal. E que padeço de hoplofobia.
“Com notável senso de timing, Barros Júnior deixou este mundo no dia 19 de setembro de 1969, lúcido e ativo até o fim.
E por que o timing? Simples: sua partida nessa hora oportuna, quando as coisas ainda eram diferentes, impediu-o de ver sua memória enxovalhada ou deliberadamente negligenciada por imbecis.
É certo que para os padrões atuais Barros Júnior não era um paladino da ética venatória: matava peças demais, atirava de muito longe com calibres pequenos, e cometia (e confessava com honestidade) outros pequenos pecadilhos. Mas são outros tempos, e outros costumes: aposto que se continuasse vivo seria um caçador dos mais éticos.
Mas a hoplofobia e a gritaria dos antis conseguiram banir a série “Caçando e Pescando” das estantes das livrarias; ouvi falar até mesmo de uma mãe que se insurgiu contra a presença de um dos livros dos “Três Escoteiros” numa biblioteca escolar por causa das histórias de caçadas; o pior foi alguém ter lhe dado ouvidos. (Por outro lado, um livro flagrantemente obsceno foi distribuído por engano a escolas primárias de São Paulo e ninguém reclamou até que o próprio autor e a imprensa denunciaram o caso).”
Outros links:
http://revistas.unipar.br/veterinaria/article/viewFile/49/30
http://peregrinacultural.wordpress.com/2009/06/21/a-natureza-em-mg-em-1949-francisco-de-barros-junior/
http://veja.abril.com.br/100399/p_102.html. Sugiro que veja o nome do autor. Um certo cidadão que escreveu a pérola “Em crise profissional, geralmente se muda de emprego. Ele mudou de encarnação”. Essa Internet é mesmo danada.
Conforme prometi, no último post, voltei ao assunto
maio 15th, 2010 at 18:07
Luiz Aurélio, quanta coisa você conseguiu desencavar! Inclusive uma entrevista com Cláudio Pádua, feita há mais de dez anos. Mas, achamos o caminho. Eis minha proposta: abrimos, aqui ou em qualquer lugar on-line que você designe, um espaço onde iremos juntando as melhores descrições que Francisco de Barros Júnior fez da naturezza brasileira dos anos 20, 30, em que – se bem me lembro – foi mais ativo. A princípio, vale atirar a esmo. Tudo o que foi bom, vale, venhga de onde vier. Com o tempo, creio que seremos forçados a organizar as coisas por região, estado ou, para usar o baixo calão da patologia ambientalista, bioma. Quem quiser aderir, pode aderir à vontade. Toda colaboração será bem vinda. Reconstituiremos o país que nos roubaram. Manteremos a prerrogativa de edição, para evitar a bagunça, que isso o Brasil já tem de sobra. Um dia, como quem não quer nada, teremos na internet um livro sobre o Brasil de Francisco Barros Júmior, feito a quantas mãos se habilitarem a tocar a empreitada de educação ambiental e cívica. Se esse livro terá futuro em papel ou não, podemos deixar que o tempo resolva. Mas, com o livro eletrônico atropelando por fora, isso tende a ser secundário em pouco tempo. Será, para todos os efeitos, uma edição livre, na web. Que tal?
Grande abraço e obrigado pela inspiração,
Marcos
maio 16th, 2010 at 3:24
Na verdade eu não sabia quem era Cláudio Pádua! Portanto, desencavar não foi escolha e, sim, a única alternativa de um sujeito curioso e desinformado. Achei a matéria uma maravilha.
O bom desse trabalho certamente não é chegar ao fim. Se é que se pode chamar algo assim de trabalho. Não tenho nenhuma experiência wiki, mas imagino que seja ótimo.
Vou sugerir uma linha adicional, complementar, e não alternativa, de trabalho para pensarmos enquanto usinamos. Alguma coisa que o próprio nome se preste a indicar. Por exemplo, ou melhor, alguns dos possíveis exemplos de tiros semi-aleatórios que podem ser imaginados como uma espécie de tags Web 2.0: Fragmentos de um Brasil que se Replica, A Perpetuação da Dificuldade, O Ambientalismo de um Naturalista, Poética Ambiental: uma forma de se conectar com a solução ….
Isso dá pano pra manga.
Há, ainda, outros lados que me fascinam. Só itemizando para ir atirando: (1) o quanto as críticas econômicas e sociais de Francisco de Barros são contemporâneas, ou melhor, o que ele tem de contemporâneo chega a assustar, (2)em algum dos livros, e isto está cravado na minha memória, ele questiona a questão da sobrevalorização do câmbio brasileiro em relação à moeda boliviana de alguma época, a nossa era o mil reis, se não me falha a memória. Para mim foi ele quem inventou o câmbio e não há nada tão anti-ecológico quanto juros alto e câmbio manipulado. (3) será que dá para acompanhar um relato fotográfico; Sete Quedas não existe mais, mas há fotos a serem restauradas em muitas famílias brasileiras e devem haver lugares intactos a serem capturados por uma lente. Acho que é mais torcida… (4) com ele travei o primeiro conhecimento com a realidade da “globalização” inevitável do clima, com a questão de causa e efeito entre fenômenos que para mim mantinham uma distância quase infinita. Não sei onde, mas faz uma correlação entre os Andes e a temperatura na Amazônia. Me lembro que achei isso uma coisa fantástica … em 1965, aos dez anos de idade, sabia muito bem todos os nomes dos afluentes do Amazonas, e onde ficava o Andes, mas achava que era tão longe quanto Marte, (5) esta semana recebi um e-mail, de um repassador de pps, que mostrava fotografias de pessoas carregando sacos cheios de ovos de tartaruga. Esse problema, tenho certeza, está em um dos livros dele. Na época achei algo discutível porque não imaginava como alguém poderia comer ovos de tartaruga, se eu detestava os de galinha que era obrigado a digerir ……..
Minha residência oficial foi, durante alguns anos, em Petrópolis. E é lá que os três livros estão e estarão descançando até o próximo final de semana. Mas achei um dos que não tenho, o título é parecido com “Um Moço no Rio Paraná”, em Juiz de Fora, cidade onde starei a trabalho no começo da semana que entra. Vou comprar.
O espaço não deveria ser este, mas aqui está ótimo enquanto alguém não tiver uma idéia melhor. Você tem meu e-mail, o que também não facilita tanto.
Postei aqui a primeira mensagem em função de ter percebido o rastro de quem talvez estivesse deslocado de bioma, e, na outra mão, o esforço pacientemente costurado por quem carregou o traquejo de um lado para o outro. Mas jamais poderia imaginar onde esse rio poderia desaguar.
Grande abraço.
maio 16th, 2010 at 21:14
Sou capaz de apostar que o livro guardado em Petrópolis seja “Três Escoteiros em Férias no Rio Paraná”. Faz parte de uma trilogia infanto-juvenil que nunca mais encontrei em lugar nenhum. Acho que os outros dois livros eram “Três Escoteiros em Férias no Rio Tietê” e – aí a memória começa a falhar – creio que a série fechava no rio Paraguai, mas posso estar delirando…
Abraço,
Marcos
maio 17th, 2010 at 0:08
Um dos links que colei acima incorporou indevidamente a palavra “que” e, quando clicado, não leva nunca a Francisco de Barros Junior. Por isso, segue o link correto por ser, até aqui, o lugar que melhor descreve nosso autor e registra sua obra. Sem ler este texto, se é que não o leu, você não consegue entender o que escrevi acima.
http://www.santohuberto.com/sh_conteudo.asp?id=1566
O nome “Um Moço …” era uma brincadeira com quem acredito esteja bebendo água na bacia hidrográfica correspondente.
maio 17th, 2010 at 0:22
No link você vai encontrar:
“Nem as vinte e oito mil entradas no Google à procura da obra convencem algum editor a reeditar essa obra magistral, que é muito mais do que uma série sobre caçadas, mas também um compêndio de história ambiental, história do Brasil e uma aula de verdadeiro patriotismo.”
O dado é duvidoso, mas concordamos que não é mesmo só um livro sobre caçadas.
maio 17th, 2010 at 12:00
Luiz Aurélio,
Concordamos em gênero, senão em número, e certamente em grau.
Um abraço,
Marcos
maio 17th, 2010 at 12:01
Moço, no meu caso, é erro essencial de pessoa, embora não de bacia hidrográfica.
maio 20th, 2010 at 22:45
O livro disponível era o terceiro volume da trilogia. Comprei assim mesmo.
Para ler melhor abri o Google Maps. O maluco foi, naquela época, de Manaus até a Boca do Acre (é nesta parte do livro que cheguei eu e o lik está abaixo)navegando, pescando e caçando no rio Purus.
http://maps.google.com.br/maps/ms?msa=0&msid=116929362353531309157.00048710b81ffa3854a91&hl=pt-BR&ie=UTF8&ll=-6.489983,-63.896484&spn=20.200403,42.93457&t=h&z=5
Sabia que dá para repetir a façanha em barcos, infelizmente, mais velozes.
http://www.viagensenegocios.com.br/web/pesquisa/viagem.php?origem=MANAUS&destino=BOCA%20DO%20ACRE&modalidade=&conexao=LÁBREA
Para quem gosta de fotografia o rio Purus é um paraíso.
http://www.panoramio.com/photo/856915
é apenas uma mostra
maio 24th, 2010 at 14:21
Luiz Aurélio,
Você está se adiantando tanto que corro o risco de ver “nossa” reedição do Francisco de Barros Júnior ficar pronta antes que eu acabe de selecionar uns trechos de descrição da natureza brasileira – começando pela região sul. O difícil é escolher. Tem lugares demais que eu não gostaria de perder de novo. Já basta os que perdi por ter nascido depois que o Brasil ficou pronto. Ou seja, seco e torrado.
Grande abraço,
Marcos
maio 24th, 2010 at 23:45
Marcos,
adiantei a leitura por ter comprado em duplicata o número três da série. Mas já encaminhei para presente e passei a ler aquele que ganhei antes do Brasil ser “descoberto” em 2002. Agora não consigo me decidir se continuo ou se retorno ao primeiro livro da série.
Talvez seja interessante você vir do Sul e eu do Norte. Em algum ponto vamos nos encontrar. Pensei que pudéssemos fazer isso por e-mail.
Idéia simples: ao lado do texto pinçado anotamos o livro e a página e vamos trocando a colheita.
O quê você acha?
Fico cada vez mais impressionado com o “Paradoxo de Santo Uberto” ou com a poética ambiental de um caçador.
Forte abraço
julho 14th, 2010 at 20:30
Maravilha, Sr. Marcos e Sr. Luiz Aurélio. Reeditem a obra de Francisco de Barros Junior. Será uma grande contribuição para os que estão por vir e serão obrigados a cuidar da nossa terra no futuro. Senão…
Com o conhecimento que esta obra nos tráz, será facil refazer parte do que foi destruido. Tenho as seis séries de “Caçando e Pescando por todo o Brasil”. É maravilhosa. Sua leitura é uma viagem.
Parabens pela idéia e contem comigo. Agora somos três.
julho 14th, 2010 at 21:33
Estamos em campanha para isso, Sergio. Só falta o editor.
Um abraço,
Marcos