Grandes assuntos em miniatura
seg, dez 28, 2009
Tantos anos depois, a fotografia do sapo laranja ainda tem cheiro de mato. É o bafo de Itatiaia, que invariavelmente me traz de volta sua imagem, cada vez que a câmera se aproxima da mistura inconfundível de terra molhada com o rastro de animais notívagos e o hálito que têm as plantas ao acordar. São coisas que o filme não vê, mas a memória deve ter gravado no momento em que o visor encostou os outros sentidos no chão coalhado de folhas secas, sementes germinando e madeiras em decomposição. Lá embaixo, diante de criaturas que normalmente convivem com nossos pés, a fotografia é um mergulho em apnéia. Aperta-se o disparador com a respiração suspensa, descendo a uma dimensão onde a mata inteira se condensa em seus menores fragmentos. O tempo ali se mede em milésimos de segundo. O infinito é o ponto onde as todas as formas se desmancham numa bruma desfocada, a poucos centímetros da lente de aproximação. Ao respirar novamente, o ar da montanha tinha colado na lembrança do sapo.

Não era um sapo comum. Nem poderia ser porque, depois de conhecê-lo, nunca mais vi um sapo que pudesse chamar de comum, sem olhar duas vezes. À primeira vista, tinha de especial a cor de tangerina madura e o corpo minúsculo, do tamanho de um polegar. E uma voz que os manuais sobre anfíbios chamam de “débil trilo”. Mas se revelou um mímico prodigioso e, de nós dois, era ele quem sabia com precisão o que se deve fazer para fotografar um sapo que só tem dois centímetros de comprimento. Sendo calmo e obstinado, sua opinião prevaleceu, provando que animal nenhum, por ínfimo que seja, merece acabar os dias empalhado num retângulo de celulóide, como se estivesse posando para a posteridade na mesa de um taxidermista. Estando vivo, se mexe. Mexendo, gesticula. Gesticulando, abre o fosso incomensurável entre o registro genérico da espécie e o retrato de uma personalidade indivisível.
Em outras palavras, ele exigiu que, para fotografá-lo, eu me comportasse como retratista. Paciente e bajulador como todo profissional da vaidade alheia. Disposto a esperar tranqüilamente pelo alinhamento da melhor expressão com o ângulo mais lisonjeiro, um ateliê sombrio que funcionava na incômoda vizinhança do chão viscoso. Foi assim que esta história – e uma queda incurável pela macrofotografia, quando se trata de natureza – saiu da cabeça do sapo.
No dia em que ele me atravessou o caminho, andávamos os dois um tanto fora dos limites que nos foram consignados no Parque Nacional do Itatiaia. Eu havia ultrapassado o letreiro de propriedade privada na porteira de um terreno que, tendo mudado muito de mãos, nunca mudou de nome. Continua sendo o sítio da Viúva Hansen. E o sapo, um anfíbio tropical, legítimo anão da floresta, cruzava naquele janeiro particularmente encharcado o pinheiral que em outros tempos tentou fincar um bosque europeu na serra da Mantiqueira.
As marcas de pedra e cal que os antigos proprietários puseram em Itatiaia sumiram há muitos anos na vegetação nativa. No lugar da casa, as paredes ruíram, o piso de ladrilhos afundou no tapete de ervas bravas e as fundações se vestiram de samambaias. A piscina continua lá. Mas está seca. Nos carnavais dos anos 40, pulava-se em suas águas para dissolver as fantasias de papel. O fundo rachado se cobriu se de um limo tão espesso, que no concreto aveludado brotam moitas de maria-sem-vergonha e frutas silvestres. No barranco, a rampa de lubrificação, que suspendia automóveis para limpar a lama da viagem, flutua em trepadeiras floridas.
De pé, ficaram os mourões da cerca desabada, pendurando no ar dobradiças de ferro batido, cravadas em tijolos compactos. Apesar da ferrugem e do desuso, ainda se dobram ao menor empurrão, lembrando que tudo ali foi construído com o propósito de durar para sempre, entre chuvas torrenciais, carunchos e fungos. Da sólida arquitetura dos Hansen, salvou-se principalmente o bosque civilizado e ordeiro, plantado no coração descompassado da selva brasileira. Margeando a estrada com troncos espetados a prumo em covas regulares, os ciprestes têm ritmo e estatura de catedral. Nas retas, parecem uma nave banhada pela luz que desce filtrada do vitral de folhas. Nas curvas, o deambulatório de um coro de igreja, com as cascas esculpidas pelo baixo-revelo da crosta de musgo.
O velho pinheiral está melhor do que nunca. Juntou o passado com o futuro, desde que a mata atlântica invadiu todas as frestas da alameda. A capoeira ocupou o antigo jardim com imbaúbas, ipês brancos, quaresmeiras, araçás, assa-peixes, acácias, bambus, cipós, bromélias, avencas, begônias e o carrascal de flores rasteiras. Atrás da infantaria vegetal, vieram macacos, tatus, cobras, caxinguelês, lagartos, jacus e o sapo desta história.
Ele tem porte insignificante e nome imponente. Chama-se na intimidade – ou seja, com nome e sobrenome em latim, como exige a intimidade com essas coisas da natureza – Brachycephalus ephippium Spix. Portanto, é um sapo de cabeça chata e ligeiramente corcunda. Mas, no quem-é-quem da fauna e da flora brasileira, o Spix que ele carrega é quase um título de nobreza. Sugere que, por linhas tortas, ele descende do casamento de Dom Pedro, futuro imperador do Brasil, com Dona Leopoldina. A arquiduquesa trouxe da Áustria para a corte do noivo, como parte do dote, um suntuoso cortejo de cientistas. E no séquito embarcaram na última hora, rumo aos trópicos selvagens que se abriam à curiosidade européia com três séculos de atraso, o botânico Carl von Martius, do Jardim Botânico de Munique, e o médico Johann Baptist von Spix, da Real Academia de Ciências da Baviera. Aqui, livres de compromissos oficiais e zanzando do Rio de Janeiro a Goiás, Spix e Martius formaram nossa primeira dupla sertaneja, a que cantou na Europa o paraíso terrestre que os portugueses haviam procurado em vão no descobrimento.
Na cartografia quinhentista, o Jardim do Éden ficava mais ou menos deste lado do planeta. Em 1502, o navegador Américo Vespúcio achou que o avistara de relance na entrada da baía de Guanabara. Quatro anos depois, o jesuíta Rui Pereota, mais vago e cauteloso, sugeriu que ele devia estar por aqui, se é que existia mesmo. Foi preciso mais de um século para que outro jesuíta, o padre Simão de Vasconcellos, tentasse localizá-lo com certo esforço investigativo. Numa época em que a credulidade dos navegadores e o encanto pelo Novo Mundo murchavam na Europa, ele foi buscá-lo em peregrinações pelo interior do Brasil, caminhando pelas “matas léguas inteiras, à sombra sempre, sem vista do Sol” ( ). Vasconcellos foi duplamente anacrônico. A Chronica que ele fez na Bahia no século XVII saiu tarde demais para reavivar o interesse pelo paraíso na terra e quase cem anos antes da invenção do instrumento que daria aos naturalistas a chave do tal jardim das delícias.
Faltava-lhe o método de classificação inventado em 1735 pelo sueco Carlos Lineu, que beatificaria a devoção humana por assuntos concretos. A taxionomia de Lineu não deixava de ser uma escada para o céu. Por ela, denominando com rigor os achados minerais e biológicos, catalogavam-se as espécies. Com as espécies classificadas, compunham-se gêneros. Os gêneros geravam famílias. As famílias se congregavam em ordens. E assim, empilhando uma a uma as minúcias da grandeza cósmica, alcançava-se lá no alto o plano geral da natureza, de onde era possível contemplar o vasto conjunto da Criação de uma perspectiva antes reservada aos olhos de Deus.
Pregado por seus apóstolos, que se espalharam pelos quatro cantos da terra batizando bichos, plantas e rochas, esse evangelho de Lineu permitiu que, três séculos depois da chegada de Pedro Álvares Cabral, o Brasil fosse descoberto de novo, e melhor do que antes. Dessa vez, os naturalistas do Iluminismo sabiam onde procurar o paraíso perdido. Ele não se escondia, como supunham os colonizadores, atrás das florestas que barravam o litoral português, afastando da praia as miragens andinas onde a América guardara para os espanhóis montanhas mitológicas de ouro e prata. O Éden, para a geração de Spix, era a própria floresta.
Começou assim a romaria científica à mata atlântica, onde Spix achou em 1824 o Brachycephalus ephippium. Trata-se de um sapo dourado. Senão exatamente dourado, como prometem as variações de seu nome vulgar, que o chamam de Pingo de Ouro, Sapinho Dourado e outros apelidos crisomaníacos, pelo menos de uma cor incendiária, variando do amarelo gema-de-ovo ao abóbora quase luminescente. Sem esse laranja berrante, seria um animal insignificante. Tem talhe de inseto. Não pula. Caminha com gravidade desproporcional a seu porte físico, sobre patas quase invisíveis, reduzidos a dois dedos funcionais nas mãos e três nos pés. Vê-lo é relativamente simples, principalmente nos meses quentes de chuva, quando costuma atravessar picadas como se confiasse no colorido vistoso para não ser atropelado por botas de caminhada. Apanhá-lo, nem tanto. Se lhe dispensam atenção excessiva, com meia dúzia de passos ele se enfia em túneis inesperados e desaparece no labirinto secreto da serapilheira. Tem a autoconfiança de quem veio ao mundo marcado por um estigma de advertência. Para predadores e zoólogos, sua cor funciona como letreiro: “Atenção, veneno”.
O funcionamento dessa toxina fascinou há mais de 30 anos o biólogo Elio Gouvea que, como o próprio Brachycephalus ephippium, pertencia a uma espécie que existe, sim, mas raramente se encontra fora de Itatiaia. Ele entrou em 1944 para o serviço do parque nacional, com um diploma de horticultura e um contrato para trabalhar na administração como “auxiliar de agronomia”. Era funcionário subalterno, pau para toda obra. Cinqüenta e cinco anos depois, sem arredar muito o pé daquelas montanhas, trazia no currículo mais de vinte títulos universitários, 24 pesquisas publicadas e o nome imortalizado pela Hyla gouveai, perereca que nos anos 90 enriqueceu a vasta família de anfíbios locais.
Tamanha era sua reputação de taxidermista, que ao buscar, já adulto, um diploma de ensino superior na universidade de Barra Mansa, o centro de ciências naturais mais próximo do parque, abriram-lhe ao mesmo tempo uma vaga de aluno e outra de professor no curso de Biologia. Ensinava os colegas a empalhar animais enquanto ia se formando. Entrou para o circuito acadêmico sem perder o jeito de caboclo modesto. Tinha a urbanidade inimitável das pessoas que se educaram no mato, onde as normas de conduta são mais estritas do que nos manuais de boas maneiras. Falava sempre baixo, como se até num saguão de hotel sua voz pudesse sobressaltar lá fora ouvidos ariscos que só ele identificava.
Discreto, sua Nota prévia sobre a ontogênese do Brachycephalus ephippium Spix, apresentada em 1981 no VII Congresso Brasileiro de Zoologia, não dá a menor pista do quanto custou apurá-la, tanto ao autor quanto ao sapo. Para estudá-lo, Gouvea improvisou um laboratório à beira de uma represa abandonada, cavando uma galeria subterrânea para desova das cobaias monitorada por aparelhos de medição. Durante várias semanas, era preciso verificar três vezes ao dia, em horários precisos, as condições de umidade do ar, temperatura e velocidade do vento. Dividiu a tarefa com seu auxiliar-de-campo, o guarda-parque Marcos Botelho que, mais moço, oferecera-se como voluntário para o turno da noite. Botelho estava recém-casado. Durante 45 noites, a começar pelas da lua-de-mel, saía da cama às três da manhã para recolher os dados meteorológicos sobre a reprodução do sapo.
O animal também precisou fazer sacrifícios pela ciência. Como não aparecessem no mato predadores naturais para testar o veneno, Gouvea levou-o para casa e soltou-o no galinheiro. Nada. As galinhas ciscavam a seu redor, sem bicá-lo. O sapinho teve que passar pelo liquidificador, transformando-se em ração para aves, para provar que era mesmo venenoso. O método lhe parece drástico demais? Antes de torcer o nariz para a experiência, convém lembrar que a preservação da natureza deve muito a gente como Elio Gouvea, que não recuava diante de contratempos como esse. Setentão, convalescendo de dois derrames, ele ainda subia ao Planalto das Agulhas Negras, para estudar pássaros a mais de 2.500 metros de altitude. Dias antes de morrer, internado para uma cirurgia na aorta, concebeu o projeto de filmar o Centro de Terapia Intensiva do Hospital Samaritano de São Paulo. Vendo-o por dentro, ocorrera-lhe que o documentário seria útil aos alunos de enfermagem em Barra Mansa.
O Brachycephalus ephippium é um bicho que não pode faltar numa coleção da fauna de Itatiaia. Não por ser endêmico, como acontece com o Melanophryniscus moreirae, um anuro de dorso escuro e barriga vermelha que pastoreia formigas no capinzal das Agulhas Negras. Mas é ao exemplar laranja, mais fotogênico, que se refere a pergunta inevitável: “Já fez o sapinho?” Fazê-lo significa encaixar um corpo de 20 milímetros num quadrilátero de filme com 36 milímetros de comprimento. Com essas proporções, produz-se uma fotografia em tamanho natural numa câmera de 35 milímetros, a bitola mais usada nesse tipo de imagem. Em teoria, sobram oito milímetros de espaço para cada lado do sapo. Na prática, ao transpor esses umbrais, as medidas do cotidiano perdem seu valor de referência e o mundo se expande diante das lentes. É por isso que a fotografia do que é muito pequeno leva o prefixo macro, e não micro, como recomendaria o senso-comum.
“Uma das maravilhas da macro-fotografia bem feita é que nela se esquece o tamanho original do objeto”, diz o americano Mark Moffett, especialista em ilustrar reportagens para a National Geographic com imagens apanhadas na fronteira do olho humano. A vida íntima de pulgões sul-africanos, por exemplo. Visto assim, “o besouro pequeno pode ser mais imponente do que o grande” ( ). Moffet conta que seu primeiro trabalho, com formigas que capturavam uma presa, impressionou uma editora da revista: “Ela exclamou que as cenas lhe recordavam o filme O Exterminador, embora as formigas que se debruçavam sobre a vítima em minhas imagens tivessem apenas alguns milímetros de estatura”.
O sapo nanico parecia saber disso e veio resolvido a tirar o maior proveito possível dos momentos que passaríamos juntos. Entrou no estúdio, um pedaço de tronco podre de onde emergiam dois cogumelos, com desenvoltura de modelo profissional. Fez a ronda completa do cenário, como se inspecionasse o serviço da produção. E não se intimidou com o aparato armado à sua frente. Naquela instante se inclinava sobre ele, a dez centímetros de distância, uma objetiva de 105 milímetros, cujo diâmetro tinha o dobro de seu corpo. Ao lado, dois flashs, tão próximos que os refletores de plástico, com 180 milímetros quadrados, formavam enormes painéis de difusão. Estava prestes a ser inundado por raios de luz paralisante. A 20 ou 30 milésimos de segundo, tempo muito mais rápido que o do obturador, a claridade dos flashs congela qualquer movimento. Atrás, havia o tripé, achatado no chão como um polvo metálico. Longas espirais de fios negros ligavam um flash ao outro e os dois juntos ao disparador da máquina fotográfica. Ao fundo, o responsável por toda a mixórdia se acocorava atrás da máquina. Tudo isso ele enfrentou com a naturalidade de quem na vida nunca havia feito outra coisa.
Havia à sua disposição mais de um caminho para fugir. Ele optou pelo mais difícil. Circulando pelo tronco, interessou-se por um graveto escorado na borda de um dos cogumelos. Testou-o bem e, pelo visto convencido de que era estável e confiável, resolveu usá-lo como pinguela. Atracou-se à vareta com uma garra imprópria para um sapo, como se fosse uma perereca, sua contra-parente arborícola, que tem ventosas nos dedos e tradições grimpantes. Escalou a madeira com audácia e prudência, como faria um montanhista experiente subindo, por exemplo, nas Agulhas Negras o ponto culminante do parque. Ou melhor, nas Prateleiras, que embora 248 metros mais baixas, têm paredes mais adequadas a exibições de escaladada técnica. Levou naquilo um tempão. Ou o que pareceu um tempão na vida de um sapinho. Até que, estica daqui, escorrega de lá, firmou a mão atrofiada numa agarra mais sólida da calota visguenta. Segundos depois, estava encarapitado no cogumelo e tinha um grave problema diante do nariz.
Mal comparando, estava na mesma situação do pioneiro José Franklin da Silva, que em 1856 subiu as Agulhas Negras sem ter a mais pálida idéia do que o aguardava lá em cima. Para quem chega ao topo pelo caminho natural, o pico está sempre dois precipícios adiante, isolado na pedra do Itatiaiaçu a 2.787 metros de altitude. José Franklin deu ali mesmo a tarefa por concluída e deixou o Itatiaiaçu esperando 69 anos pelos alpinistas Carlos Sperling e Osvaldo Leal, que terminaram o serviço em 19 de dezembro de 1919. Quase todo principiante, quando sobe as Agulhas pela primeira vez, enfrenta o embaraço de decidir se faz a última etapa, completando a travessia até o livro de cume, guardado numa caixa de aço inoxidável a metros de distância. Era, guardadas as proporções, o mesmo dilema do sapo. Trepado no cogumelo menor, podia agora ver à sua frente uma linha de cordilheira, emendando os que lá embaixo os talos separaravam. O segundo cogumelo, como um Itatiaiaçu abaulado, era mais alto que o primeiro.
Ao contrário de José Franklin da Silva, ele não teve dúvidas. Atacou imediatamente o trecho final, até ser saudado no cume pela explosão de flashes. Comportou como veterano. Fotografada a conquista, deu meia volta e desceu. Tinha subido a passeio. Para quê? Isso ele não esclareceu. Outra testemunha de sua proeza talvez pudesse lhe arrancar uma explicação para tamanho esforço gratuito, com ou sem a ajuda do liquidificador. Mas a fotografia não chega a tais extremos. Contenta-se com as aparências. E pode aceitar que um sapo, para vencer um cogumelo, tenha os mesmos motivos que arrastaram o explorador George Mallory a perder a vida no Everest. Por que ele tinha que enfrentar a montanha? “Porque ela está lá”, Mallory respondeu.
Mesmo sem se explicar, o sapo mudou para sempre meu modo de fotografar animais pequenos. São criaturas que nos habituamos a ver boiando em vidros ou alfinetadas em coleções. E não esperamos muito de sua fotogenia. Mas vê-lo atuar diante da lente foi como abrir pela primeira vez o livro em que o fotógrafo Frans Lanting retratou animais selvagens como se eles tivessem mais a mostrar do que a mera ostentação de sua ferocidade. “Olho no olho”, diz o título em inglês. Em cada página, um bicho nos encara como estivesse folheando, do lado de lá, um livro sobre o comportamento humano. Onde havia focinhos, cada animal mostra a cara. Lanting, um economista holandês que largou antes de começar a carreira no Banco Mundial e nunca mais olhou para trás, juntou essa galeria viajando pelos ermos do planeta durante mais de vinte anos. E resumiu a experiência num parágrafo: “Quanto me perguntam sobre os métodos que eu uso para fotografar a vida selvagem, quase sempre minhas respostas são no fundo pouco fotográficas. Isso por achar que na fotografia de natureza – certamente na maneira como eu a pratico – os detalhes fotográficos são apenas a ponta do iceberg”.
Com a fórmula de Lanting e o estímulo do sapo, colecionar imagens de insetos e outros anões que animam as matas de Itatiaia foi um exercício de paciência. Com mais tempo do que técnica, mais atenção do que equipamento, fotografar com lentes de aproximação ficou mais simples para mim e mais complicado para eles. Minha parte era tirar do meio do caminho os sinais de pressa que nesses casos denunciam a pressa do fotógrafo muito mais que a urgência do fotografado. Às vezes, o momento mais difícil de sua execução é a hora de se estirar na lama. Sintomas como o foco curto demais, que desmancha extremidades anatômicas e produz olhos nítidos com antenas enevoadas, ou antenas sem palpos, palpos sem mandíbulas, toda a série de mutilações que extraem da cabeça de um inseto qualquer faísca de fisionomia. O flash na distância errada, fonte de uma luz direcional parece varrer uma sala de interrogatório. O hábito de enquadrá-los de cima para baixo, que é bom para os joelhos do fotógrafos mas impede que a vítima nos olhe de frente. A macro-fotografia não é bicho de sete cabeças, embora tenda a ser um bicho de seis ou oito pernas que gesticulam em alta velocidade e saem do enquadramento nujm piscar de olhos. Mas é assim que os pequenos animais se tornam simpáticos e, com eles, toda a floresta brasileira.
Agachar-se diante de insetos deu fama de excêntrico e celebridade póstuma ao francês Jean-Henri Fabre, pioneiro da observação direta na entomologia. Foi ele quem no fim do século XIX descobriu o olfato das mariposas, depois que machos alados invadiram à noite sua casa em Serignan, na Provença, atraídos por uma fêmea aprisionada numa campânula de vidro. Hermeticamente trancada no gineceu de vidro, ela continuava a atraí-los. Como? Fabre gastou três anos atrás da resposta. No processo, notou que as longas antenas felpudas das mariposas são, além de sensores táteis, narizes de espantosa acuidade, capazes de farejar a dois quilômetros de distância, mesmo contra o vento, a fêmea seqüestrada numa gaveta, entre bolas de naftalina. Verificando os elos dessa corrente de sedução, Fabre amputou muita antena, com a mesma obsessão apaixonada que o impelia a atirar gafanhotos contra teias de aranha e a promover lutas-livres entre categorias diferentes de insetos peçonhentos.
Era um autodidata de origem humilde, magro, miúdo e encrenqueiro. De seu canto no sul da França, produziu livros que o poeta belga Maurice Maeterlinck – rapsodo de abelhas, formigas e cupins – cotou entre as maiores obras literárias do século XIX ( ). Suas histórias de caçadas, contadas do ponto de vista das tarântulas, são clássicos das narrativas de aventura. Hoje, sua casa, seu jardim e sua coleção particular integram o acervo do museu francês de História Natural, incluindo as receitas originais de Fabre para a promoção dos insetos a objetos de culto gastronômico. Isso mesmo. Ele comia insetos. E os comia entusiasticamente. Além de comê-los, servia-os aos amigos e pregava aos desconhecidos, em artigos temperados por farta citação dos antecedentes históricos, o renascimento de uma arte que, a seu ver, a civilização ocidental perdera no sótão das tradições helênicas. Suas Recordações Entomológicas descrevem com verve científica e erudição culinária um banquete campestre de cossus, larva desentranhada dos troncos de carvalho. No panfleto sobre o Gosto Delicioso das Cigarras, insiste nos “benefícios terapêuticos” da iguaria e sugere um prato que agradaria a gregos e troianos: “O preparo é dos mais simples, a fim de alterar o menos possível este sabor que se considera requintado: algumas gotas de azeite, uma pitada de sal, um pouco de cebola, eis tudo”.
Melhor fotografá-las. Os insetos devem devem parte da má-fama a nossa repulsa generalizada a tudo que não parece suficientemente antropomórfico. Até aí, é questão de gosto. E cada um pode ficar com o seu. E Fabre com o dele. Mas da repugnância a esses bichos derivam atitudes que são problemas para um parque nacional. Nos hotéis de Itatiaia, a maioria dos hóspedes se queixa dos insetos. Se dependesse de um plebiscito, a montanha provavelmente estaria dedetizada de um lado a outro, com a eventual anistia das borboletas. Cobras são sumariamente executadas sempre que aparecem onde não deveriam. E isso em seu caso pode ser qualquer lugar, como se fossem elas as invasoras do território. A pererecas mais inofensivas justificam cancelamentos de reserva, se resolvem cantar em banheiros.
Para esses e outros casos, a máquina fotográfica é um santo remédio. Ela não corta nem disseca, não mói sapos nem cozinha cigarras, mas permite vê-los com outros olhos, os da câmera. Em close, eles são mais sedutores do que repulsivos. Durante muitas viagens, enquanto este livro tomava forma, mostrei em Itatiaia fotografias das criaturas mais impopulares. No dia seguinte às projeções de slides, dificilmente deixava de encontrar pessoas rondando a orla do mato, procurando sob a folhagem os personagens da véspera, como se visitassem os atores da véspera em seus camarins.
E os insetos têm o que nos dizer? Claro que sim, garantem os biólogos Claude Nuridsany e Marie Pérennou, com o autoridade de quem lhes entregou os papéis principais de Microcosmos. Humano, no filme francês, só o narrador, cuja voz não chega a ocupar o enredo por mais de um minuto. O resto é por conta do elenco que a equipe recrutou num jardim. Segundo os diretores, eles podem não parecer muito comunicativos à primeira vista, encapsulados como estão em seu esqueleto externo. Textualmente, “não revelam facilmente seus estados d´alma”. Mas “a pessoa que é capaz de observar como eles vivem dia a dia pode aprender, com o tempo, a detectar um sinal de expressão pelo movimento das antenas”. Se o bicho está calmo, as antenas repousam. “Mas assim que ele se envolve em alguma tarefa, mexe essas antenas em todas as direções possíveis com agilidade extraordinária”.
E daí? Daí, dizem os documentaristas, que “tocando levemente a borda externa ou interna, o topo, o meio ou a base das antenas de outro inseto em ritmo regular, ele pode transmitir um grande número de sinais diferentes”. Entre vespas, formigas e abelhas, essa manipulação serve para pedir comida. Com tamanha eloqüência que o pesquisador Hubert Montagner, construindo um minúsculo robô que, movido a engrenagens de relógio, mexia sem parar as antenas, conseguiu transformá-lo em mendigo de mel numa colméia. Um inseto também “pode de repente congelar-se no meio de uma ação, esticar-se até onde for possível sobre as pernas e girar as antenas lentamente”. É sinal de alerta. E, se “limpam compulsivamente” as antenas “com um zelo obsessivo”, estão assustados diante de uma situação “estranha a seu modo habitual de vida”.
Mesmo “blindados dos pés à cabeça”, no laboratório eletrônico que usaram para filmá-los os insetos se revelaram “extraordinariamente sensíveis”. E não é para menos. Eles são dotados de sextos, sétimos e oitavos sentidos, um para vibração da natureza. Ouvindo os sinais de ultra-som que os morcegos emitem para localizá-las, as mariposas sustam todos os movimentos. As formigas têm “olfato plástico”. Apalpando um cheiro, sentem-lhe a forma, lendo seu rastro no chão são como pegadas, que podem estar viradas para um lado ou para o outro, indo ou voltando. Há espécies dotadas de sensores para avaliar a umidade do ar e a velocidade do vento. Ou enxergar campos elétricos e magnéticos. Eles voaram antes de todos os outros animais alados e, no ar, percorrem trilhas de luz polarizada. As abelhas, como enxergam em cores que transbordam espectro visível aos olhos humanos, vivem ao nosso lado num mundo paralelo onde uma flor branca em campo verde é uma flor verde-azulada em campo amarelo claro. A visão grande-angular das libélulas, varrendo 360 graus simultaneamente, permite-lhes voar para trás sem perder de vista o que tem à frente. E vvice-versa.
Modéstia à parte, os insetos vivem duas vezes, a primeira como larva, a segunda como adulto. Cada fase é uma existência completa. Foram eles que nos sopraram os mitos de reencarnação. Caminham sobre seis pernas tão bem coordenadas que, no meio do passo, estão firmemente apoiados num tripé. Vê-los se equilibrar no gume de uma folha que o vento balança é um espetáculo acrobático. Têm patas que parecem caixas de ferramentas, munidas de ganchos, cerdas e articulações para ancorá-los nas mais inexplicáveis posturas e superfícies. As borboletas, com paladar seis mil vezes mais acurado que o da língua humana para detectar sabores de açúcar, ao pousar numa flor constatam instantaneamente com a ponta dos tarsos que gosto ela tem. Cigarras e grilos não só cantam, como tocam nos vários instrumentos musicais, distribuídos pelo corpo todo. E dispõem de um repertório que “inclui canções de amor, canções de desafio, canções triunfais e simples canções espontâneas”.
Só faltam falar? Nem isso. O austríaco Karl von Frisch, professor de Zoologia da Universidade de Munique, traduziu há quase um século a linguagem das abelhas, as padroeiras do coletivismo. Ele era um daqueles naturalistas que os colegas lêem para aprender e os leigos, para se divertir. Pesquisava a sério e escrevia como se estivesse brincando. Seu livro sobre a vida e os costumes das abelhas custou-lhe o trabalho de uma vida inteira. Ele prefaciou todas as edições, de 1927 a 1958. Na última, afirma que o editor protestava contra o aumento inevitável do número de páginas a cada reimpressão: “Será que não se pode admitir uma ligeira corpulência em consideração à idade?” No capítulo intitulado Como as abelhas falam, conta, passo a passo, o processo da descoberta.
“Passe um pouco de mel numa folha de papel e espere”, ele começa. “Na maioria das vezes, algumas horas se passam, às vezes mesmo alguns dias, até que uma abelha escoteira apareça por acaso nas redondezas, tenha sua atenção atraída pelo cheiro do mel e se precipite sobre a bênção inesperada”. Como sempre atento aos aspectos laterais da investigação, Frisch não se esquece de anotar nesse parágrafo que a abelha cai sobre a isca “com a maior alegria”. Isso feito, ele assegura que “podemos ter a certeza de que não só aquela abelha voltará ao local, como em poucas horas teremos dezenas ou mesmo centenas de abelhas andando em nossa mesa”.
Como a notícia do achado teria corrido entre as abelhas? Frisch tem uma suspeita: “Tudo indica que a primeira visitante, voltando à colmeia, tenha prestado contas de seu achado de um modo qualquer e trazido as companheiras. Gostaríamos muito de saber como isso se passa”. Duas páginas adiante confirma: “Assim que se desembaraça de sua carga, a provedora começa uma espécie de dança de roda. O bailado se desenvolve no meio da platéia de abelhas e se torna ainda mais emocionante e atraente por ser contagioso. Com efeito, as operárias que estão próximas da bailarina começam a bater os pés atrás dela, esforçando-se para manter as antenas em contato com seu abdome e a segui-la tão bem em suas cabriolas que formam atrás dela uma cauda, repetindo sem cessar seus movimentos frenéticos”. Há uma coreografia para cada dado relevante. É literalmente o mapa da mina.
Essas histórias são velhas. Mas velhas histórias podem acordar adultos como os contos infantis, exatamente por serem conhecidos, adormecem crianças, transformando velhos monstros em seres domésticos. A lente de aproximação tem dois lados. De ambos, cria novas relações entre vizinhos que sempre se estranharam. O louva-deus que nos fitou longamente enquanto a câmera o focalizava nunca mais parecerá o mesmo. Nem o besouro forçado a caminhar de um lado para o outro num galho, para se mover à vontade sem se afastar do plano de foco em que a máquina fotográfica o espreita. Ou a perereca de olho esgazeado, que emerge das folhas da bromélia. E o gafanhoto que limpa a antena amarelada de pólen, como se dedilhasse uma flauta transversa.
Maeterlinck, fã de Fabre, acreditava que bastariam esses achados para pagar “o tempo consagrado ao estudo de seus pequenos gestos e de seus hábitos humildes, tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos de nossas grandes paixões e de nossos destinos orgulhosos”. Mas, como toda relação, essa tem seu preço. É preciso estar disposto a atender uma freguesia que às vezes resolve posar de cabeça para baixo. Ou, sem mais nem menos, tira de repente do estojo de quitina as asas amarfanhadas e, depois de desamassá-las metodicamente à nossa frente, levanta vôo no meio da sessão sem pedir licença. Desconhecidos passarão de repente a depositar em nossa porta jaulas improvisadas em potes de geléia e garrafas vazias, onde prisioneiros claustrofóbicos tateiam sem parar as incompreensíveis paredes de atmosfera sólida que nós chamamos de vidro. Corre-se o risco de fotografar novamente o mesmo bicho, pelo simples entusiasmo de reconhece-lo entre milhares de outros, pelo rasgão na asa ou a o defeito na antena que notamos na sessão passada. E, o que é mais grave, nunca mais se ouvirá impunemente aquele estalo no carro – ploque! – sem pisar automaticamente no freio, na esperança tardia de salvar para a próxima rodada de poses o inseto que se estatelou no pára-brisa. Nesse estágio, a macro-fotografia costuma ser incurável.
Tags: Macrofografia, Parque Nacional






















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