Toda atenção à moldura dos saltos
qua, dez 30, 2009
Este blog nasceu de uma aposta arriscada. Apostou tudo na floresta que é parte inseparável das cataratas no Parque Nacional do Iguaçu, mas nem sempre recebe a atenção que merece. Ela não é mais, nem pode ser, a primeira coisa que chama a atenção dos visitantes, a não ser que eles venham predispostos a admirá-la por algum interesse específico ou pela pesquisa botânica.
O que leva mais de um milhão de turtistas por ano a Foz do Iguaçu é o espetáculo das cachoeiras. E, em sua presença, as águas caem sobre todos os sentidos ao mesmo tempo como uma cortina de fumaça liquefeita. Não sobra espanto para mais nada. Mas este blog – que, no fundo, é o esboço de um livro, chocado por ensaios e erros ao longo de 2010 aqui nestas páginas – pretende mostrar, com fotografias e palavras, que muitas vezes compensa olhar para os lados, mesmo quando se tem pela frente as quedas do Iguaçu.
Em torno delas um parque nacional – ou dois, contando com o do lado argentino – que as cachoeiras, com sua estrondosa eloqüência natural, ao mesmo tempo protegem e escondem. Os parques e as cataratas são unha e carne. Sem os parques, as cataratas não seriam hoje mais do que uma sombra do que já foram. E, sem as cataratas, os parques nem estariam ali, numa fronteira de onde a vegetação original, sobretudo na margem brasileira, foi arrasada em poucos anos pela corrida migratória que ocupou há cerca de meio século o sertão paranaense.
Nos parques estão as florestas tropicais que sobraram da febre colonizadora. Hoje, com aviões comerciais pousando várias vezes por dia praticamente ao lado das cataratas e uma estrada de asfalto depositando turistas na boca das picadas pavimentadas nos circuitos panorâmicos, a maiora das pessoas atravessa a mata que estofa as cachoeiras praticamente sem enxergá-la – exceto pela aparição de enxames de borboletas coloridas, bandos de quatís ou os sinais vermelhos que assinalam na folhagem a presença de tucanos.
O resto, é uma barreira de verde indistinto, como costumam ser as florestas tropicais para mateiros de primeira viagem. Sem ver a floresta, ele mal se dá conta de quanto deve ao parque nacional pelo que está vendo – exceto, talvez, ao pagar o ingresso na portaria. Dali para a frente, a mata passa correndo pelo acostamento, apesar dos limites de velocidade vigentes na rodovia federal que leva ao cânion do rio Iguaçu. E o parque se resume a um conjunto de restrições e regulamentos.
Nem sempe foi assim. Antes do parque, das estradas e das viagens aéreas, durante muito tempo os pioneiros chegaram a Iguaçu passando orbigatoriamente pela floresta. E ela se impunha como parte da experiência e das lembranças que traziam de lá. Tratava-se, afinal, de “uma longa travessia por lugares que só admitem o passo do animal meticuloso cuidado em evitar o resvalo no abismo”, escreveu um deles, o paranaense Silveira Netto, que em 1905 instalou em Foz do Iguaçu para o Ministério da Fazenda o primeiro posto fiscal – ou seja, “Mesa de Renda”- da cidade.
Antes de chegar às cataratas, Silveira Netto fala longamente da “mata e solidão em meio a uma flora requintada em exuberância e coloridos, e uma fauna variada e rica, do inseto ao pássaro”. Varavam-se através da selva, naquele tempo, 67 léguas – ou quase 450 quilômetros – de Guarapuava a Foz do Iguaçu.
E concluiu que “o viajante que penetra aquela viçosa e secular floresta verá surpreso erguer-se por todos os lados” uma paisagem onde mesmo o olhar mais treinado pode ser perder em detalhes, como se estivesse folhendo uma enciclopédia de botânica tropical ao vivo e em cores.
Os registros do século passado falam de um tempo que ficou rapidamente distante, quando o interior do Paraná tinha 80 milhões de araucárias e a trilha para Foz do Iguaçu serpenteava entre perobas, “cujo diâmetro atinge dois metros” e em quantidade tamanha que, supunha-se, seria “o futuro de nossos estaleiros naquele porto”, quando o país aprendesse a aproveitar sua madeira “cor de rosa, flexível e dútil”, capaz de se prestar “a qualquer tipo de construção”.
O percuro era pontuado por ipês, “que na primavera enche as encostas com suas flores purpurinas”, alecrins, tajubas, guajuviras, louros e cabreúvas, “De um perfume sueva na casca e cerne também, cheiroso”. Para comer, não faltavam frutas silvestres – como genipapo, araçá, jaboticaba e mamão. Tudo isso incorporado à memória dos forasteiros.
Iguaçu começava a entrar, atrasada mas cheia de pressa, no circuito turístico nacional e internacional. Quando Silveira Netto chegou à cidade, o antigo posto militarde fronteira não passava de 2 mil habitantes. Seu núcleo urbano se resumia a cinco prédios federais, dois estaduais e 244 casas. Sua frota inteira não passava de nove automóveis, 19 caminhões e 206 carroças.
Situada ao lado de um tesouro, vivia da fabricação de móveis, aguardentes e rapaduras. Para transporte, dependia do rio Paraná, cuja navegação fluvial, que era o caminho mais confortável até para os curitibanos que, nas estações das chuvas, para ir a Foz do Iguaçu davam a volta por Buenos Aires, estava entregue aos argentinos – principalmente, à companhia Milnovich Ltda. Seu vapor, segundo Silveira Netto, “sobe o rio em 12 horas e desce em 7”.
Como todo mundo, na época, ele achou que o futuro da região estava na economia madeireira. Mas não naquilo que ocorria diante de seus olhos, com a madeira nativa dominada pelo contrabando, como verdadeiro monopólio argentino e paraguaio. “Não que devêssemos conservar a selva intengível, como recanto sagrado, impenetrável nos seus recônditos, para o gozo platônico do viandante e para documento virgem da colossal e decantada riqueza natural do Brasil”, ele escreveu num relatório que virou livro, Do Guaira aos Saltos do Iguaçu.
Pregava um sistema de “aproveitamento metódico” que tivesse “cuidado no corte, com a época própria, a escolha das zonas a serem exploradas”, evitando “desarborizar por completo determinados pontos”. Mas assitiu a uma “larga e anárquica devastação que tem lavrado na floresta pelos exportadores de madeira”. Isso numa região que continuava praticamente despovoada.
No livro de Silveira Netto, Os Saltos do Iguaçu formam um capítulo à parte, que só aparecem na página 81. E mesmo assim o mato continuava a lhe barrar a entrada até as portas da Garganta do Diabo. “Munidos de farnel e preparos de pouso, cavalgamos nossos animais, na sede da antiga Colônia do Iguaçu, e partimos por ínvios atalhos, florestas adentro, dorso curvado para evitar o galho pendente ou o espinheiro agressivo da picada”, ele relata.

Na borda do cânion, depois de vadear o rio São João, “o cenário ainda era a floresta. Compacta, umbrosa, e, variegada gama da cor verde, em nunaças de coloridos diveros, como enorme palheta primaveril, coroada de flores e frutos”. Nas clareiras, encontrava “de quando em quando, borboletas de colorações admiráveis, lindas flores aladas”. Os troncos de peroba, cedro, carvalho formavam “colunas possantes de uma arquitetura não sonhada”.
E, antes de avistar as cataratas, ele as ouviu, na forma de “um sussurro contínuo e bárbaro acordando o silêncio da mata, invadindo a floresta, cheio e grave, apavorando-nos o ouvido pelos sombrios meadros da selva”. Os mateiros lhe explicaram que se tratava do ronco da água. “E estávamos ainda a três quilômetros das cachoeiras”.
Só lá pelo meio da página 86 Silveira Netto começa a descrever as cataratas. E, mesmo assim, jamais perde de vista a moldura vegetal que compõe a paisagem. “Desde a margem do rio, a floresta inicia, do arbusto ao arvoredo possante, a guarda selvática daquele esplendor catedralesco de pedras e vagalhões”. Insiste que “a flora acolita a celebração das águas”.
Tratava-se de “árvores altaneiras, de gossos troncos, sob copas frondosas, de copas recurvadas ao peso do umbroso folhame, onde se acoitam o jaguar e o lobo, zumbe o inseto e gorgeia a passarada”, sob “o cipoal pendente, lianas que se enroscam na ramada florida”, além de “begônias olorosas, palmeiras em fila, aristocráticas e lindas”.
A floresta, para quem, como ele, chegava através dela para admirar as cachoeiras”, era “como um templo”, onde os saltos ocupavam o altar. O visitante ganhou muito, em Foz do Iguaçu, com a universalização do acesso aos serviços turísticos. Sobretudo, ganhou tempo, encurtando a viagem. Mas perdeu o vagar para ver com calma o conjunto natural das Cataratas.
Hoje elas podem ser percorridas numa trilha calçada de um quilômetro e meio, contados todos os pequenos desvios e belvederes do trajeto. A maioria dos turistas cobre a distância em marcha batida, reduzindo o passeio a menos de uma hora. E uma das ambições deste blog é recuperar os detalhes que vão ficando pelo caminho. Mesmo que às vezes isso implique ficar de costas para uma das maravilhas naturais do planeta. E sim para ignorá-las. Mas para vê-las melhor.










janeiro 27th, 2010 at 22:51
Bem, Marcos, será um prazer tentar te mostrar um pouco desse Parque que faz parte incondicional da minha vida. Tentarei ser um pocuo guia, aluno e admirador de seu trabalho. Espero estar em melhor forma da próxima vez que embrermamos na mata junto com o Apolonio, e os mateiros como aconteceu no último dia 26 para conhecer as cachoeiras do Rio Azul, na parte intangível da Floresta do Iguaçu. A aventura apenas começou!
janeiro 27th, 2010 at 23:26
Bem, Adílson, se meu curso de Iguaçu for todo na base da aula de campo que você deu esta semana, sairei daqui um mateiro diplomado. Abraço e obrigado. Marcps