E quem resiste a estas cataratas?
sex, jan 15, 2010
Perdeu quem apostou na promessa de que, com a volta do sol, estava na hora das borboletas no Parque Nacional do Iguaçu. A começar pelo autor destas linhas. E da promessa. As borboletas compareceram à festa pontualmente, “tais e tantas”, como disse o escrivão Pero Vaz de Caminha, na primeira tentativa de descrição na natureza brasileira, que chegam a ser difíceis de distinguir, quando se precisa reconhecer uma a uma as espécies que mais interessam, no meio de nuvens coloridas e espalhafatosas.
Bem que ele tentou se enfiar nas trilhas mais solitárias, para fotograr borboletas. Mas ninguém é de ferro. E, apesar de todas as disposições em contrário, acabou voltando à tarde para o caminho de todos os turistas – o circuito das cataratas, que parecem ter crescido em todas as direções, rio abaixo e céu acima, assim que o excesso de chuva abriu alas a um sol espetacular.
Ensolaradas até às oito horas da noite, coroadas pela névoa que a evaporação espalha mata adentro e mais resplandescentes do que nunca depois da hora que os portões do parque se fecham aos visitantes e o parque oferece, de quebra, as prerrogativas da exclusividade a quem continua lá dentro, as cachoeiras têm argumentos de sobra para lembrar que, sem elas, o resto não estaria aqui.
E o resto é muito – uma verdadeira amostra da exuberância original que ficou rara, de madeiras de lei a onças pintadas, de papagaios a palmitos, sem esquecer as borboletas. Mas, quando as cascatas começam a cair em sua cabeça à distância, pingando das copas como poeira de água fresca no calor escorchante, parecendo chuva em céu lavado, aí não tem remédio senão correr para os belveredes que costeiam o cânion do rio Iguaçu.
Neste verão, cerca de cinco mil pessoas por dia andam fazendo exatamente isso. É uma enchente humana, que deve fechar janeiro com mais de 150 mil visitantes passando pela bilheteria da concessionária, que explora o turismo nas Cataratas. Há filas grandes nos pontos dos ônibus gratuitos, que normalmente circulam de 15 em 15 minutos dentro do parque. E agora, com a frota reforçada por veículos de aluguel, os intervalos se encurtaram para cinco minutos.
Tudo indica que vem aí um ano de recorde no Iguaçu, talvez batendo a marca das 1.150 mil pessoas que passaram pelos portões dois anos atrás. Os autores do primeiro plano de panejo do parque, em 1981, já se assustavam com essa maré montante. “O ano de 1971 recebeu 270.754 visitantes, e em 1979 esse número foi de 712.317. O ano de 1962 recebeu 67.172 veículos. E foram 136.775 em 1979”.
Na época, “a quase totalidade dos visitantes chega ao parque para conhecer as cataratas”. Ou seja, eles “permanecem na área somente o tempo necessário para percorrer a trilha, observar a paisagem e tirar fotos. Assim, a permanência mais significativa é no meio do dia”. Isso não mudou muito. Ou melhor, regulamentou-se. O parque funciona para o público das 9 da manhã às cinco da tarde.
“A justificativa desta curta permanência, de acordo com os próprios visitantes, se deve à falta de outras opções de lazer”, concluía o relatório oficial. Desde então, o caminho das cachoeiras se equipou com restaurantes e lanchonetes, lojas, rapel, canoagem, passeios de barco, percursos guias, trilhas para bicicletas – sem falar no museu, que sempre existiu e jamais entrou no programa dos turistas.
A multidão se espreme no horário regulamentar. Mas antes das nove e depois das cinco, nas primeiras horas da manhã, as melhores do dia, quando as quedas ficam rosadas e o sol baixo enche de arco-íris a névoa da Garganta do Diabo, e no fim da tarde, quando no verão ele se põe lá pelas oito e tanto da noite atrás dos saltos do lado argentino, batendo em cheio na margem brasileira, as Cataratas do Iguaçu são o mais longo passeio que se pode fazer sem pressa num quilômetro e pouco de caminhada.









janeiro 22nd, 2010 at 18:52
Caro Marcos,
Quanta poesia e beleza seu olhar claro nos traz!
Emociona sentir essa existência tão concreta, e tão mágica, através de suas palavras e fotos…
Que você continue inspirando e encantando, com sua dedicação!
Admiração e carinho,
Miriam
janeiro 22nd, 2010 at 19:06
Miriam, que coincidência. Estou chegando da trilha, onde estava conversando com um descendente de catarinense e gaúcho que saiu de casa aos 12 anos, brigado com as mãe, levando duas camisas e dinheiro para o ônibus, e fez tudo da vida – vendeu panos de prato na rua, abriu mato, tirou leite, dirigiu trator, morou no Paraguai etc. Hoje trabalha para reflorestar um alqueire e meio na propriedade da família e conhece de ponta a ponta o Parque do Iguaçu. Ou seja, acabo de encontrar uma espécie de Dioclésio. Vim pensando nisso e encontro sua mensagem no computador. Dever ser um sinal de alguma coisa – talvezde que vocês precisam aparecer por aqui. Beijo e abraços, Marcos.
fevereiro 12th, 2010 at 12:23
E muito lindo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!11