O futuro vem a Foz e deixa lembranças
sex, mar 19, 2010
Bastou uma semana em Foz do Iguaçu para os alunos da Universidade Viajante aprenderem que o Brasil não é Birkenfeld, “o único campus do mundo com emissão zero”, como enfatizou o professor Peter Heck, ao presentar a turma.
Ela veio da Alemanha para ensinar, “com as mãos na massa”, o que aprende diariamente nessa base experimental da universidade de Ciências Aplicadas de Trier, onde se aproveita toda a água da chuva, recicla-se a dos banheiros e a energia vem exclusivamente do sol ou dos gases liberados pela decomposição da matéria orgânica.
Nada, em Birkenfeld, vem de fora, porque a mola mestra de seus programas de ensino é espremer os recursos locais até a última gota, transformando-os em trampolim autônomo para a criação de riqueza. Ao contrário de Foz do Iguaçu, por exemplo, que gasta 4,5 milhões de reais pior ano só com suas lâmpadas da iluminação pública, nada tira, a não ser mau cheiro, das 30 mil toneladas de resíduos do consumo doméstico e bota fora inclusive as 1.500 toneladas de galhos e folhas deixadas pela poda das árvores nas ruas.
Funcionaria melhor e mais barato – informou a seus administradores a garotada – se, em vez de torrar o dinheiro da prefeitura com as contas de eletricidade e combustível, tocasse sua frota e acendesse seus postes com a energia que perde no aterro sanitário, no esgoto e mesmo nas sobras dos matadouros. Esses são só exemplos de dados revelados pela garotada a uma platéia em que quase todos os presentes tinham idade para ser seus pais.
“Em Birkenfeld, posso garantir que estamos vivendo no futuro, e vivendo muito bem”, explicou Heck. E esse futuro está ao alcance de sociedades mais atrasadas ou mais pobres, pela cartilha do IfAS, um instituto incubado no campus para disseminar a boa gestão econômica do ciclo de vida dos materiais. É um produto de exportação, oferecido a empresas e governos da Suécia à China. Já levou a Universidade Viajante ao Marrocos, por exemplo.
Trazida ao Brasil em convênio com o curso Positivo, de Curitiba, “Foz do Iguaçu 2010” foi seu 11º programa internacional. Trinta estudantes de economia, computação ou engenharia aboletaram-se nos beliches do alojamento para pesquisadores do parque nacional, uma construção de madeira com três banheiros. E tiveram o que Heck classificou como “uma semana de trabalhos intensivos”.
Mesmo sem ir muito longe. Constataram por exemplo que, circulando entre o portão do parque e as cataratas, os nove ônibus de dois andares da concessionária de serviços turísticos queimam no parque por ano 200 mil litros de diesel. E lhe receitaram uma estrita dieta vegetariana, enchendo os tanques com óleo extraído de plantações orgânicas de girassol e granola, comprados de agricultores da vizinhança. Propositalmente instalada na frente da do parque, a usina destilaria o biodiesel com processos limpos. E a unidade ganharia, além de menos fumaça poluente, a chance de criar o cinturão agrícola de amortecimento que há 71 anos lhe falta.
Ao Centro de Visitantes, onde os turistas, ao entrar, tomam contato em primeiro lugar com nove condicionadores de ar e 600 lâmpadas convencionais, eles recomendaram luminárias de leds e um refrigeração por placas fotovoltáicas. Como não batem prego sem estopa, calcularam que as contas de eletricidade, 75% menos, cobririam em o investimento em sensatez ambiental.
Dito isso, eles deixaram claro que se deram bem aqui. Foram visitados nos fundos do alojamento por duas onças pintadas, coisa que muito biólogo brasileiro passa a vida tentando ver, sem êxito. Dançaram os ritmos locais em palco de churrascaria. E só partiram na quarta-feira, quatro suas depois de apresentar seu relatório final no autorório do parque nacional.
Deixaram para trás uma pilha de papéis e outros resíduos, espalhada pelo chão, sob as lixeiras plásticas que, exemplo de baixa tecnologia bem aproveitada – ou seja, de bom uso de recursos locais – resolveram há tempos na unidade de conservação, com uma simples trave de madeira, o problema dos quatis e outros bichos que viciam nos desperdícios do consumo humano.
Quem fuçou o monturo no dia seguinte encontrou muitos blocos de anotação em branco e, ainda em seus envelopes, as fotografias do grupo diante das cataratas, como a que ilustra esta história. Elas lhes foram entregues pelos anfitriões na solenidade de encerramento como souvenir.
Tags: Conservação, Lixo, Parque Nacional






março 21st, 2010 at 12:57
http://mikamienvironmentalblog.blogspot.com/2010/03/insanidade-ambiental-environmental_6636.html
BONITA “LEMBRANÇA” MARCOS!
(“tá” precisando de um “mateiro” aí? sou bom no meio do mato, até encontrar uma “pintada”!!!!)
março 22nd, 2010 at 11:06
Obrigado pelo comentário, Mikami. Mas. em matéria de onça pintada, ou pelo menos dessas onças pintadas, o parque está desmoralizando mateiros. Todo mundo vê os bichos. Outro dia, foi a gerente da loja da H. Stern no Porto Canoas. E pesquisadores da campo tarimbados, como Alexandre Vogiiotti, residindo numa das casas mais isoladas da unidade de conservação da unidade de conservação parque e biólogo do projeto Carnívoros do Parque, por mais que se esforcem, ainda não toparam com os bichos. Se vier, venha promovido que a hora é dos amadores. Grande abraço, Marcos
março 22nd, 2010 at 12:39
Boa Tarde, Marcos
Pode deixar, que vou “disfarçado” de”homem civilizado da
Capital” – me aguarde!
março 22nd, 2010 at 12:52
A julgar pelas mais recentes aparições das onças, isso aumentaria mesmo as suaas chances. Boa sorte.
abril 7th, 2010 at 19:11
Extair o óleo de girassol, já se tem conhecimento, mas eu gostaria de saber como extrair o óleo da “granola”, citado no texto acima.
abril 8th, 2010 at 15:46
Os autores da sugestão, ao apresentar seu projeto no auditório do parque nacional do Iguaçu, fizeram uma descrição resumida dessa técnica, discorrendo inclusive sobre o tipo de prensa que se pode usar na extração e os processos químicos capazes de acelerar e baratear a transformação do óleo em combustível de origem vegetal. Mas esses e outros processos tranbordam tantos os limites da apresentação como da reportagem. Seria melhor para isso entrar em contado com a prefeitura de Foz do Iguaçu, com a administração do parque, com a universidade Objetivo ou com próprio Ifas. Todos têm endereços fáceis de achar na internet.