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Receita de um dia mais que perfeito

sex, mar 19, 2010

Iguaçu 2010

Saia da cama com o pé esquerdo. Se possível, pisando nas bolhas que ainda não secaram da última caminhada. A hora passou. O despertador se esqueceu de acordá-lo ou, o que é mais provável, você se esqueceu de ajustá-lo antes de cair na cama, depois de uma longa noitada em companhia do computador. A internet saiu do ar. O trabalho adiantado na véspera vai chegar depois do prazo.

Correr para a cidade não resolve, porque ao ligar o carro se acende no painel aquela luz amarela da gasolina. O posto mais próximo fica a 14 quilômetros. E, ao parar na bomba, evidentemente você descobre que deixou tudo em casa – dinheiro, cartão de crédito e até o cheque guardado como lembrança do tempo em que isso se usava. Sobrou a lábia, para conseguir os litros contados de combustível para a viagem de ida de volta.

Ao todo, contando as gotas do empréstimo, o erro sai por 120 reais, 56 quilômetros extras e quase uma hora perdida. Ou seja, barato. Mas não adianta abater o prejuízo tomando providências há muito tempo empurradas com a barriga, porque o sapato deixado há mais de uma semana para colar a sola não ficou pronto e o sapateiro é um artesão consciencioso, que só vai devolvê-lo quando der por encerrado o expediente da costura à mão.

Para encurtar a conversa, você volta a parque às cinco da tarde. Lá se foi uma quinta-feira que até parecia de outono, com sol forte, ar leve e nuvens de cartão-postal boiando num céu de azul lavado. É tarde demais para pegar uma trilha. Mas as cataratas ficam logo ali. Você cinha fazendo um certo esforço para ignorá-las, porque não se considera um turista qualquer. E elas acabam de pegá-lo de jeito.

Aliás, vão praticamente buscá-lo no estacionamento do Porto Canoas. Dá para ver de longe que o rio Iguaçu está gordo, engolindo pedras e barrancos. Em parte porque choveu forte no domingo passado. Mas também porque o espetáculo natural das cachoeiras é regulado, rio acima, por cinco hidrelétricas, que fecham as comportas nos sábados e domingos, aproveitando a queda no consumo de eletricidade para estocar uns goles d’água, e escancaram os reservatórios nos dias úteis.

Com o Iguaçu tão cheio de si, a Garganta do Diabo cospe cataratas acima uma névoa que, nesse instante, para o lado da Argentina, com o sol já baixando no horizonte, acolchoa a floresta em fumos rosados. É, de longe, a melhor hora do dia para ver os saltos, com a luz batendo de frente, em cheio, no conjunto das quedas. E o momento em que passa um funcionário de uniforme, anunciando que vai partir o último ônibus.

Mas o aviso é só para os turistas. E você, embora esteja ali, na torre do elevador, debruçado sobre o salto Floriano, no ponto mais turístico do roteiro, nem por isso abdica das prerrogativas de não ser confundido com um eles. Em minutos, o mirante se esvazia.

E, se não lhe sobrassem uns laivos de humildade da difícil negociação com o frentista no posto de gasolina e da aula de brio profissional que lhe deu o sapateiro horas antes, poderia pensar que aquilo tudo – da engenharia cósmica aos derrames de basalto ocorridos na noite do tempo, das tempestades que vieram fechar o verão ao balé das comportas nas usinas do Iguaçu – está se ensaiando há milhões de anos esse encontro exclusivo com você.

Ou, vá lá, com você, com os bandos de papagaios e o governo Lula. E, o que é melhor, sua velha Canon 5D, que acaba de voltar do conserto, está a postos, em cima do tripé. Você sabe que jamais conseguirá fotografar o que está sentindo. Mas poderá, pelo menos, fotografar o que nem todo turista vê – como o momento exato em que a água barrenta do Iguaçu parece feita de propósito para a luz avermelhada que vem da borda do cânion, para os vórtices iluminados de cachoeiras sombrias, para pedras do leito que os olhos a essa altura confundem com montanhas saindo das nuvens.

Cada mudança dura minutos, e tem que ser fixada pela câmera em segundos. A terra toda à sua volta treme e se move. Mas a máquina deve permanecer imóvel, resguardada de toda trepidação pela espelho travado, o disparador de cabo acionado por movimentos muito lentos, quem sabe com a respiração suspensa. Lá fora a luz cai depressa. Lá dentro ela tem que aumentar rapidamente.

Adicione a essa receita uma boa dose de adrenalina necessária a traduzir a pressa universal em gestos lentos e, quando escurece, você teve um longo dia de meia hora e meia dúzia de fotografias. Provavelmente elas nunca lhe servirão para nada. A não ser para guardar aquela tarde de quinta-feira para sempre.

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