Santo de casa não ganha esmola
sex, mar 26, 2010
A cena tem uma virtude rara em registros de armadilhas fotográficas: uma composição completa, em vez de um enquadramento aleatório. Comprime numa fração de segundo uma história inteira, dirigindo o olhar para o destino da capivara, que à direita, em primeiro plano, mas de costas, quse desfeita pelo movimento de fuga, virou borrão de rabiscos marrons, como já estivesse se desfazendo.
No canto esquerdo vê-se a onça parda, de frente, nítida até nos fios dos bigodes, com as patas dianteiras no ar e o focinho manso dos predadores que, ao caçar, substituem a ferocidade pela atenção. Os bichos estão frente a frente numa trilha de várzea, com chão de folhas secas, em mato ralo. Ao lado da onça, desponta do colo, como um cogumelo, um tubo amarelo e vermelho. Logo atrás dela, um caibro fino ostenta uma placa, pequena, mas perfeitamente legível. O letreiro diz: PM-19, Petrobras.
Isso mesmo. O flagrante ocorreu em fevereiro, junto a Posto de Monitoramento 19 da Replan, a maior refinaria do país. Fica na Região Metropolitana de Campinas, cuja população cresce mais que a do município de São Paulo.
A seu redor, venerandas propriedades rurais viram da noite para o dia condomínios residenciais. Na hora do licenciamento ambiental, tufos de mata nativa se encaixam nos projetos imobiliários. Depois, quando um bicho espremido pela expansão industrial e urbana se transfere para esses refúgios, os mesmos moradores que queriam se mudar para perto da natureza reclamam que foram invadidos.
A Replan confina com as terras da cetenária Usina Esther, que cultiva 18 mil hectares de cana e mantém uma reserva de 173 hectares, reflorestada pelo ambientalista Paulo Nogueira Neto em 1958, quando não se falava muito em plantar mata em terras produtivas. Nogueira Neto, diga-se de passagem, foi o professor que pôs Márcia Rodrigues na trilha da conservação ambiental.
A área da REPLAN é de aproximadamente 154 hectares. Trata-se de um eucaliptal que abriga um bosque em processo espontâneo de regeneração. Daí a atração que exerce sobre a fauna nativa. Cosmos, aonça parda capturada em fevereiro pelos agricultores de Cosmópolis, atualmente transita, com seu rádio-colar, entre os dois fragmentos florestais – o da Usina e o da Replan. Na refinaria, um censo preliminar da população silvestre acusou a presença de 40% de veados, 38% de capivaras e 11% de tatus.
Tudo isso é comida de onça. E presa de caçadores. Uma sussuarana caiu recentemente numa armadilha clandestina de caçador. E ele, pelo sim, pelo não, matou-a com seis tiros de revólver. Uma das câmeras que espionam a bicharada da Replan flagrou dois homens armados com espingarda de caça. Um deles trajava o uniforme de uma firma terceirizada que atua na Replan.
A região tem onças pardas renitentes que, escoladas por quase quatro séculos de ocupação humana, aprenderam a viver onde podem. Muitas passam por lá em trânsito. Outras se estabelecem. Quatro sussuaranas figuram nas estatísticas dos últimos 12 meses. Uma apareceu num condomínio em Vinhedo. Outra, numa a área residencial de Rio das Pedras, junto à Unicamp. A terceira foi atropelada na rodovia Anhangüera e convalesce de um reimplante dentário. E um macho de 6 anos e 50 quilos entrou há poucas semanas para o rol dos felinos monitorados por colar noite e dia.
Tudo isso no fundo do quintal de grandes empresas, como a Replan. Mas só quem parece interessada no eucapital da refinaria é o Centro de Nacional de Predadores, do Meio Ambiente. Em nome do Cenap, a bióloga Márcia Rodrigues, com cinco anos de experiência na Amazônia e outros tantos de trabalho Mata Atlântica, oferece há meses à Petrobras o programa, bancando os rádio-colares para seguir os passos dos animais lá dentro.
Neca. E não é por falta de verba, porque acaba de lançar o edital de sua nova rodada patrocínios. Acena, para isso, com 110 milhões de reais.
Tags: Conservação, Onças






março 29th, 2010 at 13:24
Caro Marcos Sá Correa,
Sobre sua nota ‘Santo de casa não patrocina a fauna nativa’, publicada no Estado de São Paulo em 26/3, esclarecemos que a Refinaria de Paulínia (Replan) já possui uma parceria com o Centro Nacional de Pesquisas para a Conservação dos Predadores Naturais (CENAP), vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICM-BIO), para realização de levantamento e monitoramento da mastofauna (mamíferos da região) que circula nas áreas verdes da refinaria. Desde outubro de 2009, a Petrobras tem apoiado os estudos executados na Replan pelo CENAP, contribuindo com os custos para o monitoramento aéreo, além de disponibilizar um biólogo com veículo durante 4h/dia para acompanhar a bióloga Márcia Rodrigues, citada em sua nota.
Com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento sustentável, a Petrobras mantém um sistema de gestão com foco em meio ambiente para melhoria contínua dos seus processos, incluindo a cadeia produtiva, e promove ações internas e externas de proteção ambiental e difusão da consciência ecológica. Por meio do Programa Petrobras Ambiental, a Petrobras investirá até 2012 R$ 500 milhões em ações de patrocínios a projetos ambientais, fortalecimento das organizações ambientais e suas redes e disseminação de informações sobre o desenvolvimento sustentável, em todas as regiões brasileiras e biomas. Como forma de democratizar o acesso aos recursos e garantir a transparência do processo de patrocínio, a Petrobras realiza seleções públicas nacionais a cada dois anos – como aliás é de seu conhecimento, tendo em vista que você integrou em 2008, a convite da Petrobras, o Conselho Deliberativo, tendo a oportunidade de participar da escolha dos 47 projetos contemplados com investimentos totais de R$ 60 milhões, a serem utilizados em dois anos de atividades.
Tendo como tema ‘Água e clima: Contribuições para o desenvolvimento sustentável’, o Programa Petrobras Ambiental abrange a preservação da biodiversidade marinha, com o patrocínio a projetos representativos como o Tamar, com 30 anos de atividade (28 deles com patrocínio da Petrobras), e o Golfinho Rotador, patrocinado desde 2001 e que neste mês completa 20 anos de atividades de preservação e educação ambiental em Fernando de Noronha.
Quanto à informação de que uma suçuarana teria sido morta por um grupo de caçadores, um dos quais usando uniforme de uma empresa que atua na Refinaria de Paulínia, a empresa apurará o ocorrido. Caso seja comprovado o envolvimento de algum funcionário de empresa prestadora de serviços, a Petrobras tomará as providências necessárias, punindo exemplarmente.
Manteremos você informado dos resultados dessa apuração.
Atenciosamente,
Lúcio Mena Pimentel
Gerente de Imprensa da Petrobras
março 29th, 2010 at 16:44
Parabéns pelo artigo. Belo exemplo de jornalismo holístico a ser seguido. Não se preocupou em apenas reportar, mas também em apontar as causas e conseqüências da notícia. E pelo visto já apresentou resultados, levando em conta o comentário da Petrobrás. Espero que realmente informem os resultados da apuração.
maio 24th, 2010 at 10:56
PARABENS PELA ARMADILHA FOTOGRAFICA COM A ONÇA PARDA E A CAPIVARA.
O INSTITUTO PALMEIRA IMPERIAL DO MEIO AMBIENTE(OSCIP)ESTÁ DESENVOLVENDO UM PELD(PESQUISA ECOLÓGICA DE LONGA DURAÇÃO), NA FLORESTA DA TIJUCA A MAIOR FLORESTA URBANA REPLANTADA DO MUNDO, EM PARCERIA COM O INSTITUTO CHICO MENDES.
UNS DOS PROJETOS DO PELD E COLOCAR ARMADILHAS FOTOGRAFICAS PARA INDENTIFICAR OS ANIMAIS NOTURNOS E DIURNOS.
OUTRO PROJETOO É A REINTRODUÇÃO DE AVES NA FLORESTA DA TIJUCA COMO: MACUCO, JACUTINGA INHABU AÇU JACUAÇU E CAPOEIRA, A PARTE DA FLORESTA QUE VAI SER FEITA AREINTRODUÇÃO É O CRISTO REDENTOR, MESA DO IMPERADOR, VISTA CHINESA ETC…
maio 24th, 2010 at 10:58
O BRIGADO PELA OPORTUNIDADE.
INSTITUTO PALMEIRA IMPERIAL DO MEIO AMBIENTE(OSCIP)
maio 24th, 2010 at 13:39
Obrigado digo eu, pelo projeto de reintrodução de animais na Floresta da Tijuca, uma iniciativa do primatólogo Adhemar Coimbra nos anos 70 que, apesar de ter seu êxito atestado diariamente por vários milagres de sobrevivência da fauna nativa na cidade do Rio de Janeiro, como os tucanos que hoje se tornaram comuns no arboreto do Jardim Botânico, nunca chegou a virar um programa permanente, de bases científicas. Torço pelo sucesso desta nova tentativa.
Abraços,
Marcos
maio 30th, 2010 at 11:46
Valeu Marcos pelo apoio moral,na verdade o Instituto Palmeira Imperial,está desenvolvendo um PELD(Pesquisa Ecológica de longa duração).Nossa intenção é desenvolver a primeira universidade verde na floresta da Tijuca,á maior floresta urbana replantada do mundo.Vamos começar com a reintrodução na área onde está o Cristo Redendor,Mesa do Imperador e a Vista Chinesa.Vamos estudar os mananciais do Pai Ricardo, Rio Cabeça e o rio doa Macacos.Vamos restaurar o aqueduto do Rio Cabeça,feito pelos escravos que irrigava as plantações de café e cana-de-açúcar e abastecia toda cidade.vamos recuperar a historia
companheiro um forte abraço
sérgio iório
maio 30th, 2010 at 11:56
MARCOS GOSTARIA DE FAZER NA FLORESTA DA TIJUCA A ARMADILH FOTOGRAFICA PARA PODERMOS ESTUDAR E CATALOGAR OS ANINAIS DIURNO E NOTURNO, ESPERO PODER CONTEA COM VOCÊS.
A QUELA FOTOGRAFIA DA ONÇA PARDA E DA CAPIVARA , JUNTO AO POSTO DE MONITORAMENTO 19 DA REPLAN FOI DE PROFISSIONAL, É ISSO QUE QUEREMOS FAZER AQUI, CONTAMOS COM VOCÊS SERIA UMA BOA PARCERIA.
COMPANEIRO FORTE ABRAÇO
SÉRGIO IÓRIO
maio 30th, 2010 at 20:42
Sérgio,
O que posso fazer é tentar fazer o contato de vocês com gente que trabalha com armadilhas fotográficas. Eu fotografo. Mas nesse caso o que costumo publicar é produzido por especialistas em monitoramento de fauna, como foi o caso da fotografia da onça parda na Replan. Além disso, desejo sucesso ao Instituto Palmeira Imperial e longa vida aos bichos da Floresta da Tijuca.
Abraço,
Marcos
maio 31st, 2010 at 11:50
BOM DIA MARCOS, TODA AJUDA SERA BEM VINDA O PROJETO NA FLORESTA DA TIJUCA ESTÁ PRONTO, O DIRETOR DO PARQUE BERNARDO ISSA ESTÁ DANDO TOTAL APOIO.
FORTE ABRAÇO
SÉRGIO
julho 16th, 2010 at 9:22
BOM DIA MARCOS ESTOU ESPERANDO AQUELE CONTATO QUE VOCÊ FICOU DE FAZER COM O PESSOAL DA ARMADILHA FOTOGRAFICA.
O PROJETO NA FLORESTA DA TIJUCA ESTÁ ESPERANDO ESTE CONTATO.
FORTE ABRAÇO
SÉRGIO IÓRIO
julho 16th, 2010 at 13:41
Desculpe, mas também custei a encontrar para meu próprio uso a informação. O que estou encomendando para mim, diretamente do fabricante, que não tem representante comercial, é a armadilha fotográfica extramamente maleável e rápida, montada especialmente para Nikon ou Canon numa maleta impermeável da Pelikan. Custa cerca de 450 dólares, dependendo das especificações. O fabricante, Bill Forbes, é afável, responde prontamente os e-mails que recebe dá todas as explicações possíveis, além de oferecer soluções especiais para quem precisar delas. Seu endereço é PhotoTrap@aol.com.
Um abraço,
Marcos