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Depois, todo mundo vira adivinho

qua, jan 6, 2010

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Quem pôs os olhos no céu do Rio de Janeiro nesse réveillon viu mais do que fogos de artifício. Viu um raro espetáculo meteorológico.

Meia hora antes da pirotecnia oficial, as nuvens se ergarçaram sobre a cidade. Primeiro, destampando as praias, como se erguessem a cortina para o show da prefeitura. Depois, sobre a Zona Sul, uma lua cheia, que já ia alta, mas ainda não tinha aparecido, deu o ar de sua graça. Na hora certa, até a estátua do Redentor saiu da cerração no topo do Corcovado. À meia-noite em ponto, o Rio estava pronto para a festa.

Tudo nos conformes, como previa o contrato dos poderes públicos municipais com a medium Adelaide Scritori, da Fundação Cacique Cobra Coral – “a luz que ilumina dos fracos e confunde os poderosos”, segundo sua própria definição. Trata-se de uma instituição tipicamente carioca, a Cobra Coral, embora Adelaide Scritori seja paranaense e preste serviços em outras praças, inclusive no exterior. Mas foi no Rio que ela se incorporou à administração local, pelo menos desde que o prefeito César Maia inaugurou em 1993 o primeiro de seus três mandatos debaixo de um temporal que derreteu morros e inmundou bairros na cidade inteira.

Na ocasião, embalado pela campanha que acabara de derrubar o presidente Fernando Collor, o sociólogo Betinho propôs o impeachment do prefeito. E Cesar Maia nunca mais se descuidou do convênio com a fundação, para fins de prevenção meteorológica.

No ano passado, quando o Eduardo Paes tomou posse na prefeitura, o contrato com a Cobra Coral veio à tona como mais uma excentricidade do antecessor, desentranhada de suas contas pelas lupas da troca de comando no município. Mas nesse ponto a mudança durou pouco. O sucessor renovou o acordo com a Cobra Coral em 22 de janeiro. E, em seu réveillon de estréia, a medium Adelaide Scritori veio expressamente de Buenos Aires para encorpar o palanque das autoridades.

Deve-se admitir que ela brilhou na festa, fabricando tempo bom sob medida para os fogos. Dois dias depois, meteorólogos de extração mais científica iriam atestar que ocorrera naquela noite um fenômeno rarom, instalando na hora certa sistema de baixa pressão sobre a cidade e conjurando ventos que viraram as chuvas para o sul. Ou seja, para os lados da cidade de Angra dos Reis e para a Ilha Grande, onde a mansa praia do Bananal, que as notícias do desastre continuam a chamar de “Paraíso”, amanheceu sob 20 metros de lama e pedra.

Aí o réveillon já estava longe, superado por mais de 50 mortes. E nos jornais, em lugar das incertezas meteorológiocas, a catástrofe em Angra dos Reis atravancou os jornais com certezas vindas de todos os lados. Pelo visto, todo mundo sabia que o litoral apelidado pelo marqueting turístico de Costa Verde, revolvido há pelo menos 20 anos pela febre de grilagens que contagiou pobres e ricos, trocou a mata de seus morros quase a prumo pela favelização grimpante e privatizando suas enseadas selvagens por condomínios particulares. Tudo igualitariamente ilegal.

Agora que, mais uma vez, agora com mais eluqüencia, o modelo de ocupação predatória adotado na Costa Verde disse a que veio, não faltaram autoridades para recoconhecer que, carcomido como estava, aquilo lá não poderia dar certo. Geólogos como a secretária estadual de Meio Ambiente Marilene Ramos explicaram que, naquele trecho da Serra do Mar, toda encosta mais íngreme tende um dia a descer rumo ao mar, decompondo-se a rocha íngreme em “solo poroso e instável”. O prefeito de Angra, Tuca Jordão, lembrou-se de  que os desabamentos haviam começado três dias antes do réveillon. Mas, pelo visto, nada se fez para evitar as priores conseqüências, em nome de não assustar os turistas no auge da temporada.

O cacique Cunhambebe, que comia gente, mas não roía morros

O cacique Cunhambebe, do tempo em que na Costa Verde comia-se gente, mas não se engolia praia nem roía morro.

E até o governador Sergio Cabral, quando deu por encerrado seu feriadão de fim de ano em Mangaratiba – ou seja, loogo ali ao lado – declarou, sobre o fato consumado, que não se “pode brincar com o solo”, falando de demolir até 1500 construções irregulares. Se o critério for mesmo esse, até a casade praia de Cabral está a perigo, pois se instala num condomínio que ocupou terrenos da União por onde passava a ferrovia EF 479 para Angra dos Reis que, apesarde invadida, ainda consta do Plano Viário Nacional.

Dois anos atrás, a Operação Carta Marcada, um desses furacões moralizadores da administração pública que dão e passam, andou farejando rastros de corrupção política na grilagem que está fazendo o possível para aniquilar o patrimônio natural das oito baías, duas mil praias e 365 ilhas que fizeram a fama de Angra. Da noite para o dia, brotaram na Costa Verde 29 mandados de prisão contra decretários municipais, empreiteiros, funcionários da Fundação Estadual do Meio Ambiente e políticos. Ou seja, toda a quadrilha local que traficava com licenças ambientais feitas sob medida para legalizar qualquer espelunca,

Depois, assim como veio a Carta Marcada sumiu nos trâmites legais. E não se falou mais disso. Mas só pode ser de ensaios como esse que vêm a perfeita coordenação das autoridades, quando se trata de avaliar os estragos das chuvas em Angra. Ninguém precisade mediu para adivinhar o que qualquer um pode enxergar a olho nu, só de trafegar pela Rio-Santos. Quase toda a paisagem às margens da rodovia é um out-door contínuo do que nunca se deveria fazer com um lugar daqueles.

O problema é que há governos para cumprir religiosamente seus contratos com a Fundação Cacique Coral. Mas não para levar a sério as licenças ambientais que eles mesmos produzem e assinam. E as licenças ambientais existem exatamente para prevenir desgraças como a do réveillon.

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6 Comments For This Post

  1. Lais Sonkin Says:

    Marcos, grande artigo. Muito bom.Voce é daqueles colunistas que a gente pode ler a quilo !! e eu sirvo-me a vontade. Mas ja te escrevi mais cedo que nao sei postar teus artigos no facebook.

  2. Marcos Sá Corrêa Says:

    Obrigado, Laís. E também não sei botar nada no Facebook. Estamos em pé de igualdade, portanto. Abraço, Marcos

  3. Miriam Fontenelle Says:

    Marcos,
    li o seu artigo e acho que tem pontos que você poderia desenvolver de forma mais profunda e atualizada. Estou na Vice-Presidência do INEA, trabalhando com o Paulo Schiavo e o Luiz Firmino, presidente desta autarquia. Temos trabalhado com a Operação Cartas Marcadas e paralisado novos licenciamentos ambientais, antes da legitimação do novo decreto que aprovou o plano de manejo do Parque da Ilha Grande, e além do mais está sendo mais uma vez atualizado/adaptado à real situação local e temos ainda em vigência a partir de 1 de fevereiro deste ano o novo decreto de licenciamennto ambiental. Venha tomar um cafezinho conosco e poderemos conversar bastante. Se você ainda não conhece o Presidente e o Vice do INEA vai gostar muito deles e passar a confiar numa política ambiental estadual mais eficiente e justa. Um beijo. Miriam

  4. Marcos Sá Corrêa Says:

    Miriam, folgo em saber que essas providências há tanto tempo adiadas estão em curso. E aceito com o maior prazer seu convite para conhecer o trabalho do INEA. Mas o prazo tem que ser meio longo. Neste momento, estou muito longe de Angra dos Reis e do estado do Rio de Janeiro, vivendo no parque nacional do Iguaçu para entender como a floresta do oeste paranaense escapou do destino implacävel que arrasou todo o resto dessa fronteira em poucas décadas, no século passado. Ou seja, estou atrás da história de sempre, mas em outro lugar. Assim que tiver uma chance, irei ver de perto o que ainda dá para se fazer por Angra, pela Ilha Grande e boa parte da Costa Verde, que já não é mais tão verde assim. Guardo de Angra uma lembrança de infância, quando se subia a pé de Lídice, do outro lado da Bocaina, para ver de cima a cidade, na virada da serra. Era uma baía verde-azul, orlada de telhados antigos e de mata densa por todos os lados. Sei que aquela Angra nunca voltará. Mas nunca me conformei em ver como a cidade, no melhor padrão da voracidade imobiliária de ricos e pobres, roeu tudo o que tinha de melhor à sua volta. Até lá, perdoe a superficialidade de jornalista, que está sempre pulando de um assunto a outro, tentando não perder de vista o fio que os liga. É que escrevi esse artigo logo depois do desastre, com pressa e com pena. Um abraço, Marcos

  5. Silvio Falcão Says:

    Marcos, parabéns pelo artigo, as suas palavras exprimem exatamente os sentimentos contidos naqueles que aprederam a amar o Rio de Janeiro e sua bela biodivesidade. O preço cobrado pela negligência, sempre será lamentavelmente a vida ou os bens de alguém, quando não, de muitos.

    Falcão

  6. André Says:

    Prezado Marcos,

    Além de Angra, cujo desastre foi tão completo que até algumas autoridades parecem ter despertado para o fato da cidade ter vendido seu maior patrimônio, o cênico,me preocupa agora a pequena Paraty, tão isolada em sua fama, que nem percebe que está seguindo os mesmo passos.

    André

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