O futuro não será uma eterna era Lula
qua, mar 10, 2010
Num debate que faz tempo a estridência enrouqueceu, a voz do agrônomo Eneas Salati soa como uma pausa de orquestra em aberturas sinfônicas. Chama atenção pelo silêncio. Ele tem algo a declarar sobre os efeitos da desordem climática numa política energética que joga todas as fichas nas hidrelétricas. Pede para isso “alguns minutos”.
E trata de resumir com o mínimo de retórica as “Estimativas da Oferta de Recursos Hídricos no Brasil em Cenários Futuros de Clima 2015-2100”, cujo título já é um sinal de que não veio ao mundo para fazer barulho. O documento de 76 páginas é, em si, um extrato de prognósticos internacionais e dados dez especialistas, aninhados em redes de computadores, levaram mais de um ano mastigando.
Concentrado em gráficos à primeira vista cabalísticos e traduzido no tom pausado e meio inaudível de Salati, leva-se algum tempo para notar que o relatório é bombástico. Avisa que está passando a hora de se pensar a sério em alternativas energéticas, “tais como solar, eólica, das marés e biomassa”.
Ao contrário do que prometem as políticas vigentes, as águas tendem a rolar daqui ao fim do século de um jeito que, como não disse ainda o presidente Lula, mas no caso poderia dizer com toda a razão, nunca aconteceu antes na história do Brasil. E isso altera em doses variadas e contraditórias as 12 grandes bacias hidrográficas que oficialmente dividem o território brasileiro.
No Tocantins, o rio dos grandes investimentos hidrelétricos, a vazão ameaça chegar ao ano 2.100 com a metade da média que o rio manteve entre as décadas de 1960 e 1990. Na Amazônia, a perda vai de 30 e 40%. No São Francisco, o rio da transposição corre o risco de virar um terço do atual em 2040.
Isso significa que a bacia do São Francisco, “onde se concentra grande parte da fruticultura de exportação nacional”, tem chances de passar de lugar “seco e sub-úmido com pouco ou nenhum excesso de água para semi-árido”. O sertão, pelo visto, não vai mesmo virar mar. Mas o mar do Atlântico Leste ameaçar lamber o sertão, à medida que ele se aproximar da costa.
“São cenários”, adverte Salati. Ou seja, hipóteses formuladas com rigor científico em cima de informações e métodos disponíveis. Lidam principalmere com previsões sobre os efeitos regionais do clima no regime de chuvas e na perda de água por evaporação. Podem mudar, se novos dados rolarem na mesa. O resto, só com horóscopo ou jogo de búzios.
Por enquanto, o que se vê é um Brasil com menos sombra e água fresca. Num mundo mais quente, a evaporação devolverá ao céu uma percentagem cada vez maior das chuvas que ainda caírem. No São Francisco, essa perda está orçada em 83%. Na do Paraguai, que corta o Pantanal Matogrossense, 84%. Haja mata ciliar para segurar esses rios. Mas não é nisso que o país está investindo.
O relatório é pontuado por ressalvas. Recomenda, na conclusão, mais e melhores estudos do problema daqui para a frente. Adverte que “o nível de incerteza ainda é grande em relação ao que de fato possa acontecer”.
Salati está longe de ser candidato ao estrelato em manchetes catastrofistas. Pessoalmente, acredita que as previsões científicas servem antes de mais nada para evitar que as incertezas aconteçam.
Tags: Energia, Mudança Climática






março 10th, 2010 at 13:50
BOA TARDE,
ONDE POSSO TER MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O ARTIGO “ESTIMATIVA DA OFERTA DE RECURSOS HÍDRICOS NO BRASIL EM CENARIO FUTUROS DE CLIME 2015-2000″
AGUARDO
OBRIGADA
BRUNA MARGONAR
março 10th, 2010 at 20:26
Bruna,
Sugiro que tente junto à Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, que publicou o relatório. Um abraço, Marcos
março 19th, 2010 at 14:34
Marcos boa tarde
Acompanho suas publicacoes no Estadao e tambem com enorme desprazer a politica energetica do governo Lula. Gostaria de lhe comunicar sobre a construcao da UHE São Domingos em area de cerrado e de extrema fragilidade ambiental em MS, batalha perdida apos anos de contestacao tecnica pela equipe da Fda Sao Bento.(atingida)
Caso tenham interesse em conhecer, coord UTM 22 K 272077/7780376. A casa e sua
Grande abraco
Ricardo
março 19th, 2010 at 17:14
Obrigado, Ricardo. Cuidado que eu aceito o convite. Abraço, Marcos
abril 4th, 2010 at 21:26
Boa Noite, Marcos
espero que a sua Páscoa tenha sido das mais felizes! Ocupados que estamos esquecemos que hoje era Páscoa, só percebemos quando no final da tarde abrimos os nossos e-mails!
e neste final da tarde também aproveitamos para postar a edição de domingo que foi inspirada nesta sua postagem – se puder, faça-nos uma visita!
http://mikamienvironmentalblog.blogspot.com/2010_04_01_archive.html
com um grande abraço, historiador de Piauí que tem a felicidade morar aí no meio das “pintadas” e das cachoeiras! ainda chego lá!
abril 4th, 2010 at 21:50
Feliz Páscoa paa você também, Adilson. E mais atrasado ainda. Um abraço,
Marcos
maio 7th, 2010 at 9:38
Olá Marcos,
Quando teremos um ensaio seu sobre a atual Lei da Pesca Predatória no Pantanal? A Lei 3.886, foi promulgada em 28 de abril de 2010 e a repercussão não esta nada favorável ao Governo do Estado. Conseguimos sensibilizar a OAB/MS quanto ao nível de incertezas e sua eficácia, e o resultado será uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, pois fere a constituição estadual e federal, priorizando o interesse econômico sob o ambiental (segundo a própria OAB). Precisamos colocar esta discussão na mídia nacional. Será que podemos contar com a sua ajuda?
Um abraço fraterno
Thomaz Lipparelli
maio 7th, 2010 at 23:49
Thomaz,
Ih! Vou tratar de me informar o mais depressa possível sobre o assunto. Ando com os olhos pregados demais no Iguaçu para exergar sozinho o que acontece um pouco mais ao norte.
Abração,
Marcos