Uma casa com duas onças no fundo
seg, mar 15, 2010
Fazia um calor emoliente, cozinhando em fogo lento o temporal que desabaria no fim de semana, quando um chamado urgente despertou na sexta-feira o telefone do biólogo Apolônio Rodrigues. Vinha da base do Poço Preto, uma residência funcional desabitada que se repovoou este ano, mais movimentada do que nunca, como alojamento para os estudantes, alunos e pesquisadores que o Parque Nacional do Iguaçu atualmente hospeda para seus cursos.
No caso, encerrava-se naquela tarde a árdua semana de trabalhos de campo para uma turma vinda Alemanha, do Campus Ambiental Birkenfeld, da Universidade de Trier, para aprender e ensinar o que a cidade de Foz do Iguaçu, o parque e seus vizinhos do Sudoeste paranaense podem fazer em favor de uma vida mais próspera e mais limpa, usando o que botam fora como lixo e esgoto.
Eram estudantes universitários. E cumpriram em poucos dias uma tarefa que as administrações públicas no Brasil adiam indefinidamente. À noite, apresentariam suas conclusões no auditório do parque. Estavam, a essa altura, aquertelados na base, batucando em notebooks seus projetos. E acostumados, depois de seis dias, a consultar Apolônio Rodrigues sobre todas as dúvidas que lhes surgiam pelo caminho.
Mas aquele telefonema pegou de surpresa o diretor de Conservação e Manejo. Estava na linha um coordenador da universidade, contando que havia nos fundos da casa dois bichos que, se não eram, tinham tudo para ser onças pintadas. E pareciam dispostos a ficar por ali.
Apolônio pegou a máquina fotográfica, pulou no carro e correu para o alojamento. Ele dá a impressão de que está sempre com pressa. Mas o calor daquele princípio de tarde havia imobilizado até as folhas na floresta. E a cena que encontraria na base de pesquisas do Poço Preto não dava o menor sinal de que estivesse disposta a se desmanchar espontaneamente, de uma hora para a outra. E isso tornava o espetáculo ainda mais inverossímil.
Eram onças mesmo, constatou Apolônio. Dois filhotes encorpados, beirando o ponto de largar a mãe e cuidar sozinhos das próprias vidas. Provavelmente representavam uma das famílias que, há semanas, têm aparecido nas encruzilhadas da floresta com o asfalto, na área mais frequentada do parque. Talvez e mesma que posou para a posteridade numa armadilha fotográfica armada na estrada de terra das Bananeiras, em pleno circuito turístico do Macuco Safari.
Na sexta-feira, a dupla repousava languidamente nas ruínas de um canil onde, no começo da década de 1990, a “onça do Peter” entrou à noite para matar seu cachorro. O que é outra história. Naquela madrugada, encontraram-se frente à frente no terreiro limpo, a poucos passos de distância, uma fera especialmente intratável e o biólogo Peter Crawshaw, dono do maior currículo brasileiro em Pantera onca e professor de etiqueta, quando se tratar de lidar com ela em pé de igualdade.
O espetáculo que Apolônio flagrou dessa vez era estranhamente plácido. Lembrava um idílio pastoral nas melhores tradições do teatro germânico. Ex-assistente de Crawshaw, ele não estava preparado para encontrar, de um lado, moças e rapazes espalhados pelo chão de uma minúscula varanda, retocando seus relatórios sem tirar os olhos do canil meio demolido, sem porta nem tela, separado do mato por vinte centímetros de tijolos. Ali, a oito metros de distância, as duas onças ocupavam as ruínas sem se importar com a platéia.
Apolônio foi direto ao último ato. Tocou os alunos porta adentro. Numa das salas, encontrou um aluno de engenharia às voltas com os gráficos de seu computador, de costas para a janela aberta. Atrás dele, a um pulo do estudante, as onças. Explicou aos visitantes que onça não é brinquedo. Pode matar uma pessoa com um tapa. Sem contar que a mãe daqueles filhotes provavelmente poderia andar por perto. E reprovar a seu modo tamanha promiscuidade.
Fez tudo como manda o figurino de seu cargo. Sem deixar de ser Apolônio. O diretor de Conservação e Manejo fotografou e filmou os bichos no canil. E em seguida despachou-os de volta à floresta. Mas só à custa de muito berro. No dia seguinte, o guia Wanderlei Vargas encontrou a dupla a 500 metros da casa, junto ao asfalto que atravessa a área visitável do parque. Tinham matado um tapiti. Um deles devorava o coelho silvestre. O outro simplesmente balançava a cauda, “como gato, sabe?”. Eram seis e pouco da manhã. O tempo tinha virado. Começava a se armar sobre o parque o temporal que cairia de tarde. Ninguém, fora Wanderlei, estava ali naquela hora para aproveitar as onças.
Tags: Biologia, Carnívoros, Onças, Parque Nacional do Iguaçu








março 17th, 2010 at 10:37
Sou “amiga da Onça”, lí esta materia, ví as fotos e fiquei emocionada, pois são raras num país que não respeita nem preserva nada da Natureza. Estou orando a Deus por estes seres incríveis, para que possam ter seu lugar no nosso mundo e serem admirados desta forma tão maravilhosa.
Parabéns
março 17th, 2010 at 13:16
Eu também, Marta. Eu também. O pior é ter as onças dando sopa aqui tão perto e não saber ainda se isso é o começo de um repovoamento ou o começo do fim. Mas prometo ficar de olho nas pesquisas que tentam responder essas perguntas. E publicá-las passo a passo. Um abraço, Marcos
março 22nd, 2010 at 12:57
eu daria tudo para estar lá e mais ainda para que minha filha e a geração possam ter esta incomparável experiência. Impossível não mudar a forma de ver e viver a vida.
obrigada pela história e pelas lindas fotos.
abraço
Malu
março 23rd, 2010 at 15:10
Se essas onças soubessem que vocês queriam vê-las, iriam a Curitiba só para isso. Era o mínimo que poderiam fazer em troca do que a Fundação já fez por elas, Malu. O problema é que as onças no Brasil só podem sobreviver confinadas. E olhe lá. Um beijo, Marcos
março 26th, 2010 at 20:50
Olha só… que coisa mais maravilhosa. Emocionadíssima aqui.
Acompanho a anos, algumas vezes de longe e outras de perto, a história das onças do Iguaçu, e é sensacional ver essas imagens hoje. Dá esperança. Reacende na gente aquela fé de que ainda é possível, de que podemos conservar a vida e dexá-la seguir seu curso, independente da nossa interferência.
Espero, do fundo do coração, que seja um recomeço pras nossas bichanas no Parque. Elas, claro que merecem, mas os beneficiários, sem dúvida, somos nós. Ter a oportunidade de acompanhar uma raridade dessas não tem preço.
Obrigada por compartilhar Marcos.
Abraço,
Angela
PS.: O que é a foto da onça atrás do tronco, só com as orelhas de fora? Sem palavras…
março 29th, 2010 at 10:38
Angela,
Já que é assim, vou lhe contar em primeira mão o que aconteceu ontem à noite com lua cheia no parque. Saímos para fotografá-la, eu e minha mulher, que aliás também é Angela. Ficamos, a maior parte do tempo, sozinhos, nos vários pontos em que a trilha se debruça sobre o Iguaçu. Às dez e tanto, o assunto parecia esgotado e as câmeras começavam a gotejar, de tanta umidade. Era hora de voltar para casa. Mas paramos, só por curiosidade, no mirante que fica diante do Hotel das Cataratas. Ali – inclusive por causa do excesso de luz artificial e de hóspedes olhando as quedas – não havia o que fazer. Voltamos minutos depois ao carro no estacionamento. Ou seja, naquele ponto onde, durante o dia, param dezenas, talvez centenas de ônibus e vans, descarregando turistas.
Ao ligar o motor e dar marcha a ré, os faróis bateram de relance num animal de grande porte, no mato ralo do acostamento. Pensamos que fosse mais um veado mateiro. Seria o terceiro daquela noite, um deles tão senhor de seu território no meio da BR-469 que nos obrigara a parar, abaixar as luzes e esperar que ele fosse embora, no seu próprio tempo. Mas foi só mirar os fachos no vulto para ver logo que não se tratava de mais um veado. Parecia, isso sim, uma onça parda. Era mais que isso. De perto, revelou-se uma pintada, de bom porte, aparentemente adulta, tranqüila e magnífica, postada diante dos jardins defronte ao Hotel das Cataratas.
E aí vem o ponto que nos leva de volta a seu comentário: diante do carro virado para ela, a onça, a princípio, não fugiu. Simplesmente agachou-se no meio da folhagem, com os olhos e as orelhas de fora – reproduzindo aquela cena que a impressionou na mureta do canil desativado do Poço Preto.
Moral da história: ninguém sabe ainda dizer o que tanta essa avistada ultimamente quer dizer. Oficialmente, elas são poucas no parque. Parece em retirada. Ou seja, em extinção. As armadilhas fotográficas montadas nas áreas intangíveis do Iguaçu não têm registrado sua presença. Por poucas que sejam, elas parecem estar se concentrando no ponto mais batido, turístico e populoso da unidade de conservação. Como se soubessem que pelo menos ali não se caça. Tudo isso pode ser um bom sinal. Ou um mau sinal. Dependendo por enquanto do onto de vista e, mais tarde, do resultado das pesquisas que o projeto Carnívoros do Iguaçu está começando agora. Por enquanto, é apenas uma experiência espantosa. Mas espantosa até não poder mais.
Abraço, Marcos