Podem pôr a culpa na lua cheia
ter, mar 30, 2010
Esta deveria ser uma história sobre a lua cheia de domingo. Motivos para isso não lhe faltam. Mas o parque nacional do Iguaçu tinha outros planos. O dia veio carregado de nuvens. Choveu à tarde. O sol estava quase se pondo quando o céu limpou re repente e, no ar lavado, a luz bateu de viés no cânion, fazendo brilhar a vegetação encharcada como se inaugurasse o Oeste do Paraná naquele instante, novinho em folha.
Só deu tempo de correr para preparar a máquina fotográfica. Pegá-la só não bastava. Com equipamento digital, isso ficou mais complicado do que na era do filme e das regulagens mecânicas. Exige desligar, um a um, antecipadamene, todos os dispositivos automáticos, sob pena de encarar depois uma lua artificial boiando num cenário de opereta.
É prudente travar o espelho que desvia a imagem da lente para o visor, reduzindo ao mínimo todos os de vibração na hora em que se aperta o obturador. Não parece, mas aquele suave ploc-ploc que ele faz ao subir e descer sobre batentes acolchoados repercute na fotografia como um acesso de tremedeira, pelo menos com exposições ou lentes mais longas. E isso implica um breve mergulho no programa da câmera.
Lá se vão, pelo mesmo caminho, o foco automático, que funciona mal no escuro, e não pára de buscar o ponto de maior contraste para trás e para frente. Ou seja, atrapalha-se e nos atrapalha. Como o olho humano, em tais circunstâncias, também não é lá essas coisas, mais vale calcular a distância de cabeça e regular a objetiva pela tabela em metros e pés que, embora muito simplificada em relação aos maus tempos do olhômetro puro, as boas marcas do ramo ainda gravam no exterior da lente, quase sempre sob uma tampa de plástico translúcido.
Se a objetiva ainda por cima tiver estabilizador, “zero” nele. Com a máquina fixa no tripé e ums cachoeira movendo-se à sua frente, ele pode cair em tentação de estabilizar até a rotação da terra, e fazer isso aos saltos. Enfim, não se pode esquecer de ajustar previamente também o registro de cores para a luz solar, porque dela é que nos virá o luar sobre as cataratas.
O resto é mera questão de gosto. Mas, como os fotômetros embutidos nas máquinas se tornaram francamente prodigiosos, não custa deixá-los prontos para medir a luz no menor ângulo possível. Assim será mais fácil assestá-los sobre a espuma branca que as quedas produzem. Nesse caso, medindo o branco, para que ele não se torne cinza claro, que é o tom neutro do mundo no cálculo dos fotômetros, multiplica-se de cara a exposição por 2, ou na pior das hipóteses pelo fator um e meio.
Tudo isso convém executar no claro. Na trilha escura, onde provavelmente faltará uma terceira mão para segurar a lanterna, mesmo as operações mais simples se tornam complicadas, senão traiçoeiras. E agora, pé na estrada, porque mal o sol sumiu de um lado do cânion, na margem argentina, a lua começou a passar por cima das árvores que sombreiam a margem brasileira. E só esse momento já vale a correria, com ou sem fotos.
É a mesma trilha calçada de cimento e demarcada por balaustres metálicos por onde, horas antes, passava um rio de visitantes, praticamente em fila indiana. O parque do Iguaçu está em época de enchente humana. Além, é claro, de ter muita água. Nesta Páscoa, espera 20 mil turistas. E são normalmente só aqueles mil duzentos metros de parque que eles visitam. Os da trilha que percorre os mirantes das cataratas.
Mas, deserto e sombrio como fica assim que os portões de ingresso fecharam, o percurso volta a ser um suvenir convincente da mata original, que há menos de um século barrava o caminho e a vista dos primeiros curiosos que vieram à Garganta do Diabo. Sob o ronco das cachoeiras, passos leves e sutís no chão de folhas recordam o tempo todo que a mata foi provisoriamente devolvida pelo anoitecer a seus legítimos donos.
Na vinda, minutos atrás, foi até preciso parar o carro para que um veado mateiro, estacionado no meio da BR-469, decidisse sem maiores pressões do trânsito o rumo que pretendia seguir na tavessia do asfalto. Outro, um quilômetro adiante, corria pelo acostamento, o mesmo percurso gramado que costumam usar jogging, assim que a tarde refresca, os funcionários e guardas da polícia florestal.
Mas não se pode deixar que os bichos e outros personagens tomem nesta história o lugar que estava reservado para as fotografias da lua cheia. E ela não negou fogo. Estava alta, resplandescendo no salto Floriano, na chegada ao mirante, uma torre de elevador com plataformas metálicas debruçadas em balanço sobre o rio, que oscilam sensivelmente com o choque da água lá embaixo sobre o leito de basalto.
Aí, irmão, é preciso ter cuidado, porque pode andar por perto sua mulher, dizendo que acaba de ver um arco-íris branco, quase fantasmagórico, na névoa que as quedas lançam sobre as corredeiras, rio abaixo. Miragem pura, provocada pela nossa tendência a descolorir a noite. No escuro, para nossos olhos, todos os gatos são pardos e os arco-íris, pálidos. Mas, daqui a pouco, o sensor imparcial da câmera, devidamente informado de que, apesar das aparências em contrário, está debaixo da luz que vem do sol, irá devolver-lhes todas as faixas do espectro a que têm direito no expediente diurno.
Para isso é que servem as manipulações preventivas do equipamento. Para não deixar que as câmeras se enganem, como nós nos iludimos com o luar. Lembrou-se até de aumentar a sensibilidade para ISO 800? Ótimo. Isso vai lhe custar algum ruído na imagem. Mas nem por isso deixará de ser bom negócio, numa torre que oscila suavemente diante das cataratas. Ali, nem o tripé mais firme – no caso, um valente e surrado Gitzo Mountaineer de titânio – dará fotos de longa exposição com nitidez aceitável.
O segredo é limitar a 10, 11 segundos no máximo, o tempo que o obturador permanecerá aberto. Evidentemente, com o espelho interno recolhido como uma ponte levadiça, e sem você encostar em nada, tentando sentir com os pés a pausa no vai-e-vem irregular da torre metálica. Logo, usando o disparador de cabo – aquele que você quase esqueceu ao juntar a parafernália, tendo que voltar às pressas para buscá-lo. Na câmera, em si, nem se toca. E, sem o disparador, sua noite de luz cheia a essa altura estaria meio bichada, pelo menos em matéria de fotografia.
Às dez da noite, com as máquinas quase gotejando de umidade, esgotou-se arbitrariamente o assunto inesgotável. Era hora de voltar para casa. Não sem antes dar uma última paradinha no belvedere do Hotel das Cataratas, diante da série saltos – Dos Hermanos, Cabeza de Vaca, San Martín, Bosetti – que fecham na margem argentina a longa volta do rio Iguaçu pela beira do precipício.
Ali, dois casais, certamente de hóspedes do Hotel das Cataratas, aproveitavam a vista exclusiva do anfiteatro. E havia no ar um excesso de iluminação artificial, vinda do jardim para competir com o luar. Era o toque definitivo de retirada. Daria para encerrar a história por aqui, se ao ligar o carro no estacionamento e sair da vaga em marcha-a-ré, os faróis não batessem de raspão num vulto de animal, na borda do mato ralo que costeia a pista da BR-469.
Outro veado? O terceiro da noite? Foi preciso assestar os faróis em sua direção para constatar que não. Tratava-se de outro bicho. Sem dúvida, de um grande felino. Com sorte uma onça parda, com as patas dianteiras pisando o asfalto, logo ali, na frente do hotel, num ponto onde os ônibus e vans despejam durante o dia milhares de visitantes. A cena parecia à primeira vista um exagero quase inverossímil, coisa que na vida real só acontece com altas doses de luar.
Mas não era uma onça parda. Era muito mais que isso. Ali estava naquele momento, encarando o jardim, uma onça pintada, imperturbável, sob o facho dos faróis – tão perto da escada de acesso ao saguão de entrada que lembrava a onça capturada naquele mesmo jardim duas décadas atrás pelo biólogo Peter Crawshaw. A tal pintada se habituara a dormir na varanda do gerente.
A onça de domingo passado não cruzou essa fronteira. Voltou do ponto em que estava, com elegância sobrenatural. Sem correria, deu meia volta e o mato se fechou às suas costas como um pano de boca. O que significava sua presença naquele lugar? Nem a turma do Projeto Carnívoros do Iguaçu se arrisca por enquanto a responder. Oficialmente, nunca foram tão poucas as onças pintadas do parque. Seis ao todo, contadas por armadilhas fotográficas que elas parecem driblar sistematicamente nos pontos mais ermos das áreas intengíveis da unidade de conservação.
Escondem-se dos especialistas. E, ao mesmo tempo, nunca apareceram tanto para tantos leigos desavisados, nos locais mais implausíveis, do lado mais populoso, visitado e turístico do Iguaçu. Parecem ter aprendido que ali, pelo menos, não se caça, embora haja o risco de serem atropelaas, como o macho que morreu de madrugada na BR-569, há mais ou menos um ano.
O que elas estariam querendo nos dizer com isso? Trata-se de uma despedida, aviso do triunfo definitivo do engenho humano sobre o mundo natural, como disse o crítico inglês John Berger dos zoológicos, que só viraram moda na Europa do século 19 quando ficou estabelecido de uma vez por todas que a era dos elefantes, leões e rinocerontes estava no fim?
Não é o tipo de pergunta que uma simples história sobre fotografia de lua cheia possa responder. Ver onças nos roteiros mais batidos do parque nacional do Iguaçu pode ser um bom sinal ou um mau sinal, dependendo inclusive do que daqui para a frente fizermos com ele. O certo é que, depois de cruzar sem querer com as intenções sigilosas desses animais arredios, não dá mais para conceber o mundo sem eles. Muito menos o mundo que fica dentro do parque nacional do Iguaçu.
E antes que alguém escreva para saber aonde foi parar a foto da onça de domingo, não custa lembrar que desde a primeira linha este texto deixou claro que iria tratar de fotografia na lua cheia. E, como se sabe, uma câmera regulada para esse tipo de imagem não sai por aí fotografando onça, sem antes se preparar para voltar a ser o que era antes de se arrumar para a vida noturna. Por a Fotografia, trocada em miúdos, é a arte de botar cada coisa no seu lugar.
Tags: Fotografia de Natureza, Onças, Parque Nacional do Iguaçu









março 30th, 2010 at 17:42
Marcos,
Lindas as fotos!
Essa lua driblou a onça.
Um beijo,
Anita
março 30th, 2010 at 18:14
Conseguiu, hem Marcos! Ptz!!!
E as fotos das quedas estão fantásticas!!!
Abçs!
março 31st, 2010 at 10:27
Pois é, Adílson, pelo visto vai mesmo de vento em popa aqui no parque do Iguaçu a temporada de onças pintadas para amadores. Abração, Marcos
março 31st, 2010 at 10:28
Oi, Anita. Que bom ver você por aqui. Mas não cutuque muito a onça com lua curta. Ou seja, minguante. Beijão, Marcos
março 31st, 2010 at 11:58
Nossa, sou biológa e atuo no MT.
Vocês foram muito …mas MUITO privilegiados! atrevo-me a dizer
Abençoados!!
Agora, as mensagens passadas pelos “bichos” avistados, vai depender de cada receptor! muita energia! e parabéns!
(pois, eu acredito que não é qualquer pessoa que possa ver uma onça!!!)
até!
março 31st, 2010 at 14:09
Rafaela, privilegiada é você. Por ser bióloga, o que a meu ver não lhe dá só uma certidão de curso superior, mas também um passaporte para fazer na vida o que realmente interessa. Prova disso é que, cada vez mais, os livros feitos por biólogos me parecem melhores do que os outros, pelo menos quando vêm de biólogos que sabem contar o que vêem e não se contentam em escrever relatórios para estantes acadêmicas. Tudo isso é sinal de que eles estão numa ponta do conhecimento humano por onde nem todo mundo transita com carteira de habilitação. E, além de bióloga, você “atua” no Mato Grosso, onde aliás vi minha primeira onça, à lua do dia, nadando no rio Paraguai. Abraço, Marcos
abril 11th, 2010 at 22:22
Caro Marcos,
Permita-me uma gíria, digamos, romariana: “Você é o cara!”. Leio seus artigos e reportagens desde a época da antiga “Veja”. É simplesmente o melhor texto da imprensa brasileira! Um dos últimos estilistas do jornalismo brasileiro. Nessa “Veja” a que me refiro, além de você, pontificavam Elio Gaspari, Roberto Pompeu de Toledo, Dorrit Harazim, Geraldo Mayrink. Que time!
Acho que você, um grande jornalista político, filho de um mestre do gênero, voltou-se para a natureza porque se cansou das coisas de Brasília. Cansaço, desilusão – ou uma nova maneira de falar sobre política?
Abraços,
abril 12th, 2010 at 13:14
Bruno, assim você me deixa embatucado. Mas, elogios e exageros à parte, sim, você tem razão, o ambientalismo me salvou do enjôo incurável que ia tomando sem sentir pelo noticiário político e seus personagens. Fui empurrado para esse desvio profissional, na hora certa de pendurar as gravatas, por duas mãos providenciais. Primeiro, um livro de Warren Dean sobre a história de como os brasileiros se expulsaram do paraíso destruindo a mata atlântica, sem sequer aproveitá-la para converter as cinzas em crescimento econômico, justiça social ou qualquer outro produto civilizatório que valesse, no mínimo, a mesma coisa que a floresta. Foram séculos e séculos de pura pilhagem, excesso de ganância e falta de curiosidade por um patrimônio complexo, cuja conquista verdadeira exigiria respeito, tempo, estudo e trabalho. Houve, como sempre, muita corrupção e pouca polícia nessa conspiração devastadora. Enfim, aconteceu na mata atlântica tudo aqui que você está cansado de conhecer pelos jornais, agora nos confins da Amazônia. Tratar o Brasil como um território inimigo – ou seja, a ferro e fogo – continua a ser nossa rotina diária. Depois do livro de Dean, que literalmente me caiu na cabeça, veio um empurrão decisivo de minha mulher, que um dia me chamou a atenção para o fato de que cada vez mais eu falava de natureza em casa e de política na rua, sinal de que alguma coisa estava essencialmente torta em minha direção jornalística. Larguei tudo na mesma hora, perdi um bom naco de salário e acho que perdi também importância, ou pelo menos a visibilidade que os jornalistas confundem com importância. Mas fui compensado pela descoberta de que, por trás da melancólica chatura do Brasil cotidiano, havia um mundo inesgotável de assuntos inéditos e pessoas desconhecidas tratando de coisas relevantes, enquanto nossas celebridades habituais faziam ou diziam besteira sem parar. Bem, acho que falei demais. Mas a culpa foi sua, por botar o dedo na ferida. Abraços, Marcos
abril 17th, 2010 at 14:38
Em resposta ao artigo do senhor, “Lobato chega a camapanha”, em que há a afirmação que o surto de progresso dura aqui só o tempo de consumir os recursos naturais, lembro ao senhor que aonde foram derrubadas as matas do Mato Grosso hoje estão as melhores e mais produtivas lavouras de soja do mundo. O fanatismo cega as pessoas e as torna mais ignorantes. Recicle-se, senhor.
abril 17th, 2010 at 15:42
Prezado Sr. Leite Reis,
Como o mundo sabe desde o neolítico e o Brasil começou a aprender no primeiro congrasso agrícola do país, na década de 1870, uma geração só de sucesso não basta para provar que o modelo de progresso rápido via devastação deu certo. Pergunte aos herdeiros dos barões do café no Vale do Paraíba. Se não conseguir achá-los, porque eles estão ficando cada vez mais raros, basta dar uma olhada nas ruínas que seus antepassados criaram. Reciclagem por reciclagem, essa é muito mais garantida.
Um abraço,
Marcos
maio 6th, 2010 at 17:35
Oi Marcos
Que fotos maravilhosas! Estou orgulhosa e muiiito feliz por saber que vocêw está aí desfrutando e se deleitando com tudo isso e sabendo também que a natureza está, certamente, agradecida por receber este olhar.
Beijos
Marcia
maio 7th, 2010 at 23:50
Marcia,
Venha ver o parque de perto, ao vivo e em cores, e você vai ver que as fotos nem chegam perto de lhe fazer justiça.
Beijo,
Marcos