Como aprendemos a andar no mato
qua, jan 20, 2010
Caminhar no mato parece a coisa mais natural do mundo, pelo menos desde que nossos ancestrais desceram das árvores e adotaram esta postura instável, que nos condena a problemas de coluna e, em troca, libera os membros superiores para tarefas mais elevadas – como estapear mosquistos ou empunhar o telefone celular para fotografar cada passo da jornada.
Mas, apesar dessa aparente naturalidade, andar no mato é uma invenção recente, que talvez por isso no Brasil ainda depende de empresas especializadas e guias meio fanáticos, para apontar aos desavisados o caminho das trilhas como se elas fossem a estrada de Damasco. Basta um dia de enchente humana num parque nacional para ver o bom serviço que eles prestam. Sem seu fervor quase evangélico, as picadas estariam às moscas. Ligando geralmente o nada a lugar nenhum, elas dependem, para ter algum tráfego, da “caminhada romântica”, moda que, segundo o historiador Simon Schama, nasceu no século XIX e tem autor conhecido.
Chamava-se Claude François Denecourt. Antes dele, só se ia ao mato para derrubar árvore, matar bicho ou fugir da cadeia. Ele mudou isso radicalmente. Denecourt foi retratato pelo literato Theophile Gauthier como “um homenzinho vestido com simplicidade, portanto um chapelão e óculos, segurando o galho de azevinho que lhe serve de bastão para subir a encosta”. Ninguém se iluda. Seu despojamento era grife, sua fantasia de “Le Sylvain”, o gênio da floresta. A Nike, a Columbia, a Patagonia e outras etiquetas do ramo só viriam aprimorar o figurino dos caminhantes muitas décadas depois.
Denecourt foi, basicamente, um comerciante de conhaque em Fontainebleau, nos arredores de Paris. Ferido nas guerras napoleônicas, coxeava. Embora manco, era um andarilho infatigável, treinado em marchar por anos a fio de um lado para outro na Europa, arrastado com as campanhas do imperador como soldado do 88º Batalhão de Infantaria Ligeira. Ao dar baixa, conheceu a floresta de Fontainebleau quando ela caía aos pedaços. Fora uma reserva de caça real, e passou a ser tratada como terra de ninguém na França revolucionária – mais ou menos como por aqui, à falta de governo, fazem os grileiros da Amazônia.
Desmatada, defaunada e invadida, Fontainebleau sobreviveu aos tropicões da história francesa porque Denecourt promoveu sua reciclagem como lugar de passeio. Ele abriu pessoalmente 300 quilômetros de picadas na floresta. Batizou itinerários, árvores e pântanos. Transformou em refúgios rústicos as cavernas que antes tinham fama de abrigar bandidos.
Sua influência foi, literalmente, incomensurável. Chegou até a concepção original do Central Park em Nova York ou, para ficar mais perto, à Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Aliás, todo jardim do paisagista Auguste François Glaziou, que reinou na corte de D. Pedro II, não deixava de ser uma espécie de miniatura da Fontainebleau de Denecourt.
Fontainebleau, onde Deneccourt é nome de rua e tem estátua en praça pública, continua cercada por 24 mil hectares de velhos bosques, preservados desde que, no rastro de Denecourt, foram parar lá, de carruagem, os grã-finos do Império. Com eles vieram os pintores, toda uma geração pré-impressionista que arranchou no vilarejo de Barbizon, na beira do bosque, e cevou ali uma escola de paisagismo e um culto da natureza que serviu, nos Estados Unidos, para inspirar a decretação dos primeiros parques nacionais.
Em resumo, os guias de ecoturismo são apóstolos de Denecourt mesmo que não saibam. Como ele, acreditam que caminhar no mato não é coisa que se nasça sabendo. É algo que se aprende. Como todo passo civilizatório.







janeiro 20th, 2010 at 16:50
Que interessante saber disso. Eu sou uma amante caminhante de bosques e passeios.
janeiro 20th, 2010 at 19:14
Parabéns pelo artigo. Além do aspecto histórico é altamente incentivador da prática da caminhada e recuperação das nossas parcas reservas florestais.
janeiro 21st, 2010 at 12:58
Um retratinho do Denecourt deveria estar na parede de todos os clubes de excursionistas no mundo.
janeiro 21st, 2010 at 13:02
Taina, se o assunto lhe interessou, sugiro que dê uma olhada no livro Paisagem de Memória, de Simon Schama, editado no Brasil pela Companhia das Letras. Foi lá que ouvi falar pela primeira vez do Denecourt. Depois, acabei comprando in loco outros livros sobre ele. Mas não chegam aos pés do simples capítulo que ele ocupano Schama. Abração.
janeiro 22nd, 2010 at 12:01
Interessante saber disso e que bela dica do livro.
Não dá pra sair caminhando pelo mato, sem saber por onde pisa.
fevereiro 6th, 2010 at 11:09
Não fosse minhas caminhadas pelo mato, não teria como justificar minhas lembranças das mais belas borboletas que até o momento tive a oportunidade de ver e poder fotografar. Uma caminhada pelo mato ou mata, orlas ou trilhas abertas será sempre uma grande aventura dependendo tão somente daquilo que ser quer dela. E com a permissão de Marcos Sá Corrêa, deixo o resultado de algumas caminhadas pelo mato, como exemplo http://www.panoramio.com/user/1312311/tags/Beautiful%20Butterflies. Obrigado.
fevereiro 6th, 2010 at 11:18
Quanto a caminhadas no mato, ainda, é claro que uma caminhada pode nos trazer surpresas, também. Há que se ter muito cuidado e olha só o que se banhava em sol numa trilha, http://www.panoramio.com/user/1312311/tags/Cobras, muito obrigado.
fevereiro 7th, 2010 at 13:06
Aluísio, gostei também de ver as fotos da jararaca. Aqui se tropeça nelas às vezes, e também em caninanas, casvavéis, corais… Estou juntando uma coleção de fotos das cobras do Iguaçu. Mas é preciso muita atenção para encontrá-las. São quase sempre esquivas. Quanto aos riscos, aprendi outro dia com o Wanderlei, um guia que freqüentemente encontro na trilha aqui perto, que ao encontrar cascavéis perto do posto onde trabalha ele pega e solta em lugares mais ermos. Para quê? Para livrar as cobras do risco de se encontrar com gente. É mais uma questão de ponto de vista. Um abraço, Marcos
fevereiro 7th, 2010 at 13:09
Gostei de suas fotos de borboletas, Aluísio. Mande mais, sempre que tiver. Quanto mais borboletas no mundo, melhor. Um abraço, Marcos
fevereiro 14th, 2010 at 17:26
Obrigado pelas respostas aos meus comentário. Pensar que as cobras não pisam em ninguém, somente se defendem. Eu até que gostaria de removê-las para locais diferentes e seguros para elas, porém não possuo equipamento adequado. Por enquanto deixo-as seguirem seus caminhos ficando somente com as fotos.