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No caminho do Poço Preto

seg, jan 18, 2010

Iguaçu 2010

Será que vai dar para ver alguma coisa?” A pergunta, deixada pasra trás numa entonação meio infantil por um grupo que zarpava para a manhã de Ecoaventura na trilha do Poço Preto, acabou ficando no ar. O grupo foi em frente. E a resposta do guia, se lhe ocorreu dizer alguma coisa, deve ter sumido na distância, que crescia a cada passo.

Foi pena, porque naquele momento daria para apontar para qualquer lado e se encontrariam centenas de respostas para ela – em forma de aranhas Argiopidae, por exemplo. Elas cobrem nossas cabeças com um dossel suplementar de teias orbitais, formando entre as árvores uma rede de fios dourados, naquela hora em que o sol atravessava de viés a estrada ainda sombria. Havia também cogumelos em profusão, das mais variadas formas e feitios, brotando de troncos com a mesma opulência de troncos vivos ou mortos. E pássaros inumeráveis, de tudo quanto é cor, voz e tamanho, chamando a atenção ao mesmo tempo para sua presença esquiva no meio da folhagem e também para a nossa presença indébita em seus territórios.

Mas a pergunta provavelmente se referia à esperança de ver coisas mais raras – ou mesmo ecoaventurosas. Algo mais trepidante que o vai-e-vem das cutias, por exemplo. Elas atravessam sem parar a velha estrada de terra roxa, como encarnações silvestres dos mais escolados vira-latas urbanos. Param na borda da pista, avaliam criteriosamente o movimento, como se estudassem o trânsito. Tudo isso naquela pose olímpica de quem está com os músculos armados, como um atleta imóvel no instante da largada. De repente, com os riscos da travessia aparentemente avaliados, elas dispararm rumo ao outro lado.

Ao contrário dos quatis, que escalam latas de lixo e sobem em mesas, atrás de comida humana, parecendo bandos de meninos de rua em volta de  restaurantesao ar livre nas grandes cidades da capital, as cutias do Parque Nacional do Iguaçu ainda fazem questão de mostrar que não abdicaram inteiramente à vida selvagem, apesar de todas as tentações em contrário.

Se era algo ainda mais substancial que os ecoaventureiros queriam ver, a coisa em si acabava de cruzar seu caminho, ou vice-versa, algumas centenas de metros atrás. Senão em pessoa, pelo menos como uma prova cabal de sua materialidade – deixando na pista um troféu de sua última caçada, reduzido a um bolo cinzento e cheio de pelos cinzentos, em cujos sais as borboletas azuis faziam naquele momento uma verdadeira orgia, a ponto de pousarem umas sobre as outras.

Sim, em bom português, o que a trilha ofereceria ali para se ver era merda fresca. Mas era do tipo que os biólogos ultimamente procuram sem parar, em investigações de campo. Um dos objetos de sua curiosidade é o excremento de grandes e médios felinos, capaz de informar muita coisa sobre a vida que eles levam. E aquele era, sem dúvida, excremento de um carnívoro grande, quem sabe uma suçuarana, dada a rarefação das onças pintadas no parque.

No momento, sabe-se, através de armadilhas fotográficas, da existência de seis onças lá dentro, pelo menos do lado do parque onde fica a administração. O outro ainda está para se conferir. Resta da metade da população que havia há dez anos. Em contraste com as jaguatiricas, que aparecem com freqüencia crescente nos registros fotográficos e podem estar ocupando vagas abertas pelo recuo populacional da Pantera onca.

A trilha do Poço Preto tem tradição nesse ramo. Foi nela que, em 1991, quando fazia o primeiro recenseamento sistemático das onças remanescentes no Parque Nacional do Iguaçu, o biólogo Peter Crawshaw Júnior acabou se envolvendo num luta corporal com uma pintada. Ele encarnava então o projeto Carnívoros do Iguaçu, um inventário das jagartiricas e onças iniciado em abril de 1990.

O Carnívoros de Iguaçu deslanchou em abril de 1990. Como tema da dissertação de doutorado de Crawshaw  pela Universidade da Florida, era financiado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA, pelo World Wildlife Fund – US, pela Helisul Taxi Aéreo Ltda., pelo “Scott Neotropical Fund” do Lincoln Park Zoo e pela Ilha do Sol Turismo.  Seu objetivo, conta Crawshaw, ” era comparar a ecologia de dois felinos de hábitos similares, mas de tamanhos diferentes, a jaguatirica e a onça-pintada”. E naquele mesmo ano se estenderia ao parque nacional del Iguazu, no lado argentino, onde a bióloga residente Silvana Montanelli coletava dados  para o seu doutorado pela Universidade de Buenos Aires.

Até dezembro de 1994, segundo Crawshaw, “foram capturadas 21 jaguatiricas e 7 onças-pintadas, que foram aparelhadas com rádio-colares e monitoradas através da rádio-telemetria. Além desses animais, outros 21 carnívoros foram também capturados, incluindo: 6 quatis, 7 cachorros-do-mato, 2 jaguarundis, 1 gato-maracajá, 1 puma, 2 iraras, e 1 gato-do-mato-pequeno. A maior parte deles foi também aparelhada com rádio-transmissores.  Além das informações pioneiras sobre a ecologia e conservação dessas espécies em ambiente de Mata Atlântica, o projeto foi importante também pelo número de estudantes e profissionais que foram treinados em metodologias sofisticadas à época, como a rádio-telemetria e armadilhas-fotográficas, então ainda no início, no Brasil”.

Depois de terminar com tantos créditos, a experiência teve um saldo desalentador. A maioria das onças identificadas no parque por essa iniciativa pioneira morreria ao longo da década na mira de caçadores. Interrompido por mais de 10 anos, o trabalho recomeçou agora, em parte como desagravo ao atropelamento de uma pintada em 2009 na BR-469, a rodovia federal que leva às cachoeiras.


A bicha caíra numa de suas armadilhas durante a madrugada. De manhã cedo – ou “às sete e meia de 31 de julho”, como ele costuma precisar, com dia, mes e hora, tantos anos depois – Crawshaw foi examiná-la em sua jaula de madeira. Ao chegar, a fera tentou avançar em sua direção. Sinal de que não iria ser fácil trabalhar com ela. Era parruda. E nervosa. Estava prenhe. E só adormeceu com o dobro da dose de anestésico recomendada para um animal de seu porte. Tinha os maiores caninos que ele mediu em sua longa carreira de especialista brasileiro em grandes felinos.

Duplamente anestesiada, a onça passou pela revisão de praxe, doou sangue à ciência e ganhou em troca um colar de identificação – que seria vital em seus reencontros seguintes com Crawshaw. Terminado a rotina de avaliação, o biólgo ficou por ali, matando o tempo, à espera de que a onça acordasse, como se velasse à cabeceira de um paciente indefeso. Foi quando apareceu na trio um trio de observadores de pássaros. “Um escocês e um casal de americanos”, ele especifica.

Crawshaw morava naquela época num alojamento de pesquisa instalado bem no começo da trilha do Poço Preto, uma estrada rústica de quase nove quilômetros, que desemboca margem direita do rio Iguaçu, junto a uma lagoa natural e diante de um largo remanso, acima das cataratas. O Poço Preto propriamente dito fica dentro do rio, no ponto onde ma falha geológica aumenta drasticamente sua profundidade para 27 metros – ou seja, decuplica-a – tornando mais escuras as águas cor de terra. Mas isso só se percebe em sobrevôos de helicóptero.

Era raro, na época, aparecerem turistas por ali, quando o Poço Preto ainda não se incorporara de pleno direito aos roteiros alternativos do parque nacional, num esforço da administração para espalhar as multidões que as altas temporadas concentram nos 1.200 metros da trilha das cachoeiras, como se percorressem o corredor de um shopping em vésperas de Natal. Ao tropeçarem num espetáculo natural tão mais trepidante que o habitual, os observadores de pássaros passaram a observar o trabalho de Crawshaw.

Estavam no quilômetro dois e meio da estrada, onde a essa altura a onça ainda dormia, fora da jaula. Durante muito tempo, essa estrada foi uma assombração para os técnicos que urdiam planos de manejo para o parque, recomendando a erradição de todas as marcas anteriores de invasão. O caminho do Poço Preto era uma delas, e só teve o futuro assegurado pelo projeto de revitalização que, no fim da década de 1990, designou-o como Zona Primitiva, submetida no passado a “mínima intervenção humana” e daí para a frente encarregou-o de “atrair público mais diversificado, diminuir a pressão atual da visitação sobre as cataratas e melhorar a imagem do parque, oferecendo novas fronteiras de uso público”.

Em outras palavras, aumentar o uso do parque, reduzindo ao mesmo tempo o impacto das multidões apressadas, pisoteando sempre os mesmos percursos diante das cachoeiras. A implantação de trilhas “com infraestrutura de apoio à visitação” nas antigas vias do parque _ além do Poço Preto, entraram nessa receita as estradas do Rio São João, da Linha Martins, da Onça e da Ilha do Cavalo – acabou sendo uma dessas táticas de dispersar os visitantes. Implantou-se como um dos serviços turísiticos terceirizados, que a empresa Macuco Safari opera no Iguaçu.

Em 1991, nada disso existia. E Crawshaw lamenta até hoje não ter enxotado dali, sem maior cerimônia, os observadores de pássaro da área restrita em que estavam. Porque, assim que a onça abriu os olhos, ele viu a inglesa ajoelhar-se diante da fera para fotografá-la. “Eu já tinha dito para meu pessoal que estava lá para não chegar mais perto dela, porque já estava com a pupila dilatada, sintoma de que iria se levantar em poucos instantes”, ele recorda.

Mas o flash chegou primeiro que seu grito de advertência. “Não deu tempo para mais nada”, ele conta. Só de pular entre a onça e a turista. “E ainda bem que, ao se erguer, ela escorregou. Porque a inglesa também, no susto, tropeçou no barro vermelho de Iguaçu e caiu de costas”, conta o biólogo.  A onça ficou de pé, e pegou Crawshaw pela cabeça. As unhas lhe dilareraram o  couro cabeludo. Os ossos de seu polegar racharam entre os dentes do bicho, cujo focinho ele tentava manter o mais longe possível de sua cara.

Mas, para tornar breve uma história que a rigor nunca mais terminou, basta dizer que o corpo-a-corpo custou-lhe um bom tempo de convalescença. Nem por isso Crawshaw parou de lidar com onças – inclusive com aquela mesma do encontrou no Poço Preto. Uma noite apareceu em sua casa, no meio da noite, a matou-lhe o cachorro. Mais tarde, foi recapturada. Crawshaw descobriu então que ela havia perdido sabe-se lá como seus dois formidáveis caninos. “Estava tudo infeccionado”, dia ele. A fera se reduzira a uma predarora de animais domésticos. Habituara-se a rondar casas e hotéis. E, depois de tratada, foi transferida para o zoológico de Sorocaba. Depois, recrutada para uma tentativa de repovoamento do parque de Ilha Solteira, em São Paulo, onde um dia Crawshae foi visitá-la.

Peter Crawshaw morou no Poço Preto quando ecoaventura era substantivo comum e queria dizer outra coisa. Hoje, dá nome a um passeio tranqüilo, com direito fazer parte do percurso em bicicletas de aluguel e, no Iguaçu, embarcar de volta num barco que costeia as ilhas do rio, com direito a ver jacarés nas margens. Tudo sem sair de bordo, aos cuidados de um piloto que parece saber exatamente onde encontrar todos os bichos incluídos no programa.

O Poço Preto só não cumpre é a promessa a promessa de desafogar as cataratas. Mais de dez mil pessoas passaram pelo Parque do Iguaçu no segundo fim-de-semana de 2010, que promete ser um ano de recordes na bilheria. Cem visitantes, no máximo, foram experimentar a trilha. Podem não ter visto o que viram os três observadores de pássaros. Mas no mínimo saíram do Iguaçu sabendo o que todos os outros estão perdendo.

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