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A mata atlântica passeou por Viena

qui, dez 31, 2009

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A Rio Paca Grande, Bocaina_0038

Este aprendiz de blogueiro está lhes devendo uma explicação. Em dezembro, assim que saíram a primeira versão dessas páginas – na verdade, preâmbulos on-line do livro sobre o Parque Nacional do Iguaçu, que sairá desta incubadeira ao longo de 2010 – os ensaios do blog entraram na muda. Longa muda, e fora de época. Passaram três semanas em silêncio.

Isso deve ser pecado grave, na cartilha blogueiros. Mas esta é uma tentativa tardia de dividir a culpa com a montagem de uma exposição de fotografias de natureza no MOYA, um museu de Viena onde a Embaixada do Brasil quis mostrar aos europeus em dezembro, com pouco texto e muita imagem, que a mata atlântica, por mais depredada que esteja, ainda guarda esplendores naturais que valem uma visita. Fui lá para isso. E a minha inexperiência no ramo fez o resto.

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A idéia era mostrar que, se a mata atlântica lamentavelmente encolheu, nunca foi tão fácil visitá-la. E visitá-l, mesmo com a curiosidadedos leigos, é o primeiro passo para defender o que dela sobrou. Reduzida a fragmentos muitas vezes irrisórios, que se pode atravessar a pé num curto dia de marcha, e cercada em todos os lados por cidades de médio ou grande porte onde se empilham mais de 100 milhões de brasileiros, ela acabou empurrada novamente para mais perto do cotidiano de qualquer pessoa que, no Brasil, se interesse por conhecê-la em pessoa. E, nesses casos, que for a seu encontro verá que ela está viva e vibrante, apesar de tudo. Quem quiser dar uma olhada virtual em amostras do que foi a exposição, clique aqui.

A mostra foi um pequeno tributo à perseverança da natureza, que salvou da perda total e irremediável um patrimônio brasileiro que, desde a noite dos tempos, deu ao país o nome e a identidade que o Brasil conserva até hoje, mesmo perdendo a maior parte da floresta. É quase como se, nesses quinhentos e tantos anos de desperdício, a mata atlântica tivesse dado a volta em seu destino trágico.

Não é mais nem sombra daquela incomensurável “estufa selvagem, desordenada e luxuriante”, que Charles Darwin visitou no Primeiro Império, com o Beagle ancorado no porto do Rio de Janeiro. Uma das expedições de Darwin que marcaram para sempre sua lembrança do Brasil foi às encostas da Gávea – onde, por sinal, matou um macaco e aprendeu que, aqui, quando a caça ficava presa em galhos muitos altos, derrubava-se a árvore inteira como recolhê-la.

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Pouco resta hoje aquela floresta contínua que, aos olhos dos europeus, fossem eles colonizadores ou visitantes, manteve as portas do sertão bravio fechadas a poucos passos das praias nesta parte do Novo Mundo. A floresta sem fim foi cassada, cortada, queimada e riscada do mapa em 93% de sua extensão original. Mas o que ficou é um tesouro, tornado ainda mais precioso pela raridade que conquistou sem querer e artificialmente.

Ninguém descreveu melhor esse reatalhamento do que a primatóloga americana Karen Strier, ao estudar os muriquis de Caratinga, em Minas Gerais, confinados nas reservas florestais que providencialmente o fazendeiro Feliciano Abdalla resolveu conservar para os macacos. Strier chegou aqui convencida de que estaria embrenhada na selva. Mas um dia chegou ao topo de um morro de 700 metros. E o que avistou dali ensinou-lhe que aquela floresta era importante exatamente por ser minúscula.

“Além dela, para todos todos os lados, a floresta terminava bruscamente, substituída por uma paisagem árida e erodida”, ela escreveu en seu livro – belo livro, por sinal – Faces in the Forest. “A floresta era uma ilha, rica de vidas desconhecidas, por estudar, incrivelmente belas”. O resto, era o deserto penosamente construído pelo engenho humano.

E  Feliz Ano Novo!

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